segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Liberdade versus Igualdade: o mundo em desordem

 

    Por que apresentar o livro “O mundo em desordem”? Porque muitas das nossas discussões bíblicas, teológicas ou sobre fé e prática cristãs quase sempre se dão de dentro dessa gaiola cultural maniqueísta “Esquerda X Direita”.

    E o que a Igreja tem com tudo isso? Bem, muitas vezes, nem participamos das discussões, porque “política e igreja não se misturam”. Assim, desperdiçamos a grande oportunidade de não sermos manipulados por quaisquer desses sistemas, até mesmo por não percebemos o que eles são de fato e o que subjaz nas estruturas mais profundas de cada um.

    O maniqueísmo esquerda-direita, gaiola dentro da qual muitos discutem teologia, tende a camuflar as duas grandes e reais questões filosóficas que estão em jogo e em tensão constante: Liberdade X Igualdade — eixo central do livro que apresento hoje aqui.

    É impossível — sob pena de negligenciarmos aquilo que é de nossa responsabilidade espiritual (Mt 25: 14 -30) — o cristão querer passar ao largo dessas duas questões que, veja bem, estão entranhadas na mensagem do Reino de Deus e, por isso mesmo, são tão mal compreendidas à luz de uma exegese correta e saudável dos textos bíblicos em que aparecem. Não é de admirar que os cristãos no correr da história tenham sido usados como carga de canhão ora por um grupo, ora por outro, mas, muitas vezes, sem conseguir apresentar a proposta inovadora e conciliadora entre esses dois pontos, a saber: a fraternidade humana, que só é possível em Cristo Jesus, uma fraternidade que ainda não é plena, mas já é sombra de um por vir glorioso!

    A fraternidade da Igreja de Jesus, que precisa ser anunciada em todo o mundo pela pregação do Evangelho, não anula as nossas diferenças individuais. Além do mais, a fraternidade oferecida por Jesus não se assemelha a qualquer proposta que o Estado ou um sistema econômico possa oferecer. Antes, a fraternidade evangélica nos alça à condição de iguais entre nós e de reconciliados com Deus para, enfim, exercermos no lugar em que cada irmão se encontra a liberdade responsável que nos foi conquistada na Cruz de Cristo!

    Falo, portanto, da solidariedade em Cristo, por Cristo e para Cristo! — pérola de infinito valor e que nenhum esquema religioso, econômico, político, ideológico e estatal pode oferecer ou substituir!

    Aos cristãos que vivem a vida como ela é, gostaria de indicar este primeiro livro de uma trilogia (na verdade, atualizando este texto, há apenas mais um livro, mostrando que o projeto inicial de "trilogia" não foi adiante) e que você pudesse comprá-lo e dar de presente a si mesmo e, principalmente, ao seu pastor (e/ou liderança, mentor, pai, padre, rabino, etc), ao professor de Escola Dominical da sua Igreja e — por que não? — ao professor de história do seu filho na escola ou na faculdade.

    É com carinho e com expectativa de ótimas reflexões sobre nossas vidas pessoais que indico a leitura desse livro do Demétrio e da Elaine Senise Barbosa. Livro que se apresenta como um ótimo ponto de partida para relermos a História — e, no nosso caso, relermos também nossas teologias, sistemas de crenças e a nossa prática cristã — fora da gaiola cultural em que nossos discursos se veem presos. A proposta do livro é a mesma que trago para cada um de nós: reexaminar o que somos, pensamos, cremos e praticamos à luz dos temas da liberdade e da igualdade.

    Este livro segue a história desde 1914–1945. Com isso, acompanhamos as razões das duas Grandes Guerras Mundiais do século XX, a Grande Depressão, o surgimento do Nazismo, a Revolução Russa e o crescimento do stalinismo. Vemos o posicionamento do Brasil diante desses acontecimentos, Getúlio Vargas e, o que para mim foi delicioso, um capítulo só sobre a arte e a cosmovisão por trás da construção de Brasília. A leitura é fascinante!

