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sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Feito homem - a jornada de uma mulher ao universo masculino

 


"Norah Vincent queria saber como realmente é a vida dos homens. Muitas mulheres estão convencidas de que os homens sempre viveram melhor, em todos os sentidos. Para descobrir por si mesma se isto era verdade, e tentar detectar onde falha a percepção comum, ela fez o seguinte: por dezoito meses se disfarçou de homem. Durante este período, Norah vivenciou uma verdadeira experiência antropológica, relatando o que observou incógnita. Com a ajuda de um artista da maquiagem, de um trainer e de um especialista em impostação vocal, ela se infiltrou em espaços e situações que as mulheres nunca viram. Por mais de um ano e meio, aventurou-se no mundo como seu alter ego. Ned, com uma barba sempre por fazer, com o cabelo cortado escovinha, com óculos de aros metálicos e com sapatos do próprio número de Norah, 42 - um disfarce perfeito que permitiu observar e participar do mundo dos homens como se fosse um deles".

 

    Essa é a experiência de viver um outro gênero. Uma experiência que durou 1 ano e meio e trouxe tanto revelações à autora, lésbica, como também uma depressão da qual ela não conseguiu se livrar até que realizou um suicídio assistido.

 

    Sete anos antes de publicar esse livro, houve a primeira experiência de troca de identidade, mas essa curta experiência não foi adiante. Fora algo bem informal e despretensioso. Contudo, foi o suficiente para a autora querer ampliar o que viveu ali numa única noite.

 

    Desde criança, ela se vestia de homem e tinha atração por brinquedos e brincadeiras masculinas. Aqui, ela faz a pergunta. Por que essa tendência ainda mal saída das fraldas? Ela diz que as respostas possíveis são muitas, mas ela descreve uma experiência da mãe que era atriz e ela ia sempre assistir a esses papéis em que a mãe se fazia de mulher e de homem… Fico pensando que, como logo se vê no ato falho da autora, há perguntas que fazemos e que nós mesmos respondemos. Sabemos as respostas, embora, na verdade, o que queremos é fugir delas.

 

    Terminei o primeiro capítulo e, como leitor, já me vi sofrendo por ela. Como ela mesma diz no livro, não é um livro sobre uma transexual. Ela não teve prazer e nem alívio algum nesse papel. Quando a experiência terminou, foi mesmo um fardo que lhe saiu dos ombros. Porém, o que mais me impactou, foi que houve um sofrimento emocional, pois ela precisou enganar pessoas e ela diz que isso foi o mais complicado e que vieram daí os danos a ela, danos à saúde mental. Danos que ela entendeu como punição por ter se intrometido no mundo masculino (e essa ideia de "punição" irá acompanhá-la durante o livro até se aflorar claramente no capítulo do mosteiro).

 

    Ao encerrar a leitura do primeiro capítulo, estava com uma vontade enorme de consolá-la, pois ela conseguiu mostrar bem tudo o que ela sofreu naquela experiência, que, agora, conseguia narrar naquelas páginas. Eu me vi totalmente envolvido com a história de Norah. Impressionante como ela escreve de uma maneira muito envolvente. Eu sabia que, por ser homem, a leitura dessa história seria muito instigante para mim. Eu não esperava que ela, a autora, fizesse o que fez no fim do capítulo, mas não darei spoiler.

 

    No capítulo intitulado "amizade", ela nos mostra como foi o primeiro desafio dela se passando por Ned. Ela escreve como mulher. Como ela mesma disse, ela não é uma "trans". Ela é lésbica. Ela é uma mulher e a feminilidade dela está ali bem perceptível em cada reflexão, em cada momento em que se depara com um homem e precisa se comportar também como um diante do outro. A abertura dela para aqueles homens, não duvido, só foi possível porque ela é mulher. E isso a pegou de surpresa também. Tudo muito interessante para o leitor que resolve se abrir para ouvir a autora. Paramos para pensar no que é "o ser homem" e "o ser mulher". Aqueles homens nos jogos de boliche e a busca por sair da pressão diária, fugir daquilo que todos esperam e cobram deles, então, exatamente por isso, aquela cumplicidade naqueles encontros, uma amizade nutrida e sem censura entre eles. E ela os absorveu muitíssimo bem, desde o aperto de mão até o ser aquilo que o sexo masculino era naqueles encontros, em que os homens eram homens em sua amizade. Ela me fez refletir nela como mulher diante de homens e a amizade que une a esses homens, inclusive ela aborda a diferença dessa amizade e interação entre os homens comparando quando o mesmo ocorre entre mulheres.

 

    O capítulo agora é sobre "clubes de strip-tease". Assim como eu mesmo nunca tive um grupo de amigos como aquele que ela conheceu no capítulo anterior (homens que se reúnem para uma interação esportiva masculina), eu também nunca frequentei clubes de "strip-tease". Por isso eu disse que ler como homem este livro é uma experiência inesperada. Mas, para ela, como lésbica, estar em clubes assim e ver como ela mesma digere tudo isso também é uma outra janela pela qual o leitor também olhará.

 

    Além de tudo, mais uma vez, ela se vê despertada em seu instinto materno. Um dos presentes gera isso nela. Era um jovem de vinte e poucos anos… Estamos aqui numa seara delicada. Ela fala como mulher e ela não nega que o seja. Ela mergulha no universo masculino, mas de uma maneira muito compreensiva. E ela, que nunca quis ter filhos, volta e meia se vê envolvida por esses sentimentos. Agora, eu paro de entender a autora e começo a me colocar na história. Ou melhor, quero ler este capítulo dos "clubes de strip-tease" com o meu olhar masculino.

 

    Que analogia foi aquela da autora?! Vou tentar explicar. Ela conheceu uma dançarina que dizia que fazia aquilo não por grana, mas porque gostava de homens. Refletindo sobre isso, Norah faz a seguinte avaliação da menina:

 

"Mesmo que isso fosse verdade quando ela começou, o que é duvidoso, com certeza não teria continuado a pensar assim trabalhando neste ou em outros lugares desse tipo. Era um pouco como dizer que você se tornou um médico legista porque gosta de gente".

 

    Wow! Um capítulo cru o do clube de strip-tease, seu título é "sexo"! Norah havia chamado o Jim, um dos membros da equipe de boliche do capítulo anterior, para ir junto para que ela não chegasse sozinha, mas, ainda antes da primeira noite deles numa dessas boates, há o seguinte diálogo entre Jim e ela:

"Eu vou a alguns destes bares", disse ele, "e este é o homem de família que existe dentro de mim, e digo a mim mesmo que estas meninas eram as filhas de alguém. Alguém as colocou para dormir. Alguém as beijou e as abraçou e lhes deu amor, e agora elas estão neste buraco." 
"Ou talvez alguém não tenha feito nada disso", disse eu.
"É", concordou ele. "Eu tenho pensado sobre isso também".

 

    O capítulo "amor" é o que se concentra nos relacionamentos, ou melhor dizendo, na corte de Ned com mulheres. Há uma crítica profunda e séria às mulheres neste capítulo. A autora confessa como foi olhar para as mulheres, enquanto essas se relacionavam com ela como sendo ela Ned. Vemos as mulheres pelo olhar de uma mulher, que sempre se relacionou com mulheres, mas nunca sendo tratada por elas como um homem. Não é à toa que Norah Vincent foi destratada pelas feministas. Se o capítulo fosse escrito por um homem, inevitavelmente chamaríamos o autor de misógino. Você realmente precisa ler este livro!

 

    Por várias vezes, peguei-me lendo como Norah, tentando viver aquelas experiências da maneira mais próxima possível dela. Também, intencionalmente, li como homem, mas, indubitavelmente, como cristão. O capítulo escancara essa falta total de comunicação entre os sexos. Triste. São mundos que estão cada vez mais distantes, quanto mais avançamos nas conquistas de gênero. Eis o paradoxo! O problema, como a própria autora coloca, não é de sexo, não são os homens. As mulheres são complicadíssimas! Para mim, ou melhor, para a Bíblia, o real problema está dentro do coração do ser humano. Não adiantam conquistas ou revoluções. Tudo isso sempre serão maquiagens.

 

    Há uma frase fantástica de Lacan citada no capítulo "amor" que, para mim, diz muito sobre o coração humano: "o amor é dar o que você não tem a quem não existe". Realmente, para o mundo sem Jesus, Lacan acertou em cheio. Só com Jesus teremos o que oferecer ao outro, enfrentando esse outro do jeito que ele realmente é.

 

    "Vida" é o próximo capítulo. Lendo e tentando entender o porquê do título, pois não há vida ali. Há tristeza, muita tristeza e aquela metáfora do casamento, ou melhor, aquele entendimento de que aqueles homens estão ali "casados" entre si, tanto para não precisarem (os homossexuais) chegar às vias de fato de se relacionarem com mulheres, mas terem seus contatos ali superficiais ali, como para (os heterossexuais) fugirem da sua total inabilidade de se relacionarem com o feminino. E todos, homossexuais e heterossexuais, poderem viver juntos (ainda que sós) e poderem se cuidar, ainda que isolados, e, finalmente, ser enterrados por alguém. São para estas coisas que, então, queremos casar? Pode ser. Todavia, biblicamente, o casamento entre um homem e uma mulher é, antes de tudo, para glorificar a Deus.

 

    O mosteiro era um lugar para homens. De fato, concordo com ela, um lugar feito para que não haja mulheres. Até mesmo o incômodo de um homem afeminado era algo não bem visto por ali. Mas ela mentiu mais uma vez e isso a está destruindo por dentro, conforme vai revelando nas páginas do livro. Mentiu aos monges sobre quem ela realmente era por baixo do Ned. O mundo é triste. As pessoas estão fugindo de Deus, dos outros e de si mesmas. E isso é a causa da dor mais profunda e do desencontro entre nós. Norah, contudo, não entende isso e se esconde por trás de seu confuso catolicismo romano.

