Já ficara encantado com o prefácio, datado de 1917, de Domingos Ribeiro. A escrita deste parece, até mesmo, anunciar o tom que leríamos a seguir, contudo, vindo da pena de Jean Crispin. Domingos Ribeiro faz um resumo do que leremos a seguir e, também, um apelo: como que histórias como essa podem ser tão desconhecidas da própria Igreja Evangélica no Brasil, ao que, então, ele pergunta pelo que se interessaram em contar essas histórias, pesquisar os documentos e escrever?
Essa história, para mim, tem um sabor todo especial, porque fiz seminário para ser padre, minha formação foi católico romana. Quando ouvi essas histórias, pela primeira vez, foi no ano de 1995, quando sequer eu era crente ainda. Um missionário evangélico me contou sobre os huguenotes da Baía de Guanabara e sobre Pedro Poti, que veio depois. Por essas e tantas outras razões, sempre que posso, compartilho essas histórias desde lá. Porém, nada se compara à narrativa escrita por Jean Crespin.
“A tragédia da Baía de Guanabara”, de Jean Crespin, apesar de ser uma história tão conhecida e, por mim mesmo, tantas vezes recontada, tem um colorido e um tom impressionantes. Estou impactado com a narrativa e os detalhes assombrosos que desconhecia. A grande informação nova para mim, por exemplo, é que Villegagnon já veio para o Brasil debaixo do engano que ele mesmo perpetuou: ele queria enriquecer, mas vendeu a ideia de que aqui seria um lugar de refúgio para os perseguidos da fé protestante. Para encarar a empreitada, ele reuniu dois grupos. O primeiro, de protestantes:
Para colimar o seu fim, só lhe restava encontrar gente fiel, de boa vida e educação, a fim de habitar com ele no Brasil; e eis porque fez publicar por toda parte que precisava de pessoas tementes a Deus, pacíficas e boas, pois bem sabia que lhe seriam mais úteis do que quaisquer outras, em virtude da esperança que tinham de formar uma congregação cujos membros fossem votados ao serviço divino.
O segundo, de trabalhadores assalariados:
Era-lhe também indispensável assalariar trabalhadores e operários de todas as profissões, mas com muita dificuldade e mediante grande remuneração pôde encontrá-los, e isto mesmo entre gente rústica, sem a mais leve noção de honestidade e civilidade, impudica, dissoluta e dada a toda a sorte de vícios.
No segundo grupo, olha o detalhe da nota de rodapé: "Claude Haton, em suas Memorias (edição Bourquelot, pag. 17) diz: "Com permissão do rei, Villegagnon visitou as prisões de Paris para ver os prisioneiros que lhe podiam ser úteis".
Pelo que eu pude entender, depois de ser o pivô e aquele que tumultuou a cabeça de Villegagnon contra os genebrinos, Cointac retorna no barco para a Europa, enquanto 5 dos passageiros precisam retornar ao Brasil para que a embarcação não perecesse com todos. Principalmente, as questões por Villegagnon e Cointac levantadas foram sobre os sacramentos da Ceia e do Batismo, mas, na verdade, Villegagnon já estava “tomado pelo diabo”. Dali para frente, Villegagnon só mergulha ainda mais em suas próprias loucuras de perseguição.
Porém, eu fui tão envolvido pela escrita de Jean Crespin, que, ao chegar na já tantas vezes lida Confissão da Baía de Guanabara, eu chorei. E talvez, pela primeira vez, a li com muita reverência, envergonhado de mim e da minha geração.
Fábio Ribas
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