quarta-feira, 24 de junho de 2026

A tatuagem de pássaro (Dunya Mikhail)


Qual a prática comum do Estado Islâmico sobre grupos minoritários étnicos que não cedem à sua religião? Ou você converte ou será eliminado da face da terra. Quem pode não sofrer com a morte imediata são as crianças e as mulheres. Estas, consideradas mulheres a partir dos seus 9 anos de idade, são vendidas como escravas sexuais. Aquelas são preparadas numa lavagem cerebral para se tornarem soldados descartáveis na linha de frente da guerra.

Tudo isso é narrado pela autora iraquiana de “A tatuagem de pássaro”, que reuniu os testemunhos de refugiados e nos presenteou com essa belíssima obra literária. Um tema tão delicado, sensível, cheio de gatilhos, mas apresentado de forma tão literariamente tocante, que, simplesmente, nos vemos envolvido numa história encantadora. enquanto conhecemos os detalhes culturais do povo de Helin e Elias, o casal de nossa história.

Dunya Mikhail trará a situação do povo Yazidi, que sofreu um verdadeiro genocídio pelo grupo dos Daich, um grupo muçulmano sunita, que invadiu o Iraque. Mas quem são os Yazidi? São um grupo étinico-religioso sincrético. Suas crenças misturam muçulmanismo, cristianismo, judaísmo e paganismo do zoroastrismo. Por tudo isso, eles são vistos pelos muçulmanos como pecadores e devem ser combatidos. O maior drama narrado na história do livro se dá com as mulheres yazidis, que são estupradas diversas vezes, coletivamente, pelos soldados do Daich. Muitas delas ficam grávidas, porém seus filhos não são aceitos pela sua comunidade yazidi, porque são considerados muçulmanos. No grupo Yazidi, não há conversão. Você nasce Yazidi e seus pais seguem ensinando sobre a cultura para seus filhos. Assim, as crianças nascidas desses estupros são consideradas muçulmanas e o povo Yazidi rejeita esses bebês.

Surpreende como que a autora consegue injetar numa narrativa tão trágica como essa uma beleza literária de encher os olhos de quem está lendo. Embora haja momentos difíceis de leitura, há narrativas tão lindas, tão sublimes, metáforas e análogias tão doces e delicadas, que ficamos totalmente seduzidos pela obra. Um dos livros mais lindos que já li.

A narrativa trará, então, a história de mulheres sequestradas por esse grupo do islamismo e elas são colocadas à venda no mercado como escravas sexuais. Uma realidade muito comum, mas pouco enfrentada e conhecida. A mais nova delas, Laila, tem apenas 10 anos. A personagem principal, Helin, “a número 27”, título do capítulo que abre o livro, tem 30 anos. Enquanto esperam para serem vendidas, aquelas mulheres são estupradas por seus algozes, que pensam, com isso, estar defendendo a pureza do Islã. No capítulo “Metade da beleza de uma pessoa é a língua”, vemos a incoerência de uma cosmovisão teocêntrica e tirânica, que proibe Helin de falar sua própria língua. Um capítulo em que conhecemos mais esse grupo muçulmano que domina a região. As mulheres são obrigadas a usarem a cobertura do nicabe, que apenas deixa os olhos de fora. Não se pode falar com uma mulher na rua a menos de dois metros de distância dela, pois a polícia religiosa dará chicotadas no homem que não obedecer. O álcool e o fumo são proibidos, mas não o uso de drogas. As mulheres são compradas e usadas sexualmente. “Haram”, que é o contrário de “Halal”, é o que é proibido pela religião, “pecado”, para os adeptos desse grupo muçulmano.

No capítulo “O lego”, nos é apresentada uma metáfora interessantíssima. Essa metáfora prediz o que virá dali para frente na história. Deve ter um nome técnico para isso, pois é uma estratégia narrativa. Até filmes costumam fazer essas analogias que, na verdade, estão figurando o que vai ocorrer com determinados personagens. Mas, aqui, há uma certa tragédia irônica na interpretação equivocada da personagem Helin. Na cena, há uma criança brincando com o lego. Ela constrói uma casa, mas a casa é destruída. E o que parece ser uma metáfora de esperança, pelo menos foi essa a leitura de Helin, “a casa realmente cai”, não para ela fugir de seu cativeiro, mas sua situação retrocede e fica ainda pior do que já estava.

