quinta-feira, 30 de julho de 2026

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

 

 

“Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornariam deuses e, por consequência, demônios. Depois nos destruiriam e, também, a si mesmos, pois amores naturais que têm a pretensão de se tornar deuses não permanecem como amores. Eles são ainda assim chamados, mas podem se tornar, de fato, formas complicadas de ódio” - “Os 4 amores”, CS Lewis.

    Em “Srª Lewis” (você pode ler a resenha completa aqui), acompanhamos o nascimento e amadurecimento da narrativa que originará “Até que tenhamos rostos”. Originalmente, uma história abandonada que fora intitulada “Luz”. Joy Davidman incentiva que CS Lewis a retome. A tensão toda da retomada se dá pela dúvida de Joy sobre os sentimentos de Lewis. Afinal, o que ele via nela? Alguém para amar verdadeiramente e se entregar ou apenas uma fonte para saciar sua sede de amizade literária?

    Joy relembra que, no mito, são as próprias irmãs que entregam Psique por inveja. Nesse ponto, Joy comenta que, mesmo nutrindo inveja de Psique, jamais a entregaria à morte.

— Nem para salvá-la? — ele perguntou. — Talvez as irmãs dela tiraram sua felicidade porque acreditavam que a estavam salvando. — É isso, Jack. Você conseguiu. — Bati a mão na mesa. — Escreva sobre isso (diálogo entre CS Lewis e Joy, em Srª Lewis).

    Assim nasce o tema de toda discussão de “Até que tenhamos rostos”. Obviamente, daqui para frente, como nos é apresentado no livro de Patti Callahan, o livro sobre Psique e Orual termina por se tornar uma narrativa para que ambos - Joy e Lewis - entendam e tentem explicar um ao outro a natureza da relação de ambos.

     Preciso começar dizendo que concordo com o que o próprio CS Lewis disse sobre “Até que tenhamos rostos”. Ele afirmou que esse era o seu melhor romance ficcional. Verdade! Estou completamente encantado com tudo o que eu li e com a construção dessa narrativa criativa, profunda e madura. Uma história repleta de camadas que nos dão acesso a vários temas que poderíamos trabalhar sem fim. Mas não é, exatamente, essa a qualidade de um bom mito?

    A história abaixo, no próximo parágrafo, é um resumo do mito de Apuleio, que está no livro “Metamorfoses” (conhecido também pelo título “O asno de ouro”), um resumo feito pelo próprio CS Lewis e apresentado na nota final de seu livro. A partir desse resumo, podemos ver as mudanças operadas por CS Lewis em “Até que tenhamos rostos”. A principal mudança é o foco narrativo, que recai sobre uma das irmãs de Psique, Orual. É Orual quem nos conta a história. E por que ela decide contar a sua versão dos fatos? É que a história original, narrada por um sacerdote do Templo de Psique, não condiz com os fatos vividos por ela. Orual, portanto, escreve seu livro (que é o que estamos lendo em “Até que tenhamos rostos”), para se defender do erro do mito contado e difundido sobre a sua própria história, pois, para Orual, ela não agiu por inveja, mas por amor à irmã Psique. E esse, então, é o estopim de todo o problema narrado no livro de CS Lewis. Segue abaixo esse resumo do CS Lewis.

