sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Igreja e Estado no Brasil Holandês

 


    Indubitavelmente, um trabalho de fôlego impressionante por parte do autor, Rev Frans Leonardo Schalkwijk. Na introdução, vemos a extensão de sua pesquisa em atas, tanto no Brasil como na Holanda, para que possamos ter um quadro mais exato do Brasil Holandês.

    Na primeira parte, Brasil e Holanda, interessa-me exatamente a maneira como o autor constrói e nos dá a entender qual a natureza do Cristianismo que os portugueses trouxeram ao Brasil. Um cristianismo sem Bíblia, assentado mas profundas convicções de uma Contra-Reforma que por aqui aportou.

    Encontramos, no livro de Schalkwijk, a formação do Brasil luso e, logo após, o Brasil ibérico. Ambos delineando o tipo de cristianismo que irá moldar a nossa consciência religiosa. É muitíssimo interessante ver tantos personagens conhecidos das nossas aulas de “História do Brasil” e de tantos outros livros que já li, mas que esquecemos de vê-los relacionados uns com os outros. Desde Lutero e Calvino, às perseguições de Felipe II, passando pela trágica “noite de São Bartolomeu”, vemos a reunião e confecção do Sínodo de Dort, a criação da Companhia das Índias, e até a história de Pedro Poti. Tudo isso é a história viva e correlacionada que ajuda o leitor a compreender o quadro do Brasil Holandês - ele não está destacado em meio ao nada, mas se insere numa moldura apresentada por  Schalkwijk.

    Vemos, portanto, a história dos protestantes europeus e como ela desagua na chegada dos holandeses entre nós. O autor confronta dois personagens: tanto Max Weber, que irá atribuir o crescimento do capitalismo à ética protestante, e Benjamim Franklin, que irá propagar uma ética individualista muito diferente do que Lutero e Calvino preconizaram. Isto é muitíssimo importante para a própria Igreja Evangélica Brasileira que faz confusão quanto a esses temas (tratando todo tipo de "individualismo" como um mal, da mesma forma que tende a idolatrar qualquer forma de coletivismo como um bem).

    A relação dos holandeses com os povos indígenas constituiria um capítulo à parte muito fascinante. Além disso, fascinante ver como que um homem como Maurício de Nassau exercia com sinceridade seu cristianismo. Virei fã desse personagem histórico. Por que Nassau foi embora do Brasil? Em algum momento do Brasil Holandês, houve 22 igrejas aqui. Podemos afirmar que, em 1644, eram 12 igrejas, sendo que 3 dessas eram em aldeias indígenas. Admirável! E deveríamos publicar mais essa história grandiosa que temos é a nossa história!

    As páginas sobre o culto (4.1.4) são curiosíssimas e envolventes. Mas o que vem a seguir, as organizações das igrejas, dos presbitérios e do Sínodo, tudo isso é muitíssimo envolvente. Outra questão interessantíssima é a enorme troca de cartas da Igreja Reformada no Brasil com  as igrejas dos Países Baixos, África e tantos outros. A Igreja Reformada no Brasil era uma igreja viva!

    O capítulo dos "Obreiros eclesiásticos" nos dá essa noção da dificuldade de vida que esses pastores e diáconos enfrentaram no Brasil. Dificuldades financeiras inclusive! E o problema também é o mesmo de sempre: falta de obreiros. Havia outras figuras de obreiros para dar conta da enorme seara: os predicantes, os consoladores e os proponentes. A Holanda, contudo, preferia deixar lacunas no Brasil do que enviar obreiros impróprios para cá! Amei saber disso!

    De novo: Nassau foi um cristão fora da curva! Ele nutriu um interesse e cuidado pelos órfãos da Igreja, que cresciam assustadoramente por causa das guerras no Brasil. Nassau investiu nas escolas infantis, que ensinavam em holandês, português e tupi!!! Nassau queria mais, mas seu período no Brasil foi curto. Até os portugueses da terra não queriam que ele fosse embora, a ponto de oferecerem salário para ele ficar!

    Dentro da dificílima realidade do que era aquele Brasil do século XVII, havia muita literatura espiritual usada pelos pastores e consoladores, mas o destaque era o Catecismo de Heidelberg, além das obras de William Perkins e Henrich Bullinger. Mais de 50 pastores da Holanda vieram trabalhar no Brasil! Estou apaixonado por este livro!

    O livro mostra a igreja missionária, principalmente seu esforço na evangelização dos portugueses. Mas eu achei bem interessante, em determinado momento, o autor afirmar que o excesso de liberdade religiosa dada pelos holandeses aos católicos pode ter sido um tiro no pé. Principalmente, quando comparamos Recife e Batávia (Indonésia). Nesta, a Igreja Reformada floresceu entre os portugueses. No Brasil, não. 

    O trabalho dos holandeses com os povos indígenas é de nos animar com nossa própria história. Não estou dizendo que não houve erros, contudo o que foi feito e da maneira que foi feito nas áreas da evangelização, plantio de igrejas, educação, engenharia e artes em geral é fruto da Providência divina. Um livro de cabeceira, certamente, mas que deve ser ensinado em nossas EBD’s! 

                Fábio Ribas

sábado, 6 de dezembro de 2025

A Tragédia de Guanabara: História dos Protomártires do Cristianismo no Brasil

 

    Já ficara encantado com o prefácio, datado de 1917, de Domingos Ribeiro. A escrita deste parece, até mesmo, anunciar o tom que leríamos a seguir, contudo, vindo da pena de Jean Crispin. Domingos Ribeiro faz um resumo do que leremos a seguir e, também, um apelo: como que histórias como essa podem ser tão desconhecidas da própria Igreja Evangélica no Brasil, ao que, então, ele pergunta pelo que se interessaram em contar essas histórias, pesquisar os documentos e escrever?

