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terça-feira, 9 de abril de 2024

Semiótica em Platão


                  (clique sobre as imagens para aumentá-las)

        Como aborda Winfried Noth (o 3º slide deste texto é feito a partir de seu resumo do signo em Platão), há uma “história etimológica e institucional” da semiótica. Entretanto, quero tratar da semiótica em Platão a partir de uma história da teoria dos signos “implícita e explicita”, que se constitui de um estudo avant la lettre da doutrina dos signos verbais e não verbais. Como podemos relembrar a partir do slide acima, em Crátilo, Platão apresenta um modelo do signo de estrutura triádica – o nome (ónoma, nómos), a noção ou ideia (eidos, logos, dianoéma) e a coisa (prágma, ousia), que é aquilo a que o signo se refere.


         Quando tratarmos do signo na história, perceberemos que vários autores deram nomes diferentes aos mesmos conteúdos (já abordei esta questão aqui), então, para facilitar essa comparação bibliográfica, procurei associar no slide acima outras nomenclaturas de outros autores) para aquelas usadas por Platão. Assim, para o “nome”, outros autores trataram de “Símbolo”; para “a coisa à qual o signo se refere”, outros autores denominaram de “referente”; e, no caso de “noção ou ideia", você poderá encontrar uma nomenclatura diferente dependendo do autor: “referência”, “conceito”, “imagem mental”, “a informação que o nome transmite ao ouvinte”, “significado”.


         O slide acima procurou representar a discussão tratada em "Crátilo" (que foi, como o próprio subtítulo dessa obra demonstra, sobre “a justeza dos nomes”). Veja que no slide há uma ligação entre o “nome” e a “noção ou ideia”, assim como há uma ligação entre a “coisa à qual o signo se refere” e a “noção ou ideia”, porém o que não parece haver – e esta é a discussão em Crátilo – é a ligação entre o “nome” e a “a coisa à qual o signo se refere” (daí o ponto de interrogação no slide).


           
         

        Neste segundo slide, exatamente para refletir as discussões em Crátilo, pequenas modificações foram feitas em relação ao primeiro: 1) a ligação entre o “nome” e “a coisa à qual o signo se refere” é natural ou é uma convenção? 2) É a “ideia” (ou Forma) o que une o “nome” à “coisa à qual o signo se refere”? e 3) “a coisa à qual o signo se refere” parece estar em certa união natural com a “Ideia”, assim como parece haver uma ligação natural do “nome” com a “Ideia”. Além disso, chamei a atenção para não confundir o conteúdo platônico da “coisa à qual o signo se refere” (ou o “referente”) com o que para Saussure é chamado de “significante”, pois para Platão o modelo de signo é triádico, isto é, há uma ligação com o mundo fora da mente do indivíduo, enquanto que, para Saussure, o signo é diádico, isto é, o “significante” é apenas mental.


         Didaticamente, cabe aqui relembrar que toda a teoria do signo discutida em Crátilo parte de duas doutrinas de Heráclito, a saber: 1) a doutrina do fluxo de todas as coisas, que é representada por Protágoras e Hermógenes, que conclui ser impossível às palavras (nomes) revelarem algo da essência das coisas, daí toda ligação entre o nome e as coisas ser arbitrário – “convencionalismo”; 2) Heráclito também pregava a doutrina da emanação, que é representada por Górgias e Crátilo, que, a partir dessa doutrina heráclita, concluem o oposto, a saber, embora haja o fluxo ininterrupto de todas as coisas, estas “emanam” algo de sua essência que é captado pelos nossos sentidos, daí toda ligação entre o nome e as coisas ser natural – “naturalismo”. Veja que o naturalismo de Górgias não era uma identificação com o Ser das coisas, mas uma “captação”


         Ainda em “Crátilo”, a saída proposta não é nem a do convencionalismo e nem a do naturalismo, antes, o “nome” é uma imagem. Assim como uma pintura é uma imagem de alguma coisa, o “nome” (substantivo, verbo, advérbio, etc) também é cópia de uma realidade em si. Contudo, mesmo essa ideia do nome como imagem vai falir toda a discussão no livro. Portanto, qual o melhor caminho? Aprender da imagem (nome) sobre a verdade que ela espelha ou aprender da própria verdade? A resposta final do livro é que o melhor é entrarmos em contato direto com a verdade, que, num primeiro momento, pareceriam ser as coisas. Entretanto, as coisas são também imagens. Assim, no Timeu, a imagem (não do nome, mas das coisas - estas são imagens das Formas, das Ideias) será a solução platônica que garante a inteligibilidade do mundo. Veja abaixo:



         

        O que se pode concluir? É que o modelo triádico platônico, na verdade, deságua numa concepção quase diádica, uma vez que “a coisa à qual o signo se refere” é apenas uma cópia da Ideia e, relembrando toda a discussão de Sócrates tanto em Crátilo como em Fédon de que o melhor é a busca da Ideia do que da cópia da Ideia, a Filosofia irá, então, afastar-se da realidade material do mundo e se dedicar ao que o pensamento e a reflexão são capazes de oferecer: a realidade da metafísica, um caminho “mais excelente”. Perceba, as ideias têm consequências: esse "descaso" com a realidade concreta das coisas em si marcará tragicamente um cristianismo místico, que nascerá de um casamento com o neoplatonismo, assim como, posteriormente, ocorrerá tanto com Descartes como com Saussure, que defenderão uma concepção mentalista do signo. Mas, para Platão, a realidade, o referente, “a coisa à qual o signo se refere” é, tão somente, uma cópia, que deverá nos remeter à verdadeira realidade que é o original no mundo das Formas (ora, aqui, podemos, exatamente, ver o prenuncio da filosofia de Kant). 


                                            Fábio Ribas

sexta-feira, 5 de abril de 2024

A mulher grávida que pisou a cabeça da cobra - um estudo de caso*

 


*Texto que publiquei originalmente em dezembro de 2016, mas que resgatei para minhas aulas de Fenomenologia da Religião.

A gravura deste texto circulou nas redes sociais e foi fartamente distribuída por pastores, missionários, seminaristas e tantos outros evangélicos neste Natal.

Contudo, o que me chamou a atenção foram as palavras da minha filha de 10 anos ao olhar para esse desenho: “Nada a ver! Não foi Maria quem pisou na cabeça da cobra”! E não foi só minha filha de 10 anos de idade quem se pronunciou sobre o desenho em questão.

“Nós nem vimos a cobra”, disse-me um casal de evangélicos diante da gravura. O que poderia justificar e ser usado como desculpa numa “curtida desatenta” por parte de tantos evangélicos maravilhados com a mulher grávida que pisa a cobra.

“Ah! Que lindo! Tem uma imagem de Maria que também pisa na cobra igualzinha a essa aí. Tão bonito isso”, disse-me uma católica. E devo confessar que, sendo ex-romano, a primeira coisa que me veio à mente foi a pinacoteca das diversas imagens católicas de Maria pisando a cabeça da serpente, que sempre estiveram presentes por toda minha infância e adolescência.

Tirando os evangélicos que “curtiram” sem se dar conta de que a mulher grávida do desenho pisava uma cobra, o que dizem os evangélicos “conscientes”, os que postaram a gravura? “É a Igreja”, responderam.

A mulher é o símbolo da Igreja e a Igreja é quem pisa a cabeça da cobra, que é Satanás. “Pisa” por extensão, é bom frisar. Quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus, portanto, sendo Jesus o Cabeça da Igreja, esta o pisa vitoriosamente.

A figura da mulher como imagem da Igreja é depreendida a partir do texto de Apocalipse 12. Porém, o que João faz é o contrário do que seus interpretantes fizeram posteriormente. João toma Maria como símbolo da Igreja (e do Povo de Deus no Antigo Testamento), e não o contrário: a Igreja não é símbolo de Maria.

Mas é exatamente isso o que os católicos romanos fazem. Tanto que eles, ao se depararem com o símbolo da Igreja na figura de Maria, concluem inversamente: “Os homens é que devem escolher em qual lado lutar. Do lado da serpente ou se do lado da semente da Mulher — Maria — Mãe de Jesus Cristo, mas também de cada um” (Padre Paulo Ricardo).

“A semente da Mulher — Maria — Mãe de Jesus Cristo…”. Ora, o romanismo compreende que Maria é mãe da Igreja, a igreja é “semente de Maria”. Por quê? Por extensão também. Se Maria gerou Jesus, que é o Cabeça da Igreja, sendo a igreja o corpo de Jesus, logo Maria é mãe da Igreja.

Por isto, tão imediatamente, numa cultura católica como a brasileira, a maioria das pessoas irá identificar aquela mulher grávida que pisa a cabeça da serpente no desenho em questão não com a Igreja vitoriosa, mas com a mãe da Igreja — a mulher Maria; ainda que o catolicismo oficial saiba muito bem que quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus (veja aqui).

A mulher da gravura está grávida. E é na condição de grávida que ela pisa a cabeça da serpente — e não é nada disto o que encontramos em Apocalipse 12. A vitória sobre o diabo, por intermédio de Maria e sem a Cruz, pois Jesus está no ventre dela — protegido de todo mal, de toda dor, de todo sofrimento, enquanto é o pé dela que pisa a cabeça da cobra — esta é a mensagem posta pela gravura.

O parágrafo acima revela o espírito do nosso século representado na gravura: o advento do feminino, da deusa mulher, da superioridade da mulher sobre o homem, da assunção da maternidade sobre a paternidade.

