
“Deus determinou nos chamar com santa [e eficaz] vocação conforme uma decisão que aconteceu “em Cristo Jesus” e “antes dos tempos eternos”. Essa decisão de Deus foi a de derramar graça sobre os seus eleitos. Note que só é possível compreender esse versículo (2 Timóteo 1:8–9) se entendermos que, na eternidade, muito antes de nossa existência ou mesmo de qualquer previsão de boas obras de nossa parte, Deus decidiu dar graça aos seus eleitos, concebendo-os já em relação ao Senhor Jesus Cristo".
“No texto de Efésios (1:4–5 e 11), tanto a escolha que Deus fez de parte da humanidade para que fosse santa quanto à predestinação para pertencermos ao próprio Deus por adoção aconteceram “nele”, “por meio de Jesus Cristo” e “em Cristo”. Essa escolha aconteceu antes da fundação do mundo. Do ponto de vista lógico, portanto, fomos planejados por Deus em união com Cristo e, por isso mesmo, escolhidos e predestinados. Do ponto de vista da decisão de Deus, nossa união com Cristo aconteceu na eternidade. Deus nos considerou como alvos de sua graça porque nos viu na eternidade, no momento da sua escolha, unidos ao seu santo Filho. Campos (Héber Carlos de) fala sobre isso da seguinte forma: “Estar em Cristo é algo definido antes da fundação do mundo, no decreto de eleição. Antes de o universo ser chamado à existência, já estávamos em Cristo. Assim como Deus, o Pai, escolheu Cristo, na eternidade, para ser o Redentor dos filhos dos homens, assim também colocou esses homens nele, para que recebessem as bênçãos advindas daquilo que ele iria fazer por eles"”.
A união com Cristo é a doutrina basilar da fé. Ela é a origem, o meio e o fim da nossa caminhada. Tudo o mais é enlaçado por esta doutrina. Somos unidos a Cristo pelo propósito do Pai, que assim o quis antes da fundação do mundo, e por meio do Espírito Santo recebemos TUDO o que precisamos para nossa salvação e santificação. Esta é a grandeza do que nos traz o autor de “União com Cristo”, o Rev João Paulo Thomaz de Aquino.
Mas o que é a união com Cristo? Quais as implicações disso? Deus escolheu alguns para que fossem resgatados do estrago do pecado, que nos levou à condenação da separação. A união com Cristo é o que torna possível essa reaproximação. Com ela, recebemos tudo o que precisamos para crescermos em santidade e lutarmos contra o pecado. É uma união mística atestada pela Bíblia e tratada nas Confissões e Credos Reformados. Estamos unidos a Cristo e isso torna possível nossa união com a Igreja.
Assim, na primeira parte de seu livro, o autor nos faz uma apresentação bíblico-teológica da “união com Cristo”, trabalhando e aprofundando as metáforas que a própria Palavra de Deus fornece sobre essa doutrina: o casamento, o templo, a família, a videira e os ramos, escravos, corpo, banquete etc. Vemos, assim, como a Bíblia é rica em detalhar a natureza mística de nossa união com Cristo e, com isso, o autor nos esclarece e define o que é essa união. Na verdade, ele marca com clareza uma diferença para que possamos compreender o tema biblicamente tratado: a união mística, que é a união do cristão com o Deus trino (o Pai, o Filho e o Espírito Santo), só é possível mediante a união do indivíduo com Cristo. Assim, é a União com Cristo - e somente ela - que torna possível nossa união mística com Deus!
Na segunda parte do livro, vemos uma apresentação mais teológico-sistemática, em que o autor nos fala das características dessa união e como que ela se opera (modus operandi), além de mostrar como a doutrina da união com Cristo conosco se relaciona com todas as demais doutrinas de nossa salvação e santificação. Nesta parte do livro, vemos, entre outros, os aspectos legal, espiritual, vital, orgânico, pessoal e missional da doutrina. Assim como no livro “Vivendo em União com Cristo”, de Grant Macaskill, Rev Thomaz de Aquino irá tratar da relação da doutrina com os sacramentos do batismo e da ceia, além de abordar muito equilibradamente o tema da imitação de Cristo. Portanto, esses dois autores dialogam para que possamos elaborar uma missiologia da habitação, relacional e mística. Ainda nesta parte, é assombroso quando somos lançados por Rev. João Paulo à verdade bíblica de que Deus jamais se relacionou com seu Povo à parte de Cristo. Para explicar melhor isso, o autor apresenta os conceitos da união objetiva, que é a perspectiva de Deus na eternidade, e a união subjetiva, que é a nossa perspectiva no tempo da história de nossa vida pessoal. Dito isso, desde a eternidade, Deus só viu os seus eleitos por meio de Jesus. Deus sempre nos viu unidos ao seu Filho. A vinda de Jesus foi, portanto, para resgatar os seus eleitos para uma união subjetiva, histórica e individual por meio da Fé.
