(II, I): "As pessoas não querem aprender. Elas não querem se dobrar diante da evidência. A mente, a razão, não quer se submeter. Precisamos desdobrar e estender os argumentos, porque a razão humana, fraca e frágil, resiste à luz da verdade e não quer ser transformada pela fé e pelo amor". Que coisa mais atual, não?
Agostinho recorda o que tratou no Livro I: 1) que não se deve culpar os cristãos pela calamidade sofrida em Roma, achando que os males sofridos foi por esses proibirem os cultos aos demônios; 2) deve-se reconhecer a misericórdia que houve por parte dos bárbaros invasores àqueles que usaram o nome de Cristo para serem poupados dos direitos da guerra que esses invasores tinham (roubar, matar, estuprar); 3) por que veio sobre cristãos e pagãos os mesmos infortúnios? 4) finalmente, Agostinho consola as mulheres dizendo que elas foram "feridas no seu pudor e não na sua castidade".
Agostinho agora passará a lembrar que a decadência da beleza moral de Roma já havia começado, independente da existência dos cristãos (II,II). (II, III) Agostinho apela para o tempo antes da encarnação de Cristo, para mostrar que males sempre vieram sobre toda a Roma. (II, IV) A tese aqui de Agostinho é mostrar que os deuses romanos nunca se importaram com a imoralidade de seus fiéis. "Alguma vez, houve da parte dos deuses incentivo à virtude em vez de festins de vícios?" (II, V). Havia uma festa celebrada à mãe dos deuses, uma festa de obscenidade tal que Agostinho questiona se aquelas músicas cantadas a essa mãe dos deuses seriam cantadas às mães desses cantores quando chegassem em casa. Ou se os heróis virtuosos de Roma, como um senador que Agostinho cita, gostaria que sua mãe fosse elevada ao status de deusa e recebesse adoração obscena como aquela. Ouvindo este argumento de Agostinho, fica fácil ver como houve também desvios no cristianismo: os cristãos substituíram a sede de adoração pagã, que os levava à orgia, pela adoração de "heróis virtuosos" como Maria, mãe de Jesus, que saciaria essa sede de intercessão, levando seus devotos à virtude... Isto é uma contextualização (uma contextualização equivocada).
(II, VI) Agostinho mostra que os deuses nunca refrearam a imoralidade dos romanos. (II, VII) A filosofia grega é superior à mitologia romana. (II, VIII) Até os poetas, que encenam nos teatros suas histórias, conseguem velar as obscenidades, por que seus deuses não? (II, IX) "Nossas leis das Doze Tábuas, ao contrário, tão avaras da pena capital, decretaram-na para todo cidadão que manchasse a honra alheia por meio de poesias ou representações ultrajantes. E, com efeito, ao julgamento, à censura legítima dos magistrados, não ao capricho dos poetas, que nossa vida deve ser submetida; devemos estar ao abrigo da injúria, se não nos é permitido responder e defender-nos em juízo" - há limites aos próprios poetas, por que os deuses são tão licenciosos? (II, X) O fato dos deuses não reagirem às mentiras criadas pelos poetas no teatro sobre eles é que, na verdade, esses deuses são demônios. Os demônios é que não se importam com o que se digam deles. (II, XI) "Com efeito, por que honrar os sacerdotes que tornam os deuses propícios, graças ao sangue das vítimas, e apontar como infames os atores, instrumentos dos prazeres cênicos reclamados pelos deuses como honra cuja omissão, segundo suas próprias ameaças, provocaria a cólera celeste?", defende Agostinho."
Os romanos proibiram em obras como A República, de Cipião, que os poetas difamassem os homens, mas eram liberais com o maldizer aos deuses. Enfim, os deuses eram baixos e rebaixados. Mas qual o objetivo de Agostinho com esse argumento? Por que estariam os deuses romanos preocupados com o Cristianismo (amaldiçoando Roma, por causa dos cristãos) se os próprios romanos em suas poesias e teatro sempre zombaram deles? (II, XII); Agora Agostinho foi genial desnudando a hipocrisia dos romanos: os deuses haviam fornecido as artes para que, por meio delas, eles fossem adorados, por isso, os gregos honravam os atores, pois eles eram os sacerdotes desse culto exigido pelos deuses; os romanos, que censuravam toda arte que difamava os homens, incentivavam o escárnio aos deuses por meio delas e, estranhamente, consideravam os atores homens indignos não só de pertencerem ao Senado, mas à própria tribo; ao que Agostinho expõe a diferença entre os gregos e os romanos, pois não deveriam todos estranhar que os próprios deuses fornecessem o culto de seu escárnio? Diz Agostinho: "Os gregos erigem em princípio: Se se deve culto a tais deuses, devem-se honras a tais homens. Mas é impossível honrar semelhantes homens, objetam os romanos. E os cristãos concluem: Logo, é impossível adorar deuses assim" (II, XIII).