Ainda que a mulher da gravura fosse a Igreja, o equívoco foi coloca-la grávida — mais do que um ruído, mais do que uma mera interferência, é um excesso de informação que desloca o interpretante do verdadeiro sentido do Natal para uma interpretação transbordada de sincretismo pagão da Nova Era.

Sem a encarnação completa, sem a vida de total obediência, sem a paixão e sem a morte substitutiva e a ressurreição vitoriosa que compõem o evangelho da nossa salvação, um Messias protegido no ventre de sua mãe enquanto esta resolve o problema criado pelo ser humano é a interpretação que sobra: Maria sem dar à luz é tão somente a eternização da esperança messiânica que nunca se completa, ou ainda, um messianismo que é apenas o do “povo sofredor”, representado pela mulher grávida.

Em outras palavras, é um outro evangelho o da gravura: “Porque, como, pela desobediência de uma só mulher, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de uma só mulher, muitos se tornarão justos”.

Este ensaio não comporta tudo o que poderíamos desenvolver sobre a importância de sabermos evangelizar nossa geração, compreendendo todas as nuances e complexidades do nosso multiculturalismo pós-moderno, ainda assim há duas regras simples que eu deixaria aqui.

A famosa regra de ouro diz que, em termos de comunicação, o importante é o que o outro entende e não o que você quis dizer. E evangelizar é comunicar as boas novas da salvação e o mais importante é sabermos o que o outro compreende e não o que eu penso sobre o que ele deveria ter entendido.

A segunda regra é que, como missionários, não basta trabalhar com pressupostos, mas antes com aquilo que está propriamente posto: é muito mais importante você compreender o que está posto diante do interpretante por essa imagem da mulher grávida do que esperar que esse interpretante consiga entender os pressupostos da própria imagem da mesma maneira que o seu gueto teológico os entende (“entendimento” este que pode também estar equivocado, conforme demonstrei aqui).

Acredito que é preciso comunicar melhor a mensagem do Evangelho, ainda mais quando a veiculamos nas redes sociais, ambiente que alcançará crentes e descrentes das mais diferentes formações, e essa é uma responsabilidade que cabe, indubitavelmente, aos líderes cristãos que se utilizam da internet.

                        Fábio Ribas

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Mulher, por que choras?


“A pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós,
por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos.”
(José Saramago)

Ao refletir sobre o título deste texto, percebi que essa pergunta foi dirigida duas vezes a Maria Madalena, o que me deixou deveras intrigado. Logo lembrei-me de um antigo filme dos anos 70, “Gritos e sussurros” de Ingmar Bergmam. Um filme de terror, ou melhor, um filme sobre o terror do universo feminino caído, que, por tantas vezes, foge até mesmo à própria compreensão das mulheres e da maldição que lhes pesa.

O filme apresenta três irmãs que se veem convivendo novamente debaixo de um mesmo teto, porque uma delas está com câncer e próxima à morte. Há ainda uma empregada na casa. Literalmente, cada uma dessas mulheres se verá espremida pela câmera do diretor contra uma parede de um tom vermelho forte e, nestes momentos, elas são levadas ao extremo e confessam suas culpas, seus medos, suas dores, suas mentiras. A irmã mais nova, Maria, é fútil, cínica e adúltera, e fora a preferida da mãe e, por causa disso, suas duas irmãs nutrem por ela ciúmes e ódios. Karin é a irmã mais velha, amargurada por um casamento infeliz e por seus próprios sentimentos de culpa, chega cortar sua própria genital com um pedaço de vidro para não ter que fazer sexo com o marido. Agnes está morrendo (de inveja?) sobre a cama e suas irmãs não conseguem lhe dar o carinho e o consolo que ela só encontra nos cuidados da empregada, Anna. Esta vem cuidando da paciente há 12 anos e o que sabemos dela é a perda precoce de sua filha única.

Os “sussurros” são os segredos do passado que o vento insiste em trazer de volta. Os “gritos” são a inveja e o remorso que atormentam a cada uma delas nessa convivência forçada. Há uma cena no filme de Bergman, que mostra que Agnes continua a sofrer mesmo depois de morta. E, mesmo testemunhando seu sofrimento pós-morte, suas irmãs continuam incapazes de manifestar quaisquer reais atitudes de carinho e amor por ela. Somente Anna, a empregada, lhe oferece o consolo suplicado numa cena construída para nos lembrar a Pietá de Michelangelo, Maria segurando Jesus morto em seus braços. Contudo, ou exatamente por isso, Anna é abandonada pelas irmãs de Agnes após a morte desta. Mas por que elas choram?

Jesus teve encontros decisivos com muitas mulheres. Na casa de Simão, o fariseu, Jesus exalta a expressão de amor da mulher de má fama, enquanto expõe a verdade sobre a hipocrisia daquele líder religioso. No poço, Jesus entrega a uma samaritana de vida duvidosa o que a Nicodemus, doutor da lei, não fora dado experimentar: o novo nascimento. Enfim, na tentativa de apedrejamento da mulher adúltera, Jesus denuncia o pecado da instituição machista que preservara o amante e trouxera, tão somente, a pecadora pega em flagrante adultério para morrer.

O pecado e sua maldição atingiu nossa natureza humana. Obviamente, à semelhança do que ocorreu com a nossa masculinidade, a natureza da mulher foi também corrompida em toda extensão de seu universo feminino com agravantes físicos (o aumento nas dores de parto), volitivos (a guerra dos sexos) e morais (a submissão forçada ao homem). Assim, vejo aqui a chave para entendermos a indagação: Mulher, por que choras? Creio que a pergunta confronta toda mulher para que elas percebam as dimensões abissais atingidas pela ressurreição de Cristo e não apenas uma simples constatação de um fato histórico, que é a ressurreição em si. A maravilhosa mensagem do túmulo vazio é que não há mais razões pelas quais chorar, porque Jesus quebrou a maldição que trouxe danos terríveis à mulher. E ninguém melhor do que Maria Madalena para compreender isso: ela fora liberta da possessão de sete demônios, ela havia sido prostituta, usada, humilhada, subjugada por uma teia social machista que a sufocava e se beneficiava dela. Surpreendo-me com essa mensagem poderosa de salvação, restauração, restituição e resgate do valor verdadeiro da mulher em Cristo Jesus.

A Bíblia nos oferece um quadro claro quando, na primeira incursão missionária pela Europa, é uma mulher, Lídia, quem primeiro tem seu coração aberto às verdades do Evangelho e, logo após, é na libertação e conversão de uma mulher possessa de espírito adivinhador, e que era usada como fonte de lucro para seus senhores (homens), que, mais uma vez, o Evangelho encontra sua plena realização de redenção do universo feminino oprimido não só por suas próprias incongruências e idiossincrasias, como, também, pela maldição demoníaca do machismo.

Maravilho-me por Jesus não ter se revelado nem a Pedro e nem a João naquela manhã de domingo. Eles foram ao túmulo de Jesus e nada encontraram. Mas a uma mulher que sabia que seu testemunho seria desqualificado diante de qualquer tribunal naquele tempo, a ela é que foi entregue a missão de anunciar a ressurreição em toda a sua extensão libertadora.

À semelhança das mulheres do filme de Bergman, sei que muitas ainda choram por sofrer as angústias de uma natureza caída e amaldiçoada pelo pecado sem conseguir encontrar nenhuma saída que lhes dê esperança. É preciso pregar e ensinar sobre o significado e libertação que a ressurreição de Jesus trouxe para a própria vida de cada uma delas. Ainda que saibam da ressurreição, ainda que tenham ouvido o testemunho acerca do Cristo ressurreto, muitas não experimentaram a verdade surpreendente de que um homem se entregou e morreu para quebrar a maldição do pecado que paira sobre elas. A promessa gloriosa da ressurreição de Cristo é que o próprio Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima.

Portanto, mulher, vai e anuncia a todos que você encontrar as mesmas palavras jubilosas de Maria Madalena: “Eu vi o Senhor”!

Fábio Ribas

domingo, 17 de março de 2024

A pedagogia da mentira

 

Você já parou para pensar que, para a maioria das pessoas, uma folha de papel cheia de palavras é igual a um painel de controle de avião? E que o mesmo ocorre diante de uma folha da Bíblia? E eu não estou falando sobre pessoas que não sabem ler.

Infelizmente, uma folha aberta de uma Bíblia, para muitos jovens e adultos de Ensino Médio e Universitários, continua a ser um painel de controle de avião. As palavras estão todas ali, mas e daí? Wittgenstein é quem faz essa comparação entre uma folha cheia de palavras e o painel de controle do avião. Ele faz isso para nos chamar a atenção sobre o problema da comunicação humana.

Assim, não é de admirar que as pessoas prefiram o caminho mais curto, a porta mais larga do argumentum ad verecundiam ou argumentum magister dixit, que é a falácia de se apelar a uma autoridade humana. Isso tem levado muitos a se deixarem nas mãos de falsos pastores e igrejas manipuladoras e, quando perguntados sobre a razão deles se deixarem levar pelo abuso espiritual, a resposta é sempre a mesma: “o pastor disse”, “a profetisa falou”, o “ungido determinou”, etc. O apelo é sempre às pessoas que possuem uma pretensa “autoridade espiritual”. A partir disso, vemos uma multidão seguindo profetas, apóstolos e igrejas de “poder”, enquanto a ignorância bíblica e a inabilidade de aplicar suas verdades à prática diária se aprofundam cada vez mais.

