sábado, 20 de junho de 2026
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Como as pessoas mudam
“É impossível que o seu pecado surpreenda Aquele que morreu por causa dele. A cruz também lhe oferece a liberdade de procurar e receber perdão todas as vezes em que falhar. Nós não temos de carregar os pecados que Cristo levou sobre si. Ele pagou o preço que nós não podíamos pagar para que nunca tivéssemos de pagá-lo de novo” — esta é a citação estupenda! E ela nos encoraja, dentro do contexto do livro, a compreender que Deus nos salvou, porém também nos santifica diariamente por meio da mesma cruz! Lindo demais!
Comecei a ler este livro ainda na semana da disciplina de “Aconselhamento em situações de crise”, no Andrew Jumper, em SP. Contudo, por alguma razão que desconheço, não conseguia absorver positivamente, mas, ainda assim, terminei o primeiro capítulo. Isso deve ter mais de mês. Acho que, no primeiro capítulo, tive dificuldade com os “ismos” que ele apresenta, porque, chega um momento, em que tudo parecia meio que a mesma coisa. Por outro lado, pode ser mesmo que eu ainda não estava ali preparado para embarcar nesta leitura. Abandonei a leitura e, quase um mês depois, retornei e, por alguma razão que também desconheço, amei tudo o que li.
O Evangelho é o poder de Deus para a salvação e também para a santificação diária — esta é a tese que nos é recordada pelo autor. Infelizmente, há uma lacuna entre o nosso passado e o nosso futuro daquilo que entendemos como nossa vida cristã. No cap. 1, os autores irão abordar essa lacuna que temos quanto ao evangelho: sabemos que Deus nos perdoou do nosso passado e sabemos que teremos o céu como morada um dia, contudo, não compreendemos como a graça tem poder em nossas vidas no presente. E é sobre essa lacuna, então, que trata o livro.
Exatamente porque não sabemos da graça presente, tentamos suprir nossas vidas com coisas que não são Cristo. Mas é Cristo que é suficiente para mim agora e sempre! Se Jesus é suficiente, e ele é, então por que corremos atrás de falsas esperanças? É sobre isso o capítulo 2. Um dos pontos que os autores tratarão no cap. 3 é que devemos ter sempre o foco de aonde Deus está nos levando: o céu. Esta certeza deve mudar a minha relação pessoal com Cristo e com as pessoas ao meu redor. Se estamos casados com Cristo, então o que importa é a nossa fidelidade e pureza espiritual. E esta é a nossa identidade! Este é o assunto do cap. 4.
No cap. 5, os autores enfatizam que fomos salvos, fomos adotados para vivermos numa família. Somos desafiados a ser moldados uns pelos outros no Corpo de Cristo. Precisamos usar nossos dons em associação.
Nada substitui a Jesus. Contudo, sem perceber, o nosso ativismo religioso termina por ser um fim em si mesmo. Fomos adotados para termos intimidade com nosso noivo e crescermos em conhecimento dele. No capítulo 6, os autores dão um roteiro de autoconfrontação para o leitor, mas que também serve, obviamente, para aconselharmos a outros biblicamente.
No cap 7, é um “estudo de caso”. Como eu e vc reagimos aos problemas, ao “calor” da situação? Os autores apresentam Salmo 88 e Tiago 1 para não esquecermos que Deus nos ama em Cristo em toda situação. Por isso, devemos nos aproximar dele com confiança.
No cap 9, lembramos do ensino bíblico de que a vida é um deserto. E a maneira como reagimos quando o calor aumenta mostra quem somos e o que, então, devemos tratar em nós mesmos. Ficamos irritados? Tentamos jogar a culpa em alguém? Duvidamos da bondade de Deus? As respostas as essas perguntas revelam onde Deus quer nos tratar nisso tudo.
Vc é um espinheiro ou uma árvore frutífera na sua caminhada cristã? Eu e você precisamos responder, diante de Deus, esta pergunta.
A verdade é que colocamos a culpa dos nossos erros e pecados numa fonte fora de nós: o outro, a família, a sociedade etc. Encarar que não somos responsáveis pelo mal que nos fizeram, mas somos responsáveis pela maneira como reagimos a esse mal é fundamental para atingirmos o ponto que realmente importa: o nosso coração.
O capítulo 10 me lembrou muita coisa. Uma delas é quando abrimos mão de um apartamento, porque não queríamos amar mais a bênção de Deus do que o Deus da bênção. A sessão final do capítulo com as perguntas para autoconfrontação é muito boa. Também gostei de ver que caímos nos mandamentos de 4–10, porque, na verdade, já caímos antes nos 1–3.
Se queremos uma vida cristã saudável e que isso se reflita em casa, na família e na igreja precisamos levar este livro muito a sério. Assim, seguiria a orientação que os autores dão ao final do livro: o estudaria com meus companheiros de caminhada. E assim como disse antes, é um livro que, por meio de tantas histórias e perguntas, serve para nós, porém se torna também um precioso auxílio no tratamento do outro, do meu aconselhado.
Eu já havia lido o “Guerra de palavras”, que é muitíssimo bom também. Quando ele relembra a carta de Tiago no “”Como as pessoas mudam”, na hora lembrei do “Guerra de palavras”, que é um livro que, em seus capítulos, também traz muitas perguntas para trabalharmos com o nosso próprio coração e juntamente com outros. Não foram só a estrutura e as perguntas de “Como as pessoas mudam” que me lembraram o “Guerra de palavras”, mas as histórias da família dele (que eu acho que só pode ser do Tripp). Não posso negar que achei graça das situações que ele enfrenta na casa dele com a esposa e os filhos.
Tenho investido no aconselhamento com líderes indígenas cristãos e suas famílias. Por isso, este livro me ajudará demais como bússola para chegar lá. As culturas indígenas, como a maioria das culturas existentes no mundo, não são de abordagem direta, abrdagem de “toma a pergunta e me entrega a resposta”. São culturas de não confrontação, não resolução direta dos seus problemas. A abordagem, o método é outro, porque o sistema de pensamento é outro. Na verdade, é um sistema de pensamento mais próximo ao bíblico do que o que encontramos em parte da cultura brasileira e em parte da Ocidental. “Como as pessoas mudam” oferece princípios e caminhos que devo trilhar e adaptar no meu contexto de trabalho transcultural. Todavia, embora a cultura seja diferente, “a fábrica de ídolos”, que é o coração de todo homem em quaisquer culturas, é comum a todos nós.
Tenho lido muitos livros de aconselhamento e todos os que li lançam essa luz sobre irmos ao ponto, assim como a Bíblia o faz: o coração. Outros livros, então, que também citaria é o “Aconselhamento Redentivo”, do Rev Wadislau Gomes e o “Manual do Aconselhamento Redentivo”, do do Jônatas Abdias. Ambos cheios de histórias, casos concretos, perguntas e que apresentam roteiros que nos auxiliam nesse processo de saber onde, afinal, queremos chegar. Ainda farei resenhas desses livros e postarei por aqui.
Fábio Ribas
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
A vida de David Brainerd
Quem foi David Brainerd? Em onze capítulos, organizados e comentados por Jonathan Edwards, livro publicado pela Editora FIEL, em 2012, 322 páginas, na verdade, é a reedição de um clássico. Iniciamos uma jornada espiritual de um jovem que se dedicou fervorosamente a ter uma vida para a glória de Deus. A vida devocional de Brainerd é acompanhada, de forma impressionante, em seu diário. Os embates que ele tem consigo mesmo são impressionantes.
Brainerd é fruto daquela geração forjada e impactada no Primeiro Grande Despertamento dos Estados Unidos (1730 - 1740). Sua vida foi muito curta, ele falece aos 29 anos de idade, no dia 09 de outubro de 1947. Seu ministério como pastor ordenado é curto e sua atuação missionária entre os indígenas é ainda mais breve. Contudo, assombrosamente impactante para todos os que o ouviram pregar, não somente indígenas mas muitos colonos também, este rápido “cometa” brilhou a beleza de Deus a todos que o viram passar. Brainerd viveu numa época em que, para que se pregasse a Palavra de Deus, só com autorização e licença dada mediante avaliação de um corpo de pastores. Hoje em dia, “qualquer um” é chamado ao púlpito, para desfilar suas “impressões” acerca do que leu.
O livro começa com o prefácio e a nota introdutória escritas pelo Jonathan Edwards. Logo no inicio, Edwards nos chama a atenção para aquilo que ficará evidente durante toda a leitura do diário:
"Há uma coisa facilmente discernível na vida de Brainerd, que por muitos pode ser considerada uma objeção às evidências extraordinárias de sua religiosidade e devoção, a saber, que ele era, por sua própria constituição e temperamento natural, muito inclinado para a melancolia e desânimo de espírito".
Certamente, estas melancolia e desânimo seriam hoje diagnosticados por “depressão”. Durante todo o diário, vemos suas lutas contra si mesmo nesse aspecto de sua saúde mental e as sempre recorrentes dores no corpo. Com tudo isso, mesmo assim, vemos um servo do Senhor disposto a levar a mensagem do Evangelho aos pagãos do seu tempo. Sua força espiritual, dada por Deus, revela-se na sua perseverante e verdadeira vida de oração. Nesta, destaca-se ainda mais sua vida de intercessão. Sua preocupação com os indígenas, com a igreja, com até mesmo os inimigos do evangelho e de seu ministério, por tudo isso Brainerd intercedia em fervorosa oração. A visão diferenciada e verdadeiramente dedicada de Brainerd revela-se até no seu empenho de sustentar financeiramente a formação de novos pregadores e missionários, a partir do próprio bolso.
