quarta-feira, 22 de outubro de 2025

O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram

 

    Afinal, o que são “avivamentos”? Ao longo da história, desde os tempos bíblicos, podemos reconhecer essas assombrosas intervenções divinas sobre seu povo. Como a própria palavra (“avivamento”) sugere, essa deve ser uma ação sobre algo morto ou quase morto, moribundo. Quando quase já não se vê fé entre o povo de Deus e a frieza, o nominalismo e a hipocrisia assaltam de modo alarmante, ou mesmo quando a idolatria e a confusão religiosa e espiritual invadem, então, pode ser que, em momentos assim, haja uma assustadora, inesperada e imprevisível ação divina em prol do seu Povo. Digo “pode ser”, pois, numa boa, saudável e teocêntrica teologia, “avivamento” pertence ao plano exclusivo da vontade de Deus.

    Muitos irão discordar, eu sei, pois já vi muita “receita” para induzir avivamento por aí. Aliás, o que mais vi nestes anos todos de caminhada é a “produção” de avivamento ou, como muitos gostam de afirmar, um “novo pentecostes”. Evidentemente, na esteira de muitas dessas manipulações, as pessoas ficam ainda mais confusas e caem como presas fáceis nas mãos abusivas de psicopatas e abusadores transfigurados em religiosos. Isso, por fim, gera ainda mais frustração, vazio e mágoas em corações que, uma vez passando por essas tristes experiências, coram de vergonha e constrangimento quando se percebem enganadas por mercenários da fé. Às vezes, não duvido, muitos desses líderes religiosos talvez não sejam malévolos, apenas ignorantes cheios de boas intenções e, como tais, são cegos que foram guiados por outros cegos e acabam repetindo a fórmula que foi usada com eles também.

    Na história mais recente, dois avivamentos realmente chamam a minha atenção por possuírem características bem diversas do que compartilhei no parágrafo acima: “o Grande Despertamento”, nos Estados Unidos, e “o Avivamento Coreano de 1907”. Este também ficou conhecido como o “Pentecostes coreano” e aquele outro, como o “Primeiro Grande Despertamento”. Ao estudarmos, vemos que o avivamento que se deu nas colônias americanas, entre os anos de 1730 e 1740, envolveu nomes como o do inglês George Whitefield, e os americanos David Brainerd e Jonathan Edwards. A ênfase desse avivamento se deu em torno de temas como regeneração, arrependimento de pecados, nova vida, graça divina e — pasmem! — as doutrinas da fé calvinista. Contudo, o que mais chama a minha atenção na relação entre esses dois avivamentos — o americano e o coreano -, na verdade, é que ambos foram seguidos por uma tremenda convulsão social. Duas décadas depois do Grande Avivamento, deflagra-se o início da Guerra de Secessão, que vitimou mais de 600.000 pessoas. Tendo ocorrido logo após o Grande Avivamento das 13 colônias americanas, a guerra entre o Sul e o Norte se deu entre irmãos da fé. Já havia parado para pensar sob esse prisma? O avivamento coreano de 1907 foi seguido por profunda perseguição e um longo período de conflitos entre os cristãos da Coreia e seus algozes, a partir do domínio japonês em 1910. O que me faz pensar que a situação trágica que essas igrejas viveram, tanto nos Estados Unidos como na Coreia, teria sido muitíssimo pior, caso Deus não tivesse preparado esses irmãos para o que ainda estava por vir.

    “O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram”, de William Blair e Bruce Hunt, é leitura obrigatória para conhecermos a história dos nossos irmãos coreanos e reconhecermos um bom referencial para o que seja um verdadeiro avivamento. É um testemunho ocular, pois William Blair, então com 25 anos de idade, chegou na Coreia em 1901. Ele foi um dos pregadores na noite em que ocorreu o reavivamento de 1907. O livro nos dá um contexto anterior de como foi a chegada do evangelho naquele país, os avanços missionários desde o século anterior e as histórias de homens como Robert J, Thomas, o mártir da Coreia em 1865. Além disso, os autores retrocedem para mostrar como que a Providência divina vinha trabalhando na Coreia para preparar tudo aquilo que estava para ocorrer. Uma das questões demonstradas é como o Confucionismo destruiu o Budismo na Coreia. Particularmente, considero que um dos pontos altos do livro é o profundo conhecimento cultural e religioso que os autores têm e como que eles conseguem mostrar para o leitor o desenrolar dessa história de conflitos culturais, religiosos e filosóficos.

