sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Feito homem - a jornada de uma mulher ao universo masculino

 


"Norah Vincent queria saber como realmente é a vida dos homens. Muitas mulheres estão convencidas de que os homens sempre viveram melhor, em todos os sentidos. Para descobrir por si mesma se isto era verdade, e tentar detectar onde falha a percepção comum, ela fez o seguinte: por dezoito meses se disfarçou de homem. Durante este período, Norah vivenciou uma verdadeira experiência antropológica, relatando o que observou incógnita. Com a ajuda de um artista da maquiagem, de um trainer e de um especialista em impostação vocal, ela se infiltrou em espaços e situações que as mulheres nunca viram. Por mais de um ano e meio, aventurou-se no mundo como seu alter ego. Ned, com uma barba sempre por fazer, com o cabelo cortado escovinha, com óculos de aros metálicos e com sapatos do próprio número de Norah, 42 - um disfarce perfeito que permitiu observar e participar do mundo dos homens como se fosse um deles".

 

    Essa é a experiência de viver um outro gênero. Uma experiência que durou 1 ano e meio e trouxe tanto revelações à autora, lésbica, como também uma depressão da qual ela não conseguiu se livrar até que realizou um suicídio assistido.

 

    Sete anos antes de publicar esse livro, houve a primeira experiência de troca de identidade, mas essa curta experiência não foi adiante. Fora algo bem informal e despretensioso. Contudo, foi o suficiente para a autora querer ampliar o que viveu ali numa única noite.

 

    Desde criança, ela se vestia de homem e tinha atração por brinquedos e brincadeiras masculinas. Aqui, ela faz a pergunta. Por que essa tendência ainda mal saída das fraldas? Ela diz que as respostas possíveis são muitas, mas ela descreve uma experiência da mãe que era atriz e ela ia sempre assistir a esses papéis em que a mãe se fazia de mulher e de homem… Fico pensando que, como logo se vê no ato falho da autora, há perguntas que fazemos e que nós mesmos respondemos. Sabemos as respostas, embora, na verdade, o que queremos é fugir delas.

 

    Terminei o primeiro capítulo e, como leitor, já me vi sofrendo por ela. Como ela mesma diz no livro, não é um livro sobre uma transexual. Ela não teve prazer e nem alívio algum nesse papel. Quando a experiência terminou, foi mesmo um fardo que lhe saiu dos ombros. Porém, o que mais me impactou, foi que houve um sofrimento emocional, pois ela precisou enganar pessoas e ela diz que isso foi o mais complicado e que vieram daí os danos a ela, danos à saúde mental. Danos que ela entendeu como punição por ter se intrometido no mundo masculino (e essa ideia de "punição" irá acompanhá-la durante o livro até se aflorar claramente no capítulo do mosteiro).

 

    Ao encerrar a leitura do primeiro capítulo, estava com uma vontade enorme de consolá-la, pois ela conseguiu mostrar bem tudo o que ela sofreu naquela experiência, que, agora, conseguia narrar naquelas páginas. Eu me vi totalmente envolvido com a história de Norah. Impressionante como ela escreve de uma maneira muito envolvente. Eu sabia que, por ser homem, a leitura dessa história seria muito instigante para mim. Eu não esperava que ela, a autora, fizesse o que fez no fim do capítulo, mas não darei spoiler.

 

    No capítulo intitulado "amizade", ela nos mostra como foi o primeiro desafio dela se passando por Ned. Ela escreve como mulher. Como ela mesma disse, ela não é uma "trans". Ela é lésbica. Ela é uma mulher e a feminilidade dela está ali bem perceptível em cada reflexão, em cada momento em que se depara com um homem e precisa se comportar também como um diante do outro. A abertura dela para aqueles homens, não duvido, só foi possível porque ela é mulher. E isso a pegou de surpresa também. Tudo muito interessante para o leitor que resolve se abrir para ouvir a autora. Paramos para pensar no que é "o ser homem" e "o ser mulher". Aqueles homens nos jogos de boliche e a busca por sair da pressão diária, fugir daquilo que todos esperam e cobram deles, então, exatamente por isso, aquela cumplicidade naqueles encontros, uma amizade nutrida e sem censura entre eles. E ela os absorveu muitíssimo bem, desde o aperto de mão até o ser aquilo que o sexo masculino era naqueles encontros, em que os homens eram homens em sua amizade. Ela me fez refletir nela como mulher diante de homens e a amizade que une a esses homens, inclusive ela aborda a diferença dessa amizade e interação entre os homens comparando quando o mesmo ocorre entre mulheres.

 

    O capítulo agora é sobre "clubes de strip-tease". Assim como eu mesmo nunca tive um grupo de amigos como aquele que ela conheceu no capítulo anterior (homens que se reúnem para uma interação esportiva masculina), eu também nunca frequentei clubes de "strip-tease". Por isso eu disse que ler como homem este livro é uma experiência inesperada. Mas, para ela, como lésbica, estar em clubes assim e ver como ela mesma digere tudo isso também é uma outra janela pela qual o leitor também olhará.

