BibliothecaRibas
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Pregação - comunicando a fé na era do ceticismo (Tim Keller)
sábado, 30 de maio de 2026
Pregação na Pós-Modernidade: como ser biblicamente fiel e culturalmente relevante (Zac Eswine)
“Beleza é a deslumbrante exibição da verdade e da bondade de Deus refletidas na glória e na santidade de sua pessoa e obra, na encarnação e no mundo criado. A beleza é o que atrai em Deus; a beleza é o que arrebata os olhos do coração ao contemplar Cristo pela fé mediante a Palavra” (T. Chris Cain, “Turning the Beast into Beauty: Towards an Evangelical Theological Aesthetics”, Presbyterion: Covenant Seminary Review 29, n. 1 (2003), p. 28. Citado em: Eswine, Zack).
Logo na introdução, o autor me arrebatou com a seguinte pergunta: “eu conseguiria agora alcançar com o evangelho aquele que um dia eu já fui?”. E o autor a introduz dizendo que ele é cristão, pastor e professor de seminário. Eu também, mas acrescentaria que sou missionário. E sei que, na condição de missionário, tenho sido preparado ao longo das décadas para trabalhar com culturas muito diferentes da minha. Contudo, lendo este livro de Zac Eswine, e outros semelhantes de autores americanos, compreendo que a minha cultura está bem mais próxima de dialogar com culturas da pós-modernidade, do que deve ser para uma cultura da América do Norte. Em outras palavras, li o livro de Zac vendo que o pregador brasiliero já está muito mais adequado ao que o autor quer propor do que a cultura americana.
Ler esse livro nessa perspectiva é muito interessante, pois há anos ouço como que “os povos” aí fora gostam de missionários brasileiros entre eles. E a resposta fica patente ao lermos “Pregação na Pós-modernidade”. Todavia, não sou ingênuo a ponto de pensar que na América não há pregadores já muito abertos às propostas do livro, assim como sei também que no Brasil há muitos pregadores (e missionários) que precisam ler este livro. Não nego, porém, que o, li com aquela sensação de “mas essa homilética é para todas as eras e não só para minha geração pós-moderna”! Enfim, um livro enriquecedor que todo seminarista e missionário deve ler.
Voltemos à pergunta que me arrebatou, pois a li num sábado e a fiquei remoendo dentro de mim. No dia seguinte, pela manhã, aconteceu de perceber que Deus estava me preparando para um encontro com um rapaz seminarista católico que veio visitar a minha igreja. Não tinha como fugir, pois eis eu ali, bem diante de mim, o meu eu de mais de três décadas atrás estava bem ali diante de mim. Como apresentar o evangelho hoje da mesma maneira graciosa e amorosa com que me apresentaram naquele tempo? Não existem coincidências para quem caminha com Deus. Deus queria que eu enfrentasse essa pergunta.
O livro de Zac está dividido em um prefácio de Emilio Garofalo, além de um outro prefácio à edição brasileira, seguidos de dezesseis capítulos e dois apêndices. No prefácio de Bryan Chapell, vemos que o livro vem na onda do retorno do tema da pregação cristocêntrica, sem, contudo, disperdiçar a pessoa de seu próprio pregador. Em outras palavras, regamos nossa pregação como “pessoas quem tem testemunho pessoal da graça de Cristo”. E não apenas isso, mas devemos subir aos púlpitos sob a responsabilidade de termos uma herança missionária por trás de nós.
Logo na introdução, fui desafiado a me perguntar no que é preciso saber para sermos salvos? O autor mostra a delicadeza do assunto em nossa complexidade cultural, lembrando do exemplo de Collins e Anne Rice:
Em seu livro A linguagem de Deus, Collins escreve: “O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma”. Collins acredita na evolução e num planeta com quinze bilhões de anos. No entanto, quando lhe perguntaram se acredita no nascimento a partir de uma virgem, Collins responde inequivocamente: “Eu creio!”. Ele defende os milagres da Bíblia e a ressurreição corporal de Jesus Cristo. Collins é cristão.
Da mesma maneira, Anne Rice, famosa autora de romances sobre vampiro e notável ateia, tornou-se uma seguidora de Jesus. Embora ela ainda seja socialmente liberal em questões como a homossexualidade, tornou-se uma cuidadosa e consciente defensora da Bíblia, particularmente da historicidade dos Evangelhos e da veracidade de suas afirmações sobre quem é Jesus.
No Brasil, nos deparamos atualmente com a mesma tensão. Em algumas igrejas essa tensão é maior e em outras menor. A pós-modernidade nos dá esse leque de pessoas e sua fé pessoal que nem sempre coaduna com nossos credos, símbolos de fé e confissões, mesmo tendo elas como membros comungantes em nossas igrejas locais. Vivemos num mundo anunciado a nós desde a década de 1960: somos seres de planetas diferentes vivendo dentro de uma mesma Interprise, sendo que muitos nessa espaçonave são cristãos! Como alcançar pessoas tão independentes, diferentes e autossuficientes assim? Crentes e descrentes, essas pessoas estão na nave e, então, como nos comunicar com elas? Como nos diz o autor, ainda na introdução:
Muitos de nós estão sendo forçados a lembrar que alguém pode ser inconsistente na doutrina (como muitos em nosso meio), errar em algumas coisas (como todos nós) e, ainda assim, seguir verdadeiramente a Jesus, um passo de cada vez. A santificação é um processo.
Quero apenas dar um resumo dos temas que você encontrará neste livro de Zac Eiswine, para animar o leitor a se dedicar nessa leitura desafiadora.