    Essa história, para mim, tem um sabor todo especial, porque fiz seminário para ser padre, minha formação foi católico romana. Quando ouvi essas histórias, pela primeira vez, foi no ano de 1995, quando sequer eu era crente ainda. Um missionário evangélico me contou sobre os huguenotes da Baía de Guanabara e sobre Pedro Poti, que veio depois. Por essas e tantas outras razões, sempre que posso, compartilho essas histórias desde lá. Porém, nada se compara à narrativa escrita por Jean Crespin.

    “A tragédia da Baía de Guanabara”, de Jean Crespin, apesar de ser uma história tão conhecida e, por mim mesmo, tantas vezes recontada, tem um colorido e um tom impressionantes. Estou impactado com a narrativa e os detalhes assombrosos que desconhecia. A grande informação nova para mim, por exemplo, é que Villegagnon já veio para o Brasil debaixo do engano que ele mesmo perpetuou: ele queria enriquecer, mas vendeu a ideia de que aqui seria um lugar de refúgio para os perseguidos da fé protestante. Para encarar a empreitada, ele reuniu dois grupos. O primeiro, de protestantes:

Para colimar o seu fim, só lhe restava encontrar gente fiel, de boa vida e educação, a fim de habitar com ele no Brasil; e eis porque fez publicar por toda parte que precisava de pessoas tementes a Deus, pacíficas e boas, pois bem sabia que lhe seriam mais úteis do que quaisquer outras, em virtude da esperança que tinham de formar uma congregação cujos membros fossem votados ao serviço divino.

    O segundo, de trabalhadores assalariados:

Era-lhe também indispensável assalariar trabalhadores e operários de todas as profissões, mas com muita dificuldade e mediante grande remuneração pôde encontrá-los, e isto mesmo entre gente rústica, sem a mais leve noção de honestidade e civilidade, impudica, dissoluta e dada a toda a sorte de vícios.

    No segundo grupo, olha o detalhe da nota de rodapé: "Claude Haton, em suas Memorias (edição Bourquelot, pag. 17) diz: "Com permissão do rei, Villegagnon visitou as prisões de Paris para ver os prisioneiros que lhe podiam ser úteis".

    Pelo que eu pude entender, depois de ser o pivô e aquele que tumultuou a cabeça de Villegagnon contra os genebrinos, Cointac retorna no barco para a Europa, enquanto 5 dos passageiros precisam retornar ao Brasil para que a embarcação não perecesse com todos. Principalmente, as questões por Villegagnon e Cointac levantadas foram sobre os sacramentos da Ceia e do Batismo, mas, na verdade, Villegagnon já estava “tomado pelo diabo”. Dali para frente, Villegagnon só mergulha ainda mais em suas próprias loucuras de perseguição.

    Porém, eu fui tão envolvido pela escrita de Jean Crespin, que, ao chegar na já tantas vezes lida Confissão da Baía de Guanabara, eu chorei. E talvez, pela primeira vez, a li com muita reverência, envergonhado de mim e da minha geração. 

                Fábio Ribas

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O sorriso escondido de Deus

    


    John Piper, em seu livro “The Hidden Smile of God: The Fruit of Affliction in the Lives of John Bunyan, William Cowper, and David Brainerd”, Crossway. 2001. Edição do Kindle, escreve sobre 3 cristãos que foram forjados por suas experiências dolorosas. Ele os chama de cisnes, porque os cisnes cantam antes de morrer.

    O primeiro é John Bunyan (1628-1688). Já pastor e bem conhecido por seus livros, viúvo e agora casado pela segunda vez com Elizabeth, Bunyan foi preso numa época de conflitos religiosos e políticos em que não se podia pregar sem a autorização do Rei Carlos II. Por isso, Bunyan foi preso por 12 anos! Contudo, foi numa segunda prisão, que durou 2 anos, que ele começa a escrever "O peregrino". Para Piper, as experiências de perda, luto e prisão de Bunyan, são um modelo para os cristãos que sofrem, pois foram nessas condições adversas que Bunyan cresceu e desenvolveu sua fé. Um modelo, portanto, de como vivenciar experiências adversas para crescer na fé.

    O segundo cristão trazido por Piper é William Cowper, autor do hino "God moves in a mysterious way", com o qual ele abre seu livro com um trecho desse poema. Exatamente, o trecho que nos mostra a razão do título do livro de Piper: “Judge not the Lord by feeble sense, But trust him for his grace;  Behind a frowning providence  He hides a smiling face”. Suas poesias e músicas refletem muito de suas lutas contra a depressão. Como ter fé em momentos tão difíceis assim? As crises de Cowper iam e vinham e assim permaneceram até o dia da sua morte. Cowper enfrentou uma depressão profunda aos seus 21 anos de idade. Suas batalhas mentais foram terríveis, a ponto de Cowper tentar suicídio. E sua tentativa de suicídio não foi brincadeira, ele tentou suicídio de três maneiras diferentes! Por causa disso, colocam Cowper num hospício. Mas Cowper, durante sua internação, encontra a Bíblia e é na história de Lázaro que ele encontra misericórdia de Deus para enfrentar suas lutas. Em outras palavras, as crises mentais são oportunidades para o nosso crescimento espiritual. Um outro ponto essencial na história de Cowper é sua amizade com John Newton, que foi compositor da conhecidíssima "Maravilhosa graça". Os poemas de Cowper refletem suas lutas e o anseio por Deus em meio às tempestades mentais que ele enfrentava. Todavia, Piper ressalta que precisamos compreender a biografia de Cowper debaixo da Soberania e graça de Deus. A depressão é uma doença que nos lança ao profundo poço de uma escuridão dentro de nós mesmos. Contudo, ficarmos lá não é a solução. A vida de Cowper nos mostra que, pela graça de Deus, sair de onde estamos, buscar amizades saudáveis, importar-se com o outro, auxiliado por Deus, são atitudes corretas para enfrentarmos tais desafios. Cowper namorou durante sete anos, mas o pai dela proibiu o casamento ás vésperas. Evidentemente, muito dos males mentais de Cowper derivaram disso. Mas, além de sua poesia, há muitos outros aspectos da vida de Cowper com os quais me identifiquei.

