segunda-feira, 23 de março de 2026

Rainha Margot

Há quem deseje a volta da Monarquia? No meio conservador brasileiro, podemos encontrar tanto entre católicos como entre protestantes os que sonhem com o retorno do rei. Eu, contudo, anseio pelo retorno do Rei. Apenas. Eu “já” vivo sob uma Monarquia, embora “ainda não”. Acredito que, um dia, todo olho verá a volta do meu Rei Jesus Cristo e, então, teremos uma verdadeira, plena e perfeita Monarquia. Enquanto isso, seja lá sob que forma de governo estejamos vivendo, o que temos, indubitavelmente, é esta Cidade dos homens, imperfeita, corrupta e miserável.

Uma Monarquia parlamentarista melhoraria os vícios de um possível reinado caprichoso? Nenhuma garantia. A Monarquia deveria ser defendida como símbolo e reduto da moral? Símbolo da tradição? Ledo engano, caro cidadão. Será, então, que uma República parlamentarista não daria a nós um maior equilíbrio e estabilidade necessários à Nação? Não! Dúvidas quanto a isso? Olhe para o nosso Parlamento. Ele é a representação do que somos: imperfeitos, corruptos e miseráveis. Percebido isso, não é de se estranhar que Karl Marx ensine a seus adeptos que a conquista da democracia, por meio do voto para todos, era uma etapa essencial para que o proletariado alcançasse  o comunismo.

Há indivíduos ilustres no Parlamento e demais poderes da Nação? Não duvido. Todavia, os partidos com maior capital político são quitandas de negócios escusos. E se trocássemos os partidos? Quando esses recolhessem maior capital, por sua vez, começariam seus processos de barganha fisiologista. Muita ingenuidade depositarmos nossa confiança em homens pecadores. Sem ilusões, por favor! Há um vídeo que, volta e meia, circula em época de eleições. Este ano já começa a circular de novo. Deixarei o vídeo abaixo. Assista. Quero comentá-lo a seguir.

 


Dando um passo atrás, precisamos compreender que, seja lá em qual ponto do espectro político você se posicione hoje, a Bíblia coloca a cada um de nós como um vilão completo diante de Deus, exatamente, porque Deus pensa diferente de nós (Isaías 55:8-9). Quer ver? Somos todos pecadores, não há um que busque o bem (Rm 3:23), nossas boas obras são trapos de imundícia diante de Deus (Isaías 64:6), tudo isso é o que a Palavra de Deus diz sobre todos nós. O que precisamos entender é que até mesmo nós, que somos maus, sabemos dar boas coisas aos nossos filhos (Mt 7:11/Lc 11:13). É como se olhássemos para um Hitler, um Mussolini ou um Stalin, por exemplo, e aceitássemos o fato incômodo de que, certamente, eles foram “bons” com alguém da vida deles. Os piores psicopatas sabem também dar “boas coisas” a alguém. Como a própria Bíblia diz, atentemos, não há boas obras capazes de nos habilitar diante de Deus (Ef 2:8-9/Tt 3:3/Gl 2:16). Decorre disso, então, que não são os milagres que justificam os santos, por mais fascinantes que esses milagres se mostrem a nós. Portanto, cuidado.

Dando um segundo passo atrás, outro problema do vídeo é acreditar em “virtudes”, como se essas não fossem produtos de um coração pecador. Não há “virtudes” diante de Deus, vimos isso no parágrafo anterior. Mesmo nossas “melhores virtudes” diante dos homens são impregnadas do mais vil pecado de nossa natureza humana totalmente depravada. A “liberdade”, a “equidade” e a “justiça” não são pessoas com quem eu possa desfrutar um café da manhã em casa ou me confraternizar no fim de tarde no trabalho. Virtudes e valores não são autoexistentes, independentes de nós. A “liberdade” só pode ser verificada na vida de pessoas concretas. Semelhantemente, amor, alegria, paz, paciência, amabilidade (ou benignidade), bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio não são entes verificáveis fora de nós. Em outras palavras, virtudes e valores são abstrações que se manifestam concretamente a partir de pessoas pecadoras. Logo, as “virtudes” não são neutras e nem puras. Por isso, não importa o lado em que elas apareçam no espectro político, pois não é a direita ou a esquerda que as justifica. Eu posso usar a liberdade para fazer o mal. Eu posso usar o vício para fazer o bem. Só Deus conhece o que vai no coração, por isso é preciso suspeita bíblica diante de um mundo que jaz no maligno, embora governado por Deus.

Dando um terceiro passo atrás, é bom afirmar que todo valor ou virtude pode ser absolutizado por alguém ou, pelo menos, será destacado em detrimento de algum outro valor em algum momento, cedo ou tarde. Porém, como discernir, nesses momentos, o certo e o errado? Quando é que a liberdade deixa de ser algo melhor do que a equidade (ou vice-versa)? Se o indivíduo não puder tomar essa decisão, certamente, o grupo tomará por ele. O grupo pode ser qualquer ajuntamento: o partido político, a igreja, o condomínio etc. Quando o grupo passa a decidir sobre quando é que a liberdade se torna opressora e a equidade virtuosa, então, mais uma vez, estamos em xeque, porque se a Bíblia diz que o coração de um único homem é perverso, o ajuntamento de muitos corações só pode gerar mais perversidade ainda. Para resolver isso e conter a rebelião de algum indivíduo, grupos precisam de uma autoridade maior que os legitime. Aqui, para nós cristãos, só duas autoridades são possíveis: a Bíblia e o Estado. Este, contudo, limitado e fiscalizado por aquela. Do contrário, o Estado se torna a personificação da rebelião contra tudo aquilo que se chama Deus e, como sabemos, passa a controlar indivíduos por meio de grupos - até mesmo por meio da própria igreja - usando o poder desse Leviatã encarnado. Por tudo isso, não apenas o vídeo é ingênuo para com o que ocorre na vida real, mas também desconsidera o pecado de indivíduos e de indivíduos ajuntados, pois é isso o que um grupo é: um bando de gente controlada por alguns indivíduos ou por um indivíduo que pode vir a dominá-los.

Ainda sobre o vídeo, e também dando um último passo atrás, Jesus estaria mesmo acima de tudo isso? O vídeo diz que Jesus não está em lugar algum do gráfico, mas acima (fora) julgando o gráfico. Duas coisas: Jesus tem que estar no gráfico por meio da Sua igreja e também agindo por meio da Providência divina. Esta pode ser discernida quando olhamos o passado e aquela, em sua atuação de ser sal e luz agora. Jesus julga o gráfico, verdade, mas não com os critérios daquelas palavras apresentadas no gráfico, porque o conteúdo bíblico delas é outro. Jesus julga acima, mas julga por dentro também, julga por meio de sua igreja, que está inserida no gráfico e proclamando o Evangelho, e também julga quando cada cristão está evangelizando e mostrando que liberdade, equidade e justiça bíblicos são categorias bíblicas e não mundanas. Como categorias reveladas pela Bíblia, são conceitos fundamentados na Palavra de Deus e não na sociedade ou na cultura. As categorias revelam gêneros supremos, modos de ser pelos quais devemos nos organizar, classificar e compreender toda a realidade e nossa experiência. Portanto, a liberdade bíblica não corresponde à liberdade pregada pelo mundo. A equidade bíblica não é fruto de uma inveja doentia como o que, de fato, subjaz a toda defesa de uma agenda político-ideológica que vemos aí mundo afora. A justiça bíblica não é a justiça social.