                Fábio Ribas

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Como as pessoas mudam

 

“É impossível que o seu pecado surpreenda Aquele que morreu por causa dele. A cruz também lhe oferece a liberdade de procurar e receber perdão todas as vezes em que falhar. Nós não temos de carregar os pecados que Cristo levou sobre si. Ele pagou o preço que nós não podíamos pagar para que nunca tivéssemos de pagá-lo de novo” — esta é a citação estupenda! E ela nos encoraja, dentro do contexto do livro, a compreender que Deus nos salvou, porém também nos santifica diariamente por meio da mesma cruz! Lindo demais!

Comecei a ler este livro ainda na semana da disciplina de “Aconselhamento em situações de crise”, no Andrew Jumper, em SP. Contudo, por alguma razão que desconheço, não conseguia absorver positivamente, mas, ainda assim, terminei o primeiro capítulo. Isso deve ter mais de mês. Acho que, no primeiro capítulo, tive dificuldade com os “ismos” que ele apresenta, porque, chega um momento, em que tudo parecia meio que a mesma coisa. Por outro lado, pode ser mesmo que eu ainda não estava ali preparado para embarcar nesta leitura. Abandonei a leitura e, quase um mês depois, retornei e, por alguma razão que também desconheço, amei tudo o que li.

O Evangelho é o poder de Deus para a salvação e também para a santificação diária — esta é a tese que nos é recordada pelo autor. Infelizmente, há uma lacuna entre o nosso passado e o nosso futuro daquilo que entendemos como nossa vida cristã. No cap. 1, os autores irão abordar essa lacuna que temos quanto ao evangelho: sabemos que Deus nos perdoou do nosso passado e sabemos que teremos o céu como morada um dia, contudo, não compreendemos como a graça tem poder em nossas vidas no presente. E é sobre essa lacuna, então, que trata o livro.

Exatamente porque não sabemos da graça presente, tentamos suprir nossas vidas com coisas que não são Cristo. Mas é Cristo que é suficiente para mim agora e sempre! Se Jesus é suficiente, e ele é, então por que corremos atrás de falsas esperanças? É sobre isso o capítulo 2. Um dos pontos que os autores tratarão no cap. 3 é que devemos ter sempre o foco de aonde Deus está nos levando: o céu. Esta certeza deve mudar a minha relação pessoal com Cristo e com as pessoas ao meu redor. Se estamos casados com Cristo, então o que importa é a nossa fidelidade e pureza espiritual. E esta é a nossa identidade! Este é o assunto do cap. 4.

No cap. 5, os autores enfatizam que fomos salvos, fomos adotados para vivermos numa família. Somos desafiados a ser moldados uns pelos outros no Corpo de Cristo. Precisamos usar nossos dons em associação.

Nada substitui a Jesus. Contudo, sem perceber, o nosso ativismo religioso termina por ser um fim em si mesmo. Fomos adotados para termos intimidade com nosso noivo e crescermos em conhecimento dele. No capítulo 6, os autores dão um roteiro de autoconfrontação para o leitor, mas que também serve, obviamente, para aconselharmos a outros biblicamente.

No cap 7, é um “estudo de caso”. Como eu e vc reagimos aos problemas, ao “calor” da situação? Os autores apresentam Salmo 88 e Tiago 1 para não esquecermos que Deus nos ama em Cristo em toda situação. Por isso, devemos nos aproximar dele com confiança.

No cap 9, lembramos do ensino bíblico de que a vida é um deserto. E a maneira como reagimos quando o calor aumenta mostra quem somos e o que, então, devemos tratar em nós mesmos. Ficamos irritados? Tentamos jogar a culpa em alguém? Duvidamos da bondade de Deus? As respostas as essas perguntas revelam onde Deus quer nos tratar nisso tudo.

Vc é um espinheiro ou uma árvore frutífera na sua caminhada cristã? Eu e você precisamos responder, diante de Deus, esta pergunta.

A verdade é que colocamos a culpa dos nossos erros e pecados numa fonte fora de nós: o outro, a família, a sociedade etc. Encarar que não somos responsáveis pelo mal que nos fizeram, mas somos responsáveis pela maneira como reagimos a esse mal é fundamental para atingirmos o ponto que realmente importa: o nosso coração.

