BibliothecaRibas
sábado, 20 de junho de 2026
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Pregação e Histórias (Emílio Garofalo)
Na retórica clássica, o discurso persuasivo envolve ethos, pathos e logos.160 O ethos está ligado à autoridade e confiabilidade do orador. Passa por sua apresentação pessoal, vestimenta, renome, história e relação com os ouvintes.161 Já o logos está ligado ao discurso em si: ideias bem concatenadas, explicações claras, um discurso com início, meio e fim etc. O pathos, por último, passa pelo apelo emocional da mensagem. Toda mensagem busca mover os ouvintes em mais do que sua razão, bem como persuadi-los por meio das emoções inerentes ao próprio tema. É muito importante entender que não estamos falando de manipulação emocional, chantagem ou golpe baixos, mas dos próprios elementos passionais do texto ou do assunto. As histórias carregam consigo elementos emocionais: indignação, pena, saudade, medo, vergonha. O orador precisa usar isso. E o leitor ou ouvinte precisa senti-los (p. 116-117).
Como Gene Veith bem coloca: O ateísmo é um ato da imaginação. O niilismo é uma construção imaginativa da mente humana. Na verdade, todas as religiões falsas são inventadas por seres humanos usando sua imaginação criativa e projetando assim suas criações mentais para o mundo na forma de doutrinas, instituições e costumes. Essas religiões imaginativamente feitas envolvem a criação do que a Bíblia chama “ídolos” — “imagens” — e os sistemas religiosos que crescem em torno dessas imagens, que a Bíblia denomina “idolatria”. O mesmo pode ser dito das falsas cosmovisões (p. 169).
sábado, 6 de junho de 2026
Persépolis (Marjane Satrapi)
O livro foi relançado em 2020, pela "Quadrinhos na Cia", numa versão "obra completa". Originalmente, eram quatro volumes. Acompanhamos a dura realidade de Satrapi crescendo num ambiente de opressão religiosa, desde sua infância. É uma obra intimista em que ouvimos suas dúvidas, indagações, busca por identidade e luta como mulher em meio à sociedade que a cerca.
Durante toda a leitura de Persépolis, fiquei imaginando se a autora, em algum momento, descobriria esta verdade, que a esquerda tem como projeto a instalação de um regime que fere as liberdades individuais que ela tanto defendia para si mesma. Mas não. O livro termina e não vemos que ela tenha tido nenhuma luz diferente sobre suas crenças políticas. Pelo contrário, os anos de 89, 90 e 91 passam sem sequer ocorrer uma única menção sobre o mundo comunista que ruía na Europa (lembra da queda do muro de Berlim?). O livro também terminará com Satrapi mergulhada em algumas contradições feministas, ainda que ela tenha três homens em sua vida que não são nada daquilo que as teorias feministas, que ela tanto defende, dizem sobre "todos os homens": seu pai, seu tio e seu avô.
Quando ocorre a Revolução Iraniana, em 1979, Satrapi está com apenas 10 anos de idade. Naquilo que ela consegue absorver dos eventos ao redor, ela se coloca sempre ao lado dos revolucionários. Seus pais eram de esquerda. E a esquerda encontra nos religiosos muçulmanos seus aliados na derrubada do regime monárquico pró-Ocidente do Xá Reza Pahlevi. Todavia, assim que essas duas forças conseguem derrubar a monarquia, os muçulmanos instauram um regime religioso teocrático que passa a perseguir seus antigos aliados.
Nestess últimos anos, também temos visto, ao redor do mundo, se concretizar essa aliança entre a esquerda e grupos muçulmanos. Uma aliança incompreensível para muitos, uma vez que se dá entre duas cosmovisões que deveriam ser excludentes, pois uma é sustentada sobre uma religiosidade teocrática e a outra sobre o ateísmo anti-tudo aquilo que se chama "Deus". Além do fato de se unirem para derrubar um inimigo comum, poderia haver algo mais profundo que unisse esquerdistas e muçulmanos colocando-os do mesmo lado do tabuleiro? Nas palavras do próprio professor Ibrahim Nasser, o Islã possui uma "doutrina social que impõe aos ricos que deem parte de sua riqueza aos pobres". Isto é um ponto de intersecção que revela porque ambos os lados se autonomearam revolucionários e vêm, nos últimos anos, construindo alianças mundo afora. Porém, como prova a experiência iraniana, não será de se admirar que, uma vez que um desses dois grupos tome o poder em algum lugar, venha então a perseguir o outro.