Como, pois, Jesus já julga o mundo por meio de sua Igreja proclamadora e missionária? Ele  o julga (Jo 3:18-19/Jo 12:31/ Jo 12:47-48), mas ainda não, uma vez que haverá um julgamento definitivo e final no dia da volta do Rei. O mundo já está julgado, quando ele é um sistema que se rebela à pregação do Evangelho feita pela Igreja. Esse Evangelho pregado pela Igreja é supracultural, verdade. Está acima de toda proposta humana de tornar a Cidade dos homens numa Cidade de Deus, mas sem Deus. O Evangelho é transcultural, porque ele é a resposta ao pecado que atravessou e condenou à ira de Deus todos os corações em todos os povos, línguas e culturas. O Evangelho é contracultural, porque é na pregação da Igreja que teremos o confronto que poderá levar os corações ao arrependimento ou, segundo a vontade de Deus, entregá-los de uma vez à condenação em que se encontram. O Evangelho é intercultural, porque, uma vez perdoados em Cristo, podemos nos colocar diante de Deus e diante do próximo para exercermos as virtudes do Espírito Santo em nós. Estou me referindo agora àquelas virtudes mencionadas há uns três ou quatro parágrafos atrás e que só poderão ser concretizadas na Igreja e por meio da Igreja, porque elas são fruto do Espírito Santo (Gl 5:22-23)! Por isso, as virtudes humanas, ainda que urgentes e necessárias no convívio social, só serão levadas em conta por Deus, quando, por causa de Cristo, elas forem finalmente levadas pelo Espírito Santo à glória de Deus. Biblicamente, isso só é possível mediante à regeneração Soberana operada de modo monergístico pelo próprio Deus. Sim, Jesus julga o mundo, mas o faz pela Igreja que proclama a todas as nações que o Reino chegou e que esse Reino tem Rei e Ele voltará! Quem crer nessa mensagem e se arrepender de seus pecados será salvo, senão já está julgado.

Definitivamente, o Estado não pode se tornar uma só carne com a Igreja. E a história é repleta de exemplos de como esse adultério entre a Igreja e o Estado causou mais danos do que bênçãos. A Igreja não é o Estado. As razões da Igreja são celestiais e eternas. As razões do Estado são terrenas e finitas. “Rainha Margot”, de Alexandre Dumas, exemplifica muito bem o dano causado ao testemunho do Evangelho quando a Igreja cede às razões do Estado. O romance de Dumas é uma história ficcional a partir de eventos e personagens históricos. O livro começa na trágica “noite de São Bartolomeu”, evento que se mostra arquitetado pela mãe do Rei da França, que não aceitará um protestante assentado no trono. Assim, após o casamento entre Henrique de Navarra, Rei protestante, e a jovem Margarida, católica, deflagra-se uma traição sem precedentes na história. O que deveria ser um marco para selar a paz e trazer concórdia às guerras sangrentas entre os dois grupos torna-se uma noite de emboscada contra os protestantes. Na França, os protestantes, chamados de huguenotes, foram assassinados por todo o país num número entre 5.000 e 30.000 mortos. Números que, dependendo das fontes, chega a ultrapassar os 100.000 mortos.

A trama de Dumas transcorre desde os momentos imediatamente anteriores à noite de São Bartolomeu, que foi a data de 24 de agosto de 1574, e segue pelos próximos dois anos seguintes. A mãe do Rei Carlos IX, Catarina de Médici, é mostrada como a grande personagem manipuladora dos eventos e, principalmente, como aquela que arquitetou o massacre. Nos anos seguintes, ela persevera de plano em plano para destruir seus inimigos, principalmente Henrique de Navarra. Dumas mostra como que, a despeito do contexto de “guerra religiosa cristã”, os personagens estão mergulhados em supertições e feitiçarias pagãs. Estamos no século da Reforma Protestante, mas também estamos no século de Nostradamus. A própria Catarina recorre ao boneco vodu e outras práticas mágicas para eliminar Henrique. O lado protestante não é melhor do que isso, infelizmente. Por exemplo, basta uma visão sobrenatural para que um dos personagens interprete que deve se converter ao catolicismo. Aliás, o próprio Henrique de Navarra, para garantir a paz para a França, “converte-se” ao catolicismo. Uma conversão, até hoje, vista como estratégica para trazer paz ao Reino da França. Uma decisão tomada mesmo após o massacre covarde de seus irmãos huguenotes (ou por causa do massacre?). Aqui, numa decisão como essa, vemos o quão pueril e sujeita aos caprichos do coração ou às razões do Estado pode estar a convicção religiosa.

A personagem principal, a Margarida - a Rainha Margot do título - funciona como aquela que segue descobrindo a trama de traição arquitetada por Catarina durante a história. Sua personagem também carrega o envolvimento amoroso com La Mole, um jovem protestante. Na vida real, Margarida ficou conhecida por ter tido inúmeros amantes, mas Dumas retrata esse caso amoroso como o romance trágico da Rainha. La Mole se torna o melhor amigo de Cocunás, que, durante a narrativa do livro, desenvolve seu amor também trágico por Henriette, a Duquesa de Nevers. A amizade entre Cocunás e La Mole é bem representativa do ideal de amizade cavaleiresca do romantismo. A fidelidade e o amor de Cocunás por La Mole pode soar hoje (e talvez tenha sido interpretado por muitos) como um sentimento homoafetivo. Entretanto, essa interpretação seria um desconhecimento desses ideais de amizade presentes nos romances de cavalaria, portanto, tal interpretação não procede.     

“Rainha Margot” é um livro fascinante e muito bem escrito. Duvido que hoje haja tramas tão ricas de personagens e desenvolvidas tão bem como li nesse livro. Contudo, a trama de conspiração, mentiras, traição e corrupção fez-me pensar na triste Cidade dos homens, sob quaisquer formas de governo que estejamos, e a ansiar a plenitude da Cidade de Deus. Um ponto final que gostaria de deixar para o futuro leitor de “Rainha Margot”: é na oposição às tramas de Catarina que vemos patentemente manifesta a Providência divina.  

                     Fábio Ribas 

PS - Uma última reflexão sobre como Jesus já está julgando o mundo. Toda vez que, aos domingos, eu me dirijo ao culto com meus irmãos, na Igreja Local, penso em outros tantos de milhares de irmãos que também saem de suas casas, porque acreditam no Deus de sua salvação. São milhares de cristãos, a cada domingo, proclamando em culto solene de adoração pública, a festa da ressurreição dAquele que nos salvou e santifica. Aqueles que não festejam, porque não acreditam, são como os egípcios atormentados pelas pragas. Já o povo de Deus, ao contrário, sai para festejar no deserto ao Deus da sua libertação. Assim, vejo o domingo, cada domingo, como o anúncio do Dia do Senhor, o Dia da Justiça do meu Deus! A justiça já veio, mas ainda não. Prepare-se!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Liberdade versus Igualdade: o mundo em desordem

 

    Por que apresentar o livro “O mundo em desordem”? Porque muitas das nossas discussões bíblicas, teológicas ou sobre fé e prática cristãs quase sempre se dão de dentro dessa gaiola cultural maniqueísta “Esquerda X Direita”.

    E o que a Igreja tem com tudo isso? Bem, muitas vezes, nem participamos das discussões, porque “política e igreja não se misturam”. Assim, desperdiçamos a grande oportunidade de não sermos manipulados por quaisquer desses sistemas, até mesmo por não percebemos o que eles são de fato e o que subjaz nas estruturas mais profundas de cada um.

    O maniqueísmo esquerda-direita, gaiola dentro da qual muitos discutem teologia, tende a camuflar as duas grandes e reais questões filosóficas que estão em jogo e em tensão constante: Liberdade X Igualdade — eixo central do livro que apresento hoje aqui.

