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sábado, 2 de dezembro de 2023

Autoestima (XIII/2023)

 

    "Autoestima", de Jay Adams, lançado pela editora Nutra, é um livro sensacional e de leitura obrigatória. Todavia, é um livro escrito há 30 anos. E daí? Daí que você o lerá perguntando-se o que é que aconteceu que ninguém leu este livro?!

    Infelizmente, o alerta dado por Jay Adams não deve ter sido bem recebido e nem impediu que a heresia da filosofia da autoestima entrasse e fincasse suas raízes nas nossas igrejas. A leitura desse livro ajudou-me a identificar ainda mais a união entre a TMI (Teologia da Missão Integral) e a chamada TL (Teologia da Prosperidade). Há alguns anos, escrevi 3 artigos dizendo que essas duas "teologias" são irmãs siamesas, cuja diferença é que uma se coloca do lado direito do espectro político e a outra do lado esquerdo. Após a leitura de "Autoestima", consigo identificar ainda melhor a raiz comum e pagã entre a TMI e a TL, que buscam nutrir tanto o evangelho da justiça social como o evangelho da prosperidade econômica. Qual a raiz, então de ambas? A busca em querer atender ao que o homem entende ser a necessidade humana, ao invés de apresentar o que, biblicamente, o homem, de fato, necessita. Veja que ambas teologias querem saciar as necessidades humanas, que elas julgam ser relevantes.

    Jay Adams mostra que a filosofia da autoestima é pagã e, por isso mesmo, jamais poderia ser encontrada na igreja. Ou se escolhe o evangelho puro e simples ou se escolhe um outro evangelho. Essa hipervalorização do ser humano é resultado do casamento entre uma antropologia anticristã com uma interpretação errada de vários textos bíblicos. O mais surpreendente é ver citações absurdas vindas até mesmo da caneta de teólogos de envergadura como Hoekema e Packer e que, com seus escritos, acabaram corroborando para o erro da filosofia da autoestima!

    Pelo livro ter sido escrito há mais de 30 anos, assim que avançamos suas páginas, ficamos com aquela sensação de tristeza por vermos que somos hoje exatamente o que o autor nos alertou que seríamos, caso deixássemos que essa cosmovisão egoísta, fútil e centrada no fosso sem fim do nosso coração entrasse em nossas igrejas: músicas antropocêntricas, pregações afáveis e superficiais e uma educação cristã que sucumbiu ao respeito excessivo e idolátrico ao outro.

    Imagine ler um livro escrito há mais de 30 anos e que, à época, chamava a atenção para o desastre que uma ideia teria e ver que, realmente, essa ideia se alastrou e hoje somos fruto desse tragédia? O que eu e você precisamos é de Jesus e não de autoestima. As pessoas não têm problema de autoestima. O que elas têm é excesso de autoestima! O livro fala que, há menos de 30 anos antes de sua primeira publicação nos Estados Unidos, ainda era possível encontrar livros que ajudavam as pessoas a se libertarem de seu amor próprio e, assim, viverem mais dedicados ao benefício do próximo. Hoje em dia, o que ocorre é exatamente o oposto! O problema é que já vivemos numa sociedade fruto dessa mudança de perspectiva: hoje, todo mundo é sensível demais, tudo ofende, tudo desrespeita; qualquer palavra num tom mais alto já magoa. Se as coisas já se encontram dessa maneira, imagine dizer às pessoas a verdade bíblica de que elas são pecadoras miseráveis e do que, tão somente, elas carecem é de Deus? Exatamente por essa realidade é que não vejo nem um pouco com bons olhos a sanha de alguns pastores e teólogos na busca por "relevância" bíblica. Lembro do pastor Caio Fábio que em todo culto gostava de cantar aquela música "quero que valorize o que você tem, você é um ser, você é alguém…". Ele dizia até que ninguém sabia quem era o autor da música e, por isso, deveria ter sido um anjo que trouxe essa música para a Igreja.

    A questão é que a psicologia da autoestima e da autorrealização é a avó da atual teologia coach e da música gospel de autorreferência antropocêntrica ("do coração de Jesus você é o centro"). A base dessa heresia é que suas necessidades precisam ser atendidas para que, então, você atenda a Deus. Um escândalo de inversão da mensagem bíblica. O cristianismo prega que você deve colocar suas necessidades de lado para servir a Deus! A Palavra de Deus é a nossa necessidade real e fundamental. O resto é subproduto acrescentado (Mateus 6.33).

    A chave para uma melhor compreensão acerca da cilada da autoestima é discernir entre necessidade e desejo. Biblicamente, são muito poucas as nossas necessidades e a fundamental delas é Deus. Entretanto, o que temos chamado de "necessidade", na verdade, são desejos e nossos desejos podem ser, sim, pecaminosos. A filosofia da autoestima revela-se pagã, quando não confronta os nossos desejos, mas, antes, os serve, colocando-os na mesa da adoração.

    Todavia, há um capítulo do livro que me incomodou, pois, no meu entendimento, ele comete o mesmo erro que tenho visto em tantos púlpitos e em aulas de conselheiros bíblicos mundo afora. E eu vou explicar aqui qual é esse equívoco.

    No capítulo 6, "Amar… como a si mesmo?", Jay Adams incorre na incoerência de explicar o texto bíblico usando a palavra "amor" na mesma categoria que o mundo a usa. Mas ele não está sozinho. Já ouvi muitos pregadores e teólogos insistirem nesse discurso, mas queria sugerir uma outra leitura. Então, deixe-me explicar o meu ponto de vista e o erro do autor de "Autoestima" (lembrando que ele não está sozinho nesse seu equívoco).

    A confusão em questão, na minha interpretação, está no tratamento que se dá ao resumo que Jesus faz da lei e dos profetas:

Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é:

Amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Mt 22. 34–36)

    A partir desse texto, vi muitos pregadores e teólogos chamarem a atenção para o fato de que não há um mandamento na Bíblia que ordene ao homem "amar a si mesmo" (e eu concordo com isso). O que eu não concordo é com a explicação do porquê isso ocorreria: "o homem não precisa de um mandamento dizendo que ele precisa se amar, porque o homem já se ama naturalmente". A ideia que pregadores e teólogos querem introduzir é que, por causa de nossa natureza totalmente depravada pelo pecado, já somos autocentrados e sempre buscamos nos amar. Ninguém, portanto, precisa ordenar que o ser humano faça o que lhe é natural fazer desde o ventre da sua mãe. Evidentemente que concordo com isso. Entretanto, e é aqui que eu quero chamara a atenção, concordo em parte.

    O problema no desenvolvimento de uma tese como essa está na "confusão de categorias" em relação à palavra "amor", pois, quando eu afirmo que não há ordenança na Bíblia para que o homem se ame, pois ele já faz isso natural e pecadoramente, eu estou dizendo que isto que o homem faz - amar a si mesmo - é de mesma categoria, qualidade e natureza que o amor que está expresso nos mandamentos citados de Mateus 22: 34–36. E isso, obviamente, não é verdade.

    Tanto no hebraico como no grego, mas talvez de uma maneira mais pontual no grego bíblico, há muitas palavras para falar do "amor". Algumas palavras são explicadas a que tipo de amor se referem a partir do contexto em que aparecem. Assim, mesmo que haja sinonímia e intercâmbio de uma palavra que parecia ser específica para descrever um tipo de amor somente, é próprio observarmos os contextos que inserem significados às palavras que usamos (e não somente trabalharmos com seus significados dicionarizados). As palavras, assim, ganham conteúdo próprio e específico de acordo com a mão do escritor, do contexto em que aparece e do tempo que também lhe muda o significado. Precisamos estar atentos a tudo isso. Sigamos em frente.