O capítulo 10 me lembrou muita coisa. Uma delas é quando abrimos mão de um apartamento, porque não queríamos amar mais a bênção de Deus do que o Deus da bênção. A sessão final do capítulo com as perguntas para autoconfrontação é muito boa. Também gostei de ver que caímos nos mandamentos de 4–10, porque, na verdade, já caímos antes nos 1–3.

Se queremos uma vida cristã saudável e que isso se reflita em casa, na família e na igreja precisamos levar este livro muito a sério. Assim, seguiria a orientação que os autores dão ao final do livro: o estudaria com meus companheiros de caminhada. E assim como disse antes, é um livro que, por meio de tantas histórias e perguntas, serve para nós, porém se torna também um precioso auxílio no tratamento do outro, do meu aconselhado.

Eu já havia lido o “Guerra de palavras”, que é muitíssimo bom também. Quando ele relembra a carta de Tiago no “”Como as pessoas mudam”, na hora lembrei do “Guerra de palavras”, que é um livro que, em seus capítulos, também traz muitas perguntas para trabalharmos com o nosso próprio coração e juntamente com outros. Não foram só a estrutura e as perguntas de “Como as pessoas mudam” que me lembraram o “Guerra de palavras”, mas as histórias da família dele (que eu acho que só pode ser do Tripp). Não posso negar que achei graça das situações que ele enfrenta na casa dele com a esposa e os filhos.

Tenho investido no aconselhamento com líderes indígenas cristãos e suas famílias. Por isso, este livro me ajudará demais como bússola para chegar lá. As culturas indígenas, como a maioria das culturas existentes no mundo, não são de abordagem direta, abrdagem de “toma a pergunta e me entrega a resposta”. São culturas de não confrontação, não resolução direta dos seus problemas. A abordagem, o método é outro, porque o sistema de pensamento é outro. Na verdade, é um sistema de pensamento mais próximo ao bíblico do que o que encontramos em parte da cultura brasileira e em parte da Ocidental. “Como as pessoas mudam” oferece princípios e caminhos que devo trilhar e adaptar no meu contexto de trabalho transcultural. Todavia, embora a cultura seja diferente, “a fábrica de ídolos”, que é o coração de todo homem em quaisquer culturas, é comum a todos nós.

Tenho lido muitos livros de aconselhamento e todos os que li lançam essa luz sobre irmos ao ponto, assim como a Bíblia o faz: o coração. Outros livros, então, que também citaria é o “Aconselhamento Redentivo”, do Rev Wadislau Gomes e o “Manual do Aconselhamento Redentivo”, do do Jônatas Abdias. Ambos cheios de histórias, casos concretos, perguntas e que apresentam roteiros que nos auxiliam nesse processo de saber onde, afinal, queremos chegar. Ainda farei resenhas desses livros e postarei por aqui.

                Fábio Ribas

                        

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Quase a mesma coisa

 

    Conversando com um amigo sobre tradução, logo lembrei deste fascinante livro de Umberto Eco. É um dos meus livros de cabeceira. Um livro rico, erudito e cheio de experiências práticas de um autor que acompanhava a tradução de seus próprios livros em diversos idiomas e que, também, traduzia livros de tantos outros escritores. Leitura maravilhosa! Segue um “resumo apaixonado” que fiz das principais ideias do livro para meus amigos que também trabalham com tradução.

    Vale a pena compreender que, para Umberto Eco, o trabalho de tradução não se dá entre palavras, mas sempre entre textos (o texto é chamado de “Manifestação Linear”). O processo da formação do texto reside na “langue”, o texto em si é a “parole”. Aqui, ainda, Umberto Eco chama a atenção ao perigo que reside na tentativa de se traduzir palavras por palavras ("uma" pela "outra"), sendo que o recorte que uma palavra abarca em determinada língua pode não ser o mesmos feito por uma palavra de outra língua (mesmo que, “dicionariamente”, pareçam se intercambiar). Ex: nephew/niece/grandchild (termos ingleses) e nipote (italiano).

