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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Cidade de Deus - Livro II (IV/2025)

    (II, I): "As pessoas não querem aprender. Elas não querem se dobrar diante da evidência. A mente, a razão, não quer se submeter. Precisamos desdobrar e estender os argumentos, porque a razão humana, fraca e frágil, resiste à luz da verdade e não quer ser transformada pela fé e pelo amor". Que coisa mais atual, não? 

    Agostinho recorda o que tratou no Livro I: 1) que não se deve culpar os cristãos pela calamidade sofrida em Roma, achando que os males sofridos foi por esses proibirem os cultos aos demônios; 2) deve-se reconhecer a misericórdia que houve por parte dos bárbaros invasores àqueles que usaram o nome de Cristo para serem poupados dos direitos da guerra que esses invasores tinham (roubar, matar, estuprar); 3) por que veio sobre cristãos e pagãos os mesmos infortúnios? 4) finalmente, Agostinho consola as mulheres dizendo que elas foram "feridas no seu pudor e não na sua castidade". 

    Agostinho agora passará a lembrar que a decadência da beleza moral de Roma já havia começado, independente da existência dos cristãos (II,II). (II, III) Agostinho apela para o tempo antes da encarnação de Cristo, para mostrar que males sempre vieram sobre toda a Roma. (II, IV) A tese aqui de Agostinho é mostrar que os deuses romanos nunca se importaram com a imoralidade de seus fiéis. "Alguma vez, houve da parte dos deuses incentivo à virtude em vez de festins de vícios?" (II, V). Havia uma festa celebrada à mãe dos deuses, uma festa de obscenidade tal que Agostinho questiona se aquelas músicas cantadas a essa mãe dos deuses seriam cantadas às mães desses cantores quando chegassem em casa. Ou se os heróis virtuosos de Roma, como um senador que Agostinho cita, gostaria que sua mãe fosse elevada ao status de deusa e recebesse adoração obscena como aquela. Ouvindo este argumento de Agostinho, fica fácil ver como houve também desvios no cristianismo: os cristãos substituíram a sede de adoração pagã, que os levava à orgia, pela adoração de "heróis virtuosos" como Maria, mãe de Jesus, que saciaria essa sede de intercessão, levando seus devotos à virtude... Isto é uma contextualização (uma contextualização equivocada). 

    (II, VI) Agostinho mostra que os deuses nunca refrearam a imoralidade dos romanos. (II, VII) A filosofia grega é superior à mitologia romana. (II, VIII) Até os poetas, que encenam nos teatros suas histórias, conseguem velar as obscenidades, por que seus deuses não? (II, IX) "Nossas leis das Doze Tábuas, ao contrário, tão avaras da pena capital, decretaram-na para todo cidadão que manchasse a honra alheia por meio de poesias ou representações ultrajantes. E, com efeito, ao julgamento, à censura legítima dos magistrados, não ao capricho dos poetas, que nossa vida deve ser submetida; devemos estar ao abrigo da injúria, se não nos é permitido responder e defender-nos em juízo" - há limites aos próprios poetas, por que os deuses são tão licenciosos? (II, X) O fato dos deuses não reagirem às mentiras criadas pelos poetas no teatro sobre eles é que, na verdade, esses deuses são demônios. Os demônios é que não se importam com o que se digam deles. (II, XI) "Com efeito, por que honrar os sacerdotes que tornam os deuses propícios, graças ao sangue das vítimas, e apontar como infames os atores, instrumentos dos prazeres cênicos reclamados pelos deuses como honra cuja omissão, segundo suas próprias ameaças, provocaria a cólera celeste?", defende Agostinho."