    Será que eu posso dizer, então, que não há uma ordenança de amor-próprio, porque o homem já se ama? Especificando o meu problema: será que o que esse ser humano, totalmente depravado, sente por si eu posso chamar de "amor"? Se assim o faço, estou dizendo que o que esse ser humano nutre por si é de mesma natureza do amor dos dois mandamentos de Mateus 22. Este é o ponto: não é! O "amor" que o ser humano sente por si pode ser chamado de muita coisa menos de "amor", pois o que o ser humano pode ter por si é autoestima, egoísmo, orgulho, vaidade, senso de autopreservação etc. Quando eu digo, citando o texto de Mt 22, que não há um mandamento de amar a si mesmo, porque o homem já se ama, no meu entendimento, algo muito grave ocorre: eu diminuo o que esses mandamentos estão me ensinando sobre o verdadeiro amor. Veja, se o ser humano não ama a Deus, como poderia ele amar a si mesmo? O ser humano, fora de Cristo, não ama ninguém, nem a si mesmo! É sendo amado por Deus, em Cristo Jesus, que ele descobre o que, de fato, é afinal "amor", descobrindo, inclusive, que esses sentimentos que ele nutre por si não podem ser chamados de amor. Conhecendo o amor do Pai, que está em Cristo Jesus, é que, e somente assim, ele pode rejeitar todos esses sentimentos pecaminosos que tem por si mesmo e, finalmente, ele sabe o que deve oferecer ao próximo: o amor sacrificial de Jesus - este é o amor que nos é revelado, quando Jesus resgata os dois mandamentos do Antigo Testamento e os renova em Si no Novo Testamento.

    Por isso, acredito que é um desserviço bíblico quando ouço autores, pregadores e teólogos dizendo que nos dois mandamentos de Jesus não há um terceiro mandamento de amar a si mesmo, "pois o homem já se ama". Com isso, você perverte todo o ensino de um amor que só pode ser conhecido em Cristo Jesus. Para mim, é uma confusão de categorias o que ocorre. Mas este não é um erro de Jay Adams, mas de muitos dos nossos pregadores e teólogos também.

    Tirando isso, o livro de pouquíssimas páginas é bárbaro!

Fábio Ribas

sábado, 25 de novembro de 2023

Uma nova visão (XII/2023)

     


    O livro "Uma nova visão", de David Powlison, lançado pela Editora Cultura Cristã, é uma obra que busca esclarecer os principais erros tanto do Aconselhamento como, também, das teorias da psicologia e biopsiquiatria atuais. David Powlison (PhD) é editor de The Journal of Biblical Counseling, é professor no Christian Counseling and Educational Foundation (CCEF) e no Westminster Theological Seminary. Autor de "Confrontos de Poder" e "Falando a verdade em amor", da Cultura Cristã. Devo ressaltar que, realmente, preferia uma tradução de título mais próxima do original, que é "Seeing with New Eyes". Jamais leria um livro com este título em português: "nova visão". Ele me passa uma série de impressões erradas, tanto espirituais como ideológicas. Já um título como "Vendo com novos olhos" contribui com uma ideia totalmente diferente do que o título em português tende a passar. Então, por que eu o li? Porque li o artigo "Crítica aos integracionistas atuais", do Powlison, por causa de uma disciplina de Mestrado, e só posso dizer que foi um artigo que eu gostei demais!

    A Bíblia é suficiente para responder e tratar todos os nossos problemas? Ou haveria aspectos que Deus estaria "do lado de fora" de nossas vidas? Pois é disso que o livro está falando. A Igreja precisa fazer com que as pessoas vejam Deus no contexto de seus problemas. Antes de tudo, é um livro para apresentar o conceito de "Aconselhamento". Logo no início do prefácio, ele faz uma explicação simples, mas que achei sensacional do que seria "aconselhamento": "conversas que têm a intenção de ajudar". Todavia, ele demonstra que há conversas que partem de uma perspectiva humanista e outras que podem partir sob a perspectiva de ver Deus.

    O autor escreveu esse livro com o propósito de escrever mais outros dois livros. O segundo abordaria a metodologia e o terceiro seria apologético. Queremos ver a vida como um todo, vendo-a com o olhar de Deus - o Aconselhamento bíblico é capaz de conduzir as pessoas a essa "nova visão", ou, ainda melhor, o Aconselhamento bíblico pode levar as pessoas a verem com novos olhos suas próprias vidas e as circunstâncias que as cercam. Na verdade, como o próprio autor nos diz: "Deus tem a visão real das coisas. E Deus nos ensina seu olhar".

    O autor foi muito ousado, na minha opinião, mostrando o que Paulo fazia com as Escrituras e indicando que façamos o mesmo. Na verdade, ele mostra que já fazemos o mesmo que Paulo também fazia. Para isso, ele está usando como base a carta de Paulo aos Efésios, que eu também amo muito. Se os três livros que mais oferecem deleite para Powlison são Efésios, Salmos e Lucas, para mim, os quatro livros que me oferecem o mais profundo deleite são: Jó, João, Efésios e Hebreus. Assim, que maravilha ler a seção sobre Efésios, que, da maneira como vejo, tem uma importância missiológica central no trabalho transcultural. Interessante é esta pergunta: "Por onde devo começar?", porque nunca pensei em começar por Efésios. Sempre começo pelo Evangelho de João. Por isso, foi ainda mais interessante ler Efésios a partir de uma perspectiva muito diferente da que estou acostumado. Concordo que é uma carta de teologia prática, só que eu praticava na área missionária e não de aconselhamento. O mais impressionante foi ver Powlison fazer um tipo de leitura, mostrando que Paulo fazia "links" com o Antigo Testamento o tempo todo. E é exatamente isso que eu também chamo a atenção das pessoas quando leio o Evangelho de Jesus segundo João. Este também está em plena comunicação com o AT o tempo todo.

    Quem é Deus para você? O conselheiro tem que ser alguém com uma fé verdadeira, viva e vital! É preciso que Deus seja a pessoa em quem você confia, pois você falará dEle a pessoas que estão como barquinhos se debatendo contra as ondas em meios às tempestades. Deus está transformando as pessoas nesse processo. Deus age em meio ao seu Povo. Para o aconselhado é fundamental saber quem é Deus e compreender que Deus só se faz conhecido por meio de Jesus Cristo. É por meio de Cristo que Deus realiza seus propósitos (gostei demais da analogia com o tapete a ponto de parar de ler, na hora, sair correndo e mostrar à minha filha Gisele a ideia de como vemos do lado de cá o tapete com remendos, rasuras e defeitos, mas, do lado certo, que é o lado de Deus, Ele vê a beleza que não vemos). Deus derrama graça sobre nós e essa graça revela que o pecado é o nosso problema mais profundo. Deus age na história e, mais do que isso, a leva a um maravilhoso clímax!

"A História humana trata do justo Rei e seus aliados que invadem o império das trevas. Cada um escolhe seu lado. Fingir neutralidade e agnosticismo é apenas encobrir as trevas. O Deus vivo e Cristo não são mera opção. A escolha é esta: vida ou morte, conheça-o ou morra. Sejamos perdoados pela maravilha do que Cristo fez por nós ou recebamos sobre a cabeça aquilo que merecemos" (p.52).

    A citação acima me faz lembrar que as tantas teorias que as pessoas inventam sobre Deus podem ser digeríveis a elas, mas nada, nenhuma filosofia, religião ou invencionice da cabeça dos homens irá alterar nada do Ser de Deus - e isso sempre me foi muito assombroso. É uma escolha de lados numa guerra e não um jogo para ver quem vence o concurso de melhor narrativa sobre Deus. E isto, essa consciência de que os homens estão perdendo tempo em vãs filosofias, sempre foi muito assustador para mim. Por fim, ainda no capítulo 02, volta o insistente tema que mais tem estado presente na minha vida: a união com Cristo. Eu tenho estudado muito sobre nossa união com Cristo. E depois de ter vivido tanta coisa no campo missionário, tantas coisas que eu não entendia, mas, nestes últimos meses de estudos no Andrew Jumper, eu encaixei peças que faltavam. Hoje, vejo "missões" conectada ao Aconselhamento, ao Pastorado e à União com Cristo. Claramente, consigo montar esse quadro no fim de tudo.

