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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Como as pessoas mudam

 

“É impossível que o seu pecado surpreenda Aquele que morreu por causa dele. A cruz também lhe oferece a liberdade de procurar e receber perdão todas as vezes em que falhar. Nós não temos de carregar os pecados que Cristo levou sobre si. Ele pagou o preço que nós não podíamos pagar para que nunca tivéssemos de pagá-lo de novo” — esta é a citação estupenda! E ela nos encoraja, dentro do contexto do livro, a compreender que Deus nos salvou, porém também nos santifica diariamente por meio da mesma cruz! Lindo demais!

Comecei a ler este livro ainda na semana da disciplina de “Aconselhamento em situações de crise”, no Andrew Jumper, em SP. Contudo, por alguma razão que desconheço, não conseguia absorver positivamente, mas, ainda assim, terminei o primeiro capítulo. Isso deve ter mais de mês. Acho que, no primeiro capítulo, tive dificuldade com os “ismos” que ele apresenta, porque, chega um momento, em que tudo parecia meio que a mesma coisa. Por outro lado, pode ser mesmo que eu ainda não estava ali preparado para embarcar nesta leitura. Abandonei a leitura e, quase um mês depois, retornei e, por alguma razão que também desconheço, amei tudo o que li.

O Evangelho é o poder de Deus para a salvação e também para a santificação diária — esta é a tese que nos é recordada pelo autor. Infelizmente, há uma lacuna entre o nosso passado e o nosso futuro daquilo que entendemos como nossa vida cristã. No cap. 1, os autores irão abordar essa lacuna que temos quanto ao evangelho: sabemos que Deus nos perdoou do nosso passado e sabemos que teremos o céu como morada um dia, contudo, não compreendemos como a graça tem poder em nossas vidas no presente. E é sobre essa lacuna, então, que trata o livro.

Exatamente porque não sabemos da graça presente, tentamos suprir nossas vidas com coisas que não são Cristo. Mas é Cristo que é suficiente para mim agora e sempre! Se Jesus é suficiente, e ele é, então por que corremos atrás de falsas esperanças? É sobre isso o capítulo 2. Um dos pontos que os autores tratarão no cap. 3 é que devemos ter sempre o foco de aonde Deus está nos levando: o céu. Esta certeza deve mudar a minha relação pessoal com Cristo e com as pessoas ao meu redor. Se estamos casados com Cristo, então o que importa é a nossa fidelidade e pureza espiritual. E esta é a nossa identidade! Este é o assunto do cap. 4.

No cap. 5, os autores enfatizam que fomos salvos, fomos adotados para vivermos numa família. Somos desafiados a ser moldados uns pelos outros no Corpo de Cristo. Precisamos usar nossos dons em associação.

Nada substitui a Jesus. Contudo, sem perceber, o nosso ativismo religioso termina por ser um fim em si mesmo. Fomos adotados para termos intimidade com nosso noivo e crescermos em conhecimento dele. No capítulo 6, os autores dão um roteiro de autoconfrontação para o leitor, mas que também serve, obviamente, para aconselharmos a outros biblicamente.

No cap 7, é um “estudo de caso”. Como eu e vc reagimos aos problemas, ao “calor” da situação? Os autores apresentam Salmo 88 e Tiago 1 para não esquecermos que Deus nos ama em Cristo em toda situação. Por isso, devemos nos aproximar dele com confiança.

No cap 9, lembramos do ensino bíblico de que a vida é um deserto. E a maneira como reagimos quando o calor aumenta mostra quem somos e o que, então, devemos tratar em nós mesmos. Ficamos irritados? Tentamos jogar a culpa em alguém? Duvidamos da bondade de Deus? As respostas as essas perguntas revelam onde Deus quer nos tratar nisso tudo.

Vc é um espinheiro ou uma árvore frutífera na sua caminhada cristã? Eu e você precisamos responder, diante de Deus, esta pergunta.

A verdade é que colocamos a culpa dos nossos erros e pecados numa fonte fora de nós: o outro, a família, a sociedade etc. Encarar que não somos responsáveis pelo mal que nos fizeram, mas somos responsáveis pela maneira como reagimos a esse mal é fundamental para atingirmos o ponto que realmente importa: o nosso coração.

O capítulo 10 me lembrou muita coisa. Uma delas é quando abrimos mão de um apartamento, porque não queríamos amar mais a bênção de Deus do que o Deus da bênção. A sessão final do capítulo com as perguntas para autoconfrontação é muito boa. Também gostei de ver que caímos nos mandamentos de 4–10, porque, na verdade, já caímos antes nos 1–3.

Se queremos uma vida cristã saudável e que isso se reflita em casa, na família e na igreja precisamos levar este livro muito a sério. Assim, seguiria a orientação que os autores dão ao final do livro: o estudaria com meus companheiros de caminhada. E assim como disse antes, é um livro que, por meio de tantas histórias e perguntas, serve para nós, porém se torna também um precioso auxílio no tratamento do outro, do meu aconselhado.

Eu já havia lido o “Guerra de palavras”, que é muitíssimo bom também. Quando ele relembra a carta de Tiago no “”Como as pessoas mudam”, na hora lembrei do “Guerra de palavras”, que é um livro que, em seus capítulos, também traz muitas perguntas para trabalharmos com o nosso próprio coração e juntamente com outros. Não foram só a estrutura e as perguntas de “Como as pessoas mudam” que me lembraram o “Guerra de palavras”, mas as histórias da família dele (que eu acho que só pode ser do Tripp). Não posso negar que achei graça das situações que ele enfrenta na casa dele com a esposa e os filhos.

Tenho investido no aconselhamento com líderes indígenas cristãos e suas famílias. Por isso, este livro me ajudará demais como bússola para chegar lá. As culturas indígenas, como a maioria das culturas existentes no mundo, não são de abordagem direta, abrdagem de “toma a pergunta e me entrega a resposta”. São culturas de não confrontação, não resolução direta dos seus problemas. A abordagem, o método é outro, porque o sistema de pensamento é outro. Na verdade, é um sistema de pensamento mais próximo ao bíblico do que o que encontramos em parte da cultura brasileira e em parte da Ocidental. “Como as pessoas mudam” oferece princípios e caminhos que devo trilhar e adaptar no meu contexto de trabalho transcultural. Todavia, embora a cultura seja diferente, “a fábrica de ídolos”, que é o coração de todo homem em quaisquer culturas, é comum a todos nós.

Tenho lido muitos livros de aconselhamento e todos os que li lançam essa luz sobre irmos ao ponto, assim como a Bíblia o faz: o coração. Outros livros, então, que também citaria é o “Aconselhamento Redentivo”, do Rev Wadislau Gomes e o “Manual do Aconselhamento Redentivo”, do do Jônatas Abdias. Ambos cheios de histórias, casos concretos, perguntas e que apresentam roteiros que nos auxiliam nesse processo de saber onde, afinal, queremos chegar. Ainda farei resenhas desses livros e postarei por aqui.

                Fábio Ribas

                        

sábado, 4 de maio de 2024

Crença sem corpo: Levando Olavo ao L'Abri (XIV/2024)


Na apresentação do livro já nos é apontado que o autor falará sobre a paralaxe cognitiva. Esta, por sua vez, é o que aproximaria ambos, Olavo de Carvalho e Francis Schaeffer. A paralaxe cognitiva é o fenômeno da distância entre o que se fala e as ações que, muitas vezes, são contraditórias ao discurso. Uma vez que os leitores de Olavo estão bem familiarizados com esse conceito, faltava explicar que a apologética de Francis Schaeffer, que expunha as inconsistências e incoerências das cosmovisões não cristãs, era, portanto, uma versão dessa paralaxe cognitiva tratada por Olavo. “Enquanto Schaeffer desmascara os efeitos do abandono da veracidade na arte, na música, na cultura, no teatro e na literatura, Carvalho tem embates com adversários que macularam a verdade na esfera político-social”, explica o Dr. Rev José Carlos Piacente Jr em sua apresentação ao livro. Ainda na apresentação, somos situados que a ferramenta apologética que será usada pelo autor, Lúcio Antônio de Oliveira, é a da apologética pressuposicional. Isto é, por estarmos inseridos num universo criacional, Deus está pressuposto. E essa apologética não deve apenas ser usada para o debate, mas também na evangelização e santificação de cada um de nós.

O que é, afinal, a paralaxe cognitiva? O autor do livro irá trazer um excerto de Descartes demonstrando que o filósofo já percebia essa distinção entre aquilo que digo acreditar (especulação teórica) e o que minhas ações, por fim, demonstram dos compromissos do meu coração. Se teoria e prática estão em contradição, temos a paralaxe cognitiva. Assim, à parte do que anuncio crer com a boca, são as minhas atitudes que demonstram a minha cosmovisão. Então, a pergunta deve ser: há conflito entre o que eu digo crer e a vida por que eu vivo a minha crença?

Temos três questões tratadas. A primeira é a própria paralaxe cognitiva, que é um fenômeno que constatamos em indivíduos que não vivem o que apregoam. A segunda é mostrar que, uma vez constatada a paralaxe cognitiva, devemos demonstrar que ela é um “argumentum ad hominem” bom, pois podemos deduzir que se nem a pessoa vive aquilo que ela apregoa, há uma contradição aí, uma fraqueza da tese (da teoria). Para vermos mais claramente, o terceiro passo é levar isso para o “reductio ad absurdum”, que pega a especulação filosófica (a crença e a cosmovisão que a própria pessoa já não da conta de viver) e a leva “às últimas consequências”, demonstrando sua inviabilidade no mundo real. Assim, estamos diante de um método apologético: primeiro, detectar o fenômeno da paralaxe cognitiva; segundo, trazer à consciência do indivíduo sua própria inconsistência e incoerência na própria vida; terceiro, demonstrar a que absurdo chegaríamos se, de fato, aplicássemos sua cosmovisão sobre as pessoas. O que seria essa teoria na prática da vida das pessoas?

