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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

União com Cristo



    “Deus determinou nos chamar com santa [e eficaz] vocação conforme uma decisão que aconteceu “em Cristo Jesus” e “antes dos tempos eternos”. Essa decisão de Deus foi a de derramar graça sobre os seus eleitos. Note que só é possível compreender esse versículo (2 Timóteo 1:8–9) se entendermos que, na eternidade, muito antes de nossa existência ou mesmo de qualquer previsão de boas obras de nossa parte, Deus decidiu dar graça aos seus eleitos, concebendo-os já em relação ao Senhor Jesus Cristo". ​
       “No texto de Efésios (1:4–5 e 11), tanto a escolha que Deus fez de parte da humanidade para que fosse santa quanto à predestinação para pertencermos ao próprio Deus por adoção aconteceram “nele”, “por meio de Jesus Cristo” e “em Cristo”. Essa escolha aconteceu antes da fundação do mundo. Do ponto de vista lógico, portanto, fomos planejados por Deus em união com Cristo e, por isso mesmo, escolhidos e predestinados. Do ponto de vista da decisão de Deus, nossa união com Cristo aconteceu na eternidade. Deus nos considerou como alvos de sua graça porque nos viu na eternidade, no momento da sua escolha, unidos ao seu santo Filho. Campos (Héber Carlos de) fala sobre isso da seguinte forma: “Estar em Cristo é algo definido antes da fundação do mundo, no decreto de eleição. Antes de o universo ser chamado à existência, já estávamos em Cristo. Assim como Deus, o Pai, escolheu Cristo, na eternidade, para ser o Redentor dos filhos dos homens, assim também colocou esses homens nele, para que recebessem as bênçãos advindas daquilo que ele iria fazer por eles"”.

    A união com Cristo é a doutrina basilar da fé. Ela é a origem, o meio e o fim da nossa caminhada. Tudo o mais é enlaçado por esta doutrina. Somos unidos a Cristo pelo propósito do Pai, que assim o quis antes da fundação do mundo, e por meio do Espírito Santo recebemos TUDO o que precisamos para nossa salvação e santificação. Esta é a grandeza do que nos traz o autor de “União com Cristo”, o Rev João Paulo Thomaz de Aquino.

    Mas o que é a união com Cristo? Quais as implicações disso? Deus escolheu alguns para que fossem resgatados do estrago do pecado, que nos levou à condenação da separação. A união com Cristo é o que torna possível essa reaproximação. Com ela, recebemos tudo o que precisamos para crescermos em santidade e lutarmos contra o pecado. É uma união mística atestada pela Bíblia e tratada nas Confissões e Credos Reformados. Estamos unidos a Cristo e isso torna possível nossa união com a Igreja.

    Assim, na primeira parte de seu livro, o autor nos faz uma apresentação bíblico-teológica da “união com Cristo”, trabalhando e aprofundando as metáforas que a própria Palavra de Deus fornece sobre essa doutrina: o casamento, o templo, a família, a videira e os ramos, escravos, corpo, banquete etc. Vemos, assim, como a Bíblia é rica em detalhar a natureza mística de nossa união com Cristo e, com isso, o autor nos esclarece e define o que é essa união. Na verdade, ele marca com clareza uma diferença para que possamos compreender o tema biblicamente tratado: a união mística, que é a união do cristão com o Deus trino (o Pai, o Filho e o Espírito Santo), só é possível mediante a união do indivíduo com Cristo. Assim, é a União com Cristo - e somente ela - que torna possível nossa união mística com Deus! 

    Na segunda parte do livro, vemos uma apresentação mais teológico-sistemática, em que o autor nos fala das características dessa união e como que ela se opera (modus operandi), além de mostrar como a doutrina da união com Cristo conosco se relaciona com todas as demais doutrinas de nossa salvação e santificação. Nesta parte do livro, vemos, entre outros, os aspectos legal, espiritual, vital, orgânico, pessoal e missional da doutrina. Assim como no livro “Vivendo em União com Cristo”, de Grant Macaskill, Rev Thomaz de Aquino irá tratar da relação da doutrina com os sacramentos do batismo e da ceia, além de abordar muito equilibradamente o tema da imitação de Cristo. Portanto, esses dois autores dialogam para que possamos elaborar uma missiologia da habitação, relacional e mística. Ainda nesta parte, é assombroso quando somos lançados por Rev. João Paulo à verdade bíblica de que Deus jamais se relacionou com seu Povo à parte de Cristo. Para explicar melhor isso, o autor apresenta os conceitos da união objetiva, que é a perspectiva de Deus na eternidade, e a união subjetiva, que é a nossa perspectiva no tempo da história de nossa vida pessoal. Dito isso, desde a eternidade, Deus só viu os seus eleitos por meio de Jesus. Deus sempre nos viu unidos ao seu Filho. A vinda de Jesus foi, portanto, para resgatar os seus eleitos para uma união subjetiva, histórica e individual por meio da Fé.