Particularmente, no cap. 5 e 6, há muitas notas sobre sua abordagem evangelística e, até mesmo, uma sensacional carta sobre como ele pregava aos indígenas. E ela é um maravilhoso exemplo de comunicação contextualizada e preocupada com o interesse do aprendizado do outro. Principalmente no cap. 6, vemos sua saúde piorar. Nos capítulos seguintes, depois de toda sua labuta e lágrimas, aprouve a Deus que ele pudesse ver os frutos e a colheita de seu trabalho. O que ocorreu naquele ministério foi um verdadeiro derramar do Espírito Santo em quantidade avassaladora, como que comportas tivessem sido abertas no céu.
Os testemunhos de conversão dos indígenas, narrados em seus diários, só mostram como que o verdadeiro Evangelho das doutrinas da Graça prevaleceu! As mesmas lutas que vemos quando da conversão do próprio Brainerd, encontramos nas conversões dos indígenas: a profunda percepção da corrupção do coração humano e a total impossibilidade de querermos a Deus por nós mesmos. Aliás, um dos momentos mais marcantes do livro, foi a conversão de uma indígena que, como fruto de seu reconhecimento e agradecimento por sua salvação, iria até mesmo ao inferno, caso assim Jesus ordenasse. As conversões do livro lembraram muito o impacto que eu tive com a conversão e a perseverança de muitos indígenas na minha própria jornada. Tais experiências sempre me levam a testemunhar a muitos pastores e missionários que “eu conheci indígenas muito mais crentes do que os membros não indígenas que vocês têm em muitas de suas igrejas”.
Outra ideia impactante de Brainerd e que eu nunca havia pensado desta maneira é quando ele reflete sobre Deus não precisar dele para fazer a obra. O que eu achei sensacional é a maneira como ele pensa sobre isso. Explico: Deus decretou os fins e também os meios para se alcançar esses fins, inclusive, para alguns casos, segundo Brainerd, Deus pode ter decretado como “meio para se alcançar um fim” exatamente não ter “meio” algum. Brainerd entende que Deus decretou que os indígenas seriam discipulados, mesmo que Brainerd não pudesse mais permanecer no meio do povo para continuar a obra. Deus poderia, na verdade, ter dispensado ele como “meio”. Achei isso sensacional! Em outras palavras, Deus não precisa de você. Mas, se Deus, colocou você ali, então, nossa responsabilidade só aumenta. Por outro lado, caso Deus tenha dispensado você de algo específico ou pontual, lembre-se: a obra pertence a Ele, Ele é o dono da obra, portanto, descanse na certeza de que Aquele que começou a boa obra haverá de terminá-la!
A morte dele é assombrosa! Uma morte que não é uma passagem, mas um profundo anseio que ele sempre expressou, e que, finalmente, a recebe como resposta de suas orações. Um livro fundamental e que me faz pensar: e se eu o tivesse lido naquele fim de década de 1990? O que teria sido diferente na minha caminhada, pois, indubitavelmente, eu sei que eu sou os meus livros e as minhas circunstâncias.
Fábio Ribas
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram
Afinal, o que são “avivamentos”? Ao longo da história, desde os tempos bíblicos, podemos reconhecer essas assombrosas intervenções divinas sobre seu povo. Como a própria palavra (“avivamento”) sugere, essa deve ser uma ação sobre algo morto ou quase morto, moribundo. Quando quase já não se vê fé entre o povo de Deus e a frieza, o nominalismo e a hipocrisia assaltam de modo alarmante, ou mesmo quando a idolatria e a confusão religiosa e espiritual invadem, então, pode ser que, em momentos assim, haja uma assustadora, inesperada e imprevisível ação divina em prol do seu Povo. Digo “pode ser”, pois, numa boa, saudável e teocêntrica teologia, “avivamento” pertence ao plano exclusivo da vontade de Deus.
Muitos irão discordar, eu sei, pois já vi muita “receita” para induzir avivamento por aí. Aliás, o que mais vi nestes anos todos de caminhada é a “produção” de avivamento ou, como muitos gostam de afirmar, um “novo pentecostes”. Evidentemente, na esteira de muitas dessas manipulações, as pessoas ficam ainda mais confusas e caem como presas fáceis nas mãos abusivas de psicopatas e abusadores transfigurados em religiosos. Isso, por fim, gera ainda mais frustração, vazio e mágoas em corações que, uma vez passando por essas tristes experiências, coram de vergonha e constrangimento quando se percebem enganadas por mercenários da fé. Às vezes, não duvido, muitos desses líderes religiosos talvez não sejam malévolos, apenas ignorantes cheios de boas intenções e, como tais, são cegos que foram guiados por outros cegos e acabam repetindo a fórmula que foi usada com eles também.
Na história mais recente, dois avivamentos realmente chamam a minha atenção por possuírem características bem diversas do que compartilhei no parágrafo acima: “o Grande Despertamento”, nos Estados Unidos, e “o Avivamento Coreano de 1907”. Este também ficou conhecido como o “Pentecostes coreano” e aquele outro, como o “Primeiro Grande Despertamento”. Ao estudarmos, vemos que o avivamento que se deu nas colônias americanas, entre os anos de 1730 e 1740, envolveu nomes como o do inglês George Whitefield, e os americanos David Brainerd e Jonathan Edwards. A ênfase desse avivamento se deu em torno de temas como regeneração, arrependimento de pecados, nova vida, graça divina e — pasmem! — as doutrinas da fé calvinista. Contudo, o que mais chama a minha atenção na relação entre esses dois avivamentos — o americano e o coreano -, na verdade, é que ambos foram seguidos por uma tremenda convulsão social. Duas décadas depois do Grande Avivamento, deflagra-se o início da Guerra de Secessão, que vitimou mais de 600.000 pessoas. Tendo ocorrido logo após o Grande Avivamento das 13 colônias americanas, a guerra entre o Sul e o Norte se deu entre irmãos da fé. Já havia parado para pensar sob esse prisma? O avivamento coreano de 1907 foi seguido por profunda perseguição e um longo período de conflitos entre os cristãos da Coreia e seus algozes, a partir do domínio japonês em 1910. O que me faz pensar que a situação trágica que essas igrejas viveram, tanto nos Estados Unidos como na Coreia, teria sido muitíssimo pior, caso Deus não tivesse preparado esses irmãos para o que ainda estava por vir.
“O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram”, de William Blair e Bruce Hunt, é leitura obrigatória para conhecermos a história dos nossos irmãos coreanos e reconhecermos um bom referencial para o que seja um verdadeiro avivamento. É um testemunho ocular, pois William Blair, então com 25 anos de idade, chegou na Coreia em 1901. Ele foi um dos pregadores na noite em que ocorreu o reavivamento de 1907. O livro nos dá um contexto anterior de como foi a chegada do evangelho naquele país, os avanços missionários desde o século anterior e as histórias de homens como Robert J, Thomas, o mártir da Coreia em 1865. Além disso, os autores retrocedem para mostrar como que a Providência divina vinha trabalhando na Coreia para preparar tudo aquilo que estava para ocorrer. Uma das questões demonstradas é como o Confucionismo destruiu o Budismo na Coreia. Particularmente, considero que um dos pontos altos do livro é o profundo conhecimento cultural e religioso que os autores têm e como que eles conseguem mostrar para o leitor o desenrolar dessa história de conflitos culturais, religiosos e filosóficos.
Um dos maiores desafios das Igrejas presbiterianas na Coreia foi o enfrentamento ao “culto aos antepassados”. Tudo isso já ocorrendo antes de 1907. Na cidade de Pyeongyang, num encontro dos cristãos, numa reunião sem nenhum grande entusiasmo, ocorreu o inesperado. Com a Palavra sendo pregada e a Bíblia ensinada dia após dia, finalmente, quase no encerramento do encontro, um homem pediu para ir à frente e, então, começou a confessar pecados ocultos. Naquele momento, outros que o ouviam, constrangidos pelo Espírito Santo, começam também a confessar roubos, adultérios e mentiras publicamente. O quebrantamento foi impressionante. E durou dias! Os participante, voltando para suas vilas, contavam o que havia ocorrido em Pyeongyang e, ouvindo os relatos, outros cristãos dessas vilas começavam a também confessar os seus pecados e se reconciliar com aqueles que foram defraudados. Igrejas surgiram, milhares de novos crentes vieram à luz e, como contei, em 1910, a Coreia é anexada pelo Japão. Sem esse avivamento, sem essa visitação especial do Senhor, como essas pequeninas igrejas de poucos crentes teriam resistido aos anos que se seguiram? Parece-me que, à semelhança do que houvera nos Estados Unidos, Deus fortalecera as igrejas para a convulsão social que estava prestes a eclodir.
O grande embate, durante o domínio japonês, deu-se com o Xintoísmo, pois este preconizava a adoração nos altares ao Imperador, que era tido como um deus. Evidentemente, ainda que algumas denominações e cristãos encontrassem justificativas para continuarem nessas práticas diante dos altares, muitos irmãos coreanos não se dobraram. Por isso, ocorreram a prisão, a tortura e a morte de muitos. A igreja, porém, estava fortalecida pelo avivamento de 1907. Muitos foram martirizados, mas eu quero contar apenas uma das tantas histórias que o livro traz.