Olavo de Carvalho orienta que não estamos disputando em torno de uma doutrina, mas de toda uma cosmovisão. Toda doutrina faz parte de um arcabouço teórico. Precisamos pegar a doutrina e, mesmo que aparentemente ela esteja correta na teoria, é preciso vê-la na prática e tratar também das suas consequências. Neste ponto, Olavo de Carvalho nos dá 3 exemplos: Hobbes, Maquiavel e Marx. Hobbes propala que todos os seres humanos agem pela disputa do poder, ao mesmo tempo que diz escrever sua obra para o bem da humanidade; Maquiavel sentencia que, para a chegada ao poder, é necessário destruir todos os que ajudaram a essa chegada ao poder, esquecendo-se que isso levaria à morte do próprio que se ajudou a chegar no poder; Marx diz que só o proletariado tem a visão correta do mundo e, ao escrever sem nunca ter sido um proletário, como, então, diz que escreve a visão correta do mundo?

Precisamos avaliar duas tentativas históricas de fuga à acusação de paralaxe cognitiva. O autor apresenta Cícero, que diz que não podemos difamar uma doutrina por alguns que não a vivem adequadamente. E apresenta Sêneca que, diante das contradições humanas, diz que o que ele prega é a vida ideal e que nem sempre o filósofo dará conta de seus próprios vícios. Tanto Cícero quanto Sêneca estão justificando o fato de suas doutrinas não serem “vivíveis”. São fugas, argumentos para que sua filosofia não seja acusada do que, hoje em dia, tratamos como paralaxe cognitiva. É evidente que, enquanto lia o livro, pensava o tempo todo no Cristianismo e se ele também não poderia ser acusado de paralaxe cognitiva. Vejamos como o autor irá desfazer essa acusação contra o próprio cristianismo, uma vez que Olavo assume que “nenhum exemplo de fraqueza humana depõe jamais contra a dignidade de uma crença, religiosa ou filosófica, nem atenua o valor da mensagem que aparenta diminuir”. Lucio Antônio de Oliveira também cita CS Lewis que diz que os cristãos receberam esse nome por seguirem a Cristo e, portanto, não podemos atribuir o nome de “cristãos” só aqueles que “tiraram o melhor proveito da instrução apostólica, nem estendê-la aos que, seguindo o sentido refinado, espiritual e interiorizado, estão “muito mais próximos do espírito do espírito de Cristo” do que o menos satisfatório dos discípulos”. Todavia, o que difere os argumentos de Olavo e de CS Lewis dos de Sêneca e Cícero? Também não seriam fugas? Vejamos como Oliveira desatará isso. Lembrando que não estamos falando de hipocrisia, que, isso sim, é outra coisa. Estamos falando de olhar para a fraqueza de um irmão, que não consegue largar os próprios vícios (mas luta contra eles). A pergunta correta, então, para se analisar devidamente essa questão deve ser: um cristão, que não conseguisse largar seus vícios da forma que ele mesmo prega, seria, então, um caso de paralaxe cognitiva, terminando por refutar o próprio cristianismo?

O autor trará como exemplo de paralaxe cognitiva o ceticismo, mostrando que Pascal denunciou que ninguém vive um ceticismo real perfeito. Nenhum cético vive a dúvida extrema. Mas agora eu uso esse mesmo argumento para o seguinte questionamento que aparece na minha mente desde o primeiro momento em que comecei a ler o livro: qual cristão vive um cristianismo real perfeito? E acho perigoso o exemplo do indiano, de Francis Schaeffer, pois e se o indiano tivesse aceitado viver pela sua verdade e acatado o ato de crueldade? Isto faria de sua doutrina uma verdade? Pense nos kamikases da Segunda Guerra Mundial, suas ações tornam a cosmovisão deles uma verdade? Pense também nos cristãos que voltaram atrás na hora de ver seus entes queridos ou a si mesmos mortos em nome da fé, isto torna o cristianismo uma mentira? Esta inconsistência cristã demonstraria que, de fato, esses cristãos não acreditavam mesmo na fé que apregoavam? De qualquer modo, a tese é que devemos expor a paralaxe cognitiva mostrando a impraticabilidade da doutrina, demonstrando a (in)viabilidade de sua práxis. Isto atinge em cheio a cosmovisão da pessoa, tornando-a insustentável. Isto é, tornar a paralaxe consciente ao seu defensor é o ponto. Mas como não fazer o mesmo contra nós?

A modernidade está repleta de teorias inviáveis ou, melhor dizendo, “invivíveis”. Ainda assim, essas teorias são ensinadas nas faculdades e os filósofos se especializam nelas, mas não as trazem à arena da vida real, lugar em que podem e devem ser testadas. Isto mostra que não temos verdadeiramente filósofos, mas historiadores da filosofia, especialistas acadêmicos que não têm a dimensão daquilo na vida real. O que eles trazem em seu interior não tem a menor conexão com o seu exterior e o que há no exterior não se conecta a nada que ele carregue em si. Este é o quadro da nossa modernidade.

A paralaxe cognitiva é inconsciente. Na discussão é que podemos expor a pessoa às ideias que ela propõe, revelando se a pessoa vive de fato o que ela crê e, além disso, testar sua doutrina — o arcabouço — aplicando-o no mundo real até o ponto máximo para vermos se ela é sustentável. Assim como a paralaxe é inconsciente, também é a “cosmovisão”, que é o nosso arcabouço de pressupostos pelos quais vivemos e refletimos e dirigimos nossa vida. Se não pensarmos nossa cosmovisão, acabaremos facilmente aceitando outra. Precisamos pensar sobre nossa própria cosmovisão, se queremos levar o outro a refletir sobre a dele. Assim, devemos refletir sobre nossas crenças em Deus, na metafísica, epistemologia, conhecimento, ética e antropologia — estas são as áreas que toda cosmovisão tenta abarcar e sedimentar em nossos corações.

O capítulo VIII falará do método schaefferiano para revelar e denunciar a paralaxe cognitiva. O método apologético de Schaeffer consiste em mostrar ao outro o seu ponto de tensão entre a verdade que ele propaga conhecer e aquela que ele vive de fato. Entre a teoria especulativa e o mundo criado por Deus, mundo este em que todos nós nos inserimos, há sempre uma tensão, uma incoerência, porque as cosmovisões não-cristãs são fugas da cosmovisão cristã, portanto, são fugas da realidade. Assim, o método apologético de Schaeffer consiste em desnudar essa tensão, mostrando a incoerência não só daquilo vivido (ou não vivido) pelo outro, mas o absurdo de vivermos por aquela especulação. Nesse capítulo, eu gostei muito da ideia das “verdades inconvenientes” de Scruton. Fugimos delas e para sobrevivermos a elas até mesmo há um consenso do grupo maquiando e negando essas verdades. Há mesmo um esforço mútuo para nos livrar de enfrentarmos esse desmascaramento de nossas tensões e inconsistências. Além disso, lembra-nos o autor, há o temor das consequências sociais embutido nessa crise toda: “o que falarão de mim?”; “se eu voltar atrás, será uma vergonha” etc.

Uma vez compreendido o método schaefferiano, há duas possibilidades de confusão quanto ao método, segundo o autor: o “argumentum ad baculum” e a “afirmação do consequente”. A primeira refere-se a quando rejeitamos um pensamento como um todo, por causa de uma consequência ruim. “Se Deus existe (X), então terei que parar de ter uma vida libertina (Y). Não gosto de ter que parar de ter uma vida libertina (Y). Portanto, Deus não existe. Esta falácia é, na verdade, uma negação da realidade e revela como age o nosso coração rebelde com a realidade de Deus. Como o autor diz, esse argumento suprime a verdade sobre Deus para que possamos continuar no ídolo. Há uma outra questão nesse tipo de argumento: ele avalia o pensamento (a cosmovisão cristã) pelas consequências ruins que existirão para a vida dele. Isto é, se existem consequências ruins, então a cosmovisão é errada. Além de ser um pensamento esquivo, gera um contrário não verdadeiro: por haver consequências positivas, então uma cosmovisão seria verdadeira? A isto chamamos de “afirmação do consequente”. O que a “afirmação do consequente” está tentando argumentar é o seguinte: “se adoto uma cosmovisão correta, posso ter uma vida significativa e de valores” (X); tenho uma vida significativa e de valores (Y); portanto, tenho uma cosmovisão correta (X). Esta falácia pode estar incorreta por várias razões, pois poderiam existir várias causas para o efeito. Entretanto, o ponto do método schaefferiano está em apontar que a vida que se está vivendo (positiva e cheia de significado) está em paralaxe da cosmovisão que a pessoa pensa seguir — lembre-se, a paralaxe é inconsciente. Precisamos mostrar a incoerência. O autor nos explica:

“A argumentação se dirige a demonstrar que outras visões de mundo são incompatíveis com a realidade e inviabilizam a natural busca pela felicidade que está estritamente vinculada à vida significativa e de valores. Ou seja, é preciso demonstrar a viabilidade da primeira premissa, e isso se faz por várias vias. Ou se mostra que não adotar uma visão de mundo verdadeira implica em loucura e prejuízos, ou que as implicações da visão de mundo não-cristã inviabilizam o significado e os valores. Cada caso pede uma via de argumentação”.