    É impossível — sob pena de negligenciarmos aquilo que é de nossa responsabilidade espiritual (Mt 25: 14 -30) — o cristão querer passar ao largo dessas duas questões que, veja bem, estão entranhadas na mensagem do Reino de Deus e, por isso mesmo, são tão mal compreendidas à luz de uma exegese correta e saudável dos textos bíblicos em que aparecem. Não é de admirar que os cristãos no correr da história tenham sido usados como carga de canhão ora por um grupo, ora por outro, mas, muitas vezes, sem conseguir apresentar a proposta inovadora e conciliadora entre esses dois pontos, a saber: a fraternidade humana, que só é possível em Cristo Jesus, uma fraternidade que ainda não é plena, mas já é sombra de um por vir glorioso!

    A fraternidade da Igreja de Jesus, que precisa ser anunciada em todo o mundo pela pregação do Evangelho, não anula as nossas diferenças individuais. Além do mais, a fraternidade oferecida por Jesus não se assemelha a qualquer proposta que o Estado ou um sistema econômico possa oferecer. Antes, a fraternidade evangélica nos alça à condição de iguais entre nós e de reconciliados com Deus para, enfim, exercermos no lugar em que cada irmão se encontra a liberdade responsável que nos foi conquistada na Cruz de Cristo!

    Falo, portanto, da solidariedade em Cristo, por Cristo e para Cristo! — pérola de infinito valor e que nenhum esquema religioso, econômico, político, ideológico e estatal pode oferecer ou substituir!

    Aos cristãos que vivem a vida como ela é, gostaria de indicar este primeiro livro de uma trilogia (na verdade, atualizando este texto, há apenas mais um livro, mostrando que o projeto inicial de "trilogia" não foi adiante) e que você pudesse comprá-lo e dar de presente a si mesmo e, principalmente, ao seu pastor (e/ou liderança, mentor, pai, padre, rabino, etc), ao professor de Escola Dominical da sua Igreja e — por que não? — ao professor de história do seu filho na escola ou na faculdade.

    É com carinho e com expectativa de ótimas reflexões sobre nossas vidas pessoais que indico a leitura desse livro do Demétrio e da Elaine Senise Barbosa. Livro que se apresenta como um ótimo ponto de partida para relermos a História — e, no nosso caso, relermos também nossas teologias, sistemas de crenças e a nossa prática cristã — fora da gaiola cultural em que nossos discursos se veem presos. A proposta do livro é a mesma que trago para cada um de nós: reexaminar o que somos, pensamos, cremos e praticamos à luz dos temas da liberdade e da igualdade.

    Este livro segue a história desde 1914–1945. Com isso, acompanhamos as razões das duas Grandes Guerras Mundiais do século XX, a Grande Depressão, o surgimento do Nazismo, a Revolução Russa e o crescimento do stalinismo. Vemos o posicionamento do Brasil diante desses acontecimentos, Getúlio Vargas e, o que para mim foi delicioso, um capítulo só sobre a arte e a cosmovisão por trás da construção de Brasília. A leitura é fascinante!

                Fábio Ribas

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Como as pessoas mudam

 

“É impossível que o seu pecado surpreenda Aquele que morreu por causa dele. A cruz também lhe oferece a liberdade de procurar e receber perdão todas as vezes em que falhar. Nós não temos de carregar os pecados que Cristo levou sobre si. Ele pagou o preço que nós não podíamos pagar para que nunca tivéssemos de pagá-lo de novo” — esta é a citação estupenda! E ela nos encoraja, dentro do contexto do livro, a compreender que Deus nos salvou, porém também nos santifica diariamente por meio da mesma cruz! Lindo demais!

Comecei a ler este livro ainda na semana da disciplina de “Aconselhamento em situações de crise”, no Andrew Jumper, em SP. Contudo, por alguma razão que desconheço, não conseguia absorver positivamente, mas, ainda assim, terminei o primeiro capítulo. Isso deve ter mais de mês. Acho que, no primeiro capítulo, tive dificuldade com os “ismos” que ele apresenta, porque, chega um momento, em que tudo parecia meio que a mesma coisa. Por outro lado, pode ser mesmo que eu ainda não estava ali preparado para embarcar nesta leitura. Abandonei a leitura e, quase um mês depois, retornei e, por alguma razão que também desconheço, amei tudo o que li.

O Evangelho é o poder de Deus para a salvação e também para a santificação diária — esta é a tese que nos é recordada pelo autor. Infelizmente, há uma lacuna entre o nosso passado e o nosso futuro daquilo que entendemos como nossa vida cristã. No cap. 1, os autores irão abordar essa lacuna que temos quanto ao evangelho: sabemos que Deus nos perdoou do nosso passado e sabemos que teremos o céu como morada um dia, contudo, não compreendemos como a graça tem poder em nossas vidas no presente. E é sobre essa lacuna, então, que trata o livro.

Exatamente porque não sabemos da graça presente, tentamos suprir nossas vidas com coisas que não são Cristo. Mas é Cristo que é suficiente para mim agora e sempre! Se Jesus é suficiente, e ele é, então por que corremos atrás de falsas esperanças? É sobre isso o capítulo 2. Um dos pontos que os autores tratarão no cap. 3 é que devemos ter sempre o foco de aonde Deus está nos levando: o céu. Esta certeza deve mudar a minha relação pessoal com Cristo e com as pessoas ao meu redor. Se estamos casados com Cristo, então o que importa é a nossa fidelidade e pureza espiritual. E esta é a nossa identidade! Este é o assunto do cap. 4.

No cap. 5, os autores enfatizam que fomos salvos, fomos adotados para vivermos numa família. Somos desafiados a ser moldados uns pelos outros no Corpo de Cristo. Precisamos usar nossos dons em associação.

Nada substitui a Jesus. Contudo, sem perceber, o nosso ativismo religioso termina por ser um fim em si mesmo. Fomos adotados para termos intimidade com nosso noivo e crescermos em conhecimento dele. No capítulo 6, os autores dão um roteiro de autoconfrontação para o leitor, mas que também serve, obviamente, para aconselharmos a outros biblicamente.

No cap 7, é um “estudo de caso”. Como eu e vc reagimos aos problemas, ao “calor” da situação? Os autores apresentam Salmo 88 e Tiago 1 para não esquecermos que Deus nos ama em Cristo em toda situação. Por isso, devemos nos aproximar dele com confiança.

No cap 9, lembramos do ensino bíblico de que a vida é um deserto. E a maneira como reagimos quando o calor aumenta mostra quem somos e o que, então, devemos tratar em nós mesmos. Ficamos irritados? Tentamos jogar a culpa em alguém? Duvidamos da bondade de Deus? As respostas as essas perguntas revelam onde Deus quer nos tratar nisso tudo.

Vc é um espinheiro ou uma árvore frutífera na sua caminhada cristã? Eu e você precisamos responder, diante de Deus, esta pergunta.

A verdade é que colocamos a culpa dos nossos erros e pecados numa fonte fora de nós: o outro, a família, a sociedade etc. Encarar que não somos responsáveis pelo mal que nos fizeram, mas somos responsáveis pela maneira como reagimos a esse mal é fundamental para atingirmos o ponto que realmente importa: o nosso coração.

O capítulo 10 me lembrou muita coisa. Uma delas é quando abrimos mão de um apartamento, porque não queríamos amar mais a bênção de Deus do que o Deus da bênção. A sessão final do capítulo com as perguntas para autoconfrontação é muito boa. Também gostei de ver que caímos nos mandamentos de 4–10, porque, na verdade, já caímos antes nos 1–3.

