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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

 

 

“Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornariam deuses e, por consequência, demônios. Depois nos destruiriam e, também, a si mesmos, pois amores naturais que têm a pretensão de se tornar deuses não permanecem como amores. Eles são ainda assim chamados, mas podem se tornar, de fato, formas complicadas de ódio” - “Os 4 amores”, CS Lewis.

    Em “Srª Lewis” (você pode ler a resenha completa aqui), acompanhamos o nascimento e amadurecimento da narrativa que originará “Até que tenhamos rostos”. Originalmente, uma história abandonada que fora intitulada “Luz”. Joy Davidman incentiva que CS Lewis a retome. A tensão toda da retomada se dá pela dúvida de Joy sobre os sentimentos de Lewis. Afinal, o que ele via nela? Alguém para amar verdadeiramente e se entregar ou apenas uma fonte para saciar sua sede de amizade literária?

    Joy relembra que, no mito, são as próprias irmãs que entregam Psique por inveja. Nesse ponto, Joy comenta que, mesmo nutrindo inveja de Psique, jamais a entregaria à morte.

— Nem para salvá-la? — ele perguntou. — Talvez as irmãs dela tiraram sua felicidade porque acreditavam que a estavam salvando. — É isso, Jack. Você conseguiu. — Bati a mão na mesa. — Escreva sobre isso (diálogo entre CS Lewis e Joy, em Srª Lewis).

    Assim nasce o tema de toda discussão de “Até que tenhamos rostos”. Obviamente, daqui para frente, como nos é apresentado no livro de Patti Callahan, o livro sobre Psique e Orual termina por se tornar uma narrativa para que ambos - Joy e Lewis - entendam e tentem explicar um ao outro a natureza da relação de ambos.

     Preciso começar dizendo que concordo com o que o próprio CS Lewis disse sobre “Até que tenhamos rostos”. Ele afirmou que esse era o seu melhor romance ficcional. Verdade! Estou completamente encantado com tudo o que eu li e com a construção dessa narrativa criativa, profunda e madura. Uma história repleta de camadas que nos dão acesso a vários temas que poderíamos trabalhar sem fim. Mas não é, exatamente, essa a qualidade de um bom mito?

    A história abaixo, no próximo parágrafo, é um resumo do mito de Apuleio, que está no livro “Metamorfoses” (conhecido também pelo título “O asno de ouro”), um resumo feito pelo próprio CS Lewis e apresentado na nota final de seu livro. A partir desse resumo, podemos ver as mudanças operadas por CS Lewis em “Até que tenhamos rostos”. A principal mudança é o foco narrativo, que recai sobre uma das irmãs de Psique, Orual. É Orual quem nos conta a história. E por que ela decide contar a sua versão dos fatos? É que a história original, narrada por um sacerdote do Templo de Psique, não condiz com os fatos vividos por ela. Orual, portanto, escreve seu livro (que é o que estamos lendo em “Até que tenhamos rostos”), para se defender do erro do mito contado e difundido sobre a sua própria história, pois, para Orual, ela não agiu por inveja, mas por amor à irmã Psique. E esse, então, é o estopim de todo o problema narrado no livro de CS Lewis. Segue abaixo esse resumo do CS Lewis.

