sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Cidade de Deus - Livro II (IV/2025)

    (II, I): "As pessoas não querem aprender. Elas não querem se dobrar diante da evidência. A mente, a razão, não quer se submeter. Precisamos desdobrar e estender os argumentos, porque a razão humana, fraca e frágil, resiste à luz da verdade e não quer ser transformada pela fé e pelo amor". Que coisa mais atual, não? 

    Agostinho recorda o que tratou no Livro I: 1) que não se deve culpar os cristãos pela calamidade sofrida em Roma, achando que os males sofridos foi por esses proibirem os cultos aos demônios; 2) deve-se reconhecer a misericórdia que houve por parte dos bárbaros invasores àqueles que usaram o nome de Cristo para serem poupados dos direitos da guerra que esses invasores tinham (roubar, matar, estuprar); 3) por que veio sobre cristãos e pagãos os mesmos infortúnios? 4) finalmente, Agostinho consola as mulheres dizendo que elas foram "feridas no seu pudor e não na sua castidade". 

    Agostinho agora passará a lembrar que a decadência da beleza moral de Roma já havia começado, independente da existência dos cristãos (II,II). (II, III) Agostinho apela para o tempo antes da encarnação de Cristo, para mostrar que males sempre vieram sobre toda a Roma. (II, IV) A tese aqui de Agostinho é mostrar que os deuses romanos nunca se importaram com a imoralidade de seus fiéis. "Alguma vez, houve da parte dos deuses incentivo à virtude em vez de festins de vícios?" (II, V). Havia uma festa celebrada à mãe dos deuses, uma festa de obscenidade tal que Agostinho questiona se aquelas músicas cantadas a essa mãe dos deuses seriam cantadas às mães desses cantores quando chegassem em casa. Ou se os heróis virtuosos de Roma, como um senador que Agostinho cita, gostaria que sua mãe fosse elevada ao status de deusa e recebesse adoração obscena como aquela. Ouvindo este argumento de Agostinho, fica fácil ver como houve também desvios no cristianismo: os cristãos substituíram a sede de adoração pagã, que os levava à orgia, pela adoração de "heróis virtuosos" como Maria, mãe de Jesus, que saciaria essa sede de intercessão, levando seus devotos à virtude... Isto é uma contextualização (uma contextualização equivocada). 

    (II, VI) Agostinho mostra que os deuses nunca refrearam a imoralidade dos romanos. (II, VII) A filosofia grega é superior à mitologia romana. (II, VIII) Até os poetas, que encenam nos teatros suas histórias, conseguem velar as obscenidades, por que seus deuses não? (II, IX) "Nossas leis das Doze Tábuas, ao contrário, tão avaras da pena capital, decretaram-na para todo cidadão que manchasse a honra alheia por meio de poesias ou representações ultrajantes. E, com efeito, ao julgamento, à censura legítima dos magistrados, não ao capricho dos poetas, que nossa vida deve ser submetida; devemos estar ao abrigo da injúria, se não nos é permitido responder e defender-nos em juízo" - há limites aos próprios poetas, por que os deuses são tão licenciosos? (II, X) O fato dos deuses não reagirem às mentiras criadas pelos poetas no teatro sobre eles é que, na verdade, esses deuses são demônios. Os demônios é que não se importam com o que se digam deles. (II, XI) "Com efeito, por que honrar os sacerdotes que tornam os deuses propícios, graças ao sangue das vítimas, e apontar como infames os atores, instrumentos dos prazeres cênicos reclamados pelos deuses como honra cuja omissão, segundo suas próprias ameaças, provocaria a cólera celeste?", defende Agostinho."

