quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Quase a mesma coisa

 

    Conversando com um amigo sobre tradução, logo lembrei deste fascinante livro de Umberto Eco. É um dos meus livros de cabeceira. Um livro rico, erudito e cheio de experiências práticas de um autor que acompanhava a tradução de seus próprios livros em diversos idiomas e que, também, traduzia livros de tantos outros escritores. Leitura maravilhosa! Segue um “resumo apaixonado” que fiz das principais ideias do livro para meus amigos que também trabalham com tradução.

    Vale a pena compreender que, para Umberto Eco, o trabalho de tradução não se dá entre palavras, mas sempre entre textos (o texto é chamado de “Manifestação Linear”). O processo da formação do texto reside na “langue”, o texto em si é a “parole”. Aqui, ainda, Umberto Eco chama a atenção ao perigo que reside na tentativa de se traduzir palavras por palavras ("uma" pela "outra"), sendo que o recorte que uma palavra abarca em determinada língua pode não ser o mesmos feito por uma palavra de outra língua (mesmo que, “dicionariamente”, pareçam se intercambiar). Ex: nephew/niece/grandchild (termos ingleses) e nipote (italiano).

Conceitos introdutórios:

1. A forma da expressão: é o conhecimento da gramática daquela língua, a saber, sua fonologia, morfologia, o léxico e a sintaxe.
2. A forma do conteúdo: a percepção do recorte do mundo feito por aquela língua: ovelha vs cabra; cavalo vs égua; rat vs mouse, as matizes das cores, etc.
3. O sentido: a forma do conteúdo vai revelar o sentido que levará o tradutor à escolha da palavra que abarque o mundo que se deseja levar do “texto fonte” ao “texto de chegada”.

Roteiro para a interpretação do sentido:

1. Compreender o sentido literal e ver se há ambiguidade;
2. Correlacioná-lo a mundos possíveis: o texto pertence ao mundo do qual faço parte ou seria uma fábula?
3. Discernir enredos intertextuais e gêneros literários;
4. Averiguar a possibilidade de estar-se diante de uma expressão idiomática;
5. Diante do texto lido, averiguar o capítulo ou o livro em que ele se encontra inserido, para descobrir o tema do discurso;
6. Tentar distinguir isotopias: uma mesma palavra com significados diferentes. Ex: O alfaiate não estava satisfeito com o gancho (cavallo, no italiano) e O jóquei não estava satisfeito com o cavallo (cavalo, no italiano);
7. Buscar identificar os enredos comuns (que preferiria chamar de enredos implícitos): aquilo que não está escrito, mas que se sabe fazer parte do fato narrado.
8. Reconstruir o enredo de uma nova maneira, para identificar qual seria “a história profunda”, que é a principal, daquelas que fariam parte dos eventos marginais ou parentéticos (estarei transformando o enredo em proposições que serão o resumo da história);
9. Identificar a psicologia dos personagens do enredo e identificar as estruturas actanciais;
10. Continuar a analisar os níveis textuais e começar a criar hipóteses interpretativas mais consistentes diante da identificação das estruturas ideológicas do enredo;
11. Enfim, nesta altura, ficará mais clara a aposta interpretativa sobre os vários níveis de sentido e sobre quais dentre esses sentidos o tradutor deverá privilegiar (o tradutor deve apostar a respeito de qual é a dominante de um texto).

    O tradutor como um negociador: há de se entender quais as escolhas que se deverá fazer de acordo com a intenção do texto. Sempre há a negociação, há perdas e ganhos nas apostas interpretativas que deverão ser feitas pelo tradutor. Às vezes, para Eco, pode parecer que numa negociação haja mais perdas que ganhos e, dependendo daquilo que se prioriza como sendo a intenção do texto, ainda assim o tradutor ficará satisfeito.

    Há o conceito de Reversibilidade: o tradutor deverá decidir quais níveis do texto de partida gostaria de ver mantidos no texto de chegada. Fará uma aposta interpretativa da intenção de texto e tentará a reversibilidade (seja fonética, sintática, estética, semântica, etc). A pergunta é: afinal, o que se quer traduzir daquele texto? A reversibilidade é o “tentar recuperar muitíssimo bem o original”! Mas, ainda aqui, há escolhas, por exemplo, há traduções que recuperam muitíssimo bem o conteúdo do original, mas a reversibilidade quanto ao estilo é praticamente nula. Comentando sobre alguns exemplos de tradução, Eco diz que “a reversibilidade não é necessariamente léxica ou sintática, mas pode dizer respeito também a modalidades de enunciação”.

    Para Eco, é ótima a tradução que permite manter como reversíveis o maior número de níveis possíveis do texto traduzido e não necessariamente o nível meramente lexical que aparece na “Manifestação Linear”.

    A tradução também deve tomar cuidado com os grafemas. Sinais do texto original geram efeitos que podem ser perdidos na hora da tradução. Assim, sobre efeitos causados pelo texto de partida, também se deverá saber quais se manterão no texto de chegada.

    Mas algo que eu achei muito interessante foram dois exemplos de tradução. No primeiro, o termo complicado era o que designava “casa”. Bem, acontece que no texto de origem “casa” designava casa humilde, mas não pobre e que definia o material do telhado dela. Na língua de chegada, não havia “casa” que se encaixasse nisso. O outro exemplo tratava de uma tradução para o italiano e a escolha entre a palavra rato ou camundongo. Esta havia sido escolhida para falar do rato encontrado por determinado personagem no livro “A peste” de Camus. Segundo Eco, a escolha havia sido infeliz, pois camundongo no italiano era um “ratinho”. Isto é, não tinha nada a ver com o rato morto e doente do texto de Camus. Interessante, não?

    “Traduzir quer dizer entender o sistema interno de uma língua, a estrutura de um texto dado nessa língua e construir um duplo do sistema textual que, submetido à certa descrição, possa produzir efeitos análogos no leitor, tanto no plano semântico e sintático, quanto no plano estilístico, métrico, fono-simbólico, e quanto aos efeitos passionais para os quais tendia o texto fonte”.

    Frases-chave de Umberto Eco:

1) “se o tradutor ou tradutora é inteligente, pode explicar os problemas que surgem em sua língua mesmo para um autor que não a conhece e mesmo nesses casos o autor pode colaborar sugerindo soluções ou até sugerindo quais licenças podem ser usadas com seu texto para contornar o problema” (p. 14) — aqui, penso na tradução bíblica: quem irá ajudar o tradutor para que ele contorne os problemas?

2) “mas o conceito de fidelidade tem a ver com a persuasão de que a tradução é uma das formas da interpretação e que deve sempre visar, embora partindo da sensibilidade e da cultura do leitor, reencontrar não digo a intenção do autor, mas a intenção do texto, aquilo que o texto diz ou sugere em relação à língua em que é expresso e ao contexto cultural em que nasceu” (p. 17) — aqui, lembro das traduções ideológicas (denominacionais) como a da Bíblia de Jerusalém, que traduz, por exemplo, “sacrifício” por “hóstia” em Rm 12.