    O 3º e último cristão trazido por Piper é David Brainerd. Piper traz muitos mais detalhes sobre a biografia de Brainerd do que o livro "A vida de David Brainerd", de Jonathan Edwards. Ficamos sabendo de mais detalhes, por exemplo, sobre sua família, que, nas palavras de Piper, já tinha inclinação para a melancolia, e também sobre o problema que o levou a ser expulso da Universidade. Piper mesmo se questiona, olhando o movimento moderno de Missões, se esse teria ocorrido caso Brainerd não tivesse sido expulso da Universidade. Esse tipo de especulação de Piper revela seu objetivo com a piublicação de seu livro.

    John Piper, apresenta em seu ministério uma teologia cujo cerne defende que a verdadeira felicidade e contentamento na vida cristã vêm de deleitar-se em Deus. Todavia, o que mais me assombra em um livro que defende a Soberania de Deus nas mais terríveis adversidades de seus servos é que, apenas 5 anos depois de sua publicação, vê seu autor acometido por um câncer de próstata. Não há como não se surpreender com um Deus que vinha preparando Piper para quando ele também enfrentasse a sua própria adversidade. A verdadeira felicidade sempre residiu em buscarmos viver uma vida para a glória de Deus, independente do que estivéssemos enfrentando. A felicidade, e podemos constatar isso nos “cisnes” de Piper, não está nas coisas mundanas. Buscar o sorriso de Deus é o que sustentará nossa fé, dando-nos a estabilidade emocional e o descanso que precisamos em momentos adversos.

                            Fábio Ribas

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

A vida de David Brainerd

 

Quem foi David Brainerd? Em onze capítulos, organizados e comentados por Jonathan Edwards, livro publicado pela Editora FIEL, em 2012, 322 páginas, na verdade, é a reedição de um clássico. Iniciamos uma jornada espiritual de um jovem que se dedicou fervorosamente a ter uma vida para a glória de Deus. A vida devocional de Brainerd é acompanhada, de forma impressionante, em seu diário. Os embates que ele tem consigo mesmo são impressionantes.

Brainerd é fruto daquela geração forjada e impactada no Primeiro Grande Despertamento dos Estados Unidos (1730 - 1740). Sua vida foi muito curta, ele falece aos 29 anos de idade, no dia 09 de outubro de 1947. Seu ministério como pastor ordenado é curto e sua atuação missionária entre os indígenas é ainda mais breve. Contudo, assombrosamente impactante para todos os que o ouviram pregar, não somente indígenas mas muitos colonos também, este rápido “cometa” brilhou a beleza de Deus a todos que o viram passar. Brainerd viveu numa época em que, para que se pregasse a Palavra de Deus, só com autorização e licença dada mediante avaliação de um corpo de pastores. Hoje em dia, “qualquer um” é chamado ao púlpito, para desfilar suas “impressões” acerca do que leu.

O livro começa com o prefácio e a nota introdutória escritas pelo Jonathan Edwards. Logo no inicio, Edwards nos chama a atenção para aquilo que ficará evidente durante toda a leitura do diário:

"Há uma coisa facilmente discernível na vida de Brainerd, que por muitos pode ser considerada uma objeção às evidências extraordinárias de sua religiosidade e devoção, a saber, que ele era, por sua própria constituição e temperamento natural, muito inclinado para a melancolia e desânimo de espírito".

Certamente, estas melancolia e desânimo seriam hoje diagnosticados por “depressão”. Durante todo o diário, vemos suas lutas contra si mesmo nesse aspecto de sua saúde mental e as sempre recorrentes dores no corpo. Com tudo isso, mesmo assim, vemos um servo do Senhor disposto a levar a mensagem do Evangelho aos pagãos do seu tempo. Sua força espiritual, dada por Deus, revela-se na sua perseverante e verdadeira vida de oração. Nesta, destaca-se ainda mais sua vida de intercessão. Sua preocupação com os indígenas, com a igreja, com até mesmo os inimigos do evangelho e de seu ministério, por tudo isso Brainerd intercedia em fervorosa oração. A visão diferenciada e verdadeiramente dedicada de Brainerd revela-se até no seu empenho de sustentar financeiramente a formação de novos pregadores e missionários, a partir do próprio bolso. 

Particularmente, no cap. 5 e 6, há muitas notas sobre sua abordagem evangelística e, até mesmo, uma sensacional carta sobre como ele pregava aos indígenas. E ela é um maravilhoso exemplo de comunicação contextualizada e preocupada com o interesse do aprendizado do outro. Principalmente no cap. 6, vemos sua saúde piorar. Nos capítulos seguintes, depois de toda sua labuta e lágrimas, aprouve a Deus que ele pudesse ver os frutos e a colheita de seu trabalho. O que ocorreu naquele ministério foi um verdadeiro derramar do Espírito Santo em quantidade avassaladora, como que comportas tivessem sido abertas no céu.  

