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segunda-feira, 23 de março de 2026

Rainha Margot e a política nossa de cada dia

Há quem deseje a volta da Monarquia? No meio conservador brasileiro, podemos encontrar tanto entre católicos como entre protestantes os que sonhem com o retorno do rei. Eu, contudo, anseio pelo retorno do Rei. Apenas. Eu “já” vivo sob uma Monarquia, embora “ainda não”. Acredito que, um dia, todo olho verá a volta do meu Rei Jesus Cristo e, então, teremos uma verdadeira, plena e perfeita Monarquia. Enquanto isso, seja lá sob que forma de governo estejamos vivendo, o que temos, indubitavelmente, é esta Cidade dos homens, imperfeita, corrupta e miserável.


Uma Monarquia parlamentarista melhoraria os vícios de um possível reinado caprichoso? Nenhuma garantia. A Monarquia deveria ser defendida como símbolo e reduto da moral? Símbolo da tradição? Ledo engano, caro cidadão. Será, então, que uma República parlamentarista não daria a nós um maior equilíbrio e estabilidade necessários à Nação? Não! Dúvidas quanto a isso? Olhe para o nosso Parlamento. Ele é a representação do que somos: imperfeitos, corruptos e miseráveis. Percebido isso, não é de se estranhar que Karl Marx ensine a seus adeptos que a conquista da democracia, por meio do voto para todos, era uma etapa essencial para que o proletariado alcançasse o comunismo.


Há indivíduos ilustres no Parlamento e demais poderes da Nação? Não duvido. Todavia, os partidos com maior capital político são quitandas de negócios escusos. E se trocássemos os partidos? Quando esses recolhessem maior capital, por sua vez, começariam seus processos de barganha fisiologista. Muita ingenuidade depositarmos nossa confiança em homens pecadores. Sem ilusões, por favor! Há um vídeo que, volta e meia, circula em época de eleições. Este ano já começa a circular de novo. Deixarei o link do vídeo aqui. Assista. Quero comentá-lo a seguir.

 


Dando um passo atrás, precisamos compreender que, seja lá em qual ponto do espectro político você se posicione hoje, a Bíblia coloca a cada um de nós como um vilão completo diante de Deus, exatamente porque Deus pensa diferente de nós (Isaías 55:8–9). Quer ver? Somos todos pecadores, não há um que busque o bem (Rm 3:23), nossas boas obras são trapos de imundícia diante de Deus (Isaías 64:6), tudo isso é o que a Palavra de Deus diz sobre todos nós. O que precisamos entender é que até mesmo nós, que somos maus, sabemos dar boas coisas aos nossos filhos (Mt 7:11/Lc 11:13). É como se olhássemos para um Hitler, um Mussolini ou um Stalin, por exemplo, e aceitássemos o fato incômodo de que, certamente, eles foram “bons” com alguém da vida deles. Os piores psicopatas sabem também dar “boas coisas” a alguém. Como a própria Bíblia diz, atentemos, não há boas obras capazes de nos habilitar diante de Deus (Ef 2:8–9/Tt 3:3/Gl 2:16). Decorre disso, então, que não são os milagres que justificam os santos, por mais fascinantes que esses milagres se mostrem a nós. Portanto, cuidado.


Dando um segundo passo atrás, outro problema do vídeo é acreditar em “virtudes”, como se essas não fossem produtos de um coração pecador. Não há “virtudes” diante de Deus, vimos isso no parágrafo anterior. Mesmo nossas “melhores virtudes” diante dos homens são impregnadas do mais vil pecado de nossa natureza humana totalmente depravada. A “liberdade”, a “equidade” e a “justiça” não são pessoas com quem eu possa desfrutar um café da manhã em casa ou me confraternizar no fim de tarde no trabalho. Virtudes e valores não são autoexistentes, independentes de nós. A “liberdade” só pode ser verificada na vida de pessoas concretas. Semelhantemente, amor, alegria, paz, paciência, amabilidade (ou benignidade), bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio não são entes verificáveis fora de nós. Em outras palavras, virtudes e valores são abstrações que se manifestam concretamente a partir de pessoas pecadoras. Logo, as “virtudes” não são neutras e nem puras. Por isso, não importa o lado em que elas apareçam no espectro político, pois não é a direita ou a esquerda que as justifica. Eu posso usar a liberdade para fazer o mal. Eu posso usar o vício para fazer o bem. Só Deus conhece o que vai no coração, por isso é preciso suspeita bíblica diante de um mundo que jaz no maligno, embora governado por Deus.