Enfim, a tese schaefferiana é esta: “Se e somente se adoto a cosmovisão cristã, posso ter uma vida significativa e de valores (X). Adotei a cosmovisão cristã (Y). Então, posso ter uma vida significativa e de valores (X)”. Todavia, o autor nos diz que Schaeffer viu que alguém poderia alegar que vive uma vida significativa e de valores sem ser cristão, o que inviabilizaria a tese de Schaeffer. Entretanto, Schaeffer esclarece que ele não está dizendo que as pessoas não-cristãs não possam estar vivendo uma vida significativa e de valores. O que ele está dizendo é que, sendo sua vida significativa e de valores, sua cosmovisão não dá conta de explicar o porquê disso — é a paralaxe. Entretanto, a minha dúvida (além de ver como o autor vai explicar que o cristianismo também não possa ser acusado de paralaxe, embora agora, nesta altura do livro, eu já perceba sua resposta), é diante destas palavras seguintes de Schaeffer: “… o problema é que eles não têm um sistema para explicar a correlação entre sujeito e objeto. Esta é a sua maldição, esta é a sua tensão, ter de viver à luz da sua existência, à luz da realidade — a realidade total em todas estas áreas — viver ali, por mais que não tenham explicações suficientes para nenhuma dessas áreas. Assim, quanto mais sábios são, quanto mais honestos são, mais se sentem tensionados, e esta é a sua maldição presente”. Qual a minha dúvida? Seria, então, a pós-modernidade uma fuga dessa tensão, que, inevitavelmente, a modernidade lança os homens? Se algo assim se coloca, Schaeffer ainda falaria aos pós-modernos, que abdicaram da coerência e da consistência?

No próximo capítulo, o X, o autor nos alerta que este método schaefferiano pode ser cruel nas mãos de cristãos imaturos, pois ele poderia deixar a pessoa numa situação pior do que ela estava antes. Sem chão, vendo o absurdo de sua cosmovisão que não lhe dá fundamento para a vida que ele leva. O cristianismo é a verdade e oferece esse fundamento. Todavia, se a pessoa é desnudada e sai dali sem aceitar o cristianismo, então, sua situação será pior do que antes. Por fim, ciente disso tudo, precisamos ser gentis com as pessoas sobre as quais estamos aplicando esse método.

O capítulo XI confirmou minhas dúvidas… Ou o autor se traiu ou, de fato, é um método para um público muito seleto ou acadêmico. Enfim, não é um método para a dona de casa e o padeiro ali da esquina. E eu volto a perguntar: é um método para os pós-modernos?

Finalmente, no capítulo XII, é tratado se o método pode ser usado contra nós. Essa “invertida” tem nome: “tu quoque”, que é quando nosso interlocutor, vendo-se desnudado, devolve a crítica contra nossa crença, mostrando que falha semelhante também ocorre conosco. Embora seja uma falácia, o autor nos orienta a mostrar a ele que “defender-se acusando” é uma falácia; depois, precisamos nos defender da acusação e, enfim, reforçar o desafio que lançamos sobre ele quanto sua inconsistência. Mas como nos defender de sermos acusados de paralaxe cognitiva? Primeiro, o autor nos diz que o próprio cristianismo ensina sobre a doutrina da pecaminosidade de todo ser humano e isto danifica a nossa relação de consistência; associada a essa doutrina está a doutrina de que somos transformados pelo Espírito Santo, e isso significa que alguma coisa será transformada e transformados continuaremos sendo transformados sempre. Em outras palavras, devemos amar uns aos outros, segundo o novo mandamento que Cristo nos deu, lutando para mostrar que somos melhores do que antes: “se o cristianismo é verdadeiro, é necessário que (a) qualquer cristão seja melhor do que ele mesmo seria se não fosse cristão; e (b) todo aquele que se tornar cristão seja melhor do que era antes”.

Todavia, quando o autor cita Blaise Pascal, acredito que ele dê um tiro no pé do próprio argumento. Veja o que Blaise Pascal diz:

Quem julgar a religião dos judeus pelos grosseiros, a conhecerá mal. Ela está visível nos livros e na tradição dos profetas […]. Assim a nossa religião é divina no Evangelho, nos apóstolos e na tradição, mas é ridícula naqueles que a tratam mal. O Messias, segundo os judeus carnais, deve ser um grande príncipe temporal. Jesus Cristo, segundo os cristãos carnais, veio dispensar-nos de amar a Deus e dar-nos sacramentos que operam tudo sem nós; nem um nem outro é a religião cristã, nem a judaica. Os verdadeiros judeus e os verdadeiros cristãos sempre esperaram um Messias que os fizesse amar a Deus e por esse amor triunfar de seus inimigos.


Após essa citação, o autor diz que era o mesmo argumento já tratado no capítulo IV. O problema é que, então, estamos aceitando o argumento de que ninguém vive 100% de acordo com sua teoria e nem por isso a teoria pode ser descartada. No capítulo IV, esse argumento é usado para defender a filosofia como caminho para a felicidade e também defender o estoicismo. Agora, Pascal o aplica para defender os verdadeiros judeus e os verdadeiros cristãos. Tudo isso junto, revela que esse argumento acabaria por redimir todas as crenças, todas as religiões. Diante disso, se podemos justificar o que seria uma possível paralaxe cognitiva do cristianismo dizendo que todos somos falhos e que isso não pode ser usado para desmerecer a teoria, eu só posso concluir, portanto, que isso pode também ser alegado por quaisquer outras religiões, filosofias e crenças. Sendo assim, o que haveria de diferente no cristianismo? Schaeffer chamou seu método de um “pré-evangelismo”, isto é, uma preparação para a apresentação do evangelho. Essa preparação é “tirar o telhado” do outro para que ele veja sua própria inconsistência entre o que crê e o que vive. Aqui, não se está tratando da hipocrisia. Mas é para que ele veja que suas crenças são insustentáveis na vida real e, por isso, a própria vida dele é uma mostra disso. Porém, volto no caso dos kamikases. Coerentemente à teoria de suas crenças, eles se matavam. De semelhante modo, houve niilistas que se suicidaram. O que eu quero dizer é que se os casos de incoerência não invalidam as crenças (este é o argumento de Cícero, Marco Túlio, Schaeffer e Olavo), do mesmo modo os casos de coerência não fazem das crenças verdades! Logo, talvez não seja uma questão de “desconstrução” da cosmovisão alheia num trabalho de pré-evangelização, mas mostrar que a salvação continua vindo dos judeus. Dito de maneira diferente, as respostas que suas perguntas buscam continuam sendo encontradas, tão somente, na Bíblia.

O autor ainda trará um capítulo para demonstrar que esse método é bíblico. Aqui, fica uma nota fantástica à genialidade do autor, pois, para mostrar que o método é bíblico, ele usa Paulo e Tiago. Ambos autores são vistos no romanismo (de Olavo) como contraditórios. Contudo, o autor aproveita para mostrar que Paulo e Tiago estão seguindo o mesmo curso e não há contradição entre eles. Neste capítulo, fica claro que o método não pode ser um mero “desconstrucionismo” da cosmovisão alheia. Paulo e Tiago começam a apresentação do evangelho e o apelo à santidade mostrando a lei de Deus, partindo dela, pois é ela que tira o telhado do homem (e não uma desconstrução meramente dita da crença do outro). O mau estar não se dá por um vácuo em que colocamos o outro ao expor a falência de sua cosmovisão, mas esse mau estar é fruto da apresentação da lei que condena a todos nós. Todavia, acho que há uma diferença entre um “pré-evangelismo”, que pretende “tirar o telhado” do outro, e a apresentação da lei de Deus, que já faz parte do próprio Evangelho, pois a lei tem como sua finalidade apontar a resposta ao homem condenado por essa mesma lei. Para mim, é uma ênfase que faz muita diferença: 1) ou “como” eu apresento o evangelho, apresentando a lei, que apontará a Cristo, 2) ou apresentando as falhas de sua cosmovisão, sabendo que as críticas que eu fizer às inconsistências “teoria/prática” podem ser devolvidas a mim também?

No fim, o método schaefferiano pode cair num eruditismo complicado. E isto pode ser visto na bibliografia mínima que o autor levanta para que você conheça a fé cristã. Temos que tomar cuidado, pois o cristianismo continua puro e simples, ainda que não ingênuo e simplista. E a conversão continua a ser obra exclusiva do Espírito Santo, por meio de se ouvir a pregação sobre Cristo (Rm 10).

                        Fábio Ribas

terça-feira, 9 de abril de 2024

A mitologia grega (XI/2024)

O mito, portanto, vai dizer Aristóteles na Poética, é “o princípio e como que a alma da tragédia”. “Mythos” é usado pelo filósofo em dois sentidos: 1) a narrativa, a história, o enredo bem engendrado, conectado, construído; e 2) no sentido da coleção de histórias, lendas e folclores deixados pela tradição e trabalhados artisticamente pelo poeta como fonte das tragédias e epopeias.  Assim, nada mais fascinante do que lermos o livro do historiador Pierre Grimal amarrando as narrativas da mitologia, apresentando-as conectadas e desenvolvidas numa ordem para o prazer da nossa leitura e compreensão desses mitos.