“Um rei e uma rainha tiveram três filhas, das quais a mais jovem era tão bonita que os homens a adoravam como a uma deusa e, por causa dela, negligenciaram o culto a Vênus. O resultado foi que Psique (como era chamada a mais nova) não tinha pretendentes; os homens reverenciavam demais a sua suposta deidade para pleitear sua mão. Quando seu pai consultou o oráculo de Apolo a respeito do casamento dela, recebeu a seguinte resposta: “Não espere um genro humano. Você deve expô-la em uma montanha, a fim de que se torne presa de um dragão”. Ele fez isso, em obediência. Entretanto, Vênus, com ciúme da beleza de Psique, já havia articulado uma punição diferente para ela. Tinha ordenado a seu filho, Cupido, atormentar a garota com uma paixão irresistível pelo mais baixo dos homens. Cupido saiu para fazer isso, mas, ao ver Psique, apaixonou-se ele mesmo por ela. Tão logo ela foi deixada na montanha, ele a fez ser carregada pelo Vento Oriental (Zéfiro) até um lugar secreto, onde ele havia preparado um majestoso palácio. Lá, ele a visitava de noite e desfrutava do seu amor; mas a proibia de ver seu rosto. Em pouco tempo, ela passou a lhe implorar para que pudesse receber a visita de suas duas irmãs. Com relutância, o deus consentiu, fazendo-as flutuar até o palácio. Ali chegando, foram majestosamente recebidas e demonstraram enorme satisfação em relação a todo o esplendor que viram. Internamente, porém, estavam se corroendo de inveja, porque seus maridos não eram deuses e suas casas não eram elegantes como a da irmã. Elas, então, conspiraram para destruir a felicidade da irmã. Na visita seguinte, elas a convenceram de que seu misterioso marido deveria ser, na verdade, uma serpente monstruosa. “Você deve levar ao seu quarto hoje à noite”, disseram, “um lampião coberto com um manto e uma faca afiada. Quando ele dormir, descubra o lampião — veja o horror que está deitado em sua cama — e mate-o a facadas”.Tudo isso a crédula Psique prometeu fazer. Quando ela descobriu o lampião, viu o deus adormecido, e olhou-o intensamente com um amor insaciável, até que uma gota de óleo quente pingou do lampião e caiu no ombro dele, acordando-o. Levantando-se, ele estendeu suas asas, repreendeu-a e desapareceu de sua vista. As duas irmãs não conseguiram divertir-se por muito tempo com sua maldade, pois Cupido tomou providências que levaram ambas à morte. Enquanto isso, Psique vagueava, desolada e infeliz, e tentou se afogar no primeiro rio que encontrou; mas o deus Pã frustrou sua tentativa, advertindo-a a nunca mais repetir isso. Depois de muitos tormentos, ela caiu nas mãos de sua pior inimiga, Vênus, que a tomou como escrava, espancou-a e lhe atribuiu tarefas cujo cumprimento era impossível. A primeira, que era separar em diferentes montes sementes misturadas, ela cumpriu com a ajuda de algumas formigas muito prestativas. Na sequência, ela teria de pegar um rolo de lã dourada de algumas ovelhas que matavam homens; um junco à margem do rio segredou-lhe que isso poderia ser feito removendo a lã dos arbustos. Depois disso, Psique tinha de encher uma taça com a água do Estige, que só podia ser alcançado escalando-se montanhas dificílimas, mas uma águia a encontrou, tomou a taça das mãos dela e retornou com o recipiente cheio de água. Finalmente, teria de descer até o mundo subterrâneo para trazer a Vênus, em uma caixa, a beleza de Perséfone, a Rainha dos Mortos. Uma voz misteriosa disse-lhe como ela poderia chegar a Perséfone e ainda voltar ao nosso mundo; no caminho, várias pessoas que pareciam merecer sua compaixão lhe pediriam ajuda, mas ela deveria ignorar todas elas. Quando Perséfone lhe desse a caixa (cheia de beleza), ela não deveria, sob hipótese alguma, abrir a tampa para olhar dentro. Psique obedeceu a todas as orientações e retornou ao mundo superior com a caixa; por fim, a curiosidade a derrotou e ela olhou dentro da caixa. E imediatamente perdeu a consciência. Cupido veio até ela de novo, mas, dessa vez, ele a perdoou. Ele intercedeu junto a Júpiter, que consentiu em permitir seu casamento e fez de Psique uma deusa. Vênus reconciliou-se com ela e todos viveram felizes para sempre”.

    O livro de Lewis é dividido em duas partes. A primeira é a defesa de Orual, que narra o que realmente aconteceu. Mas a segunda parte do livro é um acréscimo após a transformação sofrida por Orual. E é na segunda parte que ficamos sabendo sobre o que significa, afinal, o título do livro.

