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sábado, 4 de janeiro de 2025

De volta para o meu lugar (I/2025)


    O livro “De volta para o meu lugar”, de Rosangela Marto, tem como subtítulo “A prova de que o amor e a felicidade sabem o caminho de casa”. O livro é uma narrativa envolvente sobre encontros e desencontros de uma história de amor (mais desencontros do que encontros, na verdade). 
    Gostei muito da narrativa da escritora. Um tom pessoal e bem construído. São memórias de uma vida de decisões equivocadas e que trazem sua conta à escritora. Depois de preparar para o leitor toda a apresentação dessas idas e vindas com o amor de sua vida, Rosangela acaba se envolvendo num casamento com uma outra pessoa e que lhe dá duas filhas. Todavia, após sua separação, ela se envolve com um narcisista abusador e é aqui o foco do livro. (A PARTIR DAQUI TEM SPOILER)
   Ela tomou decisões erradas que só a afastaram cada vez mais daquele primeiro e verdadeiro amor da sua juventude. Como acontece com pessoas feridas e magoadas por caírem em armadilhas por suas próprias decisões equivocadas, ela busca por "culpados" e, infelizmente, como ocorre com muitos, vemos ela culpar explicita e implicitamente, por umas quatro vezes pelo menos, a Deus e à Bíblia. Ela usa da doutrina de submissão bíblica para justificar o porquê de não ter pulado logo fora dessa relação abusiva. Mas a Bíblia também deveria tê-la orientado a casar com um homem que fosse igual a Cristo e se sacrificasse por ela, mas essa passagem não aparece na sua história. Quando tentamos fugir das escolhas erradas que fazemos, a tendência é achar culpados e nos escondermos de nossas próprias responsabilidades. 
    Como já disse, a autora nos apresenta uma sucessão de escolhas erradas desde a sua juventude, abrindo mão do homem que amava, que, aliás, mostra-se um homem de caráter (eu chorei com aquela proposta dele assumir um filho que não era dele); depois, o mergulho nessa segunda relação que gerou um casamento de 16 anos e duas filhas, até que, finalmente, ela casa às pressas com um estrangeiro e vai morar com ele na Alemanha. E isto tudo é vida real.
    O capítulo "nossas viagens" destaca-se. Talvez pelo que ela esteja tratando, mas foi um capítulo maravilhosamente bem escrito e que nos lança a viver aquilo tudo com ela. Psicopatas de todos os tipos vivem entre nós. Sou pai de duas filhas e tento ensiná-las a prevenção contra abusadores e vampiros emocionais desde cedo. Sempre há sinais. O livro mostra que ela também viu a fumaça antes de se deparar com o fogo, do qual depois  não conseguiu mais fugir. Embora, como tenha dito, o livro é, antes de tudo, um alerta contra abusadores emocionais, mas é também um livro doutrinário. A autora toma todo o cuidado de não citar a denominação religiosa à qual pertence, mas responsabiliza a Bíblia e o temor que ela gera acerca de Deus como responsáveis por ela não pular fora de tudo o que está enfrentando. Quando digo que é um livro ideológico, doutrinário, não o faço apenas por essa acusação à Bíblia, mas também por ela trazer mais 3 temas que quero tratar abaixo, a saber, primeiro, é um “livro para mulheres”; segundo, ela traz a baila o tema do jugo desigual; e, terceiro, todas as crises se resolvem na constelação familiar.

    É um livro especificamente para leitoras. Durante a escrita, ela se dirige a mulheres e isso me fez ligar três alertas: 1) relacionamentos tóxicos vitimam homens também; 2) é um livro para reunir aquelas que, de algum modo, tiveram seu coração sacrificado no altar de um narcisista e, fragilizadas, se abrem para soluções de quaisquer espécie; 3) ela não assume sua responsabilidade pessoal naquilo que ela vive, embora, durante a leitura do livro, vemos que ela segue tomando decisões que a prejudicou. A responsabilidade, como já disse, sempre recai sobre a Bíblia, a Igreja e Deus. Por isso, não é de se estranhar que, no fim de tudo, a solução apareça sob a forma de uma espiritualidade que, mais uma vez, transfere para uma força impessoal tudo aquilo que ela sofre. A Bíblia insiste em dizer que você colherá o que você semeia. A Constelação familiar apresenta que você colhe o que outras gerações da sua família plantou. 

    Ela questiona a Bíblia, Deus e a Igreja várias vezes. Contudo, não vemos nenhuma vez que ela busque por aconselhamento bíblico! Por anos, ela segue tomando várias decisões e, quando vêm as consequências negativas, a culpa é sempre do “outro”. Como a Bíblia fala de submissão, ela coloca a responsabilidade de suas decisões equivocadas nesse ensino bíblico, porém, em momento algum, ela expõe que o mesmo texto que fala de submissão é o que também descreve o que uma garota cristã deve buscar num futuro marido: alguém que ame a esposa assim como Cristo amou a Igreja. E ela nunca busca um homem como esse. E, depois de tantas buscas erradas e sofridas sob a alegação de que a Bíblia ordena submissão, ela, finalmente, justifica sua grande união “eterna” com um homem descrente. Ela deveria buscar um homem que amasse mais a Jesus do que a ela. Mas não é isso o que ocorre. O que nos leva ao terceiro tema doutrinário/ideológico do livro: a doutrina espiritualista da constelação familiar.

    Durante o livro, vemos a conversão da autora, mas nunca seu discipulado ou crescimento nas verdades bíblicas. Ela fala sobre Deus e igreja, mas, na maioria das vezes, para tecer uma crítica que só vai ganhando mais engajamento à medida que avançamos na leitura. Finalmente, ela chega ao ponto central: se a Bíblia a afastou do seu verdadeiro e eterno amor, agora, graças à crença comum entre ela e seu amado na constelação familiar, ela pode, enfim, se entregar e ser feliz na sua maturidade. Aqui, na terceira parte do livro, é que há uma mudança de chave. Cada vez mais, a palavra “Deus” vai sendo substituída por uma expressão que revela a verdadeira cosmovisão da autora. Ela passa a falar não mais em Deus, mas em “conspiração do universo”. A constelação familiar, como ela bem explica no livro, é uma experiência religiosa - mas para nos religar a nós mesmos e aos nossos antepassados. Um entendimento do mundo, do ser humano e de nossa natureza totalmente contrária ao cristianismo bíblico. E, por tudo o que ela diz, deveria saltar aos olhos do leitor(a) atento(a) que estamos diante de um gnosticismo, de um paganismo que nada tem a ver com cristianismo. O mais interessante é que a autora está sendo coerente com o que, desde o início do livro, ela vinha tecendo para nós. O cristianismo exige responsabilidade pessoal. A constelação familiar, não. O cristianismo exige que, ao olharmos para a Bíblia, haja arrependimento dos nossos pecados e reconhecimento de que há um Deus pessoal e não uma força impessoal que rege a nossa vida - não somos vítimas do que nossos pais ou gerações anteriores fizeram. A culpa não é da mãe! A Bíblia é clara em afirmar que os filhos não serão responsabilizados pelos pecados dos pais. A culpa é nossa e a Bíblia precisa ser enfrentada como um todo e não em partes.

    Depois de toda uma jornada de escolhas erradas, vemos a autora encontrar um mestre que diga, então, o que ela gostaria de ouvir. Veja o que diz 2 Timóteo 4: 1-5.

Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas.

        Fábio Ribas

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...