Repentinamente, tudo muda na narrativa. Agora, somos lançados pela autora para entendermos as origens desses personagens e o povo yazidi. “A tatuagem do pássaro” é um capítulo maravilhoso. Destoua completamente da tristeza que vínhamos lendo até agora. Um capítulo cheio de metáforas, analogias e cultura. É o capítulo em que ficamos sabendo como que Elias e Helin se conheceram. Os capítulos que seguirão, antes de retornarmos ao caos do tempo presente, são primorosos, lindos e muito bem escritos. Cheios do colorido cultural dos yazidis. A cena da dança é descrita belamente! E o que é aquela crença do povo Yazidi sobre a baleia que come a lua? Eles saem com panelas e colheres para assustar a baleia e vê-la soltar a lua. Um mito que serve para explicar as guerras sofridas pelo Iraque. O livro nos carrega a uma espécie de alívio de toda aquela crueza do início, para que, então, pudéssemos saber como Helin conheceu o Elias. Um capítulo cheio de beleza e repleto do vermelho do sumagre e do “rádio”. 

“No dia em que meu tio permitiu que eu cuidasse daquela colmeia, ela se tornou meu mundo secreto, do qual tomei consciência. Eu observava como as abelhas trabalhavam. Descobri que a sociedade delas é extremamente organizada e produtiva. Se as vemos de longe, pensamos que se movem aleatoriamente, mas, assim que nos aproximamos do mundo delas, vemos sua precisão. Meu irmão, até os barulhos que fazem é como uma sinfonia conduzida pela rainha que voa alto. Porém, às vezes eu tive que matar algumas rainhas.” “Por quê?”, perguntou Elias. “Pelo bem do reinado”, esclareceu Abdullah.”Às vezes, as colmeias se enfraquecem e eu as combino para que se fortaleçam. Mas, se ficar mais de uma rainha, uma delas voa e leva consigo um exército de abelhas, o que acarreta uma perda maior. Portanto, assim como não é permitido mais de uma esposa na casa, também não é permitido mais de uma rainha na colmeia. Minha comunidade iazidi sabe como eu odeio a poligamia”.

Um livro que me emocionou muitíssimo. Chorei com a história de Amina. Ela queria a criança, mas não permitiram. Ela queria aquela criança, mesmo sendo fruto de um estupro. Era seu filho! Ainda que não deixassem que a criança ficasse com ela, Amina foi atrás de seu filho. Ela sabia que era uma criança inocente do crime que cometeram contra ela. O que vai acontecer com Amina em sua busca por seu filho me quebrou totalmente. Não pelo que acontece em si somente, mas o que aconteceu só ocorre porque ela amava a criança, ainda que seu próprio povo rejeitasse seu filho.

Por tudo isso, durante a leitura, lembrei diversas vezes do belíssimo filme Mucize, que narra também uma delicada comunidade muçulmana no interior da Turquia. Também lembrei de outro filme, “O carteiro e o poeta”, em que vemos toda a beleza do amor sendo massacrada e violentada pelo comunismo. No livro “A tatuagem de pássaro”, é o Estado Islâmico quem vilipendia a beleza. Assim, ficamos tristes e maravilhados com a história contada por Dunya Mikhail. Terminei o livro querendo ler outras obras dessa autora delicada e profunda.

                Fábio Ribas

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Pregação e Histórias (Emílio Garofalo)

 

    O livro do Rev Emílio Garofalo, que tem como subtítulo "O poder das histórias bíblicas", foi escrito não só para mostrar a importância das histórias na vida da sociedade pós-moderna, mas também para resgatar a importância delas para a vida da própria igreja. Contudo, ainda que cheguemos à conclusão de como somos seres criados para as histórias (Homo narrativu), há excessos e extrapolações não só no mundo aí fora, mas quando as narrativas são mal usadas dentro das nossas igrejas. O autor tratará sobre isso também. A proposta não é abandonar o sermão expositivo, mas compreender como que as narrativas podem e devem ser aproveitadas para envolver a mente, a vontade e as emoções do ouvinte em nossos sermões. 