Zac Eiswine irá voltar seus olhos não para a cultura pós-moderna, mas para a pessoa do pregador. Ele defenderá a importância de sermos pregadores autenticos e, sendo assim, não temermos mostrar nossa fragilidade e vulnerabilidade à nossa geração. Precisamos ir ao encontro do nosso público sabendo quem eles são. Portanto, precisamos contextualizar nossa comunicação aproveitando tanto as narrativas e as ficções que temos na cultura, para aplicar melhor na vida real dos nossos ouvintes. Precisamos de capital literário! O pregador contextualizado será aquele que apostará mais numa homilética narrativa, sabendo ele que seu público precisa de uma mensagem compassiva e não moralista. Precisamos, então, compreender a arte da narrativa. Nossa pregação narrativa precisa se comunicar com a fé, esperança e amor das pessoas, trazê-las para a compreensão da fé, esperança e amor bíblicos até o ponto de ressurreição! Sim! A pregação deve apresentar a ressurreição possível aos pecadores mortos em seus delitos e pecados!
Devemos ser pregadores em dois mundos: tradição e inovação. Aqui, ele está falando da necessidade de trazermos em nossa homilética a riqueza do passado, mas saber aplicá-la nos novos contextos. Uma pregação nostálgica e redentiva. Todos somos tradutores! Não apenas os missionários que estão trabalhando com outros povos e traduzindo para outras línguas o texto bíblico, mas o pregador deve fazer o mesmo com seu público dentro de sua cultura e língua (estamos numa Interprise, lembra?). Assim, precisamos usar nossa voz profética para proclamar a verdade. Precisamos usar a nossa voz sacerdotal para pastorear nossas ovelhas. Precisamos usar nossa voz de sabedoria para compreender e se comunicar com a cultura. Somos pregadores tradutores!
Semelhante ao apóstolo Paulo, temos diante de nós um público de igrejados culturalmente, mas temos um grupo de igrejados confusos e de pessoas totalmente alienadas da verdade bíblica. Ao pregarmos, precisamos lembrar dessas diferenças diante de nós. Não precisamos temer em demonstrar para a geração pós-moderna, avessa ao moralismo e cansada de hipocrisia, nossa vulnerabilidade sacerdotal. Precisamos mostrar que há realmente textos difíceis na Bíblia e o autor irá demonstrar como que, por exemplo, devemos encaixar os textos de guerra e violência bíblicos dentro de seus contextos metanarrativos. Deus foi quem colocou esses textos lá e precisamos mostrar que a violência não é uma justificativa para hoje sermos violentos, mas serviu a um propósito divino naquele tempo. Além disso, precisamos enfrentar nossas próprias ideias idólatras em nós e na cultura. Do contrário, se não enfrentarmos, como daremos conta da homilética satânica? Satanás também prega. Ele corrompe a verdade, manipula o discurso e semeia a mentira e o homicídio. Pregamos diante dessa realidade espiritual.
Neste ponto, o autor precisa dizer o óbvio: nossa homilética deve ser totalmente dependente do Espírito Santo! Contudo, preciso dizer que foi no último capítulo do livro que, então, fiquei totalmente arrebatado. O capítulo final falou muitíssimo comigo! Concordo com tudo o que está ali em gênero, número e grau. Identifiquei-me e me vi satisfeito naquelas palavras. Falou de algo que me é muito caro: monastério/solitude! E a linguagem propícia para aquele que se refugia em Deus em meio ao caos pós-moderno é a linguagem do Espírito Santo. Precisamos conversar mais com Ele. Gastar um tempo proposital no silêncio e na fuga e sermos, desta maneira, alimentados e saciados pela presença de Deus em nós: fugirmos para o monte em meio à madrugada. Não é um escapismo, mas é uma fuga necessária em tempos de excessos de imagens, compromissos e velocidades. É preciso que nos encontremos com o Deus dos poetas, o mesmo Deus que prega é o mesmo Deus que nos escreveu e nos deu seus poemas, lembra-nos Zac Eiswine.
A linguagem divina tem esse poder. Cristo Jesus tem essa autoridade. O propósito da linguagem, pois, é a glória de Deus em Cristo, em direção à cura substancial de sua criação, até que ele venha. Os ministros, cujo trabalho é a linguagem e a presença, dedicam-se por vocação a tal propósito. Os poetas podem nos ajudar em nossa vocação porque poemas e sermões têm alvos semelhantes — criar e “preservar uma imagem verdadeira da vida”.
Quero encerrar deixando um dos textos e música mais caros para mim por todos estes longos anos de vida missionária. Espero que, de alguma maneira, venha a significar para você o que tem significado para mim. Lembrei-me do texto abaixo, exatamente quando estava lendo o último capítulo. Foi uma postagem que fiz em 2011! Essa postagem, num antigo blog, tinha como título: "Porque um dia Ele me encontrou"...
Sie mag wohl glaubern ich sei gestorben!
Ob sie mich für gestorben hält.
Ich kann auch gar nichts sagen dagegen,
Denn wirklich bin ich gestorben der Welt.
Und ruh’ in einem stillen Gebiet!