Os testemunhos de conversão dos indígenas, narrados em seus diários, só mostram como que o verdadeiro Evangelho das doutrinas da Graça prevaleceu! As mesmas lutas que vemos quando da conversão do próprio Brainerd, encontramos nas conversões dos indígenas: a profunda percepção da corrupção do coração humano e a total impossibilidade de querermos a Deus por nós mesmos. Aliás, um dos momentos mais marcantes do livro, foi a conversão de uma indígena que, como fruto de seu reconhecimento e agradecimento por sua salvação, iria até mesmo ao inferno, caso assim Jesus ordenasse. As conversões do livro lembraram muito o impacto que eu tive com a conversão e a perseverança de muitos indígenas na minha própria jornada. Tais experiências sempre me levam a testemunhar a muitos pastores e missionários que “eu conheci indígenas muito mais crentes do que os membros não indígenas que vocês têm em muitas de suas igrejas”.

Outra ideia impactante de Brainerd e que eu nunca havia pensado desta maneira é quando ele reflete sobre Deus não precisar dele para fazer a obra. O que eu achei sensacional é a maneira como ele pensa sobre isso. Explico: Deus decretou os fins e também os meios para se alcançar esses fins, inclusive, para alguns casos, segundo Brainerd, Deus pode ter decretado como “meio para se alcançar um fim” exatamente não ter “meio” algum. Brainerd entende que Deus decretou que os indígenas seriam discipulados, mesmo que Brainerd não pudesse mais permanecer no meio do povo para continuar a obra. Deus poderia, na verdade, ter dispensado ele como “meio”. Achei isso sensacional! Em outras palavras, Deus não precisa de você. Mas, se Deus, colocou você ali, então, nossa responsabilidade só aumenta. Por outro lado, caso Deus tenha dispensado você de algo específico ou pontual, lembre-se: a obra pertence a Ele, Ele é o dono da obra, portanto, descanse na certeza de que Aquele que começou a boa obra haverá de terminá-la!    

A morte dele é assombrosa! Uma morte que não é uma passagem, mas um profundo anseio que ele sempre expressou, e que, finalmente, a recebe como resposta de suas orações. Um livro fundamental e que me faz pensar: e se eu o tivesse lido naquele fim de década de 1990? O que teria sido diferente na minha caminhada, pois, indubitavelmente, eu sei que eu sou os meus livros e as minhas circunstâncias.

                            Fábio Ribas

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram

 

    Afinal, o que são “avivamentos”? Ao longo da história, desde os tempos bíblicos, podemos reconhecer essas assombrosas intervenções divinas sobre seu povo. Como a própria palavra (“avivamento”) sugere, essa deve ser uma ação sobre algo morto ou quase morto, moribundo. Quando quase já não se vê fé entre o povo de Deus e a frieza, o nominalismo e a hipocrisia assaltam de modo alarmante, ou mesmo quando a idolatria e a confusão religiosa e espiritual invadem, então, pode ser que, em momentos assim, haja uma assustadora, inesperada e imprevisível ação divina em prol do seu Povo. Digo “pode ser”, pois, numa boa, saudável e teocêntrica teologia, “avivamento” pertence ao plano exclusivo da vontade de Deus.

    Muitos irão discordar, eu sei, pois já vi muita “receita” para induzir avivamento por aí. Aliás, o que mais vi nestes anos todos de caminhada é a “produção” de avivamento ou, como muitos gostam de afirmar, um “novo pentecostes”. Evidentemente, na esteira de muitas dessas manipulações, as pessoas ficam ainda mais confusas e caem como presas fáceis nas mãos abusivas de psicopatas e abusadores transfigurados em religiosos. Isso, por fim, gera ainda mais frustração, vazio e mágoas em corações que, uma vez passando por essas tristes experiências, coram de vergonha e constrangimento quando se percebem enganadas por mercenários da fé. Às vezes, não duvido, muitos desses líderes religiosos talvez não sejam malévolos, apenas ignorantes cheios de boas intenções e, como tais, são cegos que foram guiados por outros cegos e acabam repetindo a fórmula que foi usada com eles também.

    Na história mais recente, dois avivamentos realmente chamam a minha atenção por possuírem características bem diversas do que compartilhei no parágrafo acima: “o Grande Despertamento”, nos Estados Unidos, e “o Avivamento Coreano de 1907”. Este também ficou conhecido como o “Pentecostes coreano” e aquele outro, como o “Primeiro Grande Despertamento”. Ao estudarmos, vemos que o avivamento que se deu nas colônias americanas, entre os anos de 1730 e 1740, envolveu nomes como o do inglês George Whitefield, e os americanos David Brainerd e Jonathan Edwards. A ênfase desse avivamento se deu em torno de temas como regeneração, arrependimento de pecados, nova vida, graça divina e — pasmem! — as doutrinas da fé calvinista. Contudo, o que mais chama a minha atenção na relação entre esses dois avivamentos — o americano e o coreano -, na verdade, é que ambos foram seguidos por uma tremenda convulsão social. Duas décadas depois do Grande Avivamento, deflagra-se o início da Guerra de Secessão, que vitimou mais de 600.000 pessoas. Tendo ocorrido logo após o Grande Avivamento das 13 colônias americanas, a guerra entre o Sul e o Norte se deu entre irmãos da fé. Já havia parado para pensar sob esse prisma? O avivamento coreano de 1907 foi seguido por profunda perseguição e um longo período de conflitos entre os cristãos da Coreia e seus algozes, a partir do domínio japonês em 1910. O que me faz pensar que a situação trágica que essas igrejas viveram, tanto nos Estados Unidos como na Coreia, teria sido muitíssimo pior, caso Deus não tivesse preparado esses irmãos para o que ainda estava por vir.