    "Um poderoso livro de histórias" - a Bíblia é um livro de histórias. Não é maravilhoso isso? Maravilhoso que Deus tenha escolhido se revelar desta maneira: por meio de narrativas que atravessam homens, mulheres e crianças na vida de todos nós. A Bíblia não é só narrativas, verdade. Entretanto, muito do que há ali são narrativas. E é a partir dessa compreensão que Garofalo vai enfrentar a delicada realidade de que a maioria de nós, infelizmente, não sabe ler narrativas. Imagine, portanto, o dano disso para o Povo de Deus!  
Se não sabemos ler histórias, como podemos passar para frente a beleza das intrincadas e profundas narrativas bíblicas? Estamos perdendo isso como pregadores e nossas ovelhas também. Nossos pregadores, assim, não estariam quebrando o 8º mandamento do Decálogo? Estamos roubando a oferta maravilhosa de beleza e profundidade que poderíamos entregar nos púlpitos e salas de aula, quando negamos aos nossos ouvintes um mergulho nas águas densas e caudalosas das histórias da Palavra de Deus. Todavia, se o mundo declina na sua formação educacional, evidentemente, também temos sido atingidos por essa mediocridade. Acredito piamente que a Igreja pode e deve ensinar os cristãos a ler melhor a Bíblia. E isso, sim, passa pela leitura de outras literaturas. Para nos ajudar nisso, o autor trará nossa atenção para percebermos do que são feitas as narrativas: enredo, personagens, vozes, silêncios, omissões etc. Precisamos mergulhar nisso, para tirarmos mais do que apenas a ideia geral da perícope. O texto bíblico é muito mais complexo do que isso. Não há apenas uma história, mas a história da redenção que se vê narrada de muitas maneiras e por muitas histórias principais e secundárias também. 

    Não apenas precisamos ler histórias, pois a própria Bíblia é feita de histórias, mas eu e você somos seres compostos de narrativas. Somos feitos de histórias, somos feitos para as histórias. Entendemos o mundo ao nosso redor e nos entendemos por meio de histórias. “Cosmovisão” não é apegada em nós apenas por meio de definição e doutrinas, mas é pelas histórias da cultura que nos molhamos nela. Somos peixinhos dentro de um aquário de narrativas que são absorvidas desde o nosso nascimento. Somos nossas histórias. E conhecer/ler boa literatura também nos ajuda a conhecer o outro por meio das histórias deles. Histórias nos aproximam uns dos outros. Gostamos e nos identificamos com quem gosta das mesmas histórias que nós. Contudo, não podemos ser ingênuos de não notarmos que histórias funcionam para o bem e para o mal. Fofocamos, injuriamos, difamamos, mentimos, manipulamos por meio de histórias. Não é surpreendente isso?

    "Os erros comuns ao pregar histórias" é um capítulo repleto de exemplos (o que senti falta em determinado momento no livro do Tim Keller, “Pregação”). Aliás, o livro de Garofalo é abundante em exemplos e, principalmente, citações acertadíssimas. Como que as tantas citações feitas por ele caem sempre como uma luva na explicação que ele está desenvolvendo num determinado trecho. Digo isso, porque leio muitos livros carregados de citações que, muitas vezes, tangem, mas não ilustram e nem cooperam para uma melhor compreensão do que vinha sendo dito. Depois de cada citação lida, eu sempre abria um sorriso na leitura e divagava pela beleza do que acabara de ver. 