Dando um terceiro passo atrás, é bom afirmar que todo valor ou virtude pode ser absolutizado por alguém ou, pelo menos, será destacado em detrimento de algum outro valor em algum momento, cedo ou tarde. Porém, como discernir, nesses momentos, o certo e o errado? Quando é que a liberdade deixa de ser algo melhor do que a equidade (ou vice-versa)? Se o indivíduo não puder tomar essa decisão, certamente, o grupo tomará por ele. O grupo pode ser qualquer ajuntamento: o partido político, a igreja, o condomínio etc. Quando o grupo passa a decidir sobre quando é que a liberdade se torna opressora e a equidade virtuosa, então, mais uma vez, estamos em xeque, porque se a Bíblia diz que o coração de um único homem é perverso, o ajuntamento de muitos corações só pode gerar mais perversidade ainda. Para resolver isso e conter a rebelião de algum indivíduo, grupos precisam de uma autoridade maior que os legitime. Aqui, para nós cristãos, só duas autoridades são possíveis: a Bíblia e o Estado. Este, contudo, limitado e fiscalizado por aquela. Do contrário, o Estado se torna a personificação da rebelião contra tudo aquilo que se chama Deus e, como sabemos, passa a controlar indivíduos por meio de grupos — até mesmo por meio da própria igreja — usando o poder desse Leviatã encarnado. Por tudo isso, não apenas o vídeo é ingênuo para com o que ocorre na vida real, mas também desconsidera o pecado de indivíduos e de indivíduos ajuntados, pois é isso o que um grupo é: um bando de gente controlada por alguns indivíduos ou por um indivíduo que pode vir a dominá-los.


Ainda sobre o vídeo, e também dando um último passo atrás, Jesus estaria mesmo acima de tudo isso? O vídeo diz que Jesus não está em lugar algum do gráfico, mas acima (fora) julgando o gráfico. Duas coisas: Jesus tem que estar no gráfico por meio da Sua igreja e também agindo por meio da Providência divina. Esta pode ser discernida quando olhamos o passado e aquela, em sua atuação de ser sal e luz agora. Jesus julga o gráfico, verdade, mas não com os critérios daquelas palavras apresentadas no gráfico, porque o conteúdo bíblico delas é outro. Jesus julga acima, mas julga por dentro também, julga por meio de sua igreja, que está inserida no gráfico e proclamando o Evangelho, e também julga quando cada cristão está evangelizando e mostrando que liberdade, equidade e justiça bíblicas são categorias bíblicas e não mundanas. Como categorias reveladas pela Bíblia, são conceitos fundamentados na Palavra de Deus e não na sociedade ou na cultura. As categorias revelam gêneros supremos, modos de ser pelos quais devemos nos organizar, classificar e compreender toda a realidade e nossa experiência. Portanto, a liberdade bíblica não corresponde à liberdade pregada pelo mundo. A equidade bíblica não é fruto de uma inveja doentia como o que, de fato, subjaz a toda defesa de uma agenda político-ideológica que vemos aí mundo afora. A justiça bíblica não é a justiça social.


