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sábado, 2 de dezembro de 2023

Autoestima (XIII/2023)

 

    "Autoestima", de Jay Adams, lançado pela editora Nutra, é um livro sensacional e de leitura obrigatória. Todavia, é um livro escrito há 30 anos. E daí? Daí que você o lerá perguntando-se o que é que aconteceu que ninguém leu este livro?!

    Infelizmente, o alerta dado por Jay Adams não deve ter sido bem recebido e nem impediu que a heresia da filosofia da autoestima entrasse e fincasse suas raízes nas nossas igrejas. A leitura desse livro ajudou-me a identificar ainda mais a união entre a TMI (Teologia da Missão Integral) e a chamada TL (Teologia da Prosperidade). Há alguns anos, escrevi 3 artigos dizendo que essas duas "teologias" são irmãs siamesas, cuja diferença é que uma se coloca do lado direito do espectro político e a outra do lado esquerdo. Após a leitura de "Autoestima", consigo identificar ainda melhor a raiz comum e pagã entre a TMI e a TL, que buscam nutrir tanto o evangelho da justiça social como o evangelho da prosperidade econômica. Qual a raiz, então de ambas? A busca em querer atender ao que o homem entende ser a necessidade humana, ao invés de apresentar o que, biblicamente, o homem, de fato, necessita. Veja que ambas teologias querem saciar as necessidades humanas, que elas julgam ser relevantes.

    Jay Adams mostra que a filosofia da autoestima é pagã e, por isso mesmo, jamais poderia ser encontrada na igreja. Ou se escolhe o evangelho puro e simples ou se escolhe um outro evangelho. Essa hipervalorização do ser humano é resultado do casamento entre uma antropologia anticristã com uma interpretação errada de vários textos bíblicos. O mais surpreendente é ver citações absurdas vindas até mesmo da caneta de teólogos de envergadura como Hoekema e Packer e que, com seus escritos, acabaram corroborando para o erro da filosofia da autoestima!

    Pelo livro ter sido escrito há mais de 30 anos, assim que avançamos suas páginas, ficamos com aquela sensação de tristeza por vermos que somos hoje exatamente o que o autor nos alertou que seríamos, caso deixássemos que essa cosmovisão egoísta, fútil e centrada no fosso sem fim do nosso coração entrasse em nossas igrejas: músicas antropocêntricas, pregações afáveis e superficiais e uma educação cristã que sucumbiu ao respeito excessivo e idolátrico ao outro.

    Imagine ler um livro escrito há mais de 30 anos e que, à época, chamava a atenção para o desastre que uma ideia teria e ver que, realmente, essa ideia se alastrou e hoje somos fruto desse tragédia? O que eu e você precisamos é de Jesus e não de autoestima. As pessoas não têm problema de autoestima. O que elas têm é excesso de autoestima! O livro fala que, há menos de 30 anos antes de sua primeira publicação nos Estados Unidos, ainda era possível encontrar livros que ajudavam as pessoas a se libertarem de seu amor próprio e, assim, viverem mais dedicados ao benefício do próximo. Hoje em dia, o que ocorre é exatamente o oposto! O problema é que já vivemos numa sociedade fruto dessa mudança de perspectiva: hoje, todo mundo é sensível demais, tudo ofende, tudo desrespeita; qualquer palavra num tom mais alto já magoa. Se as coisas já se encontram dessa maneira, imagine dizer às pessoas a verdade bíblica de que elas são pecadoras miseráveis e do que, tão somente, elas carecem é de Deus? Exatamente por essa realidade é que não vejo nem um pouco com bons olhos a sanha de alguns pastores e teólogos na busca por "relevância" bíblica. Lembro do pastor Caio Fábio que em todo culto gostava de cantar aquela música "quero que valorize o que você tem, você é um ser, você é alguém…". Ele dizia até que ninguém sabia quem era o autor da música e, por isso, deveria ter sido um anjo que trouxe essa música para a Igreja.

    A questão é que a psicologia da autoestima e da autorrealização é a avó da atual teologia coach e da música gospel de autorreferência antropocêntrica ("do coração de Jesus você é o centro"). A base dessa heresia é que suas necessidades precisam ser atendidas para que, então, você atenda a Deus. Um escândalo de inversão da mensagem bíblica. O cristianismo prega que você deve colocar suas necessidades de lado para servir a Deus! A Palavra de Deus é a nossa necessidade real e fundamental. O resto é subproduto acrescentado (Mateus 6.33).

    A chave para uma melhor compreensão acerca da cilada da autoestima é discernir entre necessidade e desejo. Biblicamente, são muito poucas as nossas necessidades e a fundamental delas é Deus. Entretanto, o que temos chamado de "necessidade", na verdade, são desejos e nossos desejos podem ser, sim, pecaminosos. A filosofia da autoestima revela-se pagã, quando não confronta os nossos desejos, mas, antes, os serve, colocando-os na mesa da adoração.

    Todavia, há um capítulo do livro que me incomodou, pois, no meu entendimento, ele comete o mesmo erro que tenho visto em tantos púlpitos e em aulas de conselheiros bíblicos mundo afora. E eu vou explicar aqui qual é esse equívoco.