    Ainda no assunto do capítulo dos “erros”, logo no primeiro erro, veio a lembrança da sala de aula em que sempre digo aos alunos que, diante de qualquer texto, já partimos para sua interpretação antes mesmo de termos a certeza de compreendê-lo. Isso faz parte de uma cosmovisão pós-moderna que duvida da intenção do autor e da mensagem primeira do texto para um leitor original. Daí, já saímos em busca da validação de nossas próprias ideias no texto. Agora, imagine isso na Bíblia? Nem precisa imaginar, pois, tragicamente, aplicamos esse mesmo erro em que o mundo se viciou na leitura de seus textos à Bíblia. Esse erro se manifesta sempre que, ao terminar a leitura, o pastor/professor pergunta às suas ovelhas/alunos: “O que você entendeu?”. Ora, uma pergunta dessa terá que aceitar qualquer resposta, não é mesmo? Devemos fugir dessa e de outras perguntas similares e, na verdade, antes de qualquer coisa, apresentar o que o autor (primariamente, o Espírito Santo) está dizendo ao seu público original, mostrar o contexto histórico, o gênero textual em questão, as características daquele texto e o que se queria passar àquele público. Só depois de desenvolver e trabalhar uma boa compreensão do que se leu é que, finalmente, devemos seguir para a interpretação e, então, seguirmos às aplicações ao nosso público de hoje. Resumindo, queimamos etapas, temos pressa e nos aproximamos do texto sem respeitar Sua autoridade.
    
    Gosto demais dessa ideia de habitar a história. Histórias são vivas, mas, infelizmente, podem ser pregadas de modo morto. Os pregadores precisam mostrar ao seu público que sabem que estão diante da Palavra de um Deus vivo. Apreciei demais também o método aristotélico de ethos, logos e pathos.  
Na retórica clássica, o discurso persuasivo envolve ethos, pathos e logos.160 O ethos está ligado à autoridade e confiabilidade do orador. Passa por sua apresentação pessoal, vestimenta, renome, história e relação com os ouvintes.161 Já o logos está ligado ao discurso em si: ideias bem concatenadas, explicações claras, um discurso com início, meio e fim etc. O pathos, por último, passa pelo apelo emocional da mensagem. Toda mensagem busca mover os ouvintes em mais do que sua razão, bem como persuadi-los por meio das emoções inerentes ao próprio tema. É muito importante entender que não estamos falando de manipulação emocional, chantagem ou golpe baixos, mas dos próprios elementos passionais do texto ou do assunto. As histórias carregam consigo elementos emocionais: indignação, pena, saudade, medo, vergonha. O orador precisa usar isso. E o leitor ou ouvinte precisa senti-los (p. 116-117).
    Como disse no início, Garofalo não se furta (e nem nos rouba) de nos presentear com muitos exemplos e é isso o que ele nos trará ao final de seu livro, mostrando e aplicando tudo o que ele abordou em narrativas bíblicas. Precisamos enfrentar o texto como ele se apresenta, fugindo dos moralismos fáceis e sem revelarmos Cristo ao nosso ouvinte. Enfim, precisamos ler mais, ler mais narrativas, aprender e ensinar como devemos ler narrativas e, a partir delas, devolvermos a beleza de Cristo e a feiura de nosso pecado de volta ao centro da questão. Somos seres imaginativos, para o bem e para o mal. Se queremos comunicar a Palavra de Deus para pessoas feitas de histórias precisamos aprender a melhor maneira sobre como apresentar as melhores histórias para elas. Eduquemos nossa imaginação!
Como Gene Veith bem coloca: O ateísmo é um ato da imaginação. O niilismo é uma construção imaginativa da mente humana. Na verdade, todas as religiões falsas são inventadas por seres humanos usando sua imaginação criativa e projetando assim suas criações mentais para o mundo na forma de doutrinas, instituições e costumes. Essas religiões imaginativamente feitas envolvem a criação do que a Bíblia chama “ídolos” — “imagens” — e os sistemas religiosos que crescem em torno dessas imagens, que a Bíblia denomina “idolatria”. O mesmo pode ser dito das falsas cosmovisões (p. 169).

            Fábio Ribas

sábado, 6 de junho de 2026

Persépolis (Marjane Satrapi)

 

    Persépolis, de Marjane Satrapi, é uma história em quadrinhos, em que a autora narra sua própria vida, desde seus dez anos de idade, quando acabara de ocorrer a Revolução Iraniana, até o seu tempo na faculdade de Artes do Irã. Há um interregno em que a personagem passa um tempo morando sozinha na Europa.

