Você já parou para pensar que, para a maioria das pessoas, uma folha de papel cheia de palavras é igual a um painel de controle de avião? E que o mesmo ocorre diante de uma folha da Bíblia? E eu não estou falando sobre pessoas que não sabem ler.
Infelizmente, uma folha aberta de uma Bíblia, para muitos jovens e adultos de Ensino Médio e Universitários, continua a ser um painel de controle de avião. As palavras estão todas ali, mas e daí? Wittgenstein é quem faz essa comparação entre uma folha cheia de palavras e o painel de controle do avião. Ele faz isso para nos chamar a atenção sobre o problema da comunicação humana.
Assim, não é de admirar que as pessoas prefiram o caminho mais curto, a porta mais larga do argumentum ad verecundiam ou argumentum magister dixit, que é a falácia de se apelar a uma autoridade humana. Isso tem levado muitos a se deixarem nas mãos de falsos pastores e igrejas manipuladoras e, quando perguntados sobre a razão deles se deixarem levar pelo abuso espiritual, a resposta é sempre a mesma: “o pastor disse”, “a profetisa falou”, o “ungido determinou”, etc. O apelo é sempre às pessoas que possuem uma pretensa “autoridade espiritual”. A partir disso, vemos uma multidão seguindo profetas, apóstolos e igrejas de “poder”, enquanto a ignorância bíblica e a inabilidade de aplicar suas verdades à prática diária se aprofundam cada vez mais.
Enquanto escrevo este texto, farei uma digressão, pois não posso deixar de pensar na minha filha mais velha, que vem estudando tenazmente para o vestibular, Enem e outras coisinhas semelhantes. O que tem me surpreendido é a orientação da escola dela, que adotou o método Anglo de Ensino, quanto à produção das redações: é preciso citações! Ainda que você não tenha lido o livro de Fulano e de Ciclano (e a maioria dos colegas de sala de aula da minha filha realmente nunca leu um livro sequer desses tais autores), é preciso, segundo a orientação dos “grandes mestres da redação”, que sua redação apele à autoridade desses filósofos, sociólogos, personagens históricos e tantos outros. Eu vejo os colegas da minha filha buscando na internet aqueles sites de páginas de citações, para rechear seus textos de frases de pessoas que eles sequer um dia tinham ouvido falar, mas que seus professores citam. O que me faz pensar que esses professores podem também estar apenas citando o que, um dia, citaram para eles num ciclo tenebroso de papagaismo educacional!
Há algo muito grave no que eu escrevi no parágrafo anterior. A escola é o lugar em que nossos filhos mais passam o tempo deles. Eles passam mais tempo na escola e nas universidades do que em casa ou nas igrejas. Assim, o poder de influência desses professores é enorme e os pais não podiam jamais ser negligentes, como muitos são. É uma pedagogia da mentira que a Escola ensine aos nossos filhos citarem autores que ela mesma nunca trabalhou em sala de aula e que eles nunca leram e nem lerão! Vou repetir: é uma pedagogia da mentira! Estão formando nossos filhos para mentirem, para que eles digam que conhecem o que esses autores estão dizendo, quando, na verdade, não sabem bulhufas! Estão citando frases soltas fora dos contextos dos livros de onde elas foram retiradas.
Quando eu leio frases como “Wittgenstein disse” ou “Aristóteles afirmava em sua obra “A Poética””, “Segundo Max Weber”, penso que, ao serem citadas, elas respeitam o corpus do pensamento dos seus autores originais. A questão é como confiar em meninos e meninas de 16 e 17 anos, que nunca leram um livro de Emile Durkheim, por exemplo, e saem citando com pomposa arrogância de quem domina aquelas obras? A pedagogia da mentira corrompe o caráter, danifica a moral e destrói a ética. Não é de se surpreender que estejamos tão perdidos em distinguir o que é certo e errado, o que é o bem e o mal, o que é verdade e o que é mentira. São anos e anos de uma escola ensinando nossos filhos a mentirem, a usarem o discurso, a retórica, a construção de uma estética falaciosa e a plagiarem a ideia dos outros que, evidentemente, isso devora a alma. E isso tudo para quê? Para que nossos filhos, a partir de mentiras bem construídas, possam conquistar uma vaga numa faculdade. O que as escolas estão ensinado? Que os fins justificam os meios. Que, se não ferir ninguém, que mal é que tem? Depois de anos e anos aprendendo a mentir para conquistar seus objetivos, que tipo de cidadão nós teremos? São pastores que apelam ao “dom de línguas” e ao grito, são profetizas que apelam ao “assim me disse deus”, são crentes pinçando frases bíblicas fora de seus contextos para apoiarem suas heresias e abusos espirituais contra as pessoas e muitos outros crimes de corrupção que vemos no nosso dia a dia. Temos visto profissionais adulterando o currículo vitae e lattes para dar um up na maquiagem, querendo ganhar capital político e econômico a partir de um capital cultural que nunca possuíram (Pierre Bourdieu). Esses profissionais foram construídos durante anos por uma escola doutrinadora! Sinceramente, você ainda não percebeu isso? Pronto, terminei minha digressão.
Como o próprio Apóstolo Pedro adverte, a Bíblia tem sim textos difíceis de entender (II Pe 3). Só essa advertência já deveria ser suficiente para animar todos os cristãos a frequentarem as Escolas Bíblicas Dominicais de suas Igrejas, mas, tristemente, não é isso o que ocorre. É preciso estudar a Palavra de Deus para que, como nos adverte o Espírito Santo por meio do Apóstolo Pedro, não caiamos nas armadilhas das pessoas ignorantes e instáveis que não querem aprender da Palavra de Deus!
Estude a sua Bíblia! Procure um grupo de pessoas comprometidas com o ensino sério da Palavra de Deus, para que você não caia nas mãos dos lobos que planejam dominar a sua vida. O mercenário não quer que você aprenda. Ele quer apenas que você obedeça cegamente, pois ele quer roubar, matar e destruir você e, para isso, ele precisa que você não conheça a Bíblia, nem estude a Palavra de Deus e, muito menos, viva sob o poder do Espírito Santo.
Assim como o piloto precisa aprender a ler um painel de controle de avião, a Bíblia também possui regras de interpretação para que seja lida corretamente. Do contrário, no caso do avião, ele sequer levantaria do chão. No caso da sua vida espiritual, também!
“Como vemos e somos vistos na cultura brasileira” é o subtítulo deste maravilhoso livro de missiologia, “Sal da terra em Terra dos Brasis”, de Rev. Wadislau Martins Gomes, mas não de uma missiologia “departamental”, estanque ou vista como “um braço da Igreja”. Mas, Igreja, qual é a missão que Jesus lhe comissionou?
Rev. Wadislau foge dos mitos e lugares-comuns da atual missiologia, cada vez mais contaminada por um viés ideológico, e expõe a idolatria do “ide” que tem levado a obra missionária a um pragmatismo, ora romântico, ora triunfalista, do “ir” cada vez mais longe, enquanto a Igreja Local se distancia do ensino bíblico de que muito mais importante do que simplesmente “ir” é COMO “ir”. Assim, mais do que nunca, acho que também posso dizer isto após a leitura do livro: é preciso que a Igreja aprenda a como FICAR.