Ich leb’ allein in meinem Himmel,
In meinem Lieben, in meinem Lied
Friedrich Rückert: Ich bin der Welt abhanden gekommen
terça-feira, 26 de maio de 2026
A família entre a bênção e a maldição (Rev Rogério Cunha da Silva)
“Antes de se casar e constituir uma família, é de fundamental importância conhecer sobre o compromisso que será feito diante de Deus e dos homens. Isso é mais importante do que uma aliança de ouro” (p. 29).
segunda-feira, 23 de março de 2026
Rainha Margot e a política nossa de cada dia
Há quem deseje a volta da Monarquia? No meio conservador brasileiro, podemos encontrar tanto entre católicos como entre protestantes os que sonhem com o retorno do rei. Eu, contudo, anseio pelo retorno do Rei. Apenas. Eu “já” vivo sob uma Monarquia, embora “ainda não”. Acredito que, um dia, todo olho verá a volta do meu Rei Jesus Cristo e, então, teremos uma verdadeira, plena e perfeita Monarquia. Enquanto isso, seja lá sob que forma de governo estejamos vivendo, o que temos, indubitavelmente, é esta Cidade dos homens, imperfeita, corrupta e miserável.
Uma Monarquia parlamentarista melhoraria os vícios de um possível reinado caprichoso? Nenhuma garantia. A Monarquia deveria ser defendida como símbolo e reduto da moral? Símbolo da tradição? Ledo engano, caro cidadão. Será, então, que uma República parlamentarista não daria a nós um maior equilíbrio e estabilidade necessários à Nação? Não! Dúvidas quanto a isso? Olhe para o nosso Parlamento. Ele é a representação do que somos: imperfeitos, corruptos e miseráveis. Percebido isso, não é de se estranhar que Karl Marx ensine a seus adeptos que a conquista da democracia, por meio do voto para todos, era uma etapa essencial para que o proletariado alcançasse o comunismo.
Há indivíduos ilustres no Parlamento e demais poderes da Nação? Não duvido. Todavia, os partidos com maior capital político são quitandas de negócios escusos. E se trocássemos os partidos? Quando esses recolhessem maior capital, por sua vez, começariam seus processos de barganha fisiologista. Muita ingenuidade depositarmos nossa confiança em homens pecadores. Sem ilusões, por favor! Há um vídeo que, volta e meia, circula em época de eleições. Este ano já começa a circular de novo. Deixarei o link do vídeo aqui. Assista. Quero comentá-lo a seguir.
Dando um passo atrás, precisamos compreender que, seja lá em qual ponto do espectro político você se posicione hoje, a Bíblia coloca a cada um de nós como um vilão completo diante de Deus, exatamente porque Deus pensa diferente de nós (Isaías 55:8–9). Quer ver? Somos todos pecadores, não há um que busque o bem (Rm 3:23), nossas boas obras são trapos de imundícia diante de Deus (Isaías 64:6), tudo isso é o que a Palavra de Deus diz sobre todos nós. O que precisamos entender é que até mesmo nós, que somos maus, sabemos dar boas coisas aos nossos filhos (Mt 7:11/Lc 11:13). É como se olhássemos para um Hitler, um Mussolini ou um Stalin, por exemplo, e aceitássemos o fato incômodo de que, certamente, eles foram “bons” com alguém da vida deles. Os piores psicopatas sabem também dar “boas coisas” a alguém. Como a própria Bíblia diz, atentemos, não há boas obras capazes de nos habilitar diante de Deus (Ef 2:8–9/Tt 3:3/Gl 2:16). Decorre disso, então, que não são os milagres que justificam os santos, por mais fascinantes que esses milagres se mostrem a nós. Portanto, cuidado.
Dando um segundo passo atrás, outro problema do vídeo é acreditar em “virtudes”, como se essas não fossem produtos de um coração pecador. Não há “virtudes” diante de Deus, vimos isso no parágrafo anterior. Mesmo nossas “melhores virtudes” diante dos homens são impregnadas do mais vil pecado de nossa natureza humana totalmente depravada. A “liberdade”, a “equidade” e a “justiça” não são pessoas com quem eu possa desfrutar um café da manhã em casa ou me confraternizar no fim de tarde no trabalho. Virtudes e valores não são autoexistentes, independentes de nós. A “liberdade” só pode ser verificada na vida de pessoas concretas. Semelhantemente, amor, alegria, paz, paciência, amabilidade (ou benignidade), bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio não são entes verificáveis fora de nós. Em outras palavras, virtudes e valores são abstrações que se manifestam concretamente a partir de pessoas pecadoras. Logo, as “virtudes” não são neutras e nem puras. Por isso, não importa o lado em que elas apareçam no espectro político, pois não é a direita ou a esquerda que as justifica. Eu posso usar a liberdade para fazer o mal. Eu posso usar o vício para fazer o bem. Só Deus conhece o que vai no coração, por isso é preciso suspeita bíblica diante de um mundo que jaz no maligno, embora governado por Deus.
Dando um terceiro passo atrás, é bom afirmar que todo valor ou virtude pode ser absolutizado por alguém ou, pelo menos, será destacado em detrimento de algum outro valor em algum momento, cedo ou tarde. Porém, como discernir, nesses momentos, o certo e o errado? Quando é que a liberdade deixa de ser algo melhor do que a equidade (ou vice-versa)? Se o indivíduo não puder tomar essa decisão, certamente, o grupo tomará por ele. O grupo pode ser qualquer ajuntamento: o partido político, a igreja, o condomínio etc. Quando o grupo passa a decidir sobre quando é que a liberdade se torna opressora e a equidade virtuosa, então, mais uma vez, estamos em xeque, porque se a Bíblia diz que o coração de um único homem é perverso, o ajuntamento de muitos corações só pode gerar mais perversidade ainda. Para resolver isso e conter a rebelião de algum indivíduo, grupos precisam de uma autoridade maior que os legitime. Aqui, para nós cristãos, só duas autoridades são possíveis: a Bíblia e o Estado. Este, contudo, limitado e fiscalizado por aquela. Do contrário, o Estado se torna a personificação da rebelião contra tudo aquilo que se chama Deus e, como sabemos, passa a controlar indivíduos por meio de grupos — até mesmo por meio da própria igreja — usando o poder desse Leviatã encarnado. Por tudo isso, não apenas o vídeo é ingênuo para com o que ocorre na vida real, mas também desconsidera o pecado de indivíduos e de indivíduos ajuntados, pois é isso o que um grupo é: um bando de gente controlada por alguns indivíduos ou por um indivíduo que pode vir a dominá-los.