“Um rei e uma rainha tiveram três filhas, das quais a mais jovem era tão bonita que os homens a adoravam como a uma deusa e, por causa dela, negligenciaram o culto a Vênus. O resultado foi que Psique (como era chamada a mais nova) não tinha pretendentes; os homens reverenciavam demais a sua suposta deidade para pleitear sua mão. Quando seu pai consultou o oráculo de Apolo a respeito do casamento dela, recebeu a seguinte resposta: “Não espere um genro humano. Você deve expô-la em uma montanha, a fim de que se torne presa de um dragão”. Ele fez isso, em obediência. Entretanto, Vênus, com ciúme da beleza de Psique, já havia articulado uma punição diferente para ela. Tinha ordenado a seu filho, Cupido, atormentar a garota com uma paixão irresistível pelo mais baixo dos homens. Cupido saiu para fazer isso, mas, ao ver Psique, apaixonou-se ele mesmo por ela. Tão logo ela foi deixada na montanha, ele a fez ser carregada pelo Vento Oriental (Zéfiro) até um lugar secreto, onde ele havia preparado um majestoso palácio. Lá, ele a visitava de noite e desfrutava do seu amor; mas a proibia de ver seu rosto. Em pouco tempo, ela passou a lhe implorar para que pudesse receber a visita de suas duas irmãs. Com relutância, o deus consentiu, fazendo-as flutuar até o palácio. Ali chegando, foram majestosamente recebidas e demonstraram enorme satisfação em relação a todo o esplendor que viram. Internamente, porém, estavam se corroendo de inveja, porque seus maridos não eram deuses e suas casas não eram elegantes como a da irmã. Elas, então, conspiraram para destruir a felicidade da irmã. Na visita seguinte, elas a convenceram de que seu misterioso marido deveria ser, na verdade, uma serpente monstruosa. “Você deve levar ao seu quarto hoje à noite”, disseram, “um lampião coberto com um manto e uma faca afiada. Quando ele dormir, descubra o lampião — veja o horror que está deitado em sua cama — e mate-o a facadas”.Tudo isso a crédula Psique prometeu fazer. Quando ela descobriu o lampião, viu o deus adormecido, e olhou-o intensamente com um amor insaciável, até que uma gota de óleo quente pingou do lampião e caiu no ombro dele, acordando-o. Levantando-se, ele estendeu suas asas, repreendeu-a e desapareceu de sua vista. As duas irmãs não conseguiram divertir-se por muito tempo com sua maldade, pois Cupido tomou providências que levaram ambas à morte. Enquanto isso, Psique vagueava, desolada e infeliz, e tentou se afogar no primeiro rio que encontrou; mas o deus Pã frustrou sua tentativa, advertindo-a a nunca mais repetir isso. Depois de muitos tormentos, ela caiu nas mãos de sua pior inimiga, Vênus, que a tomou como escrava, espancou-a e lhe atribuiu tarefas cujo cumprimento era impossível. A primeira, que era separar em diferentes montes sementes misturadas, ela cumpriu com a ajuda de algumas formigas muito prestativas. Na sequência, ela teria de pegar um rolo de lã dourada de algumas ovelhas que matavam homens; um junco à margem do rio segredou-lhe que isso poderia ser feito removendo a lã dos arbustos. Depois disso, Psique tinha de encher uma taça com a água do Estige, que só podia ser alcançado escalando-se montanhas dificílimas, mas uma águia a encontrou, tomou a taça das mãos dela e retornou com o recipiente cheio de água. Finalmente, teria de descer até o mundo subterrâneo para trazer a Vênus, em uma caixa, a beleza de Perséfone, a Rainha dos Mortos. Uma voz misteriosa disse-lhe como ela poderia chegar a Perséfone e ainda voltar ao nosso mundo; no caminho, várias pessoas que pareciam merecer sua compaixão lhe pediriam ajuda, mas ela deveria ignorar todas elas. Quando Perséfone lhe desse a caixa (cheia de beleza), ela não deveria, sob hipótese alguma, abrir a tampa para olhar dentro. Psique obedeceu a todas as orientações e retornou ao mundo superior com a caixa; por fim, a curiosidade a derrotou e ela olhou dentro da caixa. E imediatamente perdeu a consciência. Cupido veio até ela de novo, mas, dessa vez, ele a perdoou. Ele intercedeu junto a Júpiter, que consentiu em permitir seu casamento e fez de Psique uma deusa. Vênus reconciliou-se com ela e todos viveram felizes para sempre”.

    O livro de Lewis é dividido em duas partes. A primeira é a defesa de Orual, que narra o que realmente aconteceu. Mas a segunda parte do livro é um acréscimo após a transformação sofrida por Orual. E é na segunda parte que ficamos sabendo sobre o que significa, afinal, o título do livro.