 

    "Trabalho". E ela escolhe como novo campo de experiência algo extremamente americano: o setor de vendas. A maioria dos funcionários eram homens. Cobrados para renderem como homens. Não as mulheres. Mas eles, sua própria identidade, masculinidade, estava associada a isso. Como ela mesma colocou no início do livro, os seus relatos não são acadêmicos, científicos ou formais. São narrativas de suas próprias experiências. São recortes, não há dúvida, todavia, recortes que ela viveu e que a transformaram.

 

    No penúltimo capítulo, ela se encontra num desses acampamentos para o resgate da masculinidade perdida, algo como deve ser esse tal de "Legendários". Mais uma surpresa deliciosa. Há uma cena em que os homens fazem desenhos e muitos desenham Atlas e explicam que se sentem cansados de carregar tudo nas costas e num trabalho e cobranças inúteis para eles. Neste momento, ela une Atlas a Sísifo como a melhor definição desse homem moderno.

 

"Era uma combinação criteriosa, e talvez a descrição perfeita do homem moderno em suas maiores dificuldades e desgastado, carregando o mundo em seus ombros e rolando-o montanha acima. Ser o homem responsável por tudo, trazia consigo toda uma série de cargas e ansiedades que raramente - se é que alguma vez - ocorreu a mim ou às feministas que eu conhecia. Nós enxergávamos isso do nosso lado, e daí parecia maravilhoso estar no poder, tomar decisões, ter escolhas, escapar do campo de trabalhos forçados do provedor/administrador doméstico. Para as mulheres ambiciosas, ter uma carreira era muito melhor do que trocar sua milionésima fralda ou ficar olhando para seu papel de parede amarelo. Quando você está se sentindo preso em uma armadilha e privado de direitos, isso não quer dizer que trabalhar dentro de um terno incômodo de flanela cinza seja algum piquenique".

 

    O mais surpreendente nisso é que, em Jesus, o chamado não é para sermos Atlas e nem Sísifo, mas apenas seguidores de Cristo! Uma entrega voluntária para a redenção da esposa e da família e não uma condenação é o que nos ensina o Evangelho! Todavia, será que realmente cabe ao homem cristão assumir o papel de um cavalheiro que carrega sua esposa acima dos sofrimentos da vida? Jesus carregou a Igreja, pagou o preço por ela, mas não a isolou de sentimentos inevitáveis. Há alguma coisa aqui muito importante para uma reflexão mais profunda. Enfim, o chamado nosso não é para sermos Atlas, Hércules ou Sísifo, mas cristãos redimidos, pecadores resgatados. Estou escrevendo isto, no momento em que está todo mundo comentando aquele caso de traição do CEO no show do Coldplay. E aqui cabe corrigir Norah: nem os homens e nem as mulheres são os responsáveis por carregar o mundo em seus ombros - nós não somos Deus! Contudo, depois da sociedade moderna tirar Deus da equação, quaisquer trabalhos que façamos nos forçarão a agradecer a nós mesmos e também exigir que os outros reconheçam nossos esforços! A cosmovisão cristã, contudo, é outro olhar e vivência, mas será que os próprios cristãos sabem disso?

 

    Para finalizar, queria deixar dois parágrafos do último capítulo em que ela organiza suas conclusões.

 

"É claro que ser visto como um homem afeminado me ensinou muitas coisas sobre a relatividade do gênero. A minha vida toda, fui considerada uma mulher masculina. Isso possibilitou, em parte, este projeto. Mas pensei, que, quando eu saísse como homem, algum desequilíbrio iria se corrigir e eu seria um sujeito comum, bem dentro do espectro aceitável do gênero. Mas de repente, como homem, as pessoas estavam vendo minha feminilidade explodindo por todo lugar, e não a recebiam bem. Na verdade, nem mesmo as mulheres. Elas também queriam que eu fosse mais masculino e sexy, e às vezes também faziam suas suposições de que eu fosse homossexual, até mesmo quando saíam comigo. Dai a expressão "meu namorado gay".

 

"Nesse aspecto, as mulheres eram difíceis de agradar. Elas queriam que eu estivesse no controle, grotescamente grande e forte, tanto no espírito quanto no corpo, mas, ao mesmo tempo, também terno e vulnerável, subserviente a seus caprichos e dócil como um coelhinho. Queriam alguém em quem se apoiar e de quem depender, a quem olhar com respeito e ao lado de quem desfalecer, mas, apesar disso, alguém que soubesse do seu lugar reduzido no mundo pós-feminino. Mantinham sua suposta superioridade moral e sexual sobre mim e, às vezes, tentavam me manipular com ela".

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Carl Jung, sincronicidade e a barata (XL/2024)


Há muitos anos, eu li dois livros que impressionaram profundamente minha psiquê, deixando marcas indeléveis. São eles “Freud e Jung — sobre a religião” e “Resposta a Jó”. Este causou-me escândalo pela forma como abordou a Bíblia e o cristianismo e aquele me chamou a atenção pela exposição didática com que tratou o tema que dividiu Freud e Jung.

Dois livros que, obviamente, são frutos do seu tempo, ou melhor, que representam a racionalidade iluminista do homem europeu e sua posterior derrocada. Freud representa o homem moderno na sua escolha pela razão e em sua preocupação científica em delimitar suas pesquisas fazendo um recorte na tez do mundo físico: um homem marcado pela filosofia de Descartes, Hegel e Spinoza. Essa mentalidade do Idealismo forjou perenemente o perfil de Freud e seus estudos, além de explicar a gênese da ruptura entre ele e Carl Jung. Por sua vez, a Psicanálise desenvolvida por Jung trouxe ao divã aquilo que os racionalistas rejeitaram: o poder da religiosidade do ser humano. Todavia, não posso me furtar a dizer que a cena mais impactante do livro “Freud e Jung — sobre a religião” foi a narrativa ali feita sobre um sonho que Jung tivera. Ele sonhara que Deus vinha caminhando num campo, um Deus gigante e que se depara com uma basílica, uma igreja cristã e, então, Deus se posiciona sobre a igreja, desce as calças que vestia, coloca-se de cócoras e defeca sobre ela…

Freud defendia que a causa das neuroses encontrava sua gênese na sexualidade, ou melhor, na repressão da libido humana. Insatisfeito em limitar todas as explicações a este campo, Jung começa a questionar seu professor se não poderia haver outras razões escondidas no campo das religiões, dos mitos e da parapsicologia, por exemplo (Carl Jung buscava orientar suas pesquisas na direção do Oculto, interessava-se por sessões mediúnicas e por precognição). Tudo isso, entretanto, era um verdadeiro absurdo para Freud. Enfim, enquanto Freud permaneceu no campo do provável, coube a Jung abrir as portas da percepção da ciência psicanalítica rumo ao improvável. Em “Resposta a Jó”, Jung nos apresenta um Deus — Javé — destituído de consciência, um Deus amoral! Um Deus que, na verdade, aprende com Jó e com os sofrimentos humanos, um Deus construído, um símbolo. Javé é analisado como um Deus que, junto com os homens, “quer fugir da injustiça cega”. E a grande epifania de Deus, para Jung, foi quando a Igreja Católica Romana decreta o dogma da Imaculada Conceição, elevando Maria à semelhança de um deus e entregando a Javé aquilo que lhe faltava: Maria era a Sofia do AT, a peça fundamental para equilibrar a masculinidade e o patriarcalismo da Santíssima Trindade. Diante desta pequena amostra das ideias desenvolvidas no livro de Jung, não é mera coincidência que a Europa apresente hoje um pós-cristianismo que, na verdade, é muito mais um renascer do antigo panteísmo. A decadência da modernidade freudiana é o advento de um panenteísmo pós-moderno revelado pela psicanálise de Jung no inconsciente de todos nós. Eis, então, dois livros que nos servem de ilustração para compreendermos os eventos ocorridos nos últimos dois séculos na Europa e que se estendeu ao Ocidente: a Modernidade e a Pós-modernidade!

Por estes dias, assisti ao filme “Um método perigoso”, que narra exatamente este período de encontro e desencontro entre Freud e Jung e também a paixão intempestiva entre Jung e uma paciente sua, Sabina Spielrein, que se tornará mais tarde psicanalista, especializada em psicologia infantil. Há uma cena nesse filme que ilustra bem o que eu expliquei no parágrafo anterior. Jung questiona Freud se tudo teria que se restringir à sexualidade e se eles não poderiam, então, pesquisar a metafísica, a parapsicologia, etc. Freud reage frontalmente a essa posição, mas, precisamente naquele momento da discussão entre os dois, o móvel da Biblioteca da casa de Freud dá um grande estalo. Jung diz ao seu professor que sabia que isso iria ocorrer, porque, nas palavras de Jung, enquanto Freud estava reagindo às suas ideias, ele sentira um fogo, uma queimação em seu estômago. Freud, compreendendo que tudo não passara de mera coincidência, ficou escandalizado com as ideias de seu pupilo, Jung, contudo, insistiu dizendo que o estalo iria acontecer de novo. Dito e feito! Mal terminara de falar, um novo estalo ocorre diante de Freud em sua estante de livros. Posteriormente, numa carta a Jung, Freud atribui o ocorrido a uma enganação, uma farsa forjada por Jung para desmoralizá-lo.