    Os romanos proibiram em obras como A República, de Cipião, que os poetas difamassem os homens, mas eram liberais com o maldizer aos deuses. Enfim, os deuses eram baixos e rebaixados. Mas qual o objetivo de Agostinho com esse argumento? Por que estariam os deuses romanos preocupados com o Cristianismo (amaldiçoando Roma, por causa dos cristãos) se os próprios romanos em suas poesias e teatro sempre zombaram deles? (II, XII); Agora Agostinho foi genial desnudando a hipocrisia dos romanos: os deuses haviam fornecido as artes para que, por meio delas, eles fossem adorados, por isso, os gregos honravam os atores, pois eles eram os sacerdotes desse culto exigido pelos deuses; os romanos, que censuravam toda arte que difamava os homens, incentivavam o escárnio aos deuses por meio delas e, estranhamente, consideravam os atores homens indignos não só de pertencerem ao Senado, mas à própria tribo; ao que Agostinho expõe a diferença entre os gregos e os romanos, pois não deveriam todos estranhar que os próprios deuses fornecessem o culto de seu escárnio? Diz Agostinho: "Os gregos erigem em princípio: Se se deve culto a tais deuses, devem-se honras a tais homens. Mas é impossível honrar semelhantes homens, objetam os romanos. E os cristãos concluem: Logo, é impossível adorar deuses assim" (II, XIII). 

    A razão nunca antes dita a mim (será que algum dos meu professores, de fato, leu "Cidade de Deus"?) do porquê Platão condena para fora da cidade ideal os poetas está aqui. Os poetas aqui são os autores desses teatros que louvam as obscenidades dos deuses, mas como bem entendeu Platão, poderiam os poetas com essas histórias sobre os deuses educar a juventude? Os poetas só proclamam seus vícios, porque é assim que os deuses querem ser cultuados (II, XIV, 1); portanto, Agostinho diz que se deve preferir Platão a todos esses cultuadores de demônios, os poetas (II, XIV, 2); para mim, mais uma vez, está claro o mecanismo mental que será usado para abrir no cristianismo a possibilidade da veneração dos santos (II, XV); os romanos não receberam de seus deuses leis para viver melhor, que deuses são esses que abandonam seus adoradores? (II, XVI); os deuses não teriam dado leis por serem os romanos já obedientes a elas na mente e no coração? Agostinho mostra que a história revela uma Roma que cresce de erro em erro.

    "Você, contudo, vê, segundo penso, e quem quer que repare nisso perceberá com bastante clareza em que lodaçal de péssimos costumes Roma se atolou antes do advento de nosso Rei celeste" - este é o argumento que Agostinho vem desenvolvendo diante dos Romanos que queriam acusar que suas desgraças só vieram sobre eles por causa do cristianismo (II, XVIII, 3); o cristianismo foi um freio na devassidão e na vida dissoluta dos romanos, que, colocando fim ao culto de falsos deuses, arrancou-os de uma adoração depravada (II, XIX); Agostinho mostrará que a opção dos inimigos do cristianismo é um estilo de vida corrupto, licencioso e depravado que só irá destruir cada vez mais à Roma (II, XX);  até seus filósofos e políticos falaram da decadência romana, antes do cristianismo chegar, argumenta Agostinho, que, então, declara: "Verdadeira justiça existe apenas na república cujo fundador e governo é Cristo, se nos agrada chamá-la república, porque não podemos negar que seja também coisa do povo. Se, porém, tal nome, que em outros lugares tem significado diferente, se aparta muito de nossa linguagem corrente, pelo menos na Cidade de que diz a Escritura: Coisas gloriosas disseram-se de ti, Cidade de Deus, se encontra a verdadeira justiça" (II, XXI); os deuses romanos nunca se preocuparam com o bem viver do povo, abandonando-os à dissolução (II, XXII); olha a teologia da História de Agostinho: "Não quero atribuir a não sei que deusa Marica a sangrenta felicidade de Mário, mas especialmente à oculta Providência de Deus, para tapar-lhes a boca e livrar do erro os que tratam esse ponto sem parcialidade, mas com prudência e tino. Com efeito, se algum poder os demônios têm nessas coisas, não é mais do que o permitido pela secreta vontade do Onipotente" (II, XXIII).

