sábado, 6 de junho de 2026

Persépolis (Marjane Satrapi)

 

    Persépolis, de Marjane Satrapi, é uma história em quadrinhos, em que a autora narra sua própria vida, desde seus dez anos de idade, quando acabara de ocorrer a Revolução Iraniana, até o seu tempo na faculdade de Artes do Irã. Há um interregno em que a personagem passa um tempo morando sozinha na Europa.

    O livro foi relançado em 2020, pela "Quadrinhos na Cia", numa versão "obra completa". Originalmente, eram quatro volumes. Acompanhamos a dura realidade de Satrapi crescendo num ambiente de opressão religiosa, desde sua infância. É uma obra intimista em que ouvimos suas dúvidas, indagações, busca por identidade e luta como mulher em meio à sociedade que a cerca.

    Uma obra que nos coloca no lugar do "outro" e nos aproxima do Irã, sob a ótica de uma menina e sua família. Temos a oportunidade também de nos colocar "na pele" de uma estrangeira na Europa. Muito mais do que isso, Satrapi é uma menina de apenas 14 anos de idade, vivendo no estrangeiro europeu. Os choques culturais e os choques reversos são inúmeros e com eles aprendemos a ver o mundo pelos olhos de Marjane Satrapi. Ainda que não concordemos com todas as opiniões da autora, somos convidados a ver como ela enxerga e isso nos ensina muito sobre ela, sobre sua cultura e os desafios que muitos de sua geração passam. Deu-me vontade de ler os outros dois livros dela.

    Durante toda a leitura de Persépolis, fiquei imaginando se a autora, em algum momento, descobriria esta verdade, que a esquerda tem como projeto a instalação de um regime que fere as liberdades individuais que ela tanto defendia para si mesma. Mas não. O livro termina e não vemos que ela tenha tido nenhuma luz diferente sobre suas crenças políticas. Pelo contrário, os anos de 89, 90 e 91 passam sem sequer ocorrer uma única menção sobre o mundo comunista que ruía na Europa (lembra da queda do muro de Berlim?). O livro também terminará com Satrapi mergulhada em algumas contradições feministas, ainda que ela tenha três homens em sua vida que não são nada daquilo que as teorias feministas, que ela tanto defende, dizem sobre "todos os homens": seu pai, seu tio e seu avô.

    Quando ocorre a Revolução Iraniana, em 1979, Satrapi está com apenas 10 anos de idade. Naquilo que ela consegue absorver dos eventos ao redor, ela se coloca sempre ao lado dos revolucionários. Seus pais eram de esquerda. E a esquerda encontra nos religiosos muçulmanos seus aliados na derrubada do regime monárquico pró-Ocidente do Xá Reza Pahlevi. Todavia, assim que essas duas forças conseguem derrubar a monarquia, os muçulmanos instauram um regime religioso teocrático que passa a perseguir seus antigos aliados.

    Nestess últimos anos, também temos visto, ao redor do mundo, se concretizar essa aliança entre a esquerda e grupos muçulmanos. Uma aliança incompreensível para muitos, uma vez que se dá entre duas cosmovisões que deveriam ser excludentes, pois uma é sustentada sobre uma religiosidade teocrática e a outra sobre o ateísmo anti-tudo aquilo que se chama "Deus". Além do fato de se unirem para derrubar um inimigo comum, poderia haver algo mais profundo que unisse esquerdistas e muçulmanos colocando-os do mesmo lado do tabuleiro? Nas palavras do próprio professor Ibrahim Nasser, o Islã possui uma "doutrina social que impõe aos ricos que deem parte de sua riqueza aos pobres". Isto é um ponto de intersecção que revela porque ambos os lados se autonomearam revolucionários e vêm, nos últimos anos, construindo alianças mundo afora. Porém, como prova a experiência iraniana, não será de se admirar que, uma vez que um desses dois grupos tome o poder em algum lugar, venha então a perseguir o outro.

    Há ainda algo que me incomoda no livro e, certamente, o coloca ao lado dos livros de Orhan Pamuk (autor turco, premiado Nobel de literatura): essa parcela oprimida do mundo árabe é atraída por um Ocidente pós-cristão e laico. Muitos se identificam e buscam refúgio numa Europa sem Deus, pois estão fugindo de uma teocracia totalitária. Eles não querem Deus ou uma versão religiosa diversa da deles, pois estão fugindo de uma sociedade religiosa que os oprime e cerceia suas liberdades em nome da religião. Assim, o encontro de Satrapi com o chamado "mundo livre" é o encontro com a liberdade sexual, o consumo de drogas e o direito ao divórcio e coisas afins. É isso o que a Europa pós-cristã tem a oferecer aos oprimidos do Oriente. Mesmo a versão cristã que Satrapi conhece é a de um cristianismo muito semelhante ao Estado religioso do qual ela está fugindo. E isso me faz pensar tanto no meu cristianismo, nas propostas de cristianismo de algumas tendências religiosas, que, infelizmente, parecem muito mais um "Islã" do que o Evangelho da liberdade de Cristo Jesus.

    O livro da Satrapi entra ao lado de outros livros importantes, caso queiramos, de fato, conhecer a realidade do mundo árabe. Não apenas conhecê-los, mas ver o que de nós eles conhecem também. Ver como eles veem o mundo de cá, que os observa e intervém na sociedade deles. Uma interferência nem sempre bem vista por Iranianos e que demonstra interesses bem mais mesquinhos do que os que o Ocidente publica na mídia, justificando essas interferências "em nome da luta pela liberdade e dos direitos humanos".

                Fábio Ribas

PS - Retorno com a resenha deste livro, porque a autora faleceu no dia 04 de junho de 2026, aos 56 anos. A família divulgou que ela morreu de tristeza, consumida pela dor do falecimento do marido, que se foi há pouco mais de um ano antes dela. 

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