“Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornariam deuses e, por consequência, demônios. Depois nos destruiriam e, também, a si mesmos, pois amores naturais que têm a pretensão de se tornar deuses não permanecem como amores. Eles são ainda assim chamados, mas podem se tornar, de fato, formas complicadas de ódio” - “Os 4 amores”, CS Lewis.
Em “Srª Lewis” (você pode ler a resenha completa aqui), acompanhamos o nascimento e amadurecimento da narrativa que originará “Até que tenhamos rostos”. Originalmente, uma história abandonada que fora intitulada “Luz”. Joy Davidman incentiva que CS Lewis a retome. A tensão toda da retomada se dá pela dúvida de Joy sobre os sentimentos de Lewis. Afinal, o que ele via nela? Alguém para amar verdadeiramente e se entregar ou apenas uma fonte para saciar sua sede de amizade literária?
Joy relembra que, no mito, são as próprias irmãs que entregam Psique por inveja. Nesse ponto, Joy comenta que, mesmo nutrindo inveja de Psique, jamais a entregaria à morte.
— Nem para salvá-la? — ele perguntou. — Talvez as irmãs dela tiraram sua felicidade porque acreditavam que a estavam salvando. — É isso, Jack. Você conseguiu. — Bati a mão na mesa. — Escreva sobre isso (diálogo entre CS Lewis e Joy, em Srª Lewis).
Assim nasce o tema de toda discussão de “Até que tenhamos rostos”. Obviamente, daqui para frente, como nos é apresentado no livro de Patti Callahan, o livro sobre Psique e Orual termina por se tornar uma narrativa para que ambos - Joy e Lewis - entendam e tentem explicar um ao outro a natureza da relação de ambos.
A história abaixo, no próximo parágrafo, é um resumo do mito de Apuleio, que está no livro “Metamorfoses” (conhecido também pelo título “O asno de ouro”), um resumo feito pelo próprio CS Lewis e apresentado na nota final de seu livro. A partir desse resumo, podemos ver as mudanças operadas por CS Lewis em “Até que tenhamos rostos”. A principal mudança é o foco narrativo, que recai sobre uma das irmãs de Psique, Orual. É Orual quem nos conta a história. E por que ela decide contar a sua versão dos fatos? É que a história original, narrada por um sacerdote do Templo de Psique, não condiz com os fatos vividos por ela. Orual, portanto, escreve seu livro (que é o que estamos lendo em “Até que tenhamos rostos”), para se defender do erro do mito contado e difundido sobre a sua própria história, pois, para Orual, ela não agiu por inveja, mas por amor à irmã Psique. E esse, então, é o estopim de todo o problema narrado no livro de CS Lewis. Segue abaixo esse resumo do CS Lewis.
“Um rei e uma rainha tiveram três filhas, das quais a mais jovem era tão bonita que os homens a adoravam como a uma deusa e, por causa dela, negligenciaram o culto a Vênus. O resultado foi que Psique (como era chamada a mais nova) não tinha pretendentes; os homens reverenciavam demais a sua suposta deidade para pleitear sua mão. Quando seu pai consultou o oráculo de Apolo a respeito do casamento dela, recebeu a seguinte resposta: “Não espere um genro humano. Você deve expô-la em uma montanha, a fim de que se torne presa de um dragão”. Ele fez isso, em obediência. Entretanto, Vênus, com ciúme da beleza de Psique, já havia articulado uma punição diferente para ela. Tinha ordenado a seu filho, Cupido, atormentar a garota com uma paixão irresistível pelo mais baixo dos homens. Cupido saiu para fazer isso, mas, ao ver Psique, apaixonou-se ele mesmo por ela. Tão logo ela foi deixada na montanha, ele a fez ser carregada pelo Vento Oriental (Zéfiro) até um lugar secreto, onde ele havia preparado um majestoso palácio. Lá, ele a visitava de noite e desfrutava do seu amor; mas a proibia de ver seu rosto. Em pouco tempo, ela passou a lhe implorar para que pudesse receber a visita de suas duas irmãs. Com relutância, o deus consentiu, fazendo-as flutuar até o palácio. Ali chegando, foram majestosamente recebidas e demonstraram enorme satisfação em relação a todo o esplendor que viram. Internamente, porém, estavam se corroendo de inveja, porque seus maridos não eram deuses e suas casas não eram elegantes como a da irmã. Elas, então, conspiraram para destruir a felicidade da irmã. Na visita seguinte, elas a convenceram de que seu misterioso marido deveria ser, na verdade, uma serpente monstruosa. “Você deve levar ao seu quarto hoje à noite”, disseram, “um lampião coberto com um manto e uma faca afiada. Quando ele dormir, descubra o lampião — veja o horror que está deitado em sua cama — e mate-o a facadas”.Tudo isso a crédula Psique prometeu fazer. Quando ela descobriu o lampião, viu o deus adormecido, e olhou-o