    Evidentemente, assim como o próprio mito de Eros e Psique, a releitura de CS Lewis se abre a muitas possibilidades de compreensão e interpretação, embora não haja dúvida alguma na trajetória vivida por nossa anti-heroína, Orual, até que haja sua transformação. Orual tem sérios problemas com o sagrado, o religioso, o místico. Ela crê nos deuses, mas os vê como suspeitos, como inimigos que estão distantes dela e que em nada ajudam os seres humanos. A principal característica de nossa personagem principal é que ela é muito feia, ao contrário de sua irmã mais nova, Psique. Psique é tão bela, que todos pensam que os deuses estão enciumados e, por isso, as pragas e as doenças que vêm sobre o povo. Então, é preciso sacrificá-la aos deuses. A principal deusa do povo bárbaro do Reino de Glome é Ungit, uma pedra disforme e sem rosto, que brotara da terra. Ungit seria o equivalente à Afrodite dos gregos, mas Ungit é extremamente impiedosa e a quem são feitos sacrifícios, inclusive humanos. Ela é feia. Quero salientar que Ungit é feia e terrível. Acredito que seja importantíssimo perceber duas coisas aqui. Primeiro, Afrodite é a deusa do amor. Segundo, ela é tão terrível como Ungit. Há algo trágico aqui. Você se lembra como deu-se o nascimento de Afrodite? São todas essas informações que ajudarão o leitor na construção narrativa feita por CS Lewis. Quanto à Psique, a irmã mais nova, uma informação importantíssima é que sua mãe morreu no seu parto e que, então, Orual irá se ligar a ela em cuidado maternal.

    Psique é levada à montanha para ser sacrificada e abandonada. Mas, depois, Orual sobe a montanha para dar um enterro digno à irmã sacrificada. Todavia, quando Orual vai procurar o corpo de sua irmã, Psique não está lá. Ela está morando num castelo de um Rei deus, mas esse castelo não é visto, pelo menos num primeiro momento, por Orual. Por amor, Orual se arrisca para dar um enterro digno a sua irmã. Agora, por amor, Orual alerta que era tudo um delírio de Psique, pois não havia castelo algum. Ela deveria estar enfeitiçada por esse monstro, que fingia ser um deus. Se ele fosse quem dizia que era, por que proibia Psique de ver seu rosto durante suas visitas íntimas?

   Orual tem um rosto feio. Psique, um rosto divinamente belo. Eros (Cupido), o rei que casara com Psique, proibia que ela visse seu rosto. O rosto de Ungit era disforme. Enfim, estamos diante de uma questão de identidade. O rosto (ou a falta dele) diz quem somos realmente? Por que Orual não tem rosto? Essa última pergunta é fundamental para entendermos a proposta de CS Lewis. Orual passa o livro não apenas fugindo do seu rosto feio escondendo-o debaixo de um véu e, com isso, alimentando supertições populares sobre ela, mas, principalmente, ela assume máscaras, que são os seus “rostos” na sociedade. Mas quem eu sou? O meu rosto, que escondo de todos, ou minhas máscaras, com as quais atendo as expectativas alheias? Compreendendo o que acabei de escrever, podemos agora nos abrir sobre duas sentenças que aparecem no livro sobre Orual: ela é Ungit e ela será Psique.

    (A partir daqui, revelarei a tese principal de CS Lewis no livro, portanto, continue a ler por sua conta e risco).

    Ungit é perversa. Como compreender que a amorosa Orual seja Ungit? Eis que o véu sobre seu rosto cai, pois o que Orual pensa que é amor, na verdade, não é. É possessividade, inveja, ciúme e, até mesmo, ódio por sua irmã Psique. Descobrimos, durante a leitura, que Orual é tão devoradora dos seres humanos como Ungit. Contudo, nossa personagem não tem rosto, assim como a deusa Ungit. Por isso, podemos entender que a falta de rosto - ver-me como quem eu realmente sou - é a razão dos deuses não ouvirem sua petição e defesa que fazemos diante deles. Ela só poderá estar na presença deles com um rosto.   

    Quais as máscaras atribuídas - papéis sociais - à Orual?   A “filha” de Raposa, que é seu Mestre descrente dos deuses e dos poetas; a “Maia”, de Psique, ou a “senhora” de Bardia, seu fiel soldado e amor não correspondido? Rainha de Glome? Todas essas máscaras não correspondem em nada ou são facetas - sujeitos dispersos de Orual? O fato é que máscaras não são rostos. E enquanto Orual não encarar seu próprio rosto diante do espelho, ela não poderá ser recebida no tribunal. Ela continua a ser Ungit. Perceberam? AMEI!!!

