quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

União com Cristo



    “Deus determinou nos chamar com santa [e eficaz] vocação conforme uma decisão que aconteceu “em Cristo Jesus” e “antes dos tempos eternos”. Essa decisão de Deus foi a de derramar graça sobre os seus eleitos. Note que só é possível compreender esse versículo (2 Timóteo 1:8–9) se entendermos que, na eternidade, muito antes de nossa existência ou mesmo de qualquer previsão de boas obras de nossa parte, Deus decidiu dar graça aos seus eleitos, concebendo-os já em relação ao Senhor Jesus Cristo". ​
       “No texto de Efésios (1:4–5 e 11), tanto a escolha que Deus fez de parte da humanidade para que fosse santa quanto à predestinação para pertencermos ao próprio Deus por adoção aconteceram “nele”, “por meio de Jesus Cristo” e “em Cristo”. Essa escolha aconteceu antes da fundação do mundo. Do ponto de vista lógico, portanto, fomos planejados por Deus em união com Cristo e, por isso mesmo, escolhidos e predestinados. Do ponto de vista da decisão de Deus, nossa união com Cristo aconteceu na eternidade. Deus nos considerou como alvos de sua graça porque nos viu na eternidade, no momento da sua escolha, unidos ao seu santo Filho. Campos (Héber Carlos de) fala sobre isso da seguinte forma: “Estar em Cristo é algo definido antes da fundação do mundo, no decreto de eleição. Antes de o universo ser chamado à existência, já estávamos em Cristo. Assim como Deus, o Pai, escolheu Cristo, na eternidade, para ser o Redentor dos filhos dos homens, assim também colocou esses homens nele, para que recebessem as bênçãos advindas daquilo que ele iria fazer por eles"”.

    A união com Cristo é a doutrina basilar da fé. Ela é a origem, o meio e o fim da nossa caminhada. Tudo o mais é enlaçado por esta doutrina. Somos unidos a Cristo pelo propósito do Pai, que assim o quis antes da fundação do mundo, e por meio do Espírito Santo recebemos TUDO o que precisamos para nossa salvação e santificação. Esta é a grandeza do que nos traz o autor de “União com Cristo”, o Rev João Paulo Thomaz de Aquino.

    Mas o que é a união com Cristo? Quais as implicações disso? Deus escolheu alguns para que fossem resgatados do estrago do pecado, que nos levou à condenação da separação. A união com Cristo é o que torna possível essa reaproximação. Com ela, recebemos tudo o que precisamos para crescermos em santidade e lutarmos contra o pecado. É uma união mística atestada pela Bíblia e tratada nas Confissões e Credos Reformados. Estamos unidos a Cristo e isso torna possível nossa união com a Igreja.

    Assim, na primeira parte de seu livro, o autor nos faz uma apresentação bíblico-teológica da “união com Cristo”, trabalhando e aprofundando as metáforas que a própria Palavra de Deus fornece sobre essa doutrina: o casamento, o templo, a família, a videira e os ramos, escravos, corpo, banquete etc. Vemos, assim, como a Bíblia é rica em detalhar a natureza mística de nossa união com Cristo e, com isso, o autor nos esclarece e define o que é essa união. Na verdade, ele marca com clareza uma diferença para que possamos compreender o tema biblicamente tratado: a união mística, que é a união do cristão com o Deus trino (o Pai, o Filho e o Espírito Santo), só é possível mediante a união do indivíduo com Cristo. Assim, é a União com Cristo - e somente ela - que torna possível nossa união mística com Deus! 