Identifico, como professor de Comunicação Transcultural para missionários brasileiros, que a energia investida para se comunicar com uma outra cultura tem sido inversamente proporcional ao esforço de se compreender a própria cultura brasileira na sua mais rica variedade étnica, social, etária e multicultural. Para mim, esse livro torna-se um bálsamo no meu projeto educacional de fazer com que o missionário entenda que, se ele não aprender a fazer uma leitura mais correta e mais precisa das relações humanas dentro de seu próprio país, dificilmente ele aplicará as ferramentas da comunicação à cultura-alvo. É um livro que trabalha com farta literatura nacional brasileira e ensina o leitor-missionário a ser sensível e atento à voz artística do nosso povo em todas as suas expressões. A produção artística precisa ser levada em conta no Campo Transcultural, pois a música, a poesia, os mitos, a pintura, a escultura e, entre tantas outras coisas, até mesmo a produção acadêmica dos próprios nacionais (quando houver) — aprender a ver como eles veem a si mesmos — tudo isso nos ensina a compreendê-los. Mas, antes de tudo, defendo que é aqui, em sua própria cultura, país e língua que o missionário transcultural precisa fazer o dever de casa de treinar o que pretende fazer “lá fora”.
A missão da Igreja é glorificar a Deus onde quer que ela se encontre. A Igreja não é chamada para um lugar, mas para brilhar onde quer que esteja. Missão é evangelização e evangelização é cumprir a missão dada por Deus à Igreja. A evangelização não pode estar desassociada do discipulado, de caminhar junto, de andar lado a lado com a pessoa que Deus tem nos dado para ouvir, ver e compreender da nossa boca e da nossa vida a beleza evangélica da mensagem salvadora. Aliás, o tema da beleza perpassa toda a exposição do Evangelho feita nas 551 páginas desta obra que, muito mais do que ser lida, precisa ser estudada. A mensagem evangélica total deve atingir inteiramente a vida do evangelizado. Os subtemas abundam diante dos olhos do leitor: “Beleza ou feiura são coisas do coração”, “O ambiente da vida cristã: a beleza de Cristo na face da Igreja”, “Cristo em nós e nós em Cristo: um ambiente de beleza” etc. Destarte, é necessário que o trabalho evangelístico da Igreja se veja como uma ação de aconselhamento, pois “evangelização é aconselhamento e aconselhamento é evangelização”.
Eu e você, Igreja do Senhor, precisamos retornar ao Evangelho e compreendermos “as novas do Reino” (parte 1 do livro), que precisam ser manifestadas ao outro por meio de uma “fé arrependida”, que caminha diariamente em santidade, e apresenta as bases claras do Reino (parte 2) sem evangeliquês e firmadas numa exegese correta sobre o texto de Mateus da Grande Comissão. O programa de avanço missionário da Igreja é a própria vida diária da Igreja onde quer que ela esteja, por isso é preciso voltar aos temas da natureza da Igreja, seu propósito, finalidade e vocação. Sem um correto entendimento do que é Igreja, corremos o risco de nos perdermos na nossa relação com a cultura secular e condenarmo-nos também a uma visão ideológica da ação social (parte 4).
Por fim, Missão é instrução, comunhão, adoração e serviço. Sua mensagem deve ser cristocêntrica, pregar a obra completa de Cristo, sua encarnação, sua vida de obediência, a morte vicária, ressurreição e ascensão!
“Sal da Terra em Terras dos Brasis” ainda nos presenteia com um estudo acerca dos dons do Espírito Santo, sua função e finalidade. Contudo, o que, especialmente, chamou-me a atenção é a ênfase que o livro dá ao tema da comunicação, mas não qualquer comunicação, a nossa comunicação é evangelizadora! Além do tema da comunicação, surpreendeu-me encontrar na obra um verdadeiro “modelo” para multiplicação de Igrejas. Ora, missão não é fazer discípulos? Discípulos não formam igrejas? Igrejas não são plantadas para resplandecer no mundo a face de Deus? Então, você encontrará neste livro um modelo de plantação de igreja desafiador para que nossas igrejas locais se multipliquem, ou melhor, sejam transplantadas!
Enfim, surpreende-me que a 1ª edição desse livro seja de 1984 (houve uma 2ª edição em 1999 e, posteriormente, uma 3ª aumentada e revisada no ano de 2014)! O que eu quero dizer é que as ideias que teriam amadurecido e evitado que a Igreja Brasileira tivesse cometido tantos equívocos nas últimas duas décadas estavam à disposição, mas será que ninguém leu este livro? Será que nossas lideranças, nossos seminários, nossos professores nunca tiveram acesso às exposições feitas aqui neste livro? Você deve ler este livro.
“Sal da Terra em Terras dos Brasis” é um livro que me assombrou por várias razões. Primeira, o autor foi meu primeiro pastor, assim que fui regatado do Império das Trevas. Segunda, embora o autor tenha sido meu pastor por apenas 2 ou 3 anos, os temas sobre os quais escrevi e dei aula nestes anos todos coincidem com os que li aqui nesse livro. O que me fez perguntar, durante a minha impactante experiência de leitura, se a influência do Rev. Wadislau foi tão marcante em mim a esse ponto! Terceira razão, a leitura deste livro me serviu não apenas para confirmar que muitas das coisas que vinha defendendo são realmente bíblicas (embora nem sempre aceitas pelas igrejas de hoje em dia), mas serviu-me também para proteger-me de certos desvios que, com a leitura desse livro, consegui perceber na relação Igreja-comunicação-cultura. A quarta razão é poder voltar a ter mais contato com o Pastor Wadislau e sua esposa, a Elizabeth. Por todas essas razões quero não apenas indicar a leitura deste livro, mas trazê-lo à sala de aula das EBDs e Seminários, pois seus temas e exposições são urgentes para a Igreja Brasileira de Fé Reformada, para que alcancemos o prumo certo no tratamento correto do tema de missiologia.
Estou convencido de que este livro é fundamental para pastores e líderes de Igreja e para aquele missionário que você acompanha e ora por ele. Sem sombra de dúvida, você estará fazendo o melhor investimento possível no ministério de nossos pastores, líderes e missionários presenteando-os com esta obra riquíssima.
Fábio Ribas
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O texto acima deve ter sido publicado, pela primeira vez, em 2015 ou 2016. Fiz uma leve correção, mas, como me fez bem reencontrar-me com o que escrevi há tantos anos, principalmente neste momento atual do meu ministério.
Este é o segundo livro de Michael R. Emlet que leio. O primeiro foi o"Conversa cruzada". Emlet é médico Doutor, além de ter seu MDiv. Exerceu a medicina por mais de 12 anos antes de se tornar Conselheiro Bíblico e membro do Corpo Docente da Christian Couseling& Educational Foudation (CCEF). Autor de vários artigos e livretos na área de Aconselhamento Bíblico.