    Mas quando Orual ouve a frase “você também será Psique”? Na primeira vez, ela está sendo expulsa da montanha, depois de induzir Psique ao erro de duvidar de Eros e tentar ver o rosto do deus que lhe desposara. Psique é condenada a vagar por causa da sua desobediência e Orual, segue de volta ao Reino para se esconder debaixo do véu. Ambas seguem seus destinos: Psique, peregrinando em exílio, e Orual, a Rainha sem rosto. Entretanto, no fim do livro, Orual ouve: “Você é Psique”!


CONCLUSÃO

 

    Por que escrevemos? "Escrevo para confrontar os deuses", diz Orual. Fomos expulsos do jardim do Éden. Há em todos nós uma sede por justiça. Escrevemos para dizer como as coisas realmente se deram. Mas será que sabemos o que realmente rege os acontecimentos? Sabemos quem somos? Durante todo esse tempo, Orual encobriu a face diante de nós e não nos mostrou seu verdadeiro eu, da mesma maneira que não nos contou a realidade sobre seu amor. Orual acusou os deuses de não falarem claramente as coisas, mas ela fez o mesmo. Acusou o deus da Montanha de encobrir um rosto horrível, mas ela fez o mesmo. Acusou Ungit de consumir o povo, e ela fez o mesmo. Assim, ao chegarmos ao fim do livro, o livro de acusação de Orual contra os deuses, Orual reconhece que o livro serviu para que ela revelasse a si mesma sua própria ferida, seu prório rosto... 

    “Vc também é Psique” à luz de nossa união com Cristo, ali eram sonhos... Pois quem realmente realizou as tarefas fora Psique, quem conquistou para Orual a redenção foi Psique! Eu preciso assumir o meu rosto: sim, sou feio! Contudo, na hora em que retiro o véu e enfrento a feiúra do meu próprio rosto, não é com o meu rosto que, finalmente, enfrentarei o tribunal dos deuses, mas é com o rosto de Jesus! Quando Deus olhar para mim diante do Tribunal, não será com a feiúra do meu rosto que serei julgado, mas com o rosto de Psique, que realizou todas as obras em meu lugar e me imputou sua justiça, sua beleza, seu rosto para que eu pudesse estar diante de Deus. E para encerrar com um tema que me é tão caro, mostrando que o Cristianismo não é um budismo, ao conferir-lhe um novo rosto e dizer que ela também é Psique, vemos, ao fim do livro, que Orual não perde a sua individualidade.

                    Fábio Ribas

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Você ainda confia no seu pastor?

 

    Brady Schearer fez um post em seu perfil do Instagram (aqui e aqui) mostrando que, nos Estados Unidos, a confiança nos pastores foi corroída num curto período de apenas 40 anos. Em 1985, segundo a pesquisa feita pelo Instituto Gallup, quando perguntado aos americanos “Como eles avaliariam os seus pastores em termos de honestidade e ética”, 67% dos entrevistados responderam que “confiavam” e até “confiavam muito”. Segundo Schearer, feita a mesma pergunta atualmente, somente 27% deram a mesma resposta. Além disso, entre os atuais pesquisados com menos de 35 anos a resposta favorável cai para assustadores 17%. O que aconteceu?

    Brady Schearer apontará 5 saídas para reverter esse declínio de confiança dos pastores entre as ovelhas. São elas: 1ª) transparência radical nas finanças; 2ª) mostrar sua imperfeição (e não apenas autoridade); 3ª) a necessidade de um ministério apoiado em muitas “vozes” e não apenas numa única pessoa; 4ª) reconhecer a crise e enfrentá-la; e 5ª) prestar contas. É importante notar como que essas 5 saídas interessam a todas as lideranças e cristãos em geral, e não somenrte a pastores. Acredito que, por exemplo, missionários precisam se atentar ao que foi colocado por Brady Schearer, assim como todo cristão em seu ambiente de trabalho, seja na função de patrão, seja como empregado. O que precisamos é de um retorno a uma ética bíblica aplicada às pequenas coisas do dia a dia na vida de cada um de nós.