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Pregação - comunicando a fé na era do ceticismo (Tim Keller)
sábado, 30 de maio de 2026
Pregação na Pós-Modernidade: como ser biblicamente fiel e culturalmente relevante (Zac Eswine)
“Beleza é a deslumbrante exibição da verdade e da bondade de Deus refletidas na glória e na santidade de sua pessoa e obra, na encarnação e no mundo criado. A beleza é o que atrai em Deus; a beleza é o que arrebata os olhos do coração ao contemplar Cristo pela fé mediante a Palavra” (T. Chris Cain, “Turning the Beast into Beauty: Towards an Evangelical Theological Aesthetics”, Presbyterion: Covenant Seminary Review 29, n. 1 (2003), p. 28. Citado em: Eswine, Zack).
Logo na introdução, o autor me arrebatou com a seguinte pergunta: “eu conseguiria agora alcançar com o evangelho aquele que um dia eu já fui?”. E o autor a introduz dizendo que ele é cristão, pastor e professor de seminário. Eu também, mas acrescentaria que sou missionário. E sei que, na condição de missionário, tenho sido preparado ao longo das décadas para trabalhar com culturas muito diferentes da minha. Contudo, lendo este livro de Zac Eswine, e outros semelhantes de autores americanos, compreendo que a minha cultura está bem mais próxima de dialogar com culturas da pós-modernidade, do que deve ser para uma cultura da América do Norte. Em outras palavras, li o livro de Zac vendo que o pregador brasiliero já está muito mais adequado ao que o autor quer propor do que a cultura americana.
Ler esse livro nessa perspectiva é muito interessante, pois há anos ouço como que “os povos” aí fora gostam de missionários brasileiros entre eles. E a resposta fica patente ao lermos “Pregação na Pós-modernidade”. Todavia, não sou ingênuo a ponto de pensar que na América não há pregadores já muito abertos às propostas do livro, assim como sei também que no Brasil há muitos pregadores (e missionários) que precisam ler este livro. Não nego, porém, que o, li com aquela sensação de “mas essa homilética é para todas as eras e não só para minha geração pós-moderna”! Enfim, um livro enriquecedor que todo seminarista e missionário deve ler.
Voltemos à pergunta que me arrebatou, pois a li num sábado e a fiquei remoendo dentro de mim. No dia seguinte, pela manhã, aconteceu de perceber que Deus estava me preparando para um encontro com um rapaz seminarista católico que veio visitar a minha igreja. Não tinha como fugir, pois eis eu ali, bem diante de mim, o meu eu de mais de três décadas atrás estava bem ali diante de mim. Como apresentar o evangelho hoje da mesma maneira graciosa e amorosa com que me apresentaram naquele tempo? Não existem coincidências para quem caminha com Deus. Deus queria que eu enfrentasse essa pergunta.
O livro de Zac está dividido em um prefácio de Emilio Garofalo, além de um outro prefácio à edição brasileira, seguidos de dezesseis capítulos e dois apêndices. No prefácio de Bryan Chapell, vemos que o livro vem na onda do retorno do tema da pregação cristocêntrica, sem, contudo, disperdiçar a pessoa de seu próprio pregador. Em outras palavras, regamos nossa pregação como “pessoas quem tem testemunho pessoal da graça de Cristo”. E não apenas isso, mas devemos subir aos púlpitos sob a responsabilidade de termos uma herança missionária por trás de nós.
Logo na introdução, fui desafiado a me perguntar no que é preciso saber para sermos salvos? O autor mostra a delicadeza do assunto em nossa complexidade cultural, lembrando do exemplo de Collins e Anne Rice:
Em seu livro A linguagem de Deus, Collins escreve: “O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma”. Collins acredita na evolução e num planeta com quinze bilhões de anos. No entanto, quando lhe perguntaram se acredita no nascimento a partir de uma virgem, Collins responde inequivocamente: “Eu creio!”. Ele defende os milagres da Bíblia e a ressurreição corporal de Jesus Cristo. Collins é cristão.