3) “Todavia, por mais inábeis e infelizes que tenham sido as traduções através das quais os textos do Antigo e Novo Testamento chegaram a bilhões de fiéis de línguas diversas, nessa corrida de língua a língua e de vulgata a vulgata uma parte consistente da humanidade acabou concordando sobre fatos e eventos fundamentais transmitidos por esses textos, dos dez Mandamentos ao sermão da montanha, das histórias de Moisés à paixão de cristo — e, gostaria de dizê-lo, sobre o espírito que anima esses textos” (p. 19) — impressionante Confissão de fé de um tradutor, que aqui, claramente, não concorda com os pós-modernos.

4) “Daí a ideia de que a tradução se apoia em alguns processos de negociação, sendo a negociação, justamente, um processo com base no qual se renuncia a alguma coisa para obter outra — e no fim as partes em jogo deveriam experimentar uma sensação razoável e recíproca satisfação à luz do áureo princípio de que não se pode ter tudo” (p. 19) — creio que o missionário-tradutor está o tempo todo com essa situação em sua mente.

    Meu Deus, fiquei maravilhado com a análise feita por ele da tradução para crianças de “Os Miseráveis” de Vítor Hugo. No processo de fidelidade (reversibilidade) e negociação, quem adaptou a obra para crianças optou por mudar a situação do suicídio de Jean Valjean para de “pedido de demissão”. Eco entende que aqui foi aceitável e compreensível a mudança e que não haviam sido feridos a trama e o espírito do livro. Embora Eco assuma que “se um incidente do gênero acontecesse em uma tradução (de algum livro dele), poderia falar de violação de um direito meu”.

5) “Isso nos faz suspeitar de que uma tradução não depende somente do contexto linguístico, mas também de algo que está fora do texto e que chamaremos de informação acerca do mundo ou informação enciclopédica (p. 36) — Eco está se referindo ao fato de um simples dicionário digital não saber fazer “seleções contextuais”, por exemplo, o meu computador é incapaz de mudar a letra ‘e’ de Eco para maiúscula, quando erro durante a digitação que faço neste momento.

6) “é difícil estabelecer o significado de um termo (em uma língua desconhecida) até quando o linguista aponta o dedo para um coelho que passa e o indígena pronuncia “gavagai”! O indígena pretende dizer que aquele é o nome daquele coelho, dos coelhos em geral, que a relva está se movendo, que um segmento espaço-temporal de coelho está passando? A decisão continua impossível, se o linguista não tem informações sobre a cultura indígena e não sabe como os nativos categorizam suas experiências, se eles nomeiam coisas, partes de coisas ou eventos que, no conjunto, compreendem também a aparição de uma dada coisa. O linguista deve, portanto, começar a elaborar uma série de hipóteses analíticas que o levam a construir um manual de tradução — que deveria corresponder a um manual completo não somente de linguística, mas também de antropologia cultural” (p. 42) — fascinante, não?

    Sobre a tradução como negociação:

1) Negociar: camundongo ou rato? “Se queremos ressaltar na tradução um aspecto do original que nos parece importante, isso só pode acontecer, às vezes, à custa de deixar em segundo plano ou até mesmo de eliminar outros aspectos igualmente presentes. Mas é justamente isso que chamamos de interpretação… Na medida, porém, em que o tradutor nem sempre está em condição de expressar todas as dimensões do texto, seu trabalho implica também uma contínua renúncia” (a frase é de Gadamer).

2) “Traduzir significa sempre “cortar” algumas das consequências que o termo original implicava. Nesse sentido, ao traduzir não se diz nunca a mesma coisa. A interpretação que precede cada tradução deve estabelecer quantas e quais das possíveis consequências ilativas que o termo sugere podemos cortar” (p. 107) — fantástico este livro, não?

3) Na questão da negociação, Eco diz que há perdas que são perdas absolutas. Daí a necessidade do tradutor assumir essa perda e tentar explicá-la numa nota de rodapé. Mas, ainda nas questões de perda, Eco diz que o tradutor pode operar com compensações.

4) Compensações são estratégias de tradução relacionadas a “se ajudar o texto”. Todavia, é um perigo ao qual se deve resistir o da tentação de ajudar demais o texto, quase substituindo o autor. Aqui, então, ele aborda a questão de se evitar “enriquecer o texto” traduzido.

    Há traduções que enriquecem esplendidamente a língua de destino (aqui, Eco exemplifica com a tradução de Lutero da Bíblia que conseguiu “inventar” o alemão) e que, em casos que muitos consideram afortunados, conseguem dizer mais (ou são mais ricas de sugestões) que os originais. (Contudo), uma tradução que chega a “dizer mais” poderá ser uma obra excelente em si mesma, mas não é uma boa tradução.

    Sobre perdas e ganhos num trabalho de tradução:

1) “Existem perdas que poderíamos definir como absolutas”. Eco dá como exemplo uma piada que em italiano tem sua graça no jogo com os pronomes, mas que tem seu sentido perdido para maioria das línguas traduzidas (jogo de palavras). Aqui, peguei no flagra um jogo de palavras que Gisele (minha filha que, na época, tinha 2 anos de idade) fez quando me disse: “Pai, construí uma casa de palha… mas não sou um palhaço”!

2) “Perdas por acordo entre as partes”: o autor dá o exemplo de seu livro “O nome da rosa” que teve 24 páginas cortadas no inglês por motivos de mercado.

3) Quando há ambiguidades e obscuridades no texto que se está traduzindo: a) “o tradutor, à luz do contexto, deve esclarecer o texto para o leitor”; b) “o tradutor não apenas resolve o ponto no texto de chegada, mas ilumina o autor (se ainda estiver vivo e for capaz de reler a si mesmo em tradução) e pode levá-lo, em uma edição sucessiva do original, a esclarecer melhor o que pretendia dizer”; c) “quando, mesmo que ao houvesse a intenção do autor (ou do tradutor) de que o texto fosse ambíguo, mas o leitor considera aquela ambiguidade interessante textualmente”; d) “quando o autor (e o texto) eram e queriam permanecer ambíguos, precisamente para suscitar uma interpretação oscilante entre duas alternativas. Nesses casos, o tradutor deve aceitar a ambiguidade”. Ainda, aqui, deve-se consultar outras traduções em outras línguas para ver como outros resolveram as ambiguidades e obscuridades do texto.

