quarta-feira, 22 de maio de 2024

Contextualização (XIX/2024)


A verdadeira contextualização do evangelho ocorre na igreja, e não no mundo. Não é obra de homem, mas sim de Deus - Nicholls

O livro “Contextualização — uma teologia do evangelho e cultura”, de Bruce J. Nicholls, foi escrito no ano de 1979, sua primeira edição em português ocorreu em 1983, mas sua edição revisada só surge em 2013. É isso mesmo? Como que uma obra importante como essa para a vida missionária da Igreja demora tanto a ser reapresentada? Talvez porque seja uma obra crítica em relação aos movimentos de contextualização. Vejamos.

A discussão do livro parte de uma constatação que é importante que a igreja tome consciência. O autor escreve que “alguns se preocupam tanto com a preservação da pureza do evangelho e das formulações doutrinárias dele decorrentes que se tornam insensíveis aos padrões de pensamento e comportamento culturais das pessoas às quais proclamam o evangelho”. E continua na sua justificativa afirmando que “alguns não têm tido consciência de que alguns termos, tais como Deus, pecado, encarnação, salvação e céu, provocam impressões na mente do ouvinte diferentes daquelas que produzem na mente do mensageiro”. E é a constatação de fatos como esses que motivou os estudos atuais sobre contextualização. A Igreja não pode esquecer que ela se encontra como uma “tradutora” entre culturas: há uma cultura bíblica (na verdade, a Bíblia apresenta muitas culturas em interação e em conflito), há a cultura do mensageiro, há a cultura do ouvinte, mas, com a globalização, há muito mais culturas se encontrando e se estranhando no campo do que possamos imaginar.

Além disso, a discussão entre o que é a cultura do mensageiro e o que é a cultura do evangelho é sempre recorrente e faz parte da origem dos danos causados por quem não reflete antecipadamente sobre isso. Todavia, na ânsia de se buscar soluções para os erros cometidos na história, muitas vezes, o campo missionário viu a contextualização ser usada como uma ferramenta para se difundir a idolatria, o sincretismo e uma contextualização antropocêntrica, sendo todos extremamente nocivos. Sobre esta mentalidade nociva, a pergunta de Donald McGravran revela-se como exemplo do que estou dizendo aqui: “Por que algumas pessoas resistem ao evangelho mais do que outras?”. É uma pergunta extremamente perigosa, pois dá a entender que a resposta correta é o que fará com que os resistentes se abram à conversão. Talvez um dos maiores problemas do campo missionário é que muitas das estratégias propostas foram e são pensadas em bases teológicas diversas e conflitantes, sejam as do mensageiro no campo transcultural ou até a do autor que aqui escreve. É uma pergunta que parte do “fracasso” medindo-o na resposta ao evangelho apresentado. É possível fazer essa pergunta de uma maneira diferente? Sim. “Por que alguns missionários não se preparam responsavelmente para o desafio do campo transcultural?”, esta é uma pergunta que, por sua vez, não direciona o foco para o sucesso e o fracasso da apresentação do evangelho, medindo-o pelos resultados obtidos. A nova pergunta que proponho é voltada para o missionário como aquele que precisa ser responsável diante de Deus fazendo tudo para a glória dEle, inclusive no que tange o seu preparo bíblico, teológico, missiológico, antropológico e linguístico.

O livro de Nicholls acerta, principalmente, num raio-X dos exageros do movimento de contextualização. Eu concordo com o autor quando ele justifica a contextualização, porque “ há aspectos de cada cultura que não são incompatíveis com o senhorio de Cristo e que, portanto, não precisam ser confrontados nem descartados, mas, pelo contrário, preservados e transformados”. Ou, usando expressões mais apropriadas: aspectos que necessitam ser redirecionados e santificados. Essa distinção na cultura alvo é a primeira barreira que precisa ser enfrentada pelo missionário no campo. Outra barreira que Nicholls apresenta e que eu também vi ocorrer nestes anos de campo é que, muitas vezes, a apresentação do missionário no campo se dá por meio de formas culturais estrangeiras, uma didática estrangeira, um método próprio da cultura do missionário que, sem a menor crítica, é aplicada sobre pessoas que ensinam e aprendem de uma forma diferente daquela do mensageiro. É preciso contextualizar a apresentação do evangelho, para isso, é preciso que o missionário estude a cultura do povo, sua língua e cosmovisão.

É necessário que o mensageiro esteja lá e conviva com os ouvintes. “O chamado a uma sensibilidade maior na comunicação transcultural é um chamado à paciência em compreender as pessoas; à humildade ao seguir a trilha do discipulado e um chamado a se engajar com amor nas realidades da vida cotidiana das pessoas. É ter a mente de Cristo, que renunciou a sua glória e posição, identificou-se com as pessoas em sua humanidade e foi um servo sofredor até a morte”.