    Na segunda parte do livro, vemos uma apresentação mais teológico-sistemática, em que o autor nos fala das características dessa união e como que ela se opera (modus operandi), além de mostrar como a doutrina da união com Cristo conosco se relaciona com todas as demais doutrinas de nossa salvação e santificação. Nesta parte do livro, vemos, entre outros, os aspectos legal, espiritual, vital, orgânico, pessoal e missional da doutrina. Assim como no livro “Vivendo em União com Cristo”, de Grant Macaskill, Rev Thomaz de Aquino irá tratar da relação da doutrina com os sacramentos do batismo e da ceia, além de abordar muito equilibradamente o tema da imitação de Cristo. Portanto, esses dois autores dialogam para que possamos elaborar uma missiologia da habitação, relacional e mística. Ainda nesta parte, é assombroso quando somos lançados por Rev. João Paulo à verdade bíblica de que Deus jamais se relacionou com seu Povo à parte de Cristo. Para explicar melhor isso, o autor apresenta os conceitos da união objetiva, que é a perspectiva de Deus na eternidade, e a união subjetiva, que é a nossa perspectiva no tempo da história de nossa vida pessoal. Dito isso, desde a eternidade, Deus só viu os seus eleitos por meio de Jesus. Deus sempre nos viu unidos ao seu Filho. A vinda de Jesus foi, portanto, para resgatar os seus eleitos para uma união subjetiva, histórica e individual por meio da Fé.

    Na terceira parte de seu livro, o Rev Thomaz de Aquino demonstra como a doutrina da nossa união com Cristo está presente de forma central na teologia de João Calvino. Ainda neste ponto, teremos o confronto de Calvino e Osiandro explicado de modo muito claro ao leitor, para que possamos criticar os movimentos teológicos mais recentes como a Nova Perspectiva em Paulo e a Nova Escola Finlandesa de interpretação de Lutero. O autor termina com um último esclarecimento: seria a união mística com Cristo a mesma coisa que a teose da teologia ortodoxa oriental? E a resposta é NÃO! É uma doutrina que tem sido usada por muitas pessoas, mas que carrega nela mais confusão do que explicação. Que seremos "deificados" é fato bíblico, mas não no sentido de que teremos a mesma substância divina, mas a ação, a atitude divina! Autores como Michael J. Gorman, de Inhabiting the Cruciform God [Habitando o Deus cruciforme], tem feito a propagação de heresias, pois o conceito dele de "teose" é algo que redefine a Deus, aproximando sua teologia muito mais da "teologia do processo" e da "teologia da cabana". Quero deixar as palavras sempre equilibradas de João Calvino sobre o tema da teose e a avaliação de Billings trazida no livro do Rev João Paulo:

    Se o Senhor partilhará com os eleitos sua glória, seu poder, sua justiça, mais ainda, se dará a eles a si mesmo para ser por eles usufruído, e o que é mais excelente, com eles coexistirá, de certo modo, em um, lembremo-nos de que sob este benefício está contido todo gênero de felicidade. E, quando tivermos avançado bastante nesta meditação, no entanto reconheceremos que, se a concepção de nossa mente for comparada com a sublimidade deste mistério, ainda ficaremos nas raízes mais inferiores. Portanto, devemos, neste aspecto, curvar-nos com mais sobriedade, para que, esquecidos de nossa própria limitação, pelo que com mais audácia subamos ao alto, o fulgor da glória celestial não nos trague. Sentimos também quão desmesurado é nosso desejo de saber mais do que é lícito, do que jorram incessantemente questões não apenas vãs, mas até mesmo nocivas. Chamo vãs aquelas das quais não se pode tirar nenhum proveito. Mas este segundo tipo é pior, porque os que se entregam a elas se enredilham em especulações perniciosas, razão por que as chamo nocivas (João Calvino, Institutas, III. 25.10).

