segunda-feira, 23 de março de 2026

Rainha Margot

Há quem deseje a volta da Monarquia? No meio conservador brasileiro, podemos encontrar tanto entre católicos como entre protestantes os que sonhem com o retorno do rei. Eu, contudo, anseio pelo retorno do Rei. Apenas. Eu “já” vivo sob uma Monarquia, embora “ainda não”. Acredito que, um dia, todo olho verá a volta do meu Rei Jesus Cristo e, então, teremos uma verdadeira, plena e perfeita Monarquia. Enquanto isso, seja lá sob que forma de governo estejamos vivendo, o que temos, indubitavelmente, é esta Cidade dos homens, imperfeita, corrupta e miserável.

Uma Monarquia parlamentarista melhoraria os vícios de um possível reinado caprichoso? Nenhuma garantia. A Monarquia deveria ser defendida como símbolo e reduto da moral? Símbolo da tradição? Ledo engano, caro cidadão. Será, então, que uma República parlamentarista não daria a nós um maior equilíbrio e estabilidade necessários à Nação? Não! Dúvidas quanto a isso? Olhe para o nosso Parlamento. Ele é a representação do que somos: imperfeitos, corruptos e miseráveis. Percebido isso, não é de se estranhar que Karl Marx ensine a seus adeptos que a conquista da democracia, por meio do voto para todos, era uma etapa essencial para que o proletariado alcançasse  o comunismo.

Há indivíduos ilustres no Parlamento e demais poderes da Nação? Não duvido. Todavia, os partidos com maior capital político são quitandas de negócios escusos. E se trocássemos os partidos? Quando esses recolhessem maior capital, por sua vez, começariam seus processos de barganha fisiologista. Muita ingenuidade depositarmos nossa confiança em homens pecadores. Sem ilusões, por favor! Há um vídeo que, volta e meia, circula em época de eleições. Este ano já começa a circular de novo. Deixarei o vídeo abaixo. Assista. Quero comentá-lo a seguir.

 


Dando um passo atrás, precisamos compreender que, seja lá em qual ponto do espectro político você se posicione hoje, a Bíblia coloca a cada um de nós como um vilão completo diante de Deus, exatamente, porque Deus pensa diferente de nós (Isaías 55:8-9). Quer ver? Somos todos pecadores, não há um que busque o bem (Rm 3:23), nossas boas obras são trapos de imundícia diante de Deus (Isaías 64:6), tudo isso é o que a Palavra de Deus diz sobre todos nós. O que precisamos entender é que até mesmo nós, que somos maus, sabemos dar boas coisas aos nossos filhos (Mt 7:11/Lc 11:13). É como se olhássemos para um Hitler, um Mussolini ou um Stalin, por exemplo, e aceitássemos o fato incômodo de que, certamente, eles foram “bons” com alguém da vida deles. Os piores psicopatas sabem também dar “boas coisas” a alguém. Como a própria Bíblia diz, atentemos, não há boas obras capazes de nos habilitar diante de Deus (Ef 2:8-9/Tt 3:3/Gl 2:16). Decorre disso, então, que não são os milagres que justificam os santos, por mais fascinantes que esses milagres se mostrem a nós. Portanto, cuidado.

Dando um segundo passo atrás, outro problema do vídeo é acreditar em “virtudes”, como se essas não fossem produtos de um coração pecador. Não há “virtudes” diante de Deus, vimos isso no parágrafo anterior. Mesmo nossas “melhores virtudes” diante dos homens são impregnadas do mais vil pecado de nossa natureza humana totalmente depravada. A “liberdade”, a “equidade” e a “justiça” não são pessoas com quem eu possa desfrutar um café da manhã em casa ou me confraternizar no fim de tarde no trabalho. Virtudes e valores não são autoexistentes, independentes de nós. A “liberdade” só pode ser verificada na vida de pessoas concretas. Semelhantemente, amor, alegria, paz, paciência, amabilidade (ou benignidade), bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio não são entes verificáveis fora de nós. Em outras palavras, virtudes e valores são abstrações que se manifestam concretamente a partir de pessoas pecadoras. Logo, as “virtudes” não são neutras e nem puras. Por isso, não importa o lado em que elas apareçam no espectro político, pois não é a direita ou a esquerda que as justifica. Eu posso usar a liberdade para fazer o mal. Eu posso usar o vício para fazer o bem. Só Deus conhece o que vai no coração, por isso é preciso suspeita bíblica diante de um mundo que jaz no maligno, embora governado por Deus.

