“Beleza é a deslumbrante exibição da verdade e da bondade de Deus refletidas na glória e na santidade de sua pessoa e obra, na encarnação e no mundo criado. A beleza é o que atrai em Deus; a beleza é o que arrebata os olhos do coração ao contemplar Cristo pela fé mediante a Palavra” (T. Chris Cain, “Turning the Beast into Beauty: Towards an Evangelical Theological Aesthetics”, Presbyterion: Covenant Seminary Review 29, n. 1 (2003), p. 28. Citado em: Eswine, Zack).
Logo na introdução, o autor me arrebatou com a seguinte pergunta: “eu conseguiria agora alcançar com o evangelho aquele que um dia eu já fui?”. E o autor a introduz dizendo que ele é cristão, pastor e professor de seminário. Eu também, mas acrescentaria que sou missionário. E sei que, na condição de missionário, tenho sido preparado ao longo das décadas para trabalhar com culturas muito diferentes da minha. Contudo, lendo este livro de Zac Eswine, e outros semelhantes de autores americanos, compreendo que a minha cultura está bem mais próxima de dialogar com culturas da pós-modernidade, do que deve ser para uma cultura da América do Norte. Em outras palavras, li o livro de Zac vendo que o pregador brasiliero já está muito mais adequado ao que o autor quer propor do que a cultura americana.
Ler esse livro nessa perspectiva é muito interessante, pois há anos ouço como que “os povos” aí fora gostam de missionários brasileiros entre eles. E a resposta fica patente ao lermos “Pregação na Pós-modernidade”. Todavia, não sou ingênuo a ponto de pensar que na América não há pregadores já muito abertos às propostas do livro, assim como sei também que no Brasil há muitos pregadores (e missionários) que precisam ler este livro. Não nego, porém, que o, li com aquela sensação de “mas essa homilética é para todas as eras e não só para minha geração pós-moderna”! Enfim, um livro enriquecedor que todo seminarista e missionário deve ler.
Voltemos à pergunta que me arrebatou, pois a li num sábado e a fiquei remoendo dentro de mim. No dia seguinte, pela manhã, aconteceu de perceber que Deus estava me preparando para um encontro com um rapaz seminarista católico que veio visitar a minha igreja. Não tinha como fugir, pois eis eu ali, bem diante de mim, o meu eu de mais de três décadas atrás estava bem ali diante de mim. Como apresentar o evangelho hoje da mesma maneira graciosa e amorosa com que me apresentaram naquele tempo? Não existem coincidências para quem caminha com Deus. Deus queria que eu enfrentasse essa pergunta.
O livro de Zac está dividido em um prefácio de Emilio Garofalo, além de um outro prefácio à edição brasileira, seguidos de dezesseis capítulos e dois apêndices. No prefácio de Bryan Chapell, vemos que o livro vem na onda do retorno do tema da pregação cristocêntrica, sem, contudo, disperdiçar a pessoa de seu próprio pregador. Em outras palavras, regamos nossa pregação como “pessoas quem tem testemunho pessoal da graça de Cristo”. E não apenas isso, mas devemos subir aos púlpitos sob a responsabilidade de termos uma herança missionária por trás de nós.
Logo na introdução, fui desafiado a me perguntar no que é preciso saber para sermos salvos? O autor mostra a delicadeza do assunto em nossa complexidade cultural, lembrando do exemplo de Collins e Anne Rice:
Em seu livro A linguagem de Deus, Collins escreve: “O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma”. Collins acredita na evolução e num planeta com quinze bilhões de anos. No entanto, quando lhe perguntaram se acredita no nascimento a partir de uma virgem, Collins responde inequivocamente: “Eu creio!”. Ele defende os milagres da Bíblia e a ressurreição corporal de Jesus Cristo. Collins é cristão.
Da mesma maneira, Anne Rice, famosa autora de romances sobre vampiro e notável ateia, tornou-se uma seguidora de Jesus. Embora ela ainda seja socialmente liberal em questões como a homossexualidade, tornou-se uma cuidadosa e consciente defensora da Bíblia, particularmente da historicidade dos Evangelhos e da veracidade de suas afirmações sobre quem é Jesus.
No Brasil, nos deparamos atualmente com a mesma tensão. Em algumas igrejas essa tensão é maior e em outras menor. A pós-modernidade nos dá esse leque de pessoas e sua fé pessoal que nem sempre coaduna com nossos credos, símbolos de fé e confissões, mesmo tendo elas como membros comungantes em nossas igrejas locais. Vivemos num mundo anunciado a nós desde a década de 1960: somos seres de planetas diferentes vivendo dentro de uma mesma Interprise, sendo que muitos nessa espaçonave são cristãos! Como alcançar pessoas tão independentes, diferentes e autossuficientes assim? Crentes e descrentes, essas pessoas estão na nave e, então, como nos comunicar com elas? Como nos diz o autor, ainda na introdução:
Muitos de nós estão sendo forçados a lembrar que alguém pode ser inconsistente na doutrina (como muitos em nosso meio), errar em algumas coisas (como todos nós) e, ainda assim, seguir verdadeiramente a Jesus, um passo de cada vez. A santificação é um processo.
Quero apenas dar um resumo dos temas que você encontrará neste livro de Zac Eiswine, para animar o leitor a se dedicar nessa leitura desafiadora.