Se queremos uma vida cristã saudável e que isso se reflita em casa, na família e na igreja precisamos levar este livro muito a sério. Assim, seguiria a orientação que os autores dão ao final do livro: o estudaria com meus companheiros de caminhada. E assim como disse antes, é um livro que, por meio de tantas histórias e perguntas, serve para nós, porém se torna também um precioso auxílio no tratamento do outro, do meu aconselhado.

Eu já havia lido o “Guerra de palavras”, que é muitíssimo bom também. Quando ele relembra a carta de Tiago no “”Como as pessoas mudam”, na hora lembrei do “Guerra de palavras”, que é um livro que, em seus capítulos, também traz muitas perguntas para trabalharmos com o nosso próprio coração e juntamente com outros. Não foram só a estrutura e as perguntas de “Como as pessoas mudam” que me lembraram o “Guerra de palavras”, mas as histórias da família dele (que eu acho que só pode ser do Tripp). Não posso negar que achei graça das situações que ele enfrenta na casa dele com a esposa e os filhos.

Tenho investido no aconselhamento com líderes indígenas cristãos e suas famílias. Por isso, este livro me ajudará demais como bússola para chegar lá. As culturas indígenas, como a maioria das culturas existentes no mundo, não são de abordagem direta, abrdagem de “toma a pergunta e me entrega a resposta”. São culturas de não confrontação, não resolução direta dos seus problemas. A abordagem, o método é outro, porque o sistema de pensamento é outro. Na verdade, é um sistema de pensamento mais próximo ao bíblico do que o que encontramos em parte da cultura brasileira e em parte da Ocidental. “Como as pessoas mudam” oferece princípios e caminhos que devo trilhar e adaptar no meu contexto de trabalho transcultural. Todavia, embora a cultura seja diferente, “a fábrica de ídolos”, que é o coração de todo homem em quaisquer culturas, é comum a todos nós.

Tenho lido muitos livros de aconselhamento e todos os que li lançam essa luz sobre irmos ao ponto, assim como a Bíblia o faz: o coração. Outros livros, então, que também citaria é o “Aconselhamento Redentivo”, do Rev Wadislau Gomes e o “Manual do Aconselhamento Redentivo”, do do Jônatas Abdias. Ambos cheios de histórias, casos concretos, perguntas e que apresentam roteiros que nos auxiliam nesse processo de saber onde, afinal, queremos chegar. Ainda farei resenhas desses livros e postarei por aqui.

                Fábio Ribas

                        

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Quase a mesma coisa

 

    Conversando com um amigo sobre tradução, logo lembrei deste fascinante livro de Umberto Eco. É um dos meus livros de cabeceira. Um livro rico, erudito e cheio de experiências práticas de um autor que acompanhava a tradução de seus próprios livros em diversos idiomas e que, também, traduzia livros de tantos outros escritores. Leitura maravilhosa! Segue um “resumo apaixonado” que fiz das principais ideias do livro para meus amigos que também trabalham com tradução.

    Vale a pena compreender que, para Umberto Eco, o trabalho de tradução não se dá entre palavras, mas sempre entre textos (o texto é chamado de “Manifestação Linear”). O processo da formação do texto reside na “langue”, o texto em si é a “parole”. Aqui, ainda, Umberto Eco chama a atenção ao perigo que reside na tentativa de se traduzir palavras por palavras ("uma" pela "outra"), sendo que o recorte que uma palavra abarca em determinada língua pode não ser o mesmos feito por uma palavra de outra língua (mesmo que, “dicionariamente”, pareçam se intercambiar). Ex: nephew/niece/grandchild (termos ingleses) e nipote (italiano).

Conceitos introdutórios:

1. A forma da expressão: é o conhecimento da gramática daquela língua, a saber, sua fonologia, morfologia, o léxico e a sintaxe.
2. A forma do conteúdo: a percepção do recorte do mundo feito por aquela língua: ovelha vs cabra; cavalo vs égua; rat vs mouse, as matizes das cores, etc.
3. O sentido: a forma do conteúdo vai revelar o sentido que levará o tradutor à escolha da palavra que abarque o mundo que se deseja levar do “texto fonte” ao “texto de chegada”.

Roteiro para a interpretação do sentido:

1. Compreender o sentido literal e ver se há ambiguidade;
2. Correlacioná-lo a mundos possíveis: o texto pertence ao mundo do qual faço parte ou seria uma fábula?
3. Discernir enredos intertextuais e gêneros literários;
4. Averiguar a possibilidade de estar-se diante de uma expressão idiomática;
5. Diante do texto lido, averiguar o capítulo ou o livro em que ele se encontra inserido, para descobrir o tema do discurso;
6. Tentar distinguir isotopias: uma mesma palavra com significados diferentes. Ex: O alfaiate não estava satisfeito com o gancho (cavallo, no italiano) e O jóquei não estava satisfeito com o cavallo (cavalo, no italiano);
7. Buscar identificar os enredos comuns (que preferiria chamar de enredos implícitos): aquilo que não está escrito, mas que se sabe fazer parte do fato narrado.
8. Reconstruir o enredo de uma nova maneira, para identificar qual seria “a história profunda”, que é a principal, daquelas que fariam parte dos eventos marginais ou parentéticos (estarei transformando o enredo em proposições que serão o resumo da história);
9. Identificar a psicologia dos personagens do enredo e identificar as estruturas actanciais;
10. Continuar a analisar os níveis textuais e começar a criar hipóteses interpretativas mais consistentes diante da identificação das estruturas ideológicas do enredo;
11. Enfim, nesta altura, ficará mais clara a aposta interpretativa sobre os vários níveis de sentido e sobre quais dentre esses sentidos o tradutor deverá privilegiar (o tradutor deve apostar a respeito de qual é a dominante de um texto).

    O tradutor como um negociador: há de se entender quais as escolhas que se deverá fazer de acordo com a intenção do texto. Sempre há a negociação, há perdas e ganhos nas apostas interpretativas que deverão ser feitas pelo tradutor. Às vezes, para Eco, pode parecer que numa negociação haja mais perdas que ganhos e, dependendo daquilo que se prioriza como sendo a intenção do texto, ainda assim o tradutor ficará satisfeito.

    Há o conceito de Reversibilidade: o tradutor deverá decidir quais níveis do texto de partida gostaria de ver mantidos no texto de chegada. Fará uma aposta interpretativa da intenção de texto e tentará a reversibilidade (seja fonética, sintática, estética, semântica, etc). A pergunta é: afinal, o que se quer traduzir daquele texto? A reversibilidade é o “tentar recuperar muitíssimo bem o original”! Mas, ainda aqui, há escolhas, por exemplo, há traduções que recuperam muitíssimo bem o conteúdo do original, mas a reversibilidade quanto ao estilo é praticamente nula. Comentando sobre alguns exemplos de tradução, Eco diz que “a reversibilidade não é necessariamente léxica ou sintática, mas pode dizer respeito também a modalidades de enunciação”.

    Para Eco, é ótima a tradução que permite manter como reversíveis o maior número de níveis possíveis do texto traduzido e não necessariamente o nível meramente lexical que aparece na “Manifestação Linear”.

    A tradução também deve tomar cuidado com os grafemas. Sinais do texto original geram efeitos que podem ser perdidos na hora da tradução. Assim, sobre efeitos causados pelo texto de partida, também se deverá saber quais se manterão no texto de chegada.

    Mas algo que eu achei muito interessante foram dois exemplos de tradução. No primeiro, o termo complicado era o que designava “casa”. Bem, acontece que no texto de origem “casa” designava casa humilde, mas não pobre e que definia o material do telhado dela. Na língua de chegada, não havia “casa” que se encaixasse nisso. O outro exemplo tratava de uma tradução para o italiano e a escolha entre a palavra rato ou camundongo. Esta havia sido escolhida para falar do rato encontrado por determinado personagem no livro “A peste” de Camus. Segundo Eco, a escolha havia sido infeliz, pois camundongo no italiano era um “ratinho”. Isto é, não tinha nada a ver com o rato morto e doente do texto de Camus. Interessante, não?