    Evidentemente, assim como o próprio mito de Eros e Psique, a releitura de CS Lewis se abre a muitas possibilidades de compreensão e interpretação, embora não haja dúvida alguma na trajetória vivida por nossa anti-heroína, Orual, até que haja sua transformação. Orual tem sérios problemas com o sagrado, o religioso, o místico. Ela crê nos deuses, mas os vê como suspeitos, como inimigos que estão distantes dela e que em nada ajudam os seres humanos. A principal característica de nossa personagem principal é que ela é muito feia, ao contrário de sua irmã mais nova, Psique. Psique é tão bela, que todos pensam que os deuses estão enciumados e, por isso, as pragas e as doenças que vêm sobre o povo. Então, é preciso sacrificá-la aos deuses. A principal deusa do povo bárbaro do Reino de Glome é Ungit, uma pedra disforme e sem rosto, que brotara da terra. Ungit seria o equivalente à Afrodite dos gregos, mas Ungit é extremamente impiedosa e a quem são feitos sacrifícios, inclusive humanos. Ela é feia. Quero salientar que Ungit é feia e terrível. Acredito que seja importantíssimo perceber duas coisas aqui. Primeiro, Afrodite é a deusa do amor. Segundo, ela é tão terrível como Ungit. Há algo trágico aqui. Você se lembra como deu-se o nascimento de Afrodite? São todas essas informações que ajudarão o leitor na construção narrativa feita por CS Lewis. Quanto à Psique, a irmã mais nova, uma informação importantíssima é que sua mãe morreu no seu parto e que, então, Orual irá se ligar a ela em cuidado maternal.

    Psique é levada à montanha para ser sacrificada e abandonada. Mas, depois, Orual sobe a montanha para dar um enterro digno à irmã sacrificada. Todavia, quando Orual vai procurar o corpo de sua irmã, Psique não está lá. Ela está morando num castelo de um Rei deus, mas esse castelo não é visto, pelo menos num primeiro momento, por Orual. Por amor, Orual se arrisca para dar um enterro digno a sua irmã. Agora, por amor, Orual alerta que era tudo um delírio de Psique, pois não havia castelo algum. Ela deveria estar enfeitiçada por esse monstro, que fingia ser um deus. Se ele fosse quem dizia que era, por que proibia Psique de ver seu rosto durante suas visitas íntimas?

   Orual tem um rosto feio. Psique, um rosto divinamente belo. Eros (Cupido), o rei que casara com Psique, proibia que ela visse seu rosto. O rosto de Ungit era disforme. Enfim, estamos diante de uma questão de identidade. O rosto (ou a falta dele) diz quem somos realmente? Por que Orual não tem rosto? Essa última pergunta é fundamental para entendermos a proposta de CS Lewis. Orual passa o livro não apenas fugindo do seu rosto feio escondendo-o debaixo de um véu e, com isso, alimentando supertições populares sobre ela, mas, principalmente, ela assume máscaras, que são os seus “rostos” na sociedade. Mas quem eu sou? O meu rosto, que escondo de todos, ou minhas máscaras, com as quais atendo as expectativas alheias? Compreendendo o que acabei de escrever, podemos agora nos abrir sobre duas sentenças que aparecem no livro sobre Orual: ela é Ungit e ela será Psique.

    (A partir daqui, revelarei a tese principal de CS Lewis no livro, portanto, continue a ler por sua conta e risco).

    Ungit é perversa. Como compreender que a amorosa Orual seja Ungit? Eis que o véu sobre seu rosto cai, pois o que Orual pensa que é amor, na verdade, não é. É possessividade, inveja, ciúme e, até mesmo, ódio por sua irmã Psique. Descobrimos, durante a leitura, que Orual é tão devoradora dos seres humanos como Ungit. Contudo, nossa personagem não tem rosto, assim como a deusa Ungit. Por isso, podemos entender que a falta de rosto - ver-me como quem eu realmente sou - é a razão dos deuses não ouvirem sua petição e defesa que fazemos diante deles. Ela só poderá estar na presença deles com um rosto.   