    Os romanos proibiram em obras como A República, de Cipião, que os poetas difamassem os homens, mas eram liberais com o maldizer aos deuses. Enfim, os deuses eram baixos e rebaixados. Mas qual o objetivo de Agostinho com esse argumento? Por que estariam os deuses romanos preocupados com o Cristianismo (amaldiçoando Roma, por causa dos cristãos) se os próprios romanos em suas poesias e teatro sempre zombaram deles? (II, XII); Agora Agostinho foi genial desnudando a hipocrisia dos romanos: os deuses haviam fornecido as artes para que, por meio delas, eles fossem adorados, por isso, os gregos honravam os atores, pois eles eram os sacerdotes desse culto exigido pelos deuses; os romanos, que censuravam toda arte que difamava os homens, incentivavam o escárnio aos deuses por meio delas e, estranhamente, consideravam os atores homens indignos não só de pertencerem ao Senado, mas à própria tribo; ao que Agostinho expõe a diferença entre os gregos e os romanos, pois não deveriam todos estranhar que os próprios deuses fornecessem o culto de seu escárnio? Diz Agostinho: "Os gregos erigem em princípio: Se se deve culto a tais deuses, devem-se honras a tais homens. Mas é impossível honrar semelhantes homens, objetam os romanos. E os cristãos concluem: Logo, é impossível adorar deuses assim" (II, XIII). 

    A razão nunca antes dita a mim (será que algum dos meu professores, de fato, leu "Cidade de Deus"?) do porquê Platão condena para fora da cidade ideal os poetas está aqui. Os poetas aqui são os autores desses teatros que louvam as obscenidades dos deuses, mas como bem entendeu Platão, poderiam os poetas com essas histórias sobre os deuses educar a juventude? Os poetas só proclamam seus vícios, porque é assim que os deuses querem ser cultuados (II, XIV, 1); portanto, Agostinho diz que se deve preferir Platão a todos esses cultuadores de demônios, os poetas (II, XIV, 2); para mim, mais uma vez, está claro o mecanismo mental que será usado para abrir no cristianismo a possibilidade da veneração dos santos (II, XV); os romanos não receberam de seus deuses leis para viver melhor, que deuses são esses que abandonam seus adoradores? (II, XVI); os deuses não teriam dado leis por serem os romanos já obedientes a elas na mente e no coração? Agostinho mostra que a história revela uma Roma que cresce de erro em erro.

    "Você, contudo, vê, segundo penso, e quem quer que repare nisso perceberá com bastante clareza em que lodaçal de péssimos costumes Roma se atolou antes do advento de nosso Rei celeste" - este é o argumento que Agostinho vem desenvolvendo diante dos Romanos que queriam acusar que suas desgraças só vieram sobre eles por causa do cristianismo (II, XVIII, 3); o cristianismo foi um freio na devassidão e na vida dissoluta dos romanos, que, colocando fim ao culto de falsos deuses, arrancou-os de uma adoração depravada (II, XIX); Agostinho mostrará que a opção dos inimigos do cristianismo é um estilo de vida corrupto, licencioso e depravado que só irá destruir cada vez mais à Roma (II, XX);  até seus filósofos e políticos falaram da decadência romana, antes do cristianismo chegar, argumenta Agostinho, que, então, declara: "Verdadeira justiça existe apenas na república cujo fundador e governo é Cristo, se nos agrada chamá-la república, porque não podemos negar que seja também coisa do povo. Se, porém, tal nome, que em outros lugares tem significado diferente, se aparta muito de nossa linguagem corrente, pelo menos na Cidade de que diz a Escritura: Coisas gloriosas disseram-se de ti, Cidade de Deus, se encontra a verdadeira justiça" (II, XXI); os deuses romanos nunca se preocuparam com o bem viver do povo, abandonando-os à dissolução (II, XXII); olha a teologia da História de Agostinho: "Não quero atribuir a não sei que deusa Marica a sangrenta felicidade de Mário, mas especialmente à oculta Providência de Deus, para tapar-lhes a boca e livrar do erro os que tratam esse ponto sem parcialidade, mas com prudência e tino. Com efeito, se algum poder os demônios têm nessas coisas, não é mais do que o permitido pela secreta vontade do Onipotente" (II, XXIII).