    “Traduzir quer dizer entender o sistema interno de uma língua, a estrutura de um texto dado nessa língua e construir um duplo do sistema textual que, submetido à certa descrição, possa produzir efeitos análogos no leitor, tanto no plano semântico e sintático, quanto no plano estilístico, métrico, fono-simbólico, e quanto aos efeitos passionais para os quais tendia o texto fonte”.

    Frases-chave de Umberto Eco:

1) “se o tradutor ou tradutora é inteligente, pode explicar os problemas que surgem em sua língua mesmo para um autor que não a conhece e mesmo nesses casos o autor pode colaborar sugerindo soluções ou até sugerindo quais licenças podem ser usadas com seu texto para contornar o problema” (p. 14) — aqui, penso na tradução bíblica: quem irá ajudar o tradutor para que ele contorne os problemas?

2) “mas o conceito de fidelidade tem a ver com a persuasão de que a tradução é uma das formas da interpretação e que deve sempre visar, embora partindo da sensibilidade e da cultura do leitor, reencontrar não digo a intenção do autor, mas a intenção do texto, aquilo que o texto diz ou sugere em relação à língua em que é expresso e ao contexto cultural em que nasceu” (p. 17) — aqui, lembro das traduções ideológicas (denominacionais) como a da Bíblia de Jerusalém, que traduz, por exemplo, “sacrifício” por “hóstia” em Rm 12.

3) “Todavia, por mais inábeis e infelizes que tenham sido as traduções através das quais os textos do Antigo e Novo Testamento chegaram a bilhões de fiéis de línguas diversas, nessa corrida de língua a língua e de vulgata a vulgata uma parte consistente da humanidade acabou concordando sobre fatos e eventos fundamentais transmitidos por esses textos, dos dez Mandamentos ao sermão da montanha, das histórias de Moisés à paixão de cristo — e, gostaria de dizê-lo, sobre o espírito que anima esses textos” (p. 19) — impressionante Confissão de fé de um tradutor, que aqui, claramente, não concorda com os pós-modernos.

4) “Daí a ideia de que a tradução se apoia em alguns processos de negociação, sendo a negociação, justamente, um processo com base no qual se renuncia a alguma coisa para obter outra — e no fim as partes em jogo deveriam experimentar uma sensação razoável e recíproca satisfação à luz do áureo princípio de que não se pode ter tudo” (p. 19) — creio que o missionário-tradutor está o tempo todo com essa situação em sua mente.

    Meu Deus, fiquei maravilhado com a análise feita por ele da tradução para crianças de “Os Miseráveis” de Vítor Hugo. No processo de fidelidade (reversibilidade) e negociação, quem adaptou a obra para crianças optou por mudar a situação do suicídio de Jean Valjean para de “pedido de demissão”. Eco entende que aqui foi aceitável e compreensível a mudança e que não haviam sido feridos a trama e o espírito do livro. Embora Eco assuma que “se um incidente do gênero acontecesse em uma tradução (de algum livro dele), poderia falar de violação de um direito meu”.

5) “Isso nos faz suspeitar de que uma tradução não depende somente do contexto linguístico, mas também de algo que está fora do texto e que chamaremos de informação acerca do mundo ou informação enciclopédica (p. 36) — Eco está se referindo ao fato de um simples dicionário digital não saber fazer “seleções contextuais”, por exemplo, o meu computador é incapaz de mudar a letra ‘e’ de Eco para maiúscula, quando erro durante a digitação que faço neste momento.

6) “é difícil estabelecer o significado de um termo (em uma língua desconhecida) até quando o linguista aponta o dedo para um coelho que passa e o indígena pronuncia “gavagai”! O indígena pretende dizer que aquele é o nome daquele coelho, dos coelhos em geral, que a relva está se movendo, que um segmento espaço-temporal de coelho está passando? A decisão continua impossível, se o linguista não tem informações sobre a cultura indígena e não sabe como os nativos categorizam suas experiências, se eles nomeiam coisas, partes de coisas ou eventos que, no conjunto, compreendem também a aparição de uma dada coisa. O linguista deve, portanto, começar a elaborar uma série de hipóteses analíticas que o levam a construir um manual de tradução — que deveria corresponder a um manual completo não somente de linguística, mas também de antropologia cultural” (p. 42) — fascinante, não?

    Sobre a tradução como negociação:

1) Negociar: camundongo ou rato? “Se queremos ressaltar na tradução um aspecto do original que nos parece importante, isso só pode acontecer, às vezes, à custa de deixar em segundo plano ou até mesmo de eliminar outros aspectos igualmente presentes. Mas é justamente isso que chamamos de interpretação… Na medida, porém, em que o tradutor nem sempre está em condição de expressar todas as dimensões do texto, seu trabalho implica também uma contínua renúncia” (a frase é de Gadamer).

2) “Traduzir significa sempre “cortar” algumas das consequências que o termo original implicava. Nesse sentido, ao traduzir não se diz nunca a mesma coisa. A interpretação que precede cada tradução deve estabelecer quantas e quais das possíveis consequências ilativas que o termo sugere podemos cortar” (p. 107) — fantástico este livro, não?

3) Na questão da negociação, Eco diz que há perdas que são perdas absolutas. Daí a necessidade do tradutor assumir essa perda e tentar explicá-la numa nota de rodapé. Mas, ainda nas questões de perda, Eco diz que o tradutor pode operar com compensações.

4) Compensações são estratégias de tradução relacionadas a “se ajudar o texto”. Todavia, é um perigo ao qual se deve resistir o da tentação de ajudar demais o texto, quase substituindo o autor. Aqui, então, ele aborda a questão de se evitar “enriquecer o texto” traduzido.

    Há traduções que enriquecem esplendidamente a língua de destino (aqui, Eco exemplifica com a tradução de Lutero da Bíblia que conseguiu “inventar” o alemão) e que, em casos que muitos consideram afortunados, conseguem dizer mais (ou são mais ricas de sugestões) que os originais. (Contudo), uma tradução que chega a “dizer mais” poderá ser uma obra excelente em si mesma, mas não é uma boa tradução.

    Sobre perdas e ganhos num trabalho de tradução:

1) “Existem perdas que poderíamos definir como absolutas”. Eco dá como exemplo uma piada que em italiano tem sua graça no jogo com os pronomes, mas que tem seu sentido perdido para maioria das línguas traduzidas (jogo de palavras). Aqui, peguei no flagra um jogo de palavras que Gisele (minha filha que, na época, tinha 2 anos de idade) fez quando me disse: “Pai, construí uma casa de palha… mas não sou um palhaço”!

2) “Perdas por acordo entre as partes”: o autor dá o exemplo de seu livro “O nome da rosa” que teve 24 páginas cortadas no inglês por motivos de mercado.

3) Quando há ambiguidades e obscuridades no texto que se está traduzindo: a) “o tradutor, à luz do contexto, deve esclarecer o texto para o leitor”; b) “o tradutor não apenas resolve o ponto no texto de chegada, mas ilumina o autor (se ainda estiver vivo e for capaz de reler a si mesmo em tradução) e pode levá-lo, em uma edição sucessiva do original, a esclarecer melhor o que pretendia dizer”; c) “quando, mesmo que ao houvesse a intenção do autor (ou do tradutor) de que o texto fosse ambíguo, mas o leitor considera aquela ambiguidade interessante textualmente”; d) “quando o autor (e o texto) eram e queriam permanecer ambíguos, precisamente para suscitar uma interpretação oscilante entre duas alternativas. Nesses casos, o tradutor deve aceitar a ambiguidade”. Ainda, aqui, deve-se consultar outras traduções em outras línguas para ver como outros resolveram as ambiguidades e obscuridades do texto.

