Seguindo a ordem cronológica dos escritos de Dostoiévski, "O pequeno herói" vem depois de Netotchka Nezvanova. Este é uma novela inacabada, parece que o projeto de Dostoiévski era fazer um "romance de formação", em que a personagem principal, uma artista famosa, revê a vida e os caminhos, desde sua infância, que a levaram até sua maturidade.
Aqui, em "Um pequeno herói", Dostoiévski retorna ao tema da infância. Porém, o personagem principal é um menino de 11 anos de idade. Tudo aqui parece ser diferente do que Dostoiévski fizera até então: a história não se passa em São Petersburgo, mas nos arredores de Moscou; os personagens não são "gente pobre" ou funcionários públicos, mas a aristocracia latifundiária; outra coisa que me chama a atenção é que, se nos outros textos apareciam relações de homens bem mais velhos com meninas bem mais novas, desta vez é sobre a primeira paixão desse menino. O alvo de seu amor é uma mulher casada.
O contexto "para fora" do texto precisa entrar em questão aqui, pois Dostoiévski está em cárcere na Fortaleza Pedro e Paulo. Ainda que suas condições de prisão sejam melhores que de outros presos - até mesmo de seu irmão, preso por engano - mas estamos diante de um Dostoiévski sendo interrogado insistentemente durante o processo de seu julgamento. Frank Joseph, seu biógrafo, que estou lendo paralelamente aos livros de Dostoiévski, faz uma ponte muito interessante. "Um pequeno herói" é um livro claro, iluminado e florido, mostra-nos Frank, jamais diríamos que aquela história vem da pena de um encarcerado. Não há um traço de amargura nessa novela. Contudo, como disse, Frank propõe uma ponte interessante: seria "o pequeno herói" a metáfora do escritor nesse processo de tantas inquirições? Devemos lembrar que ele está preso por participar de um grupo revolucionário, que fora acusado de querer derrubar o regime tzarista. Assim, durante aquele processo, querem que Dostoiévski entregue nomes, confesse crimes, revele conspirações. Porém, ele não tem nada a dizer. Ele nem se incrimina e nem incrimina a outros. Segundo lemos na biografia de Frank, Dostoiévski não era contra o tzarismo, ao contrário, creditava ao regime a sobrevivência da Rússia que chegara até ali. É verdade que nosso escritor é um socialista, mas um socialista utópico e religioso. Ele se aproximara dos radicais ateus, porque o ódio à escravidão dos camponeses era o ponto que os unia. Então, Frank faz a ponte: será que aquela cena de um menino que não entrega sua amada e nem a expõe ao escândalo seria o próprio Dostoiévski? Não sei, mas é bem possível.
Gostei muito desta pequena novela. Entre ela e os próximos escritos pós-exílio, há tudo que ele escreveu até 1848. Então, trarei sobre essa primeira fase antes de seguir adiante, para fecharmos essa primeira parte da vida de Dostoiévski, a que Frank chama de "as sementes da revolta".
Fábio Ribas
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu? Clarice Lispector.