4) Quando a perda é sensível, pode-se re-elaborar radicalmente o texto: a reelaboração, para Eco, é um ato de fidelidade. Tenta-se re-escrever para tentar dar ao texto traduzido algum mesmo efeito que se sabe completamente perdido na cultura do leitor final. O exemplo dado é de um texto de Eco traduzido do italiano para o espanhol, todavia Eco fazia alusões à poesia italiana, e que na tradução passaram a ser alusões à poesia espanhola (p. 145–150).

5) “O único critério para poder dizer que se trata ainda de tradução é que seja respeitada a condição de reversibilidade” (p. 161).

    Sobre referência e sentido profundo:

    Nesse capítulo, Umberto Eco questiona a possibilidade de se mudar a referência de um texto embora seja possível manter o sentido profundo desse texto. Para solucionar a questão, ele vê que cada caso é um caso.

    Há traduções nas quais se usa determinado termo que muda a referência do texto original. Como exemplo, ele cita uma narrativa em que o original “coupé” do francês é traduzido para “hansom” em inglês. Todavia, as duas carruagens são bem diferentes. A primeira leva o cocheiro sentado na parte da frente e a segunda leva o cocheiro sentado na parte de trás. Ora, então o francês visualiza a cena de uma carruagem com um cocheiro sentado na frente e o inglês o visualiza sentado atrás. Para a narrativa, tanto faz. Mas, “do ponto de vista do critério de verdade, os dois textos constroem duas cenas diferentes”.

    Interessante, não? Principalmente, se pensarmos na tradução bíblica e o que estamos construindo na mente do leitor.

    Há mudanças de referência que são aceitas e outras não. Embora, para Umberto Eco, o tradutor não devesse mudar as referências do texto original. Mas há línguas que se verá o tradutor obrigado a fazer isso. Ele dá o exemplo da tradução do seu livro “O pêndulo de Foucault” em que há uma cena na qual o personagem entra numa sala e tem uma experiência cromática que é passada pela descrição ininterrupta de cores vistas por ele. Mas numa tradução para determinada língua havia várias cores inexistentes. Simplesmente não havia palavras equivalentes para se traduzir as cores do original. Assim, o tradutor optou por outras cores. Mantendo o sentido, mas alterando a referência. 

    Mas há trocas de referências inaceitáveis. Eco lembra que em textos clássicos como Hamlet seria inadmissível não ler “to be or not to be”, mas ler algo como “viver ou morrer bem” só para se tentar facilitar o jogo de palavras. Enquanto um texto como “O pêndulo de Foucault” pode ser mudado como se quiser e ninguém vai ligar.

    Se o tradutor pode mudar as referências de “O pêndulo de Foucault”, quais são os limites? Eco vê que toda narrativa pode ser reduzida micro-proposições que revelam a “história profunda”. Esta não deve ser alterada. Enquanto se poderia mexer nas referências da “história superficial”. Ex: A menina leva doces à casa da vovó e acaba na armadilha de um lobo que a engana, devorando sua avó e quase a devorando também. Para Eco, há uma verdadeira fábula e esta é que não pode ser alterada.

    Fontes , foz, deltas e estuários

    “Uma tradução não diz respeito apenas a uma mensagem entre duas línguas, mas entre duas culturas, ou duas enciclopédias”.

    Aqui, recordo-me da situação bíblica de Sara e Abraão na narrativa da situação de sua serva. Há que se recorrer a um background cultural para se compreender os pressupostos extra-bíblicos legais e jurídicos da época. Eco passa a citar alguns exemplos em que a má compreensão cultural produz uma cadeia de mal-entendidos linguísticos.

    A grande questão do livro

    Uma tradução deve levar o leitor a compreender o universo linguístico e cultural do texto de origem ou deve transformar o texto original para torná-lo aceitável ao leitor da língua ou da cultura de destino?

    Ao se traduzir Homero, o tradutor deveria transformar os próprios leitores gregos dos tempos homéricos ou obrigar Homero a escrever como se fosse um autor dos nossos tempos?
A questão exposta acima é designada no livro como: DOMESTICAR ou ESTRANGEIRIZAR? MODERNIZAR ou ARCAIZAR?…

Boa leitura!

                                                Fábio Ribas

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

União com Cristo



    “Deus determinou nos chamar com santa [e eficaz] vocação conforme uma decisão que aconteceu “em Cristo Jesus” e “antes dos tempos eternos”. Essa decisão de Deus foi a de derramar graça sobre os seus eleitos. Note que só é possível compreender esse versículo (2 Timóteo 1:8–9) se entendermos que, na eternidade, muito antes de nossa existência ou mesmo de qualquer previsão de boas obras de nossa parte, Deus decidiu dar graça aos seus eleitos, concebendo-os já em relação ao Senhor Jesus Cristo". ​
       “No texto de Efésios (1:4–5 e 11), tanto a escolha que Deus fez de parte da humanidade para que fosse santa quanto à predestinação para pertencermos ao próprio Deus por adoção aconteceram “nele”, “por meio de Jesus Cristo” e “em Cristo”. Essa escolha aconteceu antes da fundação do mundo. Do ponto de vista lógico, portanto, fomos planejados por Deus em união com Cristo e, por isso mesmo, escolhidos e predestinados. Do ponto de vista da decisão de Deus, nossa união com Cristo aconteceu na eternidade. Deus nos considerou como alvos de sua graça porque nos viu na eternidade, no momento da sua escolha, unidos ao seu santo Filho. Campos (Héber Carlos de) fala sobre isso da seguinte forma: “Estar em Cristo é algo definido antes da fundação do mundo, no decreto de eleição. Antes de o universo ser chamado à existência, já estávamos em Cristo. Assim como Deus, o Pai, escolheu Cristo, na eternidade, para ser o Redentor dos filhos dos homens, assim também colocou esses homens nele, para que recebessem as bênçãos advindas daquilo que ele iria fazer por eles"”.

    A união com Cristo é a doutrina basilar da fé. Ela é a origem, o meio e o fim da nossa caminhada. Tudo o mais é enlaçado por esta doutrina. Somos unidos a Cristo pelo propósito do Pai, que assim o quis antes da fundação do mundo, e por meio do Espírito Santo recebemos TUDO o que precisamos para nossa salvação e santificação. Esta é a grandeza do que nos traz o autor de “União com Cristo”, o Rev João Paulo Thomaz de Aquino.

    Mas o que é a união com Cristo? Quais as implicações disso? Deus escolheu alguns para que fossem resgatados do estrago do pecado, que nos levou à condenação da separação. A união com Cristo é o que torna possível essa reaproximação. Com ela, recebemos tudo o que precisamos para crescermos em santidade e lutarmos contra o pecado. É uma união mística atestada pela Bíblia e tratada nas Confissões e Credos Reformados. Estamos unidos a Cristo e isso torna possível nossa união com a Igreja.