    Na terceira parte de seu livro, o Rev Thomaz de Aquino demonstra como a doutrina da nossa união com Cristo está presente de forma central na teologia de João Calvino. Ainda neste ponto, teremos o confronto de Calvino e Osiandro explicado de modo muito claro ao leitor, para que possamos criticar os movimentos teológicos mais recentes como a Nova Perspectiva em Paulo e a Nova Escola Finlandesa de interpretação de Lutero. O autor termina com um último esclarecimento: seria a união mística com Cristo a mesma coisa que a teose da teologia ortodoxa oriental? E a resposta é NÃO! É uma doutrina que tem sido usada por muitas pessoas, mas que carrega nela mais confusão do que explicação. Que seremos "deificados" é fato bíblico, mas não no sentido de que teremos a mesma substância divina, mas a ação, a atitude divina! Autores como Michael J. Gorman, de Inhabiting the Cruciform God [Habitando o Deus cruciforme], tem feito a propagação de heresias, pois o conceito dele de "teose" é algo que redefine a Deus, aproximando sua teologia muito mais da "teologia do processo" e da "teologia da cabana". Quero deixar as palavras sempre equilibradas de João Calvino sobre o tema da teose e a avaliação de Billings trazida no livro do Rev João Paulo:

    Se o Senhor partilhará com os eleitos sua glória, seu poder, sua justiça, mais ainda, se dará a eles a si mesmo para ser por eles usufruído, e o que é mais excelente, com eles coexistirá, de certo modo, em um, lembremo-nos de que sob este benefício está contido todo gênero de felicidade. E, quando tivermos avançado bastante nesta meditação, no entanto reconheceremos que, se a concepção de nossa mente for comparada com a sublimidade deste mistério, ainda ficaremos nas raízes mais inferiores. Portanto, devemos, neste aspecto, curvar-nos com mais sobriedade, para que, esquecidos de nossa própria limitação, pelo que com mais audácia subamos ao alto, o fulgor da glória celestial não nos trague. Sentimos também quão desmesurado é nosso desejo de saber mais do que é lícito, do que jorram incessantemente questões não apenas vãs, mas até mesmo nocivas. Chamo vãs aquelas das quais não se pode tirar nenhum proveito. Mas este segundo tipo é pior, porque os que se entregam a elas se enredilham em especulações perniciosas, razão por que as chamo nocivas (João Calvino, Institutas, III. 25.10).

  Nesta outra citação existe uma diferença entre a tradução em português, a tradução em inglês e o original em latim. Abaixo vou colocar a tradução em português e, entre colchetes, outra tradução em português seguida da tradução em inglês e do original em latim. Fomos unidos [insiticii facti]. Esta palavra [unidos ou enxertados] recebe grande ênfase e revela nitidamente que o apóstolo não nos está exortando, e, sim, ensinando acerca do benefício que derivamos de Cristo. Ele não está requerendo de nós algum dever que nossa prudência ou diligência pode realizar, mas está falando do enxerto que é efetuado pela mão divina. Não há razão para forçosamente aplicar a metáfora ou comparação a cada detalhe, pois a disparidade entre o enxerto de árvores e o nosso enxerto espiritual prontamente se evidencia. No enxerto de árvores, a parte enxertada extrai sua nutrição das raízes, mas retém sua propriedade natural no fruto que serve de alimento. No enxerto espiritual, contudo, não só derivamos o vigor e a seiva da vida que fluem de Cristo, mas também transmitimos de nossa própria natureza para a sua [mas também passamos da nossa própria natureza para a dele; but we also pass from our own nature into his; sed ineius naturam ex nostra demigramus].
  Depois de apresentar essas e outras citações, Billings chega à seguinte conclusão sobre a doutrina da teose em João Calvino: Eu defendo que Calvino ensina deificação de um tipo particular. Usando a linguagem de participação, enxerto e adoção em passagens selecionadas em Paulo e em João, Calvino ensina a participação da humanidade no Deus triúno, afirmando a união diferenciada da humanidade com Deus na criação e na redenção.