Há um erro na edição que eu li. Uma mesma história é contada duas vezes. Quatro páginas repetindo a mesma narrativa que acabara de ser escrita. Contudo, há uma ironia nisso, pois, para mim, essa história em particular é tão surpreendente que, ao repeti-la, parece que estão nos dizendo: “Você entendeu mesmo o que acabou de ler? Vou contar mais uma vez. Presta atenção”! Qual a história? Parece filme. Um casal de coreanos, no momento de maior perseguição dos japoneses, consegue sair escondido da Coreia e ir para o Japão. Ao chegarem na sede do governo em que estavam discutindo sobre a lei da Liberdade Religiosa, no momento certo, eles lançam sobre os membros do parlamento os folhetos e gritam: “E o grande propósito de Jeová Deus”! Os folhetos conclamavam o Japão a tornar o cristianismo sua religião oficial e, além disso, advertia que, se o Japão continuasse a perseguir os cristãos, seria destruído. Pasmem! — Isso foi em 21 de março de 1939. O Japão não voltou atrás na sua perseguição. O que ocorre em 1945?
Deus age na história de cada um de nós, mas Ele também continua a agir na História para que todas as coisas sigam rumo ao momento em que tudo O glorificará! Espere no Senhor, por que é do alto que virá a Justiça divina.
quinta-feira, 24 de outubro de 2024
Musas e músicas (XLIV/2024)

“Feliz é quem as musas amam”, escreveu o poeta Hesíodo. Os grandes gregos, como ele, encontraram nessas figuras femininas uma boa tese para explicar o mistério da criação. Na mitologia, elas eram nove. Filhas de Zeus e Mnemósine, a deusa da memória. Conta a lenda que Apolo, em uma tarde qualquer, passeando por Montparnasse com sua flauta, foi seduzido pela visão das nove ninfas saltitantes, cantando, dançando e colhendo flores. Elas também ficaram encantadas com a beleza e a música daquele deus grego. Acompanhadas por Apolo, as talentosas irmãs passaram a se apresentar nas festas do Olimpo e conquistaram a simpatia dos deuses com seu charme e sua leveza.
A cada uma delas foi designado o dom de inspirar uma arte: Tália era a mu-sa da comédia. Clio inspirava a história. Érato, a poesia amorosa. Euterpe, a música. Terpsícore, a dança. Melpômene, a tragédia. Calíope, a poesia épica. Polímnia, a poesia sacra. Urânia, a astronomia. E ai de quem despertasse a ira das musas! Quando desafiadas, elas se tornavam terríveis, capazes de cegar inimigos e arrancar escamas de sereias. Na maior parte do tempo, porém, eram criaturas adoráveis, afinadas e cheias de inspiração para dar. Amantes das águas e das fontes, seu pássaro era o cisne. Seu cavalo, o alado Pégasus, presente de Atenas. Seu templo era o Museion, daí o termo museu. E, não por acaso, a palavra música vem de musa" (p. 23).
Cresci em uma casa extremamente musical. Havia coleções e coleções já organizadas de LPs dos mais variados estilos naquela sala da casa da minha mãe. Elas gostavam de tudo, as minhas irmãs e minha mãe, desde Roberto Carlos até a discoteca dos anos 70, havia raridades em negros bolachões. Muitos desses discos acabaram se perdendo no tempo, mas a formação musical ficou em mim. A influência de Agnaldo Rayol, Nelson Gonçalves, Vinicius, Toquinho e Tom Jobim, por exemplo, está aqui dentro de um acervo de memórias que trago sempre.
Essa influência toda levei ao campo missionário. O que me fez ser muito atento com as produções musicais das mais diversas culturas com as quais trabalhei, e não apenas indígenas! Um dos momentos musicais que mais me marcaram foi quando conhecemos o CTG (Centro de Tradição Gaúcha) de Canarana. Aquilo pregou em mim por tudo o que significava numa cidadezinha de apenas 20.000 habitantes no interior do Estado do Mato Grosso. Eram os encontros das famílias sulistas para eventos culturais de música e poesia próprias. As crianças = meninos e meninas — recitavam poemas enormes para seus pais, famílias e amigos entusiasmados e entusiastas. Coisa linda de se ver, cultura passando de pais para filhos e sobrevivendo naquelas famílias, que se viam em terras distantes e longe de seus ancestrais.
Nem sei como cheguei ao livro “Musas e músicas”, de Rosane Queiroz, mas li suas páginas com gosto e muitíssimo prazer. São as histórias por trás das musas que inspiraram as músicas da MPB. Algumas de amores impossíveis, outras de amores platônicos, adultérios imaginados, outros efetivados. Musas fictícias, outras jamais confessadas. Quem é a Lygia que inspirou Ligia, de Tom Jobim? Como se deram esses encontros e desencontros? Como, digam-me, João Gilberto faz aquela outra letra para a conhecidíssima “Ligia” de Tom Jobim?
São tantas histórias que acabamos passeando pela história do Brasil nas letras de músicas que eu conhecia, mas também de outras que nunca antes ouvira. “Gilda”, música feita para a nona e última esposa de Vinicius de Moraes, eu não conhecia. Assim como me era desconhecida “Risoflora” de Chico Science. “Drão”, de Gilberto Gil, desfez a história errada que eu tinha do que teria sido a inspiração dela.
O livro é um prazer. A gente lê rapidamente, quisesse eu. Mas não quis. A cada música e a cada musa, eu ouvia no youtube as referidas e buscava também as fotos na internet das tais musas para mergulhar nesse universo todo. Um universo todo feminino. Ao terminar o livro, duas constatações: primeiro, ao conhecer os contextos de textos, essas letras e melodias ganham uma camada nova de admiração; segundo, infelizmente, nossa música já foi muito, mas muito melhor do que a produzida. Enquanto lia essas letras e ouvia essas músicas do livro, lembrei-me que o Brasil de Vinicius, Tom Jobim, Belchior, Chico Buarque, Caetano Veloso, Sá e Guarabyra, 14 Bis, Boca Livre… — a lista dos letristas e poetas de nossa MPB não tem fim! — todavia, saber que com tanta referência maravilhosa para os nossos jovens, o Museu da Língua Portuguesa abriu espaço para quem? Anitta e suas letras e músicas! É de corar de vergonha! O Brasil declinou, mas não foi uma mera declinada “à la torre de Piza”, foi uma hecatombe ladeira abaixo com direito à lama na boca e dentes quebrados nessa queda!
Eu tive uma surpresa maravilhosa na leitura do livro. O primeiro texto é da autora, em que ela narra o processo de criação da obra, que nasceu de uma pesquisa de mais de 10 anos! O segundo texto não indica de quem é a autoria, assim, enquanto lia o segundo, achei que seria também dela. O que me levou à surpresa do terceiro texto do livro, pois, quando eu cheguei ao fim, vi que aquele resumo histórico fascinante apresentado ali sobre a “história da musa” era da autoria de Isolda Bourdort. Isolda é autora de músicas lindas como “Outra vez”, Jura secreta” e “Um jeito estúpido de amar”. E é com o último parágrafo desse texto dela que eu termino o meu:
“Nos últimos tempos, a musa não é mais a mesma. Do mito da namorada morna à vulgaridade da cachorra, da popozuda, passando pelos mais diversos papéis, ela conquistou o direito de ser dona do seu pedaço. Mesmo que esse espaço seja tão pequeno que nele só caibam aparelhos de ginástica, potes de cremes antirrugas e anticelulite, roubando a vaga dos filhos e dos livros, mas deixando lugar para muitos espelhos — embora ela mesma não consiga enxergar o que aconteceu ao longo do caminho, para que hoje, tão segura de si, procure fugir exatamente daquilo que por todo esse tempo procurava: essa tal liberdade, que na verdade veste a sua solidão”.
Fábio Ribas
PS — Gente, e aquela história com a música “Marina morena”, que quase acaba em morte? rsrsrsrs
terça-feira, 15 de outubro de 2024
Netotchka Nezvanova (XLIII/2024)

O surgimento de Dostoiévski na cena cultural russa se deu no momento em que as ideias socialistas em várias de suas versões tomavam a sociedade intelectual da época. Por isso mesmo, vemos um Dostoiévski sendo arrastado para o centro desse debate e também para sua conversão ao socialismo, que é o fator que causará sua prisão e exílio na Sibéria. Dentre tantas versões socialistas que eram apresentadas, duas concorriam pelo coração dos russos no século XIX: a versão utópica, que absorvia os ensinos do cristianismo, mas não suas doutrinas transcendentes, sendo, portanto, apresentado como um moralismo que devia substituir o cristianismo; e a versão hegeliana ateia e totalmente antirreligiosa. Nesta, o homem deveria abandonar qualquer transcendência, pois a referência estava na humanidade e não na divindade.
Adepto da primeira versão, a utópica, Dostoiévski surge como o melhor realizador da escola literária do seu tempo, a “escola natural”, fortemente de cunho socialista e preocupada em mostrar a massa, o povo, que era explorado pela aristocracia daquele tempo. Assim surge “Gente pobre” (leia aqui). Esta obra teve aceitação antes de sua publicação, pois partes dela eram lidas no círculo intelectual conhecido como “a Plêiade”. Contudo, por diversos fatores, depois de lançada, não foi acolhida unanimemente nem pela crítica e nem pelo público. Ao livro “Gente pobre”, seguiram “O duplo”, “A senhoria” e “Noites brancas”. A minha percepção é que, em cada uma dessas obras, está diante de nós um autor diferente. Se seu primeiro romance pode se enquadrar sob a etiqueta de “romance social”, o que dizer de “O duplo”? Em que a loucura e a fantasia, a realidade e o sonho, a verdade e a mentira nos deixam perplexos em suas situações tragicômicas. Em “A senhoria” é apresentado, por exemplo, o tema do gótico e do místico e, finalmente, em “Noites brancas”, a narrativa soa como um romance juvenil de fortes arroubos emocionais. Quantos Dostoiévskis, não? Mas o que haveria de comum entre esses romances todos? Alguns dizem que a figura do “sonhador” ganha cada vez mais espaço em suas narrativas e também a figura da “mulher infernal” já vai se delineando nesses romances da primeira fase (Joseph Frank). Por minha parte, há um ponto em comum que saltou-me aos olhos agora na leitura de “Netochka Nezvanova”, 5º romance do autor russo.
Em “Gente pobre”, os afetos românticos não consumados se dão entre Makar e Bárbara, mas a diferença de idade entre os dois é de uns 20 anos! “O duplo” apresenta uma paixão delirante do personagem principal por Klara; “A senhoria”, além de repetir o tema do amor delirante, aborda o tema do incesto. “Noites brancas” apresenta, mais uma vez, o tema do amor que se desfaz em nada. Em todos esses, de fato, as mulheres são apresentadas nessas situações de darem esperança, mas, logo em seguida, abandonarem seus pretendentes. Agora, em “Netochka Nezvanova”, a narrativa se concentra apenas no universo feminino e no tema da dubiedade e do erotismo, mas entre as mulheres da história. Ou, sendo mais preciso, as duas personagens femininas têm por volta de apenas dez anos de idade. Assim, a questão sexual e psicológica individual dos personagens de Dostoiévski é proeminente em todos os seus livros, mesmo em “Gente pobre”, seu romance de estreia e tido como um romance “naturalista e de cunho social”. A psiquê perturbada e desencaixada será o tema comum que tomará espaço definitivo no Dostoiévski após o exílio na Sibéria.
(spoiler)
Em “Netochka Nezvanova”, Netotchka foi encontrada caída na rua e levada à casa do príncipe. Os pais de Netochka morreram. Seu pai, que descobriremos, na verdade, ser seu padrasto, fora um genial músico, mas que o ciúme, a inveja e o alcoolismo o enlouqueceram. Sua mãe, vítima de um casamento difícil e de enorme carência emocional, afetiva e financeira, foi levada desta vida pela miséria e abuso do marido. Há na casa que adota Netochka, além da princesa, a tia do príncipe e o próprio príncipe. A história é contada por Netotchka, quando já adulta. Ela narra as lembranças de sua infância trágica e infeliz, mas ela amava o pai padrasto. Ele casara com sua mãe quando Netotchka tinha 3 anos de idade. Seu pai mesmo morrera, logo depois que ela nascera. Este romance, que Dostoiévski interrompeu por causa do exílio retornando a ele só seis ou sete anos depois, é construído em duas partes. A primeira, na casa do príncipe. A segunda, numa outra casa em que a menina tem que ir morar, quando a família do príncipe se muda. A primeira parte cria muitas expectativas que não tem continuidade. Fiquei com aquela impressão de ter tomado fôlego, prendendo a respiração, para um mergulho que não aconteceu. E a segunda parte, depois de tudo, não se conecta à primeira. Enfim, embora estejam ali todos os grandes temas do autor — inclusive o tema do sacrifício cristão — , achei um “romance menor”. Talvez por ser mesmo isto: um romance de transição entre tudo o que ele escreveu até agora e o Dostoiévski que emergirá da Sibéria. Aguardemos.
Fábio Ribas
quinta-feira, 10 de outubro de 2024
Violência e armas (XLII/2024)
“O fato de que armas de fogo registradas legalmente são quase nunca usadas em crimes sérios não deteve os governos ingleses de continuar a apertar os controles ao armamento” (p. 195). Esta frase surge no capítulo que tem por título “somente os criminosos possuem armas”. Tanto o título do capítulo como a frase com que iniciei o texto retratam a realidade brasileira, todavia, fico perplexo que estejam descrevendo a realidade da Inglaterra.
Joyce Lee Malcom, autora de “Violência e armas”, é Ph.D em História Comparada, especialista no estudo de leis constitucionais do período britânico e colonial americano, irá nos mostrar a falácia de quem defende que o menor uso de armas significa uma menor onda de crimes. Para isso, em seu livro, era desenvolverá a presença de armas de fogo desde o tempo medieval até a história do século XX da Inglaterra. Além disso, ainda nos oferecerá um precioso capítulo em que compara a situação atual da Inglaterra com os Estados Unidos, país em que a garantia da proteção individual é garantida na Constituição.
“Armas cometem crimes?” é a pergunta com que a autora inicia o primeiro capítulo do seu livro. Mais uma vez, fiquei perplexo que num livro sobre a história do armamento e desarmamento da Inglaterra pudesse, na verdade, parecer que falasse dos brasileiros. A pergunta é de resposta tão óbvia que jamais poderia imaginar que se desse em contexto inglês. Já estou acostumado, no Brasil, a mostrar e defender que a grama é verde, contudo, diante de outros países com histórico de defesa do direito individual é surpreendente que, para eles, também vejamos que a manipulação e a distorção da realidade ocorram.
Primeiro mito combatido no livro é que a Inglaterra sempre foi um país violento. Porém, com o controle de armas pelo cidadão comum, a violência no país cresceu assustadoramente no século XX até os dias atuais. Cresceu como nunca antes, desde a Idade Média inglesa. Vamos comparar o que eu disse com o seguinte outro fato, “…o fato enigmático de que a era Vitoriana conseguiu manter uma taxa invejavelmente baixa de crimes violentos, apesar dos numerosos problemas sociais e de nenhum controle sobre as armas” (p. 13). Quer mais?
“Armas de fogo — mosquetes, espingardas e armas curtas — tornaram-se de uso mais comum no século dezesseis, quando os homicídios já estavam em declínio. De lá até 1920 não houve restrições efetivas à sua posse. As duas tendências se cruzam: os crimes violentos continuaram claramente a declinar ao mesmo tempo em que as armas se tornavam cada vez mais disponíveis” (p. 32).
A autora passa a nos fornecer os eventos históricos que desenvolveram e aprimoraram o sistema jurídico inglês e aqui um dos pontos centrais é que “a defesa própria foi há muito tempo reconhecida como não somente uma, mas como a “lei primária da natureza” (p. 35).
Há detalhes no desenvolvimento histórico dos crimes que são fascinantes e tendem a mascarar a realidade que temos do nosso próprio passado. Por exemplo, na Idade Média, o número de crimes contra pessoas poderia ser ainda menor, mas “os jurados podem ter desejado proteger a família do falecido, já que a lei daquela época punia o suicídio com o confisco dos bens imóveis da pessoa pelo rei” (p. 43). Embora por todos os séculos anteriores ao século XX, o número de crimes contra propriedades era sempre maior do que o de crimes contra pessoas, descobrimos o crescente número de infanticídio ocorrido nos séculos dezesseis, dezessete e dezoito, tornando-o um dos crimes mais comuns da Inglaterra.
Quando começam a surgir, por parte dos governos, as primeiras restrições à posse de armas por cidadãos comuns, isto refletia o desejo do governo em controlar grupos revolucionários. Assim, o padrão se intensificava cada vez mais: quando em guerra, armava-se os cidadãos e, uma vez vindo o período de paz, o próprio governo ia e desarmava o seu cidadão. Ainda que a maior parte dos assassinatos ocorre-se “com aquilo que se encontrava à mão no calor do momento” (machadinhas, facas, pedras etc), foram as armas de fogo o alvo dessas leis. Isto demonstra que, assim como em todos os lugares do mundo, o governo quer é se proteger contra um cidadão que resolva proteger-se de ações governamentais exageradas e invasivas.
O que foi dito no parágrafo acima é tão óbvio que, mesmo com dados e estatísticas favoráveis às armas de fogo (isto é, as pessoas envolvidas em crimes contra outro ser humano dispunham sempre de outros objetos para atentar contra a vida), ainda assim era contra as armas de fogo que cada vez mais as leis restritivas se impunham.
Por fim, o que pensar quando a própria Inglaterra entrou numa espiral de desarmamento do cidadão comum contra todos os dados e estatísticas. O que só me leva a encarar a realidade de que aquele dito que diz “contra fatos não há argumentos” é pura ingenuidade. O que vale é: “contra a ideologia não há fatos”.
Fábio Ribas
sexta-feira, 4 de outubro de 2024
Nos passos de Hannah Arendt (XLI/2024)
Nestes últimos anos, além de vários artigos e ensaios, tive a oportunidade de ler “Eichmann em Jerusalém”, “Homens em tempos sombrios”, “Origens do totalitarismo”, “O que é política” e, neste exato momento, tenho em mãos a última obra escrita por Arendt, lançada após sua morte, “A vida do espírito”, leitura que já estou tendo o prazer de fazer. Pretendo ler também sua obra inaugural “O conceito do amor em Santo Agostinho”. Aliás, descobri que essa primeira obra filosófica de Arendt recebeu críticas terríveis de Karl Jaspers, seu orientador e amigo de sempre. É muito interessante acompanhar não apenas o contexto histórico, mas, principalmente, as características da personalidade da jovem filósofa de apenas 22 anos de idade que contribuíram para as críticas recebidas sobre sua tese em Agostinho.
Por tudo isso, ler a biografia “Nos passos de Hannah Arendt” foi uma experiência apaixonante, particularmente por Laure Adler oferecer um roteiro bibliográfico de formação da Hannah Arendt. Assim, podemos acompanhar, durante cada etapa da vida da filósofa, os livros que ela lia, os autores que devorava, os poetas nos quais ela se refugiava nos tempos difíceis. Adler também vai marcando, passo a passo, o momento em que Hannah escrevia seus artigos, ensaios e livros. Resultado? Preciso reler o livro de Laure Adler, fazendo esse roteiro bibliográfico de Hannah, sobretudo agora que foi lançado o “Escritos judaicos”, obra que reúne os artigos de Hannah Arendt até os anos 60.
Acredito que meus primeiros contatos com Hannah Arendt se deram ainda na Faculdade de Letras, por causa de seus escritos na área de educação americana, nos quais ela criticava a postura vitimista da comunidade negra e o que ela considerava um uso errado das crianças negras por seus pais na luta pelos direitos de ir à escola dos brancos, colocando essas crianças em situação de risco. Hannah não acreditava que o racismo deveria ser combatido com criação de leis antirracistas, pois estas teriam um efeito contrário na sociedade. Obrigar por meio da lei as crianças negras a frequentarem escolas de brancos, lugares em que elas eram humilhadas, maltratadas e indesejadas levanta, para Arendt, a indagação se valeria a pena “forçar o real e deixar essas crianças viverem o inferno, em nome de uma luta contra a segregação, impor que elas se tornassem os heróis da luta antirracista”. Hannah foge sempre dos clichês politicamente corretos e denuncia que “há também uma derrota de autoridade dos adultos, que abdicam de sua responsabilidade ao delegar ao Estado a preocupação em se ocupar de seus próprios filhos”. Hannah pergunta: “Será que chegamos ao ponto de pedir às crianças para mudar o mundo ou melhorá-lo? Será que procuramos conduzir nossas batalhas políticas no pátio de recreação das escolas?”.
Esta é Hannah Arendt: uma filósofa que resolveu pensar em tempos sombrios e que, certamente, arcou com as consequências de fazer perguntas tão obscenas quanto “os judeus são responsáveis por seu extermínio?”. Para Hannah, o “mecanismo de apagamento voluntário do ser judeu precedeu e talvez tenha autorizado o Holocausto”. O livro de Adler, portanto, é uma imensa narrativa sobre os embates, guerras, tragédias, genocídios e assassinatos vividos e refletidos por essa judia nascida alemã em pleno século XX.
Adler nos dá o contexto dos judeus que, por tanto tempo, ainda no século XIX, lutaram pelo direito de serem recebidos como cidadãos na Alemanha, mas que, repentinamente, seus filhos veriam crescer no século seguinte o movimento do Nacional-Socialismo e sua política antissemita. Judeus ou alemães? Essa crise de identidade acompanhará aquela geração de judeus alemães que cresceram junto com Hannah Arendt.
“Nos passos de Hannah Arendt” retrata muitíssimo bem toda a polêmica que acompanhou Hannah diante da publicação de “Eichmann em Jerusalém”, obra jornalística em que ela expõe a cooperação dos Conselhos Judaicos na confecção das listas dos que seriam mandados para a morte nos Campos de Extermínio dos nazistas. Embora essa cooperação já fosse do conhecimento dos tribunais e governos antes mesmo do próprio julgamento do nazista Eichmann, ela expõe o fato de uma maneira que a indispõe com muitos dos líderes e anciãos judeus da época ao ponto de vários rabinos escreverem às comunidades judaicas orientando-as para que, durante a comemoração do Ano Novo, elas pregassem contra Hannah Arendt. Laure Adler pinta com todas as graves cores a perseguição, o ódio, a difamação e injustiças sofridas por Hannah, que foi criticada muito mais pelo que disseram que ela disse (mas não disse) do que pelas coisas que, de fato, escreveu. Adler, porém, não esconde as falhas, os erros, as contradições e o orgulho de Hannah Arendt. O próprio fato de, como conselheira editorial, ela ter impedido a publicação, antes do lançamento de “Eichmann em Jerusalém”, do livro do historiador Raul Hilberg, que já apresentava toda a documentação sobre a cooperação dos Conselhos Judaicos ao regime nazista, demonstra estes traços negativos da filósofa.
É em “Eichmann em Jerusalém” que Hannah Arendt apresenta o seu famoso conceito de “banalidade do mal” ao defender que o ser humano não precisa ser “mau” para praticar a maldade, fugindo das caricaturas tão propagadas do louco nazista ou do sádico de suástica e também do funcionário público estúpido. Ela percebe que qualquer um de nós, “pessoas comuns”, podemos cometer as atrocidades que foram empreendidas por pessoas como Eichmann. Ao desenvolver essa tese, Hannah quer refletir sobre três coisas: 1) a natureza do mal; 2) como evitar que um novo genocídio ocorra de novo; e 3) o que leva pessoas comuns como Eichmann a se tornarem uma peça numa engrenagem assassina.
A partir desse conceito de “banalidade do mal”, Hannah demonstra que a origem das ações criminosas perpetradas por pessoas como Eichmann reside no momento em que elas abdicam do seu direito de pensar, entregando-se à moral fornecida pelo Estado por meio da lei. Elas abrem mão da própria consciência, abrem mão de refletir, de pensar, de julgar. Para Hannah Arendt, portanto, o ser humano, qualquer ser humano, torna-se agente do mal quando não reflete, não pensa, quando abre mão da própria consciência e adota, enfim, a moral do Estado ou do grupo.
Particularmente, entre as contradições da filósofa, a que mais me chamou a atenção foi que, na vida amorosa, Hannah Arendt aceitou a submissão a dois homens abertamente contrários à causa judaica: Heidegger e Heinrich. O primeiro, filósofo que aderiu ao Nazismo e fechou as portas da Universidade para professores judeus, foi amante de Hannah. O segundo foi seu marido e, como comunista, nunca apoiou as causas judaicas, sempre se apresentando avesso às lutas sobre o Estado de Israel.
Ainda por causa da sua experiência com Eichmann, ela escreverá sua última obra sobre o pensar, sobre a vida do espírito. O ato de pensar é a única saída para que o ser humano não repita mais os crimes terríveis perpetrados por regimes totalitaristas. É preciso, então, que o homem reflita, pense, julgue, não abra mão da sua consciência. Assim, a própria vida de Hannah Arendt é um testemunho sobre sua lealdade ao que pensava, refletia, julgava. Contra tudo e contra todos, ela teve coragem de tocar em temas polêmicos que a Europa se recusava a refletir, a pensar.
Em determinado momento do livro, a autora Laure Adler indaga: “Visivelmente impregnada de um cristianismo primitivo, influenciada pelas Confissões de Santo Agostinho, fazendo do amor pelo bem uma qualidade política, será que Hannah se tornou crente?”.
Hannah, aluna de Bultmann e fiel leitora de Kant, Heideggeriana, busca uma filosofia que ultrapasse seu professor de fenomenologia, Husserl: ela crê que o nascimento é o fundamento da vida e faz da vida a razão da sua filosofia. Cada nascimento é um novo começo, é a vida retornando, dando uma nova chance ao homem. A biógrafa de Hannah relata que, assistindo ao Messias de Handel, a filósofa teria tido uma iluminação: “Tivemos um filho. (…) O cristianismo é de qualquer maneira alguma coisa”. Leitora atenta dos Evangelhos, especialmente o de São João, Arendt vê de maneira especial o nascimento de Jesus como uma cisão na história da humanidade. “Todo começo é salvação, é em nome do começo, em nome dessa salvação, que Deus criou os homens no mundo. Cada novo nascimento é como uma garantia de salvação no mundo, como uma promessa de redenção para aqueles que não são mais um começo”. Diante dessas palavras de Hannah Arendt, recordo os versos do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, os quais podem ser apresentados como síntese poética da filosofia proposta por Arendt:
Diante da indagação se teria Hannah se tornado crente, Adler menciona uma enigmática e insistente homenagem que Hannah presta a Jesus: “O milagre que salva o mundo, a esfera dos negócios humanos, de sua ruína normal e natural é, em última análise, o fato do nascimento, no qual a faculdade de agir se radica ontologicamente. (…) Esta fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e tão glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a boa nova: ‘Nasceu uma criança entre nós’…”.
Fábio Ribas
terça-feira, 1 de outubro de 2024
Carl Jung, sincronicidade e a barata (XL/2024)

Há muitos anos, eu li dois livros que impressionaram profundamente minha psiquê, deixando marcas indeléveis. São eles “Freud e Jung — sobre a religião” e “Resposta a Jó”. Este causou-me escândalo pela forma como abordou a Bíblia e o cristianismo e aquele me chamou a atenção pela exposição didática com que tratou o tema que dividiu Freud e Jung.
Dois livros que, obviamente, são frutos do seu tempo, ou melhor, que representam a racionalidade iluminista do homem europeu e sua posterior derrocada. Freud representa o homem moderno na sua escolha pela razão e em sua preocupação científica em delimitar suas pesquisas fazendo um recorte na tez do mundo físico: um homem marcado pela filosofia de Descartes, Hegel e Spinoza. Essa mentalidade do Idealismo forjou perenemente o perfil de Freud e seus estudos, além de explicar a gênese da ruptura entre ele e Carl Jung. Por sua vez, a Psicanálise desenvolvida por Jung trouxe ao divã aquilo que os racionalistas rejeitaram: o poder da religiosidade do ser humano. Todavia, não posso me furtar a dizer que a cena mais impactante do livro “Freud e Jung — sobre a religião” foi a narrativa ali feita sobre um sonho que Jung tivera. Ele sonhara que Deus vinha caminhando num campo, um Deus gigante e que se depara com uma basílica, uma igreja cristã e, então, Deus se posiciona sobre a igreja, desce as calças que vestia, coloca-se de cócoras e defeca sobre ela…
Freud defendia que a causa das neuroses encontrava sua gênese na sexualidade, ou melhor, na repressão da libido humana. Insatisfeito em limitar todas as explicações a este campo, Jung começa a questionar seu professor se não poderia haver outras razões escondidas no campo das religiões, dos mitos e da parapsicologia, por exemplo (Carl Jung buscava orientar suas pesquisas na direção do Oculto, interessava-se por sessões mediúnicas e por precognição). Tudo isso, entretanto, era um verdadeiro absurdo para Freud. Enfim, enquanto Freud permaneceu no campo do provável, coube a Jung abrir as portas da percepção da ciência psicanalítica rumo ao improvável. Em “Resposta a Jó”, Jung nos apresenta um Deus — Javé — destituído de consciência, um Deus amoral! Um Deus que, na verdade, aprende com Jó e com os sofrimentos humanos, um Deus construído, um símbolo. Javé é analisado como um Deus que, junto com os homens, “quer fugir da injustiça cega”. E a grande epifania de Deus, para Jung, foi quando a Igreja Católica Romana decreta o dogma da Imaculada Conceição, elevando Maria à semelhança de um deus e entregando a Javé aquilo que lhe faltava: Maria era a Sofia do AT, a peça fundamental para equilibrar a masculinidade e o patriarcalismo da Santíssima Trindade. Diante desta pequena amostra das ideias desenvolvidas no livro de Jung, não é mera coincidência que a Europa apresente hoje um pós-cristianismo que, na verdade, é muito mais um renascer do antigo panteísmo. A decadência da modernidade freudiana é o advento de um panenteísmo pós-moderno revelado pela psicanálise de Jung no inconsciente de todos nós. Eis, então, dois livros que nos servem de ilustração para compreendermos os eventos ocorridos nos últimos dois séculos na Europa e que se estendeu ao Ocidente: a Modernidade e a Pós-modernidade!

Por estes dias, assisti ao filme “Um método perigoso”, que narra exatamente este período de encontro e desencontro entre Freud e Jung e também a paixão intempestiva entre Jung e uma paciente sua, Sabina Spielrein, que se tornará mais tarde psicanalista, especializada em psicologia infantil. Há uma cena nesse filme que ilustra bem o que eu expliquei no parágrafo anterior. Jung questiona Freud se tudo teria que se restringir à sexualidade e se eles não poderiam, então, pesquisar a metafísica, a parapsicologia, etc. Freud reage frontalmente a essa posição, mas, precisamente naquele momento da discussão entre os dois, o móvel da Biblioteca da casa de Freud dá um grande estalo. Jung diz ao seu professor que sabia que isso iria ocorrer, porque, nas palavras de Jung, enquanto Freud estava reagindo às suas ideias, ele sentira um fogo, uma queimação em seu estômago. Freud, compreendendo que tudo não passara de mera coincidência, ficou escandalizado com as ideias de seu pupilo, Jung, contudo, insistiu dizendo que o estalo iria acontecer de novo. Dito e feito! Mal terminara de falar, um novo estalo ocorre diante de Freud em sua estante de livros. Posteriormente, numa carta a Jung, Freud atribui o ocorrido a uma enganação, uma farsa forjada por Jung para desmoralizá-lo.
Para Freud, tudo não passava de meras coincidências. Para Jung, coincidências não existiam. As coisas estão todas ligadas; os fatos que não tem conexão aparente estão conectados, assim como havia pessoas que se percebiam convergir em direção a outras por “coincidências” que denunciavam uma unidade espiritual entre elas e a isso Jung dá o nome de sincronicidade. E é com uma ilustração deste conceito junguiano que encerro este meu texto. Após assistir ao filme “Um método perigoso”, fui à biblioteca da minha casa rever os dois livros que abordei aqui. Ao sair da biblioteca, passei pelo quarto das minhas filhas e vi que, encostada à porta, havia uma enorme barata. Peguei a sandália e aproximei-me bem devagarinho. Num gesto típico dos que tem ódio desses seres nojentos, desferi contra ela uma pesadíssima sandaliada. Depois, ergui a sandália e pude ver a famigerada totalmente destruída, esmagada e com seus líquidos viscosos e brancos espalhados pelo chão. Fui ao banheiro pegar o papel higiênico e retirá-la dali, lançando-a à privada. Porém, para minha surpresa, ao retornar alguns segundos após ter saído da cena de meu crime, aquela barata enorme havia simplesmente… sumido! Procurei atrás da porta, pelo quarto, debaixo das camas, ainda que eu soubesse que aquela busca era em vão, porque vira aquele bicho ser totalmente destruído pela violência do meu golpe. A barata desaparecera… ou, talvez, nunca existira. Teria sido precognição ou sincronicidade? Simples coincidência? Tudo isso acontecendo logo naquela manhã em que eu acabara de ler que Jung costumava sentar à mesa da sua sala, passando longas horas conversando com fantasmas…

quinta-feira, 19 de setembro de 2024
Introdução à Nova Ordem Mundial (XXXIX/2024)
O professor Alexandre Costa nos apresenta um livro que não apenas mostra os atores por trás de toda a discussão sobre a Nova Ordem Mundial, como também traz ao leitor uma obra de referência, exatamente porque consegue reunir todos os milhares de temas dispersos pelo universo da Internet sobre o assunto.
O autor inicia o seu livro mostrando os três grandes agentes dessa Nova Ordem Mundial: o comunismo, o islamismo e os globalistas, cujo alvo principal é derrubar a cultura judaico-cristã, porque eles só poderão iniciar uma nova sociedade retirando o cristianismo da mesa de jogo. Para mim, essa tese é muito coerente e sem grandes dificuldades de ser constatada na história recente da humanidade. Contudo, é na orquestração de uma sinfonia sob a batuta dos três, ou de um deles no controle majoritário dos planos, que começa a desconfiança nos leitores mais atentos (ou céticos). Não é difícil perceber que, vez ou outra, pontualmente, há alianças entre comunistas e islâmicos na história dos últimos anos. Assim como, por razões de poder e financeiras, notamos as alianças entre globalistas, que são os detentores das imensas fortunas, e islâmicos também. A questão é se os três, conjuntamente, ou um deles, ou ainda um quarto poder por trás dos três, poderiam, na verdade, receber a alcunha de “os donos do poder”. Quanto mais avançamos na leitura do livro, ainda que concordemos com os fatos ali narrados, é na hora de entrelaçar e de imaginar um Ditador único ou mesmo um grupo manipulador, ou até mais grupos agindo em favor ou uns contra os outros, e todos numa atuação global, que a tese, então, perde a sua força. Veja bem, a premissa é verdadeira: os três grupos apresentados querem tirar o cristianismo do jogo, porque é o obstáculo único que os impede de avançar uma agenda que vai contra tudo aquilo que se chama Deus. A conclusão é o que não encontra bom senso e o silogismo não funciona satisfatoriamente, talvez pelo excesso de atores e atuações que são dispostos sobre o palco.
O autor segue mostrando os prováveis grupos que seguram as cordas que movem o mundo. Desde as famílias mais ricas, como os Rockfellers e os Rothschild, passando pelas inúmeras sociedades secretas e outros grupos como a Society Fabian, Maçonaria, Illuminat da Baviera, Golden Dawn e Fundações, até explanar também o modo desses grupos agirem por meio de outros grupos e entidades como a ONU, o Foro de São Paulo, o Clube de Bilderberg, NASA, FEMA, etc. Enfim, como disse, está tudo no livro. Todos os personagens e grupos são descritos. A maioria dessas organizações e personagens já nos são conhecidos, mas o próprio autor, por mais de uma vez, diz que “sobre isso”, isto é, sobre o entretecimento de uma rede tão detalhada e extensa entre eles não se tem provas. Portanto, embora haja fatos, há também muita especulação. E não só isso, na hora de amarrar fatos e especulações sobre fatos, tentando enganchar uns nos outros, tudo se complica. Tudo se complica tanto, que, num determinado ponto do livro, o autor relembra a “navalha de Ockhan”, cuja tese defende que só a hipótese mais simples deve ser considerada. Evidentemente, ele precisa questionar esta “navalha”, pois ela não sustentará uma hipótese que amarra tudo o que já foi tratado no livro com ainda outros temas infindos como a Besta da Bélgica, lavagem cerebral, programa MK Ultra, HAARP e Chemtrails.
Aqui, quero repetir que, em certa medida, acredito em muitos fatos tratados pelo autor, pois são fatos! Os grupos existem, as pessoas também. Acredito em planos megalomaníacos, em projetos ocultistas para a derrubada do Cristianismo; creio mesmo em corporações e planos governamentais para a derrubada de desafetos e instalação de líderes bonecos nas mãos de seus Senhores etc. Porém, o que não posso acompanhar é a extensão da amarra de todos esses fatos como é proposto no livro. Em muitos momentos, o próprio autor compreende que é um terreno de muitas especulações, diversas suposições e poucas provas que liguem os elementos mais importantes uns aos outros. Inusitadamente, o oposto também se observa: parece existir uma quantidade enorme de situações divulgadas na mídia que revelariam o comprometimento de personalidades com tudo isso. Parece…
Há três questões que me incomodaram não apenas durante a leitura desse livro, mas em todas as discussões que tenho tido a oportunidade de assistir e participar, desde os áureos tempos do true outspeak do Professor Olavo de Carvalho.
Meu primeiro incômodo é que, embora os adeptos dessa visão sobre a Nova Ordem Mundial falem várias vezes em “nuvens de fumaça”, que desviariam a atenção do público daquilo que os “donos do mundo”, de fato, estariam tramando e fazendo, acredito eu que, da maneira que o tema tem sido apresentado por todos estes anos, são os adeptos dessas teorias conspiratórias os que mais fazem fumaça para nos desviar daquilo que realmente importa! O que eu quero dizer é que são tantos meandros, tantos desdobramentos, tantas teorias, tantos “pode ser”, “não sei”, “talvez” etc, que os que se embrenham por essas trilhas de pesquisa se amarram em redes que os impedem de discutir e agir da maneira que realmente se esperaria que um cristão tratasse de tais assuntos.