    Assim, na primeira parte de seu livro, o autor nos faz uma apresentação bíblico-teológica da “união com Cristo”, trabalhando e aprofundando as metáforas que a própria Palavra de Deus fornece sobre essa doutrina: o casamento, o templo, a família, a videira e os ramos, escravos, corpo, banquete etc. Vemos, assim, como a Bíblia é rica em detalhar a natureza mística de nossa união com Cristo e, com isso, o autor nos esclarece e define o que é essa união. Na verdade, ele marca com clareza uma diferença para que possamos compreender o tema biblicamente tratado: a união mística, que é a união do cristão com o Deus trino (o Pai, o Filho e o Espírito Santo), só é possível mediante a união do indivíduo com Cristo. Assim, é a União com Cristo - e somente ela - que torna possível nossa união mística com Deus! 

    Na segunda parte do livro, vemos uma apresentação mais teológico-sistemática, em que o autor nos fala das características dessa união e como que ela se opera (modus operandi), além de mostrar como a doutrina da união com Cristo conosco se relaciona com todas as demais doutrinas de nossa salvação e santificação. Nesta parte do livro, vemos, entre outros, os aspectos legal, espiritual, vital, orgânico, pessoal e missional da doutrina. Assim como no livro “Vivendo em União com Cristo”, de Grant Macaskill, Rev Thomaz de Aquino irá tratar da relação da doutrina com os sacramentos do batismo e da ceia, além de abordar muito equilibradamente o tema da imitação de Cristo. Portanto, esses dois autores dialogam para que possamos elaborar uma missiologia da habitação, relacional e mística. Ainda nesta parte, é assombroso quando somos lançados por Rev. João Paulo à verdade bíblica de que Deus jamais se relacionou com seu Povo à parte de Cristo. Para explicar melhor isso, o autor apresenta os conceitos da união objetiva, que é a perspectiva de Deus na eternidade, e a união subjetiva, que é a nossa perspectiva no tempo da história de nossa vida pessoal. Dito isso, desde a eternidade, Deus só viu os seus eleitos por meio de Jesus. Deus sempre nos viu unidos ao seu Filho. A vinda de Jesus foi, portanto, para resgatar os seus eleitos para uma união subjetiva, histórica e individual por meio da Fé.

    Na terceira parte de seu livro, o Rev Thomaz de Aquino demonstra como a doutrina da nossa união com Cristo está presente de forma central na teologia de João Calvino. Ainda neste ponto, teremos o confronto de Calvino e Osiandro explicado de modo muito claro ao leitor, para que possamos criticar os movimentos teológicos mais recentes como a Nova Perspectiva em Paulo e a Nova Escola Finlandesa de interpretação de Lutero. O autor termina com um último esclarecimento: seria a união mística com Cristo a mesma coisa que a teose da teologia ortodoxa oriental? E a resposta é NÃO! É uma doutrina que tem sido usada por muitas pessoas, mas que carrega nela mais confusão do que explicação. Que seremos "deificados" é fato bíblico, mas não no sentido de que teremos a mesma substância divina, mas a ação, a atitude divina! Autores como Michael J. Gorman, de Inhabiting the Cruciform God [Habitando o Deus cruciforme], tem feito a propagação de heresias, pois o conceito dele de "teose" é algo que redefine a Deus, aproximando sua teologia muito mais da "teologia do processo" e da "teologia da cabana". Quero deixar as palavras sempre equilibradas de João Calvino sobre o tema da teose e a avaliação de Billings trazida no livro do Rev João Paulo:

    Se o Senhor partilhará com os eleitos sua glória, seu poder, sua justiça, mais ainda, se dará a eles a si mesmo para ser por eles usufruído, e o que é mais excelente, com eles coexistirá, de certo modo, em um, lembremo-nos de que sob este benefício está contido todo gênero de felicidade. E, quando tivermos avançado bastante nesta meditação, no entanto reconheceremos que, se a concepção de nossa mente for comparada com a sublimidade deste mistério, ainda ficaremos nas raízes mais inferiores. Portanto, devemos, neste aspecto, curvar-nos com mais sobriedade, para que, esquecidos de nossa própria limitação, pelo que com mais audácia subamos ao alto, o fulgor da glória celestial não nos trague. Sentimos também quão desmesurado é nosso desejo de saber mais do que é lícito, do que jorram incessantemente questões não apenas vãs, mas até mesmo nocivas. Chamo vãs aquelas das quais não se pode tirar nenhum proveito. Mas este segundo tipo é pior, porque os que se entregam a elas se enredilham em especulações perniciosas, razão por que as chamo nocivas (João Calvino, Institutas, III. 25.10).

  Nesta outra citação existe uma diferença entre a tradução em português, a tradução em inglês e o original em latim. Abaixo vou colocar a tradução em português e, entre colchetes, outra tradução em português seguida da tradução em inglês e do original em latim. Fomos unidos [insiticii facti]. Esta palavra [unidos ou enxertados] recebe grande ênfase e revela nitidamente que o apóstolo não nos está exortando, e, sim, ensinando acerca do benefício que derivamos de Cristo. Ele não está requerendo de nós algum dever que nossa prudência ou diligência pode realizar, mas está falando do enxerto que é efetuado pela mão divina. Não há razão para forçosamente aplicar a metáfora ou comparação a cada detalhe, pois a disparidade entre o enxerto de árvores e o nosso enxerto espiritual prontamente se evidencia. No enxerto de árvores, a parte enxertada extrai sua nutrição das raízes, mas retém sua propriedade natural no fruto que serve de alimento. No enxerto espiritual, contudo, não só derivamos o vigor e a seiva da vida que fluem de Cristo, mas também transmitimos de nossa própria natureza para a sua [mas também passamos da nossa própria natureza para a dele; but we also pass from our own nature into his; sed ineius naturam ex nostra demigramus].
  Depois de apresentar essas e outras citações, Billings chega à seguinte conclusão sobre a doutrina da teose em João Calvino: Eu defendo que Calvino ensina deificação de um tipo particular. Usando a linguagem de participação, enxerto e adoção em passagens selecionadas em Paulo e em João, Calvino ensina a participação da humanidade no Deus triúno, afirmando a união diferenciada da humanidade com Deus na criação e na redenção.

       Enfim, o livro do Rev João Paulo Thomaz de Aquino é uma obra de fôlego e que precisa ser lida e relida, estudada e aprofundada sempre. Um livro maravilhoso! Destaco ainda os temas da "individualidade em Cristo"; o tema dos dois representantes "o primeiro Adão e o segundo Adão"; e, finalmente, a explicação dada por ele de que, por causa da nossa União com Cristo, estávamos lá, nEle, realizando todas as coisas necessárias para nossa salvação, por isso a Bíblia pode afirmar que, se estamos em Cristo, não só com Ele morremos na Cruz, mas, com Ele, ressuscitamos! Glórias a Deus!!! Aleluias!!!