    Sempre trabalhei aconselhando pessoas que possuem vários papéis e funções diferentes em seus contextos na família, na igreja e no trabalho. Todos somos filhos ou pais; empregados ou patrões, liderança ou leigo. Enfim, somos todos o tempo todo chamados a nos tratar mutuamente com respeito e amor. Independente dos cargos e funções, chamados a nos relacionar com graça, perdoando-nos mutuamente. Contudo, como tem pessoas dentro da Igreja que a usam como esconderijo de suas carências e anseios de poder, machucando, pisando e manipulando "em nome de Jesus", colocando não só instituições, mas também suas biografias, acima de tudo, ainda que, para saírem ilesos e imaculados, precisem sacrificar inocentes no altar de seus egos. Ocapítulo 03 falou muito ao meu coração. "Reciprocidade" e "mutualidade", palavras tão caras e, ao mesmo tempo, tão raras!

    Saímos de Efésios e viemos para o Salmo 131 (e também o 130). Precisamos nos colocar neste salmo para entendê-lo, memorizando-o e aplicando-o em nosso coração. Sossego e paz, frutos de um coração que está no Senhor. Interessantíssimo o autor ressaltar as vozes que aparecem no Salmo 131. 

"A maior parte do barulho em nossa alma tem como causa a tentativa de controlar aquilo que não pode ser controlado. Agarramos o vento; nos enfurecemos; temos medo e, por fim, nos desesperamos" (p. 80).

     Descansa, ó alma! Porque tu foste chamada por teu Criador pelo teu próprio nome. Foste conclamada, ó alma, a esperar no Senhor. E chamada à esperança agora e eternamente! Trazer o Salmo 131 como tratamento ao nosso coração e ao coração do aconselhado é bênção sobremaneira e foi isso o que o autor fez . Eu quero memorizar o Salmo 131. Tornar suas palavras as minhas palavras e ministrá-las ao meu coração antes de aconselhar outros. Ajuda-me, Senhor!

    O salmo 10 é surpreendente. O capítulo 5 do livro de Powlison aborda esse salmo muito bem, fazendo, inclusive, um roteiro de aplicação na vida do sofredor a partir desse salmo. Como continuar a amar sem amargar? Na área de aconselhamento, muitos dos livros que li, até agora, dão sempre a ênfase na nossa responsabilidade diante do mal inevitável que tenhamos sofrido. Agora, há também uma abordagem em que, as pessoas que nos ferem, elas também precisam ser nomeadas: elas são pessoas nocivas. Elas são soberbas, voluntariosas, impiedosas e predadoras (Sl 10: 2–11). Precisamos resolver isso com graça, a graça de Deus, em nossos corações. O Senhor consertará os males cometidos! A ajuda, a verdadeira ajuda, vem do Senhor.

    Temos muitas razões por que nos preocuparmos, todavia, Jesus nos deu razões ainda mais poderosas para não sucumbirmos ao medo e à ansiedade. Nas páginas 116 e 117, o autor ainda nos passa seis recursos que devemos usar quando nos encontramos ansiosos e obcecados. Muito bom! Fim da primeira parte do livro.

    Na segunda parte do livro, o autor tratará de casos reais, temas sobre os quais ele se debruçou. Mas o capítulo 07 tem algo, logo no início, que é muito importante para mim: perguntas! Vivemos num tempo de ativismos e resultados e não paramos para refletir. Engolimos e não mastigamos e sequer damos tempo à digestão. Tudo isso é sempre muito irritante para mim. Todavia, no início do capítulo, ele já nos inunda com várias perguntas, pois elas é que nos ajudarão a ajudar o outro. Precisamos pensar nelas. Precisamos entendê-las. São perguntas "raio-X" para vermos não só o visível, mas também o invisível. É claro que aqui, mais uma vez, vou lançar meu olhar missionário e lembrar que talvez - quem saberá precisamente? - 80% d população da terra não responde às perguntas diretamente, ao contrário do que nossa escola nos ensina a fazer: sempre precisamos estar atentos às circunstâncias e às histórias, causos e mitos. Só assim, nessas respostas culturais indiretas é que conseguiremos pinçar as respostas às perguntas "raio-X". Só precisamos não nos esquecer disso.

    "Nossos desejos são pecaminosos, porque são desordenados" - foi muito importante entender isso. Podemos ter maus desejos, mas até os bons desejos são pecaminosos, quando eles dominam a nós. O que você deseja? É uma pergunta que revela quem é o seu deus. A maneira como nossos desejos nos controlam e o modo como nos lançamos a eles para satisfazê-los, revelam nossas idolatrias. Podemos mudar? SIM. Não somos seres imutáveis e nem estamos condenados à escravidão eterna e ao fatalismo. Precisamos, então, entender que Deus é o que interpreta o nosso coração da maneira perfeita; e em Cristo encontramos a verdadeira satisfação; e no Espírito Santo, o poder regenerador e santificador para nossa mudança.

    O amor de Deus não é incondicional. Ele pode ser contracondicional. Isso significa que "Deus não me aceita como eu sou - Ele me ama apesar de ser como eu sou". Deus me ama o bastante para que eu dedique a minha vida toda a me tornar cada vez mais parecido com Cristo. Esta frase é uma verdadeira rebelião contra a cultura que nos cerca e estabelece uma quebra de paradigma. Poderíamos nos aprofundar mais nessa questão do "amor" pregado aí fora, mas deixarei para falar sobre o amor numa próxima postagem.

    Graças a Deus, eu já havia entendido que o fato de uma pessoa ter tido um mau pai, isso não dificulta entender Deus como Pai, pois é o contrário o que deve ocorrer: Deus é o pai perfeito! Ninguém na terra é perfeito, nem professores, pais, amigos etc, todavia, Deus é tudo isso perfeitamente para nós. Ele é o modelo de como ser um pai e não o contrário. Deus jamais será um pai igual ao que tivemos, porque nossos pais é que deveriam aprender o que é a paternidade a partir de Deus.

    O cristianismo é a terceira via. Nem propostas moralistas e nem propostas liberalizantes. O evangelho é capaz de oferecer o autoconhecimento verdadeiro e ir na fonte real de nossos problemas. O cristianismo tem a sólida base da Palavra de Deus, enquanto as propostas humanistas da psicologia só acabam cobrindo com maquiagem o coração doente do homem.

    Esta nossa ambiguidade nos leva a ser bênção e maldição. Precisamos realmente entender o que a Bíblia nos diz para não cedermos ao que ocorre com Pedro que, num momento, diz coisas maravilhosas, para, logo em seguida, ser boca de Satanás. Precisamos ir ao coração. Ali, realmente, está o âmago do que deve ser tratado. Como conselheiros, não oferecemos propostas mais profundas que o pecado, pois é o pecado o que há de mais profundo e que deve ser confrontado: "a mudança envolve deixar os desejos idólatras e vir para Jesus que morreu por pecadores, que vive para fazer-nos amantes de Deus e do próximo, e que voltará em glória e alegria". Na verdade, a ambiguidade também nos alerta para as soluções propostas, pois até mesmo bem intencionados conselheiros bíblicos podem, vez ou outra, por alguma razão, falharem numa leitura e ajuda.

    Vivemos numa sociedade regida pelos sentimentos ou, pelo menos, pelo que ela expressa no uso da palavra "sentir". Por trás do verbo "sentir", ocultam-se experiências, emoções, crenças e desejos. Se queremos conhecer as pessoas, precisamos ouvi-las, ouvi-las em suas experiências e emoções. Como elas reagem, o que elas sentem diante do passado, presente ou futuro, tudo isso é essencial ao conselheiro. Do mesmo modo, precisamos aprender a conversar com elas. Orientá-las.