Zac Eiswine irá voltar seus olhos não para a cultura pós-moderna, mas para a pessoa do pregador. Ele defenderá a importância de sermos pregadores autenticos e, sendo assim, não temermos mostrar nossa fragilidade e vulnerabilidade à nossa geração. Precisamos ir ao encontro do nosso público sabendo quem eles são. Portanto, precisamos contextualizar nossa comunicação aproveitando tanto as narrativas e as ficções que temos na cultura, para aplicar melhor na vida real dos nossos ouvintes. Precisamos de capital literário! O pregador contextualizado será aquele que apostará mais numa homilética narrativa, sabendo ele que seu público precisa de uma mensagem compassiva e não moralista. Precisamos, então, compreender a arte da narrativa. Nossa pregação narrativa precisa se comunicar com a fé, esperança e amor das pessoas, trazê-las para a compreensão da fé, esperança e amor bíblicos até o ponto de ressurreição! Sim! A pregação deve apresentar a ressurreição possível aos pecadores mortos em seus delitos e pecados!
Devemos ser pregadores em dois mundos: tradição e inovação. Aqui, ele está falando da necessidade de trazermos em nossa homilética a riqueza do passado, mas saber aplicá-la nos novos contextos. Uma pregação nostálgica e redentiva. Todos somos tradutores! Não apenas os missionários que estão trabalhando com outros povos e traduzindo para outras línguas o texto bíblico, mas o pregador deve fazer o mesmo com seu público dentro de sua cultura e língua (estamos numa Interprise, lembra?). Assim, precisamos usar nossa voz profética para proclamar a verdade. Precisamos usar a nossa voz sacerdotal para pastorear nossas ovelhas. Precisamos usar nossa voz de sabedoria para compreender e se comunicar com a cultura. Somos pregadores tradutores!
Semelhante ao apóstolo Paulo, temos diante de nós um público de igrejados culturalmente, mas temos um grupo de igrejados confusos e de pessoas totalmente alienadas da verdade bíblica. Ao pregarmos, precisamos lembrar dessas diferenças diante de nós. Não precisamos temer em demonstrar para a geração pós-moderna, avessa ao moralismo e cansada de hipocrisia, nossa vulnerabilidade sacerdotal. Precisamos mostrar que há realmente textos difíceis na Bíblia e o autor irá demonstrar como que, por exemplo, devemos encaixar os textos de guerra e violência bíblicos dentro de seus contextos metanarrativos. Deus foi quem colocou esses textos lá e precisamos mostrar que a violência não é uma justificativa para hoje sermos violentos, mas serviu a um propósito divino naquele tempo. Além disso, precisamos enfrentar nossas próprias ideias idólatras em nós e na cultura. Do contrário, se não enfrentarmos, como daremos conta da homilética satânica? Satanás também prega. Ele corrompe a verdade, manipula o discurso e semeia a mentira e o homicídio. Pregamos diante dessa realidade espiritual.
Neste ponto, o autor precisa dizer o óbvio: nossa homilética deve ser totalmente dependente do Espírito Santo! Contudo, preciso dizer que foi no último capítulo do livro que, então, fiquei totalmente arrebatado. O capítulo final falou muitíssimo comigo! Concordo com tudo o que está ali em gênero, número e grau. Identifiquei-me e me vi satisfeito naquelas palavras. Falou de algo que me é muito caro: monastério/solitude! E a linguagem propícia para aquele que se refugia em Deus em meio ao caos pós-moderno é a linguagem do Espírito Santo. Precisamos conversar mais com Ele. Gastar um tempo proposital no silêncio e na fuga e sermos, desta maneira, alimentados e saciados pela presença de Deus em nós: fugirmos para o monte em meio à madrugada. Não é um escapismo, mas é uma fuga necessária em tempos de excessos de imagens, compromissos e velocidades. É preciso que nos encontremos com o Deus dos poetas, o mesmo Deus que prega é o mesmo Deus que nos escreveu e nos deu seus poemas, lembra-nos Zac Eiswine.
A linguagem divina tem esse poder. Cristo Jesus tem essa autoridade. O propósito da linguagem, pois, é a glória de Deus em Cristo, em direção à cura substancial de sua criação, até que ele venha. Os ministros, cujo trabalho é a linguagem e a presença, dedicam-se por vocação a tal propósito. Os poetas podem nos ajudar em nossa vocação porque poemas e sermões têm alvos semelhantes — criar e “preservar uma imagem verdadeira da vida”.
Quero encerrar deixando um dos textos e música mais caros para mim por todos estes longos anos de vida missionária. Espero que, de alguma maneira, venha a significar para você o que tem significado para mim. Lembrei-me do texto abaixo, exatamente quando estava lendo o último capítulo. Foi uma postagem que fiz em 2011! Essa postagem, num antigo blog, tinha como título: "Porque um dia Ele me encontrou"...
Sie mag wohl glaubern ich sei gestorben!
Ob sie mich für gestorben hält.
Ich kann auch gar nichts sagen dagegen,
Denn wirklich bin ich gestorben der Welt.
Und ruh’ in einem stillen Gebiet!
Ich leb’ allein in meinem Himmel,
In meinem Lieben, in meinem Lied
Friedrich Rückert: Ich bin der Welt abhanden gekommen
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Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu? Clarice Lispector.