    Na sua página do instagram, a Churchcombr (aqui) aproveitou o post de Schearer e trouxe para o centro do debate o problema dos desigrejados, mas aqui do Brasil. Schearer irá discutir a questão do abandono da religião pela falta de confiança nos pastores em seu vídeo aqui. Neste, ele confirma não duvidar dos critérios e da transparência da Instituição Gallup, mas acrescenta três dados que precisam ser levados em conta. Primeiro, a pergunta feita foi sobre o “clero”, isto é, pastores e padres foram objeto da pesquisa, assim, como ele mesmo diz em seu vídeo, os escândalos de uns recaem sobre outros num público que não faz muita diferença se fulano é dessa ou daquela denominação religiosa. Segundo, ainda no vídeo, Schearer lembra que a internet exacerba a visão que as pessoas têm sobre o que está ocorrendo, pois, hoje mais do que nunca, temos acesso a escândalos do outro lado do mundo, a exposição é global, diária e intensa. Terceiro, no mesmo vídeo é trazida uma informação que não aparece nem no carrossel de Schearer e nem no da Churchcombr: embora haja esse forte declínio na confiança quanto ao clero americano, há um crescimento modesto quanto à confiança nas igrejas americanas. Outro dado interessante no vídeo é que entre os evangélicos e os católicos de 40 anos de idade, deste grupo 45% cita que os escândalos foram a causa de sairem da igreja, enquanto daquele apenas 34% dão a mesma justificativa. Ainda outra informação abordada no vídeo sobre a realidade dos Estados Unidos, que é histórica e culturalmente muitíssimo diferente da brasileira: além de serem verdadeiramente polarizados em dois partidos, muitas igrejas de lá compreendem que, se elas forem claras em seu posicionamento político, há um comprometimento maior de pessoas com elas. Dito tudo isso, que mostra um pouco das enormes diferenças entre os Estados Unidos e o Brasil, vamos ao tema dos desigrejados. 

    O dogma proclamado pelos desigrejados, preciso relembrar aqui, está cristalizado em frases como “eu perdi a fé na Igreja, mas não em Jesus” e “eu não sigo uma religião ou placa de igreja, mas sigo a Jesus”. Como o objetivo da Churchcombr é tratar sobre esse grupo, repito ao leitor que foi no post da Churchcombr que se transferiu o assunto da pesquisa da Gallup sobre "a crise de confiança dos americanos em seus pastores” para “a falta de confiança nas igrejas brasileiras”. No post original, Brady Schearer não faz essa aplicação sobre as igrejas de lá. Ao contrário, até é citado, como já disse, que está ocorrendo uma modesta recuperação da confiança dos americanos em suas igrejas. Ele diz que a derrocada de confiança dos membros das igrejas nos pastores, por causa de tantos escândalos em que se viram envolvidos nas últimas décadas, certamente afeta as igrejas e, construtivamente, propõe as 5 saídas. Esta é a realidade americana. Aplicar, portanto, tudo isso à realidade brasileira é igual transplante de órgão, quando não se atenta às regras de compatibilidade, é bem provável que haja rejeição. 

    Quando pensamos em “Brasil”, um dos primeiros fatos que devemos levar em conta é que pastor e advogado, hoje em dia, é produzido por qualquer um, em qualquer lugar e de qualquer maneira. A gente não pode esquecer que, dentro dessas estatísticas, se estivéssemos trabalhando com uma pesquisa feita por aqui, tem de tudo no pacote e, provavelmente, até seitas. Não podemos ignorar que, hoje em dia, vivemos tempos em que basta a autodeclaração, não é mesmo? E, como vimos até mesmo na Gallup americana, dependendo de como seja feita a pergunta, o clero evangélico e católico não será discernido no resultado. Sem sombra de dúvida, pelas pesquisas que acompanhamos no Brasil dos últimos anos, teríamos que ser muito mais críticos em relação aos critérios e métodos aplicados pelos Institutos. Infelizmente, estamos vivendo um tempo em que não se faz recorte da realidade, mas se produz realidade em recorte para se costurar no que nossa reengenharia social anseia.