Como, pois, Jesus já julga o mundo por meio de sua Igreja proclamadora e missionária? Ele já o julga (Jo 3:18–19/Jo 12:31/ Jo 12:47–48), mas ainda não, uma vez que haverá um julgamento definitivo e final no dia da volta do Rei. O mundo já está julgado, quando ele é um sistema que se rebela à pregação do Evangelho feita pela Igreja. Esse Evangelho pregado pela Igreja é supracultural, verdade. Está acima de toda proposta humana de tornar a Cidade dos homens numa Cidade de Deus, mas sem Deus. O Evangelho é transcultural, porque ele é a resposta ao pecado que atravessou e condenou à ira de Deus todos os corações em todos os povos, línguas e culturas. O Evangelho é contracultural, porque é na pregação da Igreja que teremos o confronto que poderá levar os corações ao arrependimento ou, segundo a vontade de Deus, entregá-los de uma vez à condenação em que se encontram. O Evangelho é intercultural, porque, uma vez perdoados em Cristo, podemos nos colocar diante de Deus e diante do próximo para exercermos as virtudes do Espírito Santo em nós. Estou me referindo agora àquelas virtudes mencionadas há uns três ou quatro parágrafos atrás e que só poderão ser concretizadas na Igreja e por meio da Igreja, porque elas são fruto do Espírito Santo (Gl 5:22–23)! Por isso, as virtudes humanas, ainda que urgentes e necessárias no convívio social, só serão levadas em conta por Deus, quando, por causa de Cristo, elas forem finalmente levadas pelo Espírito Santo à glória de Deus. Biblicamente, isso só é possível mediante à regeneração Soberana operada de modo monergístico pelo próprio Deus. Sim, Jesus julga o mundo, mas o faz pela Igreja que proclama a todas as nações que o Reino chegou e que esse Reino tem Rei e Ele voltará! Quem crer nessa mensagem e se arrepender de seus pecados será salvo, senão já está julgado.


Definitivamente, o Estado não pode se tornar uma só carne com a Igreja. E a história é repleta de exemplos de como esse adultério entre a Igreja e o Estado causou mais danos do que bênçãos. A Igreja não é o Estado. As razões da Igreja são celestiais e eternas. As razões do Estado são terrenas e finitas. “Rainha Margot”, de Alexandre Dumas, exemplifica muito bem o dano causado ao testemunho do Evangelho quando a Igreja cede às razões do Estado. O romance de Dumas é uma história ficcional a partir de eventos e personagens históricos. O livro começa na trágica “noite de São Bartolomeu”, evento que se mostra arquitetado pela mãe do Rei da França, que não aceitará um protestante assentado no trono. Assim, após o casamento entre Henrique de Navarra, Rei protestante, e a jovem Margarida, católica, deflagra-se uma traição sem precedentes na história. O que deveria ser um marco para selar a paz e trazer concórdia às guerras sangrentas entre os dois grupos torna-se uma noite de emboscada contra os protestantes. Na França, os protestantes, chamados de huguenotes, foram assassinados por todo o país, num número entre 5.000 e 30.000 mortos. Números que, dependendo das fontes, chegam a ultrapassar os 100.000 mortos.


A trama de Dumas transcorre desde os momentos imediatamente anteriores à noite de São Bartolomeu, que foi a data de 24 de agosto de 1574, e segue pelos próximos dois anos seguintes. A mãe do Rei Carlos IX, Catarina de Médici, é mostrada como a grande personagem manipuladora dos eventos e, principalmente, como aquela que arquitetou o massacre. Nos anos seguintes, ela persevera de plano em plano para destruir seus inimigos, principalmente Henrique de Navarra. Dumas mostra como que, a despeito do contexto de “guerra religiosa cristã”, os personagens estão mergulhados em superstições e feitiçarias pagãs. Estamos no século da Reforma Protestante, mas também estamos no século de Nostradamus. A própria Catarina recorre ao boneco vodu e outras práticas mágicas para eliminar Henrique. O lado protestante não é melhor do que isso, infelizmente. Por exemplo, basta uma visão sobrenatural para que um dos personagens interprete que deve se converter ao catolicismo. Aliás, o próprio Henrique de Navarra, para garantir a paz para a França, “converte-se” ao catolicismo. Uma conversão, até hoje, vista como estratégica para trazer paz ao Reino da França. Uma decisão tomada mesmo após o massacre covarde de seus irmãos huguenotes (ou por causa do massacre?). Aqui, numa decisão como essa, vemos o quão pueril e sujeita aos caprichos do coração ou às razões do Estado pode estar a convicção religiosa.