    Definitivamente, temos chamado amor ao que não é amor. Temos rotulado de amor nossos pecados, cobiças e mais vis sentimentos e desejos e nada disso é amor! O capítulo mais sério, particularmente, é o que Powlison trata sobre as 5 linguagens do amor. Quantos de nós não já usamos e incentivamos estes livros? Chocado, pois, Powlison mostra que estamos investindo no pecado, pois não estamos curando relacionamentos, mas, sim, criando "cobradores de sentimentos", esperando que o outro me satisfaça. Enfim, este é um capítulo muitíssimo sério e que me abriu os olhos para algo que jamais enxerguei antes: há pessoas que querem aprender a linguagem do outro para a manipulação e o controle.

    Quero também cultivar isto: a certeza que a fé viva opera em amor inteligente e com propósito. Não é fácil. Verdade, não é fácil viver bem a própria vida e não é fácil pensar bem também. Enquanto lia este livro, o tempo todo passavam no meu coração milhares de pessoas que, por todos estes anos, trabalhei com elas. Eu consegui encaixá-las em várias partes do livro do Powlison e pensei o quanto este livro é importantíssimo para mim e para elas. Quando terminei a leitura de "Uma nova visão", assim que fechei a última página, um amigo liga para mim e diz que um outro amigo dele, um cristão muito sincero, compartilhou que quer fazer psicologia. Ele estava ligando para mim para perguntar o que eu achava, porque ele não se sentia bem em ver seu amigo tão cristão se enveredando por uma disciplina que ele sabia ser tão humanista. Ele me perguntou se havia algum livro que ele pudesse oferecer ao amigo dele. Advinha minha resposta? "Uma nova visão", de David Powlison.

sábado, 21 de outubro de 2023

Descrições e prescrições (VII/2023)


    Este é o segundo livro de Michael R. Emlet que leio. O primeiro foi o "Conversa cruzada". Emlet é médico Doutor, além de ter seu MDiv. Exerceu a medicina por mais de 12 anos antes de se tornar Conselheiro Bíblico e membro do Corpo Docente da Christian Couseling & Educational Foudation (CCEF). Autor de vários artigos e livretos na área de Aconselhamento Bíblico.
    
    Especificamente, este livro trata de um ponto muito importante para o conhecimento dos conselheiros. Ao contrário do "Conversa Cruzada", que é um livro de hermenêutica, tanto da Bíblia como da vida do nosso aconselhado, Emlet agora vai ao ponto da questão sobre os diagnósticos e medicamentos psiquiátricos. O subtítulo diz "uma perspectiva bíblica sobre os diagnósticos e medicamentos psiquiátricos". Assim, o livro é uma proposta para sairmos de quaisquer posturas que sejam extremistas: nem entusiastas cegos e nem isolacionistas alienados. Afinal, o que queremos é ajudar as pessoas a "melhor conhecer e compreender suas lutas. E então, tendo-as compreendido, como providenciar-lhes auxílio de modo sábio e compassivo" (p. 15).
    
    De modo positivo, ele inicia dizendo que "diagnosticar" é algo que revela o nosso Deus Criador. Achei isso sensacional! "Todo mundo "faz" diagnósticos. Todo mundo. Interpretar  -  ou diagnosticar  - as  nossas experiências é inevitável. Parte disso que é ser humano é classificar, organizar e interpretar o mundo ao redor" (p.18). E é uma maneira bíblica e positiva para nos entendermos e compreendermos melhor, porque "diagnosticamos" tanto! Uma outra palavra ligada a isso, e que eu sempre tratei no meu ministério missionário, é "taxonomia". Precisamos chegar aos povos e culturas e "caracterizá-los", "organizá-los", categorizá-los" etc, dando "nome aos bois". Por tudo isso, tenho realmente me fascinado com o mundo do Aconselhamento, pois é a aplicação pessoal ao que estamos tão acostumados a fazer a grupos e coletividades nos campos missionários transculturais.

    A citação que ele faz do Peter Kramer é basilar para tudo o que ele vai discutir em seu livro: "O modo como vemos uma pessoa é uma das funções das categorias que reconhecemos - de nosso sistema particular de diagnóstico" (p. 19). O que eu gostei muito com essa introdução do Emlet é que ele já desmistifica o "diagnóstico" como algo que se dá entre iniciados e que, por isso, só poderia ser realizado por uma elite altamente especializada. Na verdade, queremos conhecer e entender o outro à nossa volta e, por isso, diagnosticamos o tempo todo.

    Ele começa falando sobre o que é, afinal, um diagnóstico. Basicamente, de um lado, você tem o paciente descrevendo o que ele está sentindo e, do outro, um médico com sua formação descritiva. Mas, em meio ao que está sendo descrito como isso ou aquilo, há um espectro de sintomas muito parecidos. Com isso, veja, Emlet nos dá a nós, meros leigos, uma oportunidade de ficar ombro a ombro com os médicos na hora do diagnóstico. No fim das contas, a não ser que se tenha um exame mais técnico, mas, mesmo assim, no fim de tudo, um diagnóstico é resultado de uma interpretação entre o que o médico ouve da subjetividade do paciente e aquilo que o próprio médico carrega como experiência. Ainda que se tenha um exame clínico (exame de sangue, tumografia etc), ainda assim, é um intérprete pegando todas essas informações e dando a sua interpretação. Até mesmo porque o médico não está tratando de ciência exata e também não somos robôs. Cada caso é um caso e há as nossas individualidades e pessoalidades, que não podem ser descartadas. 

    (Quero abrir um parênteses aqui, no momento em que você lê este parágrafo. Por estes dias, acaba de sair que sete em cada dez médicos não sabem aferir pressão arterial. Uma informação como essa serve para nos deixar alertas: médicos não são sacerdotes de uma religião infalível. Na verdade, sequer sabemos da qualidade da formação deles. Fecho os parênteses).

    O resultado não pode ser simplista, pois somos muito mais complexos e as variáveis atuam de uma maneira difícil de abarcarmos a todas elas. Digo isso com toda a tranquilidade, concordando com Emlet, uma vez que tenho acompanhado minha mãe, uma idosa de 90 anos de idade, e já vi um médico cortar pela metade os remédios que outro havia passado a ela. Vi também um terceiro médico ainda ter que voltar atrás de remédios que estavam fazendo mal a ela no tratamento. Enfim, como cada pessoa é uma pessoa, então o que temos, muitas vezes, é um método de tentativa e erro. Em outras palavras, Emlet abre as portas para a desmistificação do diagnóstico e do uso dos remédios.

    Uma vez que Freud foi superado, pois ele dizia que todos éramos doentes, uns mais e outros menos… Mas, o que é ser "são" e o que é ser "doente"? Quem é normal e quem não é normal? Como proceder nessa interpretação? O DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) surgirá (1952) para tentar, veja bem, tentar, tornar mais clara a linha que separa a doença da saúde. Mas, em suas já cinco edições (a última de 2013), o DSM se transformou numa lista de sintomas para cada rótulo (nome que a doença recebe). Muitos desses sintomas se repetem em muitos rótulos diferentes:
    
    Embora algumas doenças mentais possam ter seus limites bem definidos em torno de um conjunto de sintomas específicos, a evidência científica atual localiza muitos, quiçá todos, os transtornos em um espectro de transtornos de relação muito próxima e que compartilham sintomas, fatores de risco genéticos e ambientais, e possivelmente substratos neurais (i.e. alicerces neurológicos) […] Resumindo, precisamos reconhecer que os limites entre os transtornos são mais permeáveis do que percebemos originalmente" (esta frase está escrita no DSM-5, p. 6).

    O diagnóstico psiquiátrico é descritivo e, às vezes, não nos damos conta disso. Por exemplo, eu digo que você está irado, porque há uma soma de vários sintomas em você que descrevem a ira. Pronto: diagnóstico, ira! Mas saber nomear, rotular a que se refere o grupo de seus sinais e sintomas não me responde o que realmente importa: por que você está irado? Por que você está ansioso? Por que você está depressivo?