Para Freud, tudo não passava de meras coincidências. Para Jung, coincidências não existiam. As coisas estão todas ligadas; os fatos que não tem conexão aparente estão conectados, assim como havia pessoas que se percebiam convergir em direção a outras por “coincidências” que denunciavam uma unidade espiritual entre elas e a isso Jung dá o nome de sincronicidade. E é com uma ilustração deste conceito junguiano que encerro este meu texto. Após assistir ao filme “Um método perigoso”, fui à biblioteca da minha casa rever os dois livros que abordei aqui. Ao sair da biblioteca, passei pelo quarto das minhas filhas e vi que, encostada à porta, havia uma enorme barata. Peguei a sandália e aproximei-me bem devagarinho. Num gesto típico dos que tem ódio desses seres nojentos, desferi contra ela uma pesadíssima sandaliada. Depois, ergui a sandália e pude ver a famigerada totalmente destruída, esmagada e com seus líquidos viscosos e brancos espalhados pelo chão. Fui ao banheiro pegar o papel higiênico e retirá-la dali, lançando-a à privada. Porém, para minha surpresa, ao retornar alguns segundos após ter saído da cena de meu crime, aquela barata enorme havia simplesmente… sumido! Procurei atrás da porta, pelo quarto, debaixo das camas, ainda que eu soubesse que aquela busca era em vão, porque vira aquele bicho ser totalmente destruído pela violência do meu golpe. A barata desaparecera… ou, talvez, nunca existira. Teria sido precognição ou sincronicidade? Simples coincidência? Tudo isso acontecendo logo naquela manhã em que eu acabara de ler que Jung costumava sentar à mesa da sua sala, passando longas horas conversando com fantasmas…

Fábio Ribas

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

O caminho da servidão (XXXVII/2024)


“O que sempre fez do estado um verdadeiro inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso”. — F. Hoelderlin

Quando cedemos a que o estado planejador defina nossas decisões na área da economia, estamos dando a ele o espaço para que coloque tudo debaixo de uma planificação nacional coletivista. Se você perde a liberdade de escolha acerca do que comprar, como e onde, deixando que o estado decida o que é melhor para o “social”, ele vai decidir cada vez mais e eu e você cada vez menos. Não queremos dinheiro como um fim em si mesmo, mas queremos dinheiro PARA alguma coisa. “Para alguma coisa” é a nossa decisão e o estado jamais deveria intervir sobre isso.

Precisamos, de fato, salvaguardar a liberdade individual e também entender que a democracia não é um fim em si mesma. A democracia não é a prova de que, enquanto ela existe, estaríamos protegidos da ditadura. O que nos protege da ditadura são limites de poder. Até em democracias podemos viver sob a opressão de regimes ditatoriais. E nada mais certo do que isso, quando vemos o que estamos vivendo atualmente na história do Brasil. Quem limita o poder do judiciário? Nas palavras de Rui Barbosa, “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”.

O socialismo é o caminho da servidão, esta é a tese principal de Hayek em seu livro. Portanto, o que o autor nos mostra é que você não é feito escravo da noite para o dia. Há um caminho por que nós somos, passo a passo, levados ao abismo. Isto é o que se deu com a Itália, a Alemanha e a Rússia. O caminho não se dá politicamente, a princípio. É pela via econômica que o Estado vai conseguindo poderes cada vez mais invasivos na vida do cidadão comum, até que ele se imponha totalitariamente.

Enquanto lia o livro, eu tentava imaginar o que foi para ele ver, com a criação da ONU, Stalin sentar à mesa com os países livres. A presença de Stalin e, nos anos que se seguiram, dos demais dirigentes russos da antiga União da República Socialista Soviética foi a bancarrota do mundo livre e a condenação de vários países mundo afora. O uso da ONU para afundar a Coreia do Norte, a China, Cuba e tantos outros está muito bem documentado no livro “O comunista exposto”, de Cleon Skousen (veja aqui).

A fraternidade essencial e fundamental entre o marxismo, o nazismo e o fascismo está totalmente comprovada. As ideias socialistas estão carregando todos estes grupos para a formação de um Estado Totalitário. A Alemanha de Goethe e Humboldt sucumbiu às ideias socialistas e isso a levou ao regime totalitarista do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Mais um livro que eu leio no sentimento da raiva, por ver que tudo o que poderíamos ter evitado nos últimos 30 anos estava escrito ali, desde 1943. Ninguém leu Hayek aqui na terra brasilis?

Como que o totalitarismo chega ao poder por meio das ideias socialistas explica a tomada do poder por Hitler na Alemanha, pelo Duce na Itália, por Stalin na Rússia. Este mesmo engodo brasileiro que durante décadas nos enganou entre uma “direita”, o PSDB, que se digladiava com uma “esquerda”, o PT; ambos, contudo, farinhas do mesmo saco comunista. Ninguém havia lido Hayek no Brasil, para que, então, pudesse nos alertar? 

A suprema tragédia, ainda não percebida, está em que, na Alemanha, foram em grande parte pessoas de boa vontade, homens que eram admirados e tidos como exemplos nos países democráticos, os que prepararam o caminho para as forças que agora representam tudo o que detestam — se é que eles mesmos não as criaram.

O livro de Hayek é muito bem escrito, claro e repleto de argumentos e fatos. Hayek ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1974. Para Rothbard, isto foi uma surpresa, pois, segundo suas palavras:

“Não apenas porque todos os Prêmios Nobel anteriores em economia tenham ido para progressistas à esquerda e opositores do livre mercado, mas, também, porque eles foram uniformemente concedidos para economistas que têm transformado a disciplina em uma suposta “ciência” preenchida por um jargão matemático e “modelos” irrealistas que são então utilizados para criticar o sistema de livre empreendedorismo e tentar planejar a economia através de um governo central” (em “Hayek e o Prêmio Nobel”)”.

Quando nos vemos trilhando o caminho da servidão, para Hayek, é que teríamos esquecido o verdadeiro caminho, mas qual seria o caminho esquecido? Seria o caminho do individualismo? O do capitalismo? Não, para Hayek, o caminho esquecido e abandonado é o caminho que fez o enriquecimento da Civilização Ocidental. Mas o que nos fez enriquecer? O livre-comércio? Não! Foi a nossa ética, a nossa moral individual defendida de forma cristalizada na primeira emenda da Constituição Americana. A ironia, para mim, é que a maior defensora e até mesmo responsável pelo desenvolvimento da ética individual no mundo Ocidental é a Igreja Cristã, todavia, é a partir dela que mais temos visto uma oposição ao individualismo. A igreja cristã foi fartamente usada e abusada para defender e expandir as ideias socialistas em várias partes do mundo. Se o real problema do homem não é nada que venha de fora, mas está no seu coração, isto já deveria ser suficiente para vermos o individualismo e o coletivismo dentro de esferas mais justas. A verdade, porém, é que a mentalidade revolucionária é criativa e fortemente adaptativa (para saber mais sobre isso, leia aqui).

O Estado planejador opta sempre pelo utilitarismo em detrimento da ética. Em outras palavras, o Estado sacrificará os direitos humanos alegando que está agindo pelo bem comum. Mas a pergunta que eu tenho martelando na minha cabeça é: de onde vem as pessoas que compõem o estado? Um dos capítulos do livro tem como título a seguinte pergunta: “Por que os piores chegam ao poder?”. Acredito que há uma pá de gente mal-intencionada, com sede de poder, mas poder para controlar a vida alheia. Há muita gente assim no meio privado, que sacrificam a ética individual, assassinam a reputação de quem não come na tigela que eles servem e que destroem quem se coloca como pedra de tropeço aos seus planos imperialistas. Essas pessoas não estão apenas trabalhando para/no Governo, mas podem estar se beneficiando dele em alianças espúrias e duvidosas. Essas pessoas estão também na iniciativa privada, nas escolas, nas associações, nos condomínios, nas igrejas! Agora, se ocorresse, de fato, uma livre concorrência, essas pessoas seriam limitadas pelas regras do mercado ou, cedo ou tarde, até expurgadas de onde se encontram. O mesmo não ocorre no estado. E a história recente do Brasil é uma prova do que estou escrevendo. Por isso que essas pessoas correm para exercer o que elas são no estado, mas debaixo da proteção da estabilidade de concursos públicos. De modo algum, estou dizendo que no estado só há os piores, longe disso. Há também os de boa índole e também os alienados, que são aqueles que não se dão conta que trabalham para perpetuar um leviatã que nos consome a todos.

Quem não se lembra do “fiscal do Sarney”? O governo congelou os preços e motivou as donas de casa a irem fiscalizar os estabelecimentos. Assim, o que a história recente nos ensina é que é preciso apenas uma justificativa palatável. Quem nos fez fiscais do nosso próximo? Qual a ética e a moral que me permitem intervir no empreendimento alheio? Não há ética onde existe coletivismo. Ou você garante os direitos humanos ou você impõe um estado planejador. As duas coisas ao mesmo tempo é uma grande utopia. Essa grande utopia veio para o Brasil sob a roupagem do PSDB — o partido dessa falácia chamada “social democracia”.

O que mais assusta (ou desanima) na leitura do livro é que estava tudo lá desde a década de 1940 e, mesmo assim, caminhamos a passos largos nesse caminho da servidão até chegarmos na situação crítica em que nos encontramos hoje. Assim, se definirmos “Estado de Direito” como a existência de leis que ajam de maneira igual sobre todos igualmente e que não haja ninguém que seja beneficiado por essa lei — a lei é para ser aplicada por uma justiça cega sobre todos, concluiremos, horrorizados, que não há um Estado de Direito no Brasil! Conta a mitologia que Plutão, o deus das riquezas, fora privado da visão por Júpiter e, manipulado por intrigantes que se aproveitavam de sua cegueira, Plutão concedia riquezas a quem não era merecedor de tê-las…

Esta história fez-me pensar na Justiça, que cega, deveria usar sua espada imparcialmente sobre ricos e pobres, mulheres e homens, independente da raça, cor e credo. Todavia, como no Brasil, tudo se inverte, não estaria nossa justiça também em mãos de intrigantes e, à semelhança de Plutão, não estaria ela concedendo seus tão caros benefícios a quem indubitavelmente não merece, corrompendo a razão original de sua cegueira? É o fim da verdade. O estado planejador terá como objetivo, para sua própria sobrevivência, o fim da verdade. 