    "Por que cuidaram os deuses de anunciar como faustos semelhantes acontecimentos e nenhum deles tratou de corrigir Sila, fazendo-o sabedor dos inúmeros males que ocasionariam suas furiosas guerras civis, não apenas capazes de desonrar a república, mas até mesmo de acabar com ela? É óbvio, com efeito, como já declarei tantas vezes e as Letras Sagradas nos mostram, que esses deuses não passam de demônios" (II, XXIV, 1); se os deuses romanos tivessem abandonado seus adoradores por causa do vil comportamento deles, mas não! Os deuses eram piores que seus adoradores, como, então, querer colocar sobre Cristo os males de Roma? (II, XXV, 2); se é verdade que, dentro dos templos, em particular, a poucos, os deuses falam de virtudes, enquanto no público dizem torpezas, mais uma razão para ver sua pérfida dubiedade (II, XXVI. 1); não há virtude nos deuses. Eles exigiam que os atores fizessem em cena suas torpezas, mostrando em público aquilo que é feito no segredo do quarto, exigindo adoração (II, XXVI, 2); os deuses não apenas exigiam dos poetas e dos atores que se mostrassem publicamente suas torpezas, mas incentivavam o público que os imitassem (II, XXVII); o que os inimigos do cristianismo detestam? Que o povo vá às igrejas ouvir como viver bem para herdar a vida eterna? O povo ouve dos púlpitos virtudes para fugirem dos vícios ensinados pelos falsos deuses (II, XXVIII). 

    Agostinho termina o livro II com um convite aos romanos: arrependam-se! "Volve-te, agora, para a pátria celeste. Por ela trabalharás pouco e nela terás eterno e verdadeiro reino. Não encontrarás o fogo de Vesta, nem a pedra do Capitólio, mas Deus, uno e verdadeiro, que não te porá limites ao poder, nem duração ao império" (II, XXIX, I). "Não andes à caça de deuses falsos e enganadores! Despreza-os e afasta-os de ti, elevando-te à verdadeira liberdade! Não são deuses, são espíritos malignos, para quem é suplício tua eterna felicidade" (II, XXIX, 2).

            Fábio Ribas

sábado, 18 de janeiro de 2025

Um pequeno herói (III/2025)


 

    Seguindo a ordem cronológica dos escritos de Dostoiévski, "O pequeno herói" vem depois de Netotchka Nezvanova. Este é uma novela inacabada, parece que o projeto de Dostoiévski era fazer um "romance de formação", em que a personagem principal, uma artista famosa, revê a vida e os caminhos, desde sua infância, que a levaram até sua maturidade. 

    Aqui, em "Um pequeno herói", Dostoiévski retorna ao tema da infância. Porém, o personagem principal é um menino de 11 anos de idade. Tudo aqui parece ser diferente do que Dostoiévski fizera até então: a história não se passa em São Petersburgo, mas nos arredores de Moscou; os personagens não são "gente pobre" ou funcionários públicos, mas a aristocracia latifundiária; outra coisa que me chama a atenção é que, se nos outros textos apareciam relações de homens bem mais velhos com meninas bem mais novas, desta vez é sobre a primeira paixão desse menino. O alvo de seu amor é uma mulher casada. 