intensamente com um amor insaciável, até que uma gota de óleo quente pingou do lampião e caiu no ombro dele, acordando-o. Levantando-se, ele estendeu suas asas, repreendeu-a e desapareceu de sua vista. As duas irmãs não conseguiram divertir-se por muito tempo com sua maldade, pois Cupido tomou providências que levaram ambas à morte. Enquanto isso, Psique vagueava, desolada e infeliz, e tentou se afogar no primeiro rio que encontrou; mas o deus Pã frustrou sua tentativa, advertindo-a a nunca mais repetir isso. Depois de muitos tormentos, ela caiu nas mãos de sua pior inimiga, Vênus, que a tomou como escrava, espancou-a e lhe atribuiu tarefas cujo cumprimento era impossível. A primeira, que era separar em diferentes montes sementes misturadas, ela cumpriu com a ajuda de algumas formigas muito prestativas. Na sequência, ela teria de pegar um rolo de lã dourada de algumas ovelhas que matavam homens; um junco à margem do rio segredou-lhe que isso poderia ser feito removendo a lã dos arbustos. Depois disso, Psique tinha de encher uma taça com a água do Estige, que só podia ser alcançado escalando-se montanhas dificílimas, mas uma águia a encontrou, tomou a taça das mãos dela e retornou com o recipiente cheio de água. Finalmente, teria de descer até o mundo subterrâneo para trazer a Vênus, em uma caixa, a beleza de Perséfone, a Rainha dos Mortos. Uma voz misteriosa disse-lhe como ela poderia chegar a Perséfone e ainda voltar ao nosso mundo; no caminho, várias pessoas que pareciam merecer sua compaixão lhe pediriam ajuda, mas ela deveria ignorar todas elas. Quando Perséfone lhe desse a caixa (cheia de beleza), ela não deveria, sob hipótese alguma, abrir a tampa para olhar dentro. Psique obedeceu a todas as orientações e retornou ao mundo superior com a caixa; por fim, a curiosidade a derrotou e ela olhou dentro da caixa. E imediatamente perdeu a consciência. Cupido veio até ela de novo, mas, dessa vez, ele a perdoou. Ele intercedeu junto a Júpiter, que consentiu em permitir seu casamento e fez de Psique uma deusa. Vênus reconciliou-se com ela e todos viveram felizes para sempre”.
O livro de Lewis é dividido em duas partes. A primeira é a defesa de Orual, que narra o que realmente aconteceu. Mas a segunda parte do livro é um acréscimo após a transformação sofrida por Orual. E é na segunda parte que ficamos sabendo sobre o que significa, afinal, o título do livro.
Evidentemente, assim como o próprio mito de Eros e Psique, a releitura de CS Lewis se abre a muitas possibilidades de compreensão e interpretação, embora não haja dúvida alguma na trajetória vivida por nossa anti-heroína, Orual, até que haja sua transformação. Orual tem sérios problemas com o sagrado, o religioso, o místico. Ela crê nos deuses, mas os vê como suspeitos, como inimigos que estão distantes dela e que em nada ajudam os seres humanos. A principal característica de nossa personagem principal é que ela é muito feia, ao contrário de sua irmã mais nova, Psique. Psique é tão bela, que todos pensam que os deuses estão enciumados e, por isso, as pragas e as doenças que vêm sobre o povo. Então, é preciso sacrificá-la aos deuses. A principal deusa do povo bárbaro do Reino de Glome é Ungit, uma pedra disforme e sem rosto, que brotara da terra. Ungit seria o equivalente à Afrodite dos gregos, mas Ungit é extremamente impiedosa e a quem são feitos sacrifícios, inclusive humanos. Ela é feia. Quero salientar que Ungit é feia e terrível. Acredito que seja importantíssimo perceber duas coisas aqui. Primeiro, Afrodite é a deusa do amor. Segundo, ela é tão terrível como Ungit. Há algo trágico aqui. Você se lembra como deu-se o nascimento de Afrodite? São todas essas informações que ajudarão o leitor na construção narrativa feita por CS Lewis. Quanto à Psique, a irmã mais nova, uma informação importantíssima é que sua mãe morreu no seu parto e que, então, Orual irá se ligar a ela em cuidado maternal.
Psique é levada à montanha para ser sacrificada e abandonada. Mas, depois, Orual sobe a montanha para dar um enterro digno à irmã sacrificada. Todavia, quando Orual vai procurar o corpo de sua irmã, Psique não está lá. Ela está morando num castelo de um Rei deus, mas esse castelo não é visto, pelo menos num primeiro momento, por Orual. Por amor, Orual se arrisca para dar um enterro digno a sua irmã. Agora, por amor, Orual alerta que era tudo um delírio de Psique, pois não havia castelo algum. Ela deveria estar enfeitiçada por esse monstro, que fingia ser um deus. Se ele fosse quem dizia que era, por que proibia Psique de ver seu rosto durante suas visitas íntimas?