  Nesta outra citação existe uma diferença entre a tradução em português, a tradução em inglês e o original em latim. Abaixo vou colocar a tradução em português e, entre colchetes, outra tradução em português seguida da tradução em inglês e do original em latim. Fomos unidos [insiticii facti]. Esta palavra [unidos ou enxertados] recebe grande ênfase e revela nitidamente que o apóstolo não nos está exortando, e, sim, ensinando acerca do benefício que derivamos de Cristo. Ele não está requerendo de nós algum dever que nossa prudência ou diligência pode realizar, mas está falando do enxerto que é efetuado pela mão divina. Não há razão para forçosamente aplicar a metáfora ou comparação a cada detalhe, pois a disparidade entre o enxerto de árvores e o nosso enxerto espiritual prontamente se evidencia. No enxerto de árvores, a parte enxertada extrai sua nutrição das raízes, mas retém sua propriedade natural no fruto que serve de alimento. No enxerto espiritual, contudo, não só derivamos o vigor e a seiva da vida que fluem de Cristo, mas também transmitimos de nossa própria natureza para a sua [mas também passamos da nossa própria natureza para a dele; but we also pass from our own nature into his; sed ineius naturam ex nostra demigramus].
  Depois de apresentar essas e outras citações, Billings chega à seguinte conclusão sobre a doutrina da teose em João Calvino: Eu defendo que Calvino ensina deificação de um tipo particular. Usando a linguagem de participação, enxerto e adoção em passagens selecionadas em Paulo e em João, Calvino ensina a participação da humanidade no Deus triúno, afirmando a união diferenciada da humanidade com Deus na criação e na redenção.

       Enfim, o livro do Rev João Paulo Thomaz de Aquino é uma obra de fôlego e que precisa ser lida e relida, estudada e aprofundada sempre. Um livro maravilhoso! Destaco ainda os temas da "individualidade em Cristo"; o tema dos dois representantes "o primeiro Adão e o segundo Adão"; e, finalmente, a explicação dada por ele de que, por causa da nossa União com Cristo, estávamos lá, nEle, realizando todas as coisas necessárias para nossa salvação, por isso a Bíblia pode afirmar que, se estamos em Cristo, não só com Ele morremos na Cruz, mas, com Ele, ressuscitamos! Glórias a Deus!!! Aleluias!!!


                      Fábio Ribas

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Igreja e Estado no Brasil Holandês

 


    Indubitavelmente, um trabalho de fôlego impressionante por parte do autor, Rev Frans Leonardo Schalkwijk. Na introdução, vemos a extensão de sua pesquisa em atas, tanto no Brasil como na Holanda, para que possamos ter um quadro mais exato do Brasil Holandês.

    Na primeira parte, Brasil e Holanda, interessa-me exatamente a maneira como o autor constrói e nos dá a entender qual a natureza do Cristianismo que os portugueses trouxeram ao Brasil. Um cristianismo sem Bíblia, assentado mas profundas convicções de uma Contra-Reforma que por aqui aportou.

    Encontramos, no livro de Schalkwijk, a formação do Brasil luso e, logo após, o Brasil ibérico. Ambos delineando o tipo de cristianismo que irá moldar a nossa consciência religiosa. É muitíssimo interessante ver tantos personagens conhecidos das nossas aulas de “História do Brasil” e de tantos outros livros que já li, mas que esquecemos de vê-los relacionados uns com os outros. Desde Lutero e Calvino, às perseguições de Felipe II, passando pela trágica “noite de São Bartolomeu”, vemos a reunião e confecção do Sínodo de Dort, a criação da Companhia das Índias, e até a história de Pedro Poti. Tudo isso é a história viva e correlacionada que ajuda o leitor a compreender o quadro do Brasil Holandês - ele não está destacado em meio ao nada, mas se insere numa moldura apresentada por  Schalkwijk.

    Vemos, portanto, a história dos protestantes europeus e como ela desagua na chegada dos holandeses entre nós. O autor confronta dois personagens: tanto Max Weber, que irá atribuir o crescimento do capitalismo à ética protestante, e Benjamim Franklin, que irá propagar uma ética individualista muito diferente do que Lutero e Calvino preconizaram. Isto é muitíssimo importante para a própria Igreja Evangélica Brasileira que faz confusão quanto a esses temas (tratando todo tipo de "individualismo" como um mal, da mesma forma que tende a idolatrar qualquer forma de coletivismo como um bem).

