sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Dentro da Baleia: O Caos, o Rito de Passagem e a Carta do Pai


“Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam.” (Salmo 46:2-3)

Há uma história da minha infância que sempre retorna. Eu estava numa praia e, então, comecei a ser arrastado pela correnteza para o fundo. Eu devia ter uns seis ou sete anos. Pedi socorro, mas as outras crianças pensaram que eu estava brincando. Lembro de olhar para uma delas e dizer: “Chame a minha mãe, chame a minha mãe!”. Mas aquela criança também pensou que era apenas uma brincadeira. Meus dedinhos do pé já me sustentavam com dificuldade. Por mais que eu lutasse ali, indubitavelmente, era uma luta vã contra as forças abissais que me carregavam mar adentro. O medo havia tomado conta de mim. Eu não sabia nadar. Apavorado, olhei para trás, para aquele oceano sem fim. Contudo, o que vi foi algo que gera comicidade aos que me ouvem, até hoje, quando compartilho essa história. O que eu vi atrás de mim? Era um bloco de gelo; no meio, havia uma pequena montanha também de gelo, mas houve um detalhe estranho naquela cena, pois naquela pequena montanha pontiaguda de gelo, havia um buraco, como um buraco de uma caverna. Lá dentro, pude ver uma fogueira acesa. Entretanto, o mais curioso era o que estava do lado de fora da caverna: havia uma cadeira e, assentado sobre ela, com um gorro sobre sua cabeça e fumando um cachimbo, estava um pinguim. Lembro de tentar virar meu corpo mais uma vez em direção à praia, mas ela estava muito distante, as pessoas estavam muito pequeninhas lá longe. De repente, emergiu de dentro das águas, nadando borboleta, meu pai, que me resgatou de uma morte certa. Como esquecer de uma experiência dessas? Olhei para trás e não vi mais o pequeno iceberg e nem o meu curioso pinguim.


E se a luta contra a natureza for a luta contra o próprio Deus? Muitas culturas no mundo olham para a natureza como nossa mãe. Outras, como uma irmã nossa, alguém que nos foi dada de presente e de quem devemos cuidar, uma vez que ela também corresponderia cuidando de nós. Todavia, qualquer visão mais ingênua sobre a natureza logo se desfaz diante do descontrole dela em ódio e caos derramados tanto sobre “inocentes como culpados”. As erupções inesperadas de vulcões, os tsunamis, os terremotos, os furacões e tornados são apenas alguns exemplos de cuspes que recebemos sobre nossos rostos de uma irmã birrenta e caprichosa por demais. A natureza, com suas forças ocultas e espíritos dominadores, é indecifrável para muitos. Por milênios, a humanidade tenta achar a “reza certa”, o ritual preciso, o símbolo que abarque tanto a narrativa mitológica como o drama cósmico que nos explique o que estamos fazendo aqui e como podemos sobreviver nessa selva escura e nesse mar excessivamente profundo.

E Deus nisso tudo? À parte dessas visões pagãs e animistas de mundo descritas no parágrafo anterior, sobram muitos deuses culturas afora. Muitos deles se mostram apenas personificações de poderes arbitrários de uma natureza impessoal e implacável. Se as divindades, assim como a natureza, são seres difusos e impossíveis de serem compreendidos inteligivelmente, o que nos sobra são as emoções e os afetos que, enfim, determinarão nossas decisões. E a decisão mais óbvia diante do caos é reagir a ele com medo e rebeldia, pois, quando a própria natureza parece quebrar suas próprias leis, descobrimos que somos nós que precisamos dominá-la antes que suas terríveis forças nos destruam a todos. Ou é isso, ou a fuga (se é que fugir é possível), ou o enfrentamento e o domínio. Todavia, como dominar a natureza, se o caos de nossas próprias e temerosas emoções nos lança às incertezas, às inseguranças e ao leviatã de nossos corações? 

Não apenas nossa razão é inábil para lidar com o caos lá fora, mas nossas emoções também. Nossa situação fica ainda pior quando nos damos conta de que há uma fera ainda mais terrível dentro de cada um de nós. Somos seres imprensados — razão, emoção e vontade — entre duas realidades atemorizantes: o mundo fora de nós e o mundo aqui dentro. Não há um deus lá fora que pudesse, ex machina, interferir de modo surpreendente e nos livrar do mal, pois fomos abandonados por deus, um deus que, diante de suas próprias limitações, suicida-se lançando-se do barco. Abandonados, estamos à mercê das feras que habitam este mundo tenebroso e que nos habitam também. E estamos sós. Essa é a premissa do filme "Dentro da Baleia". Um filme espetacular, que, preferencialmente, precisa ser assistido no cinema e que trata do caos em que nos encontramos mergulhados, sozinhos e sem um “Deus ex machina”.

"Dentro da Baleia" pode ser assistido não apenas como o drama cósmico de nossa solidão, em que nosso planeta Terra se encontra engolfado no ventre de um universo silencioso e escuro, mas como certamente é: um rito de passagem. A luta do filho para se tornar adulto, vir a ser o homem que seu pai tentou moldar. Na tentativa de resgatar o que restaria de seu pai, na sua busca em reencontrar-se com o pai perdido, ele se depara com a baleia. Um ser que vem das profundezas do oceano, um animal irracional, furioso, monstruoso e que o devora sem ter a mínima consciência disso. Essa é a figura do seu próprio pai, que, rude, distante e, ao mesmo tempo, angustiantemente presente, devora seu filho sem nem se dar conta disso. É preciso enfrentar a baleia, porque é preciso enfrentar o pai, que é essa presença insuportável de uma ausência inexplicável a engolir o filho.