                Fábio Ribas

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

O comunista exposto (XXXVI/2024)


Ao terminar a leitura de “O comunista exposto”, de W. Cleon Skousen, Vide Editorial, senti-me muito mal. Senti-me esmagado por uma sensação muito ruim, não só porque o espírito que embalava o comunismo não morreu com a queda do Muro de Berlim e o fim da Cortina de Ferro, mas por constatar também que sua prática de falsa propaganda continua a mesma. Ainda que, nos últimos capítulos, o autor tenha roteirizado os passos que deveriam ser dados para que aquele sistema totalitário fosse impedido, ainda assim, o que lemos no livro é sobre um rolo compressor satânico. Mas, nessa história toda, há coisa pior, além da ignorância e estupidez de quem foi um idiota útil na sustentação dessa máquina assassina. Falarei sobre isso.

O livro possui 13 capítulos, além do prefácio, uma introdução e uma ótima conclusão para ser estudada em pequenos grupos, que são abordagens voltadas aos pais, jovens estudantes, professores e outros grupos. Há ainda uma seção sobre a trajetória de como se deu a construção do livro até sua primeira publicação. Na verdade, houve uma primeira edição privada, ainda em 1958. Depois, em 1961, sai uma nova edição em que se acrescenta “as 45 metas do comunismo”. A despeito do tempo decorrido dede suas primeiras publicações, em 2014, Dr. Ben Carson (cuja vida deu origem ao filme “Mãos talentosas”) declara que o livro parecia ter sido escrito ontem. De fato, a mentalidade e o espírito do comunismo estão presentes em nossa sociedade hoje. O sacrifício da lei e da ordem no cenário de nossas democracias é atualíssimo. Vivemos tempos sombrios e a nossa mídia afasta, cada vez mais, as pessoas da realidade, enquanto, concomitantemente, nosso cristianismo é novamente usado para condenar publicamente quem sequer ainda não teve amplo direito à defesa.

O livro tece sobre o surgimento do comunismo, seus fundadores e a atração que ele exerce nas pessoas. A biografia de Karl Marx é um escândalo, que, por si só, já deveria impedir de um cristão ter as palavras “cristianismo” e “marxismo” saindo da mesma boca. Os crimes desses personagens — Marx, Lênin, Trotsky, Stalin, Khrushchev, Fidel Castro, etc — estão todos relatados no livro: seus assassinatos, corrupções, mentiras e psicopatias transbordam das páginas que narram essas biografias. Todavia, nada disso foi a principal razão do meu mal estar ao terminar o livro, uma vez que não se poderia mesmo esperar nada de diferente do comunismo e suas falácias. O que causou-me tanto mal estar então? Vou citar as palavras do próprio autor ao iniciar o capítulo 12: “Neste estudo, não fizemos tentativa alguma de encobrir os erros cometidos pelos homens livres ao lidar com o comunismo no passado”. No momento em que eu li essas palavras, já era tarde demais. Eu já estava enojado com o “mundo livre” e sua cumplicidade e responsabilidade com o que foi o comunismo por toda face da terra. E não estamos falando de uma mera questão de gosto ou desejo de se identificar com um lado ou outro da política, estamos diante de uma máquina de extermínio que ceifou a vida de mais de 100 milhões de pessoas!

O comunismo não apenas é uma fraude filosófica, política e econômica, e o autor tratará de responder a cada uma das falácias marxistas nessas áreas, mas é uma engenharia desoladora, que cometeu o genocídio de milhões e milhões de pessoas inocentes! Ao ler o livro, portanto, vemos que, a cada passo dado por esse regime ditatorial, havia a omissão do chamado mundo livre. O livro não apenas expõe o comunista, mas também o homem livre que fecha seus olhos diante da realidade. Os erros cometidos pelo homem livre não se devem ao fato de não se conseguir adiantar e prever os movimentos do inimigo, mas à recusa de não dar ouvidos aos gritos insistentes dos inocentes. Houve incompetência sim! Não há dúvida. Houve incompetência e estupidez, mas houve coisa pior também por parte dos “homens livres”. Houve interesses escusos de se deixar sacrificar inocentes para se garantir uma estabilidade ou a manutenção de um status quo. Duas estratégias vitoriosas usadas pelo programa comunista foram o uso da falsa propaganda, fazendo com que, em muitos eventos no século XX, os comunistas fossem vistos como os democratas e libertadores da opressão, angariando com isso muitos simpatizantes e, como segunda estratégia, infiltrar espiões nos Governos, Diplomacias, Imprensa em geral e na classe artística, para que, na hora das grandes tomadas de decisão internacional, esses grupos fossem acionados para fazer com que as peças no tabuleiro se movessem a seu favor. Exemplo disso foi a União Soviética ter entrado na Organização das Nações Unidas, entidade criada para agregar os países amantes da liberdade. Não apenas a URSS entra na ONU, mas ela é membro fundador e ocupa a cadeira do Conselho Geral, ao lado dos Estados Unidos, França e Inglaterra. Esse Conselho toma decisões às quais os demais países são obrigados a acatar (obrigados numa organização criada para a liberdade?!). Não fosse isso suficiente, alguns anos mais tarde, depois de massacrar os nacionalistas chineses, que lutavam contra a comunização do seu país, assenta-se a República Popular da China nesse mesmo Conselho, representando mais um regime totalitário comunista na liderança da ONU. Assim, o autor vai mostrando como que os comunistas moveram a ONU para favorecê-los nas Guerras da China, Coréia e Indochina. Os diplomatas e a ONU chegaram a defender os ataques comunistas justificando que os vermelhos é que eram os libertadores democráticos, enquanto isso, os comunistas esmagavam os verdadeiros antifascistas.

Sob Khrushchev, a estratégia de dobrar os Estados Unidos e a ONU se fez ainda mais sagaz, ao ponto desse líder soviético ter feito uma visita à América e ao Presidente dos Estados Unidos, dando munição ao Partido Comunista naquele país! Da sua parte, Khrushchev conseguiu impedir que uma visita do Presidente americano fosse feita na URSS. E o pior, debaixo da mão de ferro de Khrushchev, se deu na revolução Húngara de 1956 um dos mais covardes atentados contra os direitos humanos. A situação da Hungria é uma das mais revoltantes, porque, mais uma vez, o chamado “mundo livre” fechou os olhos à destruição comunista ao país, enquanto o povo fazia apelos desesperados pelo rádio, sem entender como que os países capitalistas e livres deixavam os soviéticos, apoiados pela ONU, exterminarem o povo e tomarem de assalto o país. Entretanto, ainda como exemplo, o autor expõe toda ação da ONU, da Imprensa e da classe de artistas americanos que protegeu, divulgou, apoiou e levou ao poder um sanguinário psicopata como Fidel Castro ao poder! Em todos esses casos, quando esses líderes comunistas, uma vez no poder, instalavam suas ditaduras sanguinárias, o que se ouvia da parte da ONU, de diplomatas, da Imprensa e de artistas é que a ascensão desses líderes era algo “inevitável”! “Inevitável”?! Quanto asco me dá essa palavra, porque ela é a versão secular para “Deus quis assim”! E esse fatalismo de botequim, esse teologizismo de boteco, essa espiritualidade com falsas roupas de puritanismo, eu também tenho encontrado nestes anos todos de vida cristã. Um discurso religioso que coloca a responsabilidade de nossas ações na conta de uma soberania divina, que só é professada por esses quando o resultado de suas empreitadas se revela um enorme equívoco. É como se fosse a versão inversa do que nos ensinou Hannah Arendt — seria, então, uma “banalidade do bem”, em que essas pessoas abrem mão de julgar a si mesmas, colocando a responsabilidade moral de seus atos não mais no Estado, mas num deus culpado por levar as coisas ao ponto em que elas chegaram, a despeito dos crimes, erros e pecados individuais.

Portanto, todas essas coisas me fizeram muito mal durante a leitura desse livro. Elas me doeram a alma! Ainda que a Cortina de Ferro e o Muro de Berlim tenham ruído, mas das 45 metas comunistas para dominar os países livres, apenas uma delas não tinha sido ainda colocada em prática até 2014. Isso significa que o comunismo se reinventou e conseguiu avançar mundo afora, mesmo depois da queda da antiga URSS, vindo a se multiplicar e dominar a América Latina, por exemplo, pelo viés de eleições democráticas, como previa o próprio Karl Marx. Todas aquelas estratégias de domínio da imprensa, manipulação dos fatos, se vender como “democrático e livre”, como os “antifascistas” da história, tudo isso vemos ocorrer bem debaixo do nosso nariz, hoje em dia, no Brasil. A China foi perdida, a Coréia foi perdida, a Hungria e todos os demais países daquela época também. Ainda que a liberdade política tenha retornado a muitos desses lugares, o cativeiro marxista continua a enclausurar as mentes ao redor do mundo, pois é uma cosmovisão e não mais apenas um partido político ou um Governo. As estratégias continuam as mesmas: usar da propaganda de que os “fascistas” são os nacionalistas (que, na verdade, defendem seus países contra a desordem, a mentira e a corrupção dos comunistas), enquanto os "vermelhos" são vistos e defendidos pelas instituições difusoras de informação como “os heróis da liberdade”. 