    A relação dos holandeses com os povos indígenas constituiria um capítulo à parte muito fascinante. Além disso, fascinante ver como que um homem como Maurício de Nassau exercia com sinceridade seu cristianismo. Virei fã desse personagem histórico. Por que Nassau foi embora do Brasil? Em algum momento do Brasil Holandês, houve 22 igrejas aqui. Podemos afirmar que, em 1644, eram 12 igrejas, sendo que 3 dessas eram em aldeias indígenas. Admirável! E deveríamos publicar mais essa história grandiosa que temos é a nossa história!

    As páginas sobre o culto (4.1.4) são curiosíssimas e envolventes. Mas o que vem a seguir, as organizações das igrejas, dos presbitérios e do Sínodo, tudo isso é muitíssimo envolvente. Outra questão interessantíssima é a enorme troca de cartas da Igreja Reformada no Brasil com  as igrejas dos Países Baixos, África e tantos outros. A Igreja Reformada no Brasil era uma igreja viva!

    O capítulo dos "Obreiros eclesiásticos" nos dá essa noção da dificuldade de vida que esses pastores e diáconos enfrentaram no Brasil. Dificuldades financeiras inclusive! E o problema também é o mesmo de sempre: falta de obreiros. Havia outras figuras de obreiros para dar conta da enorme seara: os predicantes, os consoladores e os proponentes. A Holanda, contudo, preferia deixar lacunas no Brasil do que enviar obreiros impróprios para cá! Amei saber disso!

    De novo: Nassau foi um cristão fora da curva! Ele nutriu um interesse e cuidado pelos órfãos da Igreja, que cresciam assustadoramente por causa das guerras no Brasil. Nassau investiu nas escolas infantis, que ensinavam em holandês, português e tupi!!! Nassau queria mais, mas seu período no Brasil foi curto. Até os portugueses da terra não queriam que ele fosse embora, a ponto de oferecerem salário para ele ficar!

    Dentro da dificílima realidade do que era aquele Brasil do século XVII, havia muita literatura espiritual usada pelos pastores e consoladores, mas o destaque era o Catecismo de Heidelberg, além das obras de William Perkins e Henrich Bullinger. Mais de 50 pastores da Holanda vieram trabalhar no Brasil! Estou apaixonado por este livro!

    O livro mostra a igreja missionária, principalmente seu esforço na evangelização dos portugueses. Mas eu achei bem interessante, em determinado momento, o autor afirmar que o excesso de liberdade religiosa dada pelos holandeses aos católicos pode ter sido um tiro no pé. Principalmente, quando comparamos Recife e Batávia (Indonésia). Nesta, a Igreja Reformada floresceu entre os portugueses. No Brasil, não. 

    O trabalho dos holandeses com os povos indígenas é de nos animar com nossa própria história. Não estou dizendo que não houve erros, contudo o que foi feito e da maneira que foi feito nas áreas da evangelização, plantio de igrejas, educação, engenharia e artes em geral é fruto da Providência divina. Um livro de cabeceira, certamente, mas que deve ser ensinado em nossas EBD’s! 

                Fábio Ribas

sábado, 6 de dezembro de 2025

A Tragédia de Guanabara: História dos Protomártires do Cristianismo no Brasil

 

    Já ficara encantado com o prefácio, datado de 1917, de Domingos Ribeiro. A escrita deste parece, até mesmo, anunciar o tom que leríamos a seguir, contudo, vindo da pena de Jean Crispin. Domingos Ribeiro faz um resumo do que leremos a seguir e, também, um apelo: como que histórias como essa podem ser tão desconhecidas da própria Igreja Evangélica no Brasil, ao que, então, ele pergunta pelo que se interessaram em contar essas histórias, pesquisar os documentos e escrever?