Ainda sobre o vídeo, e também dando um último passo atrás, Jesus estaria mesmo acima de tudo isso? O vídeo diz que Jesus não está em lugar algum do gráfico, mas acima (fora) julgando o gráfico. Duas coisas: Jesus tem que estar no gráfico por meio da Sua igreja e também agindo por meio da Providência divina. Esta pode ser discernida quando olhamos o passado e aquela, em sua atuação de ser sal e luz agora. Jesus julga o gráfico, verdade, mas não com os critérios daquelas palavras apresentadas no gráfico, porque o conteúdo bíblico delas é outro. Jesus julga acima, mas julga por dentro também, julga por meio de sua igreja, que está inserida no gráfico e proclamando o Evangelho, e também julga quando cada cristão está evangelizando e mostrando que liberdade, equidade e justiça bíblicas são categorias bíblicas e não mundanas. Como categorias reveladas pela Bíblia, são conceitos fundamentados na Palavra de Deus e não na sociedade ou na cultura. As categorias revelam gêneros supremos, modos de ser pelos quais devemos nos organizar, classificar e compreender toda a realidade e nossa experiência. Portanto, a liberdade bíblica não corresponde à liberdade pregada pelo mundo. A equidade bíblica não é fruto de uma inveja doentia como o que, de fato, subjaz a toda defesa de uma agenda político-ideológica que vemos aí mundo afora. A justiça bíblica não é a justiça social.
Como, pois, Jesus já julga o mundo por meio de sua Igreja proclamadora e missionária? Ele já o julga (Jo 3:18–19/Jo 12:31/ Jo 12:47–48), mas ainda não, uma vez que haverá um julgamento definitivo e final no dia da volta do Rei. O mundo já está julgado, quando ele é um sistema que se rebela à pregação do Evangelho feita pela Igreja. Esse Evangelho pregado pela Igreja é supracultural, verdade. Está acima de toda proposta humana de tornar a Cidade dos homens numa Cidade de Deus, mas sem Deus. O Evangelho é transcultural, porque ele é a resposta ao pecado que atravessou e condenou à ira de Deus todos os corações em todos os povos, línguas e culturas. O Evangelho é contracultural, porque é na pregação da Igreja que teremos o confronto que poderá levar os corações ao arrependimento ou, segundo a vontade de Deus, entregá-los de uma vez à condenação em que se encontram. O Evangelho é intercultural, porque, uma vez perdoados em Cristo, podemos nos colocar diante de Deus e diante do próximo para exercermos as virtudes do Espírito Santo em nós. Estou me referindo agora àquelas virtudes mencionadas há uns três ou quatro parágrafos atrás e que só poderão ser concretizadas na Igreja e por meio da Igreja, porque elas são fruto do Espírito Santo (Gl 5:22–23)! Por isso, as virtudes humanas, ainda que urgentes e necessárias no convívio social, só serão levadas em conta por Deus, quando, por causa de Cristo, elas forem finalmente levadas pelo Espírito Santo à glória de Deus. Biblicamente, isso só é possível mediante à regeneração Soberana operada de modo monergístico pelo próprio Deus. Sim, Jesus julga o mundo, mas o faz pela Igreja que proclama a todas as nações que o Reino chegou e que esse Reino tem Rei e Ele voltará! Quem crer nessa mensagem e se arrepender de seus pecados será salvo, senão já está julgado.
Definitivamente, o Estado não pode se tornar uma só carne com a Igreja. E a história é repleta de exemplos de como esse adultério entre a Igreja e o Estado causou mais danos do que bênçãos. A Igreja não é o Estado. As razões da Igreja são celestiais e eternas. As razões do Estado são terrenas e finitas. “Rainha Margot”, de Alexandre Dumas, exemplifica muito bem o dano causado ao testemunho do Evangelho quando a Igreja cede às razões do Estado. O romance de Dumas é uma história ficcional a partir de eventos e personagens históricos. O livro começa na trágica “noite de São Bartolomeu”, evento que se mostra arquitetado pela mãe do Rei da França, que não aceitará um protestante assentado no trono. Assim, após o casamento entre Henrique de Navarra, Rei protestante, e a jovem Margarida, católica, deflagra-se uma traição sem precedentes na história. O que deveria ser um marco para selar a paz e trazer concórdia às guerras sangrentas entre os dois grupos torna-se uma noite de emboscada contra os protestantes. Na França, os protestantes, chamados de huguenotes, foram assassinados por todo o país, num número entre 5.000 e 30.000 mortos. Números que, dependendo das fontes, chegam a ultrapassar os 100.000 mortos.
