Quem foi David Brainerd? Em onze capítulos, organizados e comentados por Jonathan Edwards, livro publicado pela Editora FIEL, em 2012, 322 páginas, na verdade, é a reedição de um clássico. Iniciamos uma jornada espiritual de um jovem que se dedicou fervorosamente a ter uma vida para a glória de Deus. A vida devocional de Brainerd é acompanhada, de forma impressionante, em seu diário. Os embates que ele tem consigo mesmo são impressionantes.
Brainerd é fruto daquela geração forjada e impactada no Primeiro Grande Despertamento dos Estados Unidos (1730 - 1740). Sua vida foi muito curta, ele falece aos 29 anos de idade, no dia 09 de outubro de 1947. Seu ministério como pastor ordenado é curto e sua atuação missionária entre os indígenas é ainda mais breve. Contudo, assombrosamente impactante para todos os que o ouviram pregar, não somente indígenas mas muitos colonos também, este rápido “cometa” brilhou a beleza de Deus a todos que o viram passar. Brainerd viveu numa época em que, para que se pregasse a Palavra de Deus, só com autorização e licença dada mediante avaliação de um corpo de pastores. Hoje em dia, “qualquer um” é chamado ao púlpito, para desfilar suas “impressões” acerca do que leu.
O livro começa com o prefácio e a nota introdutória escritas pelo Jonathan Edwards. Logo no inicio, Edwards nos chama a atenção para aquilo que ficará evidente durante toda a leitura do diário:
"Há uma coisa facilmente discernível na vida de Brainerd, que por muitos pode ser considerada uma objeção às evidências extraordinárias de sua religiosidade e devoção, a saber, que ele era, por sua própria constituição e temperamento natural, muito inclinado para a melancolia e desânimo de espírito".
Certamente, estas melancolia e desânimo seriam hoje diagnosticados por “depressão”. Durante todo o diário, vemos suas lutas contra si mesmo nesse aspecto de sua saúde mental e as sempre recorrentes dores no corpo. Com tudo isso, mesmo assim, vemos um servo do Senhor disposto a levar a mensagem do Evangelho aos pagãos do seu tempo. Sua força espiritual, dada por Deus, revela-se na sua perseverante e verdadeira vida de oração. Nesta, destaca-se ainda mais sua vida de intercessão. Sua preocupação com os indígenas, com a igreja, com até mesmo os inimigos do evangelho e de seu ministério, por tudo isso Brainerd intercedia em fervorosa oração. A visão diferenciada e verdadeiramente dedicada de Brainerd revela-se até no seu empenho de sustentar financeiramente a formação de novos pregadores e missionários, a partir do próprio bolso.
Particularmente, no cap. 5 e 6, há muitas notas sobre sua abordagem evangelística e, até mesmo, uma sensacional carta sobre como ele pregava aos indígenas. E ela é um maravilhoso exemplo de comunicação contextualizada e preocupada com o interesse do aprendizado do outro. Principalmente no cap. 6, vemos sua saúde piorar. Nos capítulos seguintes, depois de toda sua labuta e lágrimas, aprouve a Deus que ele pudesse ver os frutos e a colheita de seu trabalho. O que ocorreu naquele ministério foi um verdadeiro derramar do Espírito Santo em quantidade avassaladora, como que comportas tivessem sido abertas no céu.
Os testemunhos de conversão dos indígenas, narrados em seus diários, só mostram como que o verdadeiro Evangelho das doutrinas da Graça prevaleceu! As mesmas lutas que vemos quando da conversão do próprio Brainerd, encontramos nas conversões dos indígenas: a profunda percepção da corrupção do coração humano e a total impossibilidade de querermos a Deus por nós mesmos. Aliás, um dos momentos mais marcantes do livro, foi a conversão de uma indígena que, como fruto de seu reconhecimento e agradecimento por sua salvação, iria até mesmo ao inferno, caso assim Jesus ordenasse. As conversões do livro lembraram muito o impacto que eu tive com a conversão e a perseverança de muitos indígenas na minha própria jornada. Tais experiências sempre me levam a testemunhar a muitos pastores e missionários que “eu conheci indígenas muito mais crentes do que os membros não indígenas que vocês têm em muitas de suas igrejas”.
Outra ideia impactante de Brainerd e que eu nunca havia pensado desta maneira é quando ele reflete sobre Deus não precisar dele para fazer a obra. O que eu achei sensacional é a maneira como ele pensa sobre isso. Explico: Deus decretou os fins e também os meios para se alcançar esses fins, inclusive, para alguns casos, segundo Brainerd, Deus pode ter decretado como “meio para se alcançar um fim” exatamente não ter “meio” algum. Brainerd entende que Deus decretou que os indígenas seriam discipulados, mesmo que Brainerd não pudesse mais permanecer no meio do povo para continuar a obra. Deus poderia, na verdade, ter dispensado ele como “meio”. Achei isso sensacional! Em outras palavras, Deus não precisa de você. Mas, se Deus, colocou você ali, então, nossa responsabilidade só aumenta. Por outro lado, caso Deus tenha dispensado você de algo específico ou pontual, lembre-se: a obra pertence a Ele, Ele é o dono da obra, portanto, descanse na certeza de que Aquele que começou a boa obra haverá de terminá-la!
A morte dele é assombrosa! Uma morte que não é uma passagem, mas um profundo anseio que ele sempre expressou, e que, finalmente, a recebe como resposta de suas orações. Um livro fundamental e que me faz pensar: e se eu o tivesse lido naquele fim de década de 1990? O que teria sido diferente na minha caminhada, pois, indubitavelmente, eu sei que eu sou os meus livros e as minhas circunstâncias.
Fábio Ribas
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