            Fábio Ribas

sábado, 20 de julho de 2024

Aquarela (XXIX/2024)


Comentei na Amazon:

“Eu tenho várias razões para dizer o quanto gostei deste livro da Elizabeth Gomes, mas, dentre tantas, gostaria de ressaltar as soluções narrativas que ela apresenta em seu livro. A história linear, vez em quando, muda o foco da narrativa e, não apenas isso, mas adianta fatos (sem entregá-los), que só serão desdobrados depois. Achei muito bom! Um deles, por exemplo, fez-me ficar na expectativa até quase o final do livro, para ver quando que se daria o fato trágico anunciado no “meio da história”.
Personagens reais e muito cativantes. Gostaria de mencionar apenas uma das proezas da autora: se num dos capítulos, ao ler, eu o encerrei dizendo que não perdoaria também a determinado personagem, bastou o capítulo seguinte para que eu desmoronasse em lágrimas e me visse, então, perdoando aquele personagem.
Quem deveria ler este livro? Os cristãos e todos aqueles que precisam compreender o desafio real que muitas famílias missionárias passam ao enfrentar outras culturas. Nesta história, não há super-heróis e nem supercrentes, mas há a Graça e a Providência divina que nos assombram ao se manifestarem na vida comum de cada um de nós.
Obrigado, Beth, por nos dar um presente de imenso valor literário!”.

Contudo, aqui, quero traçar mais algumas linhas abaixo. Acho que poderá ser spoilers para alguns.

Há uma delicadeza na escrita sobre um Brasil que, sinto eu, esteja cada vez mais difícil de encontrarmos hoje em dia. Acompanhamos a trajetória da pequena Miriam, seu irmão e seus pais, esta família de missionários. As frases e cenas que a Elizabeth cria são cheias de sentimento, como, por exemplo, aquela cena da pequenina Miriam convidando a velha senhora para “brincar de igreja” — aquele momento foi lindo!

Frases construídas pela autora e, como eu disse, que são belas e nos fazem ver esse Brasil do interior de Monte Belo, no sertão de Minas Gerais, mas, principalmente, o interior daquela família missionária também. Estamos diante de um Brasil que talvez não exista mais, mas que foi testemunhado por tantas famílias de missionários protestantes americanos que vieram e deram sua vida por nós na primeira metade do século XX. O livro narra sobre uma dessas famílias. A família do Reverendo Donaldo, sua esposa Grace e seus filhos, Miriam e Natã. Enquanto lia, lembrei-me de tantas outras famílias americanas (e de outras culturas) que conheci, famílias de missionários estrangeiros que também amam nosso povo e, muitas vezes, percebi que amavam o nosso povo até muito mais do que eu mesmo tenho conseguido amar.

Preciso chamar a atenção para o que encontrei no capítulo 3, “Bom, mal e normal”, ali, Beth revela-se no melhor da sua escrita humorística. São páginas de uma escrita tão acertada e cheia de alegria, que nos pegamos lendo e sorrindo por todas a páginas. Aquela cena da Miriam cantando o hino “religioso” na igreja americana foi o máximo. Cena digna de filme! E o que dizer, então, da igreja de judeus que cantavam adorando a Deus “só não podiam acreditar em Jesus”! Humor fino da autora, mas vindo da personagem de uma Miriam cheia de gracinha, inteligente, curiosa e esperta. Como missionário, pai de duas filhas que cresceram nesse mesmo mundo colorido de tantas culturas, línguas, raças e de situações financeiras tão diferentes umas das outras, amei aquela reflexão sobre os filhos de missionários americanos, mas que, certamente, se aplica a todos os filhos de terceira cultura mundo afora:

“Esses filhos de missionários não tinham como ficar entediados — de certa forma, eram criados para ser desajustados; diferentes das crianças brasileiras de qualquer classe social e nem um pouco parecidos com as crianças que viviam a vida toda nos Estados Unidos”.

“Criados para serem desajustados” — perfeito!

Miriam está crescendo, mas seu pai, o Rev Donaldo, também está mudando. Alguma coisa não está indo bem com a família. Título sugestivo do capítulo: desmascarado. Como que as coisas se perdem? Como elas saem do controle das nossas mãos desse jeito? Fui pego de surpresa, confesso. Não sabia nada sobre do que se trataria o livro. Resolvi ler por duas razões: estou trabalhando um Mestrado em um dos livros do marido da autora, o Rev Wadislau Gomes, e, segunda razão, li um livro ainda não publicado da própria Elizabeth e gostei muito (além de ter tido o privilégio de também ter lido um outro livro de um dos filhos dela, também ainda não publicado, o Rev Daniel). Enfim, tenho lido livros da família Gomes. Tudo isso, portanto, trouxe-me naturalmente ao livro “Aquarela”. Mas sobre o que é, então, este livro da Beth? Um livro sobre o esfacelamento de uma família missionária? Grace, mãe de Miriam e Natã, está agora totalmente insatisfeita. Rev Donaldo, usando as palavras de sua esposa, é um “irresponsável”. Miriam já começou a reagir negativamente a esse estilo de vida da família: pais ausentes em uma família missionária que não se entende mais e nem busca a Deus juntos. Dos Estados Unidos para Monte Belo, MG; depois, Campinas, SP; foram, então, para Goiânia, capital de Goiás; depois para Brasília e, agora, Curitiba, no sul do Brasil. Uma vida de idas e vindas, entradas e saídas. Contudo, Donaldo abandona a Missão. O que ele quer? Ganhar o mundo e perder sua família? Todo aquele colorido dos primeiros capítulos, toda aquela aquarela do início se desfará, “se descolorirá”, como nos versos do poetinha Vinicius de Moraes?

Miriam está com 15 anos! O tempo passa rápido (e as páginas de nossa leitura também). Capítulo narrando sobre o despertar do amor em Miriam. Ou melhor, o despertar que ela já causa em terceiros. O livro é rico em personagens que são muito bem construídos e o capítulo sobre o primeiro enlace amoroso de Miriam serviu de alívio, uma pausa, uma retomada de fôlego, para o meu coração leitor, que vinha tão angustiado ao ver o desmoronamento daquela família nas páginas anteriores.

A família, contudo, chega ao fundo do poço. Se é um abismo, como indica o título do capítulo, haverá fim? Como uma família cristã, uma família missionária se vê envolvida pela bancarrota financeira e espiritual daquela maneira? Conheci muitas famílias cristãs, famílias missionárias com suas crises, seus profundos desvios. Às vezes, mentiras, infidelidades, filhos extraviados… Porém, não lembro de ter lido um romance que tratasse desses assuntos de forma tão acertada e vívida, como é o caso de “Aquarela”. Meu coração se encanta ao mesmo tempo que se entristece com tudo que vai lendo. Acho que eu sofro ainda mais, por eles serem estrangeiros. Se fosse uma família missionária brasileira sofrendo aqui ou em um país estrangeiros, talvez eu me distanciasse mais da história. Entretanto, conheci muitas famílias estrangeiras no Brasil e acho que sei o quão é difícil para essas famílias abrirem mão de tudo para estarem entre nós, língua e cultura tão diferentes das deles. É muito difícil ver a Grace alimentando sentimentos tão autodestrutivos, enquanto Donaldo perde-se cada vez mais.

Nesta altura da história, a autora começa a usar suas estratégias criativas para inovar sua contação de narrativa para nós. A apresentação do personagem Mauro, a anunciação de uma tragédia envolvendo Miriam e os diálogos que vão saindo de uma cena amorosa para uma cena trágica, tudo isso revela o domínio da autora. Estamos totalmente envolvidos com a história triste de Grace.

O livro chegando ao seu fim e as indagações na minha mente: Como se escreve um livro assim? Rico em detalhes e cheio de personagens humanamente muito bem construídos? Sabemos que uma tragédia ocorrerá, mas ela ainda não se deu (e o livro já anuncia o seu fim — então, como será para Miriam?). E Grace? Eu também não teria perdoado. Ele foi muito irresponsável, cruel e canalha (aquela venda dos quadros e o que ele disse…)! Como terminará esta história? Como terminam as nossas histórias? O que esperar da vida que Deus escreveu para cada um de nós?

Por fim, um livro que também indicaria a tantas famílias missionárias que estão se preparando para sair de suas vidas “em casa” ou que já estejam recém-chegadas em uma outra cultura. Mas também, é um livro que deve ser lido por todo aquele que deseja ser um Conselheiro bíblico para essas famílias. Um livro para educar nossa imaginação e nos ajudar a ajudar a outros na lida de nossa caminhada cristã.

                        Fábio Ribas

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Meu filho Dahmer (XXVI/2024)


Assisti esta semana à série “Dahmer”, da Netflix. Recordo-me de ter sido uma série muito comentada durante seu lançamento e também lembro de toda a publicidade em torno das atuações, da direção e produção. Havia também a expectativa de toda violência na recriação dos crimes cometidos por Jeff Dahmer. Isto, certamente, manteve-me longe de assisti-la por todo este tempo. 

Como seria de esperar, saíram vários vídeos e reportagens mostrando o que era fidedigno e o que era “licença poética” ao que nos foi oferecido como resultado final. A atuação do jovem que fez o personagem principal foi comentadíssima. De fato, Evan Peters está muito bem assentado ao terrível “canibal de Milwaukee”. Não foi nem o primeiro “psicopata” que o ator interpretou, assim como não foi a primeira vez que assisto e leio sobre assassinos em série. Contudo, sempre aguardo “a poeira baixar” para, então, avaliar se devo ou não assistir/ler essas histórias badaladas na mídia.