    Entendamos, a descrição dos sintomas levará o médico a receitar tais e tais remédios para a solução daqueles sintomas, que, perceba, são comuns a muitas doenças diferentes. Os remédios podem tratar ou não, podem até mascarar aqueles sintomas, contudo, a causa da doença não é tratada pelo remédio.

    Neste ponto quero contar o que aconteceu comigo. Tive um sério problema no campo missionário. Alguém estava tomando atitudes que não apenas eram totalmente contra o esperado por  missionários num campo extremamente delicado e fechado ao evangelho, mas, principalmente, colocava o nosso trabalho (e de outros missionários em risco). Nossas lideranças nunca resolviam os problemas que estavam surgindo (que, na verdade, deveriam ser resolvidos na esfera das instituições) e, aqui no "andar de baixo", nós missionários sofríamos muito com tudo o que estava ocorrendo. Um dia, todo esse stress, essa agonia e angústia cobrou seu preço. Eu estava fazendo esteira numa academia e meu peito doeu horrores como se uma faca estivesse me rasgando de dentro para fora. Foi horrível! Mãos e pés suando, minha vista escurecendo etc. Tive que sair do campo (era no interior do MT) e vir às pressas me tratar em Brasília. Um milhão de exames, consultas, médicos, até que, finalmente, uma médica ouvindo e acompanhando tudo o que eu narrara disse: "Fábio, está aqui a caixa de seus remédios. Certamente, você irá tomá-los e isso irá fazer muito bem para você. Contudo, esse remédio tem um efeito colateral possível. Ele irá diminuir a sua libido, afetando sua vida sexual com sua esposa. Assim, há uma outra alternativa, caso você não queira tomar esse remédio. Você pode voltar para o seu campo missionário, resolver a causa dos seus problemas e buscar, então, trabalhar de um outro jeito, cuidando-se melhor". Enquanto conto isso, claro que estou rindo, pois não era só a minha vida sexual que estava em jogo, mas a da minha esposa também! Assim, retornei ao campo, mudei o meu ministério, fui para uma outra área na qual as ações daqueles missionários não me atingiam e, enfim, enfrentei a causa. Chamei o casal de missionários e disse tudo o que estava acontecendo comigo (e com outros), por causa daquela atitude deles. Porém, pelo bem da minha saúde mental (e sexual rsrsrs), e também porque eu queria continuar a ser uma bênção no campo, disse a eles que eu estava saindo daquele ministério e indo para um outro que não me afetaria daquele jeito. Com essa minha atitude, tudo se resolveu e eu guardo a caixinha de remédios, que a médica tinha me dado, até hoje comigo, fechada (rsrs). Os sintomas ajudam na identificação, mas só isso não resolve. Concordo, inteiramente, com Emlet.

    Outro problema tratado pelo autor é que há o risco do normal ser transformado em anormal por meio do exagero. Isso me levou o tempo todo a pensar no "O alienista", conto do Machado de Assis. Quem é que decide o que é normal e anormal? Qual a referência? "Dor e sofrimento" são critérios? Perigoso, principalmente por termos aqui o choque entre duas visões antagônicas: de um lado, uma indústria farmacêutica que promete felicidade em drágeas e, do outro, a cosmovisão cristã, que sabe que dor e sofrimento são parte da vida humana e que podem ser usadas por Deus na santificação do seu povo.
    
    A busca pela felicidade e o fim da tristeza e dor devem ser os únicos ou principais critérios que regem os diagnósticos? Quem está triste ou sentindo alguma dor não está bem, não está "normal"? Como disse, tudo isso é muito perigoso, porque é algo que pode ser fortemente subjetivo, tanto da parte do paciente como da parte do médico. A questão da dor e da tristeza também são culturais  -  e é importantíssimo levar todas essas variáveis em consideração na hora de um diagnóstico final.
    
    Outro problema: diagnósticos psiquiátricos que redefinem (e com isso mascaram ou minimizam a responsabilidade do paciente), rotulando o que as Escrituras chamam de pecado. Hoje, todos somos vítimas, estamos todos doentes: não há mais gula, responsabilidade pessoal, descontrole emocional etc. "Tudo é culpa do cérebro"! Tudo é culpa dos meus pais, da cultura, do outro! Estamos em tempos de extremos, fujamos de todas essas pressões. É este o alerta do autor: nem mascarar pecados como meras doenças mentais e nem tratar doenças mentais reduzindo-as como pecado.
    
    Particularmente, como missionário em povos diferentes de nós, o tema da influência da cultura nos diagnósticos culturais é muitíssimo interessante e importante para mim. Gostaria mesmo de aprofundar isso com mais estudo da minha parte.

    Enfim, você realmente quer ajudar o outro? Então, algumas questões precisam ficar claras a partir da leitura desse livro: 1) o diagnóstico psiquiátrico não pode impedir você de se aproximar e ajudar o outro; 2) o diagnóstico não é a identidade do paciente; 3) o diagnóstico não é destino; 4) o diagnóstico pode ser usado como ponto de partida, mas jamais será o ponto final.

    Além do autor nos mostrar como ajudar os pacientes que chegam com um diagnóstico, de modo que esses diagnósticos não sejam um obstáculo à nossa ajuda, ele mostra também como levar em conta o diagnóstico: 1) os diagnósticos nos ajudam a identificar padrões de experiências; 2) os diagnósticos nos ajudam a lembrar que essa experiência do nosso paciente é diferente da nossa; 3) eles nos alertam para padrões particulares de severidade e perigo; 4) os diagnósticos nos apontam para o corpo do paciente, que possui história hereditária e, além disso, o corpo também carrega forte influência cultural. Aqui, o autor encerra a primeira parte do livro e, na segunda, irá tratar sobre os medicamentos.

    Na segunda parte, o autor discute sobre o que, afinal, realmente sabemos em relação à eficácia dos medicamentos psicoativos. Ele mostra os resultados desses medicamentos comparados com placebos, demonstrando que a propaganda é mais eficiente do que o produto, de fato, oferece. O autor trata de como equilibrar um tratamento com remédios e aconselhamento, lembrando que nem todo sofrimento deverá ser tratado com medicação. A medicação pode estar mascarando ansiedades e problemas que podem (e devem) ser enfrentados biblicamente. Cabe, então, a sondagem das razões que levam alguém àqueles remédios específicos. Um conselheiro sábio deve dosar e ter sabedoria de "andar na corda bamba". Não podemos dizer: "pare de tomar esses remédios"! Todavia, podemos (e devemos) auxiliar o paciente numa sondagem crítica em relação ao uso desordenado de remédios. Precisamos nos comprometer em pesquisar a bula dos remédios; ver se os tantos remédios usados pelo paciente não estão afetando uns aos outros; observar se o aconselhado não está desenvolvendo alguns dos efeitos colaterais narrados nas bulas etc. Enfim, é nossa responsabilidade ajudar o nosso aconselhado.
    
    Foi o último parágrafo que mais me chamou a atenção. Estamos muito acostumados na nossa cultura com a farta literatura que encontramos tratando dos nossos próprios problemas. Literatura de autoajuda e de como sobrevivermos ao caos de nós mesmos. Contudo, este livro foi escrito para me ajudar a ajudar o outro da melhor maneira possível. Não é um livro sobre como resolver os meus problemas, mas como me preparar para ajudar o outro. Assim, como conselheiro, espero ter todos esses cuidados com meus aconselhados.