Especificamente, este livro trata de um ponto muito importante para o conhecimento dos conselheiros. Ao contrário do "Conversa Cruzada", que é um livro de hermenêutica, tanto da Bíblia como da vida do nosso aconselhado, Emlet agora vai ao ponto da questão sobre os diagnósticos e medicamentos psiquiátricos. O subtítulo diz "uma perspectiva bíblica sobre os diagnósticos e medicamentos psiquiátricos". Assim, o livro é uma proposta para sairmos de quaisquer posturas que sejam extremistas: nem entusiastas cegos e nem isolacionistas alienados. Afinal, o que queremos é ajudar as pessoas a "melhor conhecer e compreender suas lutas. E então, tendo-as compreendido, como providenciar-lhes auxílio de modo sábio e compassivo" (p. 15).
De modo positivo, ele inicia dizendo que "diagnosticar" é algo que revela o nosso Deus Criador. Achei isso sensacional! "Todo mundo "faz" diagnósticos. Todo mundo. Interpretar - ou diagnosticar - as nossas experiências é inevitável. Parte disso que é ser humano é classificar, organizar e interpretar o mundo ao redor" (p.18). E é uma maneira bíblica e positiva para nos entendermos e compreendermos melhor, porque "diagnosticamos" tanto! Uma outra palavra ligada a isso, e que eu sempre tratei no meu ministério missionário, é "taxonomia". Precisamos chegar aos povos e culturas e "caracterizá-los", "organizá-los", categorizá-los" etc, dando "nome aos bois". Por tudo isso, tenho realmente me fascinado com o mundo do Aconselhamento, pois é a aplicação pessoal ao que estamos tão acostumados a fazer a grupos e coletividades nos campos missionários transculturais.
A citação que ele faz do Peter Kramer é basilar para tudo o que ele vai discutir em seu livro: "O modo como vemos uma pessoa é uma das funções das categorias que reconhecemos - de nosso sistema particular de diagnóstico" (p. 19). O que eu gostei muito com essa introdução do Emlet é que ele já desmistifica o "diagnóstico" como algo que se dá entre iniciados e que, por isso, só poderia ser realizado por uma elite altamente especializada. Na verdade, queremos conhecer e entender o outro à nossa volta e, por isso, diagnosticamos o tempo todo.
Ele começa falando sobre o que é, afinal, um diagnóstico. Basicamente, de um lado, você tem o paciente descrevendo o que ele está sentindo e, do outro, um médico com sua formação descritiva. Mas, em meio ao que está sendo descrito como isso ou aquilo, há um espectro de sintomas muito parecidos. Com isso, veja, Emlet nos dá a nós, meros leigos, uma oportunidade de ficar ombro a ombro com os médicos na hora do diagnóstico. No fim das contas, a não ser que se tenha um exame mais técnico, mas, mesmo assim, no fim de tudo, um diagnóstico é resultado de uma interpretação entre o que o médico ouve da subjetividade do paciente e aquilo que o próprio médico carrega como experiência. Ainda que se tenha um exame clínico (exame de sangue, tumografia etc), ainda assim, é um intérprete pegando todas essas informações e dando a sua interpretação. Até mesmo porque o médico não está tratando de ciência exata e também não somos robôs. Cada caso é um caso e há as nossas individualidades e pessoalidades, que não podem ser descartadas.
(Quero abrir um parênteses aqui, no momento em que você lê este parágrafo. Por estes dias, acaba de sair que sete em cada dez médicos não sabem aferir pressão arterial. Uma informação como essa serve para nos deixar alertas: médicos não são sacerdotes de uma religião infalível. Na verdade, sequer sabemos da qualidade da formação deles. Fecho os parênteses).
O resultado não pode ser simplista, pois somos muito mais complexos e as variáveis atuam de uma maneira difícil de abarcarmos a todas elas. Digo isso com toda a tranquilidade, concordando com Emlet, uma vez que tenho acompanhado minha mãe, uma idosa de 90 anos de idade, e já vi um médico cortar pela metade os remédios que outro havia passado a ela. Vi também um terceiro médico ainda ter que voltar atrás de remédios que estavam fazendo mal a ela no tratamento. Enfim, como cada pessoa é uma pessoa, então o que temos, muitas vezes, é um método de tentativa e erro. Em outras palavras, Emlet abre as portas para a desmistificação do diagnóstico e do uso dos remédios.
Uma vez que Freud foi superado, pois ele dizia que todos éramos doentes, uns mais e outros menos… Mas, o que é ser "são" e o que é ser "doente"? Quem é normal e quem não é normal? Como proceder nessa interpretação? O DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) surgirá (1952) para tentar, veja bem, tentar, tornar mais clara a linha que separa a doença da saúde. Mas, em suas já cinco edições (a última de 2013), o DSM se transformou numa lista de sintomas para cada rótulo (nome que a doença recebe). Muitos desses sintomas se repetem em muitos rótulos diferentes:
Embora algumas doenças mentais possam ter seus limites bem definidos em torno de um conjunto de sintomas específicos, a evidência científica atual localiza muitos, quiçá todos, os transtornos em um espectro de transtornos de relação muito próxima e que compartilham sintomas, fatores de risco genéticos e ambientais, e possivelmente substratos neurais (i.e. alicerces neurológicos) […] Resumindo, precisamos reconhecer que os limites entre os transtornos são mais permeáveis do que percebemos originalmente" (esta frase está escrita no DSM-5, p. 6).
O diagnóstico psiquiátrico é descritivo e, às vezes, não nos damos conta disso. Por exemplo, eu digo que você está irado, porque há uma soma de vários sintomas em você que descrevem a ira. Pronto: diagnóstico, ira! Mas saber nomear, rotular a que se refere o grupo de seus sinais e sintomas não me responde o que realmente importa: por que você está irado? Por que você está ansioso? Por que você está depressivo?
Entendamos, a descrição dos sintomas levará o médico a receitar tais e tais remédios para a solução daqueles sintomas, que, perceba, são comuns a muitas doenças diferentes. Os remédios podem tratar ou não, podem até mascarar aqueles sintomas, contudo, a causa da doença não é tratada pelo remédio.