    O contexto "para fora" do texto precisa entrar em questão aqui, pois Dostoiévski está em cárcere na Fortaleza Pedro e Paulo. Ainda que suas condições de prisão sejam melhores que de outros presos - até mesmo de seu irmão, preso por engano - mas estamos diante de um Dostoiévski sendo interrogado insistentemente durante o processo de seu julgamento. Frank Joseph, seu biógrafo, que estou lendo paralelamente aos livros de Dostoiévski, faz uma ponte muito interessante. "Um pequeno herói" é um livro claro, iluminado e florido, mostra-nos Frank, jamais diríamos que aquela história vem da pena de um encarcerado. Não há um traço de amargura nessa novela. Contudo, como disse, Frank propõe uma ponte interessante: seria "o pequeno herói" a metáfora do escritor nesse processo de tantas inquirições? Devemos lembrar que ele está preso por participar de um grupo revolucionário, que fora acusado de querer derrubar o regime tzarista. Assim, durante aquele processo, querem que Dostoiévski entregue nomes, confesse crimes, revele conspirações. Porém, ele não tem nada a dizer. Ele nem se incrimina e nem incrimina a outros. Segundo lemos na biografia de Frank, Dostoiévski não era contra o tzarismo, ao contrário, creditava ao regime a sobrevivência da Rússia que chegara até ali. É verdade que nosso escritor é um socialista, mas um socialista utópico e religioso. Ele se aproximara dos radicais ateus, porque o ódio à escravidão dos camponeses era o ponto que os unia. Então, Frank faz a ponte: será que aquela cena de um menino que não entrega sua amada e nem a expõe ao escândalo seria o próprio Dostoiévski? Não sei, mas é bem possível.

    Gostei muito desta pequena novela. Entre ela e os próximos escritos pós-exílio, há tudo que ele escreveu até 1848. Então, trarei sobre essa primeira fase antes de seguir adiante, para fecharmos essa primeira parte da vida de Dostoiévski, a que Frank chama de "as sementes da revolta".     

            Fábio Ribas

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Cidade de Deus - Livro I (II/2025)

 

    Dizer que estou maravilhado é pouco. Já havia lido "Confissões", "Solilóquios" e "A Trindade". Livros arrebatadores! Qual não está sendo, contudo, minha surpresa com a profunda argumentação agostiniana neste "De civitate Dei"? Agostinho, neste "LIVRO I", inicia sua defesa contra as acusações de ser o cristianismo o responsável pela ruina dos romanos ("os antigos deuses romanos estariam enfurecidos por terem sido esquecidos"). Todavia, a sede de conquistar novos reinos, a luxúria, a devassidão moral de seus habitantes e a idolatria é que são, para Agostinho, a verdadeira causa da derrocada romana. Mas o que desperta essas acusações contra o Cristianismo?

    Os bárbaros entraram em Roma. Entretanto, contextualizando melhor, esses "bárbaros", na verdade, são cristãos arianos (uma seita que não acreditava nem na Trindade e nem na divindade de Cristo). Por isso, eles poupam os cidadãos romanos que se refugiaram nos templos cristãos. Isto, indubitavelmente, é algo inédito. Agostinho mostra que nunca se vira um povo conquistador fazer esse tipo de misericórdia com o povo conquistado. Quando, antes, se ouvira falar de pessoas poupadas por terem se abrigado nos templos pagãos? Este é o início do argumento de Agostinho: o bem que o cristianismo trouxe ao Império Romano. Em outras palavras, estamos diante de um processo civilizatório. Mas, para mim, o mais extraordinário está por vir, que é toda a discussão de Agostinho sobre o suicídio das mulheres que foram estupradas pelo povo conquistador. Vamos entender.

    Os pagãos estão acusando o Cristianismo de trazer a desgraça à Roma. Eles acusam indagando de que teria valido a conversão ao cristianismo e o abandono aos antigos deuses, se os males vieram tanto sobre pagãos como também sobre os cristãos? E é a partir disso que este gigante - Agostinho - começa a fazer uma teologia da história e da Providência. Se males vieram indiscriminadamente, também vieram bens sobre todos, defende Agostinho. Isto é o esperado na "Cidade dos homens", enquanto a "Cidade de Deus" não se revela completa e plena (o que só ocorrerá na volta do Senhor Jesus). Na Cidade dos homens, que está entrelaçada à Cidade de Deus, tanto males como bens ocorrem indiscriminadamente. Porém, o que se deve atentar não é isso, pois, para Agostinho, o que importa é a diferença no modo que cristãos e pagãos enfrentam seus males e bens. Tanto num quanto no outro, os homens se perdem. Os cristãos, defenderá Agostinho, enfrentam as adversidades da vida tanto para sua purificação, como para o testemunho da glória de Deus, pois os cristãos vivem na esperança de um mundo por vir e os pagãos não!