É uma luta contra a natureza. É uma luta contra o pai. Mas a inimizade entre nós e a natureza é a expressão exata de nossa inimizade com o Criador. A natureza em fúria é a resposta ou a consequência de nossa própria desobediência ao Criador. A natureza é o instrumento, o chicote de Deus contra o ser humano em rebelião. E iremos recalcitrar inutilmente contra os grilhões a que nos prendemos. Alguns serão derrotados, porque já haviam perdido a batalha antes de ela começar. Outros conseguirão reconciliar-se e superarão, de um modo ou de outro, as feras tanto de fora como de dentro. Nessa luta aparentemente vitoriosa, sempre haverá perdas e amputações. Mas, ainda que marcados, feridos e despedaçados, alguns sairão de dentro de seus leviatãs. Porém, a pergunta que poucos “libertos” ousam fazer é: sairemos para onde? Se nos libertamos a nós mesmos, somos semelhantes àqueles escravos alforriados sem saber, contudo, o que fazer com a liberdade adquirida.

Assistir ao filme "Dentro da Baleia" é ser lançado a outras histórias. Sem sombra de dúvida, "Dentro da Baleia" está em diálogo muito mais afim com as histórias de Jó, Jonas e Moby Dick do que com a história de O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. O Velho e o Mar difere das demais histórias porque nela a virtude ressaltada é a resiliência diante do inevitável. A luta de um pescador idoso, que conquistou o seu troféu, um enorme marlim, mas que, agora, vê-se perdendo-o aos poucos, sem conseguir voltar à praia a tempo. Nosso herói, Santiago, enfrenta essa imensidão do mar, a natureza que se coloca contra ele, desafiando-o física e mentalmente. Santiago não desiste, porque sabe que “o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado”. Aqui, a história de Santiago vai ao encontro da história do filme "Dentro da Baleia", embora ambos os personagens estejam em pontos opostos da vida. Jay é um jovem que, para sobreviver, terá que colocar em prática tudo o que seu pai lhe ensinou. Um pai difícil, bruto, rude, mas que deixou em Jay muito mais do que feridas: deixou tudo o que seria necessário para que ele sobrevivesse às lutas que precisava travar.

O contrário da resiliência, da reconciliação e da superação, virtudes presentes em Jay e em Santiago, mas não no profeta Jonas, é o vício da obsessão. Por isso, Jonas está muito mais próximo de Ahab, em Moby Dick, do que de Jay ou Santiago. Ahab se levanta contra Deus, rebelde, irado e obcecado por vingança! Jonas também se senta para que a ira de Deus venha sobre Nínive, mas ela não vem. E o que Ahab recebe é o pagamento da morte, salário de seu próprio pecado. O fanatismo e o orgulho de Ahab levam não somente ele, mas quase todos à sua volta à destruição. Parafraseando Nietzsche, Ahab olhou para o monstro dentro do abismo e descobriu que o monstro dentro do abismo viu nele, em Ahab, um monstro ainda pior.

Em Moby Dick, há o inferno, essa geena que consome os loucos em pecado, reduzindo-os a nada. Há graça divina em Jonas, pois não vemos nem Nínive e nem o profeta receberem a justiça que mereciam. Há uma cruz erguida no mastro em O Velho e o Mar, há o sacrifício cristológico naquela narrativa e há também o jovem Manolin, símbolo da esperança que se renova a cada manhã. Indubitavelmente, há a ressurreição em "Dentro da Baleia", cujo título original, Whalefall, se refere à “queda da baleia”, pois, quando as baleias morrem, seus corpos caem e, lá no fundo do oceano, darão oportunidade para que tantas vidas se alimentem de sua morte. Evidentemente, este é o ponto de contato com Jonas, pois a história do profeta Jonas só encontra sua verdadeira continuação na história de Jesus Cristo. É preciso que morramos, dentro da baleia, para que saiamos ressuscitados para uma nova vida. O filme de Jay se abre para todas essas possibilidades, mas eu quero encerrar este texto falando ainda de dois símbolos que não podem passar despercebidos numa leitura cristã da história.

Uma frase muito representativa do filme para mim é: “Deixe sua família te ajudar!”. A família sempre esteve à disposição de Jay para ajudá-lo no seu doloroso processo de crescimento, em seu rito de passagem da infância para as responsabilidades da vida adulta. Mas é somente dentro da baleia que ele se lembra de que sua família esteve ao seu lado o tempo todo e que ele nunca a buscou para que ela o ajudasse na caminhada. A família de Jay é o símbolo da Igreja de Cristo. Quantos de nossos filhos rejeitam tudo aquilo que nossas igrejas têm para oferecer para ajudá-los a crescer e se firmar na fé? Um último símbolo e, na condução que estou fazendo, o mais importante. Jay, como muitos de nós e tantos outros mundo afora, está tentando enfrentar suas feridas e traumas do seu próprio jeito. Mas negligenciamos não apenas a Igreja, como a própria Palavra de Deus. O filme é sobre a reconciliação com o pai, mas o pai havia escrito uma carta que Jay nunca lera. Se ele tivesse lido a carta antes, certamente não teria cometido a loucura de entrar mar adentro tentando resolver do seu jeito seus conflitos. O Pai já havia escrito para ele. Estava tudo ali e, só quando Jay, finalmente, lê a carta, acontece a verdadeira e profunda cura do seu coração. A carta do Pai já foi escrita a mim e a você, explicando tudo o que é necessário sabermos sobre a Criação, nossa Queda, a Redenção e a Glorificação que nos aguarda. Todavia, muitos são como Jay, recalcitrando contra os próprios grilhões, porque não abrem a sua Bíblia e a leem para ouvir o que o nosso Pai tem a nos dizer.

                Fábio Ribas

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