    Quais as máscaras atribuídas - papéis sociais - à Orual?   A “filha” de Raposa, que é seu Mestre descrente dos deuses e dos poetas; a “Maia”, de Psique, ou a “senhora” de Bardia, seu fiel soldado e amor não correspondido? Rainha de Glome? Todas essas máscaras não correspondem em nada ou são facetas - sujeitos dispersos de Orual? O fato é que máscaras não são rostos. E enquanto Orual não encarar seu próprio rosto diante do espelho, ela não poderá ser recebida no tribunal. Ela continua a ser Ungit. Perceberam? AMEI!!!

    Mas quando Orual ouve a frase “você também será Psique”? Na primeira vez, ela está sendo expulsa da montanha, depois de induzir Psique ao erro de duvidar de Eros e tentar ver o rosto do deus que lhe desposara. Psique é condenada a vagar por causa da sua desobediência e Orual, segue de volta ao Reino para se esconder debaixo do véu. Ambas seguem seus destinos: Psique, peregrinando em exílio, e Orual, a Rainha sem rosto. Entretanto, no fim do livro, Orual ouve: “Você é Psique”!


CONCLUSÃO

 

    Por que escrevemos? "Escrevo para confrontar os deuses", diz Orual. Fomos expulsos do jardim do Éden. Há em todos nós uma sede por justiça. Escrevemos para dizer como as coisas realmente se deram. Mas será que sabemos o que realmente rege os acontecimentos? Sabemos quem somos? Durante todo esse tempo, Orual encobriu a face diante de nós e não nos mostrou seu verdadeiro eu, da mesma maneira que não nos contou a realidade sobre seu amor. Orual acusou os deuses de não falarem claramente as coisas, mas ela fez o mesmo. Acusou o deus da Montanha de encobrir um rosto horrível, mas ela fez o mesmo. Acusou Ungit de consumir o povo, e ela fez o mesmo. Assim, ao chegarmos ao fim do livro, o livro de acusação de Orual contra os deuses, Orual reconhece que o livro serviu para que ela revelasse a si mesma sua própria ferida, seu prório rosto... 

    “Vc também é Psique” à luz de nossa união com Cristo, ali eram sonhos... Pois quem realmente realizou as tarefas fora Psique, quem conquistou para Orual a redenção foi Psique! Eu preciso assumir o meu rosto: sim, sou feio! Contudo, na hora em que retiro o véu e enfrento a feiúra do meu próprio rosto, não é com o meu rosto que, finalmente, enfrentarei o tribunal dos deuses, mas é com o rosto de Jesus! Quando Deus olhar para mim diante do Tribunal, não será com a feiúra do meu rosto que serei julgado, mas com o rosto de Psique, que realizou todas as obras em meu lugar e me imputou sua justiça, sua beleza, seu rosto para que eu pudesse estar diante de Deus. E para encerrar com um tema que me é tão caro, mostrando que o Cristianismo não é um budismo, ao conferir-lhe um novo rosto e dizer que ela também é Psique, vemos, ao fim do livro, que Orual não perde a sua individualidade.

                    Fábio Ribas

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram

 

    Afinal, o que são “avivamentos”? Ao longo da história, desde os tempos bíblicos, podemos reconhecer essas assombrosas intervenções divinas sobre seu povo. Como a própria palavra (“avivamento”) sugere, essa deve ser uma ação sobre algo morto ou quase morto, moribundo. Quando quase já não se vê fé entre o povo de Deus e a frieza, o nominalismo e a hipocrisia assaltam de modo alarmante, ou mesmo quando a idolatria e a confusão religiosa e espiritual invadem, então, pode ser que, em momentos assim, haja uma assustadora, inesperada e imprevisível ação divina em prol do seu Povo. Digo “pode ser”, pois, numa boa, saudável e teocêntrica teologia, “avivamento” pertence ao plano exclusivo da vontade de Deus.

