Logo no prólogo, somos lançados à indagação: "o que é uma boa pregação?". Keller já nos diz que não devemos esperar de seu livro um "manual de pregação" do tipo "dez passos para preparar um bom sermão". Contudo, ele reconhece que devemos orar para que o ES abra o entendimento das pessoas que nos escutam, pois há bons sermões que atingem umas pessoas e não atingem outras, assim como há sermões "ruins" que causam forte impacto onde quer que chegue. Por toda essa realidade, o que faz de um sermão um bom sermão?
Em sua introdução, Keller nos relembra que "pregação, sermão", enfim, o uso que fazemos da Palavra, isso pode aparecer em três níveis: 1) fala comum, conversas informais; 2) ensino; 3) sermão. Em todas, na verdade, precisamos nos esmerar, pois são expressões do dom da fala do Espírito Santo.
Em "Pregando a Palavra", o autor nos ensina que devemos nos perguntar não apenas “o quê pregar?”, mas também “como pregar?”. Será óbvio responder que precisamos pregar a Jesus Cristo, mas é um óbvio que precisa ser dito. Agora, como pregar a Jesus Cristo em nossos sermões? Essa pergunta nos leva à seguinte: que tipo de pregação devemos apresentar? Keller mostra que há como reconhecer uns seis tipos de sermão, mas ele se concentrará sobre dois: tópico e expositivo. Aqui, surgirão novas perguntas e precisamos estar atentos e dar conta de respondê-las. Qual tipo de sermão usar? Passaremos um ano (ou mais) pregando num livro? E o nosso público moderno que muda de cidade para cidade? E eu aqui até acrescentaria: que muda de igreja para igreja! Preparemos sem título? E sem tópico? Explicaremos o texto sem aplicação? Prepararemos verso por verso a cada vez, como João Crisóstomo e Calvino?
Como me ensinaram a pregar? Preguei muitíssimo no campo missionário, embora não fosse essa a minha intenção. "Prega a Palavra", de Karl Lachler, na área de homilética, foi o título do livro que mais me marcou no Seminário, talvez por ser um livro muito prático e objetivo. Mas foi quando associei o método desse livro com a estrutura da redação de vestibular que, finalmente, encontrei o caminho para mim, que sou professor da área de Letras. Hoje, eu sei que prego de diversas maneiras, dependendo do texto, do propósito e do público.
Mais uma vez, parece desnecessário dizer que se deve pregar o evangelho sempre, mas não é. O pregador está sempre diante de dois grandes e terríveis erros que ele poderá cometer: ou ele poderá se perder no legalismo ou se perderá no antinomianismo. Esses são os dois grandes inimigos do evangelho. Usando a metáfora apresentada por Keller, o legalismo carrega sobre seus ombros uma colcha de rituais para barganhar com Deus e o antinomianismo, não quer carregar nada. Ambos nascem de um coração orgulhoso e vaidoso que não compreendem o que seja a graça de Deus. Precisamos lutar contra esses inimigos, enquanto pregamos tanto o texto da Palavra como o Cristo do texto. Precisamos seguir a regra neotestamentária de Emaús: revelar Cristo em toda a Palavra de Deus!
No capítulo “Pregando Cristo em toda Escritura”, minha atenção foi captada, especialmente, por dois motivos. Primeiro, o capítulo fez-me reconhecer que não prego muito a Cristo por meio de tipologias, só aquelas que a própria Bíblia escancara. Pregar Cristo pelos temas, gêneros ou mesmo pelos personagens nunca tomou muito do meu investimento nessa área. Segundo, realmente é possível que preguemos “tudo durante um sermão” e, por fim, não entreguemos Cristo aos nossos ouvintes! A atenção aqui precisa ser redobrada pelo pregador.
“Pregando Cristo à cultura” foi o capítulo ao qual mais me identifiquei. Entendi o passo a passo que ele apresentou, embora ainda acho que ele poderia dar mais exemplos para termos referências com as quais trabalhar melhor depois. Ainda assim, veio muito ao meu encontro. Um dos pontos que mais me fez pensar foi a realidade da igreja multiétnica que Keller pastoreia, em que há jovens americanos magoados e feridos por pais que os colocaram em segundo lugar e, ao mesmo tempo, há jovens asiáticos magoados e feridos por pais que os cobram excessivamente. Ambos se sentem traídos por seus pais: por um lado, fracassados por não terem tido o amor e a atenção devida, por outro, fracassados por não darem conta de satisfazer as expectativas. Como preparar um sermão que abarque isso num mesmo público, devemos nos perguntar junto com o autor.
“A pregação e a mente tardia”. Nesse capítulo, Keller tratará da Pós-modernidade e ele o fará de modo mais claro e profundo do que o último livro que li, o "Pregando na Pós-modernidade", de Zack Eiswine. Keller chamará a pós-modernidade de “modernidade tardia”. A partir de um autor do início do século XX, Keller identifica a mente pós-moderna como aquela cuja ideia básica "consista na subversão de toda autoridade externa ao eu". Assim, saímos de uma mentalidade que tentava se adaptar à realidade que a cerca para uma outra que, agora, acredita que ela molda e cria a realidade. Por isso é tão importante que identifiquemos as narrativas culturais que servem de referência ao pós-moderno, pois há uma rede de crenças oculta que sustenta a atual secularização. É o que Keller vai chamar de "impensados". É aquilo que subjaz, são as crenças profundas, que precisamos discernir para responder corretamente a elas.
“Pregando ao coração”. Capítulo fantástico para conhecermos melhor a Jonathan Edwards. Concordo com tudo o que pensava Edwards a respeito do ser humano. Afeições são diferentes das emoções e elas movem o ser humano.
“A pregação e o Espírito”. Definitivamente, a cereja do bolo de todo o livro. Amei aquela diferença entre dons e fruto do Espírito. Dom é o que eu faço. Fruto é quem eu sou. Ainda que eu exerça os melhores dons de modo maravilhoso, isso não significa que o fruto venha amadurecendo em mim. O que eu faço - desenvolver os meus dons - tem a ver com técnica. Quem eu sou - amadurecer o fruto do ES em mim - tem a ver com caráter e intimidade com Deus. Outro ponto sensacional tratado por Keller é ver que, depois de tudo, depois de tudo o que eu fizer para me esmerar sobre a pregação, tudo o que surgirá a partir disso, devo poder dizer a Jesus: "Então, era você o tempo todo"! Todo louvor e toda glória ao Senhor! Ele em nós. Ele em mim. No fim de tudo, só uma coisa importa na vida do pregador: piedade!
Por fim, Keller dará vários exemplos de sermão a partir de textos bíblicos. Um livro obrigatório para ser lido por todo pregador que anseia em se esmerar na arte da pregação para a glória de Deus.
Fábio Ribas
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