  E uma das tantas qualidades desse pequeno livro é o de demarcar a diferença e semelhança, o fluxo e o refluxo dessa linguagem: o mytho e o logos. Nessa delimitação, cresce, diante dos nossos olhos, a beleza do Cristianismo, enquanto logos, e a beleza das narrativas gregas, enquanto mytho. “O mito se opõe ao logos como a fantasia à razão, como a palavra que narra à palavra que demonstra. Logos e mythos são as duas metades da linguagem, duas funções igualmente fundamentais da vida do espírito”, diz Grimal.

   Assim, no ambiente do mito, este é atraído por aquela parcela do irracional (ou atrai a ela) e é aparentado de toda arte, em todas as suas criações. Daí, para Aristóteles, o poeta (e todo artista) ser um imitador e um imitador das ações e daí a tragédia erguer-se como aquele veículo da mimese por excelência, em que o poeta ensinará ao público as virtudes reveladas pelo seu trabalho artístico com o mito. E teremos prazer em aprender com os poetas, porque aprender dá prazer, mas aprender com poetas melhores as virtudes que eles nos ensinam em sua arte é prazer maior ainda.

     Após traçar um encadeamento dos mitos gregos, na parte final de seu livro, Grimal irá questionar a maneira que durante a história tentaram se aproximar dessa mitologia. Desde uma abordagem “desmitológica” nos séculos XVIII e XIX, em que se retira todo o maravilhoso para tentar encontrar apenas o que de fato ocorreu, até um agrupamento por meio de um “método comparativo”, pelo qual se tenta agrupar mitos do mundo todo a partir de seus temas comuns. Mesmo nas perspectivas mais recentes em que se sociologiza ou se psicologiza os mitos, até nisso Grimal vê uma abordagem incompleta, infeliz e que retira dos mitos aquilo que eles têm de mais específico.

      A conclusão particular a que chego após um encontro tão prazeroso com o livro de Grimal é que os mitos, enfim, mais do que suportes para esquemas de uma sociologia ou psicologia coletivas, revelam-se receptáculos de nossas próprias e inefáveis experiências individuais. Este é o segredo e a chave do mito.  

A mitologia Grega – resenha

     “O mito não se limita a seus termos. Esboça uma imagem, um símbolo, se se quiser, de uma realidade que, de outro modo, seria inefável”, diz Grimal. Portanto, o mito como símbolo é o que interessa ao nosso estudo em nossa bibliotheca.

      Cabe aqui lembrar, porém, a origem da palavra “aristocracia”, que vem de aristoi, que são aqueles que possuem a areté, que é a virtude.  Mas o que era a virtude para Homero já é diferente do que entende Aristóteles. Na Poética, Aristóteles ensina que o poeta é um imitador e que a tragédia (e a epopeia) são imitações das ações e estas nos revelariam o caráter do herói, suas virtudes. O problema é que “virtude” (areté) para Homero é a característica de um alto ideal cavalheiresco aliado a uma conduta cortesã e ao heroísmo guerreiro. Não é de se espantar, então, que Alexandre e César oferecerão libações no túmulo de Aquiles, pois este é uma fonte de inspiração. Grimal chama a atenção de que é somente na era dos filósofos sofistas que a noção de virtude irá ser questionada, uma vez que, em Homero, Ulisses, por exemplo, não tem questionados as suas mentiras e falhas de caráter. Já em Aristóteles, “os heróis lendários são submetidos a uma crítica moral” (e espiritual). Os mitos, diz Grimal, irão se tornar uma imensa reserva de exemplos de virtudes e vícios, que deverão ser escolhidos por cada um de nós.

    “O mito – em sua forma de relatos épicos – torna-se o instrumento da educação moral. Nas escolas da Grécia clássica, as crianças – desde a mais tenra idade – aprendem de cor os poemas homéricos, e o professor extrai dos mesmos máximas e preceitos de conduta. Para muitas gerações, Homero foi o educador por excelência”, recorda-nos Grimal.

        E a aristocracia é aquele grupo de pessoas ligadas aos antigos heróis, que guardam as suas virtudes e com elas se identificam geneticamente, assim, os mitos também tem essa característica de colorir a história e servir “como título de nobreza para cidades e famílias” (para ver melhor a imagem abaixo, basta clicar sobre ela e expandi-la).


         Para facilitar a apresentação dos mitos, Grimal os organiza a partir de “ciclos”: 1) os mitos teogônicos; 2) os mitos olimpianos; e 3) os mitos heroicos. Para a grande gênese dos deuses apresentada por Grimal, ler aqui. Nos mitos teogônicos, podemos acompanhar o início de tudo e o surgimento do deus caçula, Zeus, que irá ser o responsável pela disputa de poder até que ele possa se assentar no trono dos deuses e dar início ao ciclo dos deuses olimpianos. No último ciclo, o dos heróis, somos apresentados a seis ciclos: a expedição dos argonautas, o ciclo tebano, o ciclo dos átridas, o de Hércules, o de Teseu e, finalmente, as aventuras de Ulisses.

        Poderemos descobrir a origem da palavra “areópago”; a maldição contra a relação homossexual que deu origem a tragédia de Édipo; o papel das mulheres que traíram seus próprios pais e seus países por amores que não foram correspondidos, entre muitas outras narrativas que ainda marcam nossa imaginação. Na verdade, após a leitura tanto da “Poética” de Aristóteles como a “mitologia grega” de Grimal, é impossível resistir ao desejo de reencontrarmos todas essas histórias e as relermos com fascínio redobrado por tudo o que, na verdade, elas simbolizam para cada um de nós. 

                                Fábio Ribas  

 

sexta-feira, 5 de abril de 2024

A mulher grávida que pisou a cabeça da cobra - um estudo de caso*

 


*Texto que publiquei originalmente em dezembro de 2016, mas que resgatei para minhas aulas de Fenomenologia da Religião.

A gravura deste texto circulou nas redes sociais e foi fartamente distribuída por pastores, missionários, seminaristas e tantos outros evangélicos neste Natal.

Contudo, o que me chamou a atenção foram as palavras da minha filha de 10 anos ao olhar para esse desenho: “Nada a ver! Não foi Maria quem pisou na cabeça da cobra”! E não foi só minha filha de 10 anos de idade quem se pronunciou sobre o desenho em questão.

“Nós nem vimos a cobra”, disse-me um casal de evangélicos diante da gravura. O que poderia justificar e ser usado como desculpa numa “curtida desatenta” por parte de tantos evangélicos maravilhados com a mulher grávida que pisa a cobra.

“Ah! Que lindo! Tem uma imagem de Maria que também pisa na cobra igualzinha a essa aí. Tão bonito isso”, disse-me uma católica. E devo confessar que, sendo ex-romano, a primeira coisa que me veio à mente foi a pinacoteca das diversas imagens católicas de Maria pisando a cabeça da serpente, que sempre estiveram presentes por toda minha infância e adolescência.

Tirando os evangélicos que “curtiram” sem se dar conta de que a mulher grávida do desenho pisava uma cobra, o que dizem os evangélicos “conscientes”, os que postaram a gravura? “É a Igreja”, responderam.

A mulher é o símbolo da Igreja e a Igreja é quem pisa a cabeça da cobra, que é Satanás. “Pisa” por extensão, é bom frisar. Quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus, portanto, sendo Jesus o Cabeça da Igreja, esta o pisa vitoriosamente.

A figura da mulher como imagem da Igreja é depreendida a partir do texto de Apocalipse 12. Porém, o que João faz é o contrário do que seus interpretantes fizeram posteriormente. João toma Maria como símbolo da Igreja (e do Povo de Deus no Antigo Testamento), e não o contrário: a Igreja não é símbolo de Maria.

Mas é exatamente isso o que os católicos romanos fazem. Tanto que eles, ao se depararem com o símbolo da Igreja na figura de Maria, concluem inversamente: “Os homens é que devem escolher em qual lado lutar. Do lado da serpente ou se do lado da semente da Mulher — Maria — Mãe de Jesus Cristo, mas também de cada um” (Padre Paulo Ricardo).

“A semente da Mulher — Maria — Mãe de Jesus Cristo…”. Ora, o romanismo compreende que Maria é mãe da Igreja, a igreja é “semente de Maria”. Por quê? Por extensão também. Se Maria gerou Jesus, que é o Cabeça da Igreja, sendo a igreja o corpo de Jesus, logo Maria é mãe da Igreja.

Por isto, tão imediatamente, numa cultura católica como a brasileira, a maioria das pessoas irá identificar aquela mulher grávida que pisa a cabeça da serpente no desenho em questão não com a Igreja vitoriosa, mas com a mãe da Igreja — a mulher Maria; ainda que o catolicismo oficial saiba muito bem que quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus (veja aqui).

A mulher da gravura está grávida. E é na condição de grávida que ela pisa a cabeça da serpente — e não é nada disto o que encontramos em Apocalipse 12. A vitória sobre o diabo, por intermédio de Maria e sem a Cruz, pois Jesus está no ventre dela — protegido de todo mal, de toda dor, de todo sofrimento, enquanto é o pé dela que pisa a cabeça da cobra — esta é a mensagem posta pela gravura.

O parágrafo acima revela o espírito do nosso século representado na gravura: o advento do feminino, da deusa mulher, da superioridade da mulher sobre o homem, da assunção da maternidade sobre a paternidade.

Ainda que a mulher da gravura fosse a Igreja, o equívoco foi coloca-la grávida — mais do que um ruído, mais do que uma mera interferência, é um excesso de informação que desloca o interpretante do verdadeiro sentido do Natal para uma interpretação transbordada de sincretismo pagão da Nova Era.

