Dizer que estou maravilhado é pouco. Já havia lido "Confissões", "Solilóquios" e "A Trindade". Livros arrebatadores! Qual não está sendo, contudo, minha surpresa com a profunda argumentação agostiniana neste "De civitate Dei"? Agostinho, neste "LIVRO I", inicia sua defesa contra as acusações de ser o cristianismo o responsável pela ruina dos romanos ("os antigos deuses romanos estariam enfurecidos por terem sido esquecidos"). Todavia, a sede de conquistar novos reinos, a luxúria, a devassidão moral de seus habitantes e a idolatria é que são, para Agostinho, a verdadeira causa da derrocada romana. Mas o que desperta essas acusações contra o Cristianismo?
Os bárbaros entraram em Roma. Entretanto, contextualizando melhor, esses "bárbaros", na verdade, são cristãos arianos (uma seita que não acreditava nem na Trindade e nem na divindade de Cristo). Por isso, eles poupam os cidadãos romanos que se refugiaram nos templos cristãos. Isto, indubitavelmente, é algo inédito. Agostinho mostra que nunca se vira um povo conquistador fazer esse tipo de misericórdia com o povo conquistado. Quando, antes, se ouvira falar de pessoas poupadas por terem se abrigado nos templos pagãos? Este é o início do argumento de Agostinho: o bem que o cristianismo trouxe ao Império Romano. Em outras palavras, estamos diante de um processo civilizatório. Mas, para mim, o mais extraordinário está por vir, que é toda a discussão de Agostinho sobre o suicídio das mulheres que foram estupradas pelo povo conquistador. Vamos entender.
Os pagãos estão acusando o Cristianismo de trazer a desgraça à Roma. Eles acusam indagando de que teria valido a conversão ao cristianismo e o abandono aos antigos deuses, se os males vieram tanto sobre pagãos como também sobre os cristãos? E é a partir disso que este gigante - Agostinho - começa a fazer uma teologia da história e da Providência. Se males vieram indiscriminadamente, também vieram bens sobre todos, defende Agostinho. Isto é o esperado na "Cidade dos homens", enquanto a "Cidade de Deus" não se revela completa e plena (o que só ocorrerá na volta do Senhor Jesus). Na Cidade dos homens, que está entrelaçada à Cidade de Deus, tanto males como bens ocorrem indiscriminadamente. Porém, o que se deve atentar não é isso, pois, para Agostinho, o que importa é a diferença no modo que cristãos e pagãos enfrentam seus males e bens. Tanto num quanto no outro, os homens se perdem. Os cristãos, defenderá Agostinho, enfrentam as adversidades da vida tanto para sua purificação, como para o testemunho da glória de Deus, pois os cristãos vivem na esperança de um mundo por vir e os pagãos não!
É no avanço do livro que descobrimos o que realmente seriam esses tais males. Os bárbaros que invadiram Roma pouparam os que se refugiaram nas igrejas, pouparam tanto a cristãos como a pagãos. E Agostinho joga na cara dos pagãos isto: Como que vocês se levantam contra o Cristianismo, se, durante a invasão dos bárbaros, vocês mesmos foram poupados por se refugiarem nas nossas igrejas? Ainda assim, os bárbaros fizeram aos outros o que era próprio das guerras: assassinaram, roubaram, estupraram. Diante do estupro, em Roma, era de se esperar que tais mulheres se suicidassem. Os Romanos justificavam essa prática (tanto o suicídio da mulher depois do estupro, como o suicídio para não enfrentar o estupro) com a história de Lucrécia, que fora violada e, depois, suicidara. Ela era o padrão dos romanos para suas mulheres. Agostinho irá trabalhar essa história de Lucrécia. Primeiramente, ele louvará as suas virtudes, pois ela se guardara casta num mundo libertino. Porém, uma vez estuprada, "Lucrécia mata Lucrécia". E por que ela faz isso? Agostinho trabalha principalmente a ideia da honra social, diante das pessoas. Mas as virgens cristãs também foram estupradas.
Diante do estupro, Roma esperava que as mulheres suicidassem, tanto as cristãs como as pagãs. Agostinho irá dizer que na lei de Deus está escrito: "Não matarás"! "Lucrécia não podia ter matado Lucrécia". As mulheres cristãs não vão suicidar, por amor ao Deus que elas servem e à Palavra dEle. Embora pareça honroso se matar para não ser violada, protegendo a castidade do corpo, Agostinho defende que a verdadeira castidade é a da alma e um estupro não tiraria essa virtude das mulheres! Mas o "Não matarás" tem exceções? Sim, na Bíblia, há exceções, contudo nenhum dos casos é por razões de honra social (podemos mesmo substituir: "nenhum dos casos é por razões culturais"). A cultura não pode legitimar crimes! As exceções bíblicas surgiram quando o próprio Deus assim o fez. Ligado a este argumento, Agostinho dirá que só se pode tirar a vida para agradar a Deus em santidade: é o caso dos mártires! E mesmo assim essa entrega da própria vida à morte deve ser quando a situação for bem clara, pois a orientação do próprio Jesus é de que seus discípulos, uma vez perseguidos, saiam para outra cidade.
O que mais me impressionou é que toda essa defesa de Agostinho não apenas fará com que o suicídio das estupradas pare de ser incentivado na cultura romana, como ele conseguirá até o apoio estatal para essas mulheres! O que isto significa? Este é um caso claro, óbvio, espantoso da transição da mentalidade pagã para a civilização promovida pelo Cristianismo. Fico pensando nos casos de infanticídio indígena; circuncisão feminina; etc. É fato que o Evangelho, tendo o próprio Povo de Deus como referência no meio dos povos, traz benefícios inquestionáveis a tantas culturas mundo afora.
No fim do livro I, encontramos a polêmica levantada sobre o teatro. Muitos acusam Agostinho de ser contra as artes cênicas, por causa dos últimos capítulos do primeiro livro da Cidade de Deus. Porém, sei que há outra obra em que ele fala sobre a importância da arte para a formação do ser humano e, além disso, o contexto no LIVRO I expressa que a acusação daquelas artes cênicas era o seu uso profano e libertino. Mas sigamos para o próximo livro.
No LIVRO I, são assuntos muito interessantes para se desenvolver a dignidade da mulher e a questão da condenação do suicídio.
Fábio Ribas
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