segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O sorriso escondido de Deus

    


    John Piper, em seu livro “The Hidden Smile of God: The Fruit of Affliction in the Lives of John Bunyan, William Cowper, and David Brainerd”, Crossway. 2001. Edição do Kindle, escreve sobre 3 cristãos que foram forjados por suas experiências dolorosas. Ele os chama de cisnes, porque os cisnes cantam antes de morrer.

    O primeiro é John Bunyan (1628-1688). Já pastor e bem conhecido por seus livros, viúvo e agora casado pela segunda vez com Elizabeth, Bunyan foi preso numa época de conflitos religiosos e políticos em que não se podia pregar sem a autorização do Rei Carlos II. Por isso, Bunyan foi preso por 12 anos! Contudo, foi numa segunda prisão, que durou 2 anos, que ele começa a escrever "O peregrino". Para Piper, as experiências de perda, luto e prisão de Bunyan, são um modelo para os cristãos que sofrem, pois foram nessas condições adversas que Bunyan cresceu e desenvolveu sua fé. Um modelo, portanto, de como vivenciar experiências adversas para crescer na fé.

    O segundo cristão trazido por Piper é William Cowper, autor do hino "God moves in a mysterious way", com o qual ele abre seu livro com um trecho desse poema. Exatamente, o trecho que nos mostra a razão do título do livro de Piper: “Judge not the Lord by feeble sense, But trust him for his grace;  Behind a frowning providence  He hides a smiling face”. Suas poesias e músicas refletem muito de suas lutas contra a depressão. Como ter fé em momentos tão difíceis assim? As crises de Cowper iam e vinham e assim permaneceram até o dia da sua morte. Cowper enfrentou uma depressão profunda aos seus 21 anos de idade. Suas batalhas mentais foram terríveis, a ponto de Cowper tentar suicídio. E sua tentativa de suicídio não foi brincadeira, ele tentou suicídio de três maneiras diferentes! Por causa disso, colocam Cowper num hospício. Mas Cowper, durante sua internação, encontra a Bíblia e é na história de Lázaro que ele encontra misericórdia de Deus para enfrentar suas lutas. Em outras palavras, as crises mentais são oportunidades para o nosso crescimento espiritual. Um outro ponto essencial na história de Cowper é sua amizade com John Newton, que foi compositor da conhecidíssima "Maravilhosa graça". Os poemas de Cowper refletem suas lutas e o anseio por Deus em meio às tempestades mentais que ele enfrentava. Todavia, Piper ressalta que precisamos compreender a biografia de Cowper debaixo da Soberania e graça de Deus. A depressão é uma doença que nos lança ao profundo poço de uma escuridão dentro de nós mesmos. Contudo, ficarmos lá não é a solução. A vida de Cowper nos mostra que, pela graça de Deus, sair de onde estamos, buscar amizades saudáveis, importar-se com o outro, auxiliado por Deus, são atitudes corretas para enfrentarmos tais desafios. Cowper namorou durante sete anos, mas o pai dela proibiu o casamento ás vésperas. Evidentemente, muito dos males mentais de Cowper derivaram disso. Mas, além de sua poesia, há muitos outros aspectos da vida de Cowper com os quais me identifiquei.

    O 3º e último cristão trazido por Piper é David Brainerd. Piper traz muitos mais detalhes sobre a biografia de Brainerd do que o livro "A vida de David Brainerd", de Jonathan Edwards. Ficamos sabendo de mais detalhes, por exemplo, sobre sua família, que, nas palavras de Piper, já tinha inclinação para a melancolia, e também sobre o problema que o levou a ser expulso da Universidade. Piper mesmo se questiona, olhando o movimento moderno de Missões, se esse teria ocorrido caso Brainerd não tivesse sido expulso da Universidade. Esse tipo de especulação de Piper revela seu objetivo com a piublicação de seu livro.

    John Piper, apresenta em seu ministério uma teologia cujo cerne defende que a verdadeira felicidade e contentamento na vida cristã vêm de deleitar-se em Deus. Todavia, o que mais me assombra em um livro que defende a Soberania de Deus nas mais terríveis adversidades de seus servos é que, apenas 5 anos depois de sua publicação, vê seu autor acometido por um câncer de próstata. Não há como não se surpreender com um Deus que vinha preparando Piper para quando ele também enfrentasse a sua própria adversidade. A verdadeira felicidade sempre residiu em buscarmos viver uma vida para a glória de Deus, independente do que estivéssemos enfrentando. A felicidade, e podemos constatar isso nos “cisnes” de Piper, não está nas coisas mundanas. Buscar o sorriso de Deus é o que sustentará nossa fé, dando-nos a estabilidade emocional e o descanso que precisamos em momentos adversos.

                            Fábio Ribas

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