       Enfim, o livro do Rev João Paulo Thomaz de Aquino é uma obra de fôlego e que precisa ser lida e relida, estudada e aprofundada sempre. Um livro maravilhoso! Destaco ainda os temas da "individualidade em Cristo"; o tema dos dois representantes "o primeiro Adão e o segundo Adão"; e, finalmente, a explicação dada por ele de que, por causa da nossa União com Cristo, estávamos lá, nEle, realizando todas as coisas necessárias para nossa salvação, por isso a Bíblia pode afirmar que, se estamos em Cristo, não só com Ele morremos na Cruz, mas, com Ele, ressuscitamos! Glórias a Deus!!! Aleluias!!!


                      Fábio Ribas

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Vivendo em união com Cristo (XXV/2024)


“O que Jesus faria?” ou “Como posso habitar na bondade de Jesus nesta (ou naquela) situação específica?”. Nossa identidade moral cristã tem resultados diretos em nossa ética e, por isso mesmo, Grant Macaskill se dispõe a esclarecer ao leitor as consequências nefastas de uma teologia trinitariana em decadência nos dias atuais. Precisamos de muito mais do que as narrativas dos Evangelhos, assim como nossa ética deve superar e muito a mera imitação de Cristo. 

Um livro que já me prendeu no prefácio:

“Estamos tão comprometidos com o pecado que sempre usaremos os dons de Deus para fins idólatras, e permaneceremos cegos para o fato de que estamos fazendo isso, como o próprio Paulo estava antes de seu encontro transformador com o Cristo ressurreto. As pessoas agirão, pensarão, ensinarão e liderarão de maneiras que sirvam a essa idolatria constitucional e o farão sem qualquer autoconsciência”, p.9

Antes da leitura prazerosa e instigante deste livro, nunca havia pensado no legalismo não somente como apresentação dos meus méritos diante de Deus, mas, como Macaskill apresenta, um sistema que coloca-me num patamar superior espiritual em relação ao meu irmão. Embora a gente veja esse tipo de atitude sempre, nunca pensei em ver essa prepotência e arrogância como fruto do nosso legalismo. Muito bom! E a tese do livro já é apresentada sem rodeios:

“A principal afirmação deste livro é que toda conversa sobre a vida moral cristã deve começar e terminar com a declaração de Paulo “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20), e deve compreender corretamente a obra do Espírito Santo em relação à presença de Cristo”, p. 21.
“…a teoria da virtude está preocupada em como podemos nos tornar melhores versões de nós mesmos ao ordenar nossos apetites e instintos, mas Paulo está preocupado em como nos tornamos outra pessoa”, p 57.

O primeiro capítulo é sensacional. Lavou-me a alma, como dizem por aí. É uma crítica às modernas visões sobre Lutero e Paulo. E o maior problema que eu vejo é que essas “novas perspectivas” caem dentro das igrejas locais sem nenhum filtro ou contexto. Erros complicadíssimos saídos de debates acadêmicos muito recentes e que vêm às mãos de leigos que recebem tudo isso, por meio de seus pastores, os quais deveriam zelar pela qualidade do que é oferecido às ovelhas, deixam que elas comam ervas daninhas tóxicas misturadas à pureza do evangelho. E o pior é que isso — essa esquizofrenia teológica moderna de cunho social — é oferecida ao campo missionário também. Não há preparo, não há filtro, não há guia e nem limite, tudo isso é oferecido em cursos de formação missionárias — e nas livrarias de igrejas locais também — como se fosse material devocional! 

NT Wright e tutti quanti são autores modernos que precisam ser questionados urgentemente! Espero que saiamos dessa perniciosa, terrível, moderna e medievalista “ética da virtude” para o puro e simples evangelho da santidade EM Cristo. Este primeiro capítulo é um primor de qualidade! Ao contrário do medievalismo virtuoso da imitação de Cristo (que gerou, até mesmo, aquela versão do “O que faria Jesus?”), a grande defesa aqui é que fomos chamados para a habitação e não para a mera imitação!