A trama de Dumas transcorre desde os momentos imediatamente anteriores à noite de São Bartolomeu, que foi a data de 24 de agosto de 1574, e segue pelos próximos dois anos seguintes. A mãe do Rei Carlos IX, Catarina de Médici, é mostrada como a grande personagem manipuladora dos eventos e, principalmente, como aquela que arquitetou o massacre. Nos anos seguintes, ela persevera de plano em plano para destruir seus inimigos, principalmente Henrique de Navarra. Dumas mostra como que, a despeito do contexto de “guerra religiosa cristã”, os personagens estão mergulhados em superstições e feitiçarias pagãs. Estamos no século da Reforma Protestante, mas também estamos no século de Nostradamus. A própria Catarina recorre ao boneco vodu e outras práticas mágicas para eliminar Henrique. O lado protestante não é melhor do que isso, infelizmente. Por exemplo, basta uma visão sobrenatural para que um dos personagens interprete que deve se converter ao catolicismo. Aliás, o próprio Henrique de Navarra, para garantir a paz para a França, “converte-se” ao catolicismo. Uma conversão, até hoje, vista como estratégica para trazer paz ao Reino da França. Uma decisão tomada mesmo após o massacre covarde de seus irmãos huguenotes (ou por causa do massacre?). Aqui, numa decisão como essa, vemos o quão pueril e sujeita aos caprichos do coração ou às razões do Estado pode estar a convicção religiosa.
A personagem principal, a Margarida — a Rainha Margot do título — funciona como aquela que segue descobrindo a trama de traição arquitetada por Catarina durante a história. Sua personagem também carrega o envolvimento amoroso com La Mole, um jovem protestante. Na vida real, Margarida ficou conhecida por ter tido inúmeros amantes, mas Dumas retrata esse caso amoroso como o romance trágico da Rainha. La Mole se torna o melhor amigo de Cocunás, que, durante a narrativa do livro, desenvolve seu amor também trágico por Henriette, a Duquesa de Nevers. A amizade entre Cocunás e La Mole é bem representativa do ideal de amizade cavaleiresca do romantismo. A fidelidade e o amor de Cocunás por La Mole pode soar hoje (e talvez tenha sido interpretado por muitos) como um sentimento homoafetivo. Entretanto, essa interpretação seria um desconhecimento desses ideais de amizade presentes nos romances de cavalaria, portanto, tal interpretação não procede.
“Rainha Margot” é um livro fascinante e muito bem escrito. Duvido que hoje haja tramas tão ricas de personagens e desenvolvidas tão bem como li nesse livro. Contudo, a trama de conspiração, mentiras, traição e corrupção fez-me pensar na triste Cidade dos homens, sob quaisquer formas de governo que estejamos, e a ansiar a plenitude da Cidade de Deus. Um ponto final que gostaria de deixar para o futuro leitor de “Rainha Margot”: é na oposição às tramas de Catarina que vemos patentemente manifesta a Providência divina.
PS — Uma última reflexão sobre como Jesus já está julgando o mundo. Toda vez que, aos domingos, eu me dirijo ao culto com meus irmãos, na Igreja Local, penso em outros tantos de milhares de irmãos que também saem de suas casas, porque acreditam no Deus de sua salvação. São milhares de cristãos, a cada domingo, proclamando em culto solene de adoração pública, a festa da ressurreição dAquele que nos salvou e santifica. Aqueles que não festejam, porque não acreditam, são como os egípcios atormentados pelas pragas. Já o povo de Deus, ao contrário, sai para festejar no deserto ao Deus da sua libertação. Assim, vejo o domingo, cada domingo, como o anúncio do Dia do Senhor, o Dia da Justiça do meu Deus! A justiça já veio, mas ainda não. Prepare-se!
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Liberdade versus Igualdade: o mundo em desordem
Por que apresentar o livro “O mundo em desordem”? Porque muitas das nossas discussões bíblicas, teológicas ou sobre fé e prática cristãs quase sempre se dão de dentro dessa gaiola cultural maniqueísta “Esquerda X Direita”.
E o que a Igreja tem com tudo isso? Bem, muitas vezes, nem participamos das discussões, porque “política e igreja não se misturam”. Assim, desperdiçamos a grande oportunidade de não sermos manipulados por quaisquer desses sistemas, até mesmo por não percebemos o que eles são de fato e o que subjaz nas estruturas mais profundas de cada um.
O maniqueísmo esquerda-direita, gaiola dentro da qual muitos discutem teologia, tende a camuflar as duas grandes e reais questões filosóficas que estão em jogo e em tensão constante: Liberdade X Igualdade — eixo central do livro que apresento hoje aqui.
É impossível — sob pena de negligenciarmos aquilo que é de nossa responsabilidade espiritual (Mt 25: 14 -30) — o cristão querer passar ao largo dessas duas questões que, veja bem, estão entranhadas na mensagem do Reino de Deus e, por isso mesmo, são tão mal compreendidas à luz de uma exegese correta e saudável dos textos bíblicos em que aparecem. Não é de admirar que os cristãos no correr da história tenham sido usados como carga de canhão ora por um grupo, ora por outro, mas, muitas vezes, sem conseguir apresentar a proposta inovadora e conciliadora entre esses dois pontos, a saber: a fraternidade humana, que só é possível em Cristo Jesus, uma fraternidade que ainda não é plena, mas já é sombra de um por vir glorioso!
A fraternidade da Igreja de Jesus, que precisa ser anunciada em todo o mundo pela pregação do Evangelho, não anula as nossas diferenças individuais. Além do mais, a fraternidade oferecida por Jesus não se assemelha a qualquer proposta que o Estado ou um sistema econômico possa oferecer. Antes, a fraternidade evangélica nos alça à condição de iguais entre nós e de reconciliados com Deus para, enfim, exercermos no lugar em que cada irmão se encontra a liberdade responsável que nos foi conquistada na Cruz de Cristo!
Falo, portanto, da solidariedade em Cristo, por Cristo e para Cristo! — pérola de infinito valor e que nenhum esquema religioso, econômico, político, ideológico e estatal pode oferecer ou substituir!