                      Fábio Ribas

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Igreja e Estado no Brasil Holandês

 


    Indubitavelmente, um trabalho de fôlego impressionante por parte do autor, Rev Frans Leonardo Schalkwijk. Na introdução, vemos a extensão de sua pesquisa em atas, tanto no Brasil como na Holanda, para que possamos ter um quadro mais exato do Brasil Holandês.

    Na primeira parte, Brasil e Holanda, interessa-me exatamente a maneira como o autor constrói e nos dá a entender qual a natureza do Cristianismo que os portugueses trouxeram ao Brasil. Um cristianismo sem Bíblia, assentado mas profundas convicções de uma Contra-Reforma que por aqui aportou.

    Encontramos, no livro de Schalkwijk, a formação do Brasil luso e, logo após, o Brasil ibérico. Ambos delineando o tipo de cristianismo que irá moldar a nossa consciência religiosa. É muitíssimo interessante ver tantos personagens conhecidos das nossas aulas de “História do Brasil” e de tantos outros livros que já li, mas que esquecemos de vê-los relacionados uns com os outros. Desde Lutero e Calvino, às perseguições de Felipe II, passando pela trágica “noite de São Bartolomeu”, vemos a reunião e confecção do Sínodo de Dort, a criação da Companhia das Índias, e até a história de Pedro Poti. Tudo isso é a história viva e correlacionada que ajuda o leitor a compreender o quadro do Brasil Holandês - ele não está destacado em meio ao nada, mas se insere numa moldura apresentada por  Schalkwijk.

    Vemos, portanto, a história dos protestantes europeus e como ela desagua na chegada dos holandeses entre nós. O autor confronta dois personagens: tanto Max Weber, que irá atribuir o crescimento do capitalismo à ética protestante, e Benjamim Franklin, que irá propagar uma ética individualista muito diferente do que Lutero e Calvino preconizaram. Isto é muitíssimo importante para a própria Igreja Evangélica Brasileira que faz confusão quanto a esses temas (tratando todo tipo de "individualismo" como um mal, da mesma forma que tende a idolatrar qualquer forma de coletivismo como um bem).

    A relação dos holandeses com os povos indígenas constituiria um capítulo à parte muito fascinante. Além disso, fascinante ver como que um homem como Maurício de Nassau exercia com sinceridade seu cristianismo. Virei fã desse personagem histórico. Por que Nassau foi embora do Brasil? Em algum momento do Brasil Holandês, houve 22 igrejas aqui. Podemos afirmar que, em 1644, eram 12 igrejas, sendo que 3 dessas eram em aldeias indígenas. Admirável! E deveríamos publicar mais essa história grandiosa que temos é a nossa história!

    As páginas sobre o culto (4.1.4) são curiosíssimas e envolventes. Mas o que vem a seguir, as organizações das igrejas, dos presbitérios e do Sínodo, tudo isso é muitíssimo envolvente. Outra questão interessantíssima é a enorme troca de cartas da Igreja Reformada no Brasil com  as igrejas dos Países Baixos, África e tantos outros. A Igreja Reformada no Brasil era uma igreja viva!

    O capítulo dos "Obreiros eclesiásticos" nos dá essa noção da dificuldade de vida que esses pastores e diáconos enfrentaram no Brasil. Dificuldades financeiras inclusive! E o problema também é o mesmo de sempre: falta de obreiros. Havia outras figuras de obreiros para dar conta da enorme seara: os predicantes, os consoladores e os proponentes. A Holanda, contudo, preferia deixar lacunas no Brasil do que enviar obreiros impróprios para cá! Amei saber disso!

    De novo: Nassau foi um cristão fora da curva! Ele nutriu um interesse e cuidado pelos órfãos da Igreja, que cresciam assustadoramente por causa das guerras no Brasil. Nassau investiu nas escolas infantis, que ensinavam em holandês, português e tupi!!! Nassau queria mais, mas seu período no Brasil foi curto. Até os portugueses da terra não queriam que ele fosse embora, a ponto de oferecerem salário para ele ficar!

    Dentro da dificílima realidade do que era aquele Brasil do século XVII, havia muita literatura espiritual usada pelos pastores e consoladores, mas o destaque era o Catecismo de Heidelberg, além das obras de William Perkins e Henrich Bullinger. Mais de 50 pastores da Holanda vieram trabalhar no Brasil! Estou apaixonado por este livro!

    O livro mostra a igreja missionária, principalmente seu esforço na evangelização dos portugueses. Mas eu achei bem interessante, em determinado momento, o autor afirmar que o excesso de liberdade religiosa dada pelos holandeses aos católicos pode ter sido um tiro no pé. Principalmente, quando comparamos Recife e Batávia (Indonésia). Nesta, a Igreja Reformada floresceu entre os portugueses. No Brasil, não. 

    O trabalho dos holandeses com os povos indígenas é de nos animar com nossa própria história. Não estou dizendo que não houve erros, contudo o que foi feito e da maneira que foi feito nas áreas da evangelização, plantio de igrejas, educação, engenharia e artes em geral é fruto da Providência divina. Um livro de cabeceira, certamente, mas que deve ser ensinado em nossas EBD’s! 

                Fábio Ribas

sábado, 6 de dezembro de 2025

A Tragédia de Guanabara: História dos Protomártires do Cristianismo no Brasil

 

    Já ficara encantado com o prefácio, datado de 1917, de Domingos Ribeiro. A escrita deste parece, até mesmo, anunciar o tom que leríamos a seguir, contudo, vindo da pena de Jean Crispin. Domingos Ribeiro faz um resumo do que leremos a seguir e, também, um apelo: como que histórias como essa podem ser tão desconhecidas da própria Igreja Evangélica no Brasil, ao que, então, ele pergunta pelo que se interessaram em contar essas histórias, pesquisar os documentos e escrever?

    Essa história, para mim, tem um sabor todo especial, porque fiz seminário para ser padre, minha formação foi católico romana. Quando ouvi essas histórias, pela primeira vez, foi no ano de 1995, quando sequer eu era crente ainda. Um missionário evangélico me contou sobre os huguenotes da Baía de Guanabara e sobre Pedro Poti, que veio depois. Por essas e tantas outras razões, sempre que posso, compartilho essas histórias desde lá. Porém, nada se compara à narrativa escrita por Jean Crespin.