Enquanto escrevo este texto, farei uma digressão, pois não posso deixar de pensar na minha filha mais velha, que vem estudando tenazmente para o vestibular, Enem e outras coisinhas semelhantes. O que tem me surpreendido é a orientação da escola dela, que adotou o método Anglo de Ensino, quanto à produção das redações: é preciso citações! Ainda que você não tenha lido o livro de Fulano e de Ciclano (e a maioria dos colegas de sala de aula da minha filha realmente nunca leu um livro sequer desses tais autores), é preciso, segundo a orientação dos “grandes mestres da redação”, que sua redação apele à autoridade desses filósofos, sociólogos, personagens históricos e tantos outros. Eu vejo os colegas da minha filha buscando na internet aqueles sites de páginas de citações, para rechear seus textos de frases de pessoas que eles sequer um dia tinham ouvido falar, mas que seus professores citam. O que me faz pensar que esses professores podem também estar apenas citando o que, um dia, citaram para eles num ciclo tenebroso de papagaismo educacional!

Há algo muito grave no que eu escrevi no parágrafo anterior. A escola é o lugar em que nossos filhos mais passam o tempo deles. Eles passam mais tempo na escola e nas universidades do que em casa ou nas igrejas. Assim, o poder de influência desses professores é enorme e os pais não podiam jamais ser negligentes, como muitos são. É uma pedagogia da mentira que a Escola ensine aos nossos filhos citarem autores que ela mesma nunca trabalhou em sala de aula e que eles nunca leram e nem lerão! Vou repetir: é uma pedagogia da mentira! Estão formando nossos filhos para mentirem, para que eles digam que conhecem o que esses autores estão dizendo, quando, na verdade, não sabem bulhufas! Estão citando frases soltas fora dos contextos dos livros de onde elas foram retiradas.

Quando eu leio frases como “Wittgenstein disse” ou “Aristóteles afirmava em sua obra “A Poética””, “Segundo Max Weber”, penso que, ao serem citadas, elas respeitam o corpus do pensamento dos seus autores originais. A questão é como confiar em meninos e meninas de 16 e 17 anos, que nunca leram um livro de Emile Durkheim, por exemplo, e saem citando com pomposa arrogância de quem domina aquelas obras? A pedagogia da mentira corrompe o caráter, danifica a moral e destrói a ética. Não é de se surpreender que estejamos tão perdidos em distinguir o que é certo e errado, o que é o bem e o mal, o que é verdade e o que é mentira. São anos e anos de uma escola ensinando nossos filhos a mentirem, a usarem o discurso, a retórica, a construção de uma estética falaciosa e a plagiarem a ideia dos outros que, evidentemente, isso devora a alma. E isso tudo para quê? Para que nossos filhos, a partir de mentiras bem construídas, possam conquistar uma vaga numa faculdade. O que as escolas estão ensinado? Que os fins justificam os meios. Que, se não ferir ninguém, que mal é que tem? Depois de anos e anos aprendendo a mentir para conquistar seus objetivos, que tipo de cidadão nós teremos? São pastores que apelam ao “dom de línguas” e ao grito, são profetizas que apelam ao “assim me disse deus”, são crentes pinçando frases bíblicas fora de seus contextos para apoiarem suas heresias e abusos espirituais contra as pessoas e muitos outros crimes de corrupção que vemos no nosso dia a dia. Temos visto profissionais adulterando o currículo vitae e lattes para dar um up na maquiagem, querendo ganhar capital político e econômico a partir de um capital cultural que nunca possuíram (Pierre Bourdieu). Esses profissionais foram construídos durante anos por uma escola doutrinadora! Sinceramente, você ainda não percebeu isso? Pronto, terminei minha digressão.

Como o próprio Apóstolo Pedro adverte, a Bíblia tem sim textos difíceis de entender (II Pe 3). Só essa advertência já deveria ser suficiente para animar todos os cristãos a frequentarem as Escolas Bíblicas Dominicais de suas Igrejas, mas, tristemente, não é isso o que ocorre. É preciso estudar a Palavra de Deus para que, como nos adverte o Espírito Santo por meio do Apóstolo Pedro, não caiamos nas armadilhas das pessoas ignorantes e instáveis que não querem aprender da Palavra de Deus!

Estude a sua Bíblia! Procure um grupo de pessoas comprometidas com o ensino sério da Palavra de Deus, para que você não caia nas mãos dos lobos que planejam dominar a sua vida. O mercenário não quer que você aprenda. Ele quer apenas que você obedeça cegamente, pois ele quer roubar, matar e destruir você e, para isso, ele precisa que você não conheça a Bíblia, nem estude a Palavra de Deus e, muito menos, viva sob o poder do Espírito Santo.

Assim como o piloto precisa aprender a ler um painel de controle de avião, a Bíblia também possui regras de interpretação para que seja lida corretamente. Do contrário, no caso do avião, ele sequer levantaria do chão. No caso da sua vida espiritual, também!

                                            Fábio Ribas

sábado, 6 de janeiro de 2024

Sal da Terra em Terras dos Brasis (I/2024)

 

    “Como vemos e somos vistos na cultura brasileira” é o subtítulo deste maravilhoso livro de missiologia, “Sal da terra em Terra dos Brasis”, de Rev. Wadislau Martins Gomes, mas não de uma missiologia “departamental”, estanque ou vista como “um braço da Igreja”. Mas, Igreja, qual é a missão que Jesus lhe comissionou?

    Rev. Wadislau foge dos mitos e lugares-comuns da atual missiologia, cada vez mais contaminada por um viés ideológico, e expõe a idolatria do “ide” que tem levado a obra missionária a um pragmatismo, ora romântico, ora triunfalista, do “ir” cada vez mais longe, enquanto a Igreja Local se distancia do ensino bíblico de que muito mais importante do que simplesmente “ir” é COMO “ir”. Assim, mais do que nunca, acho que também posso dizer isto após a leitura do livro: é preciso que a Igreja aprenda a como FICAR.

    Identifico, como professor de Comunicação Transcultural para missionários brasileiros, que a energia investida para se comunicar com uma outra cultura tem sido inversamente proporcional ao esforço de se compreender a própria cultura brasileira na sua mais rica variedade étnica, social, etária e multicultural. Para mim, esse livro torna-se um bálsamo no meu projeto educacional de fazer com que o missionário entenda que, se ele não aprender a fazer uma leitura mais correta e mais precisa das relações humanas dentro de seu próprio país, dificilmente ele aplicará as ferramentas da comunicação à cultura-alvo. É um livro que trabalha com farta literatura nacional brasileira e ensina o leitor-missionário a ser sensível e atento à voz artística do nosso povo em todas as suas expressões. A produção artística precisa ser levada em conta no Campo Transcultural, pois a música, a poesia, os mitos, a pintura, a escultura e, entre tantas outras coisas, até mesmo a produção acadêmica dos próprios nacionais (quando houver) — aprender a ver como eles veem a si mesmos — tudo isso nos ensina a compreendê-los. Mas, antes de tudo, defendo que é aqui, em sua própria cultura, país e língua que o missionário transcultural precisa fazer o dever de casa de treinar o que pretende fazer “lá fora”.

    A missão da Igreja é glorificar a Deus onde quer que ela se encontre. A Igreja não é chamada para um lugar, mas para brilhar onde quer que esteja. Missão é evangelização e evangelização é cumprir a missão dada por Deus à Igreja. A evangelização não pode estar desassociada do discipulado, de caminhar junto, de andar lado a lado com a pessoa que Deus tem nos dado para ouvir, ver e compreender da nossa boca e da nossa vida a beleza evangélica da mensagem salvadora. Aliás, o tema da beleza perpassa toda a exposição do Evangelho feita nas 551 páginas desta obra que, muito mais do que ser lida, precisa ser estudada. A mensagem evangélica total deve atingir inteiramente a vida do evangelizado. Os subtemas abundam diante dos olhos do leitor: “Beleza ou feiura são coisas do coração”, “O ambiente da vida cristã: a beleza de Cristo na face da Igreja”, “Cristo em nós e nós em Cristo: um ambiente de beleza” etc. Destarte, é necessário que o trabalho evangelístico da Igreja se veja como uma ação de aconselhamento, pois “evangelização é aconselhamento e aconselhamento é evangelização”.

    Eu e você, Igreja do Senhor, precisamos retornar ao Evangelho e compreendermos “as novas do Reino” (parte 1 do livro), que precisam ser manifestadas ao outro por meio de uma “fé arrependida”, que caminha diariamente em santidade, e apresenta as bases claras do Reino (parte 2) sem evangeliquês e firmadas numa exegese correta sobre o texto de Mateus da Grande Comissão. O programa de avanço missionário da Igreja é a própria vida diária da Igreja onde quer que ela esteja, por isso é preciso voltar aos temas da natureza da Igreja, seu propósito, finalidade e vocação. Sem um correto entendimento do que é Igreja, corremos o risco de nos perdermos na nossa relação com a cultura secular e condenarmo-nos também a uma visão ideológica da ação social (parte 4).

    Por fim, Missão é instrução, comunhão, adoração e serviço. Sua mensagem deve ser cristocêntrica, pregar a obra completa de Cristo, sua encarnação, sua vida de obediência, a morte vicária, ressurreição e ascensão!

    “Sal da Terra em Terras dos Brasis” ainda nos presenteia com um estudo acerca dos dons do Espírito Santo, sua função e finalidade. Contudo, o que, especialmente, chamou-me a atenção é a ênfase que o livro dá ao tema da comunicação, mas não qualquer comunicação, a nossa comunicação é evangelizadora! Além do tema da comunicação, surpreendeu-me encontrar na obra um verdadeiro “modelo” para multiplicação de Igrejas. Ora, missão não é fazer discípulos? Discípulos não formam igrejas? Igrejas não são plantadas para resplandecer no mundo a face de Deus? Então, você encontrará neste livro um modelo de plantação de igreja desafiador para que nossas igrejas locais se multipliquem, ou melhor, sejam transplantadas!