Aos cristãos que vivem a vida como ela é, gostaria de indicar este primeiro livro de uma trilogia (na verdade, atualizando este texto, há apenas mais um livro, mostrando que o projeto inicial de "trilogia" não foi adiante) e que você pudesse comprá-lo e dar de presente a si mesmo e, principalmente, ao seu pastor (e/ou liderança, mentor, pai, padre, rabino, etc), ao professor de Escola Dominical da sua Igreja e — por que não? — ao professor de história do seu filho na escola ou na faculdade.
É com carinho e com expectativa de ótimas reflexões sobre nossas vidas pessoais que indico a leitura desse livro do Demétrio e da Elaine Senise Barbosa. Livro que se apresenta como um ótimo ponto de partida para relermos a História — e, no nosso caso, relermos também nossas teologias, sistemas de crenças e a nossa prática cristã — fora da gaiola cultural em que nossos discursos se veem presos. A proposta do livro é a mesma que trago para cada um de nós: reexaminar o que somos, pensamos, cremos e praticamos à luz dos temas da liberdade e da igualdade.
Este livro segue a história desde 1914–1945. Com isso, acompanhamos as razões das duas Grandes Guerras Mundiais do século XX, a Grande Depressão, o surgimento do Nazismo, a Revolução Russa e o crescimento do stalinismo. Vemos o posicionamento do Brasil diante desses acontecimentos, Getúlio Vargas e, o que para mim foi delicioso, um capítulo só sobre a arte e a cosmovisão por trás da construção de Brasília. A leitura é fascinante!
Fábio Ribas
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Como as pessoas mudam
“É impossível que o seu pecado surpreenda Aquele que morreu por causa dele. A cruz também lhe oferece a liberdade de procurar e receber perdão todas as vezes em que falhar. Nós não temos de carregar os pecados que Cristo levou sobre si. Ele pagou o preço que nós não podíamos pagar para que nunca tivéssemos de pagá-lo de novo” — esta é a citação estupenda! E ela nos encoraja, dentro do contexto do livro, a compreender que Deus nos salvou, porém também nos santifica diariamente por meio da mesma cruz! Lindo demais!
Comecei a ler este livro ainda na semana da disciplina de “Aconselhamento em situações de crise”, no Andrew Jumper, em SP. Contudo, por alguma razão que desconheço, não conseguia absorver positivamente, mas, ainda assim, terminei o primeiro capítulo. Isso deve ter mais de mês. Acho que, no primeiro capítulo, tive dificuldade com os “ismos” que ele apresenta, porque, chega um momento, em que tudo parecia meio que a mesma coisa. Por outro lado, pode ser mesmo que eu ainda não estava ali preparado para embarcar nesta leitura. Abandonei a leitura e, quase um mês depois, retornei e, por alguma razão que também desconheço, amei tudo o que li.
O Evangelho é o poder de Deus para a salvação e também para a santificação diária — esta é a tese que nos é recordada pelo autor. Infelizmente, há uma lacuna entre o nosso passado e o nosso futuro daquilo que entendemos como nossa vida cristã. No cap. 1, os autores irão abordar essa lacuna que temos quanto ao evangelho: sabemos que Deus nos perdoou do nosso passado e sabemos que teremos o céu como morada um dia, contudo, não compreendemos como a graça tem poder em nossas vidas no presente. E é sobre essa lacuna, então, que trata o livro.
Exatamente porque não sabemos da graça presente, tentamos suprir nossas vidas com coisas que não são Cristo. Mas é Cristo que é suficiente para mim agora e sempre! Se Jesus é suficiente, e ele é, então por que corremos atrás de falsas esperanças? É sobre isso o capítulo 2. Um dos pontos que os autores tratarão no cap. 3 é que devemos ter sempre o foco de aonde Deus está nos levando: o céu. Esta certeza deve mudar a minha relação pessoal com Cristo e com as pessoas ao meu redor. Se estamos casados com Cristo, então o que importa é a nossa fidelidade e pureza espiritual. E esta é a nossa identidade! Este é o assunto do cap. 4.
No cap. 5, os autores enfatizam que fomos salvos, fomos adotados para vivermos numa família. Somos desafiados a ser moldados uns pelos outros no Corpo de Cristo. Precisamos usar nossos dons em associação.
Nada substitui a Jesus. Contudo, sem perceber, o nosso ativismo religioso termina por ser um fim em si mesmo. Fomos adotados para termos intimidade com nosso noivo e crescermos em conhecimento dele. No capítulo 6, os autores dão um roteiro de autoconfrontação para o leitor, mas que também serve, obviamente, para aconselharmos a outros biblicamente.
No cap 7, é um “estudo de caso”. Como eu e vc reagimos aos problemas, ao “calor” da situação? Os autores apresentam Salmo 88 e Tiago 1 para não esquecermos que Deus nos ama em Cristo em toda situação. Por isso, devemos nos aproximar dele com confiança.
No cap 9, lembramos do ensino bíblico de que a vida é um deserto. E a maneira como reagimos quando o calor aumenta mostra quem somos e o que, então, devemos tratar em nós mesmos. Ficamos irritados? Tentamos jogar a culpa em alguém? Duvidamos da bondade de Deus? As respostas as essas perguntas revelam onde Deus quer nos tratar nisso tudo.
Vc é um espinheiro ou uma árvore frutífera na sua caminhada cristã? Eu e você precisamos responder, diante de Deus, esta pergunta.