A personagem principal, a Margarida — a Rainha Margot do título — funciona como aquela que segue descobrindo a trama de traição arquitetada por Catarina durante a história. Sua personagem também carrega o envolvimento amoroso com La Mole, um jovem protestante. Na vida real, Margarida ficou conhecida por ter tido inúmeros amantes, mas Dumas retrata esse caso amoroso como o romance trágico da Rainha. La Mole se torna o melhor amigo de Cocunás, que, durante a narrativa do livro, desenvolve seu amor também trágico por Henriette, a Duquesa de Nevers. A amizade entre Cocunás e La Mole é bem representativa do ideal de amizade cavaleiresca do romantismo. A fidelidade e o amor de Cocunás por La Mole pode soar hoje (e talvez tenha sido interpretado por muitos) como um sentimento homoafetivo. Entretanto, essa interpretação seria um desconhecimento desses ideais de amizade presentes nos romances de cavalaria, portanto, tal interpretação não procede.


“Rainha Margot” é um livro fascinante e muito bem escrito. Duvido que hoje haja tramas tão ricas de personagens e desenvolvidas tão bem como li nesse livro. Contudo, a trama de conspiração, mentiras, traição e corrupção fez-me pensar na triste Cidade dos homens, sob quaisquer formas de governo que estejamos, e a ansiar a plenitude da Cidade de Deus. Um ponto final que gostaria de deixar para o futuro leitor de “Rainha Margot”: é na oposição às tramas de Catarina que vemos patentemente manifesta a Providência divina.


PS — Uma última reflexão sobre como Jesus já está julgando o mundo. Toda vez que, aos domingos, eu me dirijo ao culto com meus irmãos, na Igreja Local, penso em outros tantos de milhares de irmãos que também saem de suas casas, porque acreditam no Deus de sua salvação. São milhares de cristãos, a cada domingo, proclamando em culto solene de adoração pública, a festa da ressurreição dAquele que nos salvou e santifica. Aqueles que não festejam, porque não acreditam, são como os egípcios atormentados pelas pragas. Já o povo de Deus, ao contrário, sai para festejar no deserto ao Deus da sua libertação. Assim, vejo o domingo, cada domingo, como o anúncio do Dia do Senhor, o Dia da Justiça do meu Deus! A justiça já veio, mas ainda não. Prepare-se! 

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Introdução à Nova Ordem Mundial (XXXIX/2024)


O professor Alexandre Costa nos apresenta um livro que não apenas mostra os atores por trás de toda a discussão sobre a Nova Ordem Mundial, como também traz ao leitor uma obra de referência, exatamente porque consegue reunir todos os milhares de temas dispersos pelo universo da Internet sobre o assunto.