 

    Além de tudo, mais uma vez, ela se vê despertada em seu instinto materno. Um dos presentes gera isso nela. Era um jovem de vinte e poucos anos… Estamos aqui numa seara delicada. Ela fala como mulher e ela não nega que o seja. Ela mergulha no universo masculino, mas de uma maneira muito compreensiva. E ela, que nunca quis ter filhos, volta e meia se vê envolvida por esses sentimentos. Agora, eu paro de entender a autora e começo a me colocar na história. Ou melhor, quero ler este capítulo dos "clubes de strip-tease" com o meu olhar masculino.

 

    Que analogia foi aquela da autora?! Vou tentar explicar. Ela conheceu uma dançarina que dizia que fazia aquilo não por grana, mas porque gostava de homens. Refletindo sobre isso, Norah faz a seguinte avaliação da menina:

 

"Mesmo que isso fosse verdade quando ela começou, o que é duvidoso, com certeza não teria continuado a pensar assim trabalhando neste ou em outros lugares desse tipo. Era um pouco como dizer que você se tornou um médico legista porque gosta de gente".

 

    Wow! Um capítulo cru o do clube de strip-tease, seu título é "sexo"! Norah havia chamado o Jim, um dos membros da equipe de boliche do capítulo anterior, para ir junto para que ela não chegasse sozinha, mas, ainda antes da primeira noite deles numa dessas boates, há o seguinte diálogo entre Jim e ela:

"Eu vou a alguns destes bares", disse ele, "e este é o homem de família que existe dentro de mim, e digo a mim mesmo que estas meninas eram as filhas de alguém. Alguém as colocou para dormir. Alguém as beijou e as abraçou e lhes deu amor, e agora elas estão neste buraco." 
"Ou talvez alguém não tenha feito nada disso", disse eu.
"É", concordou ele. "Eu tenho pensado sobre isso também".

 

    O capítulo "amor" é o que se concentra nos relacionamentos, ou melhor dizendo, na corte de Ned com mulheres. Há uma crítica profunda e séria às mulheres neste capítulo. A autora confessa como foi olhar para as mulheres, enquanto essas se relacionavam com ela como sendo ela Ned. Vemos as mulheres pelo olhar de uma mulher, que sempre se relacionou com mulheres, mas nunca sendo tratada por elas como um homem. Não é à toa que Norah Vincent foi destratada pelas feministas. Se o capítulo fosse escrito por um homem, inevitavelmente chamaríamos o autor de misógino. Você realmente precisa ler este livro!

 

    Por várias vezes, peguei-me lendo como Norah, tentando viver aquelas experiências da maneira mais próxima possível dela. Também, intencionalmente, li como homem, mas, indubitavelmente, como cristão. O capítulo escancara essa falta total de comunicação entre os sexos. Triste. São mundos que estão cada vez mais distantes, quanto mais avançamos nas conquistas de gênero. Eis o paradoxo! O problema, como a própria autora coloca, não é de sexo, não são os homens. As mulheres são complicadíssimas! Para mim, ou melhor, para a Bíblia, o real problema está dentro do coração do ser humano. Não adiantam conquistas ou revoluções. Tudo isso sempre serão maquiagens.

 

    Há uma frase fantástica de Lacan citada no capítulo "amor" que, para mim, diz muito sobre o coração humano: "o amor é dar o que você não tem a quem não existe". Realmente, para o mundo sem Jesus, Lacan acertou em cheio. Só com Jesus teremos o que oferecer ao outro, enfrentando esse outro do jeito que ele realmente é.

 

    "Vida" é o próximo capítulo. Lendo e tentando entender o porquê do título, pois não há vida ali. Há tristeza, muita tristeza e aquela metáfora do casamento, ou melhor, aquele entendimento de que aqueles homens estão ali "casados" entre si, tanto para não precisarem (os homossexuais) chegar às vias de fato de se relacionarem com mulheres, mas terem seus contatos ali superficiais ali, como para (os heterossexuais) fugirem da sua total inabilidade de se relacionarem com o feminino. E todos, homossexuais e heterossexuais, poderem viver juntos (ainda que sós) e poderem se cuidar, ainda que isolados, e, finalmente, ser enterrados por alguém. São para estas coisas que, então, queremos casar? Pode ser. Todavia, biblicamente, o casamento entre um homem e uma mulher é, antes de tudo, para glorificar a Deus.

 

    O mosteiro era um lugar para homens. De fato, concordo com ela, um lugar feito para que não haja mulheres. Até mesmo o incômodo de um homem afeminado era algo não bem visto por ali. Mas ela mentiu mais uma vez e isso a está destruindo por dentro, conforme vai revelando nas páginas do livro. Mentiu aos monges sobre quem ela realmente era por baixo do Ned. O mundo é triste. As pessoas estão fugindo de Deus, dos outros e de si mesmas. E isso é a causa da dor mais profunda e do desencontro entre nós. Norah, contudo, não entende isso e se esconde por trás de seu confuso catolicismo romano.