A verdade é que colocamos a culpa dos nossos erros e pecados numa fonte fora de nós: o outro, a família, a sociedade etc. Encarar que não somos responsáveis pelo mal que nos fizeram, mas somos responsáveis pela maneira como reagimos a esse mal é fundamental para atingirmos o ponto que realmente importa: o nosso coração.
O capítulo 10 me lembrou muita coisa. Uma delas é quando abrimos mão de um apartamento, porque não queríamos amar mais a bênção de Deus do que o Deus da bênção. A sessão final do capítulo com as perguntas para autoconfrontação é muito boa. Também gostei de ver que caímos nos mandamentos de 4–10, porque, na verdade, já caímos antes nos 1–3.
Se queremos uma vida cristã saudável e que isso se reflita em casa, na família e na igreja precisamos levar este livro muito a sério. Assim, seguiria a orientação que os autores dão ao final do livro: o estudaria com meus companheiros de caminhada. E assim como disse antes, é um livro que, por meio de tantas histórias e perguntas, serve para nós, porém se torna também um precioso auxílio no tratamento do outro, do meu aconselhado.
Eu já havia lido o “Guerra de palavras”, que é muitíssimo bom também. Quando ele relembra a carta de Tiago no “”Como as pessoas mudam”, na hora lembrei do “Guerra de palavras”, que é um livro que, em seus capítulos, também traz muitas perguntas para trabalharmos com o nosso próprio coração e juntamente com outros. Não foram só a estrutura e as perguntas de “Como as pessoas mudam” que me lembraram o “Guerra de palavras”, mas as histórias da família dele (que eu acho que só pode ser do Tripp). Não posso negar que achei graça das situações que ele enfrenta na casa dele com a esposa e os filhos.
Tenho investido no aconselhamento com líderes indígenas cristãos e suas famílias. Por isso, este livro me ajudará demais como bússola para chegar lá. As culturas indígenas, como a maioria das culturas existentes no mundo, não são de abordagem direta, abrdagem de “toma a pergunta e me entrega a resposta”. São culturas de não confrontação, não resolução direta dos seus problemas. A abordagem, o método é outro, porque o sistema de pensamento é outro. Na verdade, é um sistema de pensamento mais próximo ao bíblico do que o que encontramos em parte da cultura brasileira e em parte da Ocidental. “Como as pessoas mudam” oferece princípios e caminhos que devo trilhar e adaptar no meu contexto de trabalho transcultural. Todavia, embora a cultura seja diferente, “a fábrica de ídolos”, que é o coração de todo homem em quaisquer culturas, é comum a todos nós.
Tenho lido muitos livros de aconselhamento e todos os que li lançam essa luz sobre irmos ao ponto, assim como a Bíblia o faz: o coração. Outros livros, então, que também citaria é o “Aconselhamento Redentivo”, do Rev Wadislau Gomes e o “Manual do Aconselhamento Redentivo”, do do Jônatas Abdias. Ambos cheios de histórias, casos concretos, perguntas e que apresentam roteiros que nos auxiliam nesse processo de saber onde, afinal, queremos chegar. Ainda farei resenhas desses livros e postarei por aqui.
Fábio Ribas
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Quase a mesma coisa
Conversando com um amigo sobre tradução, logo lembrei deste fascinante livro de Umberto Eco. É um dos meus livros de cabeceira. Um livro rico, erudito e cheio de experiências práticas de um autor que acompanhava a tradução de seus próprios livros em diversos idiomas e que, também, traduzia livros de tantos outros escritores. Leitura maravilhosa! Segue um “resumo apaixonado” que fiz das principais ideias do livro para meus amigos que também trabalham com tradução.
Vale a pena compreender que, para Umberto Eco, o trabalho de tradução não se dá entre palavras, mas sempre entre textos (o texto é chamado de “Manifestação Linear”). O processo da formação do texto reside na “langue”, o texto em si é a “parole”. Aqui, ainda, Umberto Eco chama a atenção ao perigo que reside na tentativa de se traduzir palavras por palavras ("uma" pela "outra"), sendo que o recorte que uma palavra abarca em determinada língua pode não ser o mesmos feito por uma palavra de outra língua (mesmo que, “dicionariamente”, pareçam se intercambiar). Ex: nephew/niece/grandchild (termos ingleses) e nipote (italiano).
Conceitos introdutórios:
Roteiro para a interpretação do sentido:
Há o conceito de Reversibilidade: o tradutor deverá decidir quais níveis do texto de partida gostaria de ver mantidos no texto de chegada. Fará uma aposta interpretativa da intenção de texto e tentará a reversibilidade (seja fonética, sintática, estética, semântica, etc). A pergunta é: afinal, o que se quer traduzir daquele texto? A reversibilidade é o “tentar recuperar muitíssimo bem o original”! Mas, ainda aqui, há escolhas, por exemplo, há traduções que recuperam muitíssimo bem o conteúdo do original, mas a reversibilidade quanto ao estilo é praticamente nula. Comentando sobre alguns exemplos de tradução, Eco diz que “a reversibilidade não é necessariamente léxica ou sintática, mas pode dizer respeito também a modalidades de enunciação”.
Para Eco, é ótima a tradução que permite manter como reversíveis o maior número de níveis possíveis do texto traduzido e não necessariamente o nível meramente lexical que aparece na “Manifestação Linear”.
A tradução também deve tomar cuidado com os grafemas. Sinais do texto original geram efeitos que podem ser perdidos na hora da tradução. Assim, sobre efeitos causados pelo texto de partida, também se deverá saber quais se manterão no texto de chegada.