O autor inicia o seu livro mostrando os três grandes agentes dessa Nova Ordem Mundial: o comunismo, o islamismo e os globalistas, cujo alvo principal é derrubar a cultura judaico-cristã, porque eles só poderão iniciar uma nova sociedade retirando o cristianismo da mesa de jogo. Para mim, essa tese é muito coerente e sem grandes dificuldades de ser constatada na história recente da humanidade. Contudo, é na orquestração de uma sinfonia sob a batuta dos três, ou de um deles no controle majoritário dos planos, que começa a desconfiança nos leitores mais atentos (ou céticos). Não é difícil perceber que, vez ou outra, pontualmente, há alianças entre comunistas e islâmicos na história dos últimos anos. Assim como, por razões de poder e financeiras, notamos as alianças entre globalistas, que são os detentores das imensas fortunas, e islâmicos também. A questão é se os três, conjuntamente, ou um deles, ou ainda um quarto poder por trás dos três, poderiam, na verdade, receber a alcunha de “os donos do poder”. Quanto mais avançamos na leitura do livro, ainda que concordemos com os fatos ali narrados, é na hora de entrelaçar e de imaginar um Ditador único ou mesmo um grupo manipulador, ou até mais grupos agindo em favor ou uns contra os outros, e todos numa atuação global, que a tese, então, perde a sua força. Veja bem, a premissa é verdadeira: os três grupos apresentados querem tirar o cristianismo do jogo, porque é o obstáculo único que os impede de avançar uma agenda que vai contra tudo aquilo que se chama Deus. A conclusão é o que não encontra bom senso e o silogismo não funciona satisfatoriamente, talvez pelo excesso de atores e atuações que são dispostos sobre o palco.

O autor segue mostrando os prováveis grupos que seguram as cordas que movem o mundo. Desde as famílias mais ricas, como os Rockfellers e os Rothschild, passando pelas inúmeras sociedades secretas e outros grupos como a Society Fabian, Maçonaria, Illuminat da Baviera, Golden Dawn e Fundações, até explanar também o modo desses grupos agirem por meio de outros grupos e entidades como a ONU, o Foro de São Paulo, o Clube de Bilderberg, NASA, FEMA, etc. Enfim, como disse, está tudo no livro. Todos os personagens e grupos são descritos. A maioria dessas organizações e personagens já nos são conhecidos, mas o próprio autor, por mais de uma vez, diz que “sobre isso”, isto é, sobre o entretecimento de uma rede tão detalhada e extensa entre eles não se tem provas. Portanto, embora haja fatos, há também muita especulação. E não só isso, na hora de amarrar fatos e especulações sobre fatos, tentando enganchar uns nos outros, tudo se complica. Tudo se complica tanto, que, num determinado ponto do livro, o autor relembra a “navalha de Ockhan”, cuja tese defende que só a hipótese mais simples deve ser considerada. Evidentemente, ele precisa questionar esta “navalha”, pois ela não sustentará uma hipótese que amarra tudo o que já foi tratado no livro com ainda outros temas infindos como a Besta da Bélgica, lavagem cerebral, programa MK Ultra, HAARP e Chemtrails.

Aqui, quero repetir que, em certa medida, acredito em muitos fatos tratados pelo autor, pois são fatos! Os grupos existem, as pessoas também. Acredito em planos megalomaníacos, em projetos ocultistas para a derrubada do Cristianismo; creio mesmo em corporações e planos governamentais para a derrubada de desafetos e instalação de líderes bonecos nas mãos de seus Senhores etc. Porém, o que não posso acompanhar é a extensão da amarra de todos esses fatos como é proposto no livro. Em muitos momentos, o próprio autor compreende que é um terreno de muitas especulações, diversas suposições e poucas provas que liguem os elementos mais importantes uns aos outros. Inusitadamente, o oposto também se observa: parece existir uma quantidade enorme de situações divulgadas na mídia que revelariam o comprometimento de personalidades com tudo isso. Parece…

Há três questões que me incomodaram não apenas durante a leitura desse livro, mas em todas as discussões que tenho tido a oportunidade de assistir e participar, desde os áureos tempos do true outspeak do Professor Olavo de Carvalho.

Meu primeiro incômodo é que, embora os adeptos dessa visão sobre a Nova Ordem Mundial falem várias vezes em “nuvens de fumaça”, que desviariam a atenção do público daquilo que os “donos do mundo”, de fato, estariam tramando e fazendo, acredito eu que, da maneira que o tema tem sido apresentado por todos estes anos, são os adeptos dessas teorias conspiratórias os que mais fazem fumaça para nos desviar daquilo que realmente importa! O que eu quero dizer é que são tantos meandros, tantos desdobramentos, tantas teorias, tantos “pode ser”, “não sei”, “talvez” etc, que os que se embrenham por essas trilhas de pesquisa se amarram em redes que os impedem de discutir e agir da maneira que realmente se esperaria que um cristão tratasse de tais assuntos.

