sábado, 10 de fevereiro de 2024

Viciados em mediocridade (VII/2024)

 


  Iniciei o pequeno, mas contundente livro de Frank Schaeffer, cheio de melindres devido ao que já sabia de sua atual rebeldia contra a pessoa e religião de seu pai e de sua mãe. “Viciados em mediocridade”, que só foi publicado no Brasil em 2008, saiu originalmente em 1982, portanto, um livro escrito e publicado décadas antes de quaisquer polêmicas posteriores. Pesquisei e li bastante material sobre a controvérsia dele com sua família. De fato, é muito triste, mas sempre há algo a nos ensinar. A cada novo fato que lia sobre as acusações de Frank Schaeffer aos seus pais e à comunidade de L’abri, ficava pensando em como seria um livro sobre mim e minha esposa escrito pelas minhas filhas. O que elas terão a falar e a recordar de nossa vida familiar e missionária? Verdadeiramente, todo pai e mãe cristãos têm um ministério recebido por Deus, um campo missionário desafiador, que são seus filhos. E jamais poderemos negligenciar este ensino evangélico de que nada nos adiantará ganhar o mundo, se perdermos a nossa própria alma. Assim, à parte da inevitabilidade da apostasia própria dos réprobos (e isto é um decreto eterno do qual não temos o menor controle), precisamos acompanhar as ovelhinhas que Deus colocou sob nossa responsabilidade, discernindo seus sinais de dúvidas quanto à fé que ensinamos e os possíveis sinais de negligência emocional, que, porventura, possamos estar cultivando neles.

 

    A apresentação de Sergio Pavarini ao livro de Frank Schaeffer adianta um pouco a rebeldia do atual Frank. Há dois livros dele que gostaria de ler e que já estão na lista de leitura deste ano: o “Loucos por Deus”, livro em que ele descreve sua relação conturbada com seus pais e o ministério no L’abri; o outro livro, “Por que sou um ateu que acredita em Deus”, é o da derrocada espiritual, em que Frank absorve essa espiritualidade flácida, sem cor e sem gênero de uma religiosidade à sua imagem e semelhança, bem ao gosto do público pós-moderno. Mas, neste texto, vamos ao “Viciados em mediocridade”.

 

    Ao contrário de outros livros que tenho lido, Frank dá o seu entendimento pessoal do que ele entende o que seja “artes”. E um dos pontos que ele logo nos chama a atenção é que aquilo que mais nos diferencia dos animais é a criatividade. Todavia, uma criatividade que precisa se mostrar na nossa habilidade em desfrutarmos de Deus e das pessoas. Assim, Frank entende arte como toda e qualquer expressão humana. Desde as “artes nobres” de um Michelângelo até as atitudes simples de uma cor que escolhemos para nosso quarto. Sendo a criatividade oriunda da nossa imagem e semelhança, é incompreensível para Frank que a Igreja negligencie tanto a arte em seu meio. E pior, que a igreja permita que a mediocridade que rodeia a igreja entre nela e determine o mau gosto nas músicas, na poesia, nos prédios e, até mesmo, no sermão pregado.

 

    Repetindo Rookmaaker, Frank afirma que a arte não precisa de justificativa, pois ela nasce de nossa imagem e semelhança dada por Deus. Ela simplesmente acontece e a beleza deveria surgir naturalmente na vida de cada um de nós. Mas, por que a Igreja negligencia a arte? A arte é importante para Deus. Basta vermos como que sua criação revela os detalhes de uma beleza “inútil”. Achei essa perspectiva de beleza “inútil” muito legal: “…vivemos em uma explosão pródiga em diversidade e beleza. Vivemos em um mundo repleto de beleza “inútil”, milhões de espécies, e indivíduos de infinita variedade, infinitos talentos e incontáveis habilidades” (p. 14). Desta ideia, o autor nos lança a mais duas: a beleza fora do planeta terra e — eis mais uma ideia fascinante para mim — a beleza que sequer vemos, mas que está no mundo espiritual e que teremos a eternidade para contemplá-la! Diante de tudo isso, Frank nos lembra que essa negligência com a arte é coisa recente, pois, historicamente, a Igreja sempre valorizou as artes como veículo da expressão humana: “Cristãos por muitos séculos dominaram a expressão criativa; eles a abraçaram, a apreciaram, a protegeram e se alegraram com ela, tomando-a como manifestação do dom divino aos homens” (p. 15).

 

    Defendida a tese da importância da arte, da criatividade, da beleza, dos dons e talentos, Frank mostra como que ficamos “viciados em mediocridade”. Houve, então, uma bancarrota que a Igreja se permitiu, perdendo sua relevância e seu papel de ponta no guiar a sociedade para valores mais altos. “Perdemos a habilidade de ser o sal da sociedade”, denuncia Frank. Como isso ocorreu? Segundo o autor, ou por estupidez e inabilidade de entendermos o problema ou por partirmos de um fundamento, princípios e pressupostos errados. Por tudo isso, o autor apregoa que esse sentimento anticultural e antiartístico da Igreja “vem da falta de compreensão das verdades bíblicas e do cristianismo aplicado às artes” (p. 22). O autor segue mostrando que houve fatores externos e internos que trouxeram a situação ao ponto em que se encontra: 1º) o secularismo que entrou e moldou pobremente a mentalidade da igreja; e 2º) a espiritualidade platônica que interpretou inequivocamente o mundo em “secular” e espiritual”. E para o autor, “o vazio deixado pelo desaparecimento de pessoas criativas no seio da comunidade cristã” tem se evidenciado especialmente na falta de habilidade para nos comunicar com o mundo e na nossa esterilidade sombria.

 

    Em determinado momento de “Viciados em mediocridade”, em dois, para ser mais preciso, lembrei-me de “Confissões de um pastor”, da Caio Fábio. Quando esse livro foi lançado, nenhum escândalo havia estourado publicamente ainda. Todavia, havia duas ou três situações estranhas que ele descreveu em seu livro que, na hora, compartilhei com minha esposa. Eram relacionadas ao casamento e vida sexual. Mostravam que havia coisas não resolvidas nessa área na vida dele. Quando, enfim, o adultério veio a público, isso só confirmou “os sinais” que ele havia deixado no livro. O “Viciados em mediocridade” foi escrito durante a década de 80, mas também há sinais, pistas, indícios que, mais tarde, revelariam que algo não estava bem tratado e curado no coração de Frank sobre seus pais. Ele viria a publicar um outro livro em 2008 (o “Loucos por Deus”, que eu comentei no início), no qual revelaria os bastidores dessa relação com seus pais. Por isso, não causou estranhamento algum que, por duas vezes, Frank faça questão de defender que verdadeira espiritualidade é cuidar e estar presente dentro de casa, com sua família. “Verdadeira espiritualidade” é um dos títulos de livro de Francis Schaeffer, que, segundo ele próprio dizia, era o último livro publicado por ele, mas o primeiro que deveria ser lido antes de toda sua obra.

 

                            Fábio Ribas

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