    Um dos maiores desafios das Igrejas presbiterianas na Coreia foi o enfrentamento ao “culto aos antepassados”. Tudo isso já ocorrendo antes de 1907. Na cidade de Pyeongyang, num encontro dos cristãos, numa reunião sem nenhum grande entusiasmo, ocorreu o inesperado. Com a Palavra sendo pregada e a Bíblia ensinada dia após dia, finalmente, quase no encerramento do encontro, um homem pediu para ir à frente e, então, começou a confessar pecados ocultos. Naquele momento, outros que o ouviam, constrangidos pelo Espírito Santo, começam também a confessar roubos, adultérios e mentiras publicamente. O quebrantamento foi impressionante. E durou dias! Os participante, voltando para suas vilas, contavam o que havia ocorrido em Pyeongyang e, ouvindo os relatos, outros cristãos dessas vilas começavam a também confessar os seus pecados e se reconciliar com aqueles que foram defraudados. Igrejas surgiram, milhares de novos crentes vieram à luz e, como contei, em 1910, a Coreia é anexada pelo Japão. Sem esse avivamento, sem essa visitação especial do Senhor, como essas pequeninas igrejas de poucos crentes teriam resistido aos anos que se seguiram? Parece-me que, à semelhança do que houvera nos Estados Unidos, Deus fortalecera as igrejas para a convulsão social que estava prestes a eclodir.

    O grande embate, durante o domínio japonês, deu-se com o Xintoísmo, pois este preconizava a adoração nos altares ao Imperador, que era tido como um deus. Evidentemente, ainda que algumas denominações e cristãos encontrassem justificativas para continuarem nessas práticas diante dos altares, muitos irmãos coreanos não se dobraram. Por isso, ocorreram a prisão, a tortura e a morte de muitos. A igreja, porém, estava fortalecida pelo avivamento de 1907. Muitos foram martirizados, mas eu quero contar apenas uma das tantas histórias que o livro traz.

    Há um erro na edição que eu li. Uma mesma história é contada duas vezes. Quatro páginas repetindo a mesma narrativa que acabara de ser escrita. Contudo, há uma ironia nisso, pois, para mim, essa história em particular é tão surpreendente que, ao repeti-la, parece que estão nos dizendo: “Você entendeu mesmo o que acabou de ler? Vou contar mais uma vez. Presta atenção”! Qual a história? Parece filme. Um casal de coreanos, no momento de maior perseguição dos japoneses, consegue sair escondido da Coreia e ir para o Japão. Ao chegarem na sede do governo em que estavam discutindo sobre a lei da Liberdade Religiosa, no momento certo, eles lançam sobre os membros do parlamento os folhetos e gritam: “E o grande propósito de Jeová Deus”! Os folhetos conclamavam o Japão a tornar o cristianismo sua religião oficial e, além disso, advertia que, se o Japão continuasse a perseguir os cristãos, seria destruído. Pasmem! — Isso foi em 21 de março de 1939. O Japão não voltou atrás na sua perseguição. O que ocorre em 1945?

    Deus age na história de cada um de nós, mas Ele também continua a agir na História para que todas as coisas sigam rumo ao momento em que tudo O glorificará! Espere no Senhor, por que é do alto que virá a Justiça divina.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

A mística do jogo  (O jogador - Dostoiévski)



    Alieksei morre. Não a morte de todos os homens, mas a que se impinge sobre todos aqueles que caem nas armadilhas da mística de quaisquer vícios que tentam nos ludibriar.

    Alieksei se entrega às ganas do pano verde. Entre os números vermelhos e os pretos da roleta, nosso personagem encanta-se pela mística do jogo. Esta é um fervor, um fanatismo, uma concupiscência dos olhos, da carne, do espírito…

    Em algum momento, há em nós este desejo de nos tornarmos deuses; controlarmos o que está totalmente fora do nosso controle. As mãos tremem, a boca seca, os músculos do rosto se contraem e algo em nossos estômagos se lança sobre o altar de sacrifício, à mesa de pedra, à roleta do jogo: "que fisionomias ávidas e transtornadas"! - analisa Alieksei, observando os jogadores.