    “O Avivamento da Coreia e os sofrimentos que se seguiram”, de William Blair e Bruce Hunt, é leitura obrigatória para conhecermos a história dos nossos irmãos coreanos e reconhecermos um bom referencial para o que seja um verdadeiro avivamento. É um testemunho ocular, pois William Blair, então com 25 anos de idade, chegou na Coreia em 1901. Ele foi um dos pregadores na noite em que ocorreu o reavivamento de 1907. O livro nos dá um contexto anterior de como foi a chegada do evangelho naquele país, os avanços missionários desde o século anterior e as histórias de homens como Robert J, Thomas, o mártir da Coreia em 1865. Além disso, os autores retrocedem para mostrar como que a Providência divina vinha trabalhando na Coreia para preparar tudo aquilo que estava para ocorrer. Uma das questões demonstradas é como o Confucionismo destruiu o Budismo na Coreia. Particularmente, considero que um dos pontos altos do livro é o profundo conhecimento cultural e religioso que os autores têm e como que eles conseguem mostrar para o leitor o desenrolar dessa história de conflitos culturais, religiosos e filosóficos.

    Um dos maiores desafios das Igrejas presbiterianas na Coreia foi o enfrentamento ao “culto aos antepassados”. Tudo isso já ocorrendo antes de 1907. Na cidade de Pyeongyang, num encontro dos cristãos, numa reunião sem nenhum grande entusiasmo, ocorreu o inesperado. Com a Palavra sendo pregada e a Bíblia ensinada dia após dia, finalmente, quase no encerramento do encontro, um homem pediu para ir à frente e, então, começou a confessar pecados ocultos. Naquele momento, outros que o ouviam, constrangidos pelo Espírito Santo, começam também a confessar roubos, adultérios e mentiras publicamente. O quebrantamento foi impressionante. E durou dias! Os participante, voltando para suas vilas, contavam o que havia ocorrido em Pyeongyang e, ouvindo os relatos, outros cristãos dessas vilas começavam a também confessar os seus pecados e se reconciliar com aqueles que foram defraudados. Igrejas surgiram, milhares de novos crentes vieram à luz e, como contei, em 1910, a Coreia é anexada pelo Japão. Sem esse avivamento, sem essa visitação especial do Senhor, como essas pequeninas igrejas de poucos crentes teriam resistido aos anos que se seguiram? Parece-me que, à semelhança do que houvera nos Estados Unidos, Deus fortalecera as igrejas para a convulsão social que estava prestes a eclodir.

    O grande embate, durante o domínio japonês, deu-se com o Xintoísmo, pois este preconizava a adoração nos altares ao Imperador, que era tido como um deus. Evidentemente, ainda que algumas denominações e cristãos encontrassem justificativas para continuarem nessas práticas diante dos altares, muitos irmãos coreanos não se dobraram. Por isso, ocorreram a prisão, a tortura e a morte de muitos. A igreja, porém, estava fortalecida pelo avivamento de 1907. Muitos foram martirizados, mas eu quero contar apenas uma das tantas histórias que o livro traz.

    Há um erro na edição que eu li. Uma mesma história é contada duas vezes. Quatro páginas repetindo a mesma narrativa que acabara de ser escrita. Contudo, há uma ironia nisso, pois, para mim, essa história em particular é tão surpreendente que, ao repeti-la, parece que estão nos dizendo: “Você entendeu mesmo o que acabou de ler? Vou contar mais uma vez. Presta atenção”! Qual a história? Parece filme. Um casal de coreanos, no momento de maior perseguição dos japoneses, consegue sair escondido da Coreia e ir para o Japão. Ao chegarem na sede do governo em que estavam discutindo sobre a lei da Liberdade Religiosa, no momento certo, eles lançam sobre os membros do parlamento os folhetos e gritam: “E o grande propósito de Jeová Deus”! Os folhetos conclamavam o Japão a tornar o cristianismo sua religião oficial e, além disso, advertia que, se o Japão continuasse a perseguir os cristãos, seria destruído. Pasmem! — Isso foi em 21 de março de 1939. O Japão não voltou atrás na sua perseguição. O que ocorre em 1945?

    Deus age na história de cada um de nós, mas Ele também continua a agir na História para que todas as coisas sigam rumo ao momento em que tudo O glorificará! Espere no Senhor, por que é do alto que virá a Justiça divina.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

A mística do jogo  (O jogador - Dostoiévski)



    Alieksei morre. Não a morte de todos os homens, mas a que se impinge sobre todos aqueles que caem nas armadilhas da mística de quaisquer vícios que tentam nos ludibriar.

    Alieksei se entrega às ganas do pano verde. Entre os números vermelhos e os pretos da roleta, nosso personagem encanta-se pela mística do jogo. Esta é um fervor, um fanatismo, uma concupiscência dos olhos, da carne, do espírito…

    Em algum momento, há em nós este desejo de nos tornarmos deuses; controlarmos o que está totalmente fora do nosso controle. As mãos tremem, a boca seca, os músculos do rosto se contraem e algo em nossos estômagos se lança sobre o altar de sacrifício, à mesa de pedra, à roleta do jogo: "que fisionomias ávidas e transtornadas"! - analisa Alieksei, observando os jogadores.

    Criatura semelhante ao seu criador, Alieksei - protagonista de "O Jogador" - revela-nos o mundo que aprisionava Dostoiévski: a roleta, o jogo, os cassinos alemães do século século XIX. Dostoiévski se rendeu à mística das noites e dias insones daqueles templos. Dívidas e mais dívidas soterraram nosso genial romancista russo que esvaziava suas burras diante do croupier. Nosso protagonista chega ao fim do livro, repetindo aquilo que é a frase comum aos que sucumbem à qualquer vício: "Amanhã, amanhã, tudo isso terá terminado"!

    A alma humana, toda alma humana, diz-nos Dorian Gray (Oscar Wilde), pode ser vendida, trocada, barganhada. "O jogador" é uma ilustração dessa sentença. Os personagens que rodeiam Alieksei interagem entre si como num jogo. Todos arriscam seus lances, blefam, recuam, avançam, ganham, perdem no pano verde da vida. Todos têm seu preço.

