terça-feira, 1 de setembro de 2026

Eu hoje sonhei com mamãe...

 


Desde a morte de mamãe, no dia 08 de março de 2024, sonhei apenas algumas vezes com ela. Poucas vezes, muito poucas vezes, mas sei todos os sonhos que tive com ela até agora.

Desde o falecimento de mamãe, tenho me visto mais tolerante e compreensivo. Não que eu já não tivesse perdido alguém querido ou próximo antes. Perdi primeiro meu pai. Minha mãe contava que, durante semanas, depois da morte dele, eu entrava no quarto, abria o armário e ficava passando as camisas dele no meu rosto infantil. Ele faleceu uns cinco dias antes do meu aniversário de 9 anos. Depois de velho, já casado e com minhas filhas, perdi minha irmã mais velha. Ela faleceu numa noite de natal, um mês antes de nossa saída para o campo missionário. Foi muito difícil, mas, com as mãos postas no arado, deixei para trás, num luto recente, minha outra irmã e minha mãe.  

Por que eu tenho me visto mais tolerante e compreensivo com outras pessoas ao meu redor? Sonhei algumas vezes com meu pai, minha irmã e minha mãe. Algumas vezes. Poucas vezes, mas sei cada sonho que tive com os três. Desde o falecimento de mamãe, contudo, eu me vi algumas vezes, não poucas, iniciando uma conversa com ela. Embora isso nunca tenha ocorrido em relação ao meu pai e minha irmã mais velha, com relação à minha mãe, sim. Esses “diálogos” quase sempre partiram de duas situações. A primeira, quando cenas com ela me chegam do passado à memória e eu reajo sorrindo e me vejo dizendo coisas sobre aquelas cenas para minha mãe. A segunda, quando cenas do presente, principalmente cenas que ocorrem com minhas filhas e, então, eu me vejo falando com ela, como que compartilhando daquelas emoções com minha mãe.

Como disse, desde o falecimento de mamãe, tenho me tornado mais tolerante e compreensivo. Nesses momentos em que ensaio palavras para compartilhar com ela, posso me ver no lugar de tantas e tantas outras pessoas que vivem ou já viveram essa mesma situação. A pessoa querida, tão querida, já não está mais ali, contudo, nosso coração esquece que aquele membro - braço ou perna - foram amputados, já não estão mais ligados ao nosso corpo, mas os sentimos como se ali ainda estivessem, mesmo que não os vejamos mais. Não é isso que dizem que ocorre com aqueles que perdem alguma parte de seu corpo?

A memória é um dos temas que mais me assombra. O Deus que nunca esquece, o Deus onisciente, promete lançar nossos pecados nas profundezas do mar (Miquéias 7:19). Eu lembro de fatos, acontecimentos, episódios que as demais pessoas juram que nunca ocorreram, mas eu não esqueço. Eu não esqueço e isso me assusta. Eu lembro de discursos inteiros de outras pessoas. “Mas ficou gravado o que ele disse?”, perguntavam-me, incrédulos. Entretanto, hoje em dia, tudo está gravado nas mídias sociais. De uns tempos para cá, cada vez menos as pessoas podem alegar que não viveram ou que não disseram determinada coisa. Contra a falta de memória de alguns, há os celulares em punho de quase todos. Embora caminhemos, cada vez mais, para uma vida pública e privada registrada por câmeras, a maior parte da minha vida está registrada apenas na minha mente e, eu sei, na mente de Deus também. Por isso, a memória me assombra tanto, pois é um ponto de contato com Deus, pois, quando recordo, sei que estou lembrando de imagens, pessoas, vivências das quais Deus jamais esquecerá, ainda que muitos esqueçam e, até mesmo, que eu acabe por esquecer um dia. Porém, em Cristo, todos os meus pecados pregressos foram lançados nas profundezas do mar sem fim e, de lá, Deus nunca jamais os retornará. 

A memória coloca-me em contato direto com o que Deus já pensou primeiro, antes de mim. Quando vejo-me assaltado por essas lembranças de mamãe, sei que elas me colocam em contato também com tantas outras pessoas que perderam entes queridos. Um dia desses, eu estava pedalando no Parque da Cidade e uma lembrança tão vívida e repentina veio, que algo físico mesmo aconteceu comigo e tive que freiar no mesmo instante e, então, peguei-me dizendo para mamãe: “Não é mesmo, mãe?”.  Mas ela, mais uma vez, não estava ali. Quantos, contudo, não pensam que seus entes queridos estão, na verdade e de verdade, ali? Não é essa crença que subjaz a tantas e tantas espiritualidades e religiões mundo afora? Natural é sabermos que a pessoa está ali e que ela nunca foi embora. O que não é natural é a morte, essa amputação do ciclo da vida, o encerramento do calor do corpo do outro. E desses anseios, angustias e receios nascem as religiões, filosofias e espiritualidades mil.   

O que é universal? É o desejo que as coisas boas permaneçam como sempre foram ou que, de alguma maneira, possam ser restauradas. Nos filmes, quantas vezes vemos os personagens visitando os túmulos em cemitérios e conversando com “quem está ali”? Precisamos conversar, isto é universal. “Estar só” é bom apenas se for fruto de uma escolha e não de uma coação ou condenação e, mesmo assim, por pouco tempo. Como eu sei disso? A Bíblia me diz. Aliás, a despeito de meus anseios, angústias e receios, a Bíblia veio para “colocar ordem na casa”. Nessa miