
O surgimento de Dostoiévski na cena cultural russa se deu no momento em que as ideias socialistas em várias de suas versões tomavam a sociedade intelectual da época. Por isso mesmo, vemos um Dostoiévski sendo arrastado para o centro desse debate e também para sua conversão ao socialismo, que é o fator que causará sua prisão e exílio na Sibéria. Dentre tantas versões socialistas que eram apresentadas, duas concorriam pelo coração dos russos no século XIX: a versão utópica, que absorvia os ensinos do cristianismo, mas não suas doutrinas transcendentes, sendo, portanto, apresentado como um moralismo que devia substituir o cristianismo; e a versão hegeliana ateia e totalmente antirreligiosa. Nesta, o homem deveria abandonar qualquer transcendência, pois a referência estava na humanidade e não na divindade.
Adepto da primeira versão, a utópica, Dostoiévski surge como o melhor realizador da escola literária do seu tempo, a “escola natural”, fortemente de cunho socialista e preocupada em mostrar a massa, o povo, que era explorado pela aristocracia daquele tempo. Assim surge “Gente pobre” (leia aqui). Esta obra teve aceitação antes de sua publicação, pois partes dela eram lidas no círculo intelectual conhecido como “a Plêiade”. Contudo, por diversos fatores, depois de lançada, não foi acolhida unanimemente nem pela crítica e nem pelo público. Ao livro “Gente pobre”, seguiram “O duplo”, “A senhoria” e “Noites brancas”. A minha percepção é que, em cada uma dessas obras, está diante de nós um autor diferente. Se seu primeiro romance pode se enquadrar sob a etiqueta de “romance social”, o que dizer de “O duplo”? Em que a loucura e a fantasia, a realidade e o sonho, a verdade e a mentira nos deixam perplexos em suas situações tragicômicas. Em “A senhoria” é apresentado, por exemplo, o tema do gótico e do místico e, finalmente, em “Noites brancas”, a narrativa soa como um romance juvenil de fortes arroubos emocionais. Quantos Dostoiévskis, não? Mas o que haveria de comum entre esses romances todos? Alguns dizem que a figura do “sonhador” ganha cada vez mais espaço em suas narrativas e também a figura da “mulher infernal” já vai se delineando nesses romances da primeira fase (Joseph Frank). Por minha parte, há um ponto em comum que saltou-me aos olhos agora na leitura de “Netochka Nezvanova”, 5º romance do autor russo.
Em “Gente pobre”, os afetos românticos não consumados se dão entre Makar e Bárbara, mas a diferença de idade entre os dois é de uns 20 anos! “O duplo” apresenta uma paixão delirante do personagem principal por Klara; “A senhoria”, além de repetir o tema do amor delirante, aborda o tema do incesto. “Noites brancas” apresenta, mais uma vez, o tema do amor que se desfaz em nada. Em todos esses, de fato, as mulheres são apresentadas nessas situações de darem esperança, mas, logo em seguida, abandonarem seus pretendentes. Agora, em “Netochka Nezvanova”, a narrativa se concentra apenas no universo feminino e no tema da dubiedade e do erotismo, mas entre as mulheres da história. Ou, sendo mais preciso, as duas personagens femininas têm por volta de apenas dez anos de idade. Assim, a questão sexual e psicológica individual dos personagens de Dostoiévski é proeminente em todos os seus livros, mesmo em “Gente pobre”, seu romance de estreia e tido como um romance “naturalista e de cunho social”. A psiquê perturbada e desencaixada será o tema comum que tomará espaço definitivo no Dostoiévski após o exílio na Sibéria.
(spoiler)
Em “Netochka Nezvanova”, Netotchka foi encontrada caída na rua e levada à casa do príncipe. Os pais de Netochka morreram. Seu pai, que descobriremos, na verdade, ser seu padrasto, fora um genial músico, mas que o ciúme, a inveja e o alcoolismo o enlouqueceram. Sua mãe, vítima de um casamento difícil e de enorme carência emocional, afetiva e financeira, foi levada desta vida pela miséria e abuso do marido. Há na casa que adota Netochka, além da princesa, a tia do príncipe e o próprio príncipe. A história é contada por Netotchka, quando já adulta. Ela narra as lembranças de sua infância trágica e infeliz, mas ela amava o pai padrasto. Ele casara com sua mãe quando Netotchka tinha 3 anos de idade. Seu pai mesmo morrera, logo depois que ela nascera. Este romance, que Dostoiévski interrompeu por causa do exílio retornando a ele só seis ou sete anos depois, é construído em duas partes. A primeira, na casa do príncipe. A segunda, numa outra casa em que a menina tem que ir morar, quando a família do príncipe se muda. A primeira parte cria muitas expectativas que não tem continuidade. Fiquei com aquela impressão de ter tomado fôlego, prendendo a respiração, para um mergulho que não aconteceu. E a segunda parte, depois de tudo, não se conecta à primeira. Enfim, embora estejam ali todos os grandes temas do autor — inclusive o tema do sacrifício cristão — , achei um “romance menor”. Talvez por ser mesmo isto: um romance de transição entre tudo o que ele escreveu até agora e o Dostoiévski que emergirá da Sibéria. Aguardemos.
Fábio Ribas
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