    O general que aguarda ansioso a morte de Babuschka para receber a herança desta. Mlle. Blanche, que domina o general (e os homens) com suas promessas de fazê-los ver estrelas, aguarda um que lhe dê a segurança financeira que necessita. Des Grieux empresta a juros e controla vários viciados por detrás da cortina da história, inclusive era credor do general. Babuschka mesmo sabe dos abutres que só esperam vê-la morrer para se apoderarem de sua fortuna; mas ela, então, vem ao Cassino e arrisca todos os seus florins para o desespero dos que, de alguma forma, dependiam da herança dela.

    Mas havia também Paulina com quem Alieksei estabelecera uma relação de servilismo. E esta é a bancarrota do protagonista de Dostoiévski: sucumbe ao jogo e não à amada. Pois o amor é apenas um lance de sorte, mais um item a ser manipulado sobre o pano verde. Pauline não se entrega ao nosso personagem, embora o ame, por ter ela também seus próprios interesses e dívidas a resolver. Assim, nessas tramas da vida, que se torna o croupier de todos os personagens, eles se apresentam como jogadores: alguns com seus caderninhos nas mãos, fazendo cálculos matemáticos na tentativa de adiantar o próximo lance; outros, como Alieksei, são impetuosos e irresponsáveis, arriscando o próprio coração. Na mesa de jogo, todos escondem suas verdadeiras intenções e motivações; na vida, também.

    Dostoiévski teve sorte melhor do que seu personagem. Aliéksei sonha com uma ressurreição que não acontece; Dostoiévski, embora mergulhado na mais terrível miséria por causa das dívidas de jogo, amargando mesmo a pobreza e a quase demência, vê-se resgatado pelo amor de Ana Grigorievna e pelos romances que escreveu às pressas "tendo os credores a bater em sua porta". Na verdade, Ana era uma jovem estenógrafa de apenas 21 anos de idade e que o ajuda datilografando os livros que ele dita para ela. As dívidas são exorbitantes e o tempo para a entrega dos livros exíguo. A nova contratada, admiradora da obra do escritor russo, encanta-o.

    Dostoiévski aproxima-se de Ana expondo a ideia de um novo romance a ser escrito. Dostoiévski diz que gostaria de escrever "sobre um romancista velho e doente, que deseja casar-se com uma jovem cheia de vida. "Mas", pergunta ele a Ana, "não será inverossímil dizer que essa jovem o ama?" Ao que Ana responde ao escritor russo: "Eu lhe diria que o amo e vou amá-lo a vida inteira". Foi o modo como ele, 25 anos mais velho do que ela, propôs casamento à mulher que andara buscando a vida toda e finalmente encontrara".

                                                                                            Fábio Ribas

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Feito homem - a jornada de uma mulher ao universo masculino

 


"Norah Vincent queria saber como realmente é a vida dos homens. Muitas mulheres estão convencidas de que os homens sempre viveram melhor, em todos os sentidos. Para descobrir por si mesma se isto era verdade, e tentar detectar onde falha a percepção comum, ela fez o seguinte: por dezoito meses se disfarçou de homem. Durante este período, Norah vivenciou uma verdadeira experiência antropológica, relatando o que observou incógnita. Com a ajuda de um artista da maquiagem, de um trainer e de um especialista em impostação vocal, ela se infiltrou em espaços e situações que as mulheres nunca viram. Por mais de um ano e meio, aventurou-se no mundo como seu alter ego. Ned, com uma barba sempre por fazer, com o cabelo cortado escovinha, com óculos de aros metálicos e com sapatos do próprio número de Norah, 42 - um disfarce perfeito que permitiu observar e participar do mundo dos homens como se fosse um deles".

 

    Essa é a experiência de viver um outro gênero. Uma experiência que durou 1 ano e meio e trouxe tanto revelações à autora, lésbica, como também uma depressão da qual ela não conseguiu se livrar até que realizou um suicídio assistido.

 

    Sete anos antes de publicar esse livro, houve a primeira experiência de troca de identidade, mas essa curta experiência não foi adiante. Fora algo bem informal e despretensioso. Contudo, foi o suficiente para a autora querer ampliar o que viveu ali numa única noite.

 

    Desde criança, ela se vestia de homem e tinha atração por brinquedos e brincadeiras masculinas. Aqui, ela faz a pergunta. Por que essa tendência ainda mal saída das fraldas? Ela diz que as respostas possíveis são muitas, mas ela descreve uma experiência da mãe que era atriz e ela ia sempre assistir a esses papéis em que a mãe se fazia de mulher e de homem… Fico pensando que, como logo se vê no ato falho da autora, há perguntas que fazemos e que nós mesmos respondemos. Sabemos as respostas, embora, na verdade, o que queremos é fugir delas.

 

    Terminei o primeiro capítulo e, como leitor, já me vi sofrendo por ela. Como ela mesma diz no livro, não é um livro sobre uma transexual. Ela não teve prazer e nem alívio algum nesse papel. Quando a experiência terminou, foi mesmo um fardo que lhe saiu dos ombros. Porém, o que mais me impactou, foi que houve um sofrimento emocional, pois ela precisou enganar pessoas e ela diz que isso foi o mais complicado e que vieram daí os danos a ela, danos à saúde mental. Danos que ela entendeu como punição por ter se intrometido no mundo masculino (e essa ideia de "punição" irá acompanhá-la durante o livro até se aflorar claramente no capítulo do mosteiro).

 

    Ao encerrar a leitura do primeiro capítulo, estava com uma vontade enorme de consolá-la, pois ela conseguiu mostrar bem tudo o que ela sofreu naquela experiência, que, agora, conseguia narrar naquelas páginas. Eu me vi totalmente envolvido com a história de Norah. Impressionante como ela escreve de uma maneira muito envolvente. Eu sabia que, por ser homem, a leitura dessa história seria muito instigante para mim. Eu não esperava que ela, a autora, fizesse o que fez no fim do capítulo, mas não darei spoiler.

