terça-feira, 14 de maio de 2024

Guerra de Palavras (XVIII/2024)


“Deus fala”! Esta frase simples expressa uma profunda verdade! Deus nos criou à sua imagem e semelhança, Ele fala, então, nós falamos também! Somos os únicos na criação que falamos. Falamos conosco e com o outro, mas também podemos falar com Deus! Todavia, por que não falamos com Deus (ou, quando nos dirigimos a Ele, não sabemos falar como convém? — Rm 8:26–27). Por que usamos a nossa fala para mentir e manipular o nosso próximo? Por que mentimos a nós mesmos falando coisas que sabemos não são verdadeiras? Há um problema profundo em nossa fala!

Paul David Tripp escreve crendo que o Evangelho de Jesus tem poder para transformar nossa comunicação. “Deus fala”! E desperdiçamos nossa oportunidade de nos aproximarmos e conversarmos com Deus! Jesus é a Palavra de Deus: Ele é o Verbo! (Jo 1.1). Toda nossa comunicação depende dAquele que é comunicação desde a eternidade: o Deus Triúno — o Pai, o Filho e o Espírito Santo — o Deus que sempre se comunicou perfeitamente consigo mesmo.

Uma dos pontos altos deste livro é que, após cada capítulo, ele oferece sempre um questionário, um “estudo dirigido”. Os questionários são pessoais, autoexames, para nos enfrentarmos e vermos honestamente como, onde e com quem temos falhado na nossa comunicação.

“Satanás fala”! E de que maneira Satanás fala? 1) Ele introduz uma interpretação errada, questionando a autoridade de Deus; 2) Ele conta uma mentira intencional, levando Adão e Eva a duvidarem do caráter Santo de Deus; 3) Satanás promove a Guerra de Palavras, assim, nós nos levantamos contra o nosso próximo e também contra o próprio Deus! Aqui, fica a questão: nossa comunicação nos leva a espelhar mais a Deus ou mais a Satanás? Se lançamos interpretações erradas, se mentimos e se guerreamos, estamos mais próximos de Satanás do que de Deus. Precisamos nos arrepender e nos refugiarmos na Graça do Deus que perdoa e nos santifica.

“A Palavra encarnada!” — Jesus é a Palavra de Deus! “Na Palavra encontramos esperança quando tudo parece desespero, riquezas quando nos sentimos pobres, poder quando percebemos nossa fraqueza, e governo quando tudo ao nosso redor parece sem controle” (Efésios 1: 15–23). O autor nos conscientiza de que precisamos de algo mais profundo que técnica, talento e conhecimento para resolver a raiz de nossos problemas de comunicação. Ninguém precisou nos ensinar a usar a nossa fala para o mal. Desde crianças — e há um momento em que o autor nos diz isso observando uma discussão entre seus dois filhos pequenos -, discutimos e brigamos e, mais do que isso, machucamos o outro com palavras. Temos um talento natural — de uma natureza totalmente depravada — de usar nossas palavras, desde a infância, para alcançar exatamente o que nossos corações irados desejam, lembra-nos Tripp. Somos seres profundamente egoístas e interessados em nós mesmos. Apenas! Quando queremos que “o universo conspire a nosso favor”, faremos e falaremos tudo o que for necessário para acuar Deus e os homens. Precisamos ser tratados e curados deste nosso coração feiticeiro. Mas como Deus trata nosso coração que usa as palavras para a manipulação do outro e de Deus e para submeter o mundo a nosso serviço? Deus, o grande orador, deu-nos a Palavra dEle para curar nossas palavras doentes. Só Jesus, a Palavra encarnada, pode restaurar a nossa fala para a glória de Deus! 

“O Deus que criou a fala e pela fala trouxe o mundo à existência, o Deus que usou palavras humanas para se revelar ao seu povo ao longo das eras, vem ao seu mundo como a Palavra, para pessoas que o abandonaram. Ele não é apenas um orador da verdade, Ele É a verdade, e somente nele há alguma esperança para nós. Somente na Palavra encontramos esperança para ganhar a guerra de palavras e falar novamente de acordo com o exemplo e o projeto do nosso Criador. A Palavra se encarnou porque não havia outro jeito de consertar o que está quebrado em nós”.

Nossa única esperança é Jesus. Jesus é a única esperança inclusive para os outros ou, sendo mais claro, eu preciso de Jesus para proteger as pessoas de mim! Já parou pensar assim? Que só Jesus pode proteger os outros de serem magoados, manipulados e dominados por nós? Enfim, o ponto mais importante aqui é o fato de que devemos reconhecer que estamos errados, ver em que estamos errados e, então, usar o poder de Deus — seu Espírito Santo em nós — para nossa transformação. O governo não é do acaso, nem meu, nem do Estado. O governo é do Rei Jesus. Que ele controle nossa fala para o serviço dele.