    Essa história, para mim, tem um sabor todo especial, porque fiz seminário para ser padre, minha formação foi católico romana. Quando ouvi essas histórias, pela primeira vez, foi no ano de 1995, quando sequer eu era crente ainda. Um missionário evangélico me contou sobre os huguenotes da Baía de Guanabara e sobre Pedro Poti, que veio depois. Por essas e tantas outras razões, sempre que posso, compartilho essas histórias desde lá. Porém, nada se compara à narrativa escrita por Jean Crespin.

    “A tragédia da Baía de Guanabara”, de Jean Crespin, apesar de ser uma história tão conhecida e, por mim mesmo, tantas vezes recontada, tem um colorido e um tom impressionantes. Estou impactado com a narrativa e os detalhes assombrosos que desconhecia. A grande informação nova para mim, por exemplo, é que Villegagnon já veio para o Brasil debaixo do engano que ele mesmo perpetuou: ele queria enriquecer, mas vendeu a ideia de que aqui seria um lugar de refúgio para os perseguidos da fé protestante. Para encarar a empreitada, ele reuniu dois grupos. O primeiro, de protestantes:

Para colimar o seu fim, só lhe restava encontrar gente fiel, de boa vida e educação, a fim de habitar com ele no Brasil; e eis porque fez publicar por toda parte que precisava de pessoas tementes a Deus, pacíficas e boas, pois bem sabia que lhe seriam mais úteis do que quaisquer outras, em virtude da esperança que tinham de formar uma congregação cujos membros fossem votados ao serviço divino.

    O segundo, de trabalhadores assalariados:

Era-lhe também indispensável assalariar trabalhadores e operários de todas as profissões, mas com muita dificuldade e mediante grande remuneração pôde encontrá-los, e isto mesmo entre gente rústica, sem a mais leve noção de honestidade e civilidade, impudica, dissoluta e dada a toda a sorte de vícios.

    No segundo grupo, olha o detalhe da nota de rodapé: "Claude Haton, em suas Memorias (edição Bourquelot, pag. 17) diz: "Com permissão do rei, Villegagnon visitou as prisões de Paris para ver os prisioneiros que lhe podiam ser úteis".

    Pelo que eu pude entender, depois de ser o pivô e aquele que tumultuou a cabeça de Villegagnon contra os genebrinos, Cointac retorna no barco para a Europa, enquanto 5 dos passageiros precisam retornar ao Brasil para que a embarcação não perecesse com todos. Principalmente, as questões por Villegagnon e Cointac levantadas foram sobre os sacramentos da Ceia e do Batismo, mas, na verdade, Villegagnon já estava “tomado pelo diabo”. Dali para frente, Villegagnon só mergulha ainda mais em suas próprias loucuras de perseguição.

    Porém, eu fui tão envolvido pela escrita de Jean Crespin, que, ao chegar na já tantas vezes lida Confissão da Baía de Guanabara, eu chorei. E talvez, pela primeira vez, a li com muita reverência, envergonhado de mim e da minha geração. 

                Fábio Ribas

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O sorriso escondido de Deus

    


    John Piper, em seu livro “The Hidden Smile of God: The Fruit of Affliction in the Lives of John Bunyan, William Cowper, and David Brainerd”, Crossway. 2001. Edição do Kindle, escreve sobre 3 cristãos que foram forjados por suas experiências dolorosas. Ele os chama de cisnes, porque os cisnes cantam antes de morrer.

    O primeiro é John Bunyan (1628-1688). Já pastor e bem conhecido por seus livros, viúvo e agora casado pela segunda vez com Elizabeth, Bunyan foi preso numa época de conflitos religiosos e políticos em que não se podia pregar sem a autorização do Rei Carlos II. Por isso, Bunyan foi preso por 12 anos! Contudo, foi numa segunda prisão, que durou 2 anos, que ele começa a escrever "O peregrino". Para Piper, as experiências de perda, luto e prisão de Bunyan, são um modelo para os cristãos que sofrem, pois foram nessas condições adversas que Bunyan cresceu e desenvolveu sua fé. Um modelo, portanto, de como vivenciar experiências adversas para crescer na fé.