Mas o que é cultura? Embora o autor apresente inúmeras definições, ele parte da ideia que cultura é um enredo para a vida e que qualquer comunicação transcultural eficaz deve levar em conta esse enredo, que é um macrocosmo do homem espiritual, diz Nicholls. A comunicação transcultural “envolve a totalidade do ser humano no contexto da cultura”.

Em relação a Nicholls, tive dificuldade com seu conceito de “supracultural” para designar realidades de âmbito espiritual, que teriam sua origem fora da cultura humana. Além de ser uma ideia equivocada tratar a realidade espiritual como um elemento “de fora” (embora o Evangelho seja supracultural, mas ele não é apenas isso), ao meu ver, toda a cultura é regida, sustentada e refletida a partir da sua própria espiritualidade. Para mim, toda cultura é religiosa e arraigadamente espiritual. A reboque desse conceito de “supracultural”, Nicholls apresenta uma estranha ideia de batalha espiritual que, para mim, é puro maniqueísmo: acima de toda cultura há uma batalha entre o bem e o mal, entre o Reino de Deus e o Reino de Satanás. Usar estas lentes é devastador para um trabalho missionário. Então, neste ponto, que é um ponto importante para Nicholls, eu discordo. Não posso ver as culturas humanas como peças num tabuleiro de xadrez em que os oponentes que as disputam são Deus e o diabo. O mundo não é uma “arena de batalha entre o reino de Deus e o reino de Satanás”, mas, antes, Satanás não tem mais reino algum, ele foi derrotado e a missão da igreja é anunciar que na cruz o diabo já foi destronado, derrotado, julgado, condenado e que a história da Igreja é o anúncio da chegada do Reino de Deus! Por isso, o Reino de Deus avança na proclamação da Igreja e isso, evidentemente, suscitará a reação do inimigo derrotado, mas ainda não eternamente encarcerado com todos os seus anjos e seguidores.

Nicholls acerta em cheio quando afirma que “a Palavra de Deus muda a direção da cultura e a transforma” e que é na Igreja plantada no meio do povo que devemos esperar as mudanças culturais: “onde Cristo é verdadeiramente Senhor de sua igreja o enredo cultural para a vida de seus membros será diferente do enredo da comunidade mais ampla”. As igrejas locais, independente de quaisquer culturas em que estejam inseridas no mundo, devem refletir tanto a universalidade do evangelho quanto a particularidade do ambiente humano.

O estilo de vida da igreja cristã da Índia, por exemplo, terá qualidades características que serão semelhantes às qualidades de uma igreja cristã de qualquer outro país. Ela manifestará o fruto do Espírito e, ao mesmo tempo, será uma igreja verdadeiramente indiana liberta da cosmovisão, dos valores e dos costumes do hinduísmo que são contrários ao evangelho — Nicholls

Concordo com Nicholls quando ele afirma que “a Bíblia reconhece a prioridade do indivíduo, mas faz do grupo social — a família — a unidade básica da sociedade”. Na nossa relação com as culturas devemos levar em consideração que o evangelho é uma chamada ao relacionamento com Deus e com a Igreja de pessoas que não eram povo e nem filhos de Deus. Há uma dimensão estética nas culturas e o missionário deve estar atento a isso, uma vez que fomos criados à Imagem de Deus e ele deu aos homens o dom criativo.

Todavia, um outro ponto polêmico em Nicholls é um resquício de “fator melquisedeque” (leia aqui) na sua antropologia missionária, não apresentando as distorções que encontramos nas culturas como “pré-preparativos” para ouvir e receber o evangelho. O erro aqui é termos nas culturas “analogias salvíficas” que seriam o “evangelho em gestação” aguardando apenas o “link” do missionário. A verdade é que o Evangelho é totalmente outra coisa do que se possa ter em quaisquer culturas do mundo. A despeito de termos a semente religiosa e o desejo da espiritualidade em todas as culturas do mundo, e ainda que tenhamos pontos de contato em histórias, mitos e ritos nas culturas ao redor do mundo, nada pode ser uma preparação para aquilo que é totalmente inédito, uma vez que vem de Deus e é supracultural, o Evangelho é Jesus! Assim, nesse sentido, o Espírito Santo não está nas culturas preparando os homens para receber o evangelho, até mesmo — e isso precisa ficar muito claro — o evangelho não está lá, a ordem da salvação não é essa. Os homens estão totalmente perdidos e jamais chegarão ao verdadeiro conhecimento de Deus, o Deus bíblico. Entretanto, os eleitos receberão a palavra do missionário — a apresentação do evangelho — e, aí sim, o papel do Espírito Santo é convencer os eleitos da verdade, da justiça e do juízo, a partir da Palavra que foi proclamada a eles. Então, salvífica e especialmente, Deus não está agindo nas culturas fora da Igreja missionária. A chegada da Igreja missionária numa cultura é a chegada do Reino, tanto para a salvação dos eleitos como para a condenação dos rebeldes.