Neste ponto quero contar o que aconteceu comigo. Tive um sério problema no campo missionário. Alguém estava tomando atitudes que não apenas eram totalmente contra o esperado por missionários num campo extremamente delicado e fechado ao evangelho, mas, principalmente, colocava o nosso trabalho (e de outros missionários em risco). Nossas lideranças nunca resolviam os problemas que estavam surgindo (que, na verdade, deveriam ser resolvidos na esfera das instituições) e, aqui no "andar de baixo", nós missionários sofríamos muito com tudo o que estava ocorrendo. Um dia, todo esse stress, essa agonia e angústia cobrou seu preço. Eu estava fazendo esteira numa academia e meu peito doeu horrores como se uma faca estivesse me rasgando de dentro para fora. Foi horrível! Mãos e pés suando, minha vista escurecendo etc. Tive que sair do campo (era no interior do MT) e vir às pressas me tratar em Brasília. Um milhão de exames, consultas, médicos, até que, finalmente, uma médica ouvindo e acompanhando tudo o que eu narrara disse: "Fábio, está aqui a caixa de seus remédios. Certamente, você irá tomá-los e isso irá fazer muito bem para você. Contudo, esse remédio tem um efeito colateral possível. Ele irá diminuir a sua libido, afetando sua vida sexual com sua esposa. Assim, há uma outra alternativa, caso você não queira tomar esse remédio. Você pode voltar para o seu campo missionário, resolver a causa dos seus problemas e buscar, então, trabalhar de um outro jeito, cuidando-se melhor". Enquanto conto isso, claro que estou rindo, pois não era só a minha vida sexual que estava em jogo, mas a da minha esposa também! Assim, retornei ao campo, mudei o meu ministério, fui para uma outra área na qual as ações daqueles missionários não me atingiam e, enfim, enfrentei a causa. Chamei o casal de missionários e disse tudo o que estava acontecendo comigo (e com outros), por causa daquela atitude deles. Porém, pelo bem da minha saúde mental (e sexual rsrsrs), e também porque eu queria continuar a ser uma bênção no campo, disse a eles que eu estava saindo daquele ministério e indo para um outro que não me afetaria daquele jeito. Com essa minha atitude, tudo se resolveu e eu guardo a caixinha de remédios, que a médica tinha me dado, até hoje comigo, fechada (rsrs). Os sintomas ajudam na identificação, mas só isso não resolve. Concordo, inteiramente, com Emlet.
Outro problema tratado pelo autor é que há o risco do normal ser transformado em anormal por meio do exagero. Isso me levou o tempo todo a pensar no "O alienista", conto do Machado de Assis. Quem é que decide o que é normal e anormal? Qual a referência? "Dor e sofrimento" são critérios? Perigoso, principalmente por termos aqui o choque entre duas visões antagônicas: de um lado, uma indústria farmacêutica que promete felicidade em drágeas e, do outro, a cosmovisão cristã, que sabe que dor e sofrimento são parte da vida humana e que podem ser usadas por Deus na santificação do seu povo.
A busca pela felicidade e o fim da tristeza e dor devem ser os únicos ou principais critérios que regem os diagnósticos? Quem está triste ou sentindo alguma dor não está bem, não está "normal"? Como disse, tudo isso é muito perigoso, porque é algo que pode ser fortemente subjetivo, tanto da parte do paciente como da parte do médico. A questão da dor e da tristeza também são culturais - e é importantíssimo levar todas essas variáveis em consideração na hora de um diagnóstico final.
Outro problema: diagnósticos psiquiátricos que redefinem (e com isso mascaram ou minimizam a responsabilidade do paciente), rotulando o que as Escrituras chamam de pecado. Hoje, todos somos vítimas, estamos todos doentes: não há mais gula, responsabilidade pessoal, descontrole emocional etc. "Tudo é culpa do cérebro"! Tudo é culpa dos meus pais, da cultura, do outro! Estamos em tempos de extremos, fujamos de todas essas pressões. É este o alerta do autor: nem mascarar pecados como meras doenças mentais e nem tratar doenças mentais reduzindo-as como pecado.
Particularmente, como missionário em povos diferentes de nós, o tema da influência da cultura nos diagnósticos culturais é muitíssimo interessante e importante para mim. Gostaria mesmo de aprofundar isso com mais estudo da minha parte.
Enfim, você realmente quer ajudar o outro? Então, algumas questões precisam ficar claras a partir da leitura desse livro: 1) o diagnóstico psiquiátrico não pode impedir você de se aproximar e ajudar o outro; 2) o diagnóstico não é a identidade do paciente; 3) o diagnóstico não é destino; 4) o diagnóstico pode ser usado como ponto de partida, mas jamais será o ponto final.
Além do autor nos mostrar como ajudar os pacientes que chegam com um diagnóstico, de modo que esses diagnósticos não sejam um obstáculo à nossa ajuda, ele mostra também como levar em conta o diagnóstico: 1) os diagnósticos nos ajudam a identificar padrões de experiências; 2) os diagnósticos nos ajudam a lembrar que essa experiência do nosso paciente é diferente da nossa; 3) eles nos alertam para padrões particulares de severidade e perigo; 4) os diagnósticos nos apontam para o corpo do paciente, que possui história hereditária e, além disso, o corpo também carrega forte influência cultural. Aqui, o autor encerra a primeira parte do livro e, na segunda, irá tratar sobre os medicamentos.
Na segunda parte, o autor discute sobre o que, afinal, realmente sabemos em relação à eficácia dos medicamentos psicoativos. Ele mostra os resultados desses medicamentos comparados com placebos, demonstrando que a propaganda é mais eficiente do que o produto, de fato, oferece. O autor trata de como equilibrar um tratamento com remédios e aconselhamento, lembrando que nem todo sofrimento deverá ser tratado com medicação. A medicação pode estar mascarando ansiedades e problemas que podem (e devem) ser enfrentados biblicamente. Cabe, então, a sondagem das razões que levam alguém àqueles remédios específicos. Um conselheiro sábio deve dosar e ter sabedoria de "andar na corda bamba". Não podemos dizer: "pare de tomar esses remédios"! Todavia, podemos (e devemos) auxiliar o paciente numa sondagem crítica em relação ao uso desordenado de remédios. Precisamos nos comprometer em pesquisar a bula dos remédios; ver se os tantos remédios usados pelo paciente não estão afetando uns aos outros; observar se o aconselhado não está desenvolvendo alguns dos efeitos colaterais narrados nas bulas etc. Enfim, é nossa responsabilidade ajudar o nosso aconselhado.
Foi o último parágrafo que mais me chamou a atenção. Estamos muito acostumados na nossa cultura com a farta literatura que encontramos tratando dos nossos próprios problemas. Literatura de autoajuda e de como sobrevivermos ao caos de nós mesmos. Contudo, este livro foi escrito para me ajudar a ajudar o outro da melhor maneira possível. Não é um livro sobre como resolver os meus problemas, mas como me preparar para ajudar o outro. Assim, como conselheiro, espero ter todos esses cuidados com meus aconselhados.
Fui desafiado, nesta disciplina, a ajudar lideranças nativas no campo. Se a coisa já é difícil para nós, imagine as pressões que outras pessoas convertidas, mas de outras culturas, não sofrem nesses embates? Na aldeia, por exemplo, com a chegada do "agente de saúde" e do enfermeiro, da farmácia e dos remédios, lembro que os indígenas faziam uma bifurcação, que era o jeito que a cultura achou de "se resolver": o pajé vinha e fazia a pajelança - a cura espiritual. Mas, caso acontecesse das curas não funcionarem, então, o próprio pajé dava o diagnóstico: "é doença do branco"! A cultura sempre dará um jeito de sobreviver. São retificações na cosmovisão para se adequar à mudança dos ventos. O pajé dá conta da "doença do índio", entretanto, para eles, a chegada dos "brancos" com seus remédios é porque eles chegaram e trouxeram suas próprias doenças e, por isso, doença de branco, que o índio pega, precisa ser tratada com remédio de branco.
