Desde a morte de mamãe, no dia 08 de março de 2024, sonhei apenas algumas vezes com ela. Poucas vezes, muito poucas vezes, mas sei todos os sonhos que tive com ela até agora.
Desde o falecimento de mamãe, tenho me visto mais tolerante e compreensivo. Não que eu já não tivesse perdido alguém querido ou próximo antes. Perdi primeiro meu pai. Minha mãe contava que, durante semanas, depois da morte dele, eu entrava no quarto, abria o armário e ficava passando as camisas dele no meu rosto infantil. Ele faleceu uns cinco dias antes do meu aniversário de 9 anos. Depois de velho, já casado e com minhas filhas, perdi minha irmã mais velha. Ela faleceu numa noite de natal, um mês antes de nossa saída para o campo missionário. Foi muito difícil, mas, com as mãos postas no arado, deixei para trás, num luto recente, minha outra irmã e minha mãe.
Por que eu tenho me visto mais tolerante e compreensivo com outras pessoas ao meu redor? Sonhei algumas vezes com meu pai, minha irmã e minha mãe. Algumas vezes. Poucas vezes, mas sei cada sonho que tive com os três. Desde o falecimento de mamãe, contudo, eu me vi algumas vezes, não poucas, iniciando uma conversa com ela. Embora isso nunca tenha ocorrido em relação ao meu pai e minha irmã mais velha, com relação à minha mãe, sim. Esses “diálogos” quase sempre partiram de duas situações. A primeira, quando cenas com ela me chegam do passado à memória e eu reajo sorrindo e me vejo dizendo coisas sobre aquelas cenas para minha mãe. A segunda, quando cenas do presente, principalmente cenas que ocorrem com minhas filhas e, então, eu me vejo falando com ela, como que compartilhando daquelas emoções com minha mãe.
Como disse, desde o falecimento de mamãe, tenho me tornado mais tolerante e compreensivo. Nesses momentos em que ensaio palavras para compartilhar com ela, posso me ver no lugar de tantas e tantas outras pessoas que vivem ou já viveram essa mesma situação. A pessoa querida, tão querida, já não está mais ali, contudo, nosso coração esquece que aquele membro - braço ou perna - foram amputados, já não estão mais ligados ao nosso corpo, mas os sentimos como se ali ainda estivessem, mesmo que não os vejamos mais. Não é isso que dizem que ocorre com aqueles que perdem alguma parte de seu corpo?
A memória é um dos temas que mais me assombra. O Deus que nunca esquece, o Deus onisciente, promete lançar nossos pecados nas profundezas do mar (Miquéias 7:19). Eu lembro de fatos, acontecimentos, episódios que as demais pessoas juram que nunca ocorreram, mas eu não esqueço. Eu não esqueço e isso me assusta. Eu lembro de discursos inteiros de outras pessoas. “Mas ficou gravado o que ele disse?”, perguntavam-me, incrédulos. Entretanto, hoje em dia, tudo está gravado nas mídias sociais. De uns tempos para cá, cada vez menos as pessoas podem alegar que não viveram ou que não disseram determinada coisa. Contra a falta de memória de alguns, há os celulares em punho de quase todos. Embora caminhemos, cada vez mais, para uma vida pública e privada registrada por câmeras, a maior parte da minha vida está registrada apenas na minha mente e, eu sei, na mente de Deus também. Por isso, a memória me assombra tanto, pois é um ponto de contato com Deus, pois, quando recordo, sei que estou lembrando de imagens, pessoas, vivências das quais Deus jamais esquecerá, ainda que muitos esqueçam e, até mesmo, que eu acabe por esquecer um dia. Porém, em Cristo, todos os meus pecados pregressos foram lançados nas profundezas do mar sem fim e, de lá, Deus nunca jamais os retornará.