Mas algo que eu achei muito interessante foram dois exemplos de tradução. No primeiro, o termo complicado era o que designava “casa”. Bem, acontece que no texto de origem “casa” designava casa humilde, mas não pobre e que definia o material do telhado dela. Na língua de chegada, não havia “casa” que se encaixasse nisso. O outro exemplo tratava de uma tradução para o italiano e a escolha entre a palavra rato ou camundongo. Esta havia sido escolhida para falar do rato encontrado por determinado personagem no livro “A peste” de Camus. Segundo Eco, a escolha havia sido infeliz, pois camundongo no italiano era um “ratinho”. Isto é, não tinha nada a ver com o rato morto e doente do texto de Camus. Interessante, não?
“Traduzir quer dizer entender o sistema interno de uma língua, a estrutura de um texto dado nessa língua e construir um duplo do sistema textual que, submetido à certa descrição, possa produzir efeitos análogos no leitor, tanto no plano semântico e sintático, quanto no plano estilístico, métrico, fono-simbólico, e quanto aos efeitos passionais para os quais tendia o texto fonte”.
Frases-chave de Umberto Eco:
1) “se o tradutor ou tradutora é inteligente, pode explicar os problemas que surgem em sua língua mesmo para um autor que não a conhece e mesmo nesses casos o autor pode colaborar sugerindo soluções ou até sugerindo quais licenças podem ser usadas com seu texto para contornar o problema” (p. 14) — aqui, penso na tradução bíblica: quem irá ajudar o tradutor para que ele contorne os problemas?
2) “mas o conceito de fidelidade tem a ver com a persuasão de que a tradução é uma das formas da interpretação e que deve sempre visar, embora partindo da sensibilidade e da cultura do leitor, reencontrar não digo a intenção do autor, mas a intenção do texto, aquilo que o texto diz ou sugere em relação à língua em que é expresso e ao contexto cultural em que nasceu” (p. 17) — aqui, lembro das traduções ideológicas (denominacionais) como a da Bíblia de Jerusalém, que traduz, por exemplo, “sacrifício” por “hóstia” em Rm 12.
3) “Todavia, por mais inábeis e infelizes que tenham sido as traduções através das quais os textos do Antigo e Novo Testamento chegaram a bilhões de fiéis de línguas diversas, nessa corrida de língua a língua e de vulgata a vulgata uma parte consistente da humanidade acabou concordando sobre fatos e eventos fundamentais transmitidos por esses textos, dos dez Mandamentos ao sermão da montanha, das histórias de Moisés à paixão de cristo — e, gostaria de dizê-lo, sobre o espírito que anima esses textos” (p. 19) — impressionante Confissão de fé de um tradutor, que aqui, claramente, não concorda com os pós-modernos.
4) “Daí a ideia de que a tradução se apoia em alguns processos de negociação, sendo a negociação, justamente, um processo com base no qual se renuncia a alguma coisa para obter outra — e no fim as partes em jogo deveriam experimentar uma sensação razoável e recíproca satisfação à luz do áureo princípio de que não se pode ter tudo” (p. 19) — creio que o missionário-tradutor está o tempo todo com essa situação em sua mente.
Meu Deus, fiquei maravilhado com a análise feita por ele da tradução para crianças de “Os Miseráveis” de Vítor Hugo. No processo de fidelidade (reversibilidade) e negociação, quem adaptou a obra para crianças optou por mudar a situação do suicídio de Jean Valjean para de “pedido de demissão”. Eco entende que aqui foi aceitável e compreensível a mudança e que não haviam sido feridos a trama e o espírito do livro. Embora Eco assuma que “se um incidente do gênero acontecesse em uma tradução (de algum livro dele), poderia falar de violação de um direito meu”.
5) “Isso nos faz suspeitar de que uma tradução não depende somente do contexto linguístico, mas também de algo que está fora do texto e que chamaremos de informação acerca do mundo ou informação enciclopédica (p. 36) — Eco está se referindo ao fato de um simples dicionário digital não saber fazer “seleções contextuais”, por exemplo, o meu computador é incapaz de mudar a letra ‘e’ de Eco para maiúscula, quando erro durante a digitação que faço neste momento.
6) “é difícil estabelecer o significado de um termo (em uma língua desconhecida) até quando o linguista aponta o dedo para um coelho que passa e o indígena pronuncia “gavagai”! O indígena pretende dizer que aquele é o nome daquele coelho, dos coelhos em geral, que a relva está se movendo, que um segmento espaço-temporal de coelho está passando? A decisão continua impossível, se o linguista não tem informações sobre a cultura indígena e não sabe como os nativos categorizam suas experiências, se eles nomeiam coisas, partes de coisas ou eventos que, no conjunto, compreendem também a aparição de uma dada coisa. O linguista deve, portanto, começar a elaborar uma série de hipóteses analíticas que o levam a construir um manual de tradução — que deveria corresponder a um manual completo não somente de linguística, mas também de antropologia cultural” (p. 42) — fascinante, não?
Sobre a tradução como negociação:
Há traduções que enriquecem esplendidamente a língua de destino (aqui, Eco exemplifica com a tradução de Lutero da Bíblia que conseguiu “inventar” o alemão) e que, em casos que muitos consideram afortunados, conseguem dizer mais (ou são mais ricas de sugestões) que os originais. (Contudo), uma tradução que chega a “dizer mais” poderá ser uma obra excelente em si mesma, mas não é uma boa tradução.
Sobre perdas e ganhos num trabalho de tradução:
Sobre referência e sentido profundo:
Fontes , foz, deltas e estuários
A grande questão do livro
Boa leitura!
Fábio Ribas
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