Sem a encarnação completa, sem a vida de total obediência, sem a paixão e sem a morte substitutiva e a ressurreição vitoriosa que compõem o evangelho da nossa salvação, um Messias protegido no ventre de sua mãe enquanto esta resolve o problema criado pelo ser humano é a interpretação que sobra: Maria sem dar à luz é tão somente a eternização da esperança messiânica que nunca se completa, ou ainda, um messianismo que é apenas o do “povo sofredor”, representado pela mulher grávida.

Em outras palavras, é um outro evangelho o da gravura: “Porque, como, pela desobediência de uma só mulher, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de uma só mulher, muitos se tornarão justos”.

Este ensaio não comporta tudo o que poderíamos desenvolver sobre a importância de sabermos evangelizar nossa geração, compreendendo todas as nuances e complexidades do nosso multiculturalismo pós-moderno, ainda assim há duas regras simples que eu deixaria aqui.

A famosa regra de ouro diz que, em termos de comunicação, o importante é o que o outro entende e não o que você quis dizer. E evangelizar é comunicar as boas novas da salvação e o mais importante é sabermos o que o outro compreende e não o que eu penso sobre o que ele deveria ter entendido.

A segunda regra é que, como missionários, não basta trabalhar com pressupostos, mas antes com aquilo que está propriamente posto: é muito mais importante você compreender o que está posto diante do interpretante por essa imagem da mulher grávida do que esperar que esse interpretante consiga entender os pressupostos da própria imagem da mesma maneira que o seu gueto teológico os entende (“entendimento” este que pode também estar equivocado, conforme demonstrei aqui).

Acredito que é preciso comunicar melhor a mensagem do Evangelho, ainda mais quando a veiculamos nas redes sociais, ambiente que alcançará crentes e descrentes das mais diferentes formações, e essa é uma responsabilidade que cabe, indubitavelmente, aos líderes cristãos que se utilizam da internet.

                        Fábio Ribas

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Mulher, por que choras?


“A pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós,
por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos.”
(José Saramago)

Ao refletir sobre o título deste texto, percebi que essa pergunta foi dirigida duas vezes a Maria Madalena, o que me deixou deveras intrigado. Logo lembrei-me de um antigo filme dos anos 70, “Gritos e sussurros” de Ingmar Bergmam. Um filme de terror, ou melhor, um filme sobre o terror do universo feminino caído, que, por tantas vezes, foge até mesmo à própria compreensão das mulheres e da maldição que lhes pesa.

O filme apresenta três irmãs que se veem convivendo novamente debaixo de um mesmo teto, porque uma delas está com câncer e próxima à morte. Há ainda uma empregada na casa. Literalmente, cada uma dessas mulheres se verá espremida pela câmera do diretor contra uma parede de um tom vermelho forte e, nestes momentos, elas são levadas ao extremo e confessam suas culpas, seus medos, suas dores, suas mentiras. A irmã mais nova, Maria, é fútil, cínica e adúltera, e fora a preferida da mãe e, por causa disso, suas duas irmãs nutrem por ela ciúmes e ódios. Karin é a irmã mais velha, amargurada por um casamento infeliz e por seus próprios sentimentos de culpa, chega cortar sua própria genital com um pedaço de vidro para não ter que fazer sexo com o marido. Agnes está morrendo (de inveja?) sobre a cama e suas irmãs não conseguem lhe dar o carinho e o consolo que ela só encontra nos cuidados da empregada, Anna. Esta vem cuidando da paciente há 12 anos e o que sabemos dela é a perda precoce de sua filha única.

Os “sussurros” são os segredos do passado que o vento insiste em trazer de volta. Os “gritos” são a inveja e o remorso que atormentam a cada uma delas nessa convivência forçada. Há uma cena no filme de Bergman, que mostra que Agnes continua a sofrer mesmo depois de morta. E, mesmo testemunhando seu sofrimento pós-morte, suas irmãs continuam incapazes de manifestar quaisquer reais atitudes de carinho e amor por ela. Somente Anna, a empregada, lhe oferece o consolo suplicado numa cena construída para nos lembrar a Pietá de Michelangelo, Maria segurando Jesus morto em seus braços. Contudo, ou exatamente por isso, Anna é abandonada pelas irmãs de Agnes após a morte desta. Mas por que elas choram?

Jesus teve encontros decisivos com muitas mulheres. Na casa de Simão, o fariseu, Jesus exalta a expressão de amor da mulher de má fama, enquanto expõe a verdade sobre a hipocrisia daquele líder religioso. No poço, Jesus entrega a uma samaritana de vida duvidosa o que a Nicodemus, doutor da lei, não fora dado experimentar: o novo nascimento. Enfim, na tentativa de apedrejamento da mulher adúltera, Jesus denuncia o pecado da instituição machista que preservara o amante e trouxera, tão somente, a pecadora pega em flagrante adultério para morrer.

O pecado e sua maldição atingiu nossa natureza humana. Obviamente, à semelhança do que ocorreu com a nossa masculinidade, a natureza da mulher foi também corrompida em toda extensão de seu universo feminino com agravantes físicos (o aumento nas dores de parto), volitivos (a guerra dos sexos) e morais (a submissão forçada ao homem). Assim, vejo aqui a chave para entendermos a indagação: Mulher, por que choras? Creio que a pergunta confronta toda mulher para que elas percebam as dimensões abissais atingidas pela ressurreição de Cristo e não apenas uma simples constatação de um fato histórico, que é a ressurreição em si. A maravilhosa mensagem do túmulo vazio é que não há mais razões pelas quais chorar, porque Jesus quebrou a maldição que trouxe danos terríveis à mulher. E ninguém melhor do que Maria Madalena para compreender isso: ela fora liberta da possessão de sete demônios, ela havia sido prostituta, usada, humilhada, subjugada por uma teia social machista que a sufocava e se beneficiava dela. Surpreendo-me com essa mensagem poderosa de salvação, restauração, restituição e resgate do valor verdadeiro da mulher em Cristo Jesus.

A Bíblia nos oferece um quadro claro quando, na primeira incursão missionária pela Europa, é uma mulher, Lídia, quem primeiro tem seu coração aberto às verdades do Evangelho e, logo após, é na libertação e conversão de uma mulher possessa de espírito adivinhador, e que era usada como fonte de lucro para seus senhores (homens), que, mais uma vez, o Evangelho encontra sua plena realização de redenção do universo feminino oprimido não só por suas próprias incongruências e idiossincrasias, como, também, pela maldição demoníaca do machismo.

Maravilho-me por Jesus não ter se revelado nem a Pedro e nem a João naquela manhã de domingo. Eles foram ao túmulo de Jesus e nada encontraram. Mas a uma mulher que sabia que seu testemunho seria desqualificado diante de qualquer tribunal naquele tempo, a ela é que foi entregue a missão de anunciar a ressurreição em toda a sua extensão libertadora.

À semelhança das mulheres do filme de Bergman, sei que muitas ainda choram por sofrer as angústias de uma natureza caída e amaldiçoada pelo pecado sem conseguir encontrar nenhuma saída que lhes dê esperança. É preciso pregar e ensinar sobre o significado e libertação que a ressurreição de Jesus trouxe para a própria vida de cada uma delas. Ainda que saibam da ressurreição, ainda que tenham ouvido o testemunho acerca do Cristo ressurreto, muitas não experimentaram a verdade surpreendente de que um homem se entregou e morreu para quebrar a maldição do pecado que paira sobre elas. A promessa gloriosa da ressurreição de Cristo é que o próprio Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima.

Portanto, mulher, vai e anuncia a todos que você encontrar as mesmas palavras jubilosas de Maria Madalena: “Eu vi o Senhor”!

Fábio Ribas

sábado, 2 de março de 2024

Verdades encobertas, pecados revelados (X/2024)


Quando a Elizabeth Rodrigues convidou-me para escrever um artigo, nem precisei pensar duas vezes. A caminhada missionária havia trazido bastante material nessa área e eu já me preocupava e, até mesmo, tratava de alguns casos de pessoas que haviam sido abusadas. Todavia, o que era diferente no meu caso é que eu precisei tratar disso em realidades transculturais. E é sobre isso que trata o meu artigo (segue abaixo). O diferencial do ebook de Elizabeth é a diversidade dos colaboradores. Ela convidou pessoas muito diferentes, com perspectivas diferentes, mas todas tratando o tema do abuso. Assim, temos a presença do Dr. Guido Palomba, profissionais que tratam diretamente com a realidade do abuso, psicólogos, assistentes sociais, líderes religiosos e testemunhos pessoais. Enfim, um livro que precisa ser lido por todo aquele que quer dar voz a tantas vítimas silenciadas pelo sistema e por interesses escusos. Adquira já o seu ebook clicando aqui.

Prevenção e resposta ao abuso infantil no contexto missionário transcultural

Já amávamos aquele casal e sua pequenina filha, quando, naquela tarde, eles vieram à nossa casa para conversar. Convidamos a que eles se sentassem no sofá da sala da casa missionária. Não sabíamos sobre o que se tratava a visita deles, até que, inesperadamente, diante da família, ela começou a chorar. O marido resolve assumir a condução da conversa do ponto em que sua esposa parara. Contudo, assim como ela, o domínio limitado da língua portuguesa era um imenso obstáculo para falar de coisas tão profundas. Enquanto ele falava, vez ou outra, ela o completava e esclarecia melhor o que eles tentavam nos dizer. Após quase uma hora de idas e vindas, tentativas e muitas lágrimas, conseguimos compreender o ponto central do que eles queriam compartilhar: o pai havia abusado dela.