Esses remédios ficam nas aldeias, sob a supervisão de um "farmacêutico indígena"… Comparando a formação recebida dos professores indígenas - que só são preparados no conhecimento da própria cultura, para ofereceram aos seus alunos mais do mesmo - fico, então, pensando que a gente também não pode esperar coisa muito diferente na formação desses farmacêuticos nativos. Portanto, sigamos que há muito trabalho a ser feito!
Tenho lido muitos livros sobre o tema do “Aconselhamento Bíblico”. Tenho lido livros muito bons, contudo, “Conversa cruzada”, de Michael Emlet, foi o melhor até agora. E há razões subjetivas e objetivas para afirmar isso. O que posso dizer é que esse livro é muito prático e oferece uma abordagem, tanto à Bíblia como ao aconselhado, que já foi possível utilizar ainda durante sua leitura, cumprindo seu subtítulo: “onde a vida e a Escritura se encontram”.
Como aconselhar por meio das Escrituras? No fim da introdução, já há algumas perguntas para discussão. A cada capítulo, no seu término, há um breve questionário para autoavaliação e sondagem sobre o assunto que terminamos de ler. Um ponto interessante é que o autor diz que há muitos livros sobre “como ler a Bíblia”, mas falta sobre “como aplicar a Bíblia às nossas vidas”. Verdade. E o livro de Emlet traz inúmeras oportunidades de vermos essa aplicação ocorrer nos diversos exemplos trazidos. O objetivo do autor já é tratado de maneira clara: o foco do seu interesse é com a microética, isto é, como cruzar as Escrituras com as situações particulares da vida da pessoa.
O primeiro capítulo funcionou para me deixar mais tranquilo, pois mostrou que a ligação de textos bíblicos com situações da vida contemporânea não é tão simples. Isto foi muito bom, uma vez que, desde que me aproximei do “Aconselhamento bíblico”, eu me sinto um ignorante em usar a Bíblia nessas “conversas cruzadas”. Agora sei que não estou sozinho nessa ignorância. A questão do Aconselhamento não é simplesmente saber uma série de versos decorados para desembainhar toda vez que nos deparamos com demandas da vida. É preciso atenção e paciência para “ler” a vida do outro, assim como atenção e paciência são necessárias para ler a Bíblia com responsabilidade. Não podemos sucumbir ao simplismo de usarmos as Escrituras como textos fora de contextos, numa espécie de “caixinha de aconselhamentos” (uma versão para a já danosa “caixinha de promessas”). Daí, o autor demonstrar o “fenômeno vala versus o fenômeno desfiladeiro”, para que possamos compreender que umas conexões são mais óbvias e tranquilas do que outras, quando nos dispomos a apresentar a Bíblia aos nossos aconselhados. Algumas passagens e narrativas bíblicas respondem de imediato a algumas questões, mas há muitas outras passagens que exigirão de nós esforço, um verdadeiro trabalho de exegeta e tradutor da Palavra de Deus. Portanto, inesperadamente, deparei-me com um livro que é um livro de “hermenêutica aplicada”. Emlet se preocupa em mostrar que a Bíblia está culturalmente distante de nós por mais de 1000 anos! Então, como ter certeza de que a estamos compreendendo corretamente e aplicando-a à vida do aconselhado, respeitando a intenção original do autor do texto?
Particularmente, como missionário transcultural e alguém que já trabalhou com tradução do texto bíblico e com cosmovisões contrárias à da Palavra, ver um autor que não tem medo de trazer à mesa da discussão a palavra “intuição” foi muito importante para mim: “Procure aprofundar suas intuições conduzidas pelo Espírito…” (p.40). Neste ponto, lembrei de Naugle (“Cosmovisão — a história de um conceito”), que também enfrenta o pré-teórico. Aliás, é exatamente por isso que me vejo na área do Aconselhamento, que trata com o ser humano como um todo e não como um ser multifatiado.
No segundo capítulo, “O que a Bíblia não é (primariamente)”, o autor ressalta que, embora nos aproximemos da Bíblia tendo nossos pressupostos, precisamos saber até que ponto esses pressupostos nos cegam impedindo-nos de lê-la corretamente. Os pressupostos precisam ser criticados à luz da Palavra. Se queremos ajudar o nosso próximo com a Palavra, precisamos saber que a Bíblia não se resume ou não se fecha num livro de “faça isso/não faça aquilo”; nem se resume a textos-prova para sustentar minhas doutrinas e nem é um livro de coleção biográfica de personagens para modelo de vida para mim. Eu e você precisamos ter claro o que a Bíblia não é. Então, mais uma vez, é confirmado que o cerne do livro se desenvolverá em duas direções: precisamos contextualizar o aconselhado, assim como devemos contextualizar o texto bíblico. Na direção da mensagem bíblica, ao compreendermos, estudarmos e interpretarmos a Bíblia, estamos certos de que a estamos usando “de uma maneira que maximiza a sua mensagem Cristocêntrica?”.
O livro me desafia como missionário há tantos anos no campo trabalhando no ensino bíblico e como professor de Comunicação para a formação de outros missionários! Tenho vivido um momento ímpar no meu ministério, porque me sinto confirmado em tantas áreas que eu não entendia a razão de não me encaixar, mas que o Aconselhamento me trouxe uma autocompreensão! Uma frase como esta: “Se a comunicação tem sentido, é porque as nossas palavras são ditas em meio a contextos e concepções partilhadas entre o que fala e o que ouve” (p. 49) — é o centro de tudo o que tenho trabalhado há muitos anos. O que estou tentando dizer a mim mesmo é que o Aconselhamento é uma peça que deu paz às próprias crises que sempre vivi de “desencaixe” no campo missionário.
E “o que a Bíblia é?” O AT é a expectativa da vinda do Reino e seu Messias. O NT é a proclamação de que esse Reino já veio e tem Rei. Ambas as histórias se inserem numa narrativa maior. A Bíblia é o enredo da história gloriosa de Deus sobre nossas pequenas histórias! E a chave para se entender tudo isso é Jesus: o fim do princípio e o princípio do fim! Tomamos a Bíblia no seu contexto de relato, na sua estrutura narrativa! Veja! Nossa luta como missionários trabalhando com povos indígenas sempre foi não apresentar a Bíblia recortada, picotada, mas, ao contrário, apresentar a Bíblia como “one story”. Aqui, então, mais uma vez, surpreendo-me por estar lendo um livro que julgava muito específico, mas que vai ao encontro de tudo o que sempre foi “transculturalmente” importantíssimo a mim. O autor nos ajuda, porque sabemos que podemos tomar essa história única de diversas perspectivas diferentes (Aliança, por exemplo, é uma delas e talvez a mais importante), mas o autor toma a Bíblia perpassada pelo tema do Reino. Há uma identidade aqui e isso nos ajuda a como abordá-la e aplicá-la à vida humana. “Essa identidade está unida a uma missão: proclamar o reino do nosso Rei e ajudar na restauração de vidas, em conformidade com o seu amor e governo de verdade” (p. 72). Emlet insiste nessa organização narrativa e temática — tendo a Cristo no centro de tudo — mostrando que isso funcionará como bússola para não nos perdermos e nem esquecermos da nossa própria identidade e propósito como cidadãos do reino sempre diante de nós. Ainda no capítulo sobre este tema, que ressalta a centralidade de Jesus, entendermos como se deu a forma de relato bíblico a nós será essencial para a própria abordagem de nossa interpretação do texto. Por exemplo, “o sofrimento precede a glória” (p.75), “a morte precede a ressurreição. A graça para o seu povo veio ao preço da sua vida” (p.75). Daí, Emlet evidencia-nos: “Esse caminho para a cruz continua sendo o modelo para a nossa vida, até que Jesus retorne e ponha um fim ao pecado e ao sofrimento (…) Nós seguimos nas pegadas abnegadas do nosso Salvador” (p. 75). O que isso tudo significa para o Aconselhamento? Tendo a narrativa correta, na sua apresentação bíblica correta, poderemos nos orientar corretamente toda vez que “somos tentados a achar que a vida em Cristo diz respeito à nossa realização pessoal e felicidade” (p. 75). Sendo assim, mais adiante, o autor diz que devemos entender a Bíblia não apenas como uma história, mas como uma história que exige de nós uma resposta (p.80).