A razão nunca antes dita a mim (será que algum dos meu professores, de fato, leu "Cidade de Deus"?) do porquê Platão condena para fora da cidade ideal os poetas está aqui. Os poetas aqui são os autores desses teatros que louvam as obscenidades dos deuses, mas como bem entendeu Platão, poderiam os poetas com essas histórias sobre os deuses educar a juventude? Os poetas só proclamam seus vícios, porque é assim que os deuses querem ser cultuados (II, XIV, 1); portanto, Agostinho diz que se deve preferir Platão a todos esses cultuadores de demônios, os poetas (II, XIV, 2); para mim, mais uma vez, está claro o mecanismo mental que será usado para abrir no cristianismo a possibilidade da veneração dos santos (II, XV); os romanos não receberam de seus deuses leis para viver melhor, que deuses são esses que abandonam seus adoradores? (II, XVI); os deuses não teriam dado leis por serem os romanos já obedientes a elas na mente e no coração? Agostinho mostra que a história revela uma Roma que cresce de erro em erro.
"Você, contudo, vê, segundo penso, e quem quer que repare nisso perceberá com bastante clareza em que lodaçal de péssimos costumes Roma se atolou antes do advento de nosso Rei celeste" - este é o argumento que Agostinho vem desenvolvendo diante dos Romanos que queriam acusar que suas desgraças só vieram sobre eles por causa do cristianismo (II, XVIII, 3); o cristianismo foi um freio na devassidão e na vida dissoluta dos romanos, que, colocando fim ao culto de falsos deuses, arrancou-os de uma adoração depravada (II, XIX); Agostinho mostrará que a opção dos inimigos do cristianismo é um estilo de vida corrupto, licencioso e depravado que só irá destruir cada vez mais à Roma (II, XX); até seus filósofos e políticos falaram da decadência romana, antes do cristianismo chegar, argumenta Agostinho, que, então, declara: "Verdadeira justiça existe apenas na república cujo fundador e governo é Cristo, se nos agrada chamá-la república, porque não podemos negar que seja também coisa do povo. Se, porém, tal nome, que em outros lugares tem significado diferente, se aparta muito de nossa linguagem corrente, pelo menos na Cidade de que diz a Escritura: Coisas gloriosas disseram-se de ti, Cidade de Deus, se encontra a verdadeira justiça" (II, XXI); os deuses romanos nunca se preocuparam com o bem viver do povo, abandonando-os à dissolução (II, XXII); olha a teologia da História de Agostinho: "Não quero atribuir a não sei que deusa Marica a sangrenta felicidade de Mário, mas especialmente à oculta Providência de Deus, para tapar-lhes a boca e livrar do erro os que tratam esse ponto sem parcialidade, mas com prudência e tino. Com efeito, se algum poder os demônios têm nessas coisas, não é mais do que o permitido pela secreta vontade do Onipotente" (II, XXIII).
"Por que cuidaram os deuses de anunciar como faustos semelhantes acontecimentos e nenhum deles tratou de corrigir Sila, fazendo-o sabedor dos inúmeros males que ocasionariam suas furiosas guerras civis, não apenas capazes de desonrar a república, mas até mesmo de acabar com ela? É óbvio, com efeito, como já declarei tantas vezes e as Letras Sagradas nos mostram, que esses deuses não passam de demônios" (II, XXIV, 1); se os deuses romanos tivessem abandonado seus adoradores por causa do vil comportamento deles, mas não! Os deuses eram piores que seus adoradores, como, então, querer colocar sobre Cristo os males de Roma? (II, XXV, 2); se é verdade que, dentro dos templos, em particular, a poucos, os deuses falam de virtudes, enquanto no público dizem torpezas, mais uma razão para ver sua pérfida dubiedade (II, XXVI. 1); não há virtude nos deuses. Eles exigiam que os atores fizessem em cena suas torpezas, mostrando em público aquilo que é feito no segredo do quarto, exigindo adoração (II, XXVI, 2); os deuses não apenas exigiam dos poetas e dos atores que se mostrassem publicamente suas torpezas, mas incentivavam o público que os imitassem (II, XXVII); o que os inimigos do cristianismo detestam? Que o povo vá às igrejas ouvir como viver bem para herdar a vida eterna? O povo ouve dos púlpitos virtudes para fugirem dos vícios ensinados pelos falsos deuses (II, XXVIII).
Agostinho termina o livro II com um convite aos romanos: arrependam-se! "Volve-te, agora, para a pátria celeste. Por ela trabalharás pouco e nela terás eterno e verdadeiro reino. Não encontrarás o fogo de Vesta, nem a pedra do Capitólio, mas Deus, uno e verdadeiro, que não te porá limites ao poder, nem duração ao império" (II, XXIX, I). "Não andes à caça de deuses falsos e enganadores! Despreza-os e afasta-os de ti, elevando-te à verdadeira liberdade! Não são deuses, são espíritos malignos, para quem é suplício tua eterna felicidade" (II, XXIX, 2).
Fábio Ribas