    Enfim, surpreende-me que a 1ª edição desse livro seja de 1984 (houve uma 2ª edição em 1999 e, posteriormente, uma 3ª aumentada e revisada no ano de 2014)! O que eu quero dizer é que as ideias que teriam amadurecido e evitado que a Igreja Brasileira tivesse cometido tantos equívocos nas últimas duas décadas estavam à disposição, mas será que ninguém leu este livro? Será que nossas lideranças, nossos seminários, nossos professores nunca tiveram acesso às exposições feitas aqui neste livro? Você deve ler este livro.

    “Sal da Terra em Terras dos Brasis” é um livro que me assombrou por várias razões. Primeira, o autor foi meu primeiro pastor, assim que fui regatado do Império das Trevas. Segunda, embora o autor tenha sido meu pastor por apenas 2 ou 3 anos, os temas sobre os quais escrevi e dei aula nestes anos todos coincidem com os que li aqui nesse livro. O que me fez perguntar, durante a minha impactante experiência de leitura, se a influência do Rev. Wadislau foi tão marcante em mim a esse ponto! Terceira razão, a leitura deste livro me serviu não apenas para confirmar que muitas das coisas que vinha defendendo são realmente bíblicas (embora nem sempre aceitas pelas igrejas de hoje em dia), mas serviu-me também para proteger-me de certos desvios que, com a leitura desse livro, consegui perceber na relação Igreja-comunicação-cultura. A quarta razão é poder voltar a ter mais contato com o Pastor Wadislau e sua esposa, a Elizabeth. Por todas essas razões quero não apenas indicar a leitura deste livro, mas trazê-lo à sala de aula das EBDs e Seminários, pois seus temas e exposições são urgentes para a Igreja Brasileira de Fé Reformada, para que alcancemos o prumo certo no tratamento correto do tema de missiologia.

    Estou convencido de que este livro é fundamental para pastores e líderes de Igreja e para aquele missionário que você acompanha e ora por ele. Sem sombra de dúvida, você estará fazendo o melhor investimento possível no ministério de nossos pastores, líderes e missionários presenteando-os com esta obra riquíssima.


Fábio Ribas

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    O texto acima deve ter sido publicado, pela primeira vez, em 2015 ou 2016. Fiz uma leve correção, mas, como me fez bem reencontrar-me com o que escrevi há tantos anos, principalmente neste momento atual do meu ministério. 

sábado, 2 de dezembro de 2023

Autoestima (XIII/2023)

 

    "Autoestima", de Jay Adams, lançado pela editora Nutra, é um livro sensacional e de leitura obrigatória. Todavia, é um livro escrito há 30 anos. E daí? Daí que você o lerá perguntando-se o que é que aconteceu que ninguém leu este livro?!

    Infelizmente, o alerta dado por Jay Adams não deve ter sido bem recebido e nem impediu que a heresia da filosofia da autoestima entrasse e fincasse suas raízes nas nossas igrejas. A leitura desse livro ajudou-me a identificar ainda mais a união entre a TMI (Teologia da Missão Integral) e a chamada TL (Teologia da Prosperidade). Há alguns anos, escrevi 3 artigos dizendo que essas duas "teologias" são irmãs siamesas, cuja diferença é que uma se coloca do lado direito do espectro político e a outra do lado esquerdo. Após a leitura de "Autoestima", consigo identificar ainda melhor a raiz comum e pagã entre a TMI e a TL, que buscam nutrir tanto o evangelho da justiça social como o evangelho da prosperidade econômica. Qual a raiz, então de ambas? A busca em querer atender ao que o homem entende ser a necessidade humana, ao invés de apresentar o que, biblicamente, o homem, de fato, necessita. Veja que ambas teologias querem saciar as necessidades humanas, que elas julgam ser relevantes.

    Jay Adams mostra que a filosofia da autoestima é pagã e, por isso mesmo, jamais poderia ser encontrada na igreja. Ou se escolhe o evangelho puro e simples ou se escolhe um outro evangelho. Essa hipervalorização do ser humano é resultado do casamento entre uma antropologia anticristã com uma interpretação errada de vários textos bíblicos. O mais surpreendente é ver citações absurdas vindas até mesmo da caneta de teólogos de envergadura como Hoekema e Packer e que, com seus escritos, acabaram corroborando para o erro da filosofia da autoestima!

    Pelo livro ter sido escrito há mais de 30 anos, assim que avançamos suas páginas, ficamos com aquela sensação de tristeza por vermos que somos hoje exatamente o que o autor nos alertou que seríamos, caso deixássemos que essa cosmovisão egoísta, fútil e centrada no fosso sem fim do nosso coração entrasse em nossas igrejas: músicas antropocêntricas, pregações afáveis e superficiais e uma educação cristã que sucumbiu ao respeito excessivo e idolátrico ao outro.

    Imagine ler um livro escrito há mais de 30 anos e que, à época, chamava a atenção para o desastre que uma ideia teria e ver que, realmente, essa ideia se alastrou e hoje somos fruto desse tragédia? O que eu e você precisamos é de Jesus e não de autoestima. As pessoas não têm problema de autoestima. O que elas têm é excesso de autoestima! O livro fala que, há menos de 30 anos antes de sua primeira publicação nos Estados Unidos, ainda era possível encontrar livros que ajudavam as pessoas a se libertarem de seu amor próprio e, assim, viverem mais dedicados ao benefício do próximo. Hoje em dia, o que ocorre é exatamente o oposto! O problema é que já vivemos numa sociedade fruto dessa mudança de perspectiva: hoje, todo mundo é sensível demais, tudo ofende, tudo desrespeita; qualquer palavra num tom mais alto já magoa. Se as coisas já se encontram dessa maneira, imagine dizer às pessoas a verdade bíblica de que elas são pecadoras miseráveis e do que, tão somente, elas carecem é de Deus? Exatamente por essa realidade é que não vejo nem um pouco com bons olhos a sanha de alguns pastores e teólogos na busca por "relevância" bíblica. Lembro do pastor Caio Fábio que em todo culto gostava de cantar aquela música "quero que valorize o que você tem, você é um ser, você é alguém…". Ele dizia até que ninguém sabia quem era o autor da música e, por isso, deveria ter sido um anjo que trouxe essa música para a Igreja.

    A questão é que a psicologia da autoestima e da autorrealização é a avó da atual teologia coach e da música gospel de autorreferência antropocêntrica ("do coração de Jesus você é o centro"). A base dessa heresia é que suas necessidades precisam ser atendidas para que, então, você atenda a Deus. Um escândalo de inversão da mensagem bíblica. O cristianismo prega que você deve colocar suas necessidades de lado para servir a Deus! A Palavra de Deus é a nossa necessidade real e fundamental. O resto é subproduto acrescentado (Mateus 6.33).

    A chave para uma melhor compreensão acerca da cilada da autoestima é discernir entre necessidade e desejo. Biblicamente, são muito poucas as nossas necessidades e a fundamental delas é Deus. Entretanto, o que temos chamado de "necessidade", na verdade, são desejos e nossos desejos podem ser, sim, pecaminosos. A filosofia da autoestima revela-se pagã, quando não confronta os nossos desejos, mas, antes, os serve, colocando-os na mesa da adoração.

    Todavia, há um capítulo do livro que me incomodou, pois, no meu entendimento, ele comete o mesmo erro que tenho visto em tantos púlpitos e em aulas de conselheiros bíblicos mundo afora. E eu vou explicar aqui qual é esse equívoco.

    No capítulo 6, "Amar… como a si mesmo?", Jay Adams incorre na incoerência de explicar o texto bíblico usando a palavra "amor" na mesma categoria que o mundo a usa. Mas ele não está sozinho. Já ouvi muitos pregadores e teólogos insistirem nesse discurso, mas queria sugerir uma outra leitura. Então, deixe-me explicar o meu ponto de vista e o erro do autor de "Autoestima" (lembrando que ele não está sozinho nesse seu equívoco).

    A confusão em questão, na minha interpretação, está no tratamento que se dá ao resumo que Jesus faz da lei e dos profetas:

Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é:

Amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Mt 22. 34–36)

    A partir desse texto, vi muitos pregadores e teólogos chamarem a atenção para o fato de que não há um mandamento na Bíblia que ordene ao homem "amar a si mesmo" (e eu concordo com isso). O que eu não concordo é com a explicação do porquê isso ocorreria: "o homem não precisa de um mandamento dizendo que ele precisa se amar, porque o homem já se ama naturalmente". A ideia que pregadores e teólogos querem introduzir é que, por causa de nossa natureza totalmente depravada pelo pecado, já somos autocentrados e sempre buscamos nos amar. Ninguém, portanto, precisa ordenar que o ser humano faça o que lhe é natural fazer desde o ventre da sua mãe. Evidentemente que concordo com isso. Entretanto, e é aqui que eu quero chamara a atenção, concordo em parte.

    O problema no desenvolvimento de uma tese como essa está na "confusão de categorias" em relação à palavra "amor", pois, quando eu afirmo que não há ordenança na Bíblia para que o homem se ame, pois ele já faz isso natural e pecadoramente, eu estou dizendo que isto que o homem faz - amar a si mesmo - é de mesma categoria, qualidade e natureza que o amor que está expresso nos mandamentos citados de Mateus 22: 34–36. E isso, obviamente, não é verdade.