O segundo incômodo, que agora apresento como consequência do que eu acabei de dizer no parágrafo acima, é que essas teorias todas são defendidas por católicos e evangélicos, que, ao criarem um inimigo comum, deixam de tratar temas que seriam fundamentais entre eles. Tenho visto católicos tomarem posse do discurso neopentecostal, a ponto de dizerem que o que legitima o cristianismo é o milagre e não a verdade da Palavra de Deus! Evangélicos passam horas e horas em discussões sobre “realidades”, às quais pouco ou nada podem fazer — “só alertar” — é o que sempre dizem sobre essas conversas sem fim. Mas “só alertar” tem sido apenas trazer outros para uma armadilha alienadora do que realmente importa. Vejo católicos conversando com evangélicos (e outros que até se dizem protestantes) sobre a catequização dos povos bárbaros, o fim do paganismo pelo avanço evangelístico romano nos primeiros séculos, etc, etc e etc, sem que ninguém os confronte sobre os resultados desastrosos da entrada do paganismo dentro do romanismo. E o que parece calar uma discussão evangélica e protestante em determinados ambientes é essa nuvem de fumaça, que é o conjunto de teorias mirabolantes da Nova Ordem Mundial, fazendo com que os evangélicos e protestantes se distraiam acusando um inimigo comum, que, veja bem, pode até mesmo não ser nem metade do que se apregoa.

O terceiro incômodo é um desdobramento dos outros dois. No final do livro do professor Alexandre Costa, há uma indicação bibliográfica e, logo na primeira linha, aparece o livro “AA-1025 Memórias de um anti-apóstolo — Autor Desconhecido”. Sobre o que trata esse livro? Alega-se, pois nem se conhece o autor, que esse seria um ex-comunista entregando suas estratégias para minar a Igreja Católica por dentro. Mas o que, entre tantas coisas, ele fala? Que o objetivo era destruir o “marianismo” e a “intercessão dos santos”, fazer com que os fiéis desacreditassem das aparições de Maria e parassem de rezar o terço… Entendeu? Evangélicos e protestantes são trazidos a uma arena em que não é a Palavra de Deus sua única regra de fé e prática; uma arena em que há um inimigo comum, mas que é oculto; nessa arena, o que importa são os milagres e não a verdade da Palavra de Deus (e milagres a gente vê em todo lugar, não é mesmo? Até entre católicos e evangélicos também!); e, enfim, avançar contra as doutrinas romanas seria coisa de comunista ou, pelo menos, é dar ao inimigo a vantagem, já que o “nosso exército” se divide, caso pregássemos contra essa velha idolatria romana de sempre.

O que me surpreende nessa conversa toda é que, depois de horas e horas tentando dar nomes aos atores da Nova Ordem Mundial e armar um enredo em que todos possam participar dessa novela, é dito que não se pode mesmo fazer muita coisa. Então, responda-me: para que conhecer o bem e o mal, se abrimos mão da luta pela verdade bíblica? Que conhecimento é esse que lança uma nuvem de fumaça sobre verdades inegociáveis da Palavra de Deus? Por que pessoas se deixam levar por discursos que tanto as angustiam e as deixam vulneráveis não aos “donos do poder”, mas aos “Donos do conhecimento”? Sobre isso, basta você ver os comentários feitos, logo após a exposição de todas essas teorias nessas lives e palestras: “Meu Deus! O mundo vai acabar”, “Não vou ter filhos num mundo assim”, “o diabo está enganando todo mundo” etc. O que falta a essas pessoas que se dizem evangélicas e protestantes e que terminam se prendendo a coisas assim? Vou dizer, enfim, a minha opinião sobre isso.