    No capítulo 6, "Amar… como a si mesmo?", Jay Adams incorre na incoerência de explicar o texto bíblico usando a palavra "amor" na mesma categoria que o mundo a usa. Mas ele não está sozinho. Já ouvi muitos pregadores e teólogos insistirem nesse discurso, mas queria sugerir uma outra leitura. Então, deixe-me explicar o meu ponto de vista e o erro do autor de "Autoestima" (lembrando que ele não está sozinho nesse seu equívoco).

    A confusão em questão, na minha interpretação, está no tratamento que se dá ao resumo que Jesus faz da lei e dos profetas:

Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é:

Amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Mt 22. 34–36)

    A partir desse texto, vi muitos pregadores e teólogos chamarem a atenção para o fato de que não há um mandamento na Bíblia que ordene ao homem "amar a si mesmo" (e eu concordo com isso). O que eu não concordo é com a explicação do porquê isso ocorreria: "o homem não precisa de um mandamento dizendo que ele precisa se amar, porque o homem já se ama naturalmente". A ideia que pregadores e teólogos querem introduzir é que, por causa de nossa natureza totalmente depravada pelo pecado, já somos autocentrados e sempre buscamos nos amar. Ninguém, portanto, precisa ordenar que o ser humano faça o que lhe é natural fazer desde o ventre da sua mãe. Evidentemente que concordo com isso. Entretanto, e é aqui que eu quero chamara a atenção, concordo em parte.

    O problema no desenvolvimento de uma tese como essa está na "confusão de categorias" em relação à palavra "amor", pois, quando eu afirmo que não há ordenança na Bíblia para que o homem se ame, pois ele já faz isso natural e pecadoramente, eu estou dizendo que isto que o homem faz - amar a si mesmo - é de mesma categoria, qualidade e natureza que o amor que está expresso nos mandamentos citados de Mateus 22: 34–36. E isso, obviamente, não é verdade.

    Tanto no hebraico como no grego, mas talvez de uma maneira mais pontual no grego bíblico, há muitas palavras para falar do "amor". Algumas palavras são explicadas a que tipo de amor se referem a partir do contexto em que aparecem. Assim, mesmo que haja sinonímia e intercâmbio de uma palavra que parecia ser específica para descrever um tipo de amor somente, é próprio observarmos os contextos que inserem significados às palavras que usamos (e não somente trabalharmos com seus significados dicionarizados). As palavras, assim, ganham conteúdo próprio e específico de acordo com a mão do escritor, do contexto em que aparece e do tempo que também lhe muda o significado. Precisamos estar atentos a tudo isso. Sigamos em frente.

    Será que eu posso dizer, então, que não há uma ordenança de amor-próprio, porque o homem já se ama? Especificando o meu problema: será que o que esse ser humano, totalmente depravado, sente por si eu posso chamar de "amor"? Se assim o faço, estou dizendo que o que esse ser humano nutre por si é de mesma natureza do amor dos dois mandamentos de Mateus 22. Este é o ponto: não é! O "amor" que o ser humano sente por si pode ser chamado de muita coisa menos de "amor", pois o que o ser humano pode ter por si é autoestima, egoísmo, orgulho, vaidade, senso de autopreservação etc. Quando eu digo, citando o texto de Mt 22, que não há um mandamento de amar a si mesmo, porque o homem já se ama, no meu entendimento, algo muito grave ocorre: eu diminuo o que esses mandamentos estão me ensinando sobre o verdadeiro amor. Veja, se o ser humano não ama a Deus, como poderia ele amar a si mesmo? O ser humano, fora de Cristo, não ama ninguém, nem a si mesmo! É sendo amado por Deus, em Cristo Jesus, que ele descobre o que, de fato, é afinal "amor", descobrindo, inclusive, que esses sentimentos que ele nutre por si não podem ser chamados de amor. Conhecendo o amor do Pai, que está em Cristo Jesus, é que, e somente assim, ele pode rejeitar todos esses sentimentos pecaminosos que tem por si mesmo e, finalmente, ele sabe o que deve oferecer ao próximo: o amor sacrificial de Jesus - este é o amor que nos é revelado, quando Jesus resgata os dois mandamentos do Antigo Testamento e os renova em Si no Novo Testamento.

    Por isso, acredito que é um desserviço bíblico quando ouço autores, pregadores e teólogos dizendo que nos dois mandamentos de Jesus não há um terceiro mandamento de amar a si mesmo, "pois o homem já se ama". Com isso, você perverte todo o ensino de um amor que só pode ser conhecido em Cristo Jesus. Para mim, é uma confusão de categorias o que ocorre. Mas este não é um erro de Jay Adams, mas de muitos dos nossos pregadores e teólogos também.

    Tirando isso, o livro de pouquíssimas páginas é bárbaro!