Conceitos introdutórios:

1. A forma da expressão: é o conhecimento da gramática daquela língua, a saber, sua fonologia, morfologia, o léxico e a sintaxe.
2. A forma do conteúdo: a percepção do recorte do mundo feito por aquela língua: ovelha vs cabra; cavalo vs égua; rat vs mouse, as matizes das cores, etc.
3. O sentido: a forma do conteúdo vai revelar o sentido que levará o tradutor à escolha da palavra que abarque o mundo que se deseja levar do “texto fonte” ao “texto de chegada”.

Roteiro para a interpretação do sentido:

1. Compreender o sentido literal e ver se há ambiguidade;
2. Correlacioná-lo a mundos possíveis: o texto pertence ao mundo do qual faço parte ou seria uma fábula?
3. Discernir enredos intertextuais e gêneros literários;
4. Averiguar a possibilidade de estar-se diante de uma expressão idiomática;
5. Diante do texto lido, averiguar o capítulo ou o livro em que ele se encontra inserido, para descobrir o tema do discurso;
6. Tentar distinguir isotopias: uma mesma palavra com significados diferentes. Ex: O alfaiate não estava satisfeito com o gancho (cavallo, no italiano) e O jóquei não estava satisfeito com o cavallo (cavalo, no italiano);
7. Buscar identificar os enredos comuns (que preferiria chamar de enredos implícitos): aquilo que não está escrito, mas que se sabe fazer parte do fato narrado.
8. Reconstruir o enredo de uma nova maneira, para identificar qual seria “a história profunda”, que é a principal, daquelas que fariam parte dos eventos marginais ou parentéticos (estarei transformando o enredo em proposições que serão o resumo da história);
9. Identificar a psicologia dos personagens do enredo e identificar as estruturas actanciais;
10. Continuar a analisar os níveis textuais e começar a criar hipóteses interpretativas mais consistentes diante da identificação das estruturas ideológicas do enredo;
11. Enfim, nesta altura, ficará mais clara a aposta interpretativa sobre os vários níveis de sentido e sobre quais dentre esses sentidos o tradutor deverá privilegiar (o tradutor deve apostar a respeito de qual é a dominante de um texto).

    O tradutor como um negociador: há de se entender quais as escolhas que se deverá fazer de acordo com a intenção do texto. Sempre há a negociação, há perdas e ganhos nas apostas interpretativas que deverão ser feitas pelo tradutor. Às vezes, para Eco, pode parecer que numa negociação haja mais perdas que ganhos e, dependendo daquilo que se prioriza como sendo a intenção do texto, ainda assim o tradutor ficará satisfeito.

    Há o conceito de Reversibilidade: o tradutor deverá decidir quais níveis do texto de partida gostaria de ver mantidos no texto de chegada. Fará uma aposta interpretativa da intenção de texto e tentará a reversibilidade (seja fonética, sintática, estética, semântica, etc). A pergunta é: afinal, o que se quer traduzir daquele texto? A reversibilidade é o “tentar recuperar muitíssimo bem o original”! Mas, ainda aqui, há escolhas, por exemplo, há traduções que recuperam muitíssimo bem o conteúdo do original, mas a reversibilidade quanto ao estilo é praticamente nula. Comentando sobre alguns exemplos de tradução, Eco diz que “a reversibilidade não é necessariamente léxica ou sintática, mas pode dizer respeito também a modalidades de enunciação”.

    Para Eco, é ótima a tradução que permite manter como reversíveis o maior número de níveis possíveis do texto traduzido e não necessariamente o nível meramente lexical que aparece na “Manifestação Linear”.

    A tradução também deve tomar cuidado com os grafemas. Sinais do texto original geram efeitos que podem ser perdidos na hora da tradução. Assim, sobre efeitos causados pelo texto de partida, também se deverá saber quais se manterão no texto de chegada.

    Mas algo que eu achei muito interessante foram dois exemplos de tradução. No primeiro, o termo complicado era o que designava “casa”. Bem, acontece que no texto de origem “casa” designava casa humilde, mas não pobre e que definia o material do telhado dela. Na língua de chegada, não havia “casa” que se encaixasse nisso. O outro exemplo tratava de uma tradução para o italiano e a escolha entre a palavra rato ou camundongo. Esta havia sido escolhida para falar do rato encontrado por determinado personagem no livro “A peste” de Camus. Segundo Eco, a escolha havia sido infeliz, pois camundongo no italiano era um “ratinho”. Isto é, não tinha nada a ver com o rato morto e doente do texto de Camus. Interessante, não?