 

    No capítulo intitulado "amizade", ela nos mostra como foi o primeiro desafio dela se passando por Ned. Ela escreve como mulher. Como ela mesma disse, ela não é uma "trans". Ela é lésbica. Ela é uma mulher e a feminilidade dela está ali bem perceptível em cada reflexão, em cada momento em que se depara com um homem e precisa se comportar também como um diante do outro. A abertura dela para aqueles homens, não duvido, só foi possível porque ela é mulher. E isso a pegou de surpresa também. Tudo muito interessante para o leitor que resolve se abrir para ouvir a autora. Paramos para pensar no que é "o ser homem" e "o ser mulher". Aqueles homens nos jogos de boliche e a busca por sair da pressão diária, fugir daquilo que todos esperam e cobram deles, então, exatamente por isso, aquela cumplicidade naqueles encontros, uma amizade nutrida e sem censura entre eles. E ela os absorveu muitíssimo bem, desde o aperto de mão até o ser aquilo que o sexo masculino era naqueles encontros, em que os homens eram homens em sua amizade. Ela me fez refletir nela como mulher diante de homens e a amizade que une a esses homens, inclusive ela aborda a diferença dessa amizade e interação entre os homens comparando quando o mesmo ocorre entre mulheres.

 

    O capítulo agora é sobre "clubes de strip-tease". Assim como eu mesmo nunca tive um grupo de amigos como aquele que ela conheceu no capítulo anterior (homens que se reúnem para uma interação esportiva masculina), eu também nunca frequentei clubes de "strip-tease". Por isso eu disse que ler como homem este livro é uma experiência inesperada. Mas, para ela, como lésbica, estar em clubes assim e ver como ela mesma digere tudo isso também é uma outra janela pela qual o leitor também olhará.

 

    Além de tudo, mais uma vez, ela se vê despertada em seu instinto materno. Um dos presentes gera isso nela. Era um jovem de vinte e poucos anos… Estamos aqui numa seara delicada. Ela fala como mulher e ela não nega que o seja. Ela mergulha no universo masculino, mas de uma maneira muito compreensiva. E ela, que nunca quis ter filhos, volta e meia se vê envolvida por esses sentimentos. Agora, eu paro de entender a autora e começo a me colocar na história. Ou melhor, quero ler este capítulo dos "clubes de strip-tease" com o meu olhar masculino.

 

    Que analogia foi aquela da autora?! Vou tentar explicar. Ela conheceu uma dançarina que dizia que fazia aquilo não por grana, mas porque gostava de homens. Refletindo sobre isso, Norah faz a seguinte avaliação da menina:

 

"Mesmo que isso fosse verdade quando ela começou, o que é duvidoso, com certeza não teria continuado a pensar assim trabalhando neste ou em outros lugares desse tipo. Era um pouco como dizer que você se tornou um médico legista porque gosta de gente".

 

    Wow! Um capítulo cru o do clube de strip-tease, seu título é "sexo"! Norah havia chamado o Jim, um dos membros da equipe de boliche do capítulo anterior, para ir junto para que ela não chegasse sozinha, mas, ainda antes da primeira noite deles numa dessas boates, há o seguinte diálogo entre Jim e ela:

"Eu vou a alguns destes bares", disse ele, "e este é o homem de família que existe dentro de mim, e digo a mim mesmo que estas meninas eram as filhas de alguém. Alguém as colocou para dormir. Alguém as beijou e as abraçou e lhes deu amor, e agora elas estão neste buraco." 
"Ou talvez alguém não tenha feito nada disso", disse eu.
"É", concordou ele. "Eu tenho pensado sobre isso também".

 

    O capítulo "amor" é o que se concentra nos relacionamentos, ou melhor dizendo, na corte de Ned com mulheres. Há uma crítica profunda e séria às mulheres neste capítulo. A autora confessa como foi olhar para as mulheres, enquanto essas se relacionavam com ela como sendo ela Ned. Vemos as mulheres pelo olhar de uma mulher, que sempre se relacionou com mulheres, mas nunca sendo tratada por elas como um homem. Não é à toa que Norah Vincent foi destratada pelas feministas. Se o capítulo fosse escrito por um homem, inevitavelmente chamaríamos o autor de misógino. Você realmente precisa ler este livro!

 

    Por várias vezes, peguei-me lendo como Norah, tentando viver aquelas experiências da maneira mais próxima possível dela. Também, intencionalmente, li como homem, mas, indubitavelmente, como cristão. O capítulo escancara essa falta total de comunicação entre os sexos. Triste. São mundos que estão cada vez mais distantes, quanto mais avançamos nas conquistas de gênero. Eis o paradoxo! O problema, como a própria autora coloca, não é de sexo, não são os homens. As mulheres são complicadíssimas! Para mim, ou melhor, para a Bíblia, o real problema está dentro do coração do ser humano. Não adiantam conquistas ou revoluções. Tudo isso sempre serão maquiagens.

 

    Há uma frase fantástica de Lacan citada no capítulo "amor" que, para mim, diz muito sobre o coração humano: "o amor é dar o que você não tem a quem não existe". Realmente, para o mundo sem Jesus, Lacan acertou em cheio. Só com Jesus teremos o que oferecer ao outro, enfrentando esse outro do jeito que ele realmente é.