    “A tragédia da Baía de Guanabara”, de Jean Crespin, apesar de ser uma história tão conhecida e, por mim mesmo, tantas vezes recontada, tem um colorido e um tom impressionantes. Estou impactado com a narrativa e os detalhes assombrosos que desconhecia. A grande informação nova para mim, por exemplo, é que Villegagnon já veio para o Brasil debaixo do engano que ele mesmo perpetuou: ele queria enriquecer, mas vendeu a ideia de que aqui seria um lugar de refúgio para os perseguidos da fé protestante. Para encarar a empreitada, ele reuniu dois grupos. O primeiro, de protestantes:

Para colimar o seu fim, só lhe restava encontrar gente fiel, de boa vida e educação, a fim de habitar com ele no Brasil; e eis porque fez publicar por toda parte que precisava de pessoas tementes a Deus, pacíficas e boas, pois bem sabia que lhe seriam mais úteis do que quaisquer outras, em virtude da esperança que tinham de formar uma congregação cujos membros fossem votados ao serviço divino.

    O segundo, de trabalhadores assalariados:

Era-lhe também indispensável assalariar trabalhadores e operários de todas as profissões, mas com muita dificuldade e mediante grande remuneração pôde encontrá-los, e isto mesmo entre gente rústica, sem a mais leve noção de honestidade e civilidade, impudica, dissoluta e dada a toda a sorte de vícios.

    No segundo grupo, olha o detalhe da nota de rodapé: "Claude Haton, em suas Memorias (edição Bourquelot, pag. 17) diz: "Com permissão do rei, Villegagnon visitou as prisões de Paris para ver os prisioneiros que lhe podiam ser úteis".

    Pelo que eu pude entender, depois de ser o pivô e aquele que tumultuou a cabeça de Villegagnon contra os genebrinos, Cointac retorna no barco para a Europa, enquanto 5 dos passageiros precisam retornar ao Brasil para que a embarcação não perecesse com todos. Principalmente, as questões por Villegagnon e Cointac levantadas foram sobre os sacramentos da Ceia e do Batismo, mas, na verdade, Villegagnon já estava “tomado pelo diabo”. Dali para frente, Villegagnon só mergulha ainda mais em suas próprias loucuras de perseguição.

    Porém, eu fui tão envolvido pela escrita de Jean Crespin, que, ao chegar na já tantas vezes lida Confissão da Baía de Guanabara, eu chorei. E talvez, pela primeira vez, a li com muita reverência, envergonhado de mim e da minha geração. 

                Fábio Ribas

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O sorriso escondido de Deus

    


    John Piper, em seu livro “The Hidden Smile of God: The Fruit of Affliction in the Lives of John Bunyan, William Cowper, and David Brainerd”, Crossway. 2001. Edição do Kindle, escreve sobre 3 cristãos que foram forjados por suas experiências dolorosas. Ele os chama de cisnes, porque os cisnes cantam antes de morrer.

    O primeiro é John Bunyan (1628-1688). Já pastor e bem conhecido por seus livros, viúvo e agora casado pela segunda vez com Elizabeth, Bunyan foi preso numa época de conflitos religiosos e políticos em que não se podia pregar sem a autorização do Rei Carlos II. Por isso, Bunyan foi preso por 12 anos! Contudo, foi numa segunda prisão, que durou 2 anos, que ele começa a escrever "O peregrino". Para Piper, as experiências de perda, luto e prisão de Bunyan, são um modelo para os cristãos que sofrem, pois foram nessas condições adversas que Bunyan cresceu e desenvolveu sua fé. Um modelo, portanto, de como vivenciar experiências adversas para crescer na fé.

    O segundo cristão trazido por Piper é William Cowper, autor do hino "God moves in a mysterious way", com o qual ele abre seu livro com um trecho desse poema. Exatamente, o trecho que nos mostra a razão do título do livro de Piper: “Judge not the Lord by feeble sense, But trust him for his grace;  Behind a frowning providence  He hides a smiling face”. Suas poesias e músicas refletem muito de suas lutas contra a depressão. Como ter fé em momentos tão difíceis assim? As crises de Cowper iam e vinham e assim permaneceram até o dia da sua morte. Cowper enfrentou uma depressão profunda aos seus 21 anos de idade. Suas batalhas mentais foram terríveis, a ponto de Cowper tentar suicídio. E sua tentativa de suicídio não foi brincadeira, ele tentou suicídio de três maneiras diferentes! Por causa disso, colocam Cowper num hospício. Mas Cowper, durante sua internação, encontra a Bíblia e é na história de Lázaro que ele encontra misericórdia de Deus para enfrentar suas lutas. Em outras palavras, as crises mentais são oportunidades para o nosso crescimento espiritual. Um outro ponto essencial na história de Cowper é sua amizade com John Newton, que foi compositor da conhecidíssima "Maravilhosa graça". Os poemas de Cowper refletem suas lutas e o anseio por Deus em meio às tempestades mentais que ele enfrentava. Todavia, Piper ressalta que precisamos compreender a biografia de Cowper debaixo da Soberania e graça de Deus. A depressão é uma doença que nos lança ao profundo poço de uma escuridão dentro de nós mesmos. Contudo, ficarmos lá não é a solução. A vida de Cowper nos mostra que, pela graça de Deus, sair de onde estamos, buscar amizades saudáveis, importar-se com o outro, auxiliado por Deus, são atitudes corretas para enfrentarmos tais desafios. Cowper namorou durante sete anos, mas o pai dela proibiu o casamento ás vésperas. Evidentemente, muito dos males mentais de Cowper derivaram disso. Mas, além de sua poesia, há muitos outros aspectos da vida de Cowper com os quais me identifiquei.

    O 3º e último cristão trazido por Piper é David Brainerd. Piper traz muitos mais detalhes sobre a biografia de Brainerd do que o livro "A vida de David Brainerd", de Jonathan Edwards. Ficamos sabendo de mais detalhes, por exemplo, sobre sua família, que, nas palavras de Piper, já tinha inclinação para a melancolia, e também sobre o problema que o levou a ser expulso da Universidade. Piper mesmo se questiona, olhando o movimento moderno de Missões, se esse teria ocorrido caso Brainerd não tivesse sido expulso da Universidade. Esse tipo de especulação de Piper revela seu objetivo com a piublicação de seu livro.

    John Piper, apresenta em seu ministério uma teologia cujo cerne defende que a verdadeira felicidade e contentamento na vida cristã vêm de deleitar-se em Deus. Todavia, o que mais me assombra em um livro que defende a Soberania de Deus nas mais terríveis adversidades de seus servos é que, apenas 5 anos depois de sua publicação, vê seu autor acometido por um câncer de próstata. Não há como não se surpreender com um Deus que vinha preparando Piper para quando ele também enfrentasse a sua própria adversidade. A verdadeira felicidade sempre residiu em buscarmos viver uma vida para a glória de Deus, independente do que estivéssemos enfrentando. A felicidade, e podemos constatar isso nos “cisnes” de Piper, não está nas coisas mundanas. Buscar o sorriso de Deus é o que sustentará nossa fé, dando-nos a estabilidade emocional e o descanso que precisamos em momentos adversos.