    Muitos irão discordar, eu sei, pois já vi muita “receita” para induzir avivamento por aí. Aliás, o que mais vi nestes anos todos de caminhada é a “produção” de avivamento ou, como muitos gostam de afirmar, um “novo pentecostes”. Evidentemente, na esteira de muitas dessas manipulações, as pessoas ficam ainda mais confusas e caem como presas fáceis nas mãos abusivas de psicopatas e abusadores transfigurados em religiosos. Isso, por fim, gera ainda mais frustração, vazio e mágoas em corações que, uma vez passando por essas tristes experiências, coram de vergonha e constrangimento quando se percebem enganadas por mercenários da fé. Às vezes, não duvido, muitos desses líderes religiosos talvez não sejam malévolos, apenas ignorantes cheios de boas intenções e, como tais, são cegos que foram guiados por outros cegos e acabam repetindo a fórmula que foi usada com eles também.

    Na história mais recente, dois avivamentos realmente chamam a minha atenção por possuírem características bem diversas do que compartilhei no parágrafo acima: “o Grande Despertamento”, nos Estados Unidos, e “o Avivamento Coreano de 1907”. Este também ficou conhecido como o “Pentecostes coreano” e aquele outro, como o “Primeiro Grande Despertamento”. Ao estudarmos, vemos que o avivamento que se deu nas colônias americanas, entre os anos de 1730 e 1740, envolveu nomes como o do inglês George Whitefield, e os americanos David Brainerd e Jonathan Edwards. A ênfase desse avivamento se deu em torno de temas como regeneração, arrependimento de pecados, nova vida, graça divina e — pasmem! — as doutrinas da fé calvinista. Contudo, o que mais chama a minha atenção na relação entre esses dois avivamentos — o americano e o coreano -, na verdade, é que ambos foram seguidos por uma tremenda convulsão social. Duas décadas depois do Grande Avivamento, deflagra-se o início da Guerra de Secessão, que vitimou mais de 600.000 pessoas. Tendo ocorrido logo após o Grande Avivamento das 13 colônias americanas, a guerra entre o Sul e o Norte se deu entre irmãos da fé. Já havia parado para pensar sob esse prisma? O avivamento coreano de 1907 foi seguido por profunda perseguição e um longo período de conflitos entre os cristãos da Coreia e seus algozes, a partir do domínio japonês em 1910. O que me faz pensar que a situação trágica que essas igrejas viveram, tanto nos Estados Unidos como na Coreia, teria sido muitíssimo pior, caso Deus não tivesse preparado esses irmãos para o que ainda estava por vir.

    “O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram”, de William Blair e Bruce Hunt, é leitura obrigatória para conhecermos a história dos nossos irmãos coreanos e reconhecermos um bom referencial para o que seja um verdadeiro avivamento. É um testemunho ocular, pois William Blair, então com 25 anos de idade, chegou na Coreia em 1901. Ele foi um dos pregadores na noite em que ocorreu o reavivamento de 1907. O livro nos dá um contexto anterior de como foi a chegada do evangelho naquele país, os avanços missionários desde o século anterior e as histórias de homens como Robert J, Thomas, o mártir da Coreia em 1865. Além disso, os autores retrocedem para mostrar como que a Providência divina vinha trabalhando na Coreia para preparar tudo aquilo que estava para ocorrer. Uma das questões demonstradas é como o Confucionismo destruiu o Budismo na Coreia. Particularmente, considero que um dos pontos altos do livro é o profundo conhecimento cultural e religioso que os autores têm e como que eles conseguem mostrar para o leitor o desenrolar dessa história de conflitos culturais, religiosos e filosóficos.