Orual tem um rosto feio. Psique, um rosto divinamente belo. Eros (Cupido), o rei que casara com Psique, proibia que ela visse seu rosto. O rosto de Ungit era disforme. Enfim, estamos diante de uma questão de identidade. O rosto (ou a falta dele) diz quem somos realmente? Por que Orual não tem rosto? Essa última pergunta é fundamental para entendermos a proposta de CS Lewis. Orual passa o livro não apenas fugindo do seu rosto feio escondendo-o debaixo de um véu e, com isso, alimentando supertições populares sobre ela, mas, principalmente, ela assume máscaras, que são os seus “rostos” na sociedade. Mas quem eu sou? O meu rosto, que escondo de todos, ou minhas máscaras, com as quais atendo as expectativas alheias? Compreendendo o que acabei de escrever, podemos agora nos abrir sobre duas sentenças que aparecem no livro sobre Orual: ela é Ungit e ela será Psique.
(A partir daqui, revelarei a tese principal de CS Lewis no livro, portanto, continue a ler por sua conta e risco).
Ungit é perversa. Como compreender que a amorosa Orual seja Ungit? Eis que o véu sobre seu rosto cai, pois o que Orual pensa que é amor, na verdade, não é. É possessividade, inveja, ciúme e, até mesmo, ódio por sua irmã Psique. Descobrimos, durante a leitura, que Orual é tão devoradora dos seres humanos como Ungit. Contudo, nossa personagem não tem rosto, assim como a deusa Ungit. Por isso, podemos entender que a falta de rosto - ver-me como quem eu realmente sou - é a razão dos deuses não ouvirem sua petição e defesa que fazemos diante deles. Ela só poderá estar na presença deles com um rosto.
Quais as máscaras atribuídas - papéis sociais - à Orual? A “filha” de Raposa, que é seu Mestre descrente dos deuses e dos poetas; a “Maia”, de Psique, ou a “senhora” de Bardia, seu fiel soldado e amor não correspondido? Rainha de Glome? Todas essas máscaras não correspondem em nada ou são facetas - sujeitos dispersos de Orual? O fato é que máscaras não são rostos. E enquanto Orual não encarar seu próprio rosto diante do espelho, ela não poderá ser recebida no tribunal. Ela continua a ser Ungit. Perceberam? AMEI!!!
Mas quando Orual ouve a frase “você também será Psique”? Na primeira vez, ela está sendo expulsa da montanha, depois de induzir Psique ao erro de duvidar de Eros e tentar ver o rosto do deus que lhe desposara. Psique é condenada a vagar por causa da sua desobediência e Orual, segue de volta ao Reino para se esconder debaixo do véu. Ambas seguem seus destinos: Psique, peregrinando em exílio, e Orual, a Rainha sem rosto. Entretanto, no fim do livro, Orual ouve: “Você é Psique”!
CONCLUSÃO
Por que escrevemos? "Escrevo para confrontar os deuses", diz Orual. Fomos expulsos do jardim do Éden. Há em todos nós uma sede por justiça. Escrevemos para dizer como as coisas realmente se deram. Mas será que sabemos o que realmente rege os acontecimentos? Sabemos quem somos? Durante todo esse tempo, Orual encobriu a face diante de nós e não nos mostrou seu verdadeiro eu, da mesma maneira que não nos contou a realidade sobre seu amor. Orual acusou os deuses de não falarem claramente as coisas, mas ela fez o mesmo. Acusou o deus da Montanha de encobrir um rosto horrível, mas ela fez o mesmo. Acusou Ungit de consumir o povo, e ela fez o mesmo. Assim, ao chegarmos ao fim do livro, o livro de acusação de Orual contra os deuses, Orual reconhece que o livro serviu para que ela revelasse a si mesma sua própria ferida, seu prório rosto...
“Vc também é Psique” à luz de nossa união com Cristo, ali eram sonhos... Pois quem realmente realizou as tarefas fora Psique, quem conquistou para Orual a redenção foi Psique! Eu preciso assumir o meu rosto: sim, sou feio! Contudo, na hora em que retiro o véu e enfrento a feiúra do meu próprio rosto, não é com o meu rosto que, finalmente, enfrentarei o tribunal dos deuses, mas é com o rosto de Jesus! Quando Deus olhar para mim diante do Tribunal, não será com a feiúra do meu rosto que serei julgado, mas com o rosto de Psique, que realizou todas as obras em meu lugar e me imputou sua justiça, sua beleza, seu rosto para que eu pudesse estar diante de Deus. E para encerrar com um tema que me é tão caro, mostrando que o Cristianismo não é um budismo, ao conferir-lhe um novo rosto e dizer que ela também é Psique, vemos, ao fim do livro, que Orual não perde a sua individualidade.
Fábio Ribas