Da mesma maneira, Anne Rice, famosa autora de romances sobre vampiro e notável ateia, tornou-se uma seguidora de Jesus. Embora ela ainda seja socialmente liberal em questões como a homossexualidade, tornou-se uma cuidadosa e consciente defensora da Bíblia, particularmente da historicidade dos Evangelhos e da veracidade de suas afirmações sobre quem é Jesus.
No Brasil, nos deparamos atualmente com a mesma tensão. Em algumas igrejas essa tensão é maior e em outras menor. A pós-modernidade nos dá esse leque de pessoas e sua fé pessoal que nem sempre coaduna com nossos credos, símbolos de fé e confissões, mesmo tendo elas como membros comungantes em nossas igrejas locais. Vivemos num mundo anunciado a nós desde a década de 1960: somos seres de planetas diferentes vivendo dentro de uma mesma Interprise, sendo que muitos nessa espaçonave são cristãos! Como alcançar pessoas tão independentes, diferentes e autossuficientes assim? Crentes e descrentes, essas pessoas estão na nave e, então, como nos comunicar com elas? Como nos diz o autor, ainda na introdução:
Muitos de nós estão sendo forçados a lembrar que alguém pode ser inconsistente na doutrina (como muitos em nosso meio), errar em algumas coisas (como todos nós) e, ainda assim, seguir verdadeiramente a Jesus, um passo de cada vez. A santificação é um processo.
Quero apenas dar um resumo dos temas que você encontrará neste livro de Zac Eiswine, para animar o leitor a se dedicar nessa leitura desafiadora.
Zac Eiswine irá voltar seus olhos não para a cultura pós-moderna, mas para a pessoa do pregador. Ele defenderá a importância de sermos pregadores autenticos e, sendo assim, não temermos mostrar nossa fragilidade e vulnerabilidade à nossa geração. Precisamos ir ao encontro do nosso público sabendo quem eles são. Portanto, precisamos contextualizar nossa comunicação aproveitando tanto as narrativas e as ficções que temos na cultura, para aplicar melhor na vida real dos nossos ouvintes. Precisamos de capital literário! O pregador contextualizado será aquele que apostará mais numa homilética narrativa, sabendo ele que seu público precisa de uma mensagem compassiva e não moralista. Precisamos, então, compreender a arte da narrativa. Nossa pregação narrativa precisa se comunicar com a fé, esperança e amor das pessoas, trazê-las para a compreensão da fé, esperança e amor bíblicos até o ponto de ressurreição! Sim! A pregação deve apresentar a ressurreição possível aos pecadores mortos em seus delitos e pecados!
Devemos ser pregadores em dois mundos: tradição e inovação. Aqui, ele está falando da necessidade de trazermos em nossa homilética a riqueza do passado, mas saber aplicá-la nos novos contextos. Uma pregação nostálgica e redentiva. Todos somos tradutores! Não apenas os missionários que estão trabalhando com outros povos e traduzindo para outras línguas o texto bíblico, mas o pregador deve fazer o mesmo com seu público dentro de sua cultura e língua (estamos numa Interprise, lembra?). Assim, precisamos usar nossa voz profética para proclamar a verdade. Precisamos usar a nossa voz sacerdotal para pastorear nossas ovelhas. Precisamos usar nossa voz de sabedoria para compreender e se comunicar com a cultura. Somos pregadores tradutores!
Semelhante ao apóstolo Paulo, temos diante de nós um público de igrejados culturalmente, mas temos um grupo de igrejados confusos e de pessoas totalmente alienadas da verdade bíblica. Ao pregarmos, precisamos lembrar dessas diferenças diante de nós. Não precisamos temer em demonstrar para a geração pós-moderna, avessa ao moralismo e cansada de hipocrisia, nossa vulnerabilidade sacerdotal. Precisamos mostrar que há realmente textos difíceis na Bíblia e o autor irá demonstrar como que, por exemplo, devemos encaixar os textos de guerra e violência bíblicos dentro de seus contextos metanarrativos. Deus foi quem colocou esses textos lá e precisamos mostrar que a violência não é uma justificativa para hoje sermos violentos, mas serviu a um propósito divino naquele tempo. Além disso, precisamos enfrentar nossas próprias ideias idólatras em nós e na cultura. Do contrário, se não enfrentarmos, como daremos conta da homilética satânica? Satanás também prega. Ele corrompe a verdade, manipula o discurso e semeia a mentira e o homicídio. Pregamos diante dessa realidade espiritual.