    Um dos maiores desafios das Igrejas presbiterianas na Coreia foi o enfrentamento ao “culto aos antepassados”. Tudo isso já ocorrendo antes de 1907. Na cidade de Pyeongyang, num encontro dos cristãos, numa reunião sem nenhum grande entusiasmo, ocorreu o inesperado. Com a Palavra sendo pregada e a Bíblia ensinada dia após dia, finalmente, quase no encerramento do encontro, um homem pediu para ir à frente e, então, começou a confessar pecados ocultos. Naquele momento, outros que o ouviam, constrangidos pelo Espírito Santo, começam também a confessar roubos, adultérios e mentiras publicamente. O quebrantamento foi impressionante. E durou dias! Os participante, voltando para suas vilas, contavam o que havia ocorrido em Pyeongyang e, ouvindo os relatos, outros cristãos dessas vilas começavam a também confessar os seus pecados e se reconciliar com aqueles que foram defraudados. Igrejas surgiram, milhares de novos crentes vieram à luz e, como contei, em 1910, a Coreia é anexada pelo Japão. Sem esse avivamento, sem essa visitação especial do Senhor, como essas pequeninas igrejas de poucos crentes teriam resistido aos anos que se seguiram? Parece-me que, à semelhança do que houvera nos Estados Unidos, Deus fortalecera as igrejas para a convulsão social que estava prestes a eclodir.

    O grande embate, durante o domínio japonês, deu-se com o Xintoísmo, pois este preconizava a adoração nos altares ao Imperador, que era tido como um deus. Evidentemente, ainda que algumas denominações e cristãos encontrassem justificativas para continuarem nessas práticas diante dos altares, muitos irmãos coreanos não se dobraram. Por isso, ocorreram a prisão, a tortura e a morte de muitos. A igreja, porém, estava fortalecida pelo avivamento de 1907. Muitos foram martirizados, mas eu quero contar apenas uma das tantas histórias que o livro traz.

    Há um erro na edição que eu li. Uma mesma história é contada duas vezes. Quatro páginas repetindo a mesma narrativa que acabara de ser escrita. Contudo, há uma ironia nisso, pois, para mim, essa história em particular é tão surpreendente que, ao repeti-la, parece que estão nos dizendo: “Você entendeu mesmo o que acabou de ler? Vou contar mais uma vez. Presta atenção”! Qual a história? Parece filme. Um casal de coreanos, no momento de maior perseguição dos japoneses, consegue sair escondido da Coreia e ir para o Japão. Ao chegarem na sede do governo em que estavam discutindo sobre a lei da Liberdade Religiosa, no momento certo, eles lançam sobre os membros do parlamento os folhetos e gritam: “E o grande propósito de Jeová Deus”! Os folhetos conclamavam o Japão a tornar o cristianismo sua religião oficial e, além disso, advertia que, se o Japão continuasse a perseguir os cristãos, seria destruído. Pasmem! — Isso foi em 21 de março de 1939. O Japão não voltou atrás na sua perseguição. O que ocorre em 1945?

    Deus age na história de cada um de nós, mas Ele também continua a agir na História para que todas as coisas sigam rumo ao momento em que tudo O glorificará! Espere no Senhor, por que é do alto que virá a Justiça divina.

sábado, 11 de novembro de 2023

A família que devorou seus homens (X/2023)

 



"Minha mãe tem medo de perder a memória, e eu tenho medo da loucura".

    Eu preciso de memórias! São elas que me dão identidade. As memórias não apenas me dão uma identidade pessoal, mas também elas me unem com quem tem as mesmas memórias que eu tenho. Uma família tem memórias comuns. Quando os indígenas se reúnem em suas casas, eles ouvem os mais velhos contarem as histórias dos antigos. Memórias de tempos imemoriais. Porém, é isso o que nos une a todos: histórias que nós mesmos vivemos; histórias que vivemos com outros; histórias de outros que viveram com pessoas que nunca vimos; enfim, uma memória social e coletiva que passa a ser nossa história também.