Fábio Ribas

sábado, 25 de novembro de 2023

Uma nova visão (XII/2023)

     


    O livro "Uma nova visão", de David Powlison, lançado pela Editora Cultura Cristã, é uma obra que busca esclarecer os principais erros tanto do Aconselhamento como, também, das teorias da psicologia e biopsiquiatria atuais. David Powlison (PhD) é editor de The Journal of Biblical Counseling, é professor no Christian Counseling and Educational Foundation (CCEF) e no Westminster Theological Seminary. Autor de "Confrontos de Poder" e "Falando a verdade em amor", da Cultura Cristã. Devo ressaltar que, realmente, preferia uma tradução de título mais próxima do original, que é "Seeing with New Eyes". Jamais leria um livro com este título em português: "nova visão". Ele me passa uma série de impressões erradas, tanto espirituais como ideológicas. Já um título como "Vendo com novos olhos" contribui com uma ideia totalmente diferente do que o título em português tende a passar. Então, por que eu o li? Porque li o artigo "Crítica aos integracionistas atuais", do Powlison, por causa de uma disciplina de Mestrado, e só posso dizer que foi um artigo que eu gostei demais!

    A Bíblia é suficiente para responder e tratar todos os nossos problemas? Ou haveria aspectos que Deus estaria "do lado de fora" de nossas vidas? Pois é disso que o livro está falando. A Igreja precisa fazer com que as pessoas vejam Deus no contexto de seus problemas. Antes de tudo, é um livro para apresentar o conceito de "Aconselhamento". Logo no início do prefácio, ele faz uma explicação simples, mas que achei sensacional do que seria "aconselhamento": "conversas que têm a intenção de ajudar". Todavia, ele demonstra que há conversas que partem de uma perspectiva humanista e outras que podem partir sob a perspectiva de ver Deus.

    O autor escreveu esse livro com o propósito de escrever mais outros dois livros. O segundo abordaria a metodologia e o terceiro seria apologético. Queremos ver a vida como um todo, vendo-a com o olhar de Deus - o Aconselhamento bíblico é capaz de conduzir as pessoas a essa "nova visão", ou, ainda melhor, o Aconselhamento bíblico pode levar as pessoas a verem com novos olhos suas próprias vidas e as circunstâncias que as cercam. Na verdade, como o próprio autor nos diz: "Deus tem a visão real das coisas. E Deus nos ensina seu olhar".

    O autor foi muito ousado, na minha opinião, mostrando o que Paulo fazia com as Escrituras e indicando que façamos o mesmo. Na verdade, ele mostra que já fazemos o mesmo que Paulo também fazia. Para isso, ele está usando como base a carta de Paulo aos Efésios, que eu também amo muito. Se os três livros que mais oferecem deleite para Powlison são Efésios, Salmos e Lucas, para mim, os quatro livros que me oferecem o mais profundo deleite são: Jó, João, Efésios e Hebreus. Assim, que maravilha ler a seção sobre Efésios, que, da maneira como vejo, tem uma importância missiológica central no trabalho transcultural. Interessante é esta pergunta: "Por onde devo começar?", porque nunca pensei em começar por Efésios. Sempre começo pelo Evangelho de João. Por isso, foi ainda mais interessante ler Efésios a partir de uma perspectiva muito diferente da que estou acostumado. Concordo que é uma carta de teologia prática, só que eu praticava na área missionária e não de aconselhamento. O mais impressionante foi ver Powlison fazer um tipo de leitura, mostrando que Paulo fazia "links" com o Antigo Testamento o tempo todo. E é exatamente isso que eu também chamo a atenção das pessoas quando leio o Evangelho de Jesus segundo João. Este também está em plena comunicação com o AT o tempo todo.

    Quem é Deus para você? O conselheiro tem que ser alguém com uma fé verdadeira, viva e vital! É preciso que Deus seja a pessoa em quem você confia, pois você falará dEle a pessoas que estão como barquinhos se debatendo contra as ondas em meios às tempestades. Deus está transformando as pessoas nesse processo. Deus age em meio ao seu Povo. Para o aconselhado é fundamental saber quem é Deus e compreender que Deus só se faz conhecido por meio de Jesus Cristo. É por meio de Cristo que Deus realiza seus propósitos (gostei demais da analogia com o tapete a ponto de parar de ler, na hora, sair correndo e mostrar à minha filha Gisele a ideia de como vemos do lado de cá o tapete com remendos, rasuras e defeitos, mas, do lado certo, que é o lado de Deus, Ele vê a beleza que não vemos). Deus derrama graça sobre nós e essa graça revela que o pecado é o nosso problema mais profundo. Deus age na história e, mais do que isso, a leva a um maravilhoso clímax!

"A História humana trata do justo Rei e seus aliados que invadem o império das trevas. Cada um escolhe seu lado. Fingir neutralidade e agnosticismo é apenas encobrir as trevas. O Deus vivo e Cristo não são mera opção. A escolha é esta: vida ou morte, conheça-o ou morra. Sejamos perdoados pela maravilha do que Cristo fez por nós ou recebamos sobre a cabeça aquilo que merecemos" (p.52).