1º) Sede de saber — a proposta continua a mesma desde o Éden. Um saber que lhe oferece o conhecimento do bem e do mal, mas fora da Palavra de Deus. E os seguidores que se dizem evangélicos e protestantes não percebem isso? Há o uso de uma linguagem gnóstica, porque o conhecimento é oferecido aos iniciados e, quanto mais passos são dados na direção desse conhecimento, mais conhecimento você terá. Esta é a promessa da serpente. Como toda seita, são oferecidas verdades, mas em meio a mentiras. Esta é a estratégia da seita: oferecer espinha de peixe enrolado em biju grosso. A cobeligerância entre protestantes, evangélicos e católicos jamais pode ser na área da tutela ou mentoria intelectual, pois isso também é jugo desigual. Podemos ler, estudar juntos, mas jamais nos submeter ao silêncio quando expostos às doutrinas antibíblicas.

2º) A Bíblia não é a única regra de fé e prática — há uma reedição teológica, mas que é comum no campo da esquerda e da direita políticas, em que é o meio que se impõe sobre a Bíblia e não o contrário. É uma teologia pragmática, que é a mesma usada pela TMI, TL e demais “evangelhos de justiça social”. Portanto, não é de se surpreender que nesses ambientes conspiratórios o milagre justifique o santo ao invés da Bíblia julgar o milagre. Não são apenas evangélicos e protestantes fracos teologicamente, que vemos cair na sedução desse gnosticismo romano, que, sem dúvida, em muitas frentes se vê envolvido por algum grau de ocultismo. Porém, independente dos que vemos caindo nessas ciladas, todos têm algo em comum: abraçam uma tradição filtrada por um revisionismo histórico romano (que não considero de todo equivocado) e abrem mão da Bíblia como única regra de fé e prática para suas vidas.

3º) Desconhecem as doutrinas basilares da fé Reformada e suas implicações, a saber, além da Sola Scriptura, a Soberania e Providência divinas; e a Primazia e Suficiência de Cristo — Não tenho dúvida que muitos dos que se dizem evangélicos e protestantes, desconhecem a Fé Reformada ou foram mal discipulados nela. Vemos cristãos abrindo mão da autoridade bíblica sobre suas vidas, ao mesmo tempo em que abraçam tradições abomináveis a Deus. É impossível não ouvir a voz de Paulo aos Gálatas, que também queriam associar outros conhecimentos ao conhecimento único do Evangelho que lhes fora apresentado: “Ó, Gálatas insensatos”! E o pior é que se conhecessem de fato as implicações da Soberania e Providência divinas não se lançavam em uma rede de especulações que em nada traz crescimento espiritual ou os torna mais parecidos com Cristo! Soubessem, de fato, da Primazia e da Suficiência de Cristo jamais aceitariam comer na mão de idólatras!

Conhecessem a Palavra de Deus, saberiam que Satanás é um cachorro na coleira de Deus e que “os donos do poder” fazem parte do Plano de Deus para entregar cada vez mais à mentira aqueles que se negaram a aceitar a verdade (II Tessalonicenses 2). Há muito que falar sobre este assunto e outros afins, mas abordarei mais adiante em outros livros. Por agora, encerro apenas retornando ao que fiz referência algumas vezes durante este texto: há uma nuvem de fumaça desviando a atenção de evangélicos e protestantes ao que, indubitavelmente, importa: “fazer discípulos de todas as nações”! Tenho visto jovens darem o melhor de suas energias às especulações levantadas pela Nova Ordem Mundial, contudo, a falta de uma boa teologia os faz se desviarem do que realmente importa. O meu desejo é que nossos jovens, tão inteligentes e sedentos de aprender mais, possam buscar o Senhor enquanto se pode achar (Isaías 55:6), que eles busquem o verdadeiro conhecimento, que se encontra somente em Jesus Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (I Cor 1:24).

                    Fábio Ribas

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...