    Embora o objetivo da pesquisa da Gallup fosse o clero em descrédito lá no Novo Continente, não há como fecharmos os olhos para quem são "esses que perderam a confiança em seu pastor". Um outro carrossel de Schearer nos dá a informação que um em cada três cristãos prefere se aconselhar com uma Inteligência Artificail (IA) do que com o seu pastor. Isto seria uma consequência do descrédito para com o clero de lá? Uma resposta positiva a essa pergunta faria sentido. Contudo, não tenho nenhuma competência para analisar a realidade americana, enquanto, por outro lado, seria muito interessante olharmos para o "povo de Deus" aqui de nossas igrejas. 

    Uma das diferenças abissais entre nossas culturas é que o brasileiro ainda é muito relacional, preferindo manter o vínculo social do que sacrificá-lo no confronto com a verdade, por isso duvidaria que, em assuntos espirituais, o povo evangélico do Brasil já estivesse nessa mesma proporção "1 em cada 3". Quem é o povo brasileiro é resposta complexa e não caberia aqui, ainda assim podemos notar características evidentes de nossa própria cultura e de como ela tem influenciado nossas igrejas. É notório que o chamado "povo de Deus" nunca esteve tão envolvido com práticas ilícitas no seu dia a dia, e veja que nem estou me refirindo a grandes esquemas de corrupção. Falo mesmo é da quebra de nossa ética nas pequenas coisas. Por exemplo, é impensável que, até 40 anos atrás, descrentes preferissem empregados crentes trabalhando em suas empresas e nas suas casas, por causa da ética e da honestidade desses. Hoje, as palavras "crente" e "evangélico" estão associadas a muitas coisas e não mais, e nem necessariamente, com o exercício de um bom caráter. Parece que o traço cultural infame do "jeitinho brasileiro", ao invés de ser confrontado, foi absorvido por parte do povo de Deus. As práticas de se tirar vantagem em tudo e debochar do outro (porque seríamos um povo "alegre e feliz") não encontra nas igrejas brasileiras uma diferença em relação ao que o "típico brasileiro mediano" pratica aí fora. 

    Os nossos líderes são reflexo de onde eles saíram. Não podemos nos eximir dessa responsabilidade, nem nós, nem os americanos. Os nossos líderes existem, porque, de um modo ou de outro, eles são preparados e validados pelo rebanho que os deveria ter experimentado no aprisco eclesiástico, antes de enviá-los ao mundo. Sim, o povo de Deus perdeu a sua aura de santidade diante do mundo ao seu redor, logo não devemos nos admirar que nossos líderes também. Quem são essas igrejas e quem são esses líderes, que dão essa gordura para as manchetes dos noticiários? A maior parte dessas igrejas e desses pastores surgiram (e continuam surgindo) sem o menor traço de compromisso histórico e teológico, comprometendo-se apenas com a visão e o dom que "Deus lhes deu". O mundo não faz esse discernimento, tratando tudo que é "clero" como farinha do mesmo saco. É preciso que os cristãos façam e, então, se posicionem fiscalizando seus líderes e defendendo o evangelho puro e simples e a santidade de suas igrejas locais e denominações.

    Os jovens, outra faixa etária cada vez menos descrente da honestidade e da ética dos pastores, segundo a Gallup americana, são também frutos de suas famílias. Se os pais não confiam, não devemos nos surpreender que os filhos também não confiem. Até porque, muitos desses pastores deixaram de ser modelos de liderança cristã dentro de suas próprias famílias, quanto mais para as famílias das suas comunidades. Mais uma vez, infelizmente, devemos fugir do simplismo de, tão somente, lançarmos o problema sobre os ombros de nossa liderança, esquecendo que eles saem do nosso meio, do meio do povo de Deus”. A questão que precisa ser enfrentada é que o povo evangélico não se separou do mundo (a não ser quando se trata de moralismozinhos e legalismozinhos) e tem devolvido à sociedade um sincretismo depravado de cristandade gospel com nosso "jeitinho brasileiro". Nossos líderes e pastores são apenas a ponta do iceberg e as igrejas precisam se reavaliar sobre como tem preparado aqueles que ela oferece ao mundo: suas famílias, líderes, missionários e pastores. Embora eu não duvide que, graças a Deus, ainda haja os sete mil que não se dobraram ao Baal de nossa pecaminosidade cultural brasileira.