“Eu costumava desejar que as pessoas e Deus olhassem para mim, com toda a minha particularidade física, e vissem o quanto eu possuía coisas que declaravam minha posição no Reino de Deus; agora quero que olhem para mim e vejam que meu ser particular está no ser de Cristo, que o que tenho é, na verdade, o que ele tem”, p. 87.

No segundo capítulo, fundamentalmente, precisamos compreender que a vida cristã não é um programa ou discipulado para nos tornarmos uma versão melhor de nós mesmos, mas, antes de tudo, vivermos em acordo com nossa identidade em Cristo. Falamos muito em morrer, a morte do “eu”, mas essa perspectiva é limitada à parte de uma ação que deveria ser melhor compreendida. A morte do “eu” só é assim, porque nos unimos a Cristo, então, não é algo que eu faço, mas é o que Cristo fez em/por mim: habitou-me! A troca de uma espiritualidade de ênfase na imitação por uma de habitação está no centro dessa correção de uma caminhada equivocada. Assim, toda discussão é sobre a minha identidade: eu não sou o que faço (nem mesmo o que faço em Cristo ou por Ele), eu sou o que Cristo fez em/por mim: habitou-me!

“…quando falhamos, nossas falhas envolvem a verdadeira atrocidade de viver contra aquele que vive em nós. São piores porque envolvem uma espécie de negação de quem realmente somos”, p. 126.

No terceiro capítulo, a partir do sacramento do batismo, ele reforçará esta ideia, lembrando que ser batizado em Cristo é revestir-se de uma nova identidade: eu-em-Cristo. O batismo nos coloca em Cristo, Cristo nos coloca em Deus e nos coloca também em uma comunidade que tem só a Jesus como Senhor, assim, precisamos dialogar com amor. Não podemos usar a lei e a doutrina como algo que coloca para fora ou identifica quem está dentro. No batismo, estamos todos dentro e sob essa perspectiva precisamos dialogar sobre nossas diferenças.

“Como o batismo, a Ceia do Senhor realiza dramaticamente o passado de Jesus de uma forma que nos direciona para o seu futuro e afirma que esse futuro também será nosso. A Ceia do Senhor nos lembra, cada vez que participamos dela, que nossa condição moral atual não é nosso estado final. Mais importante, nos lembra que o estado final não será alcançado por meio de um processo gradual de crescimento moral, mas envolverá um outro evento disjuntivo que mudará tudo decisivamente. Ele virá e nós seremos transformados”, p.163.

O quarto capítulo foi profundamente impactante. Fez-me lembrar Paul Ricoeur. O tema da memória é algo fascinante para mim. Mas aqui é trabalhado de maneira magistral, ligando o tema da memória não apenas ao batismo, mas à Ceia do Senhor como uma memória introduzida, não pessoal. A Ceia é uma recordação de algo que não vivi, mas, por ser memória enxertada de terceiros, ela dramatiza e me define a identidade em Cristo. Esta é a MINHA história. Contudo, há duas discussões aqui assombrosas. A primeira é a analogia com o filme Blade Runner, que leva o autor a desenvolver essa perspectiva da “memória enxertada”. O que define a nossa identidade são nossas memórias. No caso, é a memória enxertada pela Bíblia em nós pela santificação do ES! Agora, aquela ideia da “memória coletiva”, social, tudo aquilo foi demais. Se somos o que é definido por nossas memórias, perdemos, então, nossa identidade quando, por exemplo, sofremos do mal de Alzheimer? Ainda que eu esqueça quem sou, o meu irmão e a igreja sabem que sou em Cristo Jesus. Minha memória está preservada na família da Igreja!

“Quem me livrará do corpo desta morte?”. Quando respondemos a essa pergunta corretamente, no meando Jesus Cristo, há esperança e alegria. Fazemos eco da declaração de Paulo “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 7.25). Encontramos alívio e descanso no conhecimento de que “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (8.1). Ainda estamos nas ruínas da guerra, e quando nos dirigimos a Deus, nosso Pai, muitas vezes não é com um grito triunfante, mas com um grito de dor de “Aba, Pai”. Mas a guerra está vencida e os sinais dessa vitória se manifestarão em nós com uma beleza e realidade que não podem ser questionadas por nossos fracassos”, p. 188.

O quinto capítulo é um chamado para assumirmos o que somos pela santidade de uma caminhada do Espírito Santo junto conosco! As coisas ficaram definitivamente claras para mim! Nossa identidade com Cristo, nossa luta por mortificação, nosso avançar nEle e a apropriação de nossa adoção, tudo isso tem como chave a Pessoa de Jesus Cristo: Ele é a resposta! É o que Ele fez e o que Ele faz. E jamais sobre o que eu faço ou posso fazer! Que capítulo!