    A citação acima me faz lembrar que as tantas teorias que as pessoas inventam sobre Deus podem ser digeríveis a elas, mas nada, nenhuma filosofia, religião ou invencionice da cabeça dos homens irá alterar nada do Ser de Deus - e isso sempre me foi muito assombroso. É uma escolha de lados numa guerra e não um jogo para ver quem vence o concurso de melhor narrativa sobre Deus. E isto, essa consciência de que os homens estão perdendo tempo em vãs filosofias, sempre foi muito assustador para mim. Por fim, ainda no capítulo 02, volta o insistente tema que mais tem estado presente na minha vida: a união com Cristo. Eu tenho estudado muito sobre nossa união com Cristo. E depois de ter vivido tanta coisa no campo missionário, tantas coisas que eu não entendia, mas, nestes últimos meses de estudos no Andrew Jumper, eu encaixei peças que faltavam. Hoje, vejo "missões" conectada ao Aconselhamento, ao Pastorado e à União com Cristo. Claramente, consigo montar esse quadro no fim de tudo.

    Sempre trabalhei aconselhando pessoas que possuem vários papéis e funções diferentes em seus contextos na família, na igreja e no trabalho. Todos somos filhos ou pais; empregados ou patrões, liderança ou leigo. Enfim, somos todos o tempo todo chamados a nos tratar mutuamente com respeito e amor. Independente dos cargos e funções, chamados a nos relacionar com graça, perdoando-nos mutuamente. Contudo, como tem pessoas dentro da Igreja que a usam como esconderijo de suas carências e anseios de poder, machucando, pisando e manipulando "em nome de Jesus", colocando não só instituições, mas também suas biografias, acima de tudo, ainda que, para saírem ilesos e imaculados, precisem sacrificar inocentes no altar de seus egos. Ocapítulo 03 falou muito ao meu coração. "Reciprocidade" e "mutualidade", palavras tão caras e, ao mesmo tempo, tão raras!

    Saímos de Efésios e viemos para o Salmo 131 (e também o 130). Precisamos nos colocar neste salmo para entendê-lo, memorizando-o e aplicando-o em nosso coração. Sossego e paz, frutos de um coração que está no Senhor. Interessantíssimo o autor ressaltar as vozes que aparecem no Salmo 131. 

"A maior parte do barulho em nossa alma tem como causa a tentativa de controlar aquilo que não pode ser controlado. Agarramos o vento; nos enfurecemos; temos medo e, por fim, nos desesperamos" (p. 80).

     Descansa, ó alma! Porque tu foste chamada por teu Criador pelo teu próprio nome. Foste conclamada, ó alma, a esperar no Senhor. E chamada à esperança agora e eternamente! Trazer o Salmo 131 como tratamento ao nosso coração e ao coração do aconselhado é bênção sobremaneira e foi isso o que o autor fez . Eu quero memorizar o Salmo 131. Tornar suas palavras as minhas palavras e ministrá-las ao meu coração antes de aconselhar outros. Ajuda-me, Senhor!

    O salmo 10 é surpreendente. O capítulo 5 do livro de Powlison aborda esse salmo muito bem, fazendo, inclusive, um roteiro de aplicação na vida do sofredor a partir desse salmo. Como continuar a amar sem amargar? Na área de aconselhamento, muitos dos livros que li, até agora, dão sempre a ênfase na nossa responsabilidade diante do mal inevitável que tenhamos sofrido. Agora, há também uma abordagem em que, as pessoas que nos ferem, elas também precisam ser nomeadas: elas são pessoas nocivas. Elas são soberbas, voluntariosas, impiedosas e predadoras (Sl 10: 2–11). Precisamos resolver isso com graça, a graça de Deus, em nossos corações. O Senhor consertará os males cometidos! A ajuda, a verdadeira ajuda, vem do Senhor.

    Temos muitas razões por que nos preocuparmos, todavia, Jesus nos deu razões ainda mais poderosas para não sucumbirmos ao medo e à ansiedade. Nas páginas 116 e 117, o autor ainda nos passa seis recursos que devemos usar quando nos encontramos ansiosos e obcecados. Muito bom! Fim da primeira parte do livro.

    Na segunda parte do livro, o autor tratará de casos reais, temas sobre os quais ele se debruçou. Mas o capítulo 07 tem algo, logo no início, que é muito importante para mim: perguntas! Vivemos num tempo de ativismos e resultados e não paramos para refletir. Engolimos e não mastigamos e sequer damos tempo à digestão. Tudo isso é sempre muito irritante para mim. Todavia, no início do capítulo, ele já nos inunda com várias perguntas, pois elas é que nos ajudarão a ajudar o outro. Precisamos pensar nelas. Precisamos entendê-las. São perguntas "raio-X" para vermos não só o visível, mas também o invisível. É claro que aqui, mais uma vez, vou lançar meu olhar missionário e lembrar que talvez - quem saberá precisamente? - 80% d população da terra não responde às perguntas diretamente, ao contrário do que nossa escola nos ensina a fazer: sempre precisamos estar atentos às circunstâncias e às histórias, causos e mitos. Só assim, nessas respostas culturais indiretas é que conseguiremos pinçar as respostas às perguntas "raio-X". Só precisamos não nos esquecer disso.