    Diante da corrupção e tantas outras mazelas da Igreja de seu tempo, homens como Lutero lutaram por ela e, antes dele, muitos morreram pela santidade dela (I Cor. 6.7), mas, em tempos de farto mercado religioso em que temos vivido, é muito mais fácil pular fora de um barco que se suspeita possa estar naufragando. A própria Bíblia diz que não devemos caminhar sozinhos (Provérbios 4.9-12 e Hebreus 10. 24-25). A Bíblia diz que devemos aprender a resolver nossos problemas legais no tribunal da Igreja e não do mundo (I Coríntios 6). E, indubitavelmente, mesmo diante de situações tão complicadas em igrejas como, por exemplo, a de Corínto, não vemos em nenhuma das cartas pastorais qualquer possibilidade de seguirmos o rumo da porta de saída. Ao contrário, tudo aponta para a santidade e o amadurecimento do povo de Deus. Todas as crises deveriam ser enfrentadas pela disciplina eclesiástica, evitando "demandas forenses desnecessárias" no mundo (CMW 141). 

    Concordo com as 5 saídas propostas por Schearer, mas aplicadas a todos nós e não apenas aos nossos líderes. Além disso, o desigrejado precisa ser tratado, curado e restaurado, pois, ainda que fosse possível termos um sistema perfeito (o que só teremos no segundo advento de Cristo), estamos diante de um desafio pastoral. Por ser um desafio pastoral, é preciso um pastoreio caso a caso, pois, sejamos justos, temos que enfrentar os erros cometidos, as ovelhas feridas, os soldados que caíram por terem sido atingidos pelo próprio exército do qual participam. 

    Acredito que o post da Churchcombr erra quando diz que a crise que gera a opção do desigrejamento não é de fé. No post, apresenta-se que não é falta de fé, mas é a busca pela verdade o que se quer. Veja que essa maneira de pensar já cede a uma outra cosmovisão que não é bíblica. A cosmovisão moderna é que separa fé e verdade. Só é possível fé na verdade, assim como só é possível verdade na fé do que Deus oferece na sua Palavra. Na Bíblia, fé, verdade e justiça são indissociáveis. Portanto, ao contrário do post da Churchcombr, o que falta é a fé na noiva de Cristo, vê-la com os olhos do Noivo, apesar das traves de nossos próprios olhos! A igreja é uma igreja de pecadores, mas de pecadores redimidos, de imperfeitos pecadores, porém redimidos. Lembrando ainda que o próprio Jesus disse que teríamos joio no meio dessa plantação de trigo. A crise é de fé naquilo que a Palavra diz sobre nossas igrejas: elas nunca seriam perfeitas e, uma vez discipulados desde o início de nossa caminhada cristã nessa verdade, devemos investir no apoio bíblico da mutualidade cristã. Estamos numa corrida rumo à Jerusalém Celeste, entretanto não é uma corrida de uns contra os outros. É uma corrida em que todos os eleitos de Deus chegarão juntos, graças à vitória de Cristo. 

    Caro leitor, você lembra da 5ª saída proposta por Schearer? No momento em que eu li a 3ª e, principalmente, a 5ª saída ao atual descrédito de nossas lideranças evangélicas, ficou evidente para mim que a solução também passa pelo tipo de governo das igrejas (além de um compromisso sério com a teologia histórica da Reforma Protestante). Aqueles 5 caminhos se apresentam como saídas para a crise de liderança das nossas igrejas. Todavia, sendo mais atento ao que está escrito no carrossel, em Igrejas cujas lideranças não prestam contas a ninguém, dificilmente aquelas propostas vingarão. Assim, um governo de presbíteros verdadeiramente regentes sobre a Igreja local e que funcione, de fato, de modo disciplinar, isso atende àquelas 5 saídas, ao meu ver. Pelo menos, muito melhor do que um tipo de governo centralizador ou exacerbadamente dispersivo. A 5ª saída, então, deveria nos levar a rejeitar qualquer modelo episcopal ou semi-episcopal. Mesmo dizendo tudo isso, posso expressar que não me iludo que o governo presbiteriano seja perfeito, pois também é regido por homens pecadores. Ainda assim, auxilia, e MUITO, que os anciãos das igrejas possam pastorear e administrar as igrejas locais, não apenas auxiliando o presbítero docente, que é o pastor, mas ajudando-o no pastoreio dos membros e da própria família pastoral.