    Fui desafiado, nesta disciplina, a ajudar lideranças nativas no campo. Se a coisa já é difícil para nós, imagine as pressões que outras pessoas convertidas, mas de outras culturas, não sofrem nesses embates? Na aldeia, por exemplo, com a chegada do "agente de saúde" e do enfermeiro, da farmácia e dos remédios, lembro que os indígenas faziam uma bifurcação, que era o jeito que a cultura achou de "se resolver": o pajé vinha e fazia a pajelança  -  a cura espiritual. Mas, caso acontecesse das curas não funcionarem, então, o próprio pajé dava o diagnóstico: "é doença do branco"! A cultura sempre dará um jeito de sobreviver. São retificações na cosmovisão para se adequar à mudança dos ventos. O pajé dá conta da "doença do índio", entretanto, para eles, a chegada dos "brancos" com seus remédios é porque eles chegaram e trouxeram suas próprias doenças e, por isso, doença de branco, que o índio pega, precisa ser tratada com remédio de branco.

    Esses remédios ficam nas aldeias, sob a supervisão de um "farmacêutico indígena"… Comparando a formação recebida dos professores indígenas  -  que só são preparados no conhecimento da própria cultura, para ofereceram aos seus alunos mais do mesmo  -  fico, então, pensando que a gente também não pode esperar coisa muito diferente na formação desses farmacêuticos nativos. Portanto, sigamos que há muito trabalho a ser feito!

Fábio Ribas

sábado, 14 de outubro de 2023

Conversa cruzada (VI/2023)

 


    Tenho lido muitos livros sobre o tema do “Aconselhamento Bíblico”. Tenho lido livros muito bons, contudo, “Conversa cruzada”, de Michael Emlet, foi o melhor até agora. E há razões subjetivas e objetivas para afirmar isso. O que posso dizer é que esse livro é muito prático e oferece uma abordagem, tanto à Bíblia como ao aconselhado, que já foi possível utilizar ainda durante sua leitura, cumprindo seu subtítulo: “onde a vida e a Escritura se encontram”.

    Como aconselhar por meio das Escrituras? No fim da introdução, já há algumas perguntas para discussão. A cada capítulo, no seu término, há um breve questionário para autoavaliação e sondagem sobre o assunto que terminamos de ler. Um ponto interessante é que o autor diz que há muitos livros sobre “como ler a Bíblia”, mas falta sobre “como aplicar a Bíblia às nossas vidas”. Verdade. E o livro de Emlet traz inúmeras oportunidades de vermos essa aplicação ocorrer nos diversos exemplos trazidos. O objetivo do autor já é tratado de maneira clara: o foco do seu interesse é com a microética, isto é, como cruzar as Escrituras com as situações particulares da vida da pessoa.

    O primeiro capítulo funcionou para me deixar mais tranquilo, pois mostrou que a ligação de textos bíblicos com situações da vida contemporânea não é tão simples. Isto foi muito bom, uma vez que, desde que me aproximei do “Aconselhamento bíblico”, eu me sinto um ignorante em usar a Bíblia nessas “conversas cruzadas”. Agora sei que não estou sozinho nessa ignorância. A questão do Aconselhamento não é simplesmente saber uma série de versos decorados para desembainhar toda vez que nos deparamos com demandas da vida. É preciso atenção e paciência para “ler” a vida do outro, assim como atenção e paciência são necessárias para ler a Bíblia com responsabilidade. Não podemos sucumbir ao simplismo de usarmos as Escrituras como textos fora de contextos, numa espécie de “caixinha de aconselhamentos” (uma versão para a já danosa “caixinha de promessas”). Daí, o autor demonstrar o “fenômeno vala versus o fenômeno desfiladeiro”, para que possamos compreender que umas conexões são mais óbvias e tranquilas do que outras, quando nos dispomos a apresentar a Bíblia aos nossos aconselhados. Algumas passagens e narrativas bíblicas respondem de imediato a algumas questões, mas há muitas outras passagens que exigirão de nós esforço, um verdadeiro trabalho de exegeta e tradutor da Palavra de Deus. Portanto, inesperadamente, deparei-me com um livro que é um livro de “hermenêutica aplicada”. Emlet se preocupa em mostrar que a Bíblia está culturalmente distante de nós por mais de 1000 anos! Então, como ter certeza de que a estamos compreendendo corretamente e aplicando-a à vida do aconselhado, respeitando a intenção original do autor do texto?

    Particularmente, como missionário transcultural e alguém que já trabalhou com tradução do texto bíblico e com cosmovisões contrárias à da Palavra, ver um autor que não tem medo de trazer à mesa da discussão a palavra “intuição” foi muito importante para mim: “Procure aprofundar suas intuições conduzidas pelo Espírito…” (p.40). Neste ponto, lembrei de Naugle (“Cosmovisão — a história de um conceito”), que também enfrenta o pré-teórico. Aliás, é exatamente por isso que me vejo na área do Aconselhamento, que trata com o ser humano como um todo e não como um ser multifatiado.

    No segundo capítulo, “O que a Bíblia não é (primariamente)”, o autor ressalta que, embora nos aproximemos da Bíblia tendo nossos pressupostos, precisamos saber até que ponto esses pressupostos nos cegam impedindo-nos de lê-la corretamente. Os pressupostos precisam ser criticados à luz da Palavra. Se queremos ajudar o nosso próximo com a Palavra, precisamos saber que a Bíblia não se resume ou não se fecha num livro de “faça isso/não faça aquilo”; nem se resume a textos-prova para sustentar minhas doutrinas e nem é um livro de coleção biográfica de personagens para modelo de vida para mim. Eu e você precisamos ter claro o que a Bíblia não é. Então, mais uma vez, é confirmado que o cerne do livro se desenvolverá em duas direções: precisamos contextualizar o aconselhado, assim como devemos contextualizar o texto bíblico. Na direção da mensagem bíblica, ao compreendermos, estudarmos e interpretarmos a Bíblia, estamos certos de que a estamos usando “de uma maneira que maximiza a sua mensagem Cristocêntrica?”.

    O livro me desafia como missionário há tantos anos no campo trabalhando no ensino bíblico e como professor de Comunicação para a formação de outros missionários! Tenho vivido um momento ímpar no meu ministério, porque me sinto confirmado em tantas áreas que eu não entendia a razão de não me encaixar, mas que o Aconselhamento me trouxe uma autocompreensão! Uma frase como esta: “Se a comunicação tem sentido, é porque as nossas palavras são ditas em meio a contextos e concepções partilhadas entre o que fala e o que ouve” (p. 49) — é o centro de tudo o que tenho trabalhado há muitos anos. O que estou tentando dizer a mim mesmo é que o Aconselhamento é uma peça que deu paz às próprias crises que sempre vivi de “desencaixe” no campo missionário.

    E “o que a Bíblia é?” O AT é a expectativa da vinda do Reino e seu Messias. O NT é a proclamação de que esse Reino já veio e tem Rei. Ambas as histórias se inserem numa narrativa maior. A Bíblia é o enredo da história gloriosa de Deus sobre nossas pequenas histórias! E a chave para se entender tudo isso é Jesus: o fim do princípio e o princípio do fim! Tomamos a Bíblia no seu contexto de relato, na sua estrutura narrativa! Veja! Nossa luta como missionários trabalhando com povos indígenas sempre foi não apresentar a Bíblia recortada, picotada, mas, ao contrário, apresentar a Bíblia como “one story”. Aqui, então, mais uma vez, surpreendo-me por estar lendo um livro que julgava muito específico, mas que vai ao encontro de tudo o que sempre foi “transculturalmente” importantíssimo a mim. O autor nos ajuda, porque sabemos que podemos tomar essa história única de diversas perspectivas diferentes (Aliança, por exemplo, é uma delas e talvez a mais importante), mas o autor toma a Bíblia perpassada pelo tema do Reino. Há uma identidade aqui e isso nos ajuda a como abordá-la e aplicá-la à vida humana. “Essa identidade está unida a uma missão: proclamar o reino do nosso Rei e ajudar na restauração de vidas, em conformidade com o seu amor e governo de verdade” (p. 72). Emlet insiste nessa organização narrativa e temática — tendo a Cristo no centro de tudo — mostrando que isso funcionará como bússola para não nos perdermos e nem esquecermos da nossa própria identidade e propósito como cidadãos do reino sempre diante de nós. Ainda no capítulo sobre este tema, que ressalta a centralidade de Jesus, entendermos como se deu a forma de relato bíblico a nós será essencial para a própria abordagem de nossa interpretação do texto. Por exemplo, “o sofrimento precede a glória” (p.75), “a morte precede a ressurreição. A graça para o seu povo veio ao preço da sua vida” (p.75). Daí, Emlet evidencia-nos: “Esse caminho para a cruz continua sendo o modelo para a nossa vida, até que Jesus retorne e ponha um fim ao pecado e ao sofrimento (…) Nós seguimos nas pegadas abnegadas do nosso Salvador” (p. 75). O que isso tudo significa para o Aconselhamento? Tendo a narrativa correta, na sua apresentação bíblica correta, poderemos nos orientar corretamente toda vez que “somos tentados a achar que a vida em Cristo diz respeito à nossa realização pessoal e felicidade” (p. 75). Sendo assim, mais adiante, o autor diz que devemos entender a Bíblia não apenas como uma história, mas como uma história que exige de nós uma resposta (p.80).