    Tanto no hebraico como no grego, mas talvez de uma maneira mais pontual no grego bíblico, há muitas palavras para falar do "amor". Algumas palavras são explicadas a que tipo de amor se referem a partir do contexto em que aparecem. Assim, mesmo que haja sinonímia e intercâmbio de uma palavra que parecia ser específica para descrever um tipo de amor somente, é próprio observarmos os contextos que inserem significados às palavras que usamos (e não somente trabalharmos com seus significados dicionarizados). As palavras, assim, ganham conteúdo próprio e específico de acordo com a mão do escritor, do contexto em que aparece e do tempo que também lhe muda o significado. Precisamos estar atentos a tudo isso. Sigamos em frente.

    Será que eu posso dizer, então, que não há uma ordenança de amor-próprio, porque o homem já se ama? Especificando o meu problema: será que o que esse ser humano, totalmente depravado, sente por si eu posso chamar de "amor"? Se assim o faço, estou dizendo que o que esse ser humano nutre por si é de mesma natureza do amor dos dois mandamentos de Mateus 22. Este é o ponto: não é! O "amor" que o ser humano sente por si pode ser chamado de muita coisa menos de "amor", pois o que o ser humano pode ter por si é autoestima, egoísmo, orgulho, vaidade, senso de autopreservação etc. Quando eu digo, citando o texto de Mt 22, que não há um mandamento de amar a si mesmo, porque o homem já se ama, no meu entendimento, algo muito grave ocorre: eu diminuo o que esses mandamentos estão me ensinando sobre o verdadeiro amor. Veja, se o ser humano não ama a Deus, como poderia ele amar a si mesmo? O ser humano, fora de Cristo, não ama ninguém, nem a si mesmo! É sendo amado por Deus, em Cristo Jesus, que ele descobre o que, de fato, é afinal "amor", descobrindo, inclusive, que esses sentimentos que ele nutre por si não podem ser chamados de amor. Conhecendo o amor do Pai, que está em Cristo Jesus, é que, e somente assim, ele pode rejeitar todos esses sentimentos pecaminosos que tem por si mesmo e, finalmente, ele sabe o que deve oferecer ao próximo: o amor sacrificial de Jesus - este é o amor que nos é revelado, quando Jesus resgata os dois mandamentos do Antigo Testamento e os renova em Si no Novo Testamento.

    Por isso, acredito que é um desserviço bíblico quando ouço autores, pregadores e teólogos dizendo que nos dois mandamentos de Jesus não há um terceiro mandamento de amar a si mesmo, "pois o homem já se ama". Com isso, você perverte todo o ensino de um amor que só pode ser conhecido em Cristo Jesus. Para mim, é uma confusão de categorias o que ocorre. Mas este não é um erro de Jay Adams, mas de muitos dos nossos pregadores e teólogos também.

    Tirando isso, o livro de pouquíssimas páginas é bárbaro!

Fábio Ribas

sábado, 25 de novembro de 2023

Uma nova visão (XII/2023)

     


    O livro "Uma nova visão", de David Powlison, lançado pela Editora Cultura Cristã, é uma obra que busca esclarecer os principais erros tanto do Aconselhamento como, também, das teorias da psicologia e biopsiquiatria atuais. David Powlison (PhD) é editor de The Journal of Biblical Counseling, é professor no Christian Counseling and Educational Foundation (CCEF) e no Westminster Theological Seminary. Autor de "Confrontos de Poder" e "Falando a verdade em amor", da Cultura Cristã. Devo ressaltar que, realmente, preferia uma tradução de título mais próxima do original, que é "Seeing with New Eyes". Jamais leria um livro com este título em português: "nova visão". Ele me passa uma série de impressões erradas, tanto espirituais como ideológicas. Já um título como "Vendo com novos olhos" contribui com uma ideia totalmente diferente do que o título em português tende a passar. Então, por que eu o li? Porque li o artigo "Crítica aos integracionistas atuais", do Powlison, por causa de uma disciplina de Mestrado, e só posso dizer que foi um artigo que eu gostei demais!

    A Bíblia é suficiente para responder e tratar todos os nossos problemas? Ou haveria aspectos que Deus estaria "do lado de fora" de nossas vidas? Pois é disso que o livro está falando. A Igreja precisa fazer com que as pessoas vejam Deus no contexto de seus problemas. Antes de tudo, é um livro para apresentar o conceito de "Aconselhamento". Logo no início do prefácio, ele faz uma explicação simples, mas que achei sensacional do que seria "aconselhamento": "conversas que têm a intenção de ajudar". Todavia, ele demonstra que há conversas que partem de uma perspectiva humanista e outras que podem partir sob a perspectiva de ver Deus.

    O autor escreveu esse livro com o propósito de escrever mais outros dois livros. O segundo abordaria a metodologia e o terceiro seria apologético. Queremos ver a vida como um todo, vendo-a com o olhar de Deus - o Aconselhamento bíblico é capaz de conduzir as pessoas a essa "nova visão", ou, ainda melhor, o Aconselhamento bíblico pode levar as pessoas a verem com novos olhos suas próprias vidas e as circunstâncias que as cercam. Na verdade, como o próprio autor nos diz: "Deus tem a visão real das coisas. E Deus nos ensina seu olhar".

    O autor foi muito ousado, na minha opinião, mostrando o que Paulo fazia com as Escrituras e indicando que façamos o mesmo. Na verdade, ele mostra que já fazemos o mesmo que Paulo também fazia. Para isso, ele está usando como base a carta de Paulo aos Efésios, que eu também amo muito. Se os três livros que mais oferecem deleite para Powlison são Efésios, Salmos e Lucas, para mim, os quatro livros que me oferecem o mais profundo deleite são: Jó, João, Efésios e Hebreus. Assim, que maravilha ler a seção sobre Efésios, que, da maneira como vejo, tem uma importância missiológica central no trabalho transcultural. Interessante é esta pergunta: "Por onde devo começar?", porque nunca pensei em começar por Efésios. Sempre começo pelo Evangelho de João. Por isso, foi ainda mais interessante ler Efésios a partir de uma perspectiva muito diferente da que estou acostumado. Concordo que é uma carta de teologia prática, só que eu praticava na área missionária e não de aconselhamento. O mais impressionante foi ver Powlison fazer um tipo de leitura, mostrando que Paulo fazia "links" com o Antigo Testamento o tempo todo. E é exatamente isso que eu também chamo a atenção das pessoas quando leio o Evangelho de Jesus segundo João. Este também está em plena comunicação com o AT o tempo todo.

    Quem é Deus para você? O conselheiro tem que ser alguém com uma fé verdadeira, viva e vital! É preciso que Deus seja a pessoa em quem você confia, pois você falará dEle a pessoas que estão como barquinhos se debatendo contra as ondas em meios às tempestades. Deus está transformando as pessoas nesse processo. Deus age em meio ao seu Povo. Para o aconselhado é fundamental saber quem é Deus e compreender que Deus só se faz conhecido por meio de Jesus Cristo. É por meio de Cristo que Deus realiza seus propósitos (gostei demais da analogia com o tapete a ponto de parar de ler, na hora, sair correndo e mostrar à minha filha Gisele a ideia de como vemos do lado de cá o tapete com remendos, rasuras e defeitos, mas, do lado certo, que é o lado de Deus, Ele vê a beleza que não vemos). Deus derrama graça sobre nós e essa graça revela que o pecado é o nosso problema mais profundo. Deus age na história e, mais do que isso, a leva a um maravilhoso clímax!

"A História humana trata do justo Rei e seus aliados que invadem o império das trevas. Cada um escolhe seu lado. Fingir neutralidade e agnosticismo é apenas encobrir as trevas. O Deus vivo e Cristo não são mera opção. A escolha é esta: vida ou morte, conheça-o ou morra. Sejamos perdoados pela maravilha do que Cristo fez por nós ou recebamos sobre a cabeça aquilo que merecemos" (p.52).

    A citação acima me faz lembrar que as tantas teorias que as pessoas inventam sobre Deus podem ser digeríveis a elas, mas nada, nenhuma filosofia, religião ou invencionice da cabeça dos homens irá alterar nada do Ser de Deus - e isso sempre me foi muito assombroso. É uma escolha de lados numa guerra e não um jogo para ver quem vence o concurso de melhor narrativa sobre Deus. E isto, essa consciência de que os homens estão perdendo tempo em vãs filosofias, sempre foi muito assustador para mim. Por fim, ainda no capítulo 02, volta o insistente tema que mais tem estado presente na minha vida: a união com Cristo. Eu tenho estudado muito sobre nossa união com Cristo. E depois de ter vivido tanta coisa no campo missionário, tantas coisas que eu não entendia, mas, nestes últimos meses de estudos no Andrew Jumper, eu encaixei peças que faltavam. Hoje, vejo "missões" conectada ao Aconselhamento, ao Pastorado e à União com Cristo. Claramente, consigo montar esse quadro no fim de tudo.

    Sempre trabalhei aconselhando pessoas que possuem vários papéis e funções diferentes em seus contextos na família, na igreja e no trabalho. Todos somos filhos ou pais; empregados ou patrões, liderança ou leigo. Enfim, somos todos o tempo todo chamados a nos tratar mutuamente com respeito e amor. Independente dos cargos e funções, chamados a nos relacionar com graça, perdoando-nos mutuamente. Contudo, como tem pessoas dentro da Igreja que a usam como esconderijo de suas carências e anseios de poder, machucando, pisando e manipulando "em nome de Jesus", colocando não só instituições, mas também suas biografias, acima de tudo, ainda que, para saírem ilesos e imaculados, precisem sacrificar inocentes no altar de seus egos. Ocapítulo 03 falou muito ao meu coração. "Reciprocidade" e "mutualidade", palavras tão caras e, ao mesmo tempo, tão raras!