    Mas as memórias podem também ser um fardo. Lembro-me que, certa vez, assisti a um programa médico sobre doenças do cérebro e havia dois casos opostos: um paciente, assim que acordava, nada se lembrava do seu dia anterior, da sua identidade, de sua vida; já o outro não conseguia esquecer nada. Este, então, depois de tudo, enlouquece, porque suas memórias são um fardo ininterrupto que lhe entulha a mente sem tréguas. O esquecimento - assim como o medo  -  são benéficos quando em certa medida (ou seja, na medida certa). O medo nos protege. Quando ultrapassa o limite, o medo se torna uma fobia que nos escraviza. O esquecimento também nos protege. Há dores, mágoas, lembranças que, caso não sejam jamais superadas, tratadas e curadas, ficariam ali nos martelando ininterruptamente: memórias que nos aterrorizariam e nos paralisariam eternamente. Sim, as memórias  -  assim como o medo, a culpa e a vergonha  -  podem nos aniquilar aos poucos até nos levar à morte  -  seja esta espiritual, psíquica, emocional ou, até mesmo, física. Esquecemos, pois há dores que não conseguimos tratar. Todavia, o esquecimento parece ser uma tênue camada de polimento que, diante do calor de algum evento inesperado, pode trazer do fundo de cada um de nós uma sacola de memórias esquecidas, cuja força incontrolável mais se parece com um vulcão em erupção. As memórias, tê-las escondidas num mar de esquecimento pode ser inesperadamente fatal. Já assistiu à minissérie "amor e traição"? Assista e você entenderá melhor o que estou falando. Este texto não é sobre essa maravilhosa série, mas deixo aqui a dica. Uma série sobre memória, esquecimento e os lapsos de nossas incongruências.


    Hoje, meu texto é sobre o encantador livro "A família que devorou seus homens". Dima Wannus presenteia o leitor brasileiro com sua narrativa de memórias. Mãe e filha reunidas nas fugas, nas saídas, nas retiradas, nas trajetórias para longe da revolução na Síria, que se apresenta como uma verdadeira loucura de interesses envolvendo pelo menos três grupos que disputam o poder, além das intervenções americanas e russas. Difícil discernir os mocinhos dos bandidos nessa tragédia que originou uma imensa diáspora e uma terrível crise humanitária. Os estudiosos desse mapa geopolítico chamam a atenção para quem seriam, então, os refugiados sírios. Como o pobre não tem como fugir do país, não tem como financiar uma fuga até um lugar seguro e, muito menos, manter-se em uma nova terra e se reestabelecer e começar tudo de novo, a maior parte dos refugiados sírios são, portanto, classe média e classe média alta. A autora de "A família que devorou seus homens" mora hoje na Inglaterra. Conheci um sírio em São Paulo, motorista de Uber, e seus familiares todos se espalharam pela Europa, enquanto somente sua mãe permaneceu na Síria. É um dado muito diferente do que estamos acostumados a pensar sobre os refugiados.

    Assisti a uma entrevista online de uma jornalista brasileira com a Dima Wannus e, durante as perguntas, e entristeceu-me profundamente, na verdade eu fiquei foi com vergonha alheia da jornalista, que, além de fazer uma leitura tão ideologizada do livro, faz o pior comentário possível com a Dima Wannus. A jornalista diz à autora que o fato de o livro ser o retrato de uma família de mulheres sem a presença dos homens, que ela, a jornalista, via nisso a semelhança com muitas famílias brasileiras, cujas mulheres levavam suas famílias sozinhas. Uma percepção infeliz, que resultou num comentário necessário da autora que não via que a situação seria a mesma, pois a falta dos homens no livro dela era resultado da guerra civil e não de abandono do lar ou de suas responsabilidades. Muito triste a situação de quem insiste em encaixar o mundo na sua teoria ideológica. A autora, que estava bem cansada durante a entrevista por causa da diferença do fuso horário entre o Brasil e a Inglaterra, chega mesmo, nesse ponto, a pedir que pulassem para outra pergunta.