    "Nossos desejos são pecaminosos, porque são desordenados" - foi muito importante entender isso. Podemos ter maus desejos, mas até os bons desejos são pecaminosos, quando eles dominam a nós. O que você deseja? É uma pergunta que revela quem é o seu deus. A maneira como nossos desejos nos controlam e o modo como nos lançamos a eles para satisfazê-los, revelam nossas idolatrias. Podemos mudar? SIM. Não somos seres imutáveis e nem estamos condenados à escravidão eterna e ao fatalismo. Precisamos, então, entender que Deus é o que interpreta o nosso coração da maneira perfeita; e em Cristo encontramos a verdadeira satisfação; e no Espírito Santo, o poder regenerador e santificador para nossa mudança.

    O amor de Deus não é incondicional. Ele pode ser contracondicional. Isso significa que "Deus não me aceita como eu sou - Ele me ama apesar de ser como eu sou". Deus me ama o bastante para que eu dedique a minha vida toda a me tornar cada vez mais parecido com Cristo. Esta frase é uma verdadeira rebelião contra a cultura que nos cerca e estabelece uma quebra de paradigma. Poderíamos nos aprofundar mais nessa questão do "amor" pregado aí fora, mas deixarei para falar sobre o amor numa próxima postagem.

    Graças a Deus, eu já havia entendido que o fato de uma pessoa ter tido um mau pai, isso não dificulta entender Deus como Pai, pois é o contrário o que deve ocorrer: Deus é o pai perfeito! Ninguém na terra é perfeito, nem professores, pais, amigos etc, todavia, Deus é tudo isso perfeitamente para nós. Ele é o modelo de como ser um pai e não o contrário. Deus jamais será um pai igual ao que tivemos, porque nossos pais é que deveriam aprender o que é a paternidade a partir de Deus.

    O cristianismo é a terceira via. Nem propostas moralistas e nem propostas liberalizantes. O evangelho é capaz de oferecer o autoconhecimento verdadeiro e ir na fonte real de nossos problemas. O cristianismo tem a sólida base da Palavra de Deus, enquanto as propostas humanistas da psicologia só acabam cobrindo com maquiagem o coração doente do homem.

    Esta nossa ambiguidade nos leva a ser bênção e maldição. Precisamos realmente entender o que a Bíblia nos diz para não cedermos ao que ocorre com Pedro que, num momento, diz coisas maravilhosas, para, logo em seguida, ser boca de Satanás. Precisamos ir ao coração. Ali, realmente, está o âmago do que deve ser tratado. Como conselheiros, não oferecemos propostas mais profundas que o pecado, pois é o pecado o que há de mais profundo e que deve ser confrontado: "a mudança envolve deixar os desejos idólatras e vir para Jesus que morreu por pecadores, que vive para fazer-nos amantes de Deus e do próximo, e que voltará em glória e alegria". Na verdade, a ambiguidade também nos alerta para as soluções propostas, pois até mesmo bem intencionados conselheiros bíblicos podem, vez ou outra, por alguma razão, falharem numa leitura e ajuda.

    Vivemos numa sociedade regida pelos sentimentos ou, pelo menos, pelo que ela expressa no uso da palavra "sentir". Por trás do verbo "sentir", ocultam-se experiências, emoções, crenças e desejos. Se queremos conhecer as pessoas, precisamos ouvi-las, ouvi-las em suas experiências e emoções. Como elas reagem, o que elas sentem diante do passado, presente ou futuro, tudo isso é essencial ao conselheiro. Do mesmo modo, precisamos aprender a conversar com elas. Orientá-las.

    Definitivamente, temos chamado amor ao que não é amor. Temos rotulado de amor nossos pecados, cobiças e mais vis sentimentos e desejos e nada disso é amor! O capítulo mais sério, particularmente, é o que Powlison trata sobre as 5 linguagens do amor. Quantos de nós não já usamos e incentivamos estes livros? Chocado, pois, Powlison mostra que estamos investindo no pecado, pois não estamos curando relacionamentos, mas, sim, criando "cobradores de sentimentos", esperando que o outro me satisfaça. Enfim, este é um capítulo muitíssimo sério e que me abriu os olhos para algo que jamais enxerguei antes: há pessoas que querem aprender a linguagem do outro para a manipulação e o controle.

    Quero também cultivar isto: a certeza que a fé viva opera em amor inteligente e com propósito. Não é fácil. Verdade, não é fácil viver bem a própria vida e não é fácil pensar bem também. Enquanto lia este livro, o tempo todo passavam no meu coração milhares de pessoas que, por todos estes anos, trabalhei com elas. Eu consegui encaixá-las em várias partes do livro do Powlison e pensei o quanto este livro é importantíssimo para mim e para elas. Quando terminei a leitura de "Uma nova visão", assim que fechei a última página, um amigo liga para mim e diz que um outro amigo dele, um cristão muito sincero, compartilhou que quer fazer psicologia. Ele estava ligando para mim para perguntar o que eu achava, porque ele não se sentia bem em ver seu amigo tão cristão se enveredando por uma disciplina que ele sabia ser tão humanista. Ele me perguntou se havia algum livro que ele pudesse oferecer ao amigo dele. Advinha minha resposta? "Uma nova visão", de David Powlison.

sábado, 21 de outubro de 2023

Descrições e prescrições (VII/2023)


    Este é o segundo livro de Michael R. Emlet que leio. O primeiro foi o "Conversa cruzada". Emlet é médico Doutor, além de ter seu MDiv. Exerceu a medicina por mais de 12 anos antes de se tornar Conselheiro Bíblico e membro do Corpo Docente da Christian Couseling & Educational Foudation (CCEF). Autor de vários artigos e livretos na área de Aconselhamento Bíblico.
    