Neste ponto, o autor precisa dizer o óbvio: nossa homilética deve ser totalmente dependente do Espírito Santo! Contudo, preciso dizer que foi no último capítulo do livro que, então, fiquei totalmente arrebatado. O capítulo final falou muitíssimo comigo! Concordo com tudo o que está ali em gênero, número e grau. Identifiquei-me e me vi satisfeito naquelas palavras. Falou de algo que me é muito caro: monastério/solitude! E a linguagem propícia para aquele que se refugia em Deus em meio ao caos pós-moderno é a linguagem do Espírito Santo. Precisamos conversar mais com Ele. Gastar um tempo proposital no silêncio e na fuga e sermos, desta maneira, alimentados e saciados pela presença de Deus em nós: fugirmos para o monte em meio à madrugada. Não é um escapismo, mas é uma fuga necessária em tempos de excessos de imagens, compromissos e velocidades. É preciso que nos encontremos com o Deus dos poetas, o mesmo Deus que prega é o mesmo Deus que nos escreveu e nos deu seus poemas, lembra-nos Zac Eiswine.
A linguagem divina tem esse poder. Cristo Jesus tem essa autoridade. O propósito da linguagem, pois, é a glória de Deus em Cristo, em direção à cura substancial de sua criação, até que ele venha. Os ministros, cujo trabalho é a linguagem e a presença, dedicam-se por vocação a tal propósito. Os poetas podem nos ajudar em nossa vocação porque poemas e sermões têm alvos semelhantes — criar e “preservar uma imagem verdadeira da vida”.
Quero encerrar deixando um dos textos e música mais caros para mim por todos estes longos anos de vida missionária. Espero que, de alguma maneira, venha a significar para você o que tem significado para mim. Lembrei-me do texto abaixo, exatamente quando estava lendo o último capítulo. Foi uma postagem que fiz em 2011! Essa postagem, num antigo blog, tinha como título: "Porque um dia Ele me encontrou"...
Sie mag wohl glaubern ich sei gestorben!
Ob sie mich für gestorben hält.
Ich kann auch gar nichts sagen dagegen,
Denn wirklich bin ich gestorben der Welt.
Und ruh’ in einem stillen Gebiet!
Ich leb’ allein in meinem Himmel,
In meinem Lieben, in meinem Lied
Friedrich Rückert: Ich bin der Welt abhanden gekommen
terça-feira, 26 de maio de 2026
A família entre a bênção e a maldição (Rev Rogério Cunha da Silva)
“Antes de se casar e constituir uma família, é de fundamental importância conhecer sobre o compromisso que será feito diante de Deus e dos homens. Isso é mais importante do que uma aliança de ouro” (p. 29).
segunda-feira, 23 de março de 2026
Rainha Margot e a política nossa de cada dia
Há quem deseje a volta da Monarquia? No meio conservador brasileiro, podemos encontrar tanto entre católicos como entre protestantes os que sonhem com o retorno do rei. Eu, contudo, anseio pelo retorno do Rei. Apenas. Eu “já” vivo sob uma Monarquia, embora “ainda não”. Acredito que, um dia, todo olho verá a volta do meu Rei Jesus Cristo e, então, teremos uma verdadeira, plena e perfeita Monarquia. Enquanto isso, seja lá sob que forma de governo estejamos vivendo, o que temos, indubitavelmente, é esta Cidade dos homens, imperfeita, corrupta e miserável.
Uma Monarquia parlamentarista melhoraria os vícios de um possível reinado caprichoso? Nenhuma garantia. A Monarquia deveria ser defendida como símbolo e reduto da moral? Símbolo da tradição? Ledo engano, caro cidadão. Será, então, que uma República parlamentarista não daria a nós um maior equilíbrio e estabilidade necessários à Nação? Não! Dúvidas quanto a isso? Olhe para o nosso Parlamento. Ele é a representação do que somos: imperfeitos, corruptos e miseráveis. Percebido isso, não é de se estranhar que Karl Marx ensine a seus adeptos que a conquista da democracia, por meio do voto para todos, era uma etapa essencial para que o proletariado alcançasse o comunismo.