A memória coloca-me em contato direto com o que Deus já pensou primeiro, antes de mim. Quando vejo-me assaltado por essas lembranças de mamãe, sei que elas me colocam em contato também com tantas outras pessoas que perderam entes queridos. Um dia desses, eu estava pedalando no Parque da Cidade e uma lembrança tão vívida e repentina veio, que algo físico mesmo aconteceu comigo e tive que freiar no mesmo instante e, então, peguei-me dizendo para mamãe: “Não é mesmo, mãe?”. Mas ela, mais uma vez, não estava ali. Quantos, contudo, não pensam que seus entes queridos estão, na verdade e de verdade, ali? Não é essa crença que subjaz a tantas e tantas espiritualidades e religiões mundo afora? Natural é sabermos que a pessoa está ali e que ela nunca foi embora. O que não é natural é a morte, essa amputação do ciclo da vida, o encerramento do calor do corpo do outro. E desses anseios, angustias e receios nascem as religiões, filosofias e espiritualidades mil.
O que é universal? É o desejo que as coisas boas permaneçam como sempre foram ou que, de alguma maneira, possam ser restauradas. Nos filmes, quantas vezes vemos os personagens visitando os túmulos em cemitérios e conversando com “quem está ali”? Precisamos conversar, isto é universal. “Estar só” é bom apenas se for fruto de uma escolha e não de uma coação ou condenação e, mesmo assim, por pouco tempo. Como eu sei disso? A Bíblia me diz. Aliás, a despeito de meus anseios, angústias e receios, a Bíblia veio para “colocar ordem na casa”. Nessa miríade de crenças e opiniões humanas mundo afora, é preciso verdade e, se eu não tenho a verdade, o que eu tenho? Mentiras, falsidades, ilusões e o perigo de estar trilhando uma selva escura numa noite sombria sem lanterna, mapa e guia. Crenças e opiniões confortam por certo tempo. Entretanto, verdade é uma certeza que muda nossos pensamentos, vontades e emoções. A própria Bíblia diz de si mesma que ela é a verdade, a verdadeira Palavra de Deus num mundo de tantas e tantas vozes estranhas e de inúmeros testemunhos falsos, enganosos e autoenganados (Jo 10.35; II Tm 3.16; II Pe 1. 20, 21).
Se eu e você não buscarmos conhecimento na Bíblia, vamos buscar onde? Nas verdades mutáveis de homens frágeis e pecadores e em suas iluminações contraditórias e efêmeras? Que é o homem para que se acredite nele? Ao contrário, a Bíblia vem resistindo a ataques, acusações, julgamentos, crenças, opiniões e continua sendo o documento mais bem registrado da história humana. Todos os críticos da Bíblia morreram, mas Jesus vive e nos confirmou a autoridade da Bíblia como fonte de conhecimento inerrante e infalível contra as tradições fúteis dos homens. Diante disso, verdade tem a ver com conhecimento e a fonte de conhecimento para lidarmos com nossos mortos está na Palavra de Deus. A Bíblia proíbe a comunicação com os mortos (Lv 19.31; Dt 18. 10-12; Is 8.19; Lc 16. 19-31).
A verdade é imutável e Deus, para nos proteger de charlatães, espíritos enganadores e de nós mesmos, continua a nos proibir de conversarmos com os mortos. Deus nos chama para conversarmos com seu Filho Jesus - e somente com Ele! Ele, por meio da intercessão do Espírito Santo, leva nossas orações até ao trono do Pai! Minha mãe morreu em Cristo e, por isso mesmo, um dia, eu e ela estaremos conversando face a face com Jesus. Naquele Dia maravilhoso, todos os que morreram no Senhor, conversaremos aos pés do Cristo eternamente.
A você que perdeu um ente querido, leia a Bíblia e converse com o Senhor Jesus sobre isso. Leia o Evangelho segundo João, capítulo 11: 1-46. Ouça a voz de Deus, na Palavra, conversando com você.
Fábio Ribas