É um livro especificamente para leitoras. Durante a escrita, ela se dirige a mulheres e isso me fez ligar três alertas: 1) relacionamentos tóxicos vitimam homens também; 2) é um livro para reunir aquelas que, de algum modo, tiveram seu coração sacrificado no altar de um narcisista e, fragilizadas, se abrem para soluções de quaisquer espécie; 3) ela não assume sua responsabilidade pessoal naquilo que ela vive, embora, durante a leitura do livro, vemos que ela segue tomando decisões que a prejudicou. A responsabilidade, como já disse, sempre recai sobre a Bíblia, a Igreja e Deus. Por isso, não é de se estranhar que, no fim de tudo, a solução apareça sob a forma de uma espiritualidade que, mais uma vez, transfere para uma força impessoal tudo aquilo que ela sofre. A Bíblia insiste em dizer que você colherá o que você semeia. A Constelação familiar apresenta que você colhe o que outras gerações da sua família plantou.
Ela questiona a Bíblia, Deus e a Igreja várias vezes. Contudo, não vemos nenhuma vez que ela busque por aconselhamento bíblico! Por anos, ela segue tomando várias decisões e, quando vêm as consequências negativas, a culpa é sempre do “outro”. Como a Bíblia fala de submissão, ela coloca a responsabilidade de suas decisões equivocadas nesse ensino bíblico, porém, em momento algum, ela expõe que o mesmo texto que fala de submissão é o que também descreve o que uma garota cristã deve buscar num futuro marido: alguém que ame a esposa assim como Cristo amou a Igreja. E ela nunca busca um homem como esse. E, depois de tantas buscas erradas e sofridas sob a alegação de que a Bíblia ordena submissão, ela, finalmente, justifica sua grande união “eterna” com um homem descrente. Ela deveria buscar um homem que amasse mais a Jesus do que a ela. Mas não é isso o que ocorre. O que nos leva ao terceiro tema doutrinário/ideológico do livro: a doutrina espiritualista da constelação familiar.
Durante o livro, vemos a conversão da autora, mas nunca seu discipulado ou crescimento nas verdades bíblicas. Ela fala sobre Deus e igreja, mas, na maioria das vezes, para tecer uma crítica que só vai ganhando mais engajamento à medida que avançamos na leitura. Finalmente, ela chega ao ponto central: se a Bíblia a afastou do seu verdadeiro e eterno amor, agora, graças à crença comum entre ela e seu amado na constelação familiar, ela pode, enfim, se entregar e ser feliz na sua maturidade. Aqui, na terceira parte do livro, é que há uma mudança de chave. Cada vez mais, a palavra “Deus” vai sendo substituída por uma expressão que revela a verdadeira cosmovisão da autora. Ela passa a falar não mais em Deus, mas em “conspiração do universo”. A constelação familiar, como ela bem explica no livro, é uma experiência religiosa - mas para nos religar a nós mesmos e aos nossos antepassados. Um entendimento do mundo, do ser humano e de nossa natureza totalmente contrária ao cristianismo bíblico. E, por tudo o que ela diz, deveria saltar aos olhos do leitor(a) atento(a) que estamos diante de um gnosticismo, de um paganismo que nada tem a ver com cristianismo. O mais interessante é que a autora está sendo coerente com o que, desde o início do livro, ela vinha tecendo para nós. O cristianismo exige responsabilidade pessoal. A constelação familiar, não. O cristianismo exige que, ao olharmos para a Bíblia, haja arrependimento dos nossos pecados e reconhecimento de que há um Deus pessoal e não uma força impessoal que rege a nossa vida - não somos vítimas do que nossos pais ou gerações anteriores fizeram. A culpa não é da mãe! A Bíblia é clara em afirmar que os filhos não serão responsabilizados pelos pecados dos pais. A culpa é nossa e a Bíblia precisa ser enfrentada como um todo e não em partes.
Depois de toda uma jornada de escolhas erradas, vemos a autora encontrar um mestre que diga, então, o que ela gostaria de ouvir. Veja o que diz 2 Timóteo 4: 1-5.
Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas.
Fábio Ribas
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