Há indivíduos ilustres no Parlamento e demais poderes da Nação? Não duvido. Todavia, os partidos com maior capital político são quitandas de negócios escusos. E se trocássemos os partidos? Quando esses recolhessem maior capital, por sua vez, começariam seus processos de barganha fisiologista. Muita ingenuidade depositarmos nossa confiança em homens pecadores. Sem ilusões, por favor! Há um vídeo que, volta e meia, circula em época de eleições. Este ano já começa a circular de novo. Deixarei o link do vídeo aqui. Assista. Quero comentá-lo a seguir.
Dando um passo atrás, precisamos compreender que, seja lá em qual ponto do espectro político você se posicione hoje, a Bíblia coloca a cada um de nós como um vilão completo diante de Deus, exatamente porque Deus pensa diferente de nós (Isaías 55:8–9). Quer ver? Somos todos pecadores, não há um que busque o bem (Rm 3:23), nossas boas obras são trapos de imundícia diante de Deus (Isaías 64:6), tudo isso é o que a Palavra de Deus diz sobre todos nós. O que precisamos entender é que até mesmo nós, que somos maus, sabemos dar boas coisas aos nossos filhos (Mt 7:11/Lc 11:13). É como se olhássemos para um Hitler, um Mussolini ou um Stalin, por exemplo, e aceitássemos o fato incômodo de que, certamente, eles foram “bons” com alguém da vida deles. Os piores psicopatas sabem também dar “boas coisas” a alguém. Como a própria Bíblia diz, atentemos, não há boas obras capazes de nos habilitar diante de Deus (Ef 2:8–9/Tt 3:3/Gl 2:16). Decorre disso, então, que não são os milagres que justificam os santos, por mais fascinantes que esses milagres se mostrem a nós. Portanto, cuidado.
Dando um segundo passo atrás, outro problema do vídeo é acreditar em “virtudes”, como se essas não fossem produtos de um coração pecador. Não há “virtudes” diante de Deus, vimos isso no parágrafo anterior. Mesmo nossas “melhores virtudes” diante dos homens são impregnadas do mais vil pecado de nossa natureza humana totalmente depravada. A “liberdade”, a “equidade” e a “justiça” não são pessoas com quem eu possa desfrutar um café da manhã em casa ou me confraternizar no fim de tarde no trabalho. Virtudes e valores não são autoexistentes, independentes de nós. A “liberdade” só pode ser verificada na vida de pessoas concretas. Semelhantemente, amor, alegria, paz, paciência, amabilidade (ou benignidade), bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio não são entes verificáveis fora de nós. Em outras palavras, virtudes e valores são abstrações que se manifestam concretamente a partir de pessoas pecadoras. Logo, as “virtudes” não são neutras e nem puras. Por isso, não importa o lado em que elas apareçam no espectro político, pois não é a direita ou a esquerda que as justifica. Eu posso usar a liberdade para fazer o mal. Eu posso usar o vício para fazer o bem. Só Deus conhece o que vai no coração, por isso é preciso suspeita bíblica diante de um mundo que jaz no maligno, embora governado por Deus.
Dando um terceiro passo atrás, é bom afirmar que todo valor ou virtude pode ser absolutizado por alguém ou, pelo menos, será destacado em detrimento de algum outro valor em algum momento, cedo ou tarde. Porém, como discernir, nesses momentos, o certo e o errado? Quando é que a liberdade deixa de ser algo melhor do que a equidade (ou vice-versa)? Se o indivíduo não puder tomar essa decisão, certamente, o grupo tomará por ele. O grupo pode ser qualquer ajuntamento: o partido político, a igreja, o condomínio etc. Quando o grupo passa a decidir sobre quando é que a liberdade se torna opressora e a equidade virtuosa, então, mais uma vez, estamos em xeque, porque se a Bíblia diz que o coração de um único homem é perverso, o ajuntamento de muitos corações só pode gerar mais perversidade ainda. Para resolver isso e conter a rebelião de algum indivíduo, grupos precisam de uma autoridade maior que os legitime. Aqui, para nós cristãos, só duas autoridades são possíveis: a Bíblia e o Estado. Este, contudo, limitado e fiscalizado por aquela. Do contrário, o Estado se torna a personificação da rebelião contra tudo aquilo que se chama Deus e, como sabemos, passa a controlar indivíduos por meio de grupos — até mesmo por meio da própria igreja — usando o poder desse Leviatã encarnado. Por tudo isso, não apenas o vídeo é ingênuo para com o que ocorre na vida real, mas também desconsidera o pecado de indivíduos e de indivíduos ajuntados, pois é isso o que um grupo é: um bando de gente controlada por alguns indivíduos ou por um indivíduo que pode vir a dominá-los.