“Eu sou meu ídolo” e “Eu preciso de Jesus para proteger as pessoas de mim”! Assim, como consequência dessas duas verdades expressas por essas frases, nada mais natural do que o autor me tomar pela mão e fazer-me reconhecer que minhas palavras são palavras idólatras. 

“Os problemas com palavras revelam problemas do coração. As pessoas e as situações ao nosso redor não nos forçam a dizer o que dizemos; elas são apenas a ocasião para os nossos corações se revelarem em palavras”. 

A questão toda aqui que subjaz é poder. Quem tem poder sobre meu coração? Eu ou Deus?

“Jesus é o Rei”! Mas o que é ser Soberano? Falamos muito sobre a soberania de Deus, mas não conseguimos viver sob essa soberania nos detalhes da nossa vida. Decididamente, a minha conclusão é: uma boa teologia, bíblica, verdadeiramente crida e vivida de modo apaixonado, é a chave de tudo! O Rei quer nos levar a vivermos nossa “alta vocação”: usarmos nossas palavras para a glória dEle e para a edificação do nosso próximo!

“Por trás das circunstâncias há um Deus de amor que está trabalhando implacavelmente para nos tornar santos. O louvor que brota de corações de adoração é a única reação legítima a essas circunstâncias. Em vez de nos informar que Deus esqueceu de nós, as circunstâncias de nossa vida bradam que ele lembrou de nós e não nos deixará até que sua obra esteja completa! A compreensão real dessa verdade irá alterar muito o modo como falamos”.

“Seguindo o Rei pelos motivos errados” — você segue a Cristo por qual razão? Você tem fome de quê? Do pão físico ou do pão que Cristo (o da Bíblia) dá? Se temos fome de nossas necessidades, quando vermos que o pão que Jesus tem a nos oferecer é diferente do que esperávamos, faremos como as multidões e discípulos que abandonaram a Cristo? Ou reagiremos indignados de pedras na mão para atiramos em Jesus, por Deus não estar nos atendendo segundo a nossa vontade? Isto é sério e profundo.

“Falando em nome do Rei” resgata para a discussão o fato de que somos embaixadores de Cristo. Mas o que significa isso? Somos os olhos, ouvidos e boca do Senhor Jesus! Somos representantes do Rei onde quer que Ele nos tenha plantado. Temos uma mensagem — que é nossa missão. Mas não é só isso: “como”, isto é, o modo, a maneira, o método importa sim! Como falamos, nossas conversas, precisam espelhar a mensagem que trazemos. O fim disso, como representantes que encarnam a Cristo na terra, é que precisamos seguir o caráter de Jesus e não sucumbir às propostas fáceis do mundo e de nossa carne. Não é natural que oremos pelos nossos inimigos e que paguemos o mal que nos fazem com bem, portanto, precisamos confessar nossos pecados e também esta tentativa de representar a Cristo pela força do nosso braço. Não adianta! Ou dependemos totalmente do ES ou sempre nos veremos fracassados e sem crescimento espiritual. O livro nos confronta com a cosmovisão do evangelho: os sofrimentos e as perseguições que passamos são planejados por Deus com dois objetivos, a saber, tratar o nosso coração e dar testemunho aos nossos oponentes de que podemos resolver nossas diferenças no amor de Cristo!

“Chegando ao destino” apresentará atitudes que precisamos tomar na nossa vida: não ceder ao remorso, apossar-se da esperança do evangelho, examinar nosso fruto (“qual o fruto que tem sido produzido por sua comunicação?”), descubra suas raízes (pare de culpar sua família pelo mal que você produz hoje), busque perdão, ofereça livremente perdão, mude as regras (acerte com seu cônjuge que, toda vez que sua comunicação sair da linha, ele ou você tem o direito de erguer a mão e dizer que não foi assim que vcs combinaram), busque oportunidades redentoras para suas comunicações (exerça a sua alta vocação, que é glorificar a Deus e edificar o seu irmão com sua fala), escolha suas palavras, confesse suas fraquezas, e não dê oportunidade ao diabo.