Precisei dizer com minhas próprias palavras, para ter certeza do que iríamos conversar dali em diante: “o seu pai tentou fazer sexo com você?”. Era muito difícil para ela, mas, enxugando as lágrimas do rosto, ela nos disse que, há anos e por várias vezes, ele havia abusado dela. Quando ela disse isso, o marido dela começa a chorar bem na nossa frente. Na minha cabeça, passava um milhão de coisas, mas, principalmente, pensava em minhas duas filhas. Eu sou pai de duas meninas e, agora, uma menina estava diante de mim contando que seu pai abusara dela. Ela disse que, ainda criança, quando seu pai estudava para ser obreiro da Missão, ele a pegara no banheiro da casa da família (naquela cultura, o banheiro precisa ficar do lado de fora da casa). Na época, as pessoas ficaram sabendo, mas, mesmo assim, não fizeram nada. Seu pai se formou, voltou à aldeia, batia em sua mãe, vendia bebida ao povo, andava armado e provocando outros, mas ninguém fazia nada. Finalmente, casando, ela pode sair de casa. Entretanto, ela estava assustada, pois havia sua irmã e ela tinha medo que seu pai fizesse o mesmo com sua irmã lá na aldeia e não houvesse ninguém mais para protegê-la.

Perguntei sobre o que a mãe sabia sobre tudo aquilo e ela me disse que já tentara dizer várias vezes para sua mãe, mas essa parecia não entender, não aceitar, não ouvir. Então, ao nos contar isso, ela pediu ajuda para minha esposa, pois, se ela chamasse a mãe e conversassem juntas, as três, seria mais fácil. Houve essa conversa entre as três em outro dia mais adiante. Quando, porém, o pai dela também foi chamado para conversar, a mãe ficou contra a filha por algum tempo. Depois cedeu, quando o marido bateu nela mais uma vez. Demoraram muito a afastar esse pai de suas funções e retardaram para levar a mãe à delegacia, para que pudesse haver a denúncia. Demoraram tempo suficiente para que a mãe, finalmente, desistisse de prestar a queixa. O marido fugiu da aldeia, mas depois reapareceu, indo na casa deles na Missão, ali bem perto da minha casa. Foi nessa vinda inesperada do pai que ela nos enviou uma mensagem de whatsapp: “Meu pai está andando por aqui… E ele está armado”.

Aprendi muito vivendo experiências assim. Aprendi sobre legislação, o que podemos e o que não devemos fazer, aprendi também outras coisas muito difíceis sobre as inúmeras instâncias de poder que impedem que o mal seja punido e o bem protegido. Todavia, a pergunta que importa para o início deste artigo é: você realmente se importa?

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A verdadeira tragédia é que ela rouba a criança do seu potencial, colocando em movimento uma cadeia de eventos e decisões que as afetam por toda a vida.

Darkness to Light: Sexual Abuse Statistics

Inicio este artigo expressando o que quero alcançar com ele. Na verdade, estou indo ao encontro dos mesmos desejos expressos por Deepack Reju, na seção de “agradecimentos” do seu inestimável livro “Sempre alerta”, da editora Peregrino. Porém, aqueles desejos que Reju expõe devem ser contextualizados para o ambiente específico que quero discutir aqui, o ambiente missionário transcultural. Assim, meu primeiro desejo é que, como resultado deste artigo, crianças que vivem em contextos culturais e linguísticos diferentes do meu possam ser protegidas dos horrores do abuso infantil, aonde quer que haja um missionário plantando uma Igreja.

Meu segundo desejo é o de preencher uma lacuna. Há muito pouco material de qualidade e verdadeiramente preocupado com a proteção da criança e do adolescente, quando olhamos a realidade transcultural. Para melhor introduzir esse tema, vamos dar um passo atrás. Compreenda que sequer há um levantamento rigoroso de casos de abuso dentro das igrejas e das famílias evangélicas no Brasil. Estou falando do contexto de igrejas urbanas e rurais, igrejas em grandes centros urbanos e em pequeninas cidades do interior, enfim, não há dados estatísticos ou pesquisas realizadas que nos deem um quadro seguro do que ocorre dentro das igrejas evangélicas brasileiras. Agora, sabendo disso, imagine a realidade transcultural? Alguns autores que li mostraram que, durante muitos anos, os evangélicos acreditaram que o abuso infantil na igreja era um “problema católico”, julgando até mesmo que o número dos escândalos se devia à exigência do celibato, que acobertaria e incentivaria os crimes que, então, ocorrem por trás da fumaça do incensário clerical romano. Isso não apenas é uma visão falsa, mas serve para ocultar a triste realidade que pode ser encontrada (e é) também nas igrejas evangélicas. Essa visão equivocada também vem atrapalhando a luta em defesa da criança no meio evangélico, pois, até como uma necessária resposta ao problema do abuso cometido por religiosos católicos, a Igreja Católica saiu na frente da discussão da prevenção ao abuso em seu meio. Nós, ao contrário, ainda estamos tateando em assumir a responsabilidade de protegermos nossas crianças. Portanto, há uma lacuna no meio evangélico e, indubitavelmente, essa lacuna é ainda mais grave no meio missionário transcultural.

Meu terceiro desejo é declarar o que eu penso ser uma abordagem mais abrangente para evitar e responder ao abuso infantil no contexto missionário transcultural. Assim como deseja Reju com seu livro, também desejo trazer algumas instruções práticas gerais, mas que deveriam ser adequadas a cada contexto transcultural nos quais missionários trabalham, seja dentro ou fora do Brasil. Gostaria de dizer que, antes de tudo, escrevo como pai de duas meninas, que hoje estão com 17 e 15 anos de idade, mas que saíram conosco para realizar a Grande Comissão em uma aldeia indígena com três e um ano de idade. Neste artigo, falo como pai, como missionário entre os povos indígenas do Brasil, como Pastor que já atuou também entre comunidades carentes e de periferia, além do pastoreio que realizei em área rural. Conheci etnias indígenas diferentes umas das outras no Brasil; fui professor de Língua Portuguesa no Parque Indígena do Xingu; desenvolvi um trabalho multiétnico com um grupo de quase 20 missionários junto a diversos povos indígenas, para a plantação de uma igreja multicultural no MT. Depois, trabalhei na área de educação bíblico-teológica no Ami, um Centro de Treinamento para obreiros indígenas. E, finalmente, conheci de perto a realidade diversa da Missão Caiuá, no MS.

Gostaria de dizer ainda que escrevo para um leitor ideal, formado na minha mente a partir de todos os alunos que passaram pelo CFM (Curso de Formação Missionária) da APMT e pelo CLM (Curso de Linguística e Missiologia) da Missão ALEM, buscando aprimorar sua formação missionária transcultural. Acredito que escrevo também a esses alunos, a essa nova geração de missionários. Sei que muitos se encontram trabalhando com povos de outras culturas mundo afora, enquanto outros estão aqui no Brasil mesmo, exercendo seus ministérios entre indígenas, ciganos, quilombolas, japoneses, chineses, árabes etc. Não apenas escrevo, mas dedico este artigo a cada um desses alunos que, eu sei, podem estar enfrentando situações como as que eu trarei aqui e que, por isso mesmo, precisam de orientação e apoio para prevenir e responder aos casos de abuso infantil em seus contextos de ministério. Escrevo e oro por eles.

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Trouxeram-lhe, então, algumas crianças, para que lhes impusesse as mãos e orasse; mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus. Mateus 19:13,14

Sempre oriento meus alunos a que visitem seu campo missionário e o conheçam um pouco melhor, antes de se mudarem definitivamente. Foi assim que fizemos em 2006 e 2007, eu e minha esposa. Essas primeiras visitas foram suficientes para nos dar conta que um dos nossos obstáculos transculturais era a precoce sexualização das crianças na cultura em que iríamos trabalhar. As casas muito escuras tinham apenas duas “portas”, cada uma ficava de frente para outra, de modo que um corredor de luz atravessava o centro da moradia, onde também havia um espaço para queimar a lenha e moquear o peixe e o macaco. Entretanto, fora esse corredor de luz que atravessava o centro da casa, o que havia, tanto à esquerda como à direita, era uma escuridão sólida de se tocar com os dedos. Percebemos que nossas filhas se perderiam dentro daquelas casas extremamente escuras e precisaríamos, então, nos adequar àquela nova realidade cultural. Decidimos ali, naquela visita, que apenas eu entraria como professor da comunidade, enquanto minha esposa ficaria exclusivamente por conta de cuidar de nossas filhas.

No ano seguinte a essa visita, enquanto conhecíamos outro povo de outra cultura indígena, no Pará, sentou-se à nossa frente uma linda menina de olhos grandes e arredondados de apenas cinco anos de idade, era a filha de um ribeirinho da região. Perguntei a ela por que o povo indígena não estava presente ali conosco no Centro, como esteve na noite anterior. Aquela menina olhou para trás e me respondeu: “É que todo mundo foi para casa de fulano. Fulano, quando vem da cidade, todo mundo sabe que ele traz filme de SE-XO. Aí está todo mundo lá”. Eu olhei aquela filha de ribeirinho, que tinha quase a mesma idade de uma das minhas filhas e fiquei revendo várias vezes na minha mente a imagem inusitada dela dizendo a palavra “SE-XO”, escancarando a boca em cada sílaba. Descobri que os jovens indígenas estavam em intercâmbio intenso com a cidade e já pouco se interessavam pelas atividades culturais do próprio povo, quando havia a possibilidade de trocar a programação por “algo mais interessante”. Conosco, naquela noite, estavam apenas os mais velhos.