Ainda sobre o vídeo, e também dando um último passo atrás, Jesus estaria mesmo acima de tudo isso? O vídeo diz que Jesus não está em lugar algum do gráfico, mas acima (fora) julgando o gráfico. Duas coisas: Jesus tem que estar no gráfico por meio da Sua igreja e também agindo por meio da Providência divina. Esta pode ser discernida quando olhamos o passado e aquela, em sua atuação de ser sal e luz agora. Jesus julga o gráfico, verdade, mas não com os critérios daquelas palavras apresentadas no gráfico, porque o conteúdo bíblico delas é outro. Jesus julga acima, mas julga por dentro também, julga por meio de sua igreja, que está inserida no gráfico e proclamando o Evangelho, e também julga quando cada cristão está evangelizando e mostrando que liberdade, equidade e justiça bíblicas são categorias bíblicas e não mundanas. Como categorias reveladas pela Bíblia, são conceitos fundamentados na Palavra de Deus e não na sociedade ou na cultura. As categorias revelam gêneros supremos, modos de ser pelos quais devemos nos organizar, classificar e compreender toda a realidade e nossa experiência. Portanto, a liberdade bíblica não corresponde à liberdade pregada pelo mundo. A equidade bíblica não é fruto de uma inveja doentia como o que, de fato, subjaz a toda defesa de uma agenda político-ideológica que vemos aí mundo afora. A justiça bíblica não é a justiça social.
Como, pois, Jesus já julga o mundo por meio de sua Igreja proclamadora e missionária? Ele já o julga (Jo 3:18–19/Jo 12:31/ Jo 12:47–48), mas ainda não, uma vez que haverá um julgamento definitivo e final no dia da volta do Rei. O mundo já está julgado, quando ele é um sistema que se rebela à pregação do Evangelho feita pela Igreja. Esse Evangelho pregado pela Igreja é supracultural, verdade. Está acima de toda proposta humana de tornar a Cidade dos homens numa Cidade de Deus, mas sem Deus. O Evangelho é transcultural, porque ele é a resposta ao pecado que atravessou e condenou à ira de Deus todos os corações em todos os povos, línguas e culturas. O Evangelho é contracultural, porque é na pregação da Igreja que teremos o confronto que poderá levar os corações ao arrependimento ou, segundo a vontade de Deus, entregá-los de uma vez à condenação em que se encontram. O Evangelho é intercultural, porque, uma vez perdoados em Cristo, podemos nos colocar diante de Deus e diante do próximo para exercermos as virtudes do Espírito Santo em nós. Estou me referindo agora àquelas virtudes mencionadas há uns três ou quatro parágrafos atrás e que só poderão ser concretizadas na Igreja e por meio da Igreja, porque elas são fruto do Espírito Santo (Gl 5:22–23)! Por isso, as virtudes humanas, ainda que urgentes e necessárias no convívio social, só serão levadas em conta por Deus, quando, por causa de Cristo, elas forem finalmente levadas pelo Espírito Santo à glória de Deus. Biblicamente, isso só é possível mediante à regeneração Soberana operada de modo monergístico pelo próprio Deus. Sim, Jesus julga o mundo, mas o faz pela Igreja que proclama a todas as nações que o Reino chegou e que esse Reino tem Rei e Ele voltará! Quem crer nessa mensagem e se arrepender de seus pecados será salvo, senão já está julgado.
Definitivamente, o Estado não pode se tornar uma só carne com a Igreja. E a história é repleta de exemplos de como esse adultério entre a Igreja e o Estado causou mais danos do que bênçãos. A Igreja não é o Estado. As razões da Igreja são celestiais e eternas. As razões do Estado são terrenas e finitas. “Rainha Margot”, de Alexandre Dumas, exemplifica muito bem o dano causado ao testemunho do Evangelho quando a Igreja cede às razões do Estado. O romance de Dumas é uma história ficcional a partir de eventos e personagens históricos. O livro começa na trágica “noite de São Bartolomeu”, evento que se mostra arquitetado pela mãe do Rei da França, que não aceitará um protestante assentado no trono. Assim, após o casamento entre Henrique de Navarra, Rei protestante, e a jovem Margarida, católica, deflagra-se uma traição sem precedentes na história. O que deveria ser um marco para selar a paz e trazer concórdia às guerras sangrentas entre os dois grupos torna-se uma noite de emboscada contra os protestantes. Na França, os protestantes, chamados de huguenotes, foram assassinados por todo o país, num número entre 5.000 e 30.000 mortos. Números que, dependendo das fontes, chegam a ultrapassar os 100.000 mortos.