Há uma fascinação sobre como essas pessoas — nossos semelhantes — são capazes de chegar ao ponto que chegam. O primeiro livro que devo ter lido sobre assassinos em série foi o excelente “Mentes perigosas — o psicopata mora ao lado”. Aliás, é um livro que, volta e meia, comento, pois fez parte da minha caminhada cristã missionária e ajudou-me a entender e também a me proteger de psicopatas (manipuladores emocionais e espirituais) que nos cercam. Acho que nunca resenhei esse livro da Dr.ª Ana Beatriz Barbosa Silva, mas a esse seguiram outras leituras de outros autores: “Lady Killers”, “Anatomia do mal”, “Made in Brazil” (este é um volume único com dois livros da Iliana Casói) etc. Assim, de memória, lembro desses que são todos da Editora “Darkside”. Nossa literatura de ficção e não ficção é recheada de mergulhos na alma humana. O que só demonstra como o tema do lado escuro da nossa natureza nos fascina. 

Para mim, entre tantas qualidades alardeadas sobre a minissérie “Dahmer” (embora, não nego, tenha passado para frente as cenas que julgava desnecessárias ou até panfletárias na série — viva o controle remoto!), a melhor foi a atuação do ator que fez o pai de Dahmer, o Lionel. Fui até atrás para saber se o ator — Richard Jenkins — havia recebido prêmios, mas não consegui achar nada. Um personagem verdadeiramente dramático, complexo, cheio de crises, dúvidas e indagações; enfim, um personagem dificílimo de trazer ao público e que me envolveu totalmente. Por que parava o controle remoto sempre que esse personagem aparecia? Além da atuação estupenda, é a história de um pai e eu também sou pai. Aqui, este é um ponto de contato, mas não foi o único e nem o mais profundo.

Lionel é o pai de Dahmer. O que é ser um pai de um assassino em série? Mas não é isso apenas. Lionel se questiona sobre a participação (ou sua negligência) dele para a formação “disso” que ele vê aparecer em seu próprio filho. Acredito que qualquer pai ou mãe, num momento em que todos esses detalhes macabros e bizarros sobre próprio seu filho venham à tona, indague sobre o mesmo que Lionel e, mentalmente, repasse todos os detalhes de sua vida para encontrar sua responsabilidade nisso tudo. Todas essas questões, muito naturais e humanas, são levantadas por Lionel. Contudo, e aqui está o ponto, há uma outra questão específica que me surpreendeu e me fez comprar o livro “Meu filho Dahmer”: Lionel se identifica com seu filho, e não estou falando sobre um pai que vê a si mesmo em seu próprio filho; Lionel se identifica com o lado sombrio do próprio filho. Quantos de nós temos a coragem de nos sondar para ver nossos próprios caminhos maus? Na maioria das vezes, os maus existem, tão somente, para que nós nos coloquemos do outro lado da linha, pois nunca faríamos o que eles fizeram. Esta reflexão nos leva ao centro do Sermão pregado por Jesus Cristo (Mt 5,6 e 7): não fazemos, mas pensamos, desejamos, intencionamos e, até mesmo, invejamos os que fazem!

Há duas cenas sensacionais nesta história. A primeira é Lionel em crise dizendo que seus genes tinham contaminado seu filho, pois metade do que havia em seu filho tinha vindo dele. Então, a personagem de sua segunda esposa, a Shari, segura suas mãos e olha em seus olhos dizendo que isso não era verdade, pois havia um segundo filho do primeiro casamento, irmão de Dahmer, que era um menino comum e que não apresentara nada daquilo que aconteceu com Dahmer. A segunda cena não está na série, mas no livro de Lionel. Poderíamos pensar que Dahmer fora afetado pelos tantos e tantos remédios que sua mãe usara em sua gestação, uma gravidez difícil e conturbada. Todavia, no livro, ficamos sabendo que, em sua segunda gravidez, houve as mesmas dificuldades e, portanto, o uso de medicações fortíssimas repetiu-se novamente. E o irmão de Dahmer nunca manifestou nenhuma natureza macabra. Essas duas cenas vão ao encontro de quaisquer pais que se indagam, afinal, qual sua responsabilidade na desenvolvimento de um monstro. Queremos uma explicação: os genes ou o uso de drogas? A criação infeliz, um lar conturbado, alcoolismo, o diabo etc, queremos explicações, mas elas não aparecem tão facilmente. Outra cena para servir como a “pá de cal” nessa busca por explicações simplistas é aquela em que o juiz decide pela destruição do cérebro de Dahmer, ao invés de doá-lo para pesquisa médica. Já haviam feito isso com o cérebro de outro serial killer e o resultado dera em nada. Todavia, além de uma busca vã, há um perigo nessa busca. Caso se encontrasse algo (uma mancha, um tumor etc), isto significa que todo cidadão com essa manifestação física cerebral seria um serial killer? A tendência é que uma informação como essa na mão do Estado e da sociedade redundaria numa seleção nazista de cidadãos, que deixariam de ser tratados como iguais perante a lei. Enfim, não há respostas claras, definitivas e simples para situações como a de Dahmer.

Desde a série, Lionel é, para mim, de longe, o personagem mais interessante. Suas lutas, suas dúvidas, suas falhas são extremamente humanas. Identifiquei-me com Lionel, pois ambos somos pais. Somos filhos e somos pais. E estes são os dois eixos em torno dos quais gira a trama do livro: o que herdamos e o que repassamos adiante. Há muitas indagações e Lionel sempre nos coloca sobre sua responsabilidade, até mesmo genética, naquilo que fez de seu filho quem ele foi. O livro é uma confissão sincera, uma tempestade de ideias em busca de respostas, mas, surpreendentemente, é um livro muitíssimo bem escrito. Li o livro em menos de dois dias!

Lionel se identifica com Jeff em todos os momentos. Em nenhum momento, as palavras de Lionel são usadas para se escandalizar pelos crimes hediondos do filho, colocando-os em polos diferentes (o bem e o mal). Lionel se coloca do mesmo lado que o filho. Há uma foto, emblemática no livro, logo em suas primeiras páginas, é a foto de sua mão adulta apoiando a pequenina mão de seu filho. É uma foto que anuncia a caminhada de Lionel com Jeff. Mas, muito além do apoio, há a identificação: Lionel não esconde a parte escura de sua própria natureza. Ele recorda que também já teve vários desejos insanos e, até mesmo, a vontade de matar. Ele reconhece em sua própria natureza o mesmo anseio por controle e domínio que seu filho também buscava ao tentar imobilizar, dominar e se alimentar de suas vítimas. “Somos todos depravados em nossas naturezas”, esta é a tese que vejo em Lionel Dahmer.

“O quanto eu estava perto de trilhar o mesmo cami nho que Jeff? Será que foi a diferença de escolhas que fiz ou deixei de fazer, ou será que foi apenas boa ou má sorte genética? Nunca saberei, mas não consigo deixar de me perguntar se meu interesse por hipnose ou pela fabricação de dispositivos explosivos não era algo além da fascinação de um garoto pelo desconhecido. Quando passei fios desencapados pelo sofá da nossa sala de estar para causar um choque elétrico nos meus primos, será que fiz isso apenas para pregar uma pegadinha? E quanto à minha necessidade de controle? Será que todas essas coisas, e muitas outras, nada eram além de pensamentos e comportamentos normais de uma criança ou havia ali sinais precoces de algo perigoso dentro de mim, algo que poderia ter se ligado à minha sexualidade, e, ao agir assim, teria me transformado no homem que meu filho se tornou?”, p. 197.

Antes de tudo, “Meu filho Dahmer” é sobre uma jornada espiritual. Um reencontro com o Único capaz de redimir toda e qualquer mancha, nódoa, abismo e tenebrosas trevas de nossa natureza humana corrompida pelo pecado. Um livro que, muito além de nos falar sobre a podridão da natureza de todos nós, fala muito mais alto sobre o que é a inexplicável, incompreensível, inescrutável maravilhosa graça de Deus em Cristo Jesus!

Uma última cena emblemática na série. Lionel está visitando seu filho na cadeia e este, comentando sua intenção de se batizar, pergunta ao pai se ele conseguiria perdoá-lo. E o pai responde: “Eu vou perdoar você. Eu perdoo você, porque sou seu pai”! Esta frase, para mim, é evangélica na sua essência mais profunda e bíblica. Deus perdoa todos os nossos pecados, porque somos seus filhos. E só podemos ser perdoados, porque o verdadeiro Filho de Deus nos conquistou para dentro de sua própria família. Fomos adotados e, graças a isso, podemos ouvir de Deus: “Eu perdoo você, porque sou seu Pai”! 

Qual a diferença entre o personagem de Jeff e a pessoa de Jesus? Jesus assumiu os pecados meus e os de Jeff Dahmer (crendo que este verdadeiramente foi convertido e se arrependeu de seus pecados, como mostram tanto a série quanto o livro). Naquela cruz, sendo totalmente inocente, Jesus recebeu sobre si a Ira de Deus que deveria vir sobre os meu pecados. Jesus foi acusado de ser um monstro. Ele recebeu a punição pelos pecados que nunca cometeu. Satanás, a antiga serpente, o dragão, estava diante daquela cruz vomitando sobre Jesus todas as acusações que estavam na escrita de dívida contra nós. Jesus derramou seu sangue, para a salvação dos eleitos de Deus. Isto é graça! A graça de Deus! Você a conhece?