    "Por que cuidaram os deuses de anunciar como faustos semelhantes acontecimentos e nenhum deles tratou de corrigir Sila, fazendo-o sabedor dos inúmeros males que ocasionariam suas furiosas guerras civis, não apenas capazes de desonrar a república, mas até mesmo de acabar com ela? É óbvio, com efeito, como já declarei tantas vezes e as Letras Sagradas nos mostram, que esses deuses não passam de demônios" (II, XXIV, 1); se os deuses romanos tivessem abandonado seus adoradores por causa do vil comportamento deles, mas não! Os deuses eram piores que seus adoradores, como, então, querer colocar sobre Cristo os males de Roma? (II, XXV, 2); se é verdade que, dentro dos templos, em particular, a poucos, os deuses falam de virtudes, enquanto no público dizem torpezas, mais uma razão para ver sua pérfida dubiedade (II, XXVI. 1); não há virtude nos deuses. Eles exigiam que os atores fizessem em cena suas torpezas, mostrando em público aquilo que é feito no segredo do quarto, exigindo adoração (II, XXVI, 2); os deuses não apenas exigiam dos poetas e dos atores que se mostrassem publicamente suas torpezas, mas incentivavam o público que os imitassem (II, XXVII); o que os inimigos do cristianismo detestam? Que o povo vá às igrejas ouvir como viver bem para herdar a vida eterna? O povo ouve dos púlpitos virtudes para fugirem dos vícios ensinados pelos falsos deuses (II, XXVIII). 

    Agostinho termina o livro II com um convite aos romanos: arrependam-se! "Volve-te, agora, para a pátria celeste. Por ela trabalharás pouco e nela terás eterno e verdadeiro reino. Não encontrarás o fogo de Vesta, nem a pedra do Capitólio, mas Deus, uno e verdadeiro, que não te porá limites ao poder, nem duração ao império" (II, XXIX, I). "Não andes à caça de deuses falsos e enganadores! Despreza-os e afasta-os de ti, elevando-te à verdadeira liberdade! Não são deuses, são espíritos malignos, para quem é suplício tua eterna felicidade" (II, XXIX, 2).

            Fábio Ribas

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Cidade de Deus - Livro I (II/2025)

 

    Dizer que estou maravilhado é pouco. Já havia lido "Confissões", "Solilóquios" e "A Trindade". Livros arrebatadores! Qual não está sendo, contudo, minha surpresa com a profunda argumentação agostiniana neste "De civitate Dei"? Agostinho, neste "LIVRO I", inicia sua defesa contra as acusações de ser o cristianismo o responsável pela ruina dos romanos ("os antigos deuses romanos estariam enfurecidos por terem sido esquecidos"). Todavia, a sede de conquistar novos reinos, a luxúria, a devassidão moral de seus habitantes e a idolatria é que são, para Agostinho, a verdadeira causa da derrocada romana. Mas o que desperta essas acusações contra o Cristianismo?

    Os bárbaros entraram em Roma. Entretanto, contextualizando melhor, esses "bárbaros", na verdade, são cristãos arianos (uma seita que não acreditava nem na Trindade e nem na divindade de Cristo). Por isso, eles poupam os cidadãos romanos que se refugiaram nos templos cristãos. Isto, indubitavelmente, é algo inédito. Agostinho mostra que nunca se vira um povo conquistador fazer esse tipo de misericórdia com o povo conquistado. Quando, antes, se ouvira falar de pessoas poupadas por terem se abrigado nos templos pagãos? Este é o início do argumento de Agostinho: o bem que o cristianismo trouxe ao Império Romano. Em outras palavras, estamos diante de um processo civilizatório. Mas, para mim, o mais extraordinário está por vir, que é toda a discussão de Agostinho sobre o suicídio das mulheres que foram estupradas pelo povo conquistador. Vamos entender.

    Os pagãos estão acusando o Cristianismo de trazer a desgraça à Roma. Eles acusam indagando de que teria valido a conversão ao cristianismo e o abandono aos antigos deuses, se os males vieram tanto sobre pagãos como também sobre os cristãos? E é a partir disso que este gigante - Agostinho - começa a fazer uma teologia da história e da Providência. Se males vieram indiscriminadamente, também vieram bens sobre todos, defende Agostinho. Isto é o esperado na "Cidade dos homens", enquanto a "Cidade de Deus" não se revela completa e plena (o que só ocorrerá na volta do Senhor Jesus). Na Cidade dos homens, que está entrelaçada à Cidade de Deus, tanto males como bens ocorrem indiscriminadamente. Porém, o que se deve atentar não é isso, pois, para Agostinho, o que importa é a diferença no modo que cristãos e pagãos enfrentam seus males e bens. Tanto num quanto no outro, os homens se perdem. Os cristãos, defenderá Agostinho, enfrentam as adversidades da vida tanto para sua purificação, como para o testemunho da glória de Deus, pois os cristãos vivem na esperança de um mundo por vir e os pagãos não!