    O segundo cristão trazido por Piper é William Cowper, autor do hino "God moves in a mysterious way", com o qual ele abre seu livro com um trecho desse poema. Exatamente, o trecho que nos mostra a razão do título do livro de Piper: “Judge not the Lord by feeble sense, But trust him for his grace;  Behind a frowning providence  He hides a smiling face”. Suas poesias e músicas refletem muito de suas lutas contra a depressão. Como ter fé em momentos tão difíceis assim? As crises de Cowper iam e vinham e assim permaneceram até o dia da sua morte. Cowper enfrentou uma depressão profunda aos seus 21 anos de idade. Suas batalhas mentais foram terríveis, a ponto de Cowper tentar suicídio. E sua tentativa de suicídio não foi brincadeira, ele tentou suicídio de três maneiras diferentes! Por causa disso, colocam Cowper num hospício. Mas Cowper, durante sua internação, encontra a Bíblia e é na história de Lázaro que ele encontra misericórdia de Deus para enfrentar suas lutas. Em outras palavras, as crises mentais são oportunidades para o nosso crescimento espiritual. Um outro ponto essencial na história de Cowper é sua amizade com John Newton, que foi compositor da conhecidíssima "Maravilhosa graça". Os poemas de Cowper refletem suas lutas e o anseio por Deus em meio às tempestades mentais que ele enfrentava. Todavia, Piper ressalta que precisamos compreender a biografia de Cowper debaixo da Soberania e graça de Deus. A depressão é uma doença que nos lança ao profundo poço de uma escuridão dentro de nós mesmos. Contudo, ficarmos lá não é a solução. A vida de Cowper nos mostra que, pela graça de Deus, sair de onde estamos, buscar amizades saudáveis, importar-se com o outro, auxiliado por Deus, são atitudes corretas para enfrentarmos tais desafios. Cowper namorou durante sete anos, mas o pai dela proibiu o casamento ás vésperas. Evidentemente, muito dos males mentais de Cowper derivaram disso. Mas, além de sua poesia, há muitos outros aspectos da vida de Cowper com os quais me identifiquei.

    O 3º e último cristão trazido por Piper é David Brainerd. Piper traz muitos mais detalhes sobre a biografia de Brainerd do que o livro "A vida de David Brainerd", de Jonathan Edwards. Ficamos sabendo de mais detalhes, por exemplo, sobre sua família, que, nas palavras de Piper, já tinha inclinação para a melancolia, e também sobre o problema que o levou a ser expulso da Universidade. Piper mesmo se questiona, olhando o movimento moderno de Missões, se esse teria ocorrido caso Brainerd não tivesse sido expulso da Universidade. Esse tipo de especulação de Piper revela seu objetivo com a piublicação de seu livro.

    John Piper, apresenta em seu ministério uma teologia cujo cerne defende que a verdadeira felicidade e contentamento na vida cristã vêm de deleitar-se em Deus. Todavia, o que mais me assombra em um livro que defende a Soberania de Deus nas mais terríveis adversidades de seus servos é que, apenas 5 anos depois de sua publicação, vê seu autor acometido por um câncer de próstata. Não há como não se surpreender com um Deus que vinha preparando Piper para quando ele também enfrentasse a sua própria adversidade. A verdadeira felicidade sempre residiu em buscarmos viver uma vida para a glória de Deus, independente do que estivéssemos enfrentando. A felicidade, e podemos constatar isso nos “cisnes” de Piper, não está nas coisas mundanas. Buscar o sorriso de Deus é o que sustentará nossa fé, dando-nos a estabilidade emocional e o descanso que precisamos em momentos adversos.

                            Fábio Ribas

Quase a mesma coisa

       Conversando com um amigo sobre tradução, logo lembrei deste fascinante livro de Umberto Eco. É um dos meus livros de cabeceira. Um li...