    Especificamente, este livro trata de um ponto muito importante para o conhecimento dos conselheiros. Ao contrário do "Conversa Cruzada", que é um livro de hermenêutica, tanto da Bíblia como da vida do nosso aconselhado, Emlet agora vai ao ponto da questão sobre os diagnósticos e medicamentos psiquiátricos. O subtítulo diz "uma perspectiva bíblica sobre os diagnósticos e medicamentos psiquiátricos". Assim, o livro é uma proposta para sairmos de quaisquer posturas que sejam extremistas: nem entusiastas cegos e nem isolacionistas alienados. Afinal, o que queremos é ajudar as pessoas a "melhor conhecer e compreender suas lutas. E então, tendo-as compreendido, como providenciar-lhes auxílio de modo sábio e compassivo" (p. 15).
    
    De modo positivo, ele inicia dizendo que "diagnosticar" é algo que revela o nosso Deus Criador. Achei isso sensacional! "Todo mundo "faz" diagnósticos. Todo mundo. Interpretar  -  ou diagnosticar  - as  nossas experiências é inevitável. Parte disso que é ser humano é classificar, organizar e interpretar o mundo ao redor" (p.18). E é uma maneira bíblica e positiva para nos entendermos e compreendermos melhor, porque "diagnosticamos" tanto! Uma outra palavra ligada a isso, e que eu sempre tratei no meu ministério missionário, é "taxonomia". Precisamos chegar aos povos e culturas e "caracterizá-los", "organizá-los", categorizá-los" etc, dando "nome aos bois". Por tudo isso, tenho realmente me fascinado com o mundo do Aconselhamento, pois é a aplicação pessoal ao que estamos tão acostumados a fazer a grupos e coletividades nos campos missionários transculturais.

    A citação que ele faz do Peter Kramer é basilar para tudo o que ele vai discutir em seu livro: "O modo como vemos uma pessoa é uma das funções das categorias que reconhecemos - de nosso sistema particular de diagnóstico" (p. 19). O que eu gostei muito com essa introdução do Emlet é que ele já desmistifica o "diagnóstico" como algo que se dá entre iniciados e que, por isso, só poderia ser realizado por uma elite altamente especializada. Na verdade, queremos conhecer e entender o outro à nossa volta e, por isso, diagnosticamos o tempo todo.

    Ele começa falando sobre o que é, afinal, um diagnóstico. Basicamente, de um lado, você tem o paciente descrevendo o que ele está sentindo e, do outro, um médico com sua formação descritiva. Mas, em meio ao que está sendo descrito como isso ou aquilo, há um espectro de sintomas muito parecidos. Com isso, veja, Emlet nos dá a nós, meros leigos, uma oportunidade de ficar ombro a ombro com os médicos na hora do diagnóstico. No fim das contas, a não ser que se tenha um exame mais técnico, mas, mesmo assim, no fim de tudo, um diagnóstico é resultado de uma interpretação entre o que o médico ouve da subjetividade do paciente e aquilo que o próprio médico carrega como experiência. Ainda que se tenha um exame clínico (exame de sangue, tumografia etc), ainda assim, é um intérprete pegando todas essas informações e dando a sua interpretação. Até mesmo porque o médico não está tratando de ciência exata e também não somos robôs. Cada caso é um caso e há as nossas individualidades e pessoalidades, que não podem ser descartadas. 

    (Quero abrir um parênteses aqui, no momento em que você lê este parágrafo. Por estes dias, acaba de sair que sete em cada dez médicos não sabem aferir pressão arterial. Uma informação como essa serve para nos deixar alertas: médicos não são sacerdotes de uma religião infalível. Na verdade, sequer sabemos da qualidade da formação deles. Fecho os parênteses).

    O resultado não pode ser simplista, pois somos muito mais complexos e as variáveis atuam de uma maneira difícil de abarcarmos a todas elas. Digo isso com toda a tranquilidade, concordando com Emlet, uma vez que tenho acompanhado minha mãe, uma idosa de 90 anos de idade, e já vi um médico cortar pela metade os remédios que outro havia passado a ela. Vi também um terceiro médico ainda ter que voltar atrás de remédios que estavam fazendo mal a ela no tratamento. Enfim, como cada pessoa é uma pessoa, então o que temos, muitas vezes, é um método de tentativa e erro. Em outras palavras, Emlet abre as portas para a desmistificação do diagnóstico e do uso dos remédios.