4) Quando a perda é sensível, pode-se re-elaborar radicalmente o texto: a reelaboração, para Eco, é um ato de fidelidade. Tenta-se re-escrever para tentar dar ao texto traduzido algum mesmo efeito que se sabe completamente perdido na cultura do leitor final. O exemplo dado é de um texto de Eco traduzido do italiano para o espanhol, todavia Eco fazia alusões à poesia italiana, e que na tradução passaram a ser alusões à poesia espanhola (p. 145–150).

5) “O único critério para poder dizer que se trata ainda de tradução é que seja respeitada a condição de reversibilidade” (p. 161).

    Sobre referência e sentido profundo:

    Nesse capítulo, Umberto Eco questiona a possibilidade de se mudar a referência de um texto embora seja possível manter o sentido profundo desse texto. Para solucionar a questão, ele vê que cada caso é um caso.

    Há traduções nas quais se usa determinado termo que muda a referência do texto original. Como exemplo, ele cita uma narrativa em que o original “coupé” do francês é traduzido para “hansom” em inglês. Todavia, as duas carruagens são bem diferentes. A primeira leva o cocheiro sentado na parte da frente e a segunda leva o cocheiro sentado na parte de trás. Ora, então o francês visualiza a cena de uma carruagem com um cocheiro sentado na frente e o inglês o visualiza sentado atrás. Para a narrativa, tanto faz. Mas, “do ponto de vista do critério de verdade, os dois textos constroem duas cenas diferentes”.

    Interessante, não? Principalmente, se pensarmos na tradução bíblica e o que estamos construindo na mente do leitor.

    Há mudanças de referência que são aceitas e outras não. Embora, para Umberto Eco, o tradutor não devesse mudar as referências do texto original. Mas há línguas que se verá o tradutor obrigado a fazer isso. Ele dá o exemplo da tradução do seu livro “O pêndulo de Foucault” em que há uma cena na qual o personagem entra numa sala e tem uma experiência cromática que é passada pela descrição ininterrupta de cores vistas por ele. Mas numa tradução para determinada língua havia várias cores inexistentes. Simplesmente não havia palavras equivalentes para se traduzir as cores do original. Assim, o tradutor optou por outras cores. Mantendo o sentido, mas alterando a referência. 

    Mas há trocas de referências inaceitáveis. Eco lembra que em textos clássicos como Hamlet seria inadmissível não ler “to be or not to be”, mas ler algo como “viver ou morrer bem” só para se tentar facilitar o jogo de palavras. Enquanto um texto como “O pêndulo de Foucault” pode ser mudado como se quiser e ninguém vai ligar.

    Se o tradutor pode mudar as referências de “O pêndulo de Foucault”, quais são os limites? Eco vê que toda narrativa pode ser reduzida micro-proposições que revelam a “história profunda”. Esta não deve ser alterada. Enquanto se poderia mexer nas referências da “história superficial”. Ex: A menina leva doces à casa da vovó e acaba na armadilha de um lobo que a engana, devorando sua avó e quase a devorando também. Para Eco, há uma verdadeira fábula e esta é que não pode ser alterada.

    Fontes , foz, deltas e estuários

    “Uma tradução não diz respeito apenas a uma mensagem entre duas línguas, mas entre duas culturas, ou duas enciclopédias”.

    Aqui, recordo-me da situação bíblica de Sara e Abraão na narrativa da situação de sua serva. Há que se recorrer a um background cultural para se compreender os pressupostos extra-bíblicos legais e jurídicos da época. Eco passa a citar alguns exemplos em que a má compreensão cultural produz uma cadeia de mal-entendidos linguísticos.

    A grande questão do livro

    Uma tradução deve levar o leitor a compreender o universo linguístico e cultural do texto de origem ou deve transformar o texto original para torná-lo aceitável ao leitor da língua ou da cultura de destino?

    Ao se traduzir Homero, o tradutor deveria transformar os próprios leitores gregos dos tempos homéricos ou obrigar Homero a escrever como se fosse um autor dos nossos tempos?
A questão exposta acima é designada no livro como: DOMESTICAR ou ESTRANGEIRIZAR? MODERNIZAR ou ARCAIZAR?…

Boa leitura!

                                                Fábio Ribas

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

União com Cristo



    “Deus determinou nos chamar com santa [e eficaz] vocação conforme uma decisão que aconteceu “em Cristo Jesus” e “antes dos tempos eternos”. Essa decisão de Deus foi a de derramar graça sobre os seus eleitos. Note que só é possível compreender esse versículo (2 Timóteo 1:8–9) se entendermos que, na eternidade, muito antes de nossa existência ou mesmo de qualquer previsão de boas obras de nossa parte, Deus decidiu dar graça aos seus eleitos, concebendo-os já em relação ao Senhor Jesus Cristo". ​
       “No texto de Efésios (1:4–5 e 11), tanto a escolha que Deus fez de parte da humanidade para que fosse santa quanto à predestinação para pertencermos ao próprio Deus por adoção aconteceram “nele”, “por meio de Jesus Cristo” e “em Cristo”. Essa escolha aconteceu antes da fundação do mundo. Do ponto de vista lógico, portanto, fomos planejados por Deus em união com Cristo e, por isso mesmo, escolhidos e predestinados. Do ponto de vista da decisão de Deus, nossa união com Cristo aconteceu na eternidade. Deus nos considerou como alvos de sua graça porque nos viu na eternidade, no momento da sua escolha, unidos ao seu santo Filho. Campos (Héber Carlos de) fala sobre isso da seguinte forma: “Estar em Cristo é algo definido antes da fundação do mundo, no decreto de eleição. Antes de o universo ser chamado à existência, já estávamos em Cristo. Assim como Deus, o Pai, escolheu Cristo, na eternidade, para ser o Redentor dos filhos dos homens, assim também colocou esses homens nele, para que recebessem as bênçãos advindas daquilo que ele iria fazer por eles"”.

    A união com Cristo é a doutrina basilar da fé. Ela é a origem, o meio e o fim da nossa caminhada. Tudo o mais é enlaçado por esta doutrina. Somos unidos a Cristo pelo propósito do Pai, que assim o quis antes da fundação do mundo, e por meio do Espírito Santo recebemos TUDO o que precisamos para nossa salvação e santificação. Esta é a grandeza do que nos traz o autor de “União com Cristo”, o Rev João Paulo Thomaz de Aquino.

    Mas o que é a união com Cristo? Quais as implicações disso? Deus escolheu alguns para que fossem resgatados do estrago do pecado, que nos levou à condenação da separação. A união com Cristo é o que torna possível essa reaproximação. Com ela, recebemos tudo o que precisamos para crescermos em santidade e lutarmos contra o pecado. É uma união mística atestada pela Bíblia e tratada nas Confissões e Credos Reformados. Estamos unidos a Cristo e isso torna possível nossa união com a Igreja.

    Assim, na primeira parte de seu livro, o autor nos faz uma apresentação bíblico-teológica da “união com Cristo”, trabalhando e aprofundando as metáforas que a própria Palavra de Deus fornece sobre essa doutrina: o casamento, o templo, a família, a videira e os ramos, escravos, corpo, banquete etc. Vemos, assim, como a Bíblia é rica em detalhar a natureza mística de nossa união com Cristo e, com isso, o autor nos esclarece e define o que é essa união. Na verdade, ele marca com clareza uma diferença para que possamos compreender o tema biblicamente tratado: a união mística, que é a união do cristão com o Deus trino (o Pai, o Filho e o Espírito Santo), só é possível mediante a união do indivíduo com Cristo. Assim, é a União com Cristo - e somente ela - que torna possível nossa união mística com Deus! 