“Na oração, orientamo-nos para aquele cuja identidade esperamos habitar. Mais importante, na oração a dupla subjetividade de nossa nova identidade é corporificada: nós somos aqueles que oram, os sujeitos ativos dos verbos da oração, mas nossas orações são cotestemunhos com o Espírito ou intercessões dele”, p. 203.
“…nossas realidades e as de Cristo não são separadas uma da outra, mas estão ligadas. Nossos sofrimentos são uma participação em seu passado; nossa esperança é uma participação em seu futuro”, p. 203.

O sexto capítulo. O ES está conosco, por causa de nossa união com Cristo. Por causa daquele evento no passado, temos vitória na vitória dEle. Mas temos esperança na habitação do ES em nós. Nossa esperança é que aquela vitória na cruz e na ressurreição tem efeitos hj e no futuro: nada poderá nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus! Isto é confirmado no ES em nós que está junto conosco! Cada vitória de nosso crescimento espiritual é uma vitória nossa junto com o ES. E as derrotas não podem desfazer aquilo que já nos foi conquistado na cruz e na ressurreição. Cresçamos, portanto!

Na conclusão, o autor busca reenquadrar a virtude e a disciplina, mas não como fins em si mesmas, mas como instrumentos na relação pessoal com Jesus. Legalismo e justiça própria são sempre os perigos numa ênfase equivocada da teoria da virtude e da disciplina. Não há mérito em mim nem para a minha salvação e nem para a minha santificação. Na salvação, o ES me regenera, arrancando-me o coração de pedra e me dando um coração de carne. Este, então, é capaz de se voltar ao Senhor! Na santificação, não posso usar da lei para capital religioso e social, deixando as pessoas concluírem que as vitórias na minha caminhada são mérito pessoal, pois não são! É Cristo-em-mim que ordena o meu novo “eu” e, por meio do Espírito Santo, juntamente comigo, leva-me à santidade, mas uma santidade que brota da relação com a Trindade. E como posso crescer em santidade? Fazendo as mesmas coisas que os cristãos fizeram nos últimos dois mil anos — ler e estudar a Palavra, ouvir boas exposições da Palavra, orar, participar dos batismos e ceias, congregar com meus irmãos — e, tudo isso, sendo eu-em-Cristo e Cristo-em-mim! O ES é quem anda, caminha e ora junto comigo (cosubjetividade), o mérito, portanto, não é meu. Sou salvo pois Cristo habita em mim. Sou santificado pois eu habito no Espírito Santo. 

        Fábio Ribas

sábado, 11 de maio de 2024

União com Cristo e identidade sexual (XVII/2024)


“Cristo redime. Até mesmo nossas lutas, nossos fracassos e nosso sofrimento são redentores em Cristo. Mas há sangue envolvido. A redenção exige um cortar e lançar fora” (p.19).

Livro apaixonante! Rosaria nos dá novamente seu testemunho de conversão, mas resumidamente. O ponto alto, contudo, é que ela já é cristã de longa caminhada neste segundo livro. Ela agora pode tratar do cristianismo de maneira mais madura. Este livro é muito melhor que o primeiro na minha opinião. Além de ter uma teologia calvinista e saudável, Rosaria usa do seu conhecimento como professora de literatura, para nos falar dos erros de uma hermenêutica pós-moderna sobre a Bíblia. O próprio subtítulo — “Pensamentos adicionais de uma convertida improvável” — já nos indica uma continuação do seu primeiro livro (aqui). Ela fala de salvação e santificação, lembrando-nos que, em Cristo, estamos equipados para lutarmos contra nossos pecados e não cedermos aos nossos desejos caídos.

A tese central é que nossa identidade não está no que fazemos ou no que deixamos de fazer e nem na nossa orientação sexual, mas na nossa união com Cristo e no que Ele já fez e ainda está fazendo por mim. Antes de ser heterossexual, homossexual, ou quaisquer outras coisas que a chamada “orientação sexual” queira definir sobre nós, a verdade é que fomos criados por Deus e Ele nos fez da maneira certa. Assim, precisamos buscar nEle nossa identidade e não numa construção social, na psicologia ou na cultura. Não são os meus desejos ou pecados que devem definir minha identidade, mas Deus é quem sabe quem eu sou. E o que eu sou está definido pelo que Cristo fez por mim e ainda está realizando no meu coração!