    Por tudo o que foi visto até agora, a pergunta mais trabalhada e que, por isso mesmo, mostra-se como fundamental para o trabalho de aconselhamento é: “Sabemos ler a Bíblia?”. Se a lermos sem o mínimo de regras de compreensão e interpretação, acabaremos usando-a para fins distorcidos ou fora de sua intenção maior. Mas qual a intenção maior da Bíblia? A Bíblia apresenta a missão redentora de Deus por meio de Jesus Cristo ao seu Povo. E essa missão terá vitória no final — isto está na Bíblia! Por isso, devemos ler a Bíblia “de trás para frente”, sabendo que o seu desfecho lança luz e reordena todos os livros anteriores. E quando a lermos “do início para o final”, precisamos ler sabendo que o que se anunciava já está realizado. Embora isso seja muito claro, infelizmente, no meio missionário tem muita gente lendo “da frente para trás”, insistindo em ler textos do AT como se esses estivessem desencaixados de uma narrativa maior.

    Lemos o AT sabendo que a vitória do Reino já está garantida! Há quem lê os mandatos criacionais, por exemplo, sem essa perspectiva e conexão. Qual a consequência? Parece que algo saiu dos trilhos e a igreja é quem vai colocar tudo no lugar. E isso não é verdade! A igreja não foi chamada para cumprir os mandatos criacionais como se nunca houvera pecado ou cruz e ressurreição. Assim, a imposição religiosa da igreja sobre outros por meio da lei é um entrave e um fracasso sem a cruz e a ressurreição. Não é a igreja que está sendo chamada a ajeitar o estrago do pecado por meio de uma nova legislação e mera imitação de Cristo, mas Cristo já fez tudo e convida a igreja a anunciar a chegada desse reino. A leitura no sentido correto muda tudo! A perspectiva é clara: antes de ser a minha história, a Bíblia é a história de Deus e a história do Povo de Deus (p.95).

    O melhor capítulo foi, sem dúvida, na sequência desses, o quinto capítulo! Se é que se pode dizer isso num livro todo muito bom. Entretanto, algumas coisas muito importantes estão sendo ditas ali. Não apenas sobre o enredo que escolhemos para que a vida da gente ganhe sentido, mas, principalmente, aquele olhar que devemos ter uns sobre os outros de que somos santos, sofredores e pecadores. Se queremos ajudar as pessoas, precisamos equilibrar esses 3 pontos. O que Emlet disse sobre nos conectar com a dor do outro foi tudo o que eu precisava ouvir para me entender ainda mais nesse mar de gente desconectada. A pessoa chega quebrada diante de nós e, então, precisamos desenvolver a habilidade de juntar as peças e ver a narrativa da vida dela — um início, meio e fim! Aqui há um roteiro que, para mim, é muitíssimo importante para me guiar no tratamento com o aconselhado:

    Uma das habilidades que os médicos devem ter envolve “tirar a história” do paciente. Isso compreende entrevistar o paciente de maneira intensiva e extensiva levando em consideração várias coisas: (1) os sintomas que o trouxeram ao médico ou hospital (“histórico da doença atual”); (2) seu histórico médico passado; (3) sua história familiar; (4) sua história social, incluindo o uso de tabaco, álcool ou drogas; (5) os remédios que ele está tomando; e (6) a “revisão de sistemas”, uma longa lista de perguntas acerca dos outros sistemas do corpo além do(s) sistema(s) envolvido(s) na história da doença atual. Essa entrevista estruturada é seguida de um exame físico e talvez de vários exames diagnósticos (p. 101–102).

    Esse roteiro acima, que Emlet oferece, é sensacional! Dá uma segurança enorme. Aliás, devo dizer aqui que já o estou usando. Tive oportunidade de aconselhar algumas pessoas usando várias coisas deste livro. Por isso, vejo-o como o melhor que li até agora na área de Aconselhamento. Li e estou lendo muitos livros, mas este é muito prático, desde a leitura bíblica até a leitura do seu aconselhado. Outra questão que vem ao encontro do que já trabalho na antropologia missionária é o entendimento que “dar ouvidos ao modo como as pessoas compreendem os detalhes da própria vida dá uma ideia da história (ou histórias), global que guia a sua existência diária” (p.103). Ouvirmos o outro com atenção é nos atentarmos à sua cosmovisão: “todos são criadores de sentido com categorias que deem um significado à vida” (p. 104). Esta frase, que acabei de citar do Emlet, foi muito importante para mim. Dou aula para a formação missionária e, de repente, num livro de aconselhamento, estou vendo todas as verdades que creio à disposição como nunca as vi em livros de missiologia antes! Acertar a vida das pessoas, que estão enfrentando dilemas e problemas, ao enredo redentor da Palavra de Deus é fantástico! Esta é a proposta do livro!

    Agora, além das perguntas para conhecermos as pessoas nos 3 aspectos do capítulo anterior (santas, sofredoras e pecadoras), precisamos também conhecer profundamente a Palavra de Deus e, então, há as perguntas que nos ajudam a ler melhor a Palavra de Deus. Precisamos realmente conhecer o aconselhado e a Palavra, para que possamos conectá-los. O tema da identidade transborda aqui e separa aqueles que são obedientes dos que são resmungões: “somos definidos pelo nosso relacionamento com Ele (p. 115). Veja agora que genial é o que Emlet faz: ele vinha trabalhando sobre compreender o esqueleto narrativo bíblico, sobre entendermos a narrativa totalizante da Palavra de Deus, e, assim, ele faz a mesma coisa sobre a importância de olharmos a vida do aconselhado não como um mar de fragmentos, mas buscando o que une: “Se não levarmos em consideração as histórias que moldam a vida das pessoas, ofereceremos aconselhamento focado em soluções, sem que talvez consigamos ver as raízes do problema” (p.120). Outro ponto sensacional: “Eu os apanho fazendo algo errado, mas será que os apanho fazendo algo certo?” (p.120). Olha que maravilhoso isso! Os fariseus só focavam nos erros, fracassos e na culpa dos pecadores, mas o convite aqui é, antes de tudo, não pisar na chama que ainda fumega: “reconheço onde vejo o Espírito em ação na vida deles?”. Se as pessoas estão procurando ajuda é porque estão sofrendo e precisam de esperança, lembra-nos Emlet.