“Cidadãos precisando de ajuda” — a Bíblia, principalmente o Novo Testamento, é insistente na palavra “mutualidade”. É imprescindível que a Igreja se ajude uns aos outros. A Guerra de Palavras, a vitória contra a minha fala ímpia, depende exclusivamente da ação do Espírito Santo na minha santificação. Contudo, quem me ajudará a lembrar sobre as promessas feitas por Deus na Palavra? A Igreja. A Igreja é, portanto, o lugar de confronto por excelência. Não sabemos como confrontar e isso tem destruído a vida de muitas pessoas. O que vemos por aí é o desejo de controlar, humilhar, manipular e se vingar — e, terrivelmente, isso tem sido a maneira como as pessoas confrontam. Mas para que serve o confronto? Para chamar o outro ao arrependimento e resgatá-lo para uma vida restaurada em que ele retorne ao projeto de adoração a Deus! Aquele que confronta não é melhor que o confrontado, pois ele só está nessa posição atualmente pela graça de Deus. Deus está nos chamando para ajudar os outros. “Somos auxiliadores precisando de auxílio!”. É o nosso chamado de todo dia — um chamado para todos na Igreja. “Sua visão (a de Deus) é nada além do que todos ministrando todos os dias”! Confronto é levar o outro à confissão dos pecados, ao arrependimento, mas também à perseverança e ao encorajamento à fidelidade até a vitória final.

“Na missão do Rei” — Qual a missão do Rei em que precisamos estar sintonizados e prontos a anunciá-la? A missão da reconciliação!

Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus — II Cor 5: 18–20.

Por isso, precisamos pensar de maneira redentora quanto aos relacionamentos que Deus têm trazido para nós. Deus quer nos usar em sua missão reconciliadora na vida dos outros!

“A única esperança para a nossa história é que podemos ser parte da história de redenção dEle. O único modo correto de abordar os eventos em nossas vidas é abordá-los de maneira redentora”.

“Primeiro o que é primário” — e o que é primário? O arrependimento! O verdadeiro arrependimento transforma o coração e transforma a vida. O nosso Deus oferece perdão, libertação, restauração, reconciliação, sabedoria e misericórdia. O primeiro passo para o arrependimento é aceitarmos humildemente o que a Bíblia diz sobre nós e ela diz que somos profundamente pecadores. Precisamos nos olhar no espelho da Palavra. Precisamos orar pelo fruto do ES em nós. Se queremos mudança em nossas vidas, precisamos lembrar quem somos, pecadores, e lembrar de quem Deus é do seu perdão.

“Vencendo a guerra de palavras” — O autor nos relembra que não estamos falando sobre vocabulário e nem técnicas, mas do controle dos nossos corações: precisamos “nos submeter ao Rei, descansar em seu controle amoroso e buscar representá-lo em nossos relacionamentos”. O ministério missionário não é um aspecto da nossa vida, mas um estilo de vida. Se queremos vencer essa guerra precisamos confessar que temos corações egoístas e perambulantes e nos comprometer com um novo modo de falar. Assim, o primeiro ponto é sabermos que palavras importam e elas podem ferir as pessoas. Aqui, o estudo é do texto de Gálatas 5. 13–6.2. 1. Vencer a guerra envolve o poder destrutivo das palavras; 2. Vencer a guerra significa afirmar a nossa liberdade em Cristo; 3. Vencer a guerra significa dizer não à nossa natureza pecaminosa; 4. Vencer a guerra significa falar para servir aos outros em amor; 5. Vencer a guerra significa falar de acordo com o Espírito Santo; 6. Vencer a guerra significa falar com um objetivo de restauração. Ele explica que vencer é uma jornada! Precisamos uns dos outros para alcançarmos esta vitória. Precisamos da Igreja!

“Escolhendo suas palavras” — o papel da Luella, esposa de Paul David Tripp, por todo o livro, fez-me lembrar de certa pregação do Rev Wadislau Martins Gomes, pregação ouvida entre 1995 e 1996, em que ele nos dizia, a partir do texto criacional de gênesis, sobre a diferença do papel do homem e da mulher como seres criados complementares. Lembro-me do Rev Wadislau falando sobre o papel da esposa, que é trazer o homem ao relacionamento com outros e não só consigo mesma. A liderança masculina, uma vez contaminada pelo pecado, tende a nos levar adiante, não ouvirmos conselhos, não querermos ser pastoreados, não darmos o braço a torcer, não nos arrependermos e voltar atrás. Assim, a mulher é chamada a nos fazer olharmos nos olhos dela, concentrar no outro, no ser humano, na relação afetiva. A esposa de Tripp, durante todo o livro, foi a ajudadora, aquela que ponderava, equilibrava e fazia-o “contar até 10”. E só assim iremos escolher sabiamente as palavras que devemos usar. Para isso, uma obra precisa começar primeiramente em nós: 1. precisamos confessar nossas necessidades a Deus; 2. Reconhecer a graça de Deus por mim; 3. precisamos dizer “não!” aos desejos e paixões de nossa natureza pecaminosa; 4. e agradecer a Deus pelo que ele está fazendo em nossas vidas e pela oportunidade de sermos usados para tratar outras vidas também. Enfim, precisamos nos despir do pecado e nos vestir de santidade, sabendo que, em nós, habita o Espírito Santo que luta em nós contra nossa carne e pela nossa santidade. SDG!

            Fábio Ribas

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