    É no avanço do livro que descobrimos o que realmente seriam esses tais males. Os bárbaros que invadiram Roma pouparam os que se refugiaram nas igrejas, pouparam tanto a cristãos como a pagãos. E Agostinho joga na cara dos pagãos isto: Como que vocês se levantam contra o Cristianismo, se, durante a invasão dos bárbaros, vocês mesmos foram poupados por se refugiarem nas nossas igrejas? Ainda assim, os bárbaros fizeram aos outros o que era próprio das guerras: assassinaram, roubaram, estupraram. Diante do estupro, em Roma, era de se esperar que tais mulheres se suicidassem. Os Romanos justificavam essa prática (tanto o suicídio da mulher depois do estupro, como o suicídio para não enfrentar o estupro) com a história de Lucrécia, que fora violada e, depois, suicidara. Ela era o padrão dos romanos para suas mulheres. Agostinho irá trabalhar essa história de Lucrécia. Primeiramente, ele louvará as suas virtudes, pois ela se guardara casta num mundo libertino. Porém, uma vez estuprada, "Lucrécia mata Lucrécia". E por que ela faz isso? Agostinho trabalha principalmente a ideia da honra social, diante das pessoas. Mas as virgens cristãs também foram estupradas.

    Diante do estupro, Roma esperava que as mulheres suicidassem, tanto as cristãs como as pagãs. Agostinho irá dizer que na lei de Deus está escrito: "Não matarás"! "Lucrécia não podia ter matado Lucrécia". As mulheres cristãs não vão suicidar, por amor ao Deus que elas servem e à Palavra dEle. Embora pareça honroso se matar para não ser violada, protegendo a castidade do corpo, Agostinho defende que a verdadeira castidade é a da alma e um estupro não tiraria essa virtude das mulheres! Mas o "Não matarás" tem exceções? Sim, na Bíblia, há exceções, contudo nenhum dos casos é por razões de honra social (podemos mesmo substituir: "nenhum dos casos é por razões culturais"). A cultura não pode legitimar crimes! As exceções bíblicas surgiram quando o próprio Deus assim o fez. Ligado a este argumento, Agostinho dirá que só se pode tirar a vida para agradar a Deus em santidade: é o caso dos mártires! E mesmo assim essa entrega da própria vida à morte deve ser quando a situação for bem clara, pois a orientação do próprio Jesus é de que seus discípulos, uma vez perseguidos, saiam para outra cidade. 

    O que mais me impressionou é que toda essa defesa de Agostinho não apenas fará com que o suicídio das estupradas pare de ser incentivado na cultura romana, como ele conseguirá até o apoio estatal para essas mulheres! O que isto significa? Este é um caso claro, óbvio, espantoso da transição da mentalidade pagã para a civilização promovida pelo Cristianismo. Fico pensando nos casos de infanticídio indígena; circuncisão feminina; etc. É fato que o Evangelho, tendo o próprio Povo de Deus como referência no meio dos povos, traz benefícios inquestionáveis a tantas culturas mundo afora. 

    No fim do livro I, encontramos a polêmica levantada sobre o teatro. Muitos acusam Agostinho de ser contra as artes cênicas, por causa dos últimos capítulos do primeiro livro da Cidade de Deus. Porém, sei que há outra obra em que ele fala sobre a importância da arte para a formação do ser humano e, além disso, o contexto no LIVRO I expressa que a acusação daquelas artes cênicas era o seu uso profano e libertino. Mas sigamos para o próximo livro. 