    Saímos de Efésios e viemos para o Salmo 131 (e também o 130). Precisamos nos colocar neste salmo para entendê-lo, memorizando-o e aplicando-o em nosso coração. Sossego e paz, frutos de um coração que está no Senhor. Interessantíssimo o autor ressaltar as vozes que aparecem no Salmo 131. 

"A maior parte do barulho em nossa alma tem como causa a tentativa de controlar aquilo que não pode ser controlado. Agarramos o vento; nos enfurecemos; temos medo e, por fim, nos desesperamos" (p. 80).

     Descansa, ó alma! Porque tu foste chamada por teu Criador pelo teu próprio nome. Foste conclamada, ó alma, a esperar no Senhor. E chamada à esperança agora e eternamente! Trazer o Salmo 131 como tratamento ao nosso coração e ao coração do aconselhado é bênção sobremaneira e foi isso o que o autor fez . Eu quero memorizar o Salmo 131. Tornar suas palavras as minhas palavras e ministrá-las ao meu coração antes de aconselhar outros. Ajuda-me, Senhor!

    O salmo 10 é surpreendente. O capítulo 5 do livro de Powlison aborda esse salmo muito bem, fazendo, inclusive, um roteiro de aplicação na vida do sofredor a partir desse salmo. Como continuar a amar sem amargar? Na área de aconselhamento, muitos dos livros que li, até agora, dão sempre a ênfase na nossa responsabilidade diante do mal inevitável que tenhamos sofrido. Agora, há também uma abordagem em que, as pessoas que nos ferem, elas também precisam ser nomeadas: elas são pessoas nocivas. Elas são soberbas, voluntariosas, impiedosas e predadoras (Sl 10: 2–11). Precisamos resolver isso com graça, a graça de Deus, em nossos corações. O Senhor consertará os males cometidos! A ajuda, a verdadeira ajuda, vem do Senhor.

    Temos muitas razões por que nos preocuparmos, todavia, Jesus nos deu razões ainda mais poderosas para não sucumbirmos ao medo e à ansiedade. Nas páginas 116 e 117, o autor ainda nos passa seis recursos que devemos usar quando nos encontramos ansiosos e obcecados. Muito bom! Fim da primeira parte do livro.

    Na segunda parte do livro, o autor tratará de casos reais, temas sobre os quais ele se debruçou. Mas o capítulo 07 tem algo, logo no início, que é muito importante para mim: perguntas! Vivemos num tempo de ativismos e resultados e não paramos para refletir. Engolimos e não mastigamos e sequer damos tempo à digestão. Tudo isso é sempre muito irritante para mim. Todavia, no início do capítulo, ele já nos inunda com várias perguntas, pois elas é que nos ajudarão a ajudar o outro. Precisamos pensar nelas. Precisamos entendê-las. São perguntas "raio-X" para vermos não só o visível, mas também o invisível. É claro que aqui, mais uma vez, vou lançar meu olhar missionário e lembrar que talvez - quem saberá precisamente? - 80% d população da terra não responde às perguntas diretamente, ao contrário do que nossa escola nos ensina a fazer: sempre precisamos estar atentos às circunstâncias e às histórias, causos e mitos. Só assim, nessas respostas culturais indiretas é que conseguiremos pinçar as respostas às perguntas "raio-X". Só precisamos não nos esquecer disso.

    "Nossos desejos são pecaminosos, porque são desordenados" - foi muito importante entender isso. Podemos ter maus desejos, mas até os bons desejos são pecaminosos, quando eles dominam a nós. O que você deseja? É uma pergunta que revela quem é o seu deus. A maneira como nossos desejos nos controlam e o modo como nos lançamos a eles para satisfazê-los, revelam nossas idolatrias. Podemos mudar? SIM. Não somos seres imutáveis e nem estamos condenados à escravidão eterna e ao fatalismo. Precisamos, então, entender que Deus é o que interpreta o nosso coração da maneira perfeita; e em Cristo encontramos a verdadeira satisfação; e no Espírito Santo, o poder regenerador e santificador para nossa mudança.

    O amor de Deus não é incondicional. Ele pode ser contracondicional. Isso significa que "Deus não me aceita como eu sou - Ele me ama apesar de ser como eu sou". Deus me ama o bastante para que eu dedique a minha vida toda a me tornar cada vez mais parecido com Cristo. Esta frase é uma verdadeira rebelião contra a cultura que nos cerca e estabelece uma quebra de paradigma. Poderíamos nos aprofundar mais nessa questão do "amor" pregado aí fora, mas deixarei para falar sobre o amor numa próxima postagem.

    Graças a Deus, eu já havia entendido que o fato de uma pessoa ter tido um mau pai, isso não dificulta entender Deus como Pai, pois é o contrário o que deve ocorrer: Deus é o pai perfeito! Ninguém na terra é perfeito, nem professores, pais, amigos etc, todavia, Deus é tudo isso perfeitamente para nós. Ele é o modelo de como ser um pai e não o contrário. Deus jamais será um pai igual ao que tivemos, porque nossos pais é que deveriam aprender o que é a paternidade a partir de Deus.

    O cristianismo é a terceira via. Nem propostas moralistas e nem propostas liberalizantes. O evangelho é capaz de oferecer o autoconhecimento verdadeiro e ir na fonte real de nossos problemas. O cristianismo tem a sólida base da Palavra de Deus, enquanto as propostas humanistas da psicologia só acabam cobrindo com maquiagem o coração doente do homem.

    Esta nossa ambiguidade nos leva a ser bênção e maldição. Precisamos realmente entender o que a Bíblia nos diz para não cedermos ao que ocorre com Pedro que, num momento, diz coisas maravilhosas, para, logo em seguida, ser boca de Satanás. Precisamos ir ao coração. Ali, realmente, está o âmago do que deve ser tratado. Como conselheiros, não oferecemos propostas mais profundas que o pecado, pois é o pecado o que há de mais profundo e que deve ser confrontado: "a mudança envolve deixar os desejos idólatras e vir para Jesus que morreu por pecadores, que vive para fazer-nos amantes de Deus e do próximo, e que voltará em glória e alegria". Na verdade, a ambiguidade também nos alerta para as soluções propostas, pois até mesmo bem intencionados conselheiros bíblicos podem, vez ou outra, por alguma razão, falharem numa leitura e ajuda.

    Vivemos numa sociedade regida pelos sentimentos ou, pelo menos, pelo que ela expressa no uso da palavra "sentir". Por trás do verbo "sentir", ocultam-se experiências, emoções, crenças e desejos. Se queremos conhecer as pessoas, precisamos ouvi-las, ouvi-las em suas experiências e emoções. Como elas reagem, o que elas sentem diante do passado, presente ou futuro, tudo isso é essencial ao conselheiro. Do mesmo modo, precisamos aprender a conversar com elas. Orientá-las.

    Definitivamente, temos chamado amor ao que não é amor. Temos rotulado de amor nossos pecados, cobiças e mais vis sentimentos e desejos e nada disso é amor! O capítulo mais sério, particularmente, é o que Powlison trata sobre as 5 linguagens do amor. Quantos de nós não já usamos e incentivamos estes livros? Chocado, pois, Powlison mostra que estamos investindo no pecado, pois não estamos curando relacionamentos, mas, sim, criando "cobradores de sentimentos", esperando que o outro me satisfaça. Enfim, este é um capítulo muitíssimo sério e que me abriu os olhos para algo que jamais enxerguei antes: há pessoas que querem aprender a linguagem do outro para a manipulação e o controle.

    Quero também cultivar isto: a certeza que a fé viva opera em amor inteligente e com propósito. Não é fácil. Verdade, não é fácil viver bem a própria vida e não é fácil pensar bem também. Enquanto lia este livro, o tempo todo passavam no meu coração milhares de pessoas que, por todos estes anos, trabalhei com elas. Eu consegui encaixá-las em várias partes do livro do Powlison e pensei o quanto este livro é importantíssimo para mim e para elas. Quando terminei a leitura de "Uma nova visão", assim que fechei a última página, um amigo liga para mim e diz que um outro amigo dele, um cristão muito sincero, compartilhou que quer fazer psicologia. Ele estava ligando para mim para perguntar o que eu achava, porque ele não se sentia bem em ver seu amigo tão cristão se enveredando por uma disciplina que ele sabia ser tão humanista. Ele me perguntou se havia algum livro que ele pudesse oferecer ao amigo dele. Advinha minha resposta? "Uma nova visão", de David Powlison.

sábado, 4 de novembro de 2023

Palavra por palavra (IX/2023)

 

    Este livro não estava sequer na lista de desejados para 2023. Um livro que só fiquei sabendo da existência, porque fora citado em outro livro (este, sim, o livro do Powlison, um livro que estava na lista dos que TINHA que ler). Agora, feliz e infelizmente (rsrsrs), o livro de Anne Lamott está posto: por que fui atrás de satisfazer essa curiosidade adâmica em querer experimentar o que me fora apenas sugerido? Aliás, acredito que Powlison estava falando mal da Anne Lamott. Ou melhor, Powlison a usou para dizer que ela era "menos ruim" do que o Gary Chapman, das "5 linguagens do amor". Como eu já havia lido o livro do Chapman, fui fisgado a ler essa tal de Anne Lamott. Parece, dentre algumas informações que acabaram vindo à tona na minha pesquisa, que ela é também uma espécie de "líder espiritual" para alguns, uma espécie de "paulo coelho gospel" e também pareceu ter uma teologia bem flácida ao gosto dos tempos atuais que temos vivido. Foi assim que cheguei a este livro dela sem a menor pretensão sobre o que, de fato, encontraria. E qual não foi a surpresa? Havia lido apenas três páginas e elas já foram o suficiente para que eu me pegasse pensando: "Ferrou! Agora, fui fisgado! Como que alguém escreve assim?".