O segundo incômodo, que agora apresento como consequência do que eu acabei de dizer no parágrafo acima, é que essas teorias todas são defendidas por católicos e evangélicos, que, ao criarem um inimigo comum, deixam de tratar temas que seriam fundamentais entre eles. Tenho visto católicos tomarem posse do discurso neopentecostal, a ponto de dizerem que o que legitima o cristianismo é o milagre e não a verdade da Palavra de Deus! Evangélicos passam horas e horas em discussões sobre “realidades”, às quais pouco ou nada podem fazer — “só alertar” — é o que sempre dizem sobre essas conversas sem fim. Mas “só alertar” tem sido apenas trazer outros para uma armadilha alienadora do que realmente importa. Vejo católicos conversando com evangélicos (e outros que até se dizem protestantes) sobre a catequização dos povos bárbaros, o fim do paganismo pelo avanço evangelístico romano nos primeiros séculos, etc, etc e etc, sem que ninguém os confronte sobre os resultados desastrosos da entrada do paganismo dentro do romanismo. E o que parece calar uma discussão evangélica e protestante em determinados ambientes é essa nuvem de fumaça, que é o conjunto de teorias mirabolantes da Nova Ordem Mundial, fazendo com que os evangélicos e protestantes se distraiam acusando um inimigo comum, que, veja bem, pode até mesmo não ser nem metade do que se apregoa.
O terceiro incômodo é um desdobramento dos outros dois. No final do livro do professor Alexandre Costa, há uma indicação bibliográfica e, logo na primeira linha, aparece o livro “AA-1025 Memórias de um anti-apóstolo — Autor Desconhecido”. Sobre o que trata esse livro? Alega-se, pois nem se conhece o autor, que esse seria um ex-comunista entregando suas estratégias para minar a Igreja Católica por dentro. Mas o que, entre tantas coisas, ele fala? Que o objetivo era destruir o “marianismo” e a “intercessão dos santos”, fazer com que os fiéis desacreditassem das aparições de Maria e parassem de rezar o terço… Entendeu? Evangélicos e protestantes são trazidos a uma arena em que não é a Palavra de Deus sua única regra de fé e prática; uma arena em que há um inimigo comum, mas que é oculto; nessa arena, o que importa são os milagres e não a verdade da Palavra de Deus (e milagres a gente vê em todo lugar, não é mesmo? Até entre católicos e evangélicos também!); e, enfim, avançar contra as doutrinas romanas seria coisa de comunista ou, pelo menos, é dar ao inimigo a vantagem, já que o “nosso exército” se divide, caso pregássemos contra essa velha idolatria romana de sempre.
O que me surpreende nessa conversa toda é que, depois de horas e horas tentando dar nomes aos atores da Nova Ordem Mundial e armar um enredo em que todos possam participar dessa novela, é dito que não se pode mesmo fazer muita coisa. Então, responda-me: para que conhecer o bem e o mal, se abrimos mão da luta pela verdade bíblica? Que conhecimento é esse que lança uma nuvem de fumaça sobre verdades inegociáveis da Palavra de Deus? Por que pessoas se deixam levar por discursos que tanto as angustiam e as deixam vulneráveis não aos “donos do poder”, mas aos “Donos do conhecimento”? Sobre isso, basta você ver os comentários feitos, logo após a exposição de todas essas teorias nessas lives e palestras: “Meu Deus! O mundo vai acabar”, “Não vou ter filhos num mundo assim”, “o diabo está enganando todo mundo” etc. O que falta a essas pessoas que se dizem evangélicas e protestantes e que terminam se prendendo a coisas assim? Vou dizer, enfim, a minha opinião sobre isso.
1º) Sede de saber — a proposta continua a mesma desde o Éden. Um saber que lhe oferece o conhecimento do bem e do mal, mas fora da Palavra de Deus. E os seguidores que se dizem evangélicos e protestantes não percebem isso? Há o uso de uma linguagem gnóstica, porque o conhecimento é oferecido aos iniciados e, quanto mais passos são dados na direção desse conhecimento, mais conhecimento você terá. Esta é a promessa da serpente. Como toda seita, são oferecidas verdades, mas em meio a mentiras. Esta é a estratégia da seita: oferecer espinha de peixe enrolado em biju grosso. A cobeligerância entre protestantes, evangélicos e católicos jamais pode ser na área da tutela ou mentoria intelectual, pois isso também é jugo desigual. Podemos ler, estudar juntos, mas jamais nos submeter ao silêncio quando expostos às doutrinas antibíblicas.
2º) A Bíblia não é a única regra de fé e prática — há uma reedição teológica, mas que é comum no campo da esquerda e da direita políticas, em que é o meio que se impõe sobre a Bíblia e não o contrário. É uma teologia pragmática, que é a mesma usada pela TMI, TL e demais “evangelhos de justiça social”. Portanto, não é de se surpreender que nesses ambientes conspiratórios o milagre justifique o santo ao invés da Bíblia julgar o milagre. Não são apenas evangélicos e protestantes fracos teologicamente, que vemos cair na sedução desse gnosticismo romano, que, sem dúvida, em muitas frentes se vê envolvido por algum grau de ocultismo. Porém, independente dos que vemos caindo nessas ciladas, todos têm algo em comum: abraçam uma tradição filtrada por um revisionismo histórico romano (que não considero de todo equivocado) e abrem mão da Bíblia como única regra de fé e prática para suas vidas.
3º) Desconhecem as doutrinas basilares da fé Reformada e suas implicações, a saber, além da Sola Scriptura, a Soberania e Providência divinas; e a Primazia e Suficiência de Cristo — Não tenho dúvida que muitos dos que se dizem evangélicos e protestantes, desconhecem a Fé Reformada ou foram mal discipulados nela. Vemos cristãos abrindo mão da autoridade bíblica sobre suas vidas, ao mesmo tempo em que abraçam tradições abomináveis a Deus. É impossível não ouvir a voz de Paulo aos Gálatas, que também queriam associar outros conhecimentos ao conhecimento único do Evangelho que lhes fora apresentado: “Ó, Gálatas insensatos”! E o pior é que se conhecessem de fato as implicações da Soberania e Providência divinas não se lançavam em uma rede de especulações que em nada traz crescimento espiritual ou os torna mais parecidos com Cristo! Soubessem, de fato, da Primazia e da Suficiência de Cristo jamais aceitariam comer na mão de idólatras!
Conhecessem a Palavra de Deus, saberiam que Satanás é um cachorro na coleira de Deus e que “os donos do poder” fazem parte do Plano de Deus para entregar cada vez mais à mentira aqueles que se negaram a aceitar a verdade (II Tessalonicenses 2). Há muito que falar sobre este assunto e outros afins, mas abordarei mais adiante em outros livros. Por agora, encerro apenas retornando ao que fiz referência algumas vezes durante este texto: há uma nuvem de fumaça desviando a atenção de evangélicos e protestantes ao que, indubitavelmente, importa: “fazer discípulos de todas as nações”! Tenho visto jovens darem o melhor de suas energias às especulações levantadas pela Nova Ordem Mundial, contudo, a falta de uma boa teologia os faz se desviarem do que realmente importa. O meu desejo é que nossos jovens, tão inteligentes e sedentos de aprender mais, possam buscar o Senhor enquanto se pode achar (Isaías 55:6), que eles busquem o verdadeiro conhecimento, que se encontra somente em Jesus Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (I Cor 1:24).
Fábio Ribas
sábado, 14 de setembro de 2024
Noites Brancas (XXXVIII/2024)

Na ordem cronológica dos romances de Dostoiévski, este é seu quarto livro. Embora haja em pelo menos seus outros dois livros, “Gente Pobre” e “A Senhoria”, uma relação amorosa entre personagens, neste, “Noites Brancas”, é sua narrativa mais romântica. Ambientado, mais uma vez, em São Petersburgo, o título refere-se ao fenômeno de que, em algumas noites do ano, o sol não se põe completamente. Assim, é como se fosse um entardecer por toda noite, esta é a noite branca. O sol está lá em plena noite. Será que é esta a metáfora? Nosso personagem principal estava onde não deveria estar? Nosso personagem principal também não revela seu nome. Ele começa o livro tão feliz, radiante, cantarolando de tanta felicidade, mas essa felicidade não fecha seu ciclo.
A personagem principal é Nástienka. Assim, Nastassía apresenta-se a ele, usando um apelido, um diminutivo de seu nome que só deveria ser usado por pessoas muito íntimas. Isso revela como serão tempestuosas, apaixonadas e íntimas as quatro noites brancas em que os nossos dois personagens principais irão se encontrar. Mas, como eu disse, o ciclo não se fecha. Tenho certeza que o leitor antecede, suspeita, do que irá ocorrer no fim do livro. Um livro que tem um subtítulo revelador: “Das recordações de um sonhador”. Mais um personagem recluso, sem traquejo social, sem saber lidar com pessoas, sem maturidade relacional. Ordínov, de “A Senhoria” também era assim. Golyádkin, de “O Duplo”, também. Semelhantemente, Makar, de “Gente Pobre”, também apresenta dificuldade em relações interpessoais. São personagens sonhadores, mas que não conseguem realizar seus desejos no mundo real. Eles estão deslocados, inseguros e, com isso, frustram-se diante dos revezes que a vida oferece esmagando seus sonhos. Outra questão nestes livros, até aqui, que tem chamado a minha atenção é a diferença de idade nos personagens. Em “Noites Brancas”, ele tem 26 e ela 17. Em “Gente Pobre”, a diferença salta para 20 anos entre os personagens principais.
