Soneto nº 20
Há sempre um texto sob o renovo de cada beijo,
No revolvo de nossa pretérita promessa arcaica,
Antiga, estilada de eras de tua hera sempiterna,
Tez escrita, meu amor, antes dos céus e da terra!
Livro que não se encerra num vigésimo capítulo,
Obra aberta ao acréscimo de mais um novo artigo,
Gramática aplicada à interpretação de teu mistério,
Foste ditada, meu amor, pelo Artista, verso a verso!
Cabe a mim, que edito meu cancioneiro atrevido,
Discernir teu diverso do qual foras de toda forjada
Em passado-muito-mais-que-perfeito, teu universo.
Há quanto tempo insisto que entendas este redito?
Portanto o que seria se não te confessasse enfim:
- Toda poesia, musa amada, é fruto do que furto de ti!
Fábio Ribas
“A palavra pedra atirada veste o peso da língua”, Iconoclasta (Manoel Serrão).
“O peso das palavras” foi o título de um trabalho que fiz na época da Faculdade Teológica, quando tive o meu primeiro contato com a disciplina “metodologia de exegese”. Encantava-me com a poesia hebraica, seus jogos e características de sua gramática e discurso (ocorreu o mesmo com o Grego). Assim, estudar línguas veio de uma forma natural, principalmente depois de um curso de linguística, o qual nos instrumentalizava nas regras de fonética, fonologia, gramática e discursos com o objetivo de analisarmos melhor as línguas com as quais trabalhamos hoje.
Creio que naquele trabalho — “o peso das palavras” — já havia a gênese de algumas ideias que, depois, com outros estudos compreendi melhor. Já fora, contudo, uma maneira de dizer sobre o que acredito em termos de palavras, significados e significantes. Em resumo, acredito que as palavras têm peso, como também têm cores, cheiros e tons e que precisamos conhecer e dominar as que usamos, caso queiramos dizer aquilo que realmente queremos e da maneira mais aproximada possível: a palavra e o pensamento. Este título — “o peso das palavras” — é quase uma confissão de fé; uma profissão de fé (no canto parnasiano de Olavo Bilac).
Escrever é uma luta, uma luta vã, já dizia Drummond, entretanto, melhor do que muitos, ele sabia dessa luta necessária contra e a favor da palavra. Luta árdua em que devemos respeitar esse oponente para encontrar aquela chave que nos abrirá a palavra e à palavra: o poema que aguarda, que espera pacientemente que algum poeta desassossegado o revele.
A partir do momento que compreendemos esse labor da escritura, passamos a pensar mais e a escrever menos, pois queremos trabalhar apenas com a palavra certa, “catar feijão” (João Cabral em outro belo poema sobre o tema da urdidura desse labor poético). Agora sei que há pedras e feijões. Estes vagam na superfície deste papel virtual que agora você lê. Mas flutuam também na confecção do poema, as pedras e os feijões secos e ocos (deve-se lançar fora do poema outras impurezas surgidas, sempre). É preciso, ao jogar-se tudo sobre o papel, assoprar sobre as palavras para que nada atrapalhe a leitura fluvial do leitor apaixonado pela poesia. Trabalho sério esse do poeta, mais difícil do que catar feijão, porque, ao contrário do que acontece na água, sobre o papel tudo boia: feijão bom, feijão oco e pedra. Portanto, deve o poeta soprar sobre o papel; deve sim, discernir, averiguar, medir, lapidar, refletir, mirar, suar…
Ao descobrirmos, fascinados, que não existem sinônimos perfeitos, pois as palavras possuem gradações e cada qual deve abarcar um determinado limite, então, colocamo-nos à obra de garimpar palavras. É preciso trabalhar! Ir ao sol, ao rio, molhar-se, cansar-se; um dia inteiro no esforço de encontrá-las, as palavras, que sempre estiveram ali o tempo todo. Mas todo cuidado é pouco: sempre há ouro de tolo, falsos silogismos, metáforas imperfeitas, ritmos forçados, metonímias sem sentido, versos malversados.
Por isso, exatamente, os poetas querem leitores-gemólogos, que saiam do lugar-comum da linguagem cotidiana, das relações desenfeitadas das pessoas esquecidas do sagrado. Leitores que fujam dos clichês, do significado já cristalizado e acomodado da linguagem diária e que olhem as palavras como verdadeiros mistérios, porque elas, as palavras, são mistérios. Precisamos labutar, então, sobre elas: buscá-las em dicionários, ler os clássicos da literatura, maravilharmo-nos de como os gigantes as usaram; enfim, guardar-se em Camões, Fernando Pessoa, Cecília Meireles e Clarice Lispector (só para citar alguns de língua portuguesa).
Já explicava Eugen Rosenstock-Huessy em seu livro “A origem da linguagem”, que todos os animais gesticulam, fazem barulhos, expressam gemidos, todavia, é só o homem, o ser humano, que descobriu essa complexidade maravilhosa das palavras, das frases e dos discursos. Só o homem descobriu que “a linguagem também é o poder de cantar em coro, de encenar uma tragédia, de promulgar leis, de compor versos, de rezar em agradecimento, de fazer um juramento, de confessar pecados, de fazer uma reclamação, de escrever uma biografia, de redigir um relatório, de resolver um problema algébrico, de batizar uma criança, de assinar um contrato, de encomendar a alma de alguém a Deus”, nos lembra Eugen. E eu acrescentaria também — por que não? — só nós descobrimos esse fascínio do ato de escrever em blogs, sites, no mundo virtual!
Não podemos tratar as palavras levianamente, porque elas podem possuir o peso exato de nossos pensamentos e estes não são apenas diferentes uns dos outros, mas são de modo assombroso expressões de algo singular e nobre que nos foi dado pelo próprio Deus: a Sua imagem (a imago Dei).
Enfim, Deus escolheu palavras para nos dizer sobre a sua Palavra. Deus é o autor por excelência e é quem nos ensina sobre o peso das palavras e que não existe gratuidade quando as usamos: palavras não voltam vazias! As palavras de Deus são perfeitas, mas as nossas não. As de Deus carregam o peso exato de Sua intenção, as nossas não. Por isso mesmo, precisamos responsavelmente nos esforçar no labor da escritura e da leitura também! Necessitamos, como nos dizia Eugen, retornar com o esteio teológico de que a “linguagem é o campo privilegiado do Espírito Santo”.
Fábio Ribas

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Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu? Clarice Lispector.