A trama de Dumas transcorre desde os momentos imediatamente anteriores à noite de São Bartolomeu, que foi a data de 24 de agosto de 1574, e segue pelos próximos dois anos seguintes. A mãe do Rei Carlos IX, Catarina de Médici, é mostrada como a grande personagem manipuladora dos eventos e, principalmente, como aquela que arquitetou o massacre. Nos anos seguintes, ela persevera de plano em plano para destruir seus inimigos, principalmente Henrique de Navarra. Dumas mostra como que, a despeito do contexto de “guerra religiosa cristã”, os personagens estão mergulhados em superstições e feitiçarias pagãs. Estamos no século da Reforma Protestante, mas também estamos no século de Nostradamus. A própria Catarina recorre ao boneco vodu e outras práticas mágicas para eliminar Henrique. O lado protestante não é melhor do que isso, infelizmente. Por exemplo, basta uma visão sobrenatural para que um dos personagens interprete que deve se converter ao catolicismo. Aliás, o próprio Henrique de Navarra, para garantir a paz para a França, “converte-se” ao catolicismo. Uma conversão, até hoje, vista como estratégica para trazer paz ao Reino da França. Uma decisão tomada mesmo após o massacre covarde de seus irmãos huguenotes (ou por causa do massacre?). Aqui, numa decisão como essa, vemos o quão pueril e sujeita aos caprichos do coração ou às razões do Estado pode estar a convicção religiosa.
A personagem principal, a Margarida — a Rainha Margot do título — funciona como aquela que segue descobrindo a trama de traição arquitetada por Catarina durante a história. Sua personagem também carrega o envolvimento amoroso com La Mole, um jovem protestante. Na vida real, Margarida ficou conhecida por ter tido inúmeros amantes, mas Dumas retrata esse caso amoroso como o romance trágico da Rainha. La Mole se torna o melhor amigo de Cocunás, que, durante a narrativa do livro, desenvolve seu amor também trágico por Henriette, a Duquesa de Nevers. A amizade entre Cocunás e La Mole é bem representativa do ideal de amizade cavaleiresca do romantismo. A fidelidade e o amor de Cocunás por La Mole pode soar hoje (e talvez tenha sido interpretado por muitos) como um sentimento homoafetivo. Entretanto, essa interpretação seria um desconhecimento desses ideais de amizade presentes nos romances de cavalaria, portanto, tal interpretação não procede.
“Rainha Margot” é um livro fascinante e muito bem escrito. Duvido que hoje haja tramas tão ricas de personagens e desenvolvidas tão bem como li nesse livro. Contudo, a trama de conspiração, mentiras, traição e corrupção fez-me pensar na triste Cidade dos homens, sob quaisquer formas de governo que estejamos, e a ansiar a plenitude da Cidade de Deus. Um ponto final que gostaria de deixar para o futuro leitor de “Rainha Margot”: é na oposição às tramas de Catarina que vemos patentemente manifesta a Providência divina.
PS — Uma última reflexão sobre como Jesus já está julgando o mundo. Toda vez que, aos domingos, eu me dirijo ao culto com meus irmãos, na Igreja Local, penso em outros tantos de milhares de irmãos que também saem de suas casas, porque acreditam no Deus de sua salvação. São milhares de cristãos, a cada domingo, proclamando em culto solene de adoração pública, a festa da ressurreição dAquele que nos salvou e santifica. Aqueles que não festejam, porque não acreditam, são como os egípcios atormentados pelas pragas. Já o povo de Deus, ao contrário, sai para festejar no deserto ao Deus da sua libertação. Assim, vejo o domingo, cada domingo, como o anúncio do Dia do Senhor, o Dia da Justiça do meu Deus! A justiça já veio, mas ainda não. Prepare-se!
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