 

    "Trabalho". E ela escolhe como novo campo de experiência algo extremamente americano: o setor de vendas. A maioria dos funcionários eram homens. Cobrados para renderem como homens. Não as mulheres. Mas eles, sua própria identidade, masculinidade, estava associada a isso. Como ela mesma colocou no início do livro, os seus relatos não são acadêmicos, científicos ou formais. São narrativas de suas próprias experiências. São recortes, não há dúvida, todavia, recortes que ela viveu e que a transformaram.

 

    No penúltimo capítulo, ela se encontra num desses acampamentos para o resgate da masculinidade perdida, algo como deve ser esse tal de "Legendários". Mais uma surpresa deliciosa. Há uma cena em que os homens fazem desenhos e muitos desenham Atlas e explicam que se sentem cansados de carregar tudo nas costas e num trabalho e cobranças inúteis para eles. Neste momento, ela une Atlas a Sísifo como a melhor definição desse homem moderno.

 

"Era uma combinação criteriosa, e talvez a descrição perfeita do homem moderno em suas maiores dificuldades e desgastado, carregando o mundo em seus ombros e rolando-o montanha acima. Ser o homem responsável por tudo, trazia consigo toda uma série de cargas e ansiedades que raramente - se é que alguma vez - ocorreu a mim ou às feministas que eu conhecia. Nós enxergávamos isso do nosso lado, e daí parecia maravilhoso estar no poder, tomar decisões, ter escolhas, escapar do campo de trabalhos forçados do provedor/administrador doméstico. Para as mulheres ambiciosas, ter uma carreira era muito melhor do que trocar sua milionésima fralda ou ficar olhando para seu papel de parede amarelo. Quando você está se sentindo preso em uma armadilha e privado de direitos, isso não quer dizer que trabalhar dentro de um terno incômodo de flanela cinza seja algum piquenique".

 

    O mais surpreendente nisso é que, em Jesus, o chamado não é para sermos Atlas e nem Sísifo, mas apenas seguidores de Cristo! Uma entrega voluntária para a redenção da esposa e da família e não uma condenação é o que nos ensina o Evangelho! Todavia, será que realmente cabe ao homem cristão assumir o papel de um cavalheiro que carrega sua esposa acima dos sofrimentos da vida? Jesus carregou a Igreja, pagou o preço por ela, mas não a isolou de sentimentos inevitáveis. Há alguma coisa aqui muito importante para uma reflexão mais profunda. Enfim, o chamado nosso não é para sermos Atlas, Hércules ou Sísifo, mas cristãos redimidos, pecadores resgatados. Estou escrevendo isto, no momento em que está todo mundo comentando aquele caso de traição do CEO no show do Coldplay. E aqui cabe corrigir Norah: nem os homens e nem as mulheres são os responsáveis por carregar o mundo em seus ombros - nós não somos Deus! Contudo, depois da sociedade moderna tirar Deus da equação, quaisquer trabalhos que façamos nos forçarão a agradecer a nós mesmos e também exigir que os outros reconheçam nossos esforços! A cosmovisão cristã, contudo, é outro olhar e vivência, mas será que os próprios cristãos sabem disso?

 

    Para finalizar, queria deixar dois parágrafos do último capítulo em que ela organiza suas conclusões.

 

"É claro que ser visto como um homem afeminado me ensinou muitas coisas sobre a relatividade do gênero. A minha vida toda, fui considerada uma mulher masculina. Isso possibilitou, em parte, este projeto. Mas pensei, que, quando eu saísse como homem, algum desequilíbrio iria se corrigir e eu seria um sujeito comum, bem dentro do espectro aceitável do gênero. Mas de repente, como homem, as pessoas estavam vendo minha feminilidade explodindo por todo lugar, e não a recebiam bem. Na verdade, nem mesmo as mulheres. Elas também queriam que eu fosse mais masculino e sexy, e às vezes também faziam suas suposições de que eu fosse homossexual, até mesmo quando saíam comigo. Dai a expressão "meu namorado gay".

 

"Nesse aspecto, as mulheres eram difíceis de agradar. Elas queriam que eu estivesse no controle, grotescamente grande e forte, tanto no espírito quanto no corpo, mas, ao mesmo tempo, também terno e vulnerável, subserviente a seus caprichos e dócil como um coelhinho. Queriam alguém em quem se apoiar e de quem depender, a quem olhar com respeito e ao lado de quem desfalecer, mas, apesar disso, alguém que soubesse do seu lugar reduzido no mundo pós-feminino. Mantinham sua suposta superioridade moral e sexual sobre mim e, às vezes, tentavam me manipular com ela".

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