Uma outra palavra que eu não gostei no livro é “indigenização”, para se referir a igrejas que são autogovernadas, autossustentáveis e autopropagadoras. Ainda que não queiram que essa palavra nos remeta à palavra “índio”, remete. E não fica nada bom dizer que igrejas asiáticas estão sendo indigenizadas. Que palavrinha ruim! Qual surgiu no lugar? “Contextualização”.

Assim, se no capítulo primeiro fomos apresentados a vários conceitos sobre “cultura”, agora, no segundo capítulo, passamos a ser apresentados aos conceitos de “contextualização”. E é aqui, nesse capítulo, que vemos a contextualização ser usada como cilada para enquadrar os cristãos no trabalho ecumênico e universalista. Um verdadeiro escândalo e desastre. Sob a desculpa de reagir ao imperialismo e ao colonialismo teológico, os contextualizadores fizeram concessões absurdas ao liberalismo e ao marxismo, transformando o trabalho missionário em qualquer outra coisa menos evangelização, ensino e discipulado acerca da obra salvífica de Cristo. Autores como Von Allmen são citados no livro e só revelam a miséria do trabalho infeliz de muitos que usaram a contextualização para alcançar o fim que queriam de rebeldia e revolução:

…o florescimento de uma teologia verdadeiramente africana pressuporá uma situação de tábula rasa, ou seja, o surgimento de uma teologia despida das teologias existentes, especialmente das ocidentais. Ele (Von Allmen) conclama os africanos a terem consciência do valor que a sua cultura tem “em si mesma, e não apenas apenas do seu valor relativo”, para que uma teologia africana verdadeira venha a nascer”— Von Allmen

Seguindo a citação acima, o evangelho passa a ser mais uma história em meio a tantas outras. O ES está agindo em todas as culturas e o evangelho e a igreja são apenas mais uma dessas comunidades de fé no propósito salvífico de Deus. Que desastre tudo isso! E imaginar que encontros e mais encontros de igrejas em todo mundo foram feitos para que esse liberalismo e revolução seguissem adiante. A lista de “pensadores criativos” só tem gente da TMI (Teologia da Missão Integral) e da TL (Teologia da Libertação), que hoje ainda são apresentados em cursos dos mais diversos nomes como, por exemplo, “Teologia contemporânea” e afins. Uma tristeza! Um desastre ao verdadeiro evangelho de Cristo. Uma vergonha!

O trabalho de contextualização foi usado no século XX, e ainda hoje é usado, para espalhar as sementes do liberalismo teológico, do ecumenismo, da revolução marxista e do sincretismo e quais as mentes brilhantes e criativas disso na América Latina? Vou dizer: René Padilha, J. Miguez-Bonino, Gustavo Gutierrez, Orlando Costas, Emílio Castro, Hugo Assmann, Rubem Alves, entre outros. Leia o segundo capítulo deste livro e fique de cabelo em pé com o que fazem sob a égide da “missão da Igreja”. Um antro de heresia! Sinto dizer, mas, muito do trabalho missionário que surgiu sob a bandeira de Lausanne é demoníaco! Por isso, todo cuidado e filtro são poucos, quando se trata de aceitar tudo o que hoje nos vêm sob a alcunha de “missões”. Leia também o meu ebook, lançado na Amazon: “Escritos contrarrevolucionários”.

No capítulo 3, retornamos com a ideia do “pré-entendimento do evangelho”, mas como ponto de contato e não como “prévia preparação”. Todavia, há uma maneira correta de usar o fator cultural para a apresentação do evangelho, assim como há uma maneira incorreta e que leva ao sincretismo. E esse é o assunto abordado nesse terceiro capítulo. E é aqui também, nesse terceiro capítulo, que encontramos a reavaliação de toda essa confusão que vimos muitos teólogos e missionários fazerem com a contextualização. Um capítulo maravilhoso falando sobre como Deus usou a cultura dos judeus para transmitir fielmente a sua Palavra. “Jesus Cristo nasceu judeu, e é uma afronta à soberania divina falar de um Cristo negro ou de um Cristo indiano ou italiano”, acertadamente afirma Nicholls.

Deus, em sua soberania, escolheu a cultura semítica dos hebreus por meio da qual revelou sua Palavra. Se tivesse escolhido uma forma cultural chinesa ou indiana, o conteúdo da Palavra teria sido diferente, visto que mudar radicalmente a forma, que traz consigo uma cosmovisão e um conjunto de valores próprios, é mudar o conteúdo. Do mesmo modo o Deus encarnado assumiu a forma de filho e não de filha. Aqueles que vivem em uma cultura religiosa na qual deusas amorais são adoradas e práticas culturais místicas são associadas à adoração de uma Mãe Divina compreenderão por que Deus não se revelou como uma filha — Nicholls

Ainda que haja uma ou outra discordância com o autor aqui e ali, mas, sem sombra de dúvida, é um livro importantíssimo para a sala de aula em nossos cursos de contextualização e missões. Um livro que abre o véu e mostra tudo, tanto o inferno como o céu da contextualização missionária.

                Fábio Ribas

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