Essas duas histórias sempre foram contadas por mim aos candidatos ao trabalho transcultural, porque sempre soube que era preciso abrir diálogo com solteiros e casados, meus alunos em sala de aula, que, certamente, enfrentariam questões como essas que narrei aqui. Às vezes, seremos mandados por Deus a culturas que nos confrontarão e precisamos nos prevenir e preparar nossos próprios filhos também. E, infelizmente, eu já vi missionários colocando seus filhos em risco, crianças ainda, por falta de orientação, sem uma palavra e regras que os preparasse para determinadas realidades. Serei mais claro. Certa vez, entrei na casa de uma família missionária e uma criança de apenas oito anos de idade veio me receber à porta. Era a filha do missionário. Seu pai e sua mãe haviam recém-chegado àquele campo, mas, à semelhança de muitos outros missionários que trabalhavam ali, não haviam recebido nenhuma orientação sobre aquelas culturas e nem como deveriam se portar e relacionar com eles, uma vez que estavam ali em nome da Missão. Simplesmente não havia nenhum protocolo de segurança. Notei que os pais daquela criança haviam saído e a deixado em companhia de um adulto estranho à família deles.

Protocolos de segurança não servem apenas para proteger os filhos de missionários que trabalham em Agências ou Missões, mas terminam por ser mecanismos de blindagem a essas próprias instituições, uma vez que evitam situações em que elas possam ser acusadas de algo que nunca fizeram. O que eu quero trazer neste artigo, então, é que missionários e suas famílias precisam também ser protegidos. Agências e Missões também. Os povos indígenas, quilombolas, ciganos, árabes etc, semelhantemente, necessitam de um conjunto de normas reguladoras de proteção à infância, para que tomemos o cuidado necessário em nossas relações com eles. Missionários são enviados por suas igrejas locais, muitos estão atuando em projetos de Missões e Agências, que não os preparam para se prevenir e responder ao abuso infantil no contexto de outra cultura. A verdade é que muitas igrejas, pastores, lideranças e famílias sequer sabem prevenir e responder a essa questão dentro do seu próprio contexto cultural, imagine preparar os que são chamados “a passar à Macedônia”? Por tudo isso, é que acredito ser de suma importância para todos, igrejas locais, suas lideranças, Missões e Agências que possamos abrir uma discussão que nos leve às orientações necessárias e à criação de regras contextualizadas às realidades culturais em que nossos missionários se encontram.

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Porque aquilo que eles fazem em oculto, até mencionar é vergonhoso. Mas, tudo o que é exposto pela luz torna-se visível, pois a luz torna visíveis todas as coisas. Efésios 5.12 NVI

Depois de anos trabalhando em uma aldeia indígena, certa família se dirige à cidade mais próxima do povo com o qual ela trabalhava, com o intuito de começarem a tradução da Bíblia para a língua daquela etnia. Recebidos pela Congregação de sua denominação naquela cidade, passaram a frequentar os trabalhos da mesma e levar seus filhos às reuniões de sábado. Era uma reunião com o intuito evangelístico e de comunhão com aquelas crianças, o pastor dali e sua esposa lideravam o momento. Todavia, com apenas um mês que a família missionária já se encontrava morando na cidade e frequentando aquela Congregação, começam as denúncias de uma das mães daquelas crianças que participavam dos encontros nos sábados. As suas filhas haviam dito que o pastor, durante as brincadeiras, sempre tocava em suas partes íntimas. Evidentemente, a mãe daquelas crianças envolvidas ameaçou denunciar à polícia, mas o caso foi abafado e o pastor abusador foi transferido de cidade.

A narrativa acima lembra-me de outra situação vivida em uma escola pública do Distrito Federal, na qual o Diretor reúne os professores de alunos entre 10 e 14 anos para anunciar a chegada, na semana seguinte, de um novo professor ao quadro. Perguntado sobre quem era e de onde vinha o tal professor, o Diretor disse ao grupo ali presente que aquele “vinha fugido de outra escola”, porque pais o haviam denunciado por se envolver com as alunas de lá, menores de 14 anos. Os professores olharam uns para os outros e disseram que a Escola não deveria aceitá-lo ali, ao que o Diretor respondeu: “É que esse professor foi ameaçado de morte lá e…”. O fato é que o grupo fez um abaixo assinado e pressão junto aos pais para que aquele professor não fosse transferido para a Escola. E conseguiram.

Veja que todas as histórias acima ilustram uma mesma realidade diante da qual não podemos fechar nossos olhos: a sociedade humana expõe suas crianças e adolescentes a situações de risco, tornando-os vulneráveis ao abuso. Em todas as histórias reais narradas até aqui, o elemento comum é que, por trás delas, temos instituições responsáveis por gerir aqueles ambientes. São Secretarias de Educação, FUNAI, Missões religiosas, Igrejas, Denominações e Escolas locais, por exemplo. Muitos indivíduos se sentem incapazes de reagir diante da letargia das ações dessas instituições. Elas são acionadas, mas, em muitos casos, não há a devida investigação e punição ao abusador. E, como bem sabemos, a impunidade é uma moeda de duas faces: de um lado, incentiva novos crimes, do outro, intimida as vítimas. Não há quaisquer políticas de proteção à infância oferecidas por muitas instituições no Brasil, não há orientações, ouvidorias e nem protocolos. Mesmo havendo, o resultado visto é o abafamento dos fatos, transferência dos envolvidos e responsabilização das vítimas. A conclusão a que chego é que o indivíduo tem sido, muitas vezes, sacrificado para que a honra e o bom nome da Instituição seja preservado. Logo, a primeira orientação dada é que o indivíduo é quem tem que tomar a iniciativa de criar mecanismos que o irão proteger, quando ele percebe que está em situações nas quais a instituição se mostra morosa ou incapaz de resolver o caso. E, indubitavelmente, a primeira e melhor ação é a prevenção.

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“Para uma criança abusada em um contexto missionário, o abuso se agrava pelo sentimento de traição na violação explícita de confiança que existe nessas comunidades onde as crianças são encorajadas a se dirigirem aos pais de seus colegas e amigos como “tias” e “tios”, em um gesto de respeito e proximidade”.

Adultos que Foram Sexualmente Abusados na Infância

Livros como “Sempre alerta”, de Deepack Reju, e também o “Hora do banho”, de Neide Lunas, são aliados do indivíduo, ensinando-o como criar protocolos de segurança e códigos para uma prevenção segura. Mesmo o livro de Reju, que é sobre a questão do abuso infantil dentro da Igreja, é num contexto norte-americano e de legislação diferente da brasileira. O de Lunas, após uma ótima apresentação sobre o tema, volta-se para pais e responsáveis, em geral, numa linguagem que prevê a nossa cultura majoritária. Todavia, como tratar desse tema em contextos missionários transculturais em que esbarramos na blindagem cultural? Vou citar um exemplo: o infanticídio indígena. O infanticídio indígena é uma prática realizada em algumas culturas no Brasil em que se enterram vivas as crianças que nasçam com alguma deficiência física ou mental, gêmeos e filhos de mães solteiras. Até hoje, mesmo com todas as denúncias, com tantos pais indígenas se levantando contra a prática, com toda a rede de apoio feita para que não se pratique o infanticídio, ainda assim a barreira no meio acadêmico e o silêncio das autoridades governamentais são enormes. Para oferecer a dimensão da dificuldade, nem precisamos ir tão longe, pois, se encontramos enormes obstáculos na nossa própria cultura (sequer a pedofilia possui uma legislação que a descreva como crime até hoje), como definir o que é e o que não é abuso sexual em outra cultura? Indubitavelmente, assim com acontece nas nossas discussões, as alegações de “cultura” e “consentimento” serão ainda mais fortes, quando usadas para se esconder ou não enfrentar o problema. Até o argumento do “colonialismo” será usado, uma vez que os defensores da infância serão acusados de impor seu conceito cultural de abuso sexual sobre outra cultura, em que “a nudez e os jogos sexuais entre adultos e crianças são culturais”! Se este artigo se propõe a abrir uma discussão, devemos estar cientes de que estamos entrando num ambiente espinhoso e delicado.

Há missionários que trabalham com culturas no Brasil em que, quando a esposa sai de casa, o marido abandonado tem relações sexuais com os próprios filhos como uma forma de punir a esposa que deixou o lar. “É assim na cultura”, muitos dirão. Porém, ou o pecado é um conceito e uma realidade humana, que perpassa todas as culturas, ou em nosso trabalho de evangelização e discipulado nunca poderemos confrontar as mazelas que muitas culturas abrigam em si. Numa escola missionária, muitos vieram conversar sobre os dramas de seus alunos, crianças indígenas com menos de 14 anos de idade que sofriam abuso em casa. Essas crianças eram identificadas por seus professores, mas, antes mesmo de dar queixa, esses professores sofriam com a ameaça de morte àquelas crianças denunciantes feitas pelos seus abusadores. Assim, essa barreira transcultural precisava ser quebrada de alguma maneira e uma das formas que encontrei foi de instrumentalizar os indígenas que já eram cristãos. Ao invés de abordar essas situações por meio de missionários “estrangeiros”, um cristão do próprio povo foi preparado para que ele mesmo fizesse o contato e o apoio aos seus parentes.