    Na segunda parte do livro, vemos uma apresentação mais teológico-sistemática, em que o autor nos fala das características dessa união e como que ela se opera (modus operandi), além de mostrar como a doutrina da união com Cristo conosco se relaciona com todas as demais doutrinas de nossa salvação e santificação. Nesta parte do livro, vemos, entre outros, os aspectos legal, espiritual, vital, orgânico, pessoal e missional da doutrina. Assim como no livro “Vivendo em União com Cristo”, de Grant Macaskill, Rev Thomaz de Aquino irá tratar da relação da doutrina com os sacramentos do batismo e da ceia, além de abordar muito equilibradamente o tema da imitação de Cristo. Portanto, esses dois autores dialogam para que possamos elaborar uma missiologia da habitação, relacional e mística. Ainda nesta parte, é assombroso quando somos lançados por Rev. João Paulo à verdade bíblica de que Deus jamais se relacionou com seu Povo à parte de Cristo. Para explicar melhor isso, o autor apresenta os conceitos da união objetiva, que é a perspectiva de Deus na eternidade, e a união subjetiva, que é a nossa perspectiva no tempo da história de nossa vida pessoal. Dito isso, desde a eternidade, Deus só viu os seus eleitos por meio de Jesus. Deus sempre nos viu unidos ao seu Filho. A vinda de Jesus foi, portanto, para resgatar os seus eleitos para uma união subjetiva, histórica e individual por meio da Fé.

    Na terceira parte de seu livro, o Rev Thomaz de Aquino demonstra como a doutrina da nossa união com Cristo está presente de forma central na teologia de João Calvino. Ainda neste ponto, teremos o confronto de Calvino e Osiandro explicado de modo muito claro ao leitor, para que possamos criticar os movimentos teológicos mais recentes como a Nova Perspectiva em Paulo e a Nova Escola Finlandesa de interpretação de Lutero. O autor termina com um último esclarecimento: seria a união mística com Cristo a mesma coisa que a teose da teologia ortodoxa oriental? E a resposta é NÃO! É uma doutrina que tem sido usada por muitas pessoas, mas que carrega nela mais confusão do que explicação. Que seremos "deificados" é fato bíblico, mas não no sentido de que teremos a mesma substância divina, mas a ação, a atitude divina! Autores como Michael J. Gorman, de Inhabiting the Cruciform God [Habitando o Deus cruciforme], tem feito a propagação de heresias, pois o conceito dele de "teose" é algo que redefine a Deus, aproximando sua teologia muito mais da "teologia do processo" e da "teologia da cabana". Quero deixar as palavras sempre equilibradas de João Calvino sobre o tema da teose e a avaliação de Billings trazida no livro do Rev João Paulo:

    Se o Senhor partilhará com os eleitos sua glória, seu poder, sua justiça, mais ainda, se dará a eles a si mesmo para ser por eles usufruído, e o que é mais excelente, com eles coexistirá, de certo modo, em um, lembremo-nos de que sob este benefício está contido todo gênero de felicidade. E, quando tivermos avançado bastante nesta meditação, no entanto reconheceremos que, se a concepção de nossa mente for comparada com a sublimidade deste mistério, ainda ficaremos nas raízes mais inferiores. Portanto, devemos, neste aspecto, curvar-nos com mais sobriedade, para que, esquecidos de nossa própria limitação, pelo que com mais audácia subamos ao alto, o fulgor da glória celestial não nos trague. Sentimos também quão desmesurado é nosso desejo de saber mais do que é lícito, do que jorram incessantemente questões não apenas vãs, mas até mesmo nocivas. Chamo vãs aquelas das quais não se pode tirar nenhum proveito. Mas este segundo tipo é pior, porque os que se entregam a elas se enredilham em especulações perniciosas, razão por que as chamo nocivas (João Calvino, Institutas, III. 25.10).

  Nesta outra citação existe uma diferença entre a tradução em português, a tradução em inglês e o original em latim. Abaixo vou colocar a tradução em português e, entre colchetes, outra tradução em português seguida da tradução em inglês e do original em latim. Fomos unidos [insiticii facti]. Esta palavra [unidos ou enxertados] recebe grande ênfase e revela nitidamente que o apóstolo não nos está exortando, e, sim, ensinando acerca do benefício que derivamos de Cristo. Ele não está requerendo de nós algum dever que nossa prudência ou diligência pode realizar, mas está falando do enxerto que é efetuado pela mão divina. Não há razão para forçosamente aplicar a metáfora ou comparação a cada detalhe, pois a disparidade entre o enxerto de árvores e o nosso enxerto espiritual prontamente se evidencia. No enxerto de árvores, a parte enxertada extrai sua nutrição das raízes, mas retém sua propriedade natural no fruto que serve de alimento. No enxerto espiritual, contudo, não só derivamos o vigor e a seiva da vida que fluem de Cristo, mas também transmitimos de nossa própria natureza para a sua [mas também passamos da nossa própria natureza para a dele; but we also pass from our own nature into his; sed ineius naturam ex nostra demigramus].
  Depois de apresentar essas e outras citações, Billings chega à seguinte conclusão sobre a doutrina da teose em João Calvino: Eu defendo que Calvino ensina deificação de um tipo particular. Usando a linguagem de participação, enxerto e adoção em passagens selecionadas em Paulo e em João, Calvino ensina a participação da humanidade no Deus triúno, afirmando a união diferenciada da humanidade com Deus na criação e na redenção.

       Enfim, o livro do Rev João Paulo Thomaz de Aquino é uma obra de fôlego e que precisa ser lida e relida, estudada e aprofundada sempre. Um livro maravilhoso! Destaco ainda os temas da "individualidade em Cristo"; o tema dos dois representantes "o primeiro Adão e o segundo Adão"; e, finalmente, a explicação dada por ele de que, por causa da nossa União com Cristo, estávamos lá, nEle, realizando todas as coisas necessárias para nossa salvação, por isso a Bíblia pode afirmar que, se estamos em Cristo, não só com Ele morremos na Cruz, mas, com Ele, ressuscitamos! Glórias a Deus!!! Aleluias!!!


                      Fábio Ribas

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Igreja e Estado no Brasil Holandês

 


    Indubitavelmente, um trabalho de fôlego impressionante por parte do autor, Rev Frans Leonardo Schalkwijk. Na introdução, vemos a extensão de sua pesquisa em atas, tanto no Brasil como na Holanda, para que possamos ter um quadro mais exato do Brasil Holandês.

    Na primeira parte, Brasil e Holanda, interessa-me exatamente a maneira como o autor constrói e nos dá a entender qual a natureza do Cristianismo que os portugueses trouxeram ao Brasil. Um cristianismo sem Bíblia, assentado mas profundas convicções de uma Contra-Reforma que por aqui aportou.

    Encontramos, no livro de Schalkwijk, a formação do Brasil luso e, logo após, o Brasil ibérico. Ambos delineando o tipo de cristianismo que irá moldar a nossa consciência religiosa. É muitíssimo interessante ver tantos personagens conhecidos das nossas aulas de “História do Brasil” e de tantos outros livros que já li, mas que esquecemos de vê-los relacionados uns com os outros. Desde Lutero e Calvino, às perseguições de Felipe II, passando pela trágica “noite de São Bartolomeu”, vemos a reunião e confecção do Sínodo de Dort, a criação da Companhia das Índias, e até a história de Pedro Poti. Tudo isso é a história viva e correlacionada que ajuda o leitor a compreender o quadro do Brasil Holandês - ele não está destacado em meio ao nada, mas se insere numa moldura apresentada por  Schalkwijk.