        Fábio Ribas

sábado, 25 de maio de 2024

Gente pobre (XX/2024)


Eles se conheciam pessoalmente antes? Ela esteve doente e ele a visitava em seu apartamento. Mas parou, pois a vizinhança começara a fazer perguntas. Ele espera que ela se reestabeleça por completo, para que, então, eles se encontrem fora do apartamento dela. Ele, Makar, envia vários presentes, mimos, a ela. A origem da pobreza de Bárbara, apresentada no diário, foi em função de dívidas contraídas pelo pai dela. Bárbara tem ótimas recordações de sua infância no interior da Rússia. Contudo, durante a leitura do diário que ela envia a Makar, o leitor descobre a grande mudança ocorrida na vida da personagem principal e, até mesmo, quando já estava em São Petesburgo, seu envolvimento afetuoso com Pokroski. Que cena linda descrita naquele parágrafo, quando Pokrovski se dá conta de que Bárbara já não era mais uma menininha, mas sim uma mulher! A vida de Bárbara vai se constituir de inúmeras perdas e dores, assim como a vida de Makar, com quem ela troca correspondências.

Não ficou claro, para mim, se os dois — Bárbara e Makar — se conheciam pessoalmente antes do início dessas cartas. Ou, pelo menos, o quanto os dois se conheciam antes das trocas de cartas. Por causa da doença dela, só bem adiante no livro, eles puderam ter um passeio juntos. Quantos anos teria a Bárbara? O Makar tem uns 47 e a minha impressão é que ela seja uns 20 anos mais nova do que ele! Afinal, o que existia entre os dois? Que tipo de amizade é aquela? Makar sempre dizendo que a amava com afetos paternos e, por sua vez, Bárbara o respeitava como um protetor. O que impediu que houvesse uma relação amorosa entre os dois? A diferença de idade? A pobreza de ambos? Makar era um viúvo…

Às vezes, questões culturais daquele tempo e daquela sociedade, que fogem da minha leitura brasileira e de quase 200 anos depois da sua primeira publicação, fornecessem um quadro não escrito que pudesse explicar algo mais de detalhes que podem estar me escapando. Por isso, talvez, para mim, foi muito difícil imaginar que mundo era este: a pobreza da Rússia do século XIX. Verdadeiramente, um outro mundo. O lugar em que aqueles personagens de Dostoiévski viviam fez-me toda vez pensar no “O cortiço”, de Aluísio Azevedo. Não pelas características da Escola Literária do Naturalismo, mas por uma tentativa minha de imaginar como seria o lugar descrito por Dostoiévski. Todo mundo morando próximo. Eram apartamentos. Todo mundo sabia da vida de todo mundo. Mas o que era, afinal, essa pobreza da Rússia do século XIX? Makar era um funcionário público e, pelo que pude perceber, sua função era o que havia de mais baixo na hierarquia social. Ele era um copista, sem quaisquer perspectivas realistas de ascensão. Para piorar, Makar se envolve com jogos, bebidas, seus vícios. Todavia, uma coisa salta aos olhos, a pobreza do Cortiço revela a miséria de um povo erotizado e animalizado, que é apresentado totalmente descaracterizado de sua humanidade. O Cortiço em que moram possui mais características humanas do que seus próprios habitantes. “Gente pobre”, de Dostoiévski, é um romance epistolar social que revela gente muito mais digna do que os seres humanos de Aluísio Azevedo. Em outras palavras, o pobre do século XIX, na Rússia, era diametralmente oposto ao pobre do século XIX do Brasil retratado em “O Cortiço”. Os pobres de Dostoiévski são respeitadores, cordiais, preocupados com suas reputações e — pasmem! — procuram livros para ler. Eles conversam sobre literatura no livro “Gente pobre”!

Eu não lembrei apenas do “O Cortiço”, mas parece que, intencionalmente, Dostoiévski dialoga com escritores russos contemporâneos a eles, como Gogol e Pushkin, recriando situações e personagens que vemos em textos desses escritores. Escritores que, cada qual a sua maneira, retrataram personagens da população pobre russa. Em determinado momento do livro, vemos Makar se desculpando por sua escrita em suas cartas, dizendo à Bárbara que ele ainda estava tentando achar o seu próprio estilo. Isto me fez lembrar de Orhan Pamuk, que sempre discute muito sobre este tema em seus romances. Isso fez-me pensar também que “Gente pobre” foi o primeiro romance de Dostoiévski. Será que Makar reverbera o própria busca de Dostoiévski por um estilo, um lugar ao sol em meio a grandes obras e escritores russos que já existiam? “Gente pobre” foi publicado quando Dostoiévski tinha apenas 25 anos e a recepção a esse livro foi muito positiva. Dostoiévski se encaixava no que fica conhecido como o Realismo russo.

Enfim, gostei muito. Todos os temas que veremos nos grandes romances do autor já se encontram presentes aqui: os dramas pessoais, a pobreza dos personagens, os vícios, a jogatina, as tragédias etc. Quero ler toda a obra em ordem cronológica lançada em português. Seu segundo livro foi “O duplo”.

            Fábio Ribas

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Contextualização (XIX/2024)


A verdadeira contextualização do evangelho ocorre na igreja, e não no mundo. Não é obra de homem, mas sim de Deus - Nicholls

O livro “Contextualização — uma teologia do evangelho e cultura”, de Bruce J. Nicholls, foi escrito no ano de 1979, sua primeira edição em português ocorreu em 1983, mas sua edição revisada só surge em 2013. É isso mesmo? Como que uma obra importante como essa para a vida missionária da Igreja demora tanto a ser reapresentada? Talvez porque seja uma obra crítica em relação aos movimentos de contextualização. Vejamos.

A discussão do livro parte de uma constatação que é importante que a igreja tome consciência. O autor escreve que “alguns se preocupam tanto com a preservação da pureza do evangelho e das formulações doutrinárias dele decorrentes que se tornam insensíveis aos padrões de pensamento e comportamento culturais das pessoas às quais proclamam o evangelho”. E continua na sua justificativa afirmando que “alguns não têm tido consciência de que alguns termos, tais como Deus, pecado, encarnação, salvação e céu, provocam impressões na mente do ouvinte diferentes daquelas que produzem na mente do mensageiro”. E é a constatação de fatos como esses que motivou os estudos atuais sobre contextualização. A Igreja não pode esquecer que ela se encontra como uma “tradutora” entre culturas: há uma cultura bíblica (na verdade, a Bíblia apresenta muitas culturas em interação e em conflito), há a cultura do mensageiro, há a cultura do ouvinte, mas, com a globalização, há muito mais culturas se encontrando e se estranhando no campo do que possamos imaginar.

Além disso, a discussão entre o que é a cultura do mensageiro e o que é a cultura do evangelho é sempre recorrente e faz parte da origem dos danos causados por quem não reflete antecipadamente sobre isso. Todavia, na ânsia de se buscar soluções para os erros cometidos na história, muitas vezes, o campo missionário viu a contextualização ser usada como uma ferramenta para se difundir a idolatria, o sincretismo e uma contextualização antropocêntrica, sendo todos extremamente nocivos. Sobre esta mentalidade nociva, a pergunta de Donald McGravran revela-se como exemplo do que estou dizendo aqui: “Por que algumas pessoas resistem ao evangelho mais do que outras?”. É uma pergunta extremamente perigosa, pois dá a entender que a resposta correta é o que fará com que os resistentes se abram à conversão. Talvez um dos maiores problemas do campo missionário é que muitas das estratégias propostas foram e são pensadas em bases teológicas diversas e conflitantes, sejam as do mensageiro no campo transcultural ou até a do autor que aqui escreve. É uma pergunta que parte do “fracasso” medindo-o na resposta ao evangelho apresentado. É possível fazer essa pergunta de uma maneira diferente? Sim. “Por que alguns missionários não se preparam responsavelmente para o desafio do campo transcultural?”, esta é uma pergunta que, por sua vez, não direciona o foco para o sucesso e o fracasso da apresentação do evangelho, medindo-o pelos resultados obtidos. A nova pergunta que proponho é voltada para o missionário como aquele que precisa ser responsável diante de Deus fazendo tudo para a glória dEle, inclusive no que tange o seu preparo bíblico, teológico, missiológico, antropológico e linguístico.

O livro de Nicholls acerta, principalmente, num raio-X dos exageros do movimento de contextualização. Eu concordo com o autor quando ele justifica a contextualização, porque “ há aspectos de cada cultura que não são incompatíveis com o senhorio de Cristo e que, portanto, não precisam ser confrontados nem descartados, mas, pelo contrário, preservados e transformados”. Ou, usando expressões mais apropriadas: aspectos que necessitam ser redirecionados e santificados. Essa distinção na cultura alvo é a primeira barreira que precisa ser enfrentada pelo missionário no campo. Outra barreira que Nicholls apresenta e que eu também vi ocorrer nestes anos de campo é que, muitas vezes, a apresentação do missionário no campo se dá por meio de formas culturais estrangeiras, uma didática estrangeira, um método próprio da cultura do missionário que, sem a menor crítica, é aplicada sobre pessoas que ensinam e aprendem de uma forma diferente daquela do mensageiro. É preciso contextualizar a apresentação do evangelho, para isso, é preciso que o missionário estude a cultura do povo, sua língua e cosmovisão.

É necessário que o mensageiro esteja lá e conviva com os ouvintes. “O chamado a uma sensibilidade maior na comunicação transcultural é um chamado à paciência em compreender as pessoas; à humildade ao seguir a trilha do discipulado e um chamado a se engajar com amor nas realidades da vida cotidiana das pessoas. É ter a mente de Cristo, que renunciou a sua glória e posição, identificou-se com as pessoas em sua humanidade e foi um servo sofredor até a morte”.

Mas o que é cultura? Embora o autor apresente inúmeras definições, ele parte da ideia que cultura é um enredo para a vida e que qualquer comunicação transcultural eficaz deve levar em conta esse enredo, que é um macrocosmo do homem espiritual, diz Nicholls. A comunicação transcultural “envolve a totalidade do ser humano no contexto da cultura”.