    De acordo com o penúltimo post do carrossel da Chuchcombr, as pessoas querem mais "verdade". Seria tão simples assim a descrição da realidade que enfrentamos hoje em dia? Se a descrição está incorreta, a prescrição também será apenas um placebo, até que o desigrejado escolha um outro culpado. Precisamos enfrentar o quinhão que também cabe a cada um dos envolvidos nesta trama que tratei aqui, mas que o façamos à luz da Palavra. 

    Preciso encerrar esta minha reflexão, iniciada por causa de um queridíssimo amigo que perguntou minha opinião sobre o carrossel da Churchcombr, dizendo que também já tive graves problemas com irmãos e líderes dentro da Igreja. Irmãos e líderes que, no processo, agiram como ímpios e não como irmãos. Líderes que, muitas vezes, serviram muito mais como exemplos a não seguir, e do que não fazer, do que amados que deixaram para trás o bom perfume de Cristo em minhas mãos. Porém, aprendi que, na caminhada da santidade, o mal que nos fazem tem propósito também. Ainda que nosso melhor amigo levante seu calcanhar contra nós e possamos não compreender naquele momento, mas é pela fé que cremos na verdade da justiça divina. Acredito em ordem e decência, por isso há a orientação de Jesus Cristo em Mateus 18. Sei que, para além do tribunal eclesiástico, haverá situações inevitáveis que terão que ser encaminhadas ao tribunal do Estado, não só depois de esgotadas todas as possibilidades bíblicas, mas também repassadas ao Estado pelo próprio tribunal eclesiástico. Um reconhecimento público e necessário de que algumas causas são crimes e precisam ser pagos na sociedade. 

    Um dia, no grande Dia, a cortina do grande Teatro será rasgada e as luzes todas serão acesas sobre as histórias pessoais de cada um de nós. Eu creio, espero e descanso na fé que revela a verdade de um grande julgamento final: todos prestaremos conta. Não haverá mais segredos, nem acordos e decisões escusas que foram feitos no silêncio comprometedor por trás das portas fechadas... Deus escancarará tudo. Entre nós, quem está preparado para aquele grande Dia?

    O apóstolo Paulo sofreu com muitos irmãos e igrejas. Ele foi preterido, difamado e até abandonado. Contaram sobre Paulo e seu ministério as versões que quiseram, mas poucos dos que ouviram aquelas versões o procuraram pessoalmente para perguntar, olhando nos olhos dele. Depois de tudo, apesar de tudo, Paulo nos dá 3 razões maravilhosas para enfrentarmos o mal que sofremos de irmãos que não buscam a reconciliação. Essas três razões se encontram no primeiro capítulo, da sua segunda Carta aos Coríntios. E se você chegou até aqui, neste ponto da leitura, quero compartilhá-las:

1) Sofremos, porque, uma vez consolados, devemos exercer com o outro nosso irmão dessa mesma misericórdia recebida (você não é único que sofre dentro - e nem por causa - da igreja);

2) Sofremos, porque, ainda que morramos, precisamos aprender a depender total e tão somente dAquele que é poderoso para ressuscitar mortos (somos chamados à morte por Cristo, caso ela seja necessária à divulgação e ao bom testemunho do Evangelho);

3) Sofremos, mas, no Dia do juizo final, descobriremos que muitos irmãos não desistiram de orar por nós e apoiar o nosso ministério: esses irmãos serão revelados e eles farão parte da nossa glória eterna, assim como já fazemos parte da glória da Igreja que, desde agora, persevera em orar por nós (Deus é o Justo Juiz, lembre-se que a última instância pertence a Ele - a justiça dos homens, que é falha, não é a última palavra).  

        Fábio Ribas


 

 

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