    “Traduzir quer dizer entender o sistema interno de uma língua, a estrutura de um texto dado nessa língua e construir um duplo do sistema textual que, submetido à certa descrição, possa produzir efeitos análogos no leitor, tanto no plano semântico e sintático, quanto no plano estilístico, métrico, fono-simbólico, e quanto aos efeitos passionais para os quais tendia o texto fonte”.

    Frases-chave de Umberto Eco:

1) “se o tradutor ou tradutora é inteligente, pode explicar os problemas que surgem em sua língua mesmo para um autor que não a conhece e mesmo nesses casos o autor pode colaborar sugerindo soluções ou até sugerindo quais licenças podem ser usadas com seu texto para contornar o problema” (p. 14) — aqui, penso na tradução bíblica: quem irá ajudar o tradutor para que ele contorne os problemas?

2) “mas o conceito de fidelidade tem a ver com a persuasão de que a tradução é uma das formas da interpretação e que deve sempre visar, embora partindo da sensibilidade e da cultura do leitor, reencontrar não digo a intenção do autor, mas a intenção do texto, aquilo que o texto diz ou sugere em relação à língua em que é expresso e ao contexto cultural em que nasceu” (p. 17) — aqui, lembro das traduções ideológicas (denominacionais) como a da Bíblia de Jerusalém, que traduz, por exemplo, “sacrifício” por “hóstia” em Rm 12.

3) “Todavia, por mais inábeis e infelizes que tenham sido as traduções através das quais os textos do Antigo e Novo Testamento chegaram a bilhões de fiéis de línguas diversas, nessa corrida de língua a língua e de vulgata a vulgata uma parte consistente da humanidade acabou concordando sobre fatos e eventos fundamentais transmitidos por esses textos, dos dez Mandamentos ao sermão da montanha, das histórias de Moisés à paixão de cristo — e, gostaria de dizê-lo, sobre o espírito que anima esses textos” (p. 19) — impressionante Confissão de fé de um tradutor, que aqui, claramente, não concorda com os pós-modernos.

4) “Daí a ideia de que a tradução se apoia em alguns processos de negociação, sendo a negociação, justamente, um processo com base no qual se renuncia a alguma coisa para obter outra — e no fim as partes em jogo deveriam experimentar uma sensação razoável e recíproca satisfação à luz do áureo princípio de que não se pode ter tudo” (p. 19) — creio que o missionário-tradutor está o tempo todo com essa situação em sua mente.

    Meu Deus, fiquei maravilhado com a análise feita por ele da tradução para crianças de “Os Miseráveis” de Vítor Hugo. No processo de fidelidade (reversibilidade) e negociação, quem adaptou a obra para crianças optou por mudar a situação do suicídio de Jean Valjean para de “pedido de demissão”. Eco entende que aqui foi aceitável e compreensível a mudança e que não haviam sido feridos a trama e o espírito do livro. Embora Eco assuma que “se um incidente do gênero acontecesse em uma tradução (de algum livro dele), poderia falar de violação de um direito meu”.

5) “Isso nos faz suspeitar de que uma tradução não depende somente do contexto linguístico, mas também de algo que está fora do texto e que chamaremos de informação acerca do mundo ou informação enciclopédica (p. 36) — Eco está se referindo ao fato de um simples dicionário digital não saber fazer “seleções contextuais”, por exemplo, o meu computador é incapaz de mudar a letra ‘e’ de Eco para maiúscula, quando erro durante a digitação que faço neste momento.

6) “é difícil estabelecer o significado de um termo (em uma língua desconhecida) até quando o linguista aponta o dedo para um coelho que passa e o indígena pronuncia “gavagai”! O indígena pretende dizer que aquele é o nome daquele coelho, dos coelhos em geral, que a relva está se movendo, que um segmento espaço-temporal de coelho está passando? A decisão continua impossível, se o linguista não tem informações sobre a cultura indígena e não sabe como os nativos categorizam suas experiências, se eles nomeiam coisas, partes de coisas ou eventos que, no conjunto, compreendem também a aparição de uma dada coisa. O linguista deve, portanto, começar a elaborar uma série de hipóteses analíticas que o levam a construir um manual de tradução — que deveria corresponder a um manual completo não somente de linguística, mas também de antropologia cultural” (p. 42) — fascinante, não?