    No LIVRO I, são assuntos muito interessantes para se desenvolver a dignidade da mulher e a questão da condenação do suicídio. 

                            Fábio Ribas

sábado, 4 de janeiro de 2025

De volta para o meu lugar (I/2025)


    O livro “De volta para o meu lugar”, de Rosangela Marto, tem como subtítulo “A prova de que o amor e a felicidade sabem o caminho de casa”. O livro é uma narrativa envolvente sobre encontros e desencontros de uma história de amor (mais desencontros do que encontros, na verdade). 
    Gostei muito da narrativa da escritora. Um tom pessoal e bem construído. São memórias de uma vida de decisões equivocadas e que trazem sua conta à escritora. Depois de preparar para o leitor toda a apresentação dessas idas e vindas com o amor de sua vida, Rosangela acaba se envolvendo num casamento com uma outra pessoa e que lhe dá duas filhas. Todavia, após sua separação, ela se envolve com um narcisista abusador e é aqui o foco do livro. (A PARTIR DAQUI TEM SPOILER)
   Ela tomou decisões erradas que só a afastaram cada vez mais daquele primeiro e verdadeiro amor da sua juventude. Como acontece com pessoas feridas e magoadas por caírem em armadilhas por suas próprias decisões equivocadas, ela busca por "culpados" e, infelizmente, como ocorre com muitos, vemos ela culpar explicita e implicitamente, por umas quatro vezes pelo menos, a Deus e à Bíblia. Ela usa da doutrina de submissão bíblica para justificar o porquê de não ter pulado logo fora dessa relação abusiva. Mas a Bíblia também deveria tê-la orientado a casar com um homem que fosse igual a Cristo e se sacrificasse por ela, mas essa passagem não aparece na sua história. Quando tentamos fugir das escolhas erradas que fazemos, a tendência é achar culpados e nos escondermos de nossas próprias responsabilidades. 
    Como já disse, a autora nos apresenta uma sucessão de escolhas erradas desde a sua juventude, abrindo mão do homem que amava, que, aliás, mostra-se um homem de caráter (eu chorei com aquela proposta dele assumir um filho que não era dele); depois, o mergulho nessa segunda relação que gerou um casamento de 16 anos e duas filhas, até que, finalmente, ela casa às pressas com um estrangeiro e vai morar com ele na Alemanha. E isto tudo é vida real.
    O capítulo "nossas viagens" destaca-se. Talvez pelo que ela esteja tratando, mas foi um capítulo maravilhosamente bem escrito e que nos lança a viver aquilo tudo com ela. Psicopatas de todos os tipos vivem entre nós. Sou pai de duas filhas e tento ensiná-las a prevenção contra abusadores e vampiros emocionais desde cedo. Sempre há sinais. O livro mostra que ela também viu a fumaça antes de se deparar com o fogo, do qual depois  não conseguiu mais fugir. Embora, como tenha dito, o livro é, antes de tudo, um alerta contra abusadores emocionais, mas é também um livro doutrinário. A autora toma todo o cuidado de não citar a denominação religiosa à qual pertence, mas responsabiliza a Bíblia e o temor que ela gera acerca de Deus como responsáveis por ela não pular fora de tudo o que está enfrentando. Quando digo que é um livro ideológico, doutrinário, não o faço apenas por essa acusação à Bíblia, mas também por ela trazer mais 3 temas que quero tratar abaixo, a saber, primeiro, é um “livro para mulheres”; segundo, ela traz a baila o tema do jugo desigual; e, terceiro, todas as crises se resolvem na constelação familiar.