    O livro foi relançado em 2020, pela "Quadrinhos na Cia", numa versão "obra completa". Originalmente, eram quatro volumes. Acompanhamos a dura realidade de Satrapi crescendo num ambiente de opressão religiosa, desde sua infância. É uma obra intimista em que ouvimos suas dúvidas, indagações, busca por identidade e luta como mulher em meio à sociedade que a cerca.

    Uma obra que nos coloca no lugar do "outro" e nos aproxima do Irã, sob a ótica de uma menina e sua família. Temos a oportunidade também de nos colocar "na pele" de uma estrangeira na Europa. Muito mais do que isso, Satrapi é uma menina de apenas 14 anos de idade, vivendo no estrangeiro europeu. Os choques culturais e os choques reversos são inúmeros e com eles aprendemos a ver o mundo pelos olhos de Marjane Satrapi. Ainda que não concordemos com todas as opiniões da autora, somos convidados a ver como ela enxerga e isso nos ensina muito sobre ela, sobre sua cultura e os desafios que muitos de sua geração passam. Deu-me vontade de ler os outros dois livros dela.

    Durante toda a leitura de Persépolis, fiquei imaginando se a autora, em algum momento, descobriria esta verdade, que a esquerda tem como projeto a instalação de um regime que fere as liberdades individuais que ela tanto defendia para si mesma. Mas não. O livro termina e não vemos que ela tenha tido nenhuma luz diferente sobre suas crenças políticas. Pelo contrário, os anos de 89, 90 e 91 passam sem sequer ocorrer uma única menção sobre o mundo comunista que ruía na Europa (lembra da queda do muro de Berlim?). O livro também terminará com Satrapi mergulhada em algumas contradições feministas, ainda que ela tenha três homens em sua vida que não são nada daquilo que as teorias feministas, que ela tanto defende, dizem sobre "todos os homens": seu pai, seu tio e seu avô.

    Quando ocorre a Revolução Iraniana, em 1979, Satrapi está com apenas 10 anos de idade. Naquilo que ela consegue absorver dos eventos ao redor, ela se coloca sempre ao lado dos revolucionários. Seus pais eram de esquerda. E a esquerda encontra nos religiosos muçulmanos seus aliados na derrubada do regime monárquico pró-Ocidente do Xá Reza Pahlevi. Todavia, assim que essas duas forças conseguem derrubar a monarquia, os muçulmanos instauram um regime religioso teocrático que passa a perseguir seus antigos aliados.

    Nestess últimos anos, também temos visto, ao redor do mundo, se concretizar essa aliança entre a esquerda e grupos muçulmanos. Uma aliança incompreensível para muitos, uma vez que se dá entre duas cosmovisões que deveriam ser excludentes, pois uma é sustentada sobre uma religiosidade teocrática e a outra sobre o ateísmo anti-tudo aquilo que se chama "Deus". Além do fato de se unirem para derrubar um inimigo comum, poderia haver algo mais profundo que unisse esquerdistas e muçulmanos colocando-os do mesmo lado do tabuleiro? Nas palavras do próprio professor Ibrahim Nasser, o Islã possui uma "doutrina social que impõe aos ricos que deem parte de sua riqueza aos pobres". Isto é um ponto de intersecção que revela porque ambos os lados se autonomearam revolucionários e vêm, nos últimos anos, construindo alianças mundo afora. Porém, como prova a experiência iraniana, não será de se admirar que, uma vez que um desses dois grupos tome o poder em algum lugar, venha então a perseguir o outro.

    Há ainda algo que me incomoda no livro e, certamente, o coloca ao lado dos livros de Orhan Pamuk (autor turco, premiado Nobel de literatura): essa parcela oprimida do mundo árabe é atraída por um Ocidente pós-cristão e laico. Muitos se identificam e buscam refúgio numa Europa sem Deus, pois estão fugindo de uma teocracia totalitária. Eles não querem Deus ou uma versão religiosa diversa da deles, pois estão fugindo de uma sociedade religiosa que os oprime e cerceia suas liberdades em nome da religião. Assim, o encontro de Satrapi com o chamado "mundo livre" é o encontro com a liberdade sexual, o consumo de drogas e o direito ao divórcio e coisas afins. É isso o que a Europa pós-cristã tem a oferecer aos oprimidos do Oriente. Mesmo a versão cristã que Satrapi conhece é a de um cristianismo muito semelhante ao Estado religioso do qual ela está fugindo. E isso me faz pensar tanto no meu cristianismo, nas propostas de cristianismo de algumas tendências religiosas, que, infelizmente, parecem muito mais um "Islã" do que o Evangelho da liberdade de Cristo Jesus.