Por tudo o que foi visto até agora, a pergunta mais trabalhada e que, por isso mesmo, mostra-se como fundamental para o trabalho de aconselhamento é: “Sabemos ler a Bíblia?”. Se a lermos sem o mínimo de regras de compreensão e interpretação, acabaremos usando-a para fins distorcidos ou fora de sua intenção maior. Mas qual a intenção maior da Bíblia? A Bíblia apresenta a missão redentora de Deus por meio de Jesus Cristo ao seu Povo. E essa missão terá vitória no final — isto está na Bíblia! Por isso, devemos ler a Bíblia “de trás para frente”, sabendo que o seu desfecho lança luz e reordena todos os livros anteriores. E quando a lermos “do início para o final”, precisamos ler sabendo que o que se anunciava já está realizado. Embora isso seja muito claro, infelizmente, no meio missionário tem muita gente lendo “da frente para trás”, insistindo em ler textos do AT como se esses estivessem desencaixados de uma narrativa maior.
Lemos o AT sabendo que a vitória do Reino já está garantida! Há quem lê os mandatos criacionais, por exemplo, sem essa perspectiva e conexão. Qual a consequência? Parece que algo saiu dos trilhos e a igreja é quem vai colocar tudo no lugar. E isso não é verdade! A igreja não foi chamada para cumprir os mandatos criacionais como se nunca houvera pecado ou cruz e ressurreição. Assim, a imposição religiosa da igreja sobre outros por meio da lei é um entrave e um fracasso sem a cruz e a ressurreição. Não é a igreja que está sendo chamada a ajeitar o estrago do pecado por meio de uma nova legislação e mera imitação de Cristo, mas Cristo já fez tudo e convida a igreja a anunciar a chegada desse reino. A leitura no sentido correto muda tudo! A perspectiva é clara: antes de ser a minha história, a Bíblia é a história de Deus e a história do Povo de Deus (p.95).
O melhor capítulo foi, sem dúvida, na sequência desses, o quinto capítulo! Se é que se pode dizer isso num livro todo muito bom. Entretanto, algumas coisas muito importantes estão sendo ditas ali. Não apenas sobre o enredo que escolhemos para que a vida da gente ganhe sentido, mas, principalmente, aquele olhar que devemos ter uns sobre os outros de que somos santos, sofredores e pecadores. Se queremos ajudar as pessoas, precisamos equilibrar esses 3 pontos. O que Emlet disse sobre nos conectar com a dor do outro foi tudo o que eu precisava ouvir para me entender ainda mais nesse mar de gente desconectada. A pessoa chega quebrada diante de nós e, então, precisamos desenvolver a habilidade de juntar as peças e ver a narrativa da vida dela — um início, meio e fim! Aqui há um roteiro que, para mim, é muitíssimo importante para me guiar no tratamento com o aconselhado:
Uma das habilidades que os médicos devem ter envolve “tirar a história” do paciente. Isso compreende entrevistar o paciente de maneira intensiva e extensiva levando em consideração várias coisas: (1) os sintomas que o trouxeram ao médico ou hospital (“histórico da doença atual”); (2) seu histórico médico passado; (3) sua história familiar; (4) sua história social, incluindo o uso de tabaco, álcool ou drogas; (5) os remédios que ele está tomando; e (6) a “revisão de sistemas”, uma longa lista de perguntas acerca dos outros sistemas do corpo além do(s) sistema(s) envolvido(s) na história da doença atual. Essa entrevista estruturada é seguida de um exame físico e talvez de vários exames diagnósticos (p. 101–102).
Esse roteiro acima, que Emlet oferece, é sensacional! Dá uma segurança enorme. Aliás, devo dizer aqui que já o estou usando. Tive oportunidade de aconselhar algumas pessoas usando várias coisas deste livro. Por isso, vejo-o como o melhor que li até agora na área de Aconselhamento. Li e estou lendo muitos livros, mas este é muito prático, desde a leitura bíblica até a leitura do seu aconselhado. Outra questão que vem ao encontro do que já trabalho na antropologia missionária é o entendimento que “dar ouvidos ao modo como as pessoas compreendem os detalhes da própria vida dá uma ideia da história (ou histórias), global que guia a sua existência diária” (p.103). Ouvirmos o outro com atenção é nos atentarmos à sua cosmovisão: “todos são criadores de sentido com categorias que deem um significado à vida” (p. 104). Esta frase, que acabei de citar do Emlet, foi muito importante para mim. Dou aula para a formação missionária e, de repente, num livro de aconselhamento, estou vendo todas as verdades que creio à disposição como nunca as vi em livros de missiologia antes! Acertar a vida das pessoas, que estão enfrentando dilemas e problemas, ao enredo redentor da Palavra de Deus é fantástico! Esta é a proposta do livro!
Agora, além das perguntas para conhecermos as pessoas nos 3 aspectos do capítulo anterior (santas, sofredoras e pecadoras), precisamos também conhecer profundamente a Palavra de Deus e, então, há as perguntas que nos ajudam a ler melhor a Palavra de Deus. Precisamos realmente conhecer o aconselhado e a Palavra, para que possamos conectá-los. O tema da identidade transborda aqui e separa aqueles que são obedientes dos que são resmungões: “somos definidos pelo nosso relacionamento com Ele (p. 115). Veja agora que genial é o que Emlet faz: ele vinha trabalhando sobre compreender o esqueleto narrativo bíblico, sobre entendermos a narrativa totalizante da Palavra de Deus, e, assim, ele faz a mesma coisa sobre a importância de olharmos a vida do aconselhado não como um mar de fragmentos, mas buscando o que une: “Se não levarmos em consideração as histórias que moldam a vida das pessoas, ofereceremos aconselhamento focado em soluções, sem que talvez consigamos ver as raízes do problema” (p.120). Outro ponto sensacional: “Eu os apanho fazendo algo errado, mas será que os apanho fazendo algo certo?” (p.120). Olha que maravilhoso isso! Os fariseus só focavam nos erros, fracassos e na culpa dos pecadores, mas o convite aqui é, antes de tudo, não pisar na chama que ainda fumega: “reconheço onde vejo o Espírito em ação na vida deles?”. Se as pessoas estão procurando ajuda é porque estão sofrendo e precisam de esperança, lembra-nos Emlet.