    Criatura semelhante ao seu criador, Alieksei - protagonista de "O Jogador" - revela-nos o mundo que aprisionava Dostoiévski: a roleta, o jogo, os cassinos alemães do século século XIX. Dostoiévski se rendeu à mística das noites e dias insones daqueles templos. Dívidas e mais dívidas soterraram nosso genial romancista russo que esvaziava suas burras diante do croupier. Nosso protagonista chega ao fim do livro, repetindo aquilo que é a frase comum aos que sucumbem à qualquer vício: "Amanhã, amanhã, tudo isso terá terminado"!

    A alma humana, toda alma humana, diz-nos Dorian Gray (Oscar Wilde), pode ser vendida, trocada, barganhada. "O jogador" é uma ilustração dessa sentença. Os personagens que rodeiam Alieksei interagem entre si como num jogo. Todos arriscam seus lances, blefam, recuam, avançam, ganham, perdem no pano verde da vida. Todos têm seu preço.

    O general que aguarda ansioso a morte de Babuschka para receber a herança desta. Mlle. Blanche, que domina o general (e os homens) com suas promessas de fazê-los ver estrelas, aguarda um que lhe dê a segurança financeira que necessita. Des Grieux empresta a juros e controla vários viciados por detrás da cortina da história, inclusive era credor do general. Babuschka mesmo sabe dos abutres que só esperam vê-la morrer para se apoderarem de sua fortuna; mas ela, então, vem ao Cassino e arrisca todos os seus florins para o desespero dos que, de alguma forma, dependiam da herança dela.

    Mas havia também Paulina com quem Alieksei estabelecera uma relação de servilismo. E esta é a bancarrota do protagonista de Dostoiévski: sucumbe ao jogo e não à amada. Pois o amor é apenas um lance de sorte, mais um item a ser manipulado sobre o pano verde. Pauline não se entrega ao nosso personagem, embora o ame, por ter ela também seus próprios interesses e dívidas a resolver. Assim, nessas tramas da vida, que se torna o croupier de todos os personagens, eles se apresentam como jogadores: alguns com seus caderninhos nas mãos, fazendo cálculos matemáticos na tentativa de adiantar o próximo lance; outros, como Alieksei, são impetuosos e irresponsáveis, arriscando o próprio coração. Na mesa de jogo, todos escondem suas verdadeiras intenções e motivações; na vida, também.

    Dostoiévski teve sorte melhor do que seu personagem. Aliéksei sonha com uma ressurreição que não acontece; Dostoiévski, embora mergulhado na mais terrível miséria por causa das dívidas de jogo, amargando mesmo a pobreza e a quase demência, vê-se resgatado pelo amor de Ana Grigorievna e pelos romances que escreveu às pressas "tendo os credores a bater em sua porta". Na verdade, Ana era uma jovem estenógrafa de apenas 21 anos de idade e que o ajuda datilografando os livros que ele dita para ela. As dívidas são exorbitantes e o tempo para a entrega dos livros exíguo. A nova contratada, admiradora da obra do escritor russo, encanta-o.

    Dostoiévski aproxima-se de Ana expondo a ideia de um novo romance a ser escrito. Dostoiévski diz que gostaria de escrever "sobre um romancista velho e doente, que deseja casar-se com uma jovem cheia de vida. "Mas", pergunta ele a Ana, "não será inverossímil dizer que essa jovem o ama?" Ao que Ana responde ao escritor russo: "Eu lhe diria que o amo e vou amá-lo a vida inteira". Foi o modo como ele, 25 anos mais velho do que ela, propôs casamento à mulher que andara buscando a vida toda e finalmente encontrara".

                                                                                            Fábio Ribas

Quase a mesma coisa

       Conversando com um amigo sobre tradução, logo lembrei deste fascinante livro de Umberto Eco. É um dos meus livros de cabeceira. Um li...