
Qual a prática comum do Estado Islâmico sobre grupos minoritários étnicos que não cedem à sua religião? Ou você converte ou será eliminado da face da terra. Quem pode não sofrer com a morte imediata são as crianças e as mulheres. Estas, consideradas mulheres a partir dos seus 9 anos de idade, são vendidas como escravas sexuais. Aquelas são preparadas numa lavagem cerebral para se tornarem soldados descartáveis na linha de frente da guerra.
Tudo isso é narrado pela autora iraquiana de “A tatuagem de pássaro”, que reuniu os testemunhos de refugiados e nos presenteou com essa belíssima obra literária. Um tema tão delicado, sensível, cheio de gatilhos, mas apresentado de forma tão literariamente tocante, que, simplesmente, nos vemos envolvido numa história encantadora. enquanto conhecemos os detalhes culturais do povo de Helin e Elias, o casal de nossa história.
Dunya Mikhail trará a situação do povo Yazidi, que sofreu um verdadeiro genocídio pelo grupo dos Daich, um grupo muçulmano sunita, que invadiu o Iraque. Mas quem são os Yazidi? São um grupo étinico-religioso sincrético. Suas crenças misturam muçulmanismo, cristianismo, judaísmo e paganismo do zoroastrismo. Por tudo isso, eles são vistos pelos muçulmanos como pecadores e devem ser combatidos. O maior drama narrado na história do livro se dá com as mulheres yazidis, que são estupradas diversas vezes, coletivamente, pelos soldados do Daich. Muitas delas ficam grávidas, porém seus filhos não são aceitos pela sua comunidade yazidi, porque são considerados muçulmanos. No grupo Yazidi, não há conversão. Você nasce Yazidi e seus pais seguem ensinando sobre a cultura para seus filhos. Assim, as crianças nascidas desses estupros são consideradas muçulmanas e o povo Yazidi rejeita esses bebês.
Surpreende como que a autora consegue injetar numa narrativa tão trágica como essa uma beleza literária de encher os olhos de quem está lendo. Embora haja momentos difíceis de leitura, há narrativas tão lindas, tão sublimes, metáforas e análogias tão doces e delicadas, que ficamos totalmente seduzidos pela obra. Um dos livros mais lindos que já li.
A narrativa trará, então, a história de mulheres sequestradas por esse grupo do islamismo e elas são colocadas à venda no mercado como escravas sexuais. Uma realidade muito comum, mas pouco enfrentada e conhecida. A mais nova delas, Laila, tem apenas 10 anos. A personagem principal, Helin, “a número 27”, título do capítulo que abre o livro, tem 30 anos. Enquanto esperam para serem vendidas, aquelas mulheres são estupradas por seus algozes, que pensam, com isso, estar defendendo a pureza do Islã. No capítulo “Metade da beleza de uma pessoa é a língua”, vemos a incoerência de uma cosmovisão teocêntrica e tirânica, que proibe Helin de falar sua própria língua. Um capítulo em que conhecemos mais esse grupo muçulmano que domina a região. As mulheres são obrigadas a usarem a cobertura do nicabe, que apenas deixa os olhos de fora. Não se pode falar com uma mulher na rua a menos de dois metros de distância dela, pois a polícia religiosa dará chicotadas no homem que não obedecer. O álcool e o fumo são proibidos, mas não o uso de drogas. As mulheres são compradas e usadas sexualmente. “Haram”, que é o contrário de “Halal”, é o que é proibido pela religião, “pecado”, para os adeptos desse grupo muçulmano.
No capítulo “O lego”, nos é apresentada uma metáfora interessantíssima. Essa metáfora prediz o que virá dali para frente na história. Deve ter um nome técnico para isso, pois é uma estratégia narrativa. Até filmes costumam fazer essas analogias que, na verdade, estão figurando o que vai ocorrer com determinados personagens. Mas, aqui, há uma certa tragédia irônica na interpretação equivocada da personagem Helin. Na cena, há uma criança brincando com o lego. Ela constrói uma casa, mas a casa é destruída. E o que parece ser uma metáfora de esperança, pelo menos foi essa a leitura de Helin, “a casa realmente cai”, não para ela fugir de seu cativeiro, mas sua situação retrocede e fica ainda pior do que já estava.
Repentinamente, tudo muda na narrativa. Agora, somos lançados pela autora para entendermos as origens desses personagens e o povo yazidi. “A tatuagem do pássaro” é um capítulo maravilhoso. Destoua completamente da tristeza que vínhamos lendo até agora. Um capítulo cheio de metáforas, analogias e cultura. É o capítulo em que ficamos sabendo como que Elias e Helin se conheceram. Os capítulos que seguirão, antes de retornarmos ao caos do tempo presente, são primorosos, lindos e muito bem escritos. Cheios do colorido cultural dos yazidis. A cena da dança é descrita belamente! E o que é aquela crença do povo Yazidi sobre a baleia que come a lua? Eles saem com panelas e colheres para assustar a baleia e vê-la soltar a lua. Um mito que serve para explicar as guerras sofridas pelo Iraque. O livro nos carrega a uma espécie de alívio de toda aquela crueza do início, para que, então, pudéssemos saber como Helin conheceu o Elias. Um capítulo cheio de beleza e repleto do vermelho do sumagre e do “rádio”.
“No dia em que meu tio permitiu que eu cuidasse daquela colmeia, ela se tornou meu mundo secreto, do qual tomei consciência. Eu observava como as abelhas trabalhavam. Descobri que a sociedade delas é extremamente organizada e produtiva. Se as vemos de longe, pensamos que se movem aleatoriamente, mas, assim que nos aproximamos do mundo delas, vemos sua precisão. Meu irmão, até os barulhos que fazem é como uma sinfonia conduzida pela rainha que voa alto. Porém, às vezes eu tive que matar algumas rainhas.” “Por quê?”, perguntou Elias. “Pelo bem do reinado”, esclareceu Abdullah.”Às vezes, as colmeias se enfraquecem e eu as combino para que se fortaleçam. Mas, se ficar mais de uma rainha, uma delas voa e leva consigo um exército de abelhas, o que acarreta uma perda maior. Portanto, assim como não é permitido mais de uma esposa na casa, também não é permitido mais de uma rainha na colmeia. Minha comunidade iazidi sabe como eu odeio a poligamia”.
Um livro que me emocionou muitíssimo. Chorei com a história de Amina. Ela queria a criança, mas não permitiram. Ela queria aquela criança, mesmo sendo fruto de um estupro. Era seu filho! Ainda que não deixassem que a criança ficasse com ela, Amina foi atrás de seu filho. Ela sabia que era uma criança inocente do crime que cometeram contra ela. O que vai acontecer com Amina em sua busca por seu filho me quebrou totalmente. Não pelo que acontece em si somente, mas o que aconteceu só ocorre porque ela amava a criança, ainda que seu próprio povo rejeitasse seu filho.
Por tudo isso, durante a leitura, lembrei diversas vezes do belíssimo filme Mucize, que narra também uma delicada comunidade muçulmana no interior da Turquia. Também lembrei de outro filme, “O carteiro e o poeta”, em que vemos toda a beleza do amor sendo massacrada e violentada pelo comunismo. No livro “A tatuagem de pássaro”, é o Estado Islâmico quem vilipendia a beleza. Assim, ficamos tristes e maravilhados com a história contada por Dunya Mikhail. Terminei o livro querendo ler outras obras dessa autora delicada e profunda.
Fábio Ribas
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Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu? Clarice Lispector.