    Uma vez que Freud foi superado, pois ele dizia que todos éramos doentes, uns mais e outros menos… Mas, o que é ser "são" e o que é ser "doente"? Quem é normal e quem não é normal? Como proceder nessa interpretação? O DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) surgirá (1952) para tentar, veja bem, tentar, tornar mais clara a linha que separa a doença da saúde. Mas, em suas já cinco edições (a última de 2013), o DSM se transformou numa lista de sintomas para cada rótulo (nome que a doença recebe). Muitos desses sintomas se repetem em muitos rótulos diferentes:
    
    Embora algumas doenças mentais possam ter seus limites bem definidos em torno de um conjunto de sintomas específicos, a evidência científica atual localiza muitos, quiçá todos, os transtornos em um espectro de transtornos de relação muito próxima e que compartilham sintomas, fatores de risco genéticos e ambientais, e possivelmente substratos neurais (i.e. alicerces neurológicos) […] Resumindo, precisamos reconhecer que os limites entre os transtornos são mais permeáveis do que percebemos originalmente" (esta frase está escrita no DSM-5, p. 6).

    O diagnóstico psiquiátrico é descritivo e, às vezes, não nos damos conta disso. Por exemplo, eu digo que você está irado, porque há uma soma de vários sintomas em você que descrevem a ira. Pronto: diagnóstico, ira! Mas saber nomear, rotular a que se refere o grupo de seus sinais e sintomas não me responde o que realmente importa: por que você está irado? Por que você está ansioso? Por que você está depressivo?

    Entendamos, a descrição dos sintomas levará o médico a receitar tais e tais remédios para a solução daqueles sintomas, que, perceba, são comuns a muitas doenças diferentes. Os remédios podem tratar ou não, podem até mascarar aqueles sintomas, contudo, a causa da doença não é tratada pelo remédio.

    Neste ponto quero contar o que aconteceu comigo. Tive um sério problema no campo missionário. Alguém estava tomando atitudes que não apenas eram totalmente contra o esperado por  missionários num campo extremamente delicado e fechado ao evangelho, mas, principalmente, colocava o nosso trabalho (e de outros missionários em risco). Nossas lideranças nunca resolviam os problemas que estavam surgindo (que, na verdade, deveriam ser resolvidos na esfera das instituições) e, aqui no "andar de baixo", nós missionários sofríamos muito com tudo o que estava ocorrendo. Um dia, todo esse stress, essa agonia e angústia cobrou seu preço. Eu estava fazendo esteira numa academia e meu peito doeu horrores como se uma faca estivesse me rasgando de dentro para fora. Foi horrível! Mãos e pés suando, minha vista escurecendo etc. Tive que sair do campo (era no interior do MT) e vir às pressas me tratar em Brasília. Um milhão de exames, consultas, médicos, até que, finalmente, uma médica ouvindo e acompanhando tudo o que eu narrara disse: "Fábio, está aqui a caixa de seus remédios. Certamente, você irá tomá-los e isso irá fazer muito bem para você. Contudo, esse remédio tem um efeito colateral possível. Ele irá diminuir a sua libido, afetando sua vida sexual com sua esposa. Assim, há uma outra alternativa, caso você não queira tomar esse remédio. Você pode voltar para o seu campo missionário, resolver a causa dos seus problemas e buscar, então, trabalhar de um outro jeito, cuidando-se melhor". Enquanto conto isso, claro que estou rindo, pois não era só a minha vida sexual que estava em jogo, mas a da minha esposa também! Assim, retornei ao campo, mudei o meu ministério, fui para uma outra área na qual as ações daqueles missionários não me atingiam e, enfim, enfrentei a causa. Chamei o casal de missionários e disse tudo o que estava acontecendo comigo (e com outros), por causa daquela atitude deles. Porém, pelo bem da minha saúde mental (e sexual rsrsrs), e também porque eu queria continuar a ser uma bênção no campo, disse a eles que eu estava saindo daquele ministério e indo para um outro que não me afetaria daquele jeito. Com essa minha atitude, tudo se resolveu e eu guardo a caixinha de remédios, que a médica tinha me dado, até hoje comigo, fechada (rsrs). Os sintomas ajudam na identificação, mas só isso não resolve. Concordo, inteiramente, com Emlet.

    Outro problema tratado pelo autor é que há o risco do normal ser transformado em anormal por meio do exagero. Isso me levou o tempo todo a pensar no "O alienista", conto do Machado de Assis. Quem é que decide o que é normal e anormal? Qual a referência? "Dor e sofrimento" são critérios? Perigoso, principalmente por termos aqui o choque entre duas visões antagônicas: de um lado, uma indústria farmacêutica que promete felicidade em drágeas e, do outro, a cosmovisão cristã, que sabe que dor e sofrimento são parte da vida humana e que podem ser usadas por Deus na santificação do seu povo.
    
    A busca pela felicidade e o fim da tristeza e dor devem ser os únicos ou principais critérios que regem os diagnósticos? Quem está triste ou sentindo alguma dor não está bem, não está "normal"? Como disse, tudo isso é muito perigoso, porque é algo que pode ser fortemente subjetivo, tanto da parte do paciente como da parte do médico. A questão da dor e da tristeza também são culturais  -  e é importantíssimo levar todas essas variáveis em consideração na hora de um diagnóstico final.
    