    É um livro especificamente para leitoras. Durante a escrita, ela se dirige a mulheres e isso me fez ligar três alertas: 1) relacionamentos tóxicos vitimam homens também; 2) é um livro para reunir aquelas que, de algum modo, tiveram seu coração sacrificado no altar de um narcisista e, fragilizadas, se abrem para soluções de quaisquer espécie; 3) ela não assume sua responsabilidade pessoal naquilo que ela vive, embora, durante a leitura do livro, vemos que ela segue tomando decisões que a prejudicou. A responsabilidade, como já disse, sempre recai sobre a Bíblia, a Igreja e Deus. Por isso, não é de se estranhar que, no fim de tudo, a solução apareça sob a forma de uma espiritualidade que, mais uma vez, transfere para uma força impessoal tudo aquilo que ela sofre. A Bíblia insiste em dizer que você colherá o que você semeia. A Constelação familiar apresenta que você colhe o que outras gerações da sua família plantou. 

    Ela questiona a Bíblia, Deus e a Igreja várias vezes. Contudo, não vemos nenhuma vez que ela busque por aconselhamento bíblico! Por anos, ela segue tomando várias decisões e, quando vêm as consequências negativas, a culpa é sempre do “outro”. Como a Bíblia fala de submissão, ela coloca a responsabilidade de suas decisões equivocadas nesse ensino bíblico, porém, em momento algum, ela expõe que o mesmo texto que fala de submissão é o que também descreve o que uma garota cristã deve buscar num futuro marido: alguém que ame a esposa assim como Cristo amou a Igreja. E ela nunca busca um homem como esse. E, depois de tantas buscas erradas e sofridas sob a alegação de que a Bíblia ordena submissão, ela, finalmente, justifica sua grande união “eterna” com um homem descrente. Ela deveria buscar um homem que amasse mais a Jesus do que a ela. Mas não é isso o que ocorre. O que nos leva ao terceiro tema doutrinário/ideológico do livro: a doutrina espiritualista da constelação familiar.

    Durante o livro, vemos a conversão da autora, mas nunca seu discipulado ou crescimento nas verdades bíblicas. Ela fala sobre Deus e igreja, mas, na maioria das vezes, para tecer uma crítica que só vai ganhando mais engajamento à medida que avançamos na leitura. Finalmente, ela chega ao ponto central: se a Bíblia a afastou do seu verdadeiro e eterno amor, agora, graças à crença comum entre ela e seu amado na constelação familiar, ela pode, enfim, se entregar e ser feliz na sua maturidade. Aqui, na terceira parte do livro, é que há uma mudança de chave. Cada vez mais, a palavra “Deus” vai sendo substituída por uma expressão que revela a verdadeira cosmovisão da autora. Ela passa a falar não mais em Deus, mas em “conspiração do universo”. A constelação familiar, como ela bem explica no livro, é uma experiência religiosa - mas para nos religar a nós mesmos e aos nossos antepassados. Um entendimento do mundo, do ser humano e de nossa natureza totalmente contrária ao cristianismo bíblico. E, por tudo o que ela diz, deveria saltar aos olhos do leitor(a) atento(a) que estamos diante de um gnosticismo, de um paganismo que nada tem a ver com cristianismo. O mais interessante é que a autora está sendo coerente com o que, desde o início do livro, ela vinha tecendo para nós. O cristianismo exige responsabilidade pessoal. A constelação familiar, não. O cristianismo exige que, ao olharmos para a Bíblia, haja arrependimento dos nossos pecados e reconhecimento de que há um Deus pessoal e não uma força impessoal que rege a nossa vida - não somos vítimas do que nossos pais ou gerações anteriores fizeram. A culpa não é da mãe! A Bíblia é clara em afirmar que os filhos não serão responsabilizados pelos pecados dos pais. A culpa é nossa e a Bíblia precisa ser enfrentada como um todo e não em partes.

    Depois de toda uma jornada de escolhas erradas, vemos a autora encontrar um mestre que diga, então, o que ela gostaria de ouvir. Veja o que diz 2 Timóteo 4: 1-5.

Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas.

        Fábio Ribas

Quase a mesma coisa

       Conversando com um amigo sobre tradução, logo lembrei deste fascinante livro de Umberto Eco. É um dos meus livros de cabeceira. Um li...