    É no avanço do livro que descobrimos o que realmente seriam esses tais males. Os bárbaros que invadiram Roma pouparam os que se refugiaram nas igrejas, pouparam tanto a cristãos como a pagãos. E Agostinho joga na cara dos pagãos isto: Como que vocês se levantam contra o Cristianismo, se, durante a invasão dos bárbaros, vocês mesmos foram poupados por se refugiarem nas nossas igrejas? Ainda assim, os bárbaros fizeram aos outros o que era próprio das guerras: assassinaram, roubaram, estupraram. Diante do estupro, em Roma, era de se esperar que tais mulheres se suicidassem. Os Romanos justificavam essa prática (tanto o suicídio da mulher depois do estupro, como o suicídio para não enfrentar o estupro) com a história de Lucrécia, que fora violada e, depois, suicidara. Ela era o padrão dos romanos para suas mulheres. Agostinho irá trabalhar essa história de Lucrécia. Primeiramente, ele louvará as suas virtudes, pois ela se guardara casta num mundo libertino. Porém, uma vez estuprada, "Lucrécia mata Lucrécia". E por que ela faz isso? Agostinho trabalha principalmente a ideia da honra social, diante das pessoas. Mas as virgens cristãs também foram estupradas.

    Diante do estupro, Roma esperava que as mulheres suicidassem, tanto as cristãs como as pagãs. Agostinho irá dizer que na lei de Deus está escrito: "Não matarás"! "Lucrécia não podia ter matado Lucrécia". As mulheres cristãs não vão suicidar, por amor ao Deus que elas servem e à Palavra dEle. Embora pareça honroso se matar para não ser violada, protegendo a castidade do corpo, Agostinho defende que a verdadeira castidade é a da alma e um estupro não tiraria essa virtude das mulheres! Mas o "Não matarás" tem exceções? Sim, na Bíblia, há exceções, contudo nenhum dos casos é por razões de honra social (podemos mesmo substituir: "nenhum dos casos é por razões culturais"). A cultura não pode legitimar crimes! As exceções bíblicas surgiram quando o próprio Deus assim o fez. Ligado a este argumento, Agostinho dirá que só se pode tirar a vida para agradar a Deus em santidade: é o caso dos mártires! E mesmo assim essa entrega da própria vida à morte deve ser quando a situação for bem clara, pois a orientação do próprio Jesus é de que seus discípulos, uma vez perseguidos, saiam para outra cidade. 

    O que mais me impressionou é que toda essa defesa de Agostinho não apenas fará com que o suicídio das estupradas pare de ser incentivado na cultura romana, como ele conseguirá até o apoio estatal para essas mulheres! O que isto significa? Este é um caso claro, óbvio, espantoso da transição da mentalidade pagã para a civilização promovida pelo Cristianismo. Fico pensando nos casos de infanticídio indígena; circuncisão feminina; etc. É fato que o Evangelho, tendo o próprio Povo de Deus como referência no meio dos povos, traz benefícios inquestionáveis a tantas culturas mundo afora. 

    No fim do livro I, encontramos a polêmica levantada sobre o teatro. Muitos acusam Agostinho de ser contra as artes cênicas, por causa dos últimos capítulos do primeiro livro da Cidade de Deus. Porém, sei que há outra obra em que ele fala sobre a importância da arte para a formação do ser humano e, além disso, o contexto no LIVRO I expressa que a acusação daquelas artes cênicas era o seu uso profano e libertino. Mas sigamos para o próximo livro. 

    No LIVRO I, são assuntos muito interessantes para se desenvolver a dignidade da mulher e a questão da condenação do suicídio. 

                            Fábio Ribas

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...