Dando continuidade ao programa acima, enviamos um pequeno grupo de mulheres indígenas e não indígenas para uma formação continuada em Curitiba, no Encontro da PHILLOS da AMTB. Os objetivos do curso eram claros e quero trazê-los como proposta para que nossas Agências, Missões e Igrejas se empenhem, intencionalmente, em alcançar esses mesmos objetivos para suas próprias realidades: 1) Conscientizar as organizações representadas sobre a necessidade de trabalhar em prol da prevenção do abuso de crianças e adolescentes dentro da sua organização; 2) Orientar sobre como desenvolver uma política de proteção a criança para que a organização seja um lugar seguro. O curso proporcionado pelo PHILLOS trouxe uma série de casos que, recentemente, apareceram na mídia. Um desses, o do Dr. Donn Ketcham, ocorrido em Bangladesh, na Índia, lembrou-me a série documental da Netflix, “The keepers”, pois em ambos os casos relata-se uma rede de outras pessoas que, ao longo dos anos, protegeram os abusadores com mentiras, enganos, falsa culpa e humilhação das vítimas, tratamento preferencial e encobrimento de provas. No caso do Dr. Ketcham, o abusador se valeu de sua posição médica na comunidade missionária para abusar de meninas e mulheres missionárias. No caso do documentário da Netflix, chocou-me a rede de proteção criada numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos, envolvendo desde o prefeito, políticos, polícia e o padre que organizava um esquema de prostituição das alunas de uma escola para meninas naquela cidade.

Outro caso trazido no curso da PHILLOS foi o tratado pela organização independente G.R.A.C.E. numa escola para filhos de missionários e que revela o legado de sofrimento das vítimas de abuso, que eram filhos de missionários, mas que só começaram a falar sobre o que sofreram quando eram adultos:

“Qual é o impacto que essas formas de abuso sexual, físico, emocional e espiritual causaram nas vidas dos estudantes da Fanda? O catálogo de mágoa e dor não é curto: negação, perda de memória, depressão, culpa, sentimentos de impotência, ataques de pânico, incapacidade de cantar na igreja, raiva, medo, desconfiança dos adultos, pensamentos e ações suicidas, autoagressão, distúrbios alimentares, abuso de substâncias, experimentação sexual, confusão sexual, repressão sexual, fugindo, se voltando para o oculto, comportamento criminoso, prisão e morte.”

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Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Provérbios 31:8

O que fazer para prevenir e responder ao abuso infantil no contexto transcultural? Acredito que cada Igreja local, cada Agência e Missão deve responder a essa pergunta de acordo com as realidades em que elas estão inseridas e devem refletir adequando-se às culturas com as quais seus missionários trabalham. Quando eu digo “adequando-se”, não pretendo que os abusos sejam ocultados sob a blindagem cultural, de modo algum. O que eu quero dizer é que precisamos compreender, estudar, analisar como a própria cultura trata essas questões, pois, em muitos casos, teremos que dar uma resposta contrária às práticas culturais, ensinando-os e, se for necessário, confrontando-os, como foi o caso da circuncisão feminina na África e o infanticídio indígena no Brasil. Ainda assim, é preciso que se aborde a pergunta feita em duas frentes: a da instituição e a da pessoa. Tanto Deepack Reju como o Curso da PHILLOS trouxeram orientações para as duas situações, até mesmo explicando o porquê de instituições cristãs e os próprios cristãos serem tão vulneráveis aos predadores sexuais. No caso das instituições, a triagem deficiente de obreiros voluntários, a impunidade e o isolamento e acesso ao campo são algumas das razões que tornam nossas Igrejas, Escolas e Missões um alvo para abusadores. No caso das pessoas cristãs, a falta de informação sobre o assunto e essa realidade, achar que isso nunca irá acontecer com ela ou com alguém próximo, a manipulação da fé por líderes abusivos, que usam do “não pode julgar”, do “falso arrependimento” e do “perdão” para que o caso não vá adiante são algumas das razões dos abusadores procurarem pessoas cristãs preferencialmente.

Então, mais uma vez, “o que podemos fazer a respeito?”. Lembro-me que, quando casamos, eu e minha esposa tranquilamente criamos regras simples, mas necessárias para que pudéssemos nos afastar de toda forma de mal (I Tess 5.22). Uma dessas regras era a de não dar carona para o sexo oposto. Eu era professor de Escola Pública no turno da noite e não apenas professoras, mas mesmo alunas, eram insistentes em pegar carona com professores do sexo oposto. Durante anos, vi muitos ingênuos mestres caírem na cilada da maledicência, da fofoca, pois não se afastaram de toda forma do mal. Quando minhas filhas começaram a transitar pela internet e frequentar as mídias sociais, estabelecemos regras de uso e de conduta (não aceitar amizades de desconhecidos e, ao fim do dia, mostrar o celular para que verificássemos. Estas foram apenas duas de muitas regras que impusemos a elas).

Se dentro de nossas casas há regras, por que não pode haver regras de proteção à infância dentro de nossas Igrejas, Missões e Escolas confessionais? Um professor ou capelão ter determinados toques no corpo de meninas adolescentes deveria ser algo impensável a uma escola confessional cristã. É preciso regras! É preciso protocolos gerais! Não apenas para a defesa e proteção de nossas crianças e adolescentes, mas tudo o que fizermos nessa direção estará protegendo também essas instituições de falsas denúncias. Nenhum missionário poderia ser recebido numa Missão sem que houvesse um período probatório para que ele conhecesse não apenas a visão, filosofia, histórico e protocolos da Missão, mas do público com o qual aquela Missão se envolve. Estamos em ambientes transculturais e, em muitos casos, os missionários são lançados em campos de complexidade cultural, em que há várias culturas se envolvendo umas com as outras. E esse missionário, trabalhando para aquela Missão ou Agência (e até mesmo tendo sido meramente enviado pela sua Igreja local) é visto pelo povo(s) como embaixador, representante daquela Missão. Brasileiros atuando em trabalhos missionários na Índia, na China ou na África precisam de protocolos, regras de atuação e conduta, políticas de proteção à infância, porque estarão sendo representantes dos grupos dos quais fazem parte.

Muitos autores cristãos alertam: num mundo caído como o nosso, sabemos que não conseguiremos evitar a total erradicação do abuso infantil no meio da Igreja (e do trabalho missionário transcultural). Todavia, é responsabilidade nossa que, verdadeiramente, nos importemos em reduzir os riscos de abuso infantil. Precisamos criar políticas de proteção à infância nos lugares onde estamos, precisamos prevenir e também saber como responder quando essas situações ocorrem. Como Igreja do Senhor Jesus, queremos ver nossas crianças se tornarem adultos saudáveis e apaixonados em assumir a Grande Comissão. As consequências na vida de um adulto que foi abusado na infância podem ser danosas, trágicas e mesmo levar ao suicídio. Por outro lado, o nosso Evangelho pode evitar, tratar e curar tanto as vítimas como certos tipos de abusadores.

Encerro fazendo o meu alerta: há uma guerra, mas ela é espiritual. O exército inimigo é perverso, estrategista e demoníaco. Essa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra instituições que foram dominadas por demônios dominadores deste mundo tenebroso. A linguagem deles é sutil, embora as estratégias sejam de guerrilha. A bandeira da vez não é meramente desvencilhar o homossexualismo da pedofilia, nem mais insistir apenas na legalização da pedofilia. O front de guerra apresenta algo muito mais difícil de lidarmos. E eu explicarei aqui. A luta pela proteção à infância está minada por ciladas de Satanás (Ef 6.1). Você já leu documentos oficiais e artigos em favor da proteção da criança contra abusos? A linguagem que tem sido usada é uma linguagem hegeliana, marxista, não mais de lutas de classes, nem de gêneros, mas uma luta etária de “adultos X crianças”, em que estas devem ter garantidos seus direitos e cidadania por meio, preste atenção, de uma autonomia infantil. Todos os documentos e artigos que venho lendo tratam a infância como uma construção social e, portanto, relativa. Cada sociedade, cedo ou tarde, é esta a proposta que virá, poderá estabelecer o que é a infância de acordo com sua cultura. Não apenas isso, mas a criança deve alcançar alteridade em relação ao adulto, conquistando seu protagonismo e sendo o sujeito de si mesmo, papel que lhe é garantido na sociedade por meio da democracia. Tudo isso, que deveria garantir a proteção da criança e o direito dela de ser ouvida em suas denúncias ou como testemunha de abusos, servirá também para garantir a ela o direito a própria autonomia sexual. Este é o mais novo caminho de luta que o exército inimigo já está empenhado em abrir.

Documentos e artigos de tal natureza só conseguem a exposição e legalidade, porque os cristãos verdadeiros não ocupam os espaços necessários para barrar e atuar nessa redações. Se você não ocupar o espaço, o exército inimigo ocupará e irá impor sua agenda, sua cosmovisão e espiritualidade. Este artigo é também um apelo! Eu e você precisamos estar presentes na esfera Federal, Estadual e Municipal dos Governos, temos que estar nos clubes, associações, ONG’s, reuniões de condomínios etc. A Igreja missionária, que se faz presente nas culturas mundo afora, precisa prevenir e dar uma resposta evangélica ao abuso infantil. Do contrário, a resposta deles prevalecerá.

Rev Fábio Ribas — líder da base indígena da APMT*

*Na época da publicação do ebook, em 29 de maio de 2022, eu ainda era líder da base. 

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...