    Sobre a tradução como negociação:

1) Negociar: camundongo ou rato? “Se queremos ressaltar na tradução um aspecto do original que nos parece importante, isso só pode acontecer, às vezes, à custa de deixar em segundo plano ou até mesmo de eliminar outros aspectos igualmente presentes. Mas é justamente isso que chamamos de interpretação… Na medida, porém, em que o tradutor nem sempre está em condição de expressar todas as dimensões do texto, seu trabalho implica também uma contínua renúncia” (a frase é de Gadamer).

2) “Traduzir significa sempre “cortar” algumas das consequências que o termo original implicava. Nesse sentido, ao traduzir não se diz nunca a mesma coisa. A interpretação que precede cada tradução deve estabelecer quantas e quais das possíveis consequências ilativas que o termo sugere podemos cortar” (p. 107) — fantástico este livro, não?

3) Na questão da negociação, Eco diz que há perdas que são perdas absolutas. Daí a necessidade do tradutor assumir essa perda e tentar explicá-la numa nota de rodapé. Mas, ainda nas questões de perda, Eco diz que o tradutor pode operar com compensações.

4) Compensações são estratégias de tradução relacionadas a “se ajudar o texto”. Todavia, é um perigo ao qual se deve resistir o da tentação de ajudar demais o texto, quase substituindo o autor. Aqui, então, ele aborda a questão de se evitar “enriquecer o texto” traduzido.

    Há traduções que enriquecem esplendidamente a língua de destino (aqui, Eco exemplifica com a tradução de Lutero da Bíblia que conseguiu “inventar” o alemão) e que, em casos que muitos consideram afortunados, conseguem dizer mais (ou são mais ricas de sugestões) que os originais. (Contudo), uma tradução que chega a “dizer mais” poderá ser uma obra excelente em si mesma, mas não é uma boa tradução.

    Sobre perdas e ganhos num trabalho de tradução:

1) “Existem perdas que poderíamos definir como absolutas”. Eco dá como exemplo uma piada que em italiano tem sua graça no jogo com os pronomes, mas que tem seu sentido perdido para maioria das línguas traduzidas (jogo de palavras). Aqui, peguei no flagra um jogo de palavras que Gisele (minha filha que, na época, tinha 2 anos de idade) fez quando me disse: “Pai, construí uma casa de palha… mas não sou um palhaço”!

2) “Perdas por acordo entre as partes”: o autor dá o exemplo de seu livro “O nome da rosa” que teve 24 páginas cortadas no inglês por motivos de mercado.

3) Quando há ambiguidades e obscuridades no texto que se está traduzindo: a) “o tradutor, à luz do contexto, deve esclarecer o texto para o leitor”; b) “o tradutor não apenas resolve o ponto no texto de chegada, mas ilumina o autor (se ainda estiver vivo e for capaz de reler a si mesmo em tradução) e pode levá-lo, em uma edição sucessiva do original, a esclarecer melhor o que pretendia dizer”; c) “quando, mesmo que ao houvesse a intenção do autor (ou do tradutor) de que o texto fosse ambíguo, mas o leitor considera aquela ambiguidade interessante textualmente”; d) “quando o autor (e o texto) eram e queriam permanecer ambíguos, precisamente para suscitar uma interpretação oscilante entre duas alternativas. Nesses casos, o tradutor deve aceitar a ambiguidade”. Ainda, aqui, deve-se consultar outras traduções em outras línguas para ver como outros resolveram as ambiguidades e obscuridades do texto.

4) Quando a perda é sensível, pode-se re-elaborar radicalmente o texto: a reelaboração, para Eco, é um ato de fidelidade. Tenta-se re-escrever para tentar dar ao texto traduzido algum mesmo efeito que se sabe completamente perdido na cultura do leitor final. O exemplo dado é de um texto de Eco traduzido do italiano para o espanhol, todavia Eco fazia alusões à poesia italiana, e que na tradução passaram a ser alusões à poesia espanhola (p. 145–150).