Na terceira parte de seu livro, o Rev Thomaz de Aquino demonstra como a doutrina da nossa união com Cristo está presente de forma central na teologia de João Calvino. Ainda neste ponto, teremos o confronto de Calvino e Osiandro explicado de modo muito claro ao leitor, para que possamos criticar os movimentos teológicos mais recentes como a Nova Perspectiva em Paulo e a Nova Escola Finlandesa de interpretação de Lutero. O autor termina com um último esclarecimento: seria a união mística com Cristo a mesma coisa que a teose da teologia ortodoxa oriental? E a resposta é NÃO! É uma doutrina que tem sido usada por muitas pessoas, mas que carrega nela mais confusão do que explicação. Que seremos "deificados" é fato bíblico, mas não no sentido de que teremos a mesma substância divina, mas a ação, a atitude divina! Autores como Michael J. Gorman, de Inhabiting the Cruciform God [Habitando o Deus cruciforme], tem feito a propagação de heresias, pois o conceito dele de "teose" é algo que redefine a Deus, aproximando sua teologia muito mais da "teologia do processo" e da "teologia da cabana". Quero deixar as palavras sempre equilibradas de João Calvino sobre o tema da teose e a avaliação de Billings trazida no livro do Rev João Paulo:
Se o Senhor partilhará com os eleitos sua glória, seu poder, sua justiça, mais ainda, se dará a eles a si mesmo para ser por eles usufruído, e o que é mais excelente, com eles coexistirá, de certo modo, em um, lembremo-nos de que sob este benefício está contido todo gênero de felicidade. E, quando tivermos avançado bastante nesta meditação, no entanto reconheceremos que, se a concepção de nossa mente for comparada com a sublimidade deste mistério, ainda ficaremos nas raízes mais inferiores. Portanto, devemos, neste aspecto, curvar-nos com mais sobriedade, para que, esquecidos de nossa própria limitação, pelo que com mais audácia subamos ao alto, o fulgor da glória celestial não nos trague. Sentimos também quão desmesurado é nosso desejo de saber mais do que é lícito, do que jorram incessantemente questões não apenas vãs, mas até mesmo nocivas. Chamo vãs aquelas das quais não se pode tirar nenhum proveito. Mas este segundo tipo é pior, porque os que se entregam a elas se enredilham em especulações perniciosas, razão por que as chamo nocivas (João Calvino, Institutas, III. 25.10).Nesta outra citação existe uma diferença entre a tradução em português, a tradução em inglês e o original em latim. Abaixo vou colocar a tradução em português e, entre colchetes, outra tradução em português seguida da tradução em inglês e do original em latim. Fomos unidos [insiticii facti]. Esta palavra [unidos ou enxertados] recebe grande ênfase e revela nitidamente que o apóstolo não nos está exortando, e, sim, ensinando acerca do benefício que derivamos de Cristo. Ele não está requerendo de nós algum dever que nossa prudência ou diligência pode realizar, mas está falando do enxerto que é efetuado pela mão divina. Não há razão para forçosamente aplicar a metáfora ou comparação a cada detalhe, pois a disparidade entre o enxerto de árvores e o nosso enxerto espiritual prontamente se evidencia. No enxerto de árvores, a parte enxertada extrai sua nutrição das raízes, mas retém sua propriedade natural no fruto que serve de alimento. No enxerto espiritual, contudo, não só derivamos o vigor e a seiva da vida que fluem de Cristo, mas também transmitimos de nossa própria natureza para a sua [mas também passamos da nossa própria natureza para a dele; but we also pass from our own nature into his; sed ineius naturam ex nostra demigramus].Depois de apresentar essas e outras citações, Billings chega à seguinte conclusão sobre a doutrina da teose em João Calvino: Eu defendo que Calvino ensina deificação de um tipo particular. Usando a linguagem de participação, enxerto e adoção em passagens selecionadas em Paulo e em João, Calvino ensina a participação da humanidade no Deus triúno, afirmando a união diferenciada da humanidade com Deus na criação e na redenção.
Enfim, o livro do Rev João Paulo Thomaz de Aquino é uma obra de fôlego e que precisa ser lida e relida, estudada e aprofundada sempre. Um livro maravilhoso! Destaco ainda os temas da "individualidade em Cristo"; o tema dos dois representantes "o primeiro Adão e o segundo Adão"; e, finalmente, a explicação dada por ele de que, por causa da nossa União com Cristo, estávamos lá, nEle, realizando todas as coisas necessárias para nossa salvação, por isso a Bíblia pode afirmar que, se estamos em Cristo, não só com Ele morremos na Cruz, mas, com Ele, ressuscitamos! Glórias a Deus!!! Aleluias!!!
Fábio Ribas