Se eu gostei de “Noites Brancas”? Muito! A vida é o que se apresenta. Não há o que fazer, muitas vezes. Não inocentes e nem culpados. Acredito que Dostoiévski escreveu uma história cuja metáfora seja o fenômeno da “Noite Branca”: o sol está lá e ponto! Ele não se põe e nem volta atrás. O sol está onde não deveria estar. Assim como nosso personagem sem nome, ele talvez não devesse estar naquela ponte quando conheceu Nástienka. Ela esperava por outro e não por ele. Ela sequer pergunta qual o nome dele…
Fábio Ribas
quarta-feira, 11 de setembro de 2024
O caminho da servidão (XXXVII/2024)

“O que sempre fez do estado um verdadeiro inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso”. — F. Hoelderlin
Quando cedemos a que o estado planejador defina nossas decisões na área da economia, estamos dando a ele o espaço para que coloque tudo debaixo de uma planificação nacional coletivista. Se você perde a liberdade de escolha acerca do que comprar, como e onde, deixando que o estado decida o que é melhor para o “social”, ele vai decidir cada vez mais e eu e você cada vez menos. Não queremos dinheiro como um fim em si mesmo, mas queremos dinheiro PARA alguma coisa. “Para alguma coisa” é a nossa decisão e o estado jamais deveria intervir sobre isso.
Precisamos, de fato, salvaguardar a liberdade individual e também entender que a democracia não é um fim em si mesma. A democracia não é a prova de que, enquanto ela existe, estaríamos protegidos da ditadura. O que nos protege da ditadura são limites de poder. Até em democracias podemos viver sob a opressão de regimes ditatoriais. E nada mais certo do que isso, quando vemos o que estamos vivendo atualmente na história do Brasil. Quem limita o poder do judiciário? Nas palavras de Rui Barbosa, “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”.
O socialismo é o caminho da servidão, esta é a tese principal de Hayek em seu livro. Portanto, o que o autor nos mostra é que você não é feito escravo da noite para o dia. Há um caminho por que nós somos, passo a passo, levados ao abismo. Isto é o que se deu com a Itália, a Alemanha e a Rússia. O caminho não se dá politicamente, a princípio. É pela via econômica que o Estado vai conseguindo poderes cada vez mais invasivos na vida do cidadão comum, até que ele se imponha totalitariamente.
Enquanto lia o livro, eu tentava imaginar o que foi para ele ver, com a criação da ONU, Stalin sentar à mesa com os países livres. A presença de Stalin e, nos anos que se seguiram, dos demais dirigentes russos da antiga União da República Socialista Soviética foi a bancarrota do mundo livre e a condenação de vários países mundo afora. O uso da ONU para afundar a Coreia do Norte, a China, Cuba e tantos outros está muito bem documentado no livro “O comunista exposto”, de Cleon Skousen (veja aqui).
A fraternidade essencial e fundamental entre o marxismo, o nazismo e o fascismo está totalmente comprovada. As ideias socialistas estão carregando todos estes grupos para a formação de um Estado Totalitário. A Alemanha de Goethe e Humboldt sucumbiu às ideias socialistas e isso a levou ao regime totalitarista do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Mais um livro que eu leio no sentimento da raiva, por ver que tudo o que poderíamos ter evitado nos últimos 30 anos estava escrito ali, desde 1943. Ninguém leu Hayek aqui na terra brasilis?
Como que o totalitarismo chega ao poder por meio das ideias socialistas explica a tomada do poder por Hitler na Alemanha, pelo Duce na Itália, por Stalin na Rússia. Este mesmo engodo brasileiro que durante décadas nos enganou entre uma “direita”, o PSDB, que se digladiava com uma “esquerda”, o PT; ambos, contudo, farinhas do mesmo saco comunista. Ninguém havia lido Hayek no Brasil, para que, então, pudesse nos alertar?
A suprema tragédia, ainda não percebida, está em que, na Alemanha, foram em grande parte pessoas de boa vontade, homens que eram admirados e tidos como exemplos nos países democráticos, os que prepararam o caminho para as forças que agora representam tudo o que detestam — se é que eles mesmos não as criaram.
O livro de Hayek é muito bem escrito, claro e repleto de argumentos e fatos. Hayek ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1974. Para Rothbard, isto foi uma surpresa, pois, segundo suas palavras:
“Não apenas porque todos os Prêmios Nobel anteriores em economia tenham ido para progressistas à esquerda e opositores do livre mercado, mas, também, porque eles foram uniformemente concedidos para economistas que têm transformado a disciplina em uma suposta “ciência” preenchida por um jargão matemático e “modelos” irrealistas que são então utilizados para criticar o sistema de livre empreendedorismo e tentar planejar a economia através de um governo central” (em “Hayek e o Prêmio Nobel”)”.
Quando nos vemos trilhando o caminho da servidão, para Hayek, é que teríamos esquecido o verdadeiro caminho, mas qual seria o caminho esquecido? Seria o caminho do individualismo? O do capitalismo? Não, para Hayek, o caminho esquecido e abandonado é o caminho que fez o enriquecimento da Civilização Ocidental. Mas o que nos fez enriquecer? O livre-comércio? Não! Foi a nossa ética, a nossa moral individual defendida de forma cristalizada na primeira emenda da Constituição Americana. A ironia, para mim, é que a maior defensora e até mesmo responsável pelo desenvolvimento da ética individual no mundo Ocidental é a Igreja Cristã, todavia, é a partir dela que mais temos visto uma oposição ao individualismo. A igreja cristã foi fartamente usada e abusada para defender e expandir as ideias socialistas em várias partes do mundo. Se o real problema do homem não é nada que venha de fora, mas está no seu coração, isto já deveria ser suficiente para vermos o individualismo e o coletivismo dentro de esferas mais justas. A verdade, porém, é que a mentalidade revolucionária é criativa e fortemente adaptativa (para saber mais sobre isso, leia aqui).
O Estado planejador opta sempre pelo utilitarismo em detrimento da ética. Em outras palavras, o Estado sacrificará os direitos humanos alegando que está agindo pelo bem comum. Mas a pergunta que eu tenho martelando na minha cabeça é: de onde vem as pessoas que compõem o estado? Um dos capítulos do livro tem como título a seguinte pergunta: “Por que os piores chegam ao poder?”. Acredito que há uma pá de gente mal-intencionada, com sede de poder, mas poder para controlar a vida alheia. Há muita gente assim no meio privado, que sacrificam a ética individual, assassinam a reputação de quem não come na tigela que eles servem e que destroem quem se coloca como pedra de tropeço aos seus planos imperialistas. Essas pessoas não estão apenas trabalhando para/no Governo, mas podem estar se beneficiando dele em alianças espúrias e duvidosas. Essas pessoas estão também na iniciativa privada, nas escolas, nas associações, nos condomínios, nas igrejas! Agora, se ocorresse, de fato, uma livre concorrência, essas pessoas seriam limitadas pelas regras do mercado ou, cedo ou tarde, até expurgadas de onde se encontram. O mesmo não ocorre no estado. E a história recente do Brasil é uma prova do que estou escrevendo. Por isso que essas pessoas correm para exercer o que elas são no estado, mas debaixo da proteção da estabilidade de concursos públicos. De modo algum, estou dizendo que no estado só há os piores, longe disso. Há também os de boa índole e também os alienados, que são aqueles que não se dão conta que trabalham para perpetuar um leviatã que nos consome a todos.
Quem não se lembra do “fiscal do Sarney”? O governo congelou os preços e motivou as donas de casa a irem fiscalizar os estabelecimentos. Assim, o que a história recente nos ensina é que é preciso apenas uma justificativa palatável. Quem nos fez fiscais do nosso próximo? Qual a ética e a moral que me permitem intervir no empreendimento alheio? Não há ética onde existe coletivismo. Ou você garante os direitos humanos ou você impõe um estado planejador. As duas coisas ao mesmo tempo é uma grande utopia. Essa grande utopia veio para o Brasil sob a roupagem do PSDB — o partido dessa falácia chamada “social democracia”.
O que mais assusta (ou desanima) na leitura do livro é que estava tudo lá desde a década de 1940 e, mesmo assim, caminhamos a passos largos nesse caminho da servidão até chegarmos na situação crítica em que nos encontramos hoje. Assim, se definirmos “Estado de Direito” como a existência de leis que ajam de maneira igual sobre todos igualmente e que não haja ninguém que seja beneficiado por essa lei — a lei é para ser aplicada por uma justiça cega sobre todos, concluiremos, horrorizados, que não há um Estado de Direito no Brasil! Conta a mitologia que Plutão, o deus das riquezas, fora privado da visão por Júpiter e, manipulado por intrigantes que se aproveitavam de sua cegueira, Plutão concedia riquezas a quem não era merecedor de tê-las…
Esta história fez-me pensar na Justiça, que cega, deveria usar sua espada imparcialmente sobre ricos e pobres, mulheres e homens, independente da raça, cor e credo. Todavia, como no Brasil, tudo se inverte, não estaria nossa justiça também em mãos de intrigantes e, à semelhança de Plutão, não estaria ela concedendo seus tão caros benefícios a quem indubitavelmente não merece, corrompendo a razão original de sua cegueira? É o fim da verdade. O estado planejador terá como objetivo, para sua própria sobrevivência, o fim da verdade.
Fábio Ribas
Até que tenhamos rostos (CS Lewis)
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