                            Fábio Ribas

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

A vida de David Brainerd

 

Quem foi David Brainerd? Em onze capítulos, organizados e comentados por Jonathan Edwards, livro publicado pela Editora FIEL, em 2012, 322 páginas, na verdade, é a reedição de um clássico. Iniciamos uma jornada espiritual de um jovem que se dedicou fervorosamente a ter uma vida para a glória de Deus. A vida devocional de Brainerd é acompanhada, de forma impressionante, em seu diário. Os embates que ele tem consigo mesmo são impressionantes.

Brainerd é fruto daquela geração forjada e impactada no Primeiro Grande Despertamento dos Estados Unidos (1730 - 1740). Sua vida foi muito curta, ele falece aos 29 anos de idade, no dia 09 de outubro de 1947. Seu ministério como pastor ordenado é curto e sua atuação missionária entre os indígenas é ainda mais breve. Contudo, assombrosamente impactante para todos os que o ouviram pregar, não somente indígenas mas muitos colonos também, este rápido “cometa” brilhou a beleza de Deus a todos que o viram passar. Brainerd viveu numa época em que, para que se pregasse a Palavra de Deus, só com autorização e licença dada mediante avaliação de um corpo de pastores. Hoje em dia, “qualquer um” é chamado ao púlpito, para desfilar suas “impressões” acerca do que leu.

O livro começa com o prefácio e a nota introdutória escritas pelo Jonathan Edwards. Logo no inicio, Edwards nos chama a atenção para aquilo que ficará evidente durante toda a leitura do diário:

"Há uma coisa facilmente discernível na vida de Brainerd, que por muitos pode ser considerada uma objeção às evidências extraordinárias de sua religiosidade e devoção, a saber, que ele era, por sua própria constituição e temperamento natural, muito inclinado para a melancolia e desânimo de espírito".

Certamente, estas melancolia e desânimo seriam hoje diagnosticados por “depressão”. Durante todo o diário, vemos suas lutas contra si mesmo nesse aspecto de sua saúde mental e as sempre recorrentes dores no corpo. Com tudo isso, mesmo assim, vemos um servo do Senhor disposto a levar a mensagem do Evangelho aos pagãos do seu tempo. Sua força espiritual, dada por Deus, revela-se na sua perseverante e verdadeira vida de oração. Nesta, destaca-se ainda mais sua vida de intercessão. Sua preocupação com os indígenas, com a igreja, com até mesmo os inimigos do evangelho e de seu ministério, por tudo isso Brainerd intercedia em fervorosa oração. A visão diferenciada e verdadeiramente dedicada de Brainerd revela-se até no seu empenho de sustentar financeiramente a formação de novos pregadores e missionários, a partir do próprio bolso. 

Particularmente, no cap. 5 e 6, há muitas notas sobre sua abordagem evangelística e, até mesmo, uma sensacional carta sobre como ele pregava aos indígenas. E ela é um maravilhoso exemplo de comunicação contextualizada e preocupada com o interesse do aprendizado do outro. Principalmente no cap. 6, vemos sua saúde piorar. Nos capítulos seguintes, depois de toda sua labuta e lágrimas, aprouve a Deus que ele pudesse ver os frutos e a colheita de seu trabalho. O que ocorreu naquele ministério foi um verdadeiro derramar do Espírito Santo em quantidade avassaladora, como que comportas tivessem sido abertas no céu.  

Os testemunhos de conversão dos indígenas, narrados em seus diários, só mostram como que o verdadeiro Evangelho das doutrinas da Graça prevaleceu! As mesmas lutas que vemos quando da conversão do próprio Brainerd, encontramos nas conversões dos indígenas: a profunda percepção da corrupção do coração humano e a total impossibilidade de querermos a Deus por nós mesmos. Aliás, um dos momentos mais marcantes do livro, foi a conversão de uma indígena que, como fruto de seu reconhecimento e agradecimento por sua salvação, iria até mesmo ao inferno, caso assim Jesus ordenasse. As conversões do livro lembraram muito o impacto que eu tive com a conversão e a perseverança de muitos indígenas na minha própria jornada. Tais experiências sempre me levam a testemunhar a muitos pastores e missionários que “eu conheci indígenas muito mais crentes do que os membros não indígenas que vocês têm em muitas de suas igrejas”.

Outra ideia impactante de Brainerd e que eu nunca havia pensado desta maneira é quando ele reflete sobre Deus não precisar dele para fazer a obra. O que eu achei sensacional é a maneira como ele pensa sobre isso. Explico: Deus decretou os fins e também os meios para se alcançar esses fins, inclusive, para alguns casos, segundo Brainerd, Deus pode ter decretado como “meio para se alcançar um fim” exatamente não ter “meio” algum. Brainerd entende que Deus decretou que os indígenas seriam discipulados, mesmo que Brainerd não pudesse mais permanecer no meio do povo para continuar a obra. Deus poderia, na verdade, ter dispensado ele como “meio”. Achei isso sensacional! Em outras palavras, Deus não precisa de você. Mas, se Deus, colocou você ali, então, nossa responsabilidade só aumenta. Por outro lado, caso Deus tenha dispensado você de algo específico ou pontual, lembre-se: a obra pertence a Ele, Ele é o dono da obra, portanto, descanse na certeza de que Aquele que começou a boa obra haverá de terminá-la!    

A morte dele é assombrosa! Uma morte que não é uma passagem, mas um profundo anseio que ele sempre expressou, e que, finalmente, a recebe como resposta de suas orações. Um livro fundamental e que me faz pensar: e se eu o tivesse lido naquele fim de década de 1990? O que teria sido diferente na minha caminhada, pois, indubitavelmente, eu sei que eu sou os meus livros e as minhas circunstâncias.

                            Fábio Ribas

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram

 

    Afinal, o que são “avivamentos”? Ao longo da história, desde os tempos bíblicos, podemos reconhecer essas assombrosas intervenções divinas sobre seu povo. Como a própria palavra (“avivamento”) sugere, essa deve ser uma ação sobre algo morto ou quase morto, moribundo. Quando quase já não se vê fé entre o povo de Deus e a frieza, o nominalismo e a hipocrisia assaltam de modo alarmante, ou mesmo quando a idolatria e a confusão religiosa e espiritual invadem, então, pode ser que, em momentos assim, haja uma assustadora, inesperada e imprevisível ação divina em prol do seu Povo. Digo “pode ser”, pois, numa boa, saudável e teocêntrica teologia, “avivamento” pertence ao plano exclusivo da vontade de Deus.