Em relação a Nicholls, tive dificuldade com seu conceito de “supracultural” para designar realidades de âmbito espiritual, que teriam sua origem fora da cultura humana. Além de ser uma ideia equivocada tratar a realidade espiritual como um elemento “de fora” (embora o Evangelho seja supracultural, mas ele não é apenas isso), ao meu ver, toda a cultura é regida, sustentada e refletida a partir da sua própria espiritualidade. Para mim, toda cultura é religiosa e arraigadamente espiritual. A reboque desse conceito de “supracultural”, Nicholls apresenta uma estranha ideia de batalha espiritual que, para mim, é puro maniqueísmo: acima de toda cultura há uma batalha entre o bem e o mal, entre o Reino de Deus e o Reino de Satanás. Usar estas lentes é devastador para um trabalho missionário. Então, neste ponto, que é um ponto importante para Nicholls, eu discordo. Não posso ver as culturas humanas como peças num tabuleiro de xadrez em que os oponentes que as disputam são Deus e o diabo. O mundo não é uma “arena de batalha entre o reino de Deus e o reino de Satanás”, mas, antes, Satanás não tem mais reino algum, ele foi derrotado e a missão da igreja é anunciar que na cruz o diabo já foi destronado, derrotado, julgado, condenado e que a história da Igreja é o anúncio da chegada do Reino de Deus! Por isso, o Reino de Deus avança na proclamação da Igreja e isso, evidentemente, suscitará a reação do inimigo derrotado, mas ainda não eternamente encarcerado com todos os seus anjos e seguidores.

Nicholls acerta em cheio quando afirma que “a Palavra de Deus muda a direção da cultura e a transforma” e que é na Igreja plantada no meio do povo que devemos esperar as mudanças culturais: “onde Cristo é verdadeiramente Senhor de sua igreja o enredo cultural para a vida de seus membros será diferente do enredo da comunidade mais ampla”. As igrejas locais, independente de quaisquer culturas em que estejam inseridas no mundo, devem refletir tanto a universalidade do evangelho quanto a particularidade do ambiente humano.

O estilo de vida da igreja cristã da Índia, por exemplo, terá qualidades características que serão semelhantes às qualidades de uma igreja cristã de qualquer outro país. Ela manifestará o fruto do Espírito e, ao mesmo tempo, será uma igreja verdadeiramente indiana liberta da cosmovisão, dos valores e dos costumes do hinduísmo que são contrários ao evangelho — Nicholls

Concordo com Nicholls quando ele afirma que “a Bíblia reconhece a prioridade do indivíduo, mas faz do grupo social — a família — a unidade básica da sociedade”. Na nossa relação com as culturas devemos levar em consideração que o evangelho é uma chamada ao relacionamento com Deus e com a Igreja de pessoas que não eram povo e nem filhos de Deus. Há uma dimensão estética nas culturas e o missionário deve estar atento a isso, uma vez que fomos criados à Imagem de Deus e ele deu aos homens o dom criativo.

Todavia, um outro ponto polêmico em Nicholls é um resquício de “fator melquisedeque” (leia aqui) na sua antropologia missionária, não apresentando as distorções que encontramos nas culturas como “pré-preparativos” para ouvir e receber o evangelho. O erro aqui é termos nas culturas “analogias salvíficas” que seriam o “evangelho em gestação” aguardando apenas o “link” do missionário. A verdade é que o Evangelho é totalmente outra coisa do que se possa ter em quaisquer culturas do mundo. A despeito de termos a semente religiosa e o desejo da espiritualidade em todas as culturas do mundo, e ainda que tenhamos pontos de contato em histórias, mitos e ritos nas culturas ao redor do mundo, nada pode ser uma preparação para aquilo que é totalmente inédito, uma vez que vem de Deus e é supracultural, o Evangelho é Jesus! Assim, nesse sentido, o Espírito Santo não está nas culturas preparando os homens para receber o evangelho, até mesmo — e isso precisa ficar muito claro — o evangelho não está lá, a ordem da salvação não é essa. Os homens estão totalmente perdidos e jamais chegarão ao verdadeiro conhecimento de Deus, o Deus bíblico. Entretanto, os eleitos receberão a palavra do missionário — a apresentação do evangelho — e, aí sim, o papel do Espírito Santo é convencer os eleitos da verdade, da justiça e do juízo, a partir da Palavra que foi proclamada a eles. Então, salvífica e especialmente, Deus não está agindo nas culturas fora da Igreja missionária. A chegada da Igreja missionária numa cultura é a chegada do Reino, tanto para a salvação dos eleitos como para a condenação dos rebeldes.

Uma outra palavra que eu não gostei no livro é “indigenização”, para se referir a igrejas que são autogovernadas, autossustentáveis e autopropagadoras. Ainda que não queiram que essa palavra nos remeta à palavra “índio”, remete. E não fica nada bom dizer que igrejas asiáticas estão sendo indigenizadas. Que palavrinha ruim! Qual surgiu no lugar? “Contextualização”.

Assim, se no capítulo primeiro fomos apresentados a vários conceitos sobre “cultura”, agora, no segundo capítulo, passamos a ser apresentados aos conceitos de “contextualização”. E é aqui, nesse capítulo, que vemos a contextualização ser usada como cilada para enquadrar os cristãos no trabalho ecumênico e universalista. Um verdadeiro escândalo e desastre. Sob a desculpa de reagir ao imperialismo e ao colonialismo teológico, os contextualizadores fizeram concessões absurdas ao liberalismo e ao marxismo, transformando o trabalho missionário em qualquer outra coisa menos evangelização, ensino e discipulado acerca da obra salvífica de Cristo. Autores como Von Allmen são citados no livro e só revelam a miséria do trabalho infeliz de muitos que usaram a contextualização para alcançar o fim que queriam de rebeldia e revolução:

…o florescimento de uma teologia verdadeiramente africana pressuporá uma situação de tábula rasa, ou seja, o surgimento de uma teologia despida das teologias existentes, especialmente das ocidentais. Ele (Von Allmen) conclama os africanos a terem consciência do valor que a sua cultura tem “em si mesma, e não apenas apenas do seu valor relativo”, para que uma teologia africana verdadeira venha a nascer”— Von Allmen

Seguindo a citação acima, o evangelho passa a ser mais uma história em meio a tantas outras. O ES está agindo em todas as culturas e o evangelho e a igreja são apenas mais uma dessas comunidades de fé no propósito salvífico de Deus. Que desastre tudo isso! E imaginar que encontros e mais encontros de igrejas em todo mundo foram feitos para que esse liberalismo e revolução seguissem adiante. A lista de “pensadores criativos” só tem gente da TMI (Teologia da Missão Integral) e da TL (Teologia da Libertação), que hoje ainda são apresentados em cursos dos mais diversos nomes como, por exemplo, “Teologia contemporânea” e afins. Uma tristeza! Um desastre ao verdadeiro evangelho de Cristo. Uma vergonha!

O trabalho de contextualização foi usado no século XX, e ainda hoje é usado, para espalhar as sementes do liberalismo teológico, do ecumenismo, da revolução marxista e do sincretismo e quais as mentes brilhantes e criativas disso na América Latina? Vou dizer: René Padilha, J. Miguez-Bonino, Gustavo Gutierrez, Orlando Costas, Emílio Castro, Hugo Assmann, Rubem Alves, entre outros. Leia o segundo capítulo deste livro e fique de cabelo em pé com o que fazem sob a égide da “missão da Igreja”. Um antro de heresia! Sinto dizer, mas, muito do trabalho missionário que surgiu sob a bandeira de Lausanne é demoníaco! Por isso, todo cuidado e filtro são poucos, quando se trata de aceitar tudo o que hoje nos vêm sob a alcunha de “missões”. Leia também o meu ebook, lançado na Amazon: “Escritos contrarrevolucionários”.

No capítulo 3, retornamos com a ideia do “pré-entendimento do evangelho”, mas como ponto de contato e não como “prévia preparação”. Todavia, há uma maneira correta de usar o fator cultural para a apresentação do evangelho, assim como há uma maneira incorreta e que leva ao sincretismo. E esse é o assunto abordado nesse terceiro capítulo. E é aqui também, nesse terceiro capítulo, que encontramos a reavaliação de toda essa confusão que vimos muitos teólogos e missionários fazerem com a contextualização. Um capítulo maravilhoso falando sobre como Deus usou a cultura dos judeus para transmitir fielmente a sua Palavra. “Jesus Cristo nasceu judeu, e é uma afronta à soberania divina falar de um Cristo negro ou de um Cristo indiano ou italiano”, acertadamente afirma Nicholls.

Deus, em sua soberania, escolheu a cultura semítica dos hebreus por meio da qual revelou sua Palavra. Se tivesse escolhido uma forma cultural chinesa ou indiana, o conteúdo da Palavra teria sido diferente, visto que mudar radicalmente a forma, que traz consigo uma cosmovisão e um conjunto de valores próprios, é mudar o conteúdo. Do mesmo modo o Deus encarnado assumiu a forma de filho e não de filha. Aqueles que vivem em uma cultura religiosa na qual deusas amorais são adoradas e práticas culturais místicas são associadas à adoração de uma Mãe Divina compreenderão por que Deus não se revelou como uma filha — Nicholls

Ainda que haja uma ou outra discordância com o autor aqui e ali, mas, sem sombra de dúvida, é um livro importantíssimo para a sala de aula em nossos cursos de contextualização e missões. Um livro que abre o véu e mostra tudo, tanto o inferno como o céu da contextualização missionária.

                Fábio Ribas

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...