    Outro problema: diagnósticos psiquiátricos que redefinem (e com isso mascaram ou minimizam a responsabilidade do paciente), rotulando o que as Escrituras chamam de pecado. Hoje, todos somos vítimas, estamos todos doentes: não há mais gula, responsabilidade pessoal, descontrole emocional etc. "Tudo é culpa do cérebro"! Tudo é culpa dos meus pais, da cultura, do outro! Estamos em tempos de extremos, fujamos de todas essas pressões. É este o alerta do autor: nem mascarar pecados como meras doenças mentais e nem tratar doenças mentais reduzindo-as como pecado.
    
    Particularmente, como missionário em povos diferentes de nós, o tema da influência da cultura nos diagnósticos culturais é muitíssimo interessante e importante para mim. Gostaria mesmo de aprofundar isso com mais estudo da minha parte.

    Enfim, você realmente quer ajudar o outro? Então, algumas questões precisam ficar claras a partir da leitura desse livro: 1) o diagnóstico psiquiátrico não pode impedir você de se aproximar e ajudar o outro; 2) o diagnóstico não é a identidade do paciente; 3) o diagnóstico não é destino; 4) o diagnóstico pode ser usado como ponto de partida, mas jamais será o ponto final.

    Além do autor nos mostrar como ajudar os pacientes que chegam com um diagnóstico, de modo que esses diagnósticos não sejam um obstáculo à nossa ajuda, ele mostra também como levar em conta o diagnóstico: 1) os diagnósticos nos ajudam a identificar padrões de experiências; 2) os diagnósticos nos ajudam a lembrar que essa experiência do nosso paciente é diferente da nossa; 3) eles nos alertam para padrões particulares de severidade e perigo; 4) os diagnósticos nos apontam para o corpo do paciente, que possui história hereditária e, além disso, o corpo também carrega forte influência cultural. Aqui, o autor encerra a primeira parte do livro e, na segunda, irá tratar sobre os medicamentos.

    Na segunda parte, o autor discute sobre o que, afinal, realmente sabemos em relação à eficácia dos medicamentos psicoativos. Ele mostra os resultados desses medicamentos comparados com placebos, demonstrando que a propaganda é mais eficiente do que o produto, de fato, oferece. O autor trata de como equilibrar um tratamento com remédios e aconselhamento, lembrando que nem todo sofrimento deverá ser tratado com medicação. A medicação pode estar mascarando ansiedades e problemas que podem (e devem) ser enfrentados biblicamente. Cabe, então, a sondagem das razões que levam alguém àqueles remédios específicos. Um conselheiro sábio deve dosar e ter sabedoria de "andar na corda bamba". Não podemos dizer: "pare de tomar esses remédios"! Todavia, podemos (e devemos) auxiliar o paciente numa sondagem crítica em relação ao uso desordenado de remédios. Precisamos nos comprometer em pesquisar a bula dos remédios; ver se os tantos remédios usados pelo paciente não estão afetando uns aos outros; observar se o aconselhado não está desenvolvendo alguns dos efeitos colaterais narrados nas bulas etc. Enfim, é nossa responsabilidade ajudar o nosso aconselhado.
    
    Foi o último parágrafo que mais me chamou a atenção. Estamos muito acostumados na nossa cultura com a farta literatura que encontramos tratando dos nossos próprios problemas. Literatura de autoajuda e de como sobrevivermos ao caos de nós mesmos. Contudo, este livro foi escrito para me ajudar a ajudar o outro da melhor maneira possível. Não é um livro sobre como resolver os meus problemas, mas como me preparar para ajudar o outro. Assim, como conselheiro, espero ter todos esses cuidados com meus aconselhados.

    Fui desafiado, nesta disciplina, a ajudar lideranças nativas no campo. Se a coisa já é difícil para nós, imagine as pressões que outras pessoas convertidas, mas de outras culturas, não sofrem nesses embates? Na aldeia, por exemplo, com a chegada do "agente de saúde" e do enfermeiro, da farmácia e dos remédios, lembro que os indígenas faziam uma bifurcação, que era o jeito que a cultura achou de "se resolver": o pajé vinha e fazia a pajelança  -  a cura espiritual. Mas, caso acontecesse das curas não funcionarem, então, o próprio pajé dava o diagnóstico: "é doença do branco"! A cultura sempre dará um jeito de sobreviver. São retificações na cosmovisão para se adequar à mudança dos ventos. O pajé dá conta da "doença do índio", entretanto, para eles, a chegada dos "brancos" com seus remédios é porque eles chegaram e trouxeram suas próprias doenças e, por isso, doença de branco, que o índio pega, precisa ser tratada com remédio de branco.

    Esses remédios ficam nas aldeias, sob a supervisão de um "farmacêutico indígena"… Comparando a formação recebida dos professores indígenas  -  que só são preparados no conhecimento da própria cultura, para ofereceram aos seus alunos mais do mesmo  -  fico, então, pensando que a gente também não pode esperar coisa muito diferente na formação desses farmacêuticos nativos. Portanto, sigamos que há muito trabalho a ser feito!

Fábio Ribas

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