 

    "Vida" é o próximo capítulo. Lendo e tentando entender o porquê do título, pois não há vida ali. Há tristeza, muita tristeza e aquela metáfora do casamento, ou melhor, aquele entendimento de que aqueles homens estão ali "casados" entre si, tanto para não precisarem (os homossexuais) chegar às vias de fato de se relacionarem com mulheres, mas terem seus contatos ali superficiais ali, como para (os heterossexuais) fugirem da sua total inabilidade de se relacionarem com o feminino. E todos, homossexuais e heterossexuais, poderem viver juntos (ainda que sós) e poderem se cuidar, ainda que isolados, e, finalmente, ser enterrados por alguém. São para estas coisas que, então, queremos casar? Pode ser. Todavia, biblicamente, o casamento entre um homem e uma mulher é, antes de tudo, para glorificar a Deus.

 

    O mosteiro era um lugar para homens. De fato, concordo com ela, um lugar feito para que não haja mulheres. Até mesmo o incômodo de um homem afeminado era algo não bem visto por ali. Mas ela mentiu mais uma vez e isso a está destruindo por dentro, conforme vai revelando nas páginas do livro. Mentiu aos monges sobre quem ela realmente era por baixo do Ned. O mundo é triste. As pessoas estão fugindo de Deus, dos outros e de si mesmas. E isso é a causa da dor mais profunda e do desencontro entre nós. Norah, contudo, não entende isso e se esconde por trás de seu confuso catolicismo romano.

 

    "Trabalho". E ela escolhe como novo campo de experiência algo extremamente americano: o setor de vendas. A maioria dos funcionários eram homens. Cobrados para renderem como homens. Não as mulheres. Mas eles, sua própria identidade, masculinidade, estava associada a isso. Como ela mesma colocou no início do livro, os seus relatos não são acadêmicos, científicos ou formais. São narrativas de suas próprias experiências. São recortes, não há dúvida, todavia, recortes que ela viveu e que a transformaram.

 

    No penúltimo capítulo, ela se encontra num desses acampamentos para o resgate da masculinidade perdida, algo como deve ser esse tal de "Legendários". Mais uma surpresa deliciosa. Há uma cena em que os homens fazem desenhos e muitos desenham Atlas e explicam que se sentem cansados de carregar tudo nas costas e num trabalho e cobranças inúteis para eles. Neste momento, ela une Atlas a Sísifo como a melhor definição desse homem moderno.

 

"Era uma combinação criteriosa, e talvez a descrição perfeita do homem moderno em suas maiores dificuldades e desgastado, carregando o mundo em seus ombros e rolando-o montanha acima. Ser o homem responsável por tudo, trazia consigo toda uma série de cargas e ansiedades que raramente - se é que alguma vez - ocorreu a mim ou às feministas que eu conhecia. Nós enxergávamos isso do nosso lado, e daí parecia maravilhoso estar no poder, tomar decisões, ter escolhas, escapar do campo de trabalhos forçados do provedor/administrador doméstico. Para as mulheres ambiciosas, ter uma carreira era muito melhor do que trocar sua milionésima fralda ou ficar olhando para seu papel de parede amarelo. Quando você está se sentindo preso em uma armadilha e privado de direitos, isso não quer dizer que trabalhar dentro de um terno incômodo de flanela cinza seja algum piquenique".

 

    O mais surpreendente nisso é que, em Jesus, o chamado não é para sermos Atlas e nem Sísifo, mas apenas seguidores de Cristo! Uma entrega voluntária para a redenção da esposa e da família e não uma condenação é o que nos ensina o Evangelho! Todavia, será que realmente cabe ao homem cristão assumir o papel de um cavalheiro que carrega sua esposa acima dos sofrimentos da vida? Jesus carregou a Igreja, pagou o preço por ela, mas não a isolou de sentimentos inevitáveis. Há alguma coisa aqui muito importante para uma reflexão mais profunda. Enfim, o chamado nosso não é para sermos Atlas, Hércules ou Sísifo, mas cristãos redimidos, pecadores resgatados. Estou escrevendo isto, no momento em que está todo mundo comentando aquele caso de traição do CEO no show do Coldplay. E aqui cabe corrigir Norah: nem os homens e nem as mulheres são os responsáveis por carregar o mundo em seus ombros - nós não somos Deus! Contudo, depois da sociedade moderna tirar Deus da equação, quaisquer trabalhos que façamos nos forçarão a agradecer a nós mesmos e também exigir que os outros reconheçam nossos esforços! A cosmovisão cristã, contudo, é outro olhar e vivência, mas será que os próprios cristãos sabem disso?

 

    Para finalizar, queria deixar dois parágrafos do último capítulo em que ela organiza suas conclusões.

 

"É claro que ser visto como um homem afeminado me ensinou muitas coisas sobre a relatividade do gênero. A minha vida toda, fui considerada uma mulher masculina. Isso possibilitou, em parte, este projeto. Mas pensei, que, quando eu saísse como homem, algum desequilíbrio iria se corrigir e eu seria um sujeito comum, bem dentro do espectro aceitável do gênero. Mas de repente, como homem, as pessoas estavam vendo minha feminilidade explodindo por todo lugar, e não a recebiam bem. Na verdade, nem mesmo as mulheres. Elas também queriam que eu fosse mais masculino e sexy, e às vezes também faziam suas suposições de que eu fosse homossexual, até mesmo quando saíam comigo. Dai a expressão "meu namorado gay".

 

"Nesse aspecto, as mulheres eram difíceis de agradar. Elas queriam que eu estivesse no controle, grotescamente grande e forte, tanto no espírito quanto no corpo, mas, ao mesmo tempo, também terno e vulnerável, subserviente a seus caprichos e dócil como um coelhinho. Queriam alguém em quem se apoiar e de quem depender, a quem olhar com respeito e ao lado de quem desfalecer, mas, apesar disso, alguém que soubesse do seu lugar reduzido no mundo pós-feminino. Mantinham sua suposta superioridade moral e sexual sobre mim e, às vezes, tentavam me manipular com ela".

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...