5) “O único critério para poder dizer que se trata ainda de tradução é que seja respeitada a condição de reversibilidade” (p. 161).

    Sobre referência e sentido profundo:

    Nesse capítulo, Umberto Eco questiona a possibilidade de se mudar a referência de um texto embora seja possível manter o sentido profundo desse texto. Para solucionar a questão, ele vê que cada caso é um caso.

    Há traduções nas quais se usa determinado termo que muda a referência do texto original. Como exemplo, ele cita uma narrativa em que o original “coupé” do francês é traduzido para “hansom” em inglês. Todavia, as duas carruagens são bem diferentes. A primeira leva o cocheiro sentado na parte da frente e a segunda leva o cocheiro sentado na parte de trás. Ora, então o francês visualiza a cena de uma carruagem com um cocheiro sentado na frente e o inglês o visualiza sentado atrás. Para a narrativa, tanto faz. Mas, “do ponto de vista do critério de verdade, os dois textos constroem duas cenas diferentes”.

    Interessante, não? Principalmente, se pensarmos na tradução bíblica e o que estamos construindo na mente do leitor.

    Há mudanças de referência que são aceitas e outras não. Embora, para Umberto Eco, o tradutor não devesse mudar as referências do texto original. Mas há línguas que se verá o tradutor obrigado a fazer isso. Ele dá o exemplo da tradução do seu livro “O pêndulo de Foucault” em que há uma cena na qual o personagem entra numa sala e tem uma experiência cromática que é passada pela descrição ininterrupta de cores vistas por ele. Mas numa tradução para determinada língua havia várias cores inexistentes. Simplesmente não havia palavras equivalentes para se traduzir as cores do original. Assim, o tradutor optou por outras cores. Mantendo o sentido, mas alterando a referência. 

    Mas há trocas de referências inaceitáveis. Eco lembra que em textos clássicos como Hamlet seria inadmissível não ler “to be or not to be”, mas ler algo como “viver ou morrer bem” só para se tentar facilitar o jogo de palavras. Enquanto um texto como “O pêndulo de Foucault” pode ser mudado como se quiser e ninguém vai ligar.

    Se o tradutor pode mudar as referências de “O pêndulo de Foucault”, quais são os limites? Eco vê que toda narrativa pode ser reduzida micro-proposições que revelam a “história profunda”. Esta não deve ser alterada. Enquanto se poderia mexer nas referências da “história superficial”. Ex: A menina leva doces à casa da vovó e acaba na armadilha de um lobo que a engana, devorando sua avó e quase a devorando também. Para Eco, há uma verdadeira fábula e esta é que não pode ser alterada.

    Fontes , foz, deltas e estuários

    “Uma tradução não diz respeito apenas a uma mensagem entre duas línguas, mas entre duas culturas, ou duas enciclopédias”.

    Aqui, recordo-me da situação bíblica de Sara e Abraão na narrativa da situação de sua serva. Há que se recorrer a um background cultural para se compreender os pressupostos extra-bíblicos legais e jurídicos da época. Eco passa a citar alguns exemplos em que a má compreensão cultural produz uma cadeia de mal-entendidos linguísticos.

    A grande questão do livro

    Uma tradução deve levar o leitor a compreender o universo linguístico e cultural do texto de origem ou deve transformar o texto original para torná-lo aceitável ao leitor da língua ou da cultura de destino?

    Ao se traduzir Homero, o tradutor deveria transformar os próprios leitores gregos dos tempos homéricos ou obrigar Homero a escrever como se fosse um autor dos nossos tempos?
A questão exposta acima é designada no livro como: DOMESTICAR ou ESTRANGEIRIZAR? MODERNIZAR ou ARCAIZAR?…

Boa leitura!

                                                Fábio Ribas

Liberdade versus Igualdade: o mundo em desordem

       Por que apresentar o livro “O mundo em desordem”? Porque muitas das nossas discussões bíblicas, teológicas ou sobre fé e prática cris...