Até aqui, vimos o autor nos mostrar como devemos aprender a ler a vida das pessoas e ler a Bíblia. Agora, ele conectará essas duas realidades. No sexto capítulo, Emlet vai elencar algumas diretrizes gerais para isto, a saber: 1) todas as passagens bíblicas nos fornecem a lente correta para tratarmos quaisquer questões, contudo, obviamente, umas passagens são mais claramente melhores do que outras; 2) na ministração aos outros, nos movemos da vida para a passagem bíblica e da passagem bíblica para a vida; 3) nas situações ministeriais, algumas passagens são usadas com mais facilidade do que outras; 4) prestar atenção às conexões que surgem da passagem como um todo, não tanto às expressões isoladas; 5) lembre-se de que todas as passagens estão de alguma maneira ligadas a Jesus Cristo e à sua obra redentora. Observando essas diretrizes, vemos que elas são a consequência natural do que vimos nos primeiros cinco capítulos. São diretrizes de aplicação de toda a teoria que discutimos até agora.
O diagrama de abordagem é um diagrama visual do que mais repetimos aqui: a hermenêutica da bíblia e a hermenêutica da pessoa. Na passagem, temos o contexto original e o contexto aplicado, enquanto no aconselhado temos sua pessoa sofredora, santa e pecadora. Em outras palavras, estou diante de duas linhas narrativas. Mas como sabemos que houve a “conexão” entre essas duas narrativas? “A aplicação se dá quando as pessoas “habitam” a visão de mundo da passagem de tal modo que obtêm clareza , centrada no evangelho, e direção para a própria situação — e as põe em prática” (p. 135). Mas qual o objetivo de conectar a vida com a Escritura? “O objetivo de conectar a Escritura com a vida é nada menos do que ter vidas modificadas, uma comunidade modificada e um mundo modificado, na medida em que as pessoas ouvem o Deus que fala verdade e amor. Isto é Conversa Cruzada” (p. 135–136).
No sétimo capítulo, o autor anuncia que fornecerá algumas perguntas que podemos usar tanto sobre o texto bíblico como sobre a pessoa que ajudamos, com vistas a estimular essas conexões redentoras. Para ajudar, ele apresenta três metáforas: musical, atlética e culinária. Na primeira, ele pensa na Escritura como um acordeom, que num momento o comprimimos ao máximo e noutros o abrimos ao máximo, a música nasce dessa expansão e contração. Precisamos aproveitar as oportunidades no tempo que temos. Às vezes, temos só 5 minutos, às vezes serão vários encontros. Na metáfora do atleta, precisamos entender que o resultado num jogo de campeonato dependeu do trabalho duro que não vemos no treino entre um jogo e outro. Na metáfora culinária, parecida com a música, precisamos aprender a degustar o que podemos, às vezes um sanduiche, às vezes um banquete. Assim, o que precisamos é estar prontos para toda e qualquer situação de ministração, por isso as perguntas nos ajudam a tirar o melhor proveito possível. O autor, então, separa perguntas para tratarmos com pessoas santas (ver o que Deus está fazendo nelas), sofredoras (ter uma ideia das circunstâncias em que essas pessoas se encontram) e pecadoras (ver o que essas pessoas têm como histórias, valores e crenças).Em suma, usamos a Bíblia para 1) confirmar a identidade do santo; 2) consolar o sofredor e 3) confrontar o pecador. Quanto ao contexto bíblico, precisamos compreender o texto original; como que esse texto se insere na história da redenção; e, finalmente, como aplicar o texto à vida do aconselhado. Veja: é um caminho hermenêutico. Neste ponto, não sei se ficou claro em algum momento até aqui, mas a ação é do Espírito Santo. São perguntas, sondagens, tanto da pessoa como da Bíblia, mas a cura, a transformação, a mudança só pode vir do Espírito Santo. O conselheiro precisa estar convencido disto. No fim deste capítulo, ele trará a pergunta que mais ouvimos as pessoas nos fazerem: “podemos aconselhar incrédulos?”.
É verdade que a categoria de “santos” não se aplica aos não cristãos. Nesse caso, é melhor pensar nos termos de uma categoria mais ampla: “portadores da imagem”. Essa pessoa, apesar de caída, é portadora da imagem de Deus mesmo assim. Isso quer dizer que me aproximo dela com dignidade e compaixão. Eu posso ressaltar as marcas da “graça comum” de Deus na vida dela, mesmo instando-a a submeter a sua vida inteira ao Único, Criador e Redentor. Eu uso uma lente moldada por Deus para enquadrar o bem na sua vida como evidência da “bondade, e tolerância, e longanimidade” de Deus que deve levar ao arrependimento (Rm 2.4). É evidente que essas conversas evoluem com o passar do tempo, na proporção em que você constrói o relacionamento (p. 155–156).
O capítulo em que são apresentados os dois casos, o de Tom e o de Nathalie, e eles são analisados a partir da tríade de identidade — santo, sofredor e pecador- é muitíssimo esclarecedor. Um dos melhores livros que li até agora sobre o assunto, pois, com esses estudos de caso, podemos ver como é possível atuar no Aconselhamento. Ao apresentar os casos: “Onde estão as marcas da graça na sua vida? Em que ponto a pessoa está vivendo de maneira verdadeira, consoante a sua identidade de Filho de Deus vivo?” (santo); “que circunstâncias impactam a luta da pessoa?” (sofredor); e “que desejos, pensamentos, emoções e ações não estão em harmonia com os valores do Reino e, portanto, em “conflito” com a história bíblica?” (pecador). Estas perguntas nos ajudam a delinear a situação em que os aconselhados se encontram, e, no capítulo seguinte, após essa hermenêutica da vida deles, precisaremos considerar as passagens bíblicas para suas situações.
Assim, no nono capítulo, o autor nos apresenta passagens do Antigo Testamento. Na verdade, ele nos apresentará Ageu 2. 1–9, uma passagem que, para muitos de nós, não seria escolhida, mas ele mostrará como que o tema do templo se conecta à dor do caso específico que ele nos apresentou: o templo destruído-restaurado — o templo que somos em Cristo! Sensacional! Agora, em determinado momento do capítulo, o autor diz algo que sempre esteve em minha mente. Ele diz que, esse texto de Ageu, Deus já o usara em uma luta do autor com uma situação de pecado. O que quer dizer isso? Sempre penso que é de nossa vida devocional diária que temos intimidade com Deus e com a Palavra e é de nossas devocionais que vêm a maioria desses textos que, um dia, aplicaremos. Em outras palavras, estamos vivendo com Deus e Deus nos está levando a viver na vida machucada e ferida de outros. Chego ao fim do capítulo com a certeza ainda maior de que Aconselhamento é tudo isso, mas é a lida diária, a maturidade, a disciplina e o treino que nos prepararão cada vez melhor para esse trabalho. No capítulo seguinte, o autor nos levará ao mesmo exercício, mas conectando agora os casos com textos do Novo Testamento.