    Vemos, portanto, a história dos protestantes europeus e como ela desagua na chegada dos holandeses entre nós. O autor confronta dois personagens: tanto Max Weber, que irá atribuir o crescimento do capitalismo à ética protestante, e Benjamim Franklin, que irá propagar uma ética individualista muito diferente do que Lutero e Calvino preconizaram. Isto é muitíssimo importante para a própria Igreja Evangélica Brasileira que faz confusão quanto a esses temas (tratando todo tipo de "individualismo" como um mal, da mesma forma que tende a idolatrar qualquer forma de coletivismo como um bem).

    A relação dos holandeses com os povos indígenas constituiria um capítulo à parte muito fascinante. Além disso, fascinante ver como que um homem como Maurício de Nassau exercia com sinceridade seu cristianismo. Virei fã desse personagem histórico. Por que Nassau foi embora do Brasil? Em algum momento do Brasil Holandês, houve 22 igrejas aqui. Podemos afirmar que, em 1644, eram 12 igrejas, sendo que 3 dessas eram em aldeias indígenas. Admirável! E deveríamos publicar mais essa história grandiosa que temos é a nossa história!

    As páginas sobre o culto (4.1.4) são curiosíssimas e envolventes. Mas o que vem a seguir, as organizações das igrejas, dos presbitérios e do Sínodo, tudo isso é muitíssimo envolvente. Outra questão interessantíssima é a enorme troca de cartas da Igreja Reformada no Brasil com  as igrejas dos Países Baixos, África e tantos outros. A Igreja Reformada no Brasil era uma igreja viva!

    O capítulo dos "Obreiros eclesiásticos" nos dá essa noção da dificuldade de vida que esses pastores e diáconos enfrentaram no Brasil. Dificuldades financeiras inclusive! E o problema também é o mesmo de sempre: falta de obreiros. Havia outras figuras de obreiros para dar conta da enorme seara: os predicantes, os consoladores e os proponentes. A Holanda, contudo, preferia deixar lacunas no Brasil do que enviar obreiros impróprios para cá! Amei saber disso!

    De novo: Nassau foi um cristão fora da curva! Ele nutriu um interesse e cuidado pelos órfãos da Igreja, que cresciam assustadoramente por causa das guerras no Brasil. Nassau investiu nas escolas infantis, que ensinavam em holandês, português e tupi!!! Nassau queria mais, mas seu período no Brasil foi curto. Até os portugueses da terra não queriam que ele fosse embora, a ponto de oferecerem salário para ele ficar!

    Dentro da dificílima realidade do que era aquele Brasil do século XVII, havia muita literatura espiritual usada pelos pastores e consoladores, mas o destaque era o Catecismo de Heidelberg, além das obras de William Perkins e Henrich Bullinger. Mais de 50 pastores da Holanda vieram trabalhar no Brasil! Estou apaixonado por este livro!

    O livro mostra a igreja missionária, principalmente seu esforço na evangelização dos portugueses. Mas eu achei bem interessante, em determinado momento, o autor afirmar que o excesso de liberdade religiosa dada pelos holandeses aos católicos pode ter sido um tiro no pé. Principalmente, quando comparamos Recife e Batávia (Indonésia). Nesta, a Igreja Reformada floresceu entre os portugueses. No Brasil, não. 

    O trabalho dos holandeses com os povos indígenas é de nos animar com nossa própria história. Não estou dizendo que não houve erros, contudo o que foi feito e da maneira que foi feito nas áreas da evangelização, plantio de igrejas, educação, engenharia e artes em geral é fruto da Providência divina. Um livro de cabeceira, certamente, mas que deve ser ensinado em nossas EBD’s! 

                Fábio Ribas

sábado, 6 de dezembro de 2025

A Tragédia de Guanabara: História dos Protomártires do Cristianismo no Brasil

 

    Já ficara encantado com o prefácio, datado de 1917, de Domingos Ribeiro. A escrita deste parece, até mesmo, anunciar o tom que leríamos a seguir, contudo, vindo da pena de Jean Crispin. Domingos Ribeiro faz um resumo do que leremos a seguir e, também, um apelo: como que histórias como essa podem ser tão desconhecidas da própria Igreja Evangélica no Brasil, ao que, então, ele pergunta pelo que se interessaram em contar essas histórias, pesquisar os documentos e escrever?

    Essa história, para mim, tem um sabor todo especial, porque fiz seminário para ser padre, minha formação foi católico romana. Quando ouvi essas histórias, pela primeira vez, foi no ano de 1995, quando sequer eu era crente ainda. Um missionário evangélico me contou sobre os huguenotes da Baía de Guanabara e sobre Pedro Poti, que veio depois. Por essas e tantas outras razões, sempre que posso, compartilho essas histórias desde lá. Porém, nada se compara à narrativa escrita por Jean Crespin.

    “A tragédia da Baía de Guanabara”, de Jean Crespin, apesar de ser uma história tão conhecida e, por mim mesmo, tantas vezes recontada, tem um colorido e um tom impressionantes. Estou impactado com a narrativa e os detalhes assombrosos que desconhecia. A grande informação nova para mim, por exemplo, é que Villegagnon já veio para o Brasil debaixo do engano que ele mesmo perpetuou: ele queria enriquecer, mas vendeu a ideia de que aqui seria um lugar de refúgio para os perseguidos da fé protestante. Para encarar a empreitada, ele reuniu dois grupos. O primeiro, de protestantes:

Para colimar o seu fim, só lhe restava encontrar gente fiel, de boa vida e educação, a fim de habitar com ele no Brasil; e eis porque fez publicar por toda parte que precisava de pessoas tementes a Deus, pacíficas e boas, pois bem sabia que lhe seriam mais úteis do que quaisquer outras, em virtude da esperança que tinham de formar uma congregação cujos membros fossem votados ao serviço divino.

    O segundo, de trabalhadores assalariados:

Era-lhe também indispensável assalariar trabalhadores e operários de todas as profissões, mas com muita dificuldade e mediante grande remuneração pôde encontrá-los, e isto mesmo entre gente rústica, sem a mais leve noção de honestidade e civilidade, impudica, dissoluta e dada a toda a sorte de vícios.

    No segundo grupo, olha o detalhe da nota de rodapé: "Claude Haton, em suas Memorias (edição Bourquelot, pag. 17) diz: "Com permissão do rei, Villegagnon visitou as prisões de Paris para ver os prisioneiros que lhe podiam ser úteis".

    Pelo que eu pude entender, depois de ser o pivô e aquele que tumultuou a cabeça de Villegagnon contra os genebrinos, Cointac retorna no barco para a Europa, enquanto 5 dos passageiros precisam retornar ao Brasil para que a embarcação não perecesse com todos. Principalmente, as questões por Villegagnon e Cointac levantadas foram sobre os sacramentos da Ceia e do Batismo, mas, na verdade, Villegagnon já estava “tomado pelo diabo”. Dali para frente, Villegagnon só mergulha ainda mais em suas próprias loucuras de perseguição.

    Porém, eu fui tão envolvido pela escrita de Jean Crespin, que, ao chegar na já tantas vezes lida Confissão da Baía de Guanabara, eu chorei. E talvez, pela primeira vez, a li com muita reverência, envergonhado de mim e da minha geração. 

                Fábio Ribas

Rainha Margot

Há quem deseje a volta da Monarquia? No meio conservador brasileiro, podemos encontrar tanto entre católicos como entre protestantes os que ...