    Se eu gostei do livro de Dima Wannus? Amei! Um livro de mulheres. Um livro que mostra uma família de pessoas com religiões diferentes. Um livro de memórias, mas não são apenas nossas memórias que nos unem como família, nossas casas também. Veja como construímos nossas identidades coletivas e familiares: são nossas memórias, nossas casas, a terra e os perfumes também: todos estes elementos estão presentes no livro. As casas que nos abrigam e nos reúnem. Volta e meia, penso nas casas da minha infância, as casas em que nossa família se reunia: a casa da praia, a casa de Niterói, a casa do Rio (na Tijuca e em Grajaú), a casa de tia Cecília, em São Paulo. Casas também nos reúnem, as casas por que passamos e vivemos tantas experiências, tantas vivências juntos. Minha família era espalhada. Nós em Brasília, outros em São Paulo, outros no Rio de Janeiro, havia ainda quem estivesse no Espírito Santo e no Acre. E o que nos unia? Casamentos e velórios (muito mais do que aniversários). Houve um tempo, em que começou a haver mais velórios que casamentos. Eram encontros recheados de muitas e muitas lembranças.

    Há capítulos maravilhosos, reflexões maravilhosas sobre as memórias no livro de Dima Wannus. Contudo, um dia, tudo se desfaz. Num gesto, numa atitude, numa decisão rápida e tudo o que registramos em nossa câmera também se perde, virando apenas memória. As memórias são grãos de areia se perdendo entre nossos dedos na passagem do nosso tempo. Todavia, se a câmera se vai com todas as nossas imagens, fica-nos o registro da palavra escrita. Estaria a autora dizendo que, nesta era da imagem, o que realmente prevalecerá é a palavra sobre a imagem?

    A vida em trânsito devora homens e mulheres. No fim de tudo, num olhar mais amplo, a chamada primavera árabe se tornou, para muitos países do Oriente Médio, um longo e tenebroso inverno. Eu queria não esquecer disso, apesar de correr o risco da loucura.

Fábio Ribas

sábado, 23 de setembro de 2023

Sementinhas de mostarda (II/2023)

 


Volta e meia, nesta caminhada, encontro-me com o Pastor Rinaldo. Mais do que um servo e um professor, um mestre para muitos de nós missionários, ele também é um conselheiro de ideias efervescentes! Lembro-me do prazer que tive em compartilhar a sala de aula em que fomos alunos de disciplinas de um Mestrado que fizemos. Para a minha vitória particular, durante várias dessas disciplinas, a Direção do Mestrado nos colocou no mesmo quarto, onde, então, pude ter longas conversas com ele. Imagine o quanto eu aprendi!


Agora, o Pastor Rinaldo abençoa a seara do Senhor com seu livro “Sementinhas de mostarda”, publicado pela Editora Monergismo. Um pequeno livro que não pode enganar pelo tamanho, pois é um testemunho histórico imenso para as missões nacionais. As tais “sementinhas” foram ideias que ele teve — muitas delas debaixo do chuveiro — ideias que ajudaram a formatar o que hoje já são árvores que geraram seus frutos. Contudo, o autor irá nos contar como que se deu toda essa “aventura” que foi lançar essas sementinhas na esperança de que elas germinassem e crescessem para a glória do Senhor. E foi exatamente isso o que aconteceu, as tais sementinhas hoje são a Missão ALEM, o Banco de Dados da AMTB, o DAI e até o CONPLEI. Quer saber como tudo isso aconteceu? Leia o livro do Pastor Rinaldo de Matos e descubra como a Providência divina agiu para levar todas as coisas para o bem da obra missionária. Há ainda várias cartas que foram trocadas na época em que ele lança essas “sementinhas”. Por tudo isso, o pequeno livro “Sementinhas de mostarda” é um documento histórico de um testemunho vivo que não pode passar desapercebido pela Igreja Evangélica Brasileira.


Fábio Ribas

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...