Do último capítulo, as duas ideias que mais me chamaram a atenção e que tem a ver como o que tenho conversado com amigos pastores é: 1) a total dependência do Espírito Santo; e 2) o valor da igreja como comunidade e família no apoio ao aconselhado. Tenho lido e visto vários “aconselhamentos”, mas o do Emlet tem algo diferente. Se eu pudesse trazer duas palavras seriam: realista e misericordioso. Realista, pois não vende algo que o produto não dará. Há muito aconselhamento aí fora prometendo o que não pode dar. E isso está ligado ao fato de que é um “método” que depende do Espírito Santo agir durante todo o processo de aconselhamento. As perguntas são essenciais, mas se o ES não agir não será a força do meu braço e nem a minha inteligência que farão o que só Deus pode fazer. E nas conversas que ando tendo com outros pastores sobre tudo isso que estou lendo, ouvi muitos falarem também que o aconselhamento se dá na “igreja”, na comunidade da fé, na família de Cristo. É também participando dos batismos, ceias e ouvindo as pregações; orando junto com os irmãos e uns pelos outros etc. Tudo isso ajunta-se ao processo de tratamento. Enfim, os meios de graça estão aí e foram entregues por Deus à Igreja para que fossemos curados. Portanto, não negligenciemos os meios de graça!
Afinal, quem é Clarice Lispector? Havia lido e estudado sua literatura há muitos e muitos anos, mas, neste retorno, muita coisa mudou na minha percepção sobre ela.
Mas por que esse retorno a ela agora? Parece que um ciclo na minha vida pessoal se fecha neste momento (nesta última frase, teria sido melhor se houvesse escrito "um quadro", "uma imagem", "um quebra-cabeça", e não um ciclo). Algumas peças vieram à mão e, agora encaixadas, permitem que eu veja com mais clareza por onde estava andando nestes últimos anos. Vejo em perspectiva, à distância, porém, de um modo em que me permito encontrar um sentido melhor e mais amarrado na trilha que estou seguindo. E é aqui que Clarice renasce. Vou me explicar.
Palavras como fenomenologia, filosofia, introspecção, percepção, sensação, diálogo, audição, o outro etc, estas palavras se juntam e são emolduradas por quatro linhas que as cercam e as colocam dentro de um espaço mais correto e correlato. Quais as quatro linhas que as emolduram? Ministério pastoral, aconselhamento, união com Cristo e missiologia. Todas aquelas peças (e muitas outras que as tenho em meu coração) se colocam dentro de um universo que, finalmente, se fecha dentro dessa moldura. É como aquela estratégia quase lúdica (ou lúdica mesmo) do "mapa mental". Mas, nessa analogia, qual deveria ser a palavra central, a palavra motivadora? Neste momento, enquanto escrevo este texto, a única palavra que me faz sentido e da qual todas as demais surgem é "coração".
"Coração", mas, assombrosamente, não saberia dizer se seria o seu, o meu ou um outro. A melhor resposta, então, a mais justa e que se encaixaria melhor em tudo o que estou tentando dizer, é que eu devo trabalhar numa perspectiva tridimensional, sendo que "coração" é o meu coração, mas diante ou perante o coração de Cristo! Portanto, veja que surpreendente, um coração nada selvagem. Ao contrário, um coração já domesticado, com suas lutas, saudades, falhas e pecados, mas, certamente, um coração em Cristo e não mais um "coração selvagem".
Um coração unido ao coração de Cristo, mas cercado por muitos outros corações, outros também em Cristo, entretanto, em pontos da caminhada nem sempre semelhantes ao meu. E há outros corações, há muitos outros ao meu redor, como um dia o meu também era, que ainda são corações selvagens. E andar com o meu coração perante Cristo é também colocar-me amorosamente perante o outro. O outro e seu coração selvagem. Assim, reaproximo-me de Clarice Lispector, pois, neste momento da minha vida, estou andando, proposital e intencionalmente, muito "perto do coração bravio da vida" (James Joyce).
O livro de estreia de Clarice Lispector, lançado no mês em que ela completava 23 anos de idade, em dezembro de 1943, é uma peça que envolve outras que ajudarão na leitura dessa filósofa precoce. Este primeiro livro de Clarice remete, indubitavelmente, não apenas ao "o lobo da estepe", de Herman Hesse, mas também é sustentado na filosofia de Spinoza. Embora, quando ela lançou seu livro, muitos disseram que ela mesma tinha sido influenciada por Virginia Wolf e James Joyce, mas ela sempre negou que os tivesse lido até o lançamento de "Perto do coração selvagem".
A estreia da Clarice foi estonteante, ainda que, durante muitos anos, ela fosse considerada uma "escritora para escritores". As próprias características de sua literatura a afastava, pois era algo inédito no Brasil. Havia poucas escritoras, mas nenhuma se apresentou nos moldes de Clarice. Um estilo introspectivo, personagens repletos de monólogos interiores e uma ausência de uma narrativa linear. O tempo cronológico não atua efetivamente, mas o tempo da reflexão, da divagação, o tempo do coração. Mas que coração selvagem é esse? A identificação com o coração selvagem é o da personagem "Joana". Ela é a que melhor representa esse coração: uma personagem amoral e que é identificada com a víbora. Ela não se entrega, parece sempre acuada e à espera do melhor momento para dar o bote. Contudo, a identificação com o mundo animal atinge um significado duplo: 1) contra um deus que não nos teria feito "melhor" do que as galinhas, o boi e a víbora. Somos animais como eles e, assim como eles, reagimos ao mundo que nos cerca; 2) reagimos racionalmente? Não, mas pelas sensações. Isto é, as pecepções em Clarice estão no mundo pré-teórico e não racional. Por isso, ela se demora em nos fazer sentir o que seus personagens sentem diante do mundo que se manifesta perante eles. A literatura de Clarice, portanto, é fenomenológica, mas não quer que avancemos para o racional. A nossa identificação com a Natureza se dá pela semelhança e não por nossa diferença.
Agora… Por que perto do coração selvagem e não dentro dele? Estamos perto, mas não a ponto de compreender e nos identificar com Joana? O livro nos mostra a personagem ainda criança, depois nos salta a ela mulher, até que, finalmente, ela estaria idosa naquele último e enigmático caminho? E, sinceramente, quem é o homem que a seguia? Otávio? O Professor? Clarice compartilha suas sensações. Todavia, permanecemos nelas sem que avancemos para reflexões mais definidas… A Natureza É! - eis o deus de Spinoza.
É debaixo de muitas indagações que quero seguir a literatura de Clarice com meus olhos de hoje. Quero caminhar ao lado dela, bem perto de seu coração selvagem e ver como ela desdobrará sua literatura fenomenológica. Sim, Clarice era uma bruxa.