Dando um terceiro passo atrás, é bom afirmar que todo valor ou virtude pode ser absolutizado por alguém ou, pelo menos, será destacado em detrimento de algum outro valor em algum momento, cedo ou tarde. Porém, como discernir, nesses momentos, o certo e o errado? Quando é que a liberdade deixa de ser algo melhor do que a equidade (ou vice-versa)? Se o indivíduo não puder tomar essa decisão, certamente, o grupo tomará por ele. O grupo pode ser qualquer ajuntamento: o partido político, a igreja, o condomínio etc. Quando o grupo passa a decidir sobre quando é que a liberdade se torna opressora e a equidade virtuosa, então, mais uma vez, estamos em xeque, porque se a Bíblia diz que o coração de um único homem é perverso, o ajuntamento de muitos corações só pode gerar mais perversidade ainda. Para resolver isso e conter a rebelião de algum indivíduo, grupos precisam de uma autoridade maior que os legitime. Aqui, para nós cristãos, só duas autoridades são possíveis: a Bíblia e o Estado. Este, contudo, limitado e fiscalizado por aquela. Do contrário, o Estado se torna a personificação da rebelião contra tudo aquilo que se chama Deus e, como sabemos, passa a controlar indivíduos por meio de grupos - até mesmo por meio da própria igreja - usando o poder desse Leviatã encarnado. Por tudo isso, não apenas o vídeo é ingênuo para com o que ocorre na vida real, mas também desconsidera o pecado de indivíduos e de indivíduos ajuntados, pois é isso o que um grupo é: um bando de gente controlada por alguns indivíduos ou por um indivíduo que pode vir a dominá-los.

Ainda sobre o vídeo, e também dando um último passo atrás, Jesus estaria mesmo acima de tudo isso? O vídeo diz que Jesus não está em lugar algum do gráfico, mas acima (fora) julgando o gráfico. Duas coisas: Jesus tem que estar no gráfico por meio da Sua igreja e também agindo por meio da Providência divina. Esta pode ser discernida quando olhamos o passado e aquela, em sua atuação de ser sal e luz agora. Jesus julga o gráfico, verdade, mas não com os critérios daquelas palavras apresentadas no gráfico, porque o conteúdo bíblico delas é outro. Jesus julga acima, mas julga por dentro também, julga por meio de sua igreja, que está inserida no gráfico e proclamando o Evangelho, e também julga quando cada cristão está evangelizando e mostrando que liberdade, equidade e justiça bíblicos são categorias bíblicas e não mundanas. Como categorias reveladas pela Bíblia, são conceitos fundamentados na Palavra de Deus e não na sociedade ou na cultura. As categorias revelam gêneros supremos, modos de ser pelos quais devemos nos organizar, classificar e compreender toda a realidade e nossa experiência. Portanto, a liberdade bíblica não corresponde à liberdade pregada pelo mundo. A equidade bíblica não é fruto de uma inveja doentia como o que, de fato, subjaz a toda defesa de uma agenda político-ideológica que vemos aí mundo afora. A justiça bíblica não é a justiça social.

Como, pois, Jesus já julga o mundo por meio de sua Igreja proclamadora e missionária? Ele  o julga (Jo 3:18-19/Jo 12:31/ Jo 12:47-48), mas ainda não, uma vez que haverá um julgamento definitivo e final no dia da volta do Rei. O mundo já está julgado, quando ele é um sistema que se rebela à pregação do Evangelho feita pela Igreja. Esse Evangelho pregado pela Igreja é supracultural, verdade. Está acima de toda proposta humana de tornar a Cidade dos homens numa Cidade de Deus, mas sem Deus. O Evangelho é transcultural, porque ele é a resposta ao pecado que atravessou e condenou à ira de Deus todos os corações em todos os povos, línguas e culturas. O Evangelho é contracultural, porque é na pregação da Igreja que teremos o confronto que poderá levar os corações ao arrependimento ou, segundo a vontade de Deus, entregá-los de uma vez à condenação em que se encontram. O Evangelho é intercultural, porque, uma vez perdoados em Cristo, podemos nos colocar diante de Deus e diante do próximo para exercermos as virtudes do Espírito Santo em nós. Estou me referindo agora àquelas virtudes mencionadas há uns três ou quatro parágrafos atrás e que só poderão ser concretizadas na Igreja e por meio da Igreja, porque elas são fruto do Espírito Santo (Gl 5:22-23)! Por isso, as virtudes humanas, ainda que urgentes e necessárias no convívio social, só serão levadas em conta por Deus, quando, por causa de Cristo, elas forem finalmente levadas pelo Espírito Santo à glória de Deus. Biblicamente, isso só é possível mediante à regeneração Soberana operada de modo monergístico pelo próprio Deus. Sim, Jesus julga o mundo, mas o faz pela Igreja que proclama a todas as nações que o Reino chegou e que esse Reino tem Rei e Ele voltará! Quem crer nessa mensagem e se arrepender de seus pecados será salvo, senão já está julgado.