    O livro da Satrapi entra ao lado de outros livros importantes, caso queiramos, de fato, conhecer a realidade do mundo árabe. Não apenas conhecê-los, mas ver o que de nós eles conhecem também. Ver como eles veem o mundo de cá, que os observa e intervém na sociedade deles. Uma interferência nem sempre bem vista por Iranianos e que demonstra interesses bem mais mesquinhos do que os que o Ocidente publica na mídia, justificando essas interferências "em nome da luta pela liberdade e dos direitos humanos".

                Fábio Ribas

PS - Retorno com a resenha deste livro, porque a autora faleceu no dia 04 de junho de 2026, aos 56 anos. A família divulgou que ela morreu de tristeza, consumida pela dor do falecimento do marido, que se foi há pouco mais de um ano antes dela. 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Pregação - comunicando a fé na era do ceticismo (Tim Keller)


Logo no prólogo, somos lançados à indagação: "o que é uma boa pregação?". Keller já nos diz que não devemos esperar de seu livro um "manual de pregação" do tipo "dez passos para preparar um bom sermão". Contudo, ele reconhece que devemos orar para que o ES abra o entendimento das pessoas que nos escutam, pois há bons sermões que atingem umas pessoas e não atingem outras, assim como há sermões "ruins" que causam forte impacto onde quer que chegue. Por toda essa realidade, o que faz de um sermão um bom sermão?

Em sua introdução, Keller nos relembra que "pregação, sermão", enfim, o uso que fazemos da Palavra, isso pode aparecer em três níveis: 1) fala comum, conversas informais; 2) ensino; 3) sermão. Em todas, na verdade, precisamos nos esmerar, pois são expressões do dom da fala do Espírito Santo.

Em "Pregando a Palavra", o autor nos ensina que devemos nos perguntar não apenas “o quê pregar?”, mas também “como pregar?”. Será óbvio responder que precisamos pregar a Jesus Cristo, mas é um óbvio que precisa ser dito. Agora, como pregar a Jesus Cristo em nossos sermões? Essa pergunta nos leva à seguinte: que tipo de pregação devemos apresentar? Keller mostra que há como reconhecer uns seis tipos de sermão, mas ele se concentrará sobre dois: tópico e expositivo. Aqui, surgirão novas perguntas e precisamos estar atentos e dar conta de respondê-las. Qual tipo de sermão usar? Passaremos um ano (ou mais) pregando num livro? E o nosso público moderno que muda de cidade para cidade? E eu aqui até acrescentaria: que muda de igreja para igreja! Preparemos sem título? E sem tópico? Explicaremos o texto sem aplicação? Prepararemos verso por verso a cada vez, como João Crisóstomo e Calvino?

Como me ensinaram a pregar? Preguei muitíssimo no campo missionário, embora não fosse essa a minha intenção. "Prega a Palavra", de Karl Lachler, na área de homilética, foi o título do livro que mais me marcou no Seminário, talvez por ser um livro muito prático e objetivo. Mas foi quando associei o método desse livro com a estrutura da redação de vestibular que, finalmente, encontrei o caminho para mim, que sou professor da área de Letras. Hoje, eu sei que prego de diversas maneiras, dependendo do texto, do propósito e do público.

Mais uma vez, parece desnecessário dizer que se deve pregar o evangelho sempre, mas não é. O pregador está sempre diante de dois grandes e terríveis erros que ele poderá cometer: ou ele poderá se perder no legalismo ou se perderá no antinomianismo. Esses são os dois grandes inimigos do evangelho. Usando a metáfora apresentada por Keller, o legalismo carrega sobre seus ombros uma colcha de rituais para barganhar com Deus e o antinomianismo, não quer carregar nada. Ambos nascem de um coração orgulhoso e vaidoso que não compreendem o que seja a graça de Deus. Precisamos lutar contra esses inimigos, enquanto pregamos tanto o texto da Palavra como o Cristo do texto. Precisamos seguir a regra neotestamentária de Emaús: revelar Cristo em toda a Palavra de Deus!