    Muitos irão discordar, eu sei, pois já vi muita “receita” para induzir avivamento por aí. Aliás, o que mais vi nestes anos todos de caminhada é a “produção” de avivamento ou, como muitos gostam de afirmar, um “novo pentecostes”. Evidentemente, na esteira de muitas dessas manipulações, as pessoas ficam ainda mais confusas e caem como presas fáceis nas mãos abusivas de psicopatas e abusadores transfigurados em religiosos. Isso, por fim, gera ainda mais frustração, vazio e mágoas em corações que, uma vez passando por essas tristes experiências, coram de vergonha e constrangimento quando se percebem enganadas por mercenários da fé. Às vezes, não duvido, muitos desses líderes religiosos talvez não sejam malévolos, apenas ignorantes cheios de boas intenções e, como tais, são cegos que foram guiados por outros cegos e acabam repetindo a fórmula que foi usada com eles também.

    Na história mais recente, dois avivamentos realmente chamam a minha atenção por possuírem características bem diversas do que compartilhei no parágrafo acima: “o Grande Despertamento”, nos Estados Unidos, e “o Avivamento Coreano de 1907”. Este também ficou conhecido como o “Pentecostes coreano” e aquele outro, como o “Primeiro Grande Despertamento”. Ao estudarmos, vemos que o avivamento que se deu nas colônias americanas, entre os anos de 1730 e 1740, envolveu nomes como o do inglês George Whitefield, e os americanos David Brainerd e Jonathan Edwards. A ênfase desse avivamento se deu em torno de temas como regeneração, arrependimento de pecados, nova vida, graça divina e — pasmem! — as doutrinas da fé calvinista. Contudo, o que mais chama a minha atenção na relação entre esses dois avivamentos — o americano e o coreano -, na verdade, é que ambos foram seguidos por uma tremenda convulsão social. Duas décadas depois do Grande Avivamento, deflagra-se o início da Guerra de Secessão, que vitimou mais de 600.000 pessoas. Tendo ocorrido logo após o Grande Avivamento das 13 colônias americanas, a guerra entre o Sul e o Norte se deu entre irmãos da fé. Já havia parado para pensar sob esse prisma? O avivamento coreano de 1907 foi seguido por profunda perseguição e um longo período de conflitos entre os cristãos da Coreia e seus algozes, a partir do domínio japonês em 1910. O que me faz pensar que a situação trágica que essas igrejas viveram, tanto nos Estados Unidos como na Coreia, teria sido muitíssimo pior, caso Deus não tivesse preparado esses irmãos para o que ainda estava por vir.

    “O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram”, de William Blair e Bruce Hunt, é leitura obrigatória para conhecermos a história dos nossos irmãos coreanos e reconhecermos um bom referencial para o que seja um verdadeiro avivamento. É um testemunho ocular, pois William Blair, então com 25 anos de idade, chegou na Coreia em 1901. Ele foi um dos pregadores na noite em que ocorreu o reavivamento de 1907. O livro nos dá um contexto anterior de como foi a chegada do evangelho naquele país, os avanços missionários desde o século anterior e as histórias de homens como Robert J, Thomas, o mártir da Coreia em 1865. Além disso, os autores retrocedem para mostrar como que a Providência divina vinha trabalhando na Coreia para preparar tudo aquilo que estava para ocorrer. Uma das questões demonstradas é como o Confucionismo destruiu o Budismo na Coreia. Particularmente, considero que um dos pontos altos do livro é o profundo conhecimento cultural e religioso que os autores têm e como que eles conseguem mostrar para o leitor o desenrolar dessa história de conflitos culturais, religiosos e filosóficos.

    Um dos maiores desafios das Igrejas presbiterianas na Coreia foi o enfrentamento ao “culto aos antepassados”. Tudo isso já ocorrendo antes de 1907. Na cidade de Pyeongyang, num encontro dos cristãos, numa reunião sem nenhum grande entusiasmo, ocorreu o inesperado. Com a Palavra sendo pregada e a Bíblia ensinada dia após dia, finalmente, quase no encerramento do encontro, um homem pediu para ir à frente e, então, começou a confessar pecados ocultos. Naquele momento, outros que o ouviam, constrangidos pelo Espírito Santo, começam também a confessar roubos, adultérios e mentiras publicamente. O quebrantamento foi impressionante. E durou dias! Os participante, voltando para suas vilas, contavam o que havia ocorrido em Pyeongyang e, ouvindo os relatos, outros cristãos dessas vilas começavam a também confessar os seus pecados e se reconciliar com aqueles que foram defraudados. Igrejas surgiram, milhares de novos crentes vieram à luz e, como contei, em 1910, a Coreia é anexada pelo Japão. Sem esse avivamento, sem essa visitação especial do Senhor, como essas pequeninas igrejas de poucos crentes teriam resistido aos anos que se seguiram? Parece-me que, à semelhança do que houvera nos Estados Unidos, Deus fortalecera as igrejas para a convulsão social que estava prestes a eclodir.

    O grande embate, durante o domínio japonês, deu-se com o Xintoísmo, pois este preconizava a adoração nos altares ao Imperador, que era tido como um deus. Evidentemente, ainda que algumas denominações e cristãos encontrassem justificativas para continuarem nessas práticas diante dos altares, muitos irmãos coreanos não se dobraram. Por isso, ocorreram a prisão, a tortura e a morte de muitos. A igreja, porém, estava fortalecida pelo avivamento de 1907. Muitos foram martirizados, mas eu quero contar apenas uma das tantas histórias que o livro traz.

    Há um erro na edição que eu li. Uma mesma história é contada duas vezes. Quatro páginas repetindo a mesma narrativa que acabara de ser escrita. Contudo, há uma ironia nisso, pois, para mim, essa história em particular é tão surpreendente que, ao repeti-la, parece que estão nos dizendo: “Você entendeu mesmo o que acabou de ler? Vou contar mais uma vez. Presta atenção”! Qual a história? Parece filme. Um casal de coreanos, no momento de maior perseguição dos japoneses, consegue sair escondido da Coreia e ir para o Japão. Ao chegarem na sede do governo em que estavam discutindo sobre a lei da Liberdade Religiosa, no momento certo, eles lançam sobre os membros do parlamento os folhetos e gritam: “E o grande propósito de Jeová Deus”! Os folhetos conclamavam o Japão a tornar o cristianismo sua religião oficial e, além disso, advertia que, se o Japão continuasse a perseguir os cristãos, seria destruído. Pasmem! — Isso foi em 21 de março de 1939. O Japão não voltou atrás na sua perseguição. O que ocorre em 1945?

    Deus age na história de cada um de nós, mas Ele também continua a agir na História para que todas as coisas sigam rumo ao momento em que tudo O glorificará! Espere no Senhor, por que é do alto que virá a Justiça divina.

Quase a mesma coisa

       Conversando com um amigo sobre tradução, logo lembrei deste fascinante livro de Umberto Eco. É um dos meus livros de cabeceira. Um li...