    Minha vida parece dividida entre livros que quero ler e livros que tenho que ler. Contudo, vez em quando, sou surpreendido por livros como o da Anne, que compõem uma terceira e toda maravilhosa lista: a dos livros que insistem em ler a mim, enquanto os leio! E aqui a autora também confidencia ter tido semelhante experiência a essa que acabei de narrar. Ela diz que a leitura do "Apanhador no campo de centeio" fez também isso com ela, de ver num livro os sentimentos que estão no nosso coração, mas que não sabemos bem como expressar. Várias reflexões que ela faz sobre a escrita e a leitura também as faço. Portanto, entendo bem quando ela diz que "escrever nos motiva a olhar a vida mais de perto". O escritor é alguém que, antes de tudo, tem que ter sua atenção aguçada ao que está a sua volta. E eu sou tão concentrado naquilo que estou lendo, que me vejo totalmente desconcentrado ao que está no meu universo periférico. Mas isso não acontece só enquanto estou lendo. O mundo pode estar despencando sobre a minha cabeça, mas eu continuo atento ao que você está me dizendo ou à paisagem que estou admirando. A gente foca nos detalhes. Por isso, como diz Lamott, a gente vira escritor, pois a alternativa seria nos tornarmos criminosos!

    Não há como negar que a literatura é uma busca (e a escrita também) de vermos o mundo de um modo criativo, espiritual e estético. "Passei a acreditar que, com um lápis na mão, talvez pudesse fazer algo mágico acontecer", confessa a autora, que se empenhou mesmo nisto de ser uma escritora profissional, a ponto de largar os estudos e se dedicar à tarefa! O pai de Lamott era um escritor também e a descoberta do mundo da leitura e da escrita se dá com ele. E a partir do enfrentamento do câncer, ela começa a escrever como foi a doença na vida do pai para sua família.

    Você quer escrever? Então, pare agora o que vc está fazendo e leia este livro! Comece dando pequenos passos, realizando pequenas tarefas, nada de escalar o Everest. Faça esboços ruins, mas faça! E jogue fora o perfeccionismo. Ele é um limitador da sua criatividade. E não duvide: fumaça e bagunça são fundamentais. Uma das razões que mais gostei desse livro é que ele é uma "oficina de escrita". A autora compartilha conosco o que ela compartilha com seus alunos em sala de aula sobre escrever.

    Um livro leve, cheio de citações, que me deu grandes ideias e me desafiou a pensar a escrever algo maior, talvez um romance. Anne Lamott escreve deliciosamente. Cheia de bom humor! Destaco a parte sobre termos pessoas junto a nós, andarmos juntamente com amigos escritores, para lermos os textos uns dos outros e nos ajudar quando os nós do desânimo, da falta de criatividade e do bloqueio mental chegarem. Também achei muito boa e engraçada toda a explicação que ela dá sobre difamação e como podemos evitá-la. Pois, afinal, escrevemos para contar a verdade, mas como fazer isso sem sermos condenados por difamação? Pois bem, ela dará ótimas dicas sobre como proceder (uma das dicas é inusitada e engraçadíssima).

    Escrevo para contar a minha versão da história. Aprendi isso com minha mãe. E sobre isso, certa vez escrevi:

    Aprendi com minha mãe, a Filósofa urbana, que a vida de cada um de nós é feita de verdades privadas e versões públicas. E aquele que não traz do privado ao público a sua própria verdade estará condenado a ver seus inimigos contarem sobre você as narrativas deles! Toda omissão é uma concessão à versão alheia. A verdade só virá a público se falarmos o que pensamos e o que vemos. O nome disso? Liberdade de expressão!

    É impressionante como a versão que prevalece é a de quem tem poder e amigos poderosos, infelizmente. Contudo, escrever e contar a sua versão talvez dê esperança a quem também já sofreu, foi traído e se viu numa situação de injustiça. O mundo é mau e os seres humanos somos pecadores! Sempre há o amigo íntimo que levanta o calcanhar contra a gente, ainda que tenhamos alimentado esse "amigo" na mesa da nossa casa e com o pão de nossa intimidade, como nos diz o salmista.

    É inevitável que haja tribulações no percurso, mas, quando escrevo, estou dizendo ao outro que ele não está sozinho e que é possível superar e perdoar, assim como é necessário aprendermos a nos proteger de vampiros emocionais e psicopatas (sim, eles existem e já os encontrei no meu caminho mais do que poderia imaginar!). Com o tempo, a gente vai descobrindo que há muitas pessoas aí fora que foram magoadas e se tornaram vingativas e que não querem se sentir magoadas sozinhas. Elas insistem em puxar outros para dentro de seus buracos-negros de solidão e miséria espiritual. E elas conseguem, porque muitas usam do poder que outros  -  ou nós mesmos   - deram a elas. Acredito que há muito de inveja por aí mundo afora, por isso é que certa vez eu brinquei (seriamente) dizendo: "Sim! É claro que eu perdoo. Não quero carregar mágoas e nem deixar que criem em meu coração raiz de amargura. Contudo, embora eu perdoe, eu não esqueço, pois todo escritor precisa de matéria prima para compor os vilões de suas histórias"! Deixo abaixo as palavras acertadas de Anne Lamott:

    Acho que este é nosso objetivo como escritores: ajudar os outros a ter essa sensação de deslumbramento, uma nova visão das coisas que podem nos pegar de surpresa, que invadem nosso mundo pequeno e isolado. Quando isso acontece, tudo parece mais espaçoso. Tente passear com uma criança que fica dizendo: "Uau! Olha aquele cachorro sujo! Olha aquela casa incendiada! Olha aquele céu vermelho!" A criança aponta e você olha, enxerga e começa a dizer: "Uau! Olha aquele jardim grande e maluco! Olha aquele bebezinho tão pequenininho! Olha aquela nuvem escura e assustadora!" Acho que é assim que deveríamos viver no mundo - presentes e perplexos.

    Minha oração de todo dia: "Deus, que eu nunca perca esse deslumbramento que o Senhor me deu"!

Fábio Ribas

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O tempo é a imagem de algo


Aión, um dos deuses do tempo


    “Quando fores me visitar, eu já terei viajado”. Estou me dirigindo num discurso no tempo presente a alguém, que, eu sei, no futuro, irá visitar-me. Contudo, ao visitar-me naquele futuro, este tempo será lá, assim, um tempo presente e guardará também em si um tempo passado, que será o fato da minha ausência agora anunciada, do nosso desencontro num momento ainda por vir: um passado que, assim como o futuro, ainda não ocorreu e quem sabe se ocorrerá ou não?

  Outras nuances entre o tempo e a linguagem, entre o tempo e a língua portuguesa, especificamente, são as riquezas, que a educação moderna sonega aos nossos alunos, dos pretéritos mais que perfeitos, do futuro do pretérito e do pretérito do subjuntivo. Um pretérito mais que perfeito que nos revela que todo passado pode ocultar um tempo ainda mais anterior (ou interior). Um futuro do passado que pode expressar essa frustração humana diante de um tempo que jamais se realizará. E, enfim, um tempo em que o passado é um desejo que aponta para um futuro incerto, o pretérito do subjuntivo. Tudo isso reflete o texto de Gênesis 1: 28, que é o mandato divino para que dominássemos sobre toda a natureza. E o tempo faz parte da natureza criada. O homem luta contra o tempo para dominá-lo por meio da linguagem também. Assim como Deus ordenou a organização do caos pelo poder da sua Palavra, a criatura humana reflete esse mesmo modelo. O tempo deve ser dominado pela palavra humana. É possível?

    Poderíamos criar uma geração de filósofos e teólogos se existissem mais professores verdadeiramente preparados na arte da Filosofia da Gramática. Outros casos que me ocorrem é o do famigerado gerundismo que parece tentar esticar ad infinitum o tempo presente, para que o futuro nunca chegue na maioria dos departamentos públicos. O que demonstra que professores bem treinados poderiam usar do ensino da gramática para explorar as doenças mais profundas da falta de caráter da depravada alma brasileira expressada pela nossa língua, propondo um tratamento pelo uso saudável da correta locução verbal em tempo não esquivo. 

    E se quisermos ampliar esse rol de divertimentos linguísticos veremos que tempo e espaço acabam sendo moldados pela cosmovisão e a língua revela/domina essa realidade para nós. É o que ocorre com as palavras machar e temol, que, em hebraico, respectivamente, significam “futuro” e “passado”. O lúdico linguístico, porém, está no fato de que machar significa também “atrás” e temol, por sua vez, significa “à frente”. Portanto, o futuro está “atrás” e o passado “à frente”, porque o passado está claro diante dos nossos olhos, mas o futuro oculta-se em algum lugar ou, de alguma maneira, está atrás de algo que nos impede de discerni-lo. Ainda na língua hebraica, quem não se lembra da repetição do sábado e do ano do jubileu? O tempo é cíclico. O tempo está sempre retornando (diferente da nossa cosmovisão de tempo linear). É o shanah hebraico. Mas é uma repetição singular, única, jamais igual ao que já houvera, um “eterno retorno do irrepetível”. Quem sabe não seria por uma característica como essa que Mircea Eliade afirmou existirem línguas em que o tempo futuro não existe? 