“Quer a dor que você enfrenta agora seja a consequência do seu pecado, quer seja do pecado de outros, na providência de Deus e na fé salvadora, Romanos 8.28 ainda reina: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. Não é a ausência de pecado que o torna um cristão. É a presença de Cristo em meio à sua luta que enaltece o cristão e o diferencia no mundo. A conversão real dá-lhe a companhia de Cristo enquanto você caminha pelo vale da sombra da morte. Na verdade, a queda fez tudo cair — incluindo meus desejos mais profundos. E isso aconteceu sob o olhar providencial de Deus, não por suas costas” (p. 21).

Somos chamados a lutar contra o pecado. O pecado que habita em nós, ainda que novas criaturas. Na leitura deste livro, descobri Thomas Watson. Quero ler mais este autor.

Rosaria falará também desta expressão “orientação sexual”. Ela demonstra que o mito da orientação sexual tende a nos fazer reduzidos ao aspecto sexual, aceitando o que Freud disse que, então, o sexo é o impulso que nos definiria. A partir dessa ideia, a autora mostra que termos aceito o termo “homossexualismo” reduziu a discussão exatamente a isto: que nossa identidade se circunscreve à nossa orientação sexual. Afinal, como cristãos, devemos dividir o mundo sexualmente? Nossa identidade não está nem mesmo na nossa heterossexualidade, uma vez que ela também foi atingida pelo pecado. Nossa identidade reside no fato de termos sido criados à imagem de Deus, mas só podemos restaurar plenamente essa identidade em união com Cristo.

Rosaria enfrentará a contradição da expressão “cristão gay”. Ela tentará achar uma resposta para o que quer dizer ser gay. Nesse mesmo capítulo, há uma discussão sensacional sobre comunicação e o poder que as palavras têm tanto para unir como para dividir. A partir de um diálogo com uma amiga, a autora enfrentará o fato do problema da “cura gay” e que, sendo a santificação um dom de Deus, ela pode não ocorrer na velocidade que gostaríamos. Devemos compreender que, ainda que sejamos cristãos redimidos, estamos em santificação, e portanto e por isso mesmo, devemos lutar perseverantemente contra desejos sexuais indevidos.

A autora irá nos desafiar a vivermos em comunidade: em casa, na vizinhança e na Igreja, que é a comunidade pactual. Hospitalidade, na raiz da palavra que a originou em grego, tem a ver com “amor ao estranho”. É um enorme desafio para estes tempos atuais em que idolatramos a privacidade e tememos os estranhos (que podem ser psicopatas e, talvez, só chatos mesmo).

Seria muito, mas muito difícil resumir a envergadura teológica apresentada neste livro profundo, sincero e bíblico. É preciso lê-lo! Leia agora!

            Fábio Ribas


PS — Uma das questões mais intrigantes durante a leitura de um livro tão acertadamente teológico é um deslize profundo da autora, que só piora quando penso ser este um livro que fala sobre “identidade”. Foi um erro logo sobre a identidade de Cristo. Deixei para falar isso num “postscriptum”, pois o livro é sólido e puritano no melhor sentido e tradição da palavra, mas, na página 116, ela comete um sério erro teológico ao afirmar que “a Igreja Primitiva confirmou que Jesus tinha uma natureza, mas duas vontades”. Procurei e descobri que ela escreveu isso mesmo (está no original em inglês), então, não é um erro de tradução. O livro passou na mão de tanta gente boa, tanto lá nos Estados Unidos como aqui no Brasil, e ninguém fez nenhuma consideração ou uma nota de rodapé corrigindo isso. Veja, tenho para comigo que precisamos todos estar atentos não apenas ao nosso pecado, mas também ao mundo espiritual, pois não deixa de ser uma ironia que um livro que busca resgatar nossa identidade em Cristo cometa um erro tão grave acerca da identidade do próprio Jesus.

Foi um deslize, sem dúvida, uma vez que, mais adiante, ela se refere às duas naturezas de Cristo. Contudo, espero que seja corrigido em próximas edições.

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  Desde a morte de mamãe, no dia 08 de março de 2024, sonhei apenas algumas vezes com ela. Poucas vezes, muito poucas vezes, mas sei todos o...