Definitivamente, o Estado não pode se tornar uma só carne com a Igreja. E a história é repleta de exemplos de como esse adultério entre a Igreja e o Estado causou mais danos do que bênçãos. A Igreja não é o Estado. As razões da Igreja são celestiais e eternas. As razões do Estado são terrenas e finitas. “Rainha Margot”, de Alexandre Dumas, exemplifica muito bem o dano causado ao testemunho do Evangelho quando a Igreja cede às razões do Estado. O romance de Dumas é uma história ficcional a partir de eventos e personagens históricos. O livro começa na trágica “noite de São Bartolomeu”, evento que se mostra arquitetado pela mãe do Rei da França, que não aceitará um protestante assentado no trono. Assim, após o casamento entre Henrique de Navarra, Rei protestante, e a jovem Margarida, católica, deflagra-se uma traição sem precedentes na história. O que deveria ser um marco para selar a paz e trazer concórdia às guerras sangrentas entre os dois grupos torna-se uma noite de emboscada contra os protestantes. Na França, os protestantes, chamados de huguenotes, foram assassinados por todo o país num número entre 5.000 e 30.000 mortos. Números que, dependendo das fontes, chega a ultrapassar os 100.000 mortos.

A trama de Dumas transcorre desde os momentos imediatamente anteriores à noite de São Bartolomeu, que foi a data de 24 de agosto de 1574, e segue pelos próximos dois anos seguintes. A mãe do Rei Carlos IX, Catarina de Médici, é mostrada como a grande personagem manipuladora dos eventos e, principalmente, como aquela que arquitetou o massacre. Nos anos seguintes, ela persevera de plano em plano para destruir seus inimigos, principalmente Henrique de Navarra. Dumas mostra como que, a despeito do contexto de “guerra religiosa cristã”, os personagens estão mergulhados em supertições e feitiçarias pagãs. Estamos no século da Reforma Protestante, mas também estamos no século de Nostradamus. A própria Catarina recorre ao boneco vodu e outras práticas mágicas para eliminar Henrique. O lado protestante não é melhor do que isso, infelizmente. Por exemplo, basta uma visão sobrenatural para que um dos personagens interprete que deve se converter ao catolicismo. Aliás, o próprio Henrique de Navarra, para garantir a paz para a França, “converte-se” ao catolicismo. Uma conversão, até hoje, vista como estratégica para trazer paz ao Reino da França. Uma decisão tomada mesmo após o massacre covarde de seus irmãos huguenotes (ou por causa do massacre?). Aqui, numa decisão como essa, vemos o quão pueril e sujeita aos caprichos do coração ou às razões do Estado pode estar a convicção religiosa.

A personagem principal, a Margarida - a Rainha Margot do título - funciona como aquela que segue descobrindo a trama de traição arquitetada por Catarina durante a história. Sua personagem também carrega o envolvimento amoroso com La Mole, um jovem protestante. Na vida real, Margarida ficou conhecida por ter tido inúmeros amantes, mas Dumas retrata esse caso amoroso como o romance trágico da Rainha. La Mole se torna o melhor amigo de Cocunás, que, durante a narrativa do livro, desenvolve seu amor também trágico por Henriette, a Duquesa de Nevers. A amizade entre Cocunás e La Mole é bem representativa do ideal de amizade cavaleiresca do romantismo. A fidelidade e o amor de Cocunás por La Mole pode soar hoje (e talvez tenha sido interpretado por muitos) como um sentimento homoafetivo. Entretanto, essa interpretação seria um desconhecimento desses ideais de amizade presentes nos romances de cavalaria, portanto, tal interpretação não procede.     

“Rainha Margot” é um livro fascinante e muito bem escrito. Duvido que hoje haja tramas tão ricas de personagens e desenvolvidas tão bem como li nesse livro. Contudo, a trama de conspiração, mentiras, traição e corrupção fez-me pensar na triste Cidade dos homens, sob quaisquer formas de governo que estejamos, e a ansiar a plenitude da Cidade de Deus. Um ponto final que gostaria de deixar para o futuro leitor de “Rainha Margot”: é na oposição às tramas de Catarina que vemos patentemente manifesta a Providência divina.  

                     Fábio Ribas 

PS - Uma última reflexão sobre como Jesus já está julgando o mundo. Toda vez que, aos domingos, eu me dirijo ao culto com meus irmãos, na Igreja Local, penso em outros tantos de milhares de irmãos que também saem de suas casas, porque acreditam no Deus de sua salvação. São milhares de cristãos, a cada domingo, proclamando em culto solene de adoração pública, a festa da ressurreição dAquele que nos salvou e santifica. Aqueles que não festejam, porque não acreditam, são como os egípcios atormentados pelas pragas. Já o povo de Deus, ao contrário, sai para festejar no deserto ao Deus da sua libertação. Assim, vejo o domingo, cada domingo, como o anúncio do Dia do Senhor, o Dia da Justiça do meu Deus! A justiça já veio, mas ainda não. Prepare-se!

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