    De qualquer maneira, o tempo e a sua relação com a linguagem não poderia escapar dos estudos da nossa Bibliotheca, uma vez que, para Platão (em o Timeu), o tempo é a imagem móvel da eternidade. Na definição platônica, estas três palavras precisam de uma atenção especial: “tempo”, “imagem” e “eternidade”. Pois, como vimos no meu texto “O mundo é a imagem de algo”, aqui também Platão nos surpreende com o tempo sendo uma imagem de algo, a saber, da eternidade. Todavia, nada pode ser tão rapidamente apresentado, pois os conceitos originais estão em grego e as palavras nos revelarão segredos: O tempo (cronos) é a imagem (mimesis) da eternidade (aión). É preciso tempo para fazer como Krónos, devorando nossos filhos, que são nossas palavras, até que elas façam parte de nós e, depois de serem vomitadas, possam herdar a vida eterna. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

O Deus da Festa e a Festa de Deus

 

    A partir da parábola da grande festa (Lc 14: 16–24), Jesus alerta que, embora o convite da salvação seja para todos, não serão todos os que participarão da festa ali narrada. A parábola nos fala de um homem que prepara uma grande festa, mas a festa é menosprezada pelos convidados oficiais. Então, são chamados os desprezados pela religião daquela época, aqueles que não poderiam dar nada em troca ao dono da festa, caso fossem convidados. A parábola apresenta também um último grupo que se vê obrigado a participar da festa, porque ainda haveria espaço naquela casa. Enfim, com essa parábola, Jesus anuncia aos judeus a plenitude dos gentios — o milênio da pregação da Igreja — ou seja, a preparação para a Festa das festas.

    O povo judeu percebeu, desde cedo, que seu Deus era um Deus de festa. O judeu celebrava, embora não houvesse nenhuma base bíblica para isso, o 1º dia do ano deles como uma data separada para comemorar o que seria o dia em que Deus criara os céus e a terra. Há, portanto, quem entenda que João, no primeiro capítulo de seu evangelho, tenha exatamente exposto Jesus no contexto dessa festa da criação, para a qual o judeu dera o nome de “Festa da Lua Nova”. De qualquer modo, a criação de Deus é uma festa, uma sublime orquestração sinfônica de graça e beleza. Festa ornamentada ainda pela celebração do 1º casamento e que atinge sua sublimidade quando Deus convida o homem e a mulher para celebrarem com Ele no sétimo dia. Entretanto, desobedientes, fomos expulsos daquela festa bonita. Como pecadores, perdemos o direito de comer do fruto da árvore da vida.

    O desenrolar da história mostra como sentimos falta daquela festa original, mas, por outro lado, como estamos totalmente incapazes de celebrar Deus novamente. Vemos, a partir da expulsão da festa bonita de Deus, que tentamos reparar o estrago que fizemos realizando nossas próprias festas. Por isso, o que encontramos na história de Caim, nas gerações perversas do tempo de Noé (e na embriaguez deste também) e na torre de Babel são simulacros, distorções, corrupções daquela festa bonita de Deus. Todavia, o Dono da festa já decretara preparar, separar e ensinar um povo sobre essa festa bonita da qual, inevitavelmente, sentimos saudades. Aqui, as narrativas de Sodoma e Gomorra, as festividades cultuais dos povos que cercavam as famílias dos patriarcas hebreus e também as festas coloridas e sobejadas dos egípcios são outros exemplos da depravação das festas empreendidas pelos seres humanos. Mas, então, que festa afinal é essa Festa de Deus?

    Moisés foi a faraó e disse que o Dono daquele povo os estava chamando para festejar no deserto (Êx 5:1 e 10:9)! As festas na história de Israel deveriam ser sinais de uma Festa maior e não um simples retorno àquela festa do Éden. Deus deu festas ao seu povo: a festa da Páscoa e dos pães asmos; a festa do Pentecostes; a festa dos Tabernáculos. E por todo período anterior ao nascimento de Jesus, outras festas foram instauradas pelo povo: o Dia da Purificação e a Festa da Dedicação são exemplos. Todavia, o povo de Israel falha em aceitar o exclusivismo dessas celebrações: a festa é de Deus e deve ser para Deus somente! Não podemos realizá-las como queremos, segundo nossas imaginações e, muito menos, realizar festas para Deus e para Baal também! Aqui, Elias surge como o profeta que restaura a festa ao verdadeiro Deus, no entanto, o povo logo se esquece do fogo que testemunhou descer do céu. Por isso os cativeiros da Assíria e da Babilônia: “façam, então, festas aos deuses deles”, sentencia Deus, o Dono da Festa.

    Mas, afinal, que Festa é essa festa exclusivista de Deus? Na narrativa do Evangelho segundo João, este ressalta que as festas do AT eram festas que discorriam sobre as características do Único que poderá nos levar de volta à festa bonita de Deus. Desse modo, eis Jesus conforme nos apresenta João a cada capítulo do Evangelho: Jesus é o autor e a razão da festa da criação; numa festa de casamento, eis que velhas coisas se tornam novas por causa de Jesus; na festa da Páscoa, Jesus fala sobre o novo nascimento; às vésperas da festa de Pentecostes (as primeiras colheitas), Jesus é chamado de Salvador do mundo; na festa dos Tabernáculos, Jesus cura e perdoa os nossos pecados; nova festa da Páscoa e Jesus é o Pão do céu; nova festa dos Tabernáculos e Jesus é, mais uma vez, o protetor do povo: a fonte da água, a água do ES; a festa do sábado — Jesus é o nosso sábado; na festa da Dedicação (quando os judeus comemoravam a retomada do templo que fora dominado por Antíoco Epifânio), Jesus é o Templo novo; e o grande desfecho dessa apresentação do evangelista tem como cenário, mais uma vez, a festa da Páscoa, na qual Jesus é a própria Ressurreição. Assim, conforme João, eis que Jesus é a nossa Festa! As festas do AT eram sombra e não necessitavam mais ser celebradas, pois o perfeito veio e o perfeito é Jesus (Col 2:19). Jesus é o Dono da Festa, a Festa é para Jesus, Jesus nos convida para a sua Festa — este é o evangelho da Salvação! Pois, agora, em Cristo Jesus, há uma Festa maior e muito mais bonita.
    
    Mas qual, exatamente, é essa Festa ainda mais bonita, a Festa diante da qual todas as outras eram apenas sombras? A Festa das bodas do Cordeiro: o casamento do Filho de Deus com sua noiva! Aleluias! Uma festa muito mais bonita do que a do casamento de Adão e Eva e muito mais superior do que a festa das bodas de Caná. A Festa que já havia até mesmo sido anunciada pelos profetas do AT. Jesus vai se casar com a sua noiva e, neste exato momento, precisamos anunciar a todos os povos que a noiva de Jesus é a Igreja pela qual ele morreu na Cruz do Calvário!

    Por fim, o tema da festa se apresenta triunfante: “Fiquemos alegres e felizes! Louvemos a sua glória! Porque chegou a hora da festa de casamento do Cordeiro, e a noiva já se preparou para recebê-lo. A ela foi dado linho finíssimo, linho brilhante e puro para se vestir. O linho são as boas ações do povo de Deus. Então o anjo me disse: — Escreva isto: “Felizes os que foram convidados para a festa de casamento do Cordeiro!” E o anjo disse ainda: — São essas as verdadeiras palavras de Deus” (Ap 19: 7–9).

    Comecei este texto com uma mensagem tirada de uma parábola contada pelo próprio Jesus: o convite da salvação é para todos, mas não são todos que participarão da Festa bonita do casamento do Cordeiro Jesus. “Felizes as pessoas que lavam as suas roupas (no sangue do Cordeiro), pois assim terão o direito de comer a fruta da árvore da vida e de entrar na cidade pelos seus portões! Mas fora da cidade estão os que cometem pecados nojentos, os feiticeiros, os imorais e os assassinos, os que adoram ídolos e os que gostam de mentir por palavras e ações” (Ap 22:14 e 15).

    Muitos cristãos que trabalham num contexto indígena de culturas bem específicas e singulares, em que as festas são um elemento importantíssimo, já sabem que muitas das festas indígenas na verdade são luas que escondem uma triste e fria face oculta. Sabem que, do outro lado dessa alegria em festejar, em dançar e se congregar com seus parentes e se pintar, há relações cruéis de apaziguamento de espíritos que precisam ser aplacados de suas investidas opressoras para que possa haver uma boa economia diária na vida da comunidade. Creio, então, que a Bíblia nos afirma que há uma Festa verdadeiramente bonita e feliz oferecida pelo próprio Deus aos povos indígenas também. O receio de muitos indígenas (influenciados pelos inimigos do Evangelho) é que os missionários venham a proibir as alegrias de suas expressões culturais. Ao contrário, e este é o foco deste meu texto, precisamos anunciar a eles a alegria e o regozijo da reconciliação com Deus na celebração da Festa bonita de Deus! Portanto, ouçamos: eis o convite sendo feito pelo próprio Noivo, o Dono dessa Festa. E que essa bela noiva indígena, lindamente ornamentada, possa também estar preparada para responder ao seu Noivo: “Venha! Venha! Venha! Eu também quero festejar”!

 Fábio Ribas

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...