No capítulo “Pregando Cristo em toda Escritura”, minha atenção foi captada, especialmente, por dois motivos. Primeiro, o capítulo fez-me reconhecer que não prego muito a Cristo por meio de tipologias, só aquelas que a própria Bíblia escancara. Pregar Cristo pelos temas, gêneros ou mesmo pelos personagens nunca tomou muito do meu investimento nessa área. Segundo, realmente é possível que preguemos “tudo durante um sermão” e, por fim, não entreguemos Cristo aos nossos ouvintes! A atenção aqui precisa ser redobrada pelo pregador.

“Pregando Cristo à cultura” foi o capítulo ao qual mais me identifiquei. Entendi o passo a passo que ele apresentou, embora ainda acho que ele poderia dar mais exemplos para termos referências com as quais trabalhar melhor depois. Ainda assim, veio muito ao meu encontro. Um dos pontos que mais me fez pensar foi a realidade da igreja multiétnica que Keller pastoreia, em que há jovens americanos magoados e feridos por pais que os colocaram em segundo lugar e, ao mesmo tempo, há jovens asiáticos magoados e feridos por pais que os cobram excessivamente. Ambos se sentem traídos por seus pais: por um lado, fracassados por não terem tido o amor e a atenção devida, por outro, fracassados por não darem conta de satisfazer as expectativas. Como preparar um sermão que abarque isso num mesmo público, devemos nos perguntar junto com o autor.

“A pregação e a mente tardia”. Nesse capítulo, Keller tratará da Pós-modernidade e ele o fará de modo mais claro e profundo do que o último livro que li, o "Pregando na Pós-modernidade", de Zack Eiswine. Keller chamará a pós-modernidade de “modernidade tardia”. A partir de um autor do início do século XX, Keller identifica a mente pós-moderna como aquela cuja ideia básica "consista na subversão de toda autoridade externa ao eu". Assim, saímos de uma mentalidade que tentava se adaptar à realidade que a cerca para uma outra que, agora, acredita que ela molda e cria a realidade. Por isso é tão importante que identifiquemos as narrativas culturais que servem de referência ao pós-moderno, pois há uma rede de crenças oculta que sustenta a atual secularização. É o que Keller vai chamar de "impensados". É aquilo que subjaz, são as crenças profundas, que precisamos discernir para responder corretamente a elas.

“Pregando ao coração”. Capítulo fantástico para conhecermos melhor a Jonathan Edwards. Concordo com tudo o que pensava Edwards a respeito do ser humano. Afeições são diferentes das emoções e elas movem o ser humano.

“A pregação e o Espírito”. Definitivamente, a cereja do bolo de todo o livro. Amei aquela diferença entre dons e fruto do Espírito. Dom é o que eu faço. Fruto é quem eu sou. Ainda que eu exerça os melhores dons de modo maravilhoso, isso não significa que o fruto venha amadurecendo em mim. O que eu faço - desenvolver os meus dons - tem a ver com técnica. Quem eu sou - amadurecer o fruto do ES em mim - tem a ver com caráter e intimidade com Deus. Outro ponto sensacional tratado por Keller é ver que, depois de tudo, depois de tudo o que eu fizer para me esmerar sobre a pregação, tudo o que surgirá a partir disso, devo poder dizer a Jesus: "Então, era você o tempo todo"! Todo louvor e toda glória ao Senhor! Ele em nós. Ele em mim. No fim de tudo, só uma coisa importa na vida do pregador: piedade!

Por fim, Keller dará vários exemplos de sermão a partir de textos bíblicos. Um livro obrigatório para ser lido por todo pregador que anseia em se esmerar na arte da pregação para a glória de Deus.

    Fábio Ribas

Eu hoje sonhei com mamãe...

  Desde a morte de mamãe, no dia 08 de março de 2024, sonhei apenas algumas vezes com ela. Poucas vezes, muito poucas vezes, mas sei todos o...