    Até aqui, vimos o autor nos mostrar como devemos aprender a ler a vida das pessoas e ler a Bíblia. Agora, ele conectará essas duas realidades. No sexto capítulo, Emlet vai elencar algumas diretrizes gerais para isto, a saber: 1) todas as passagens bíblicas nos fornecem a lente correta para tratarmos quaisquer questões, contudo, obviamente, umas passagens são mais claramente melhores do que outras; 2) na ministração aos outros, nos movemos da vida para a passagem bíblica e da passagem bíblica para a vida; 3) nas situações ministeriais, algumas passagens são usadas com mais facilidade do que outras; 4) prestar atenção às conexões que surgem da passagem como um todo, não tanto às expressões isoladas; 5) lembre-se de que todas as passagens estão de alguma maneira ligadas a Jesus Cristo e à sua obra redentora. Observando essas diretrizes, vemos que elas são a consequência natural do que vimos nos primeiros cinco capítulos. São diretrizes de aplicação de toda a teoria que discutimos até agora.

    O diagrama de abordagem é um diagrama visual do que mais repetimos aqui: a hermenêutica da bíblia e a hermenêutica da pessoa. Na passagem, temos o contexto original e o contexto aplicado, enquanto no aconselhado temos sua pessoa sofredora, santa e pecadora. Em outras palavras, estou diante de duas linhas narrativas. Mas como sabemos que houve a “conexão” entre essas duas narrativas? “A aplicação se dá quando as pessoas “habitam” a visão de mundo da passagem de tal modo que obtêm clareza , centrada no evangelho, e direção para a própria situação — e as põe em prática” (p. 135). Mas qual o objetivo de conectar a vida com a Escritura? “O objetivo de conectar a Escritura com a vida é nada menos do que ter vidas modificadas, uma comunidade modificada e um mundo modificado, na medida em que as pessoas ouvem o Deus que fala verdade e amor. Isto é Conversa Cruzada” (p. 135–136).

    No sétimo capítulo, o autor anuncia que fornecerá algumas perguntas que podemos usar tanto sobre o texto bíblico como sobre a pessoa que ajudamos, com vistas a estimular essas conexões redentoras. Para ajudar, ele apresenta três metáforas: musical, atlética e culinária. Na primeira, ele pensa na Escritura como um acordeom, que num momento o comprimimos ao máximo e noutros o abrimos ao máximo, a música nasce dessa expansão e contração. Precisamos aproveitar as oportunidades no tempo que temos. Às vezes, temos só 5 minutos, às vezes serão vários encontros. Na metáfora do atleta, precisamos entender que o resultado num jogo de campeonato dependeu do trabalho duro que não vemos no treino entre um jogo e outro. Na metáfora culinária, parecida com a música, precisamos aprender a degustar o que podemos, às vezes um sanduiche, às vezes um banquete. Assim, o que precisamos é estar prontos para toda e qualquer situação de ministração, por isso as perguntas nos ajudam a tirar o melhor proveito possível. O autor, então, separa perguntas para tratarmos com pessoas santas (ver o que Deus está fazendo nelas), sofredoras (ter uma ideia das circunstâncias em que essas pessoas se encontram) e pecadoras (ver o que essas pessoas têm como histórias, valores e crenças).Em suma, usamos a Bíblia para 1) confirmar a identidade do santo; 2) consolar o sofredor e 3) confrontar o pecador. Quanto ao contexto bíblico, precisamos compreender o texto original; como que esse texto se insere na história da redenção; e, finalmente, como aplicar o texto à vida do aconselhado. Veja: é um caminho hermenêutico. Neste ponto, não sei se ficou claro em algum momento até aqui, mas a ação é do Espírito Santo. São perguntas, sondagens, tanto da pessoa como da Bíblia, mas a cura, a transformação, a mudança só pode vir do Espírito Santo. O conselheiro precisa estar convencido disto. No fim deste capítulo, ele trará a pergunta que mais ouvimos as pessoas nos fazerem: “podemos aconselhar incrédulos?”.

    É verdade que a categoria de “santos” não se aplica aos não cristãos. Nesse caso, é melhor pensar nos termos de uma categoria mais ampla: “portadores da imagem”. Essa pessoa, apesar de caída, é portadora da imagem de Deus mesmo assim. Isso quer dizer que me aproximo dela com dignidade e compaixão. Eu posso ressaltar as marcas da “graça comum” de Deus na vida dela, mesmo instando-a a submeter a sua vida inteira ao Único, Criador e Redentor. Eu uso uma lente moldada por Deus para enquadrar o bem na sua vida como evidência da “bondade, e tolerância, e longanimidade” de Deus que deve levar ao arrependimento (Rm 2.4). É evidente que essas conversas evoluem com o passar do tempo, na proporção em que você constrói o relacionamento (p. 155–156).

    O capítulo em que são apresentados os dois casos, o de Tom e o de Nathalie, e eles são analisados a partir da tríade de identidade — santo, sofredor e pecador- é muitíssimo esclarecedor. Um dos melhores livros que li até agora sobre o assunto, pois, com esses estudos de caso, podemos ver como é possível atuar no Aconselhamento. Ao apresentar os casos: “Onde estão as marcas da graça na sua vida? Em que ponto a pessoa está vivendo de maneira verdadeira, consoante a sua identidade de Filho de Deus vivo?” (santo); “que circunstâncias impactam a luta da pessoa?” (sofredor); e “que desejos, pensamentos, emoções e ações não estão em harmonia com os valores do Reino e, portanto, em “conflito” com a história bíblica?” (pecador). Estas perguntas nos ajudam a delinear a situação em que os aconselhados se encontram, e, no capítulo seguinte, após essa hermenêutica da vida deles, precisaremos considerar as passagens bíblicas para suas situações. 

    Assim, no nono capítulo, o autor nos apresenta passagens do Antigo Testamento. Na verdade, ele nos apresentará Ageu 2. 1–9, uma passagem que, para muitos de nós, não seria escolhida, mas ele mostrará como que o tema do templo se conecta à dor do caso específico que ele nos apresentou: o templo destruído-restaurado — o templo que somos em Cristo! Sensacional! Agora, em determinado momento do capítulo, o autor diz algo que sempre esteve em minha mente. Ele diz que, esse texto de Ageu, Deus já o usara em uma luta do autor com uma situação de pecado. O que quer dizer isso? Sempre penso que é de nossa vida devocional diária que temos intimidade com Deus e com a Palavra e é de nossas devocionais que vêm a maioria desses textos que, um dia, aplicaremos. Em outras palavras, estamos vivendo com Deus e Deus nos está levando a viver na vida machucada e ferida de outros. Chego ao fim do capítulo com a certeza ainda maior de que Aconselhamento é tudo isso, mas é a lida diária, a maturidade, a disciplina e o treino que nos prepararão cada vez melhor para esse trabalho. No capítulo seguinte, o autor nos levará ao mesmo exercício, mas conectando agora os casos com textos do Novo Testamento.

    Do último capítulo, as duas ideias que mais me chamaram a atenção e que tem a ver como o que tenho conversado com amigos pastores é: 1) a total dependência do Espírito Santo; e 2) o valor da igreja como comunidade e família no apoio ao aconselhado. Tenho lido e visto vários “aconselhamentos”, mas o do Emlet tem algo diferente. Se eu pudesse trazer duas palavras seriam: realista e misericordioso. Realista, pois não vende algo que o produto não dará. Há muito aconselhamento aí fora prometendo o que não pode dar. E isso está ligado ao fato de que é um “método” que depende do Espírito Santo agir durante todo o processo de aconselhamento. As perguntas são essenciais, mas se o ES não agir não será a força do meu braço e nem a minha inteligência que farão o que só Deus pode fazer. E nas conversas que ando tendo com outros pastores sobre tudo isso que estou lendo, ouvi muitos falarem também que o aconselhamento se dá na “igreja”, na comunidade da fé, na família de Cristo. É também participando dos batismos, ceias e ouvindo as pregações; orando junto com os irmãos e uns pelos outros etc. Tudo isso ajunta-se ao processo de tratamento. Enfim, os meios de graça estão aí e foram entregues por Deus à Igreja para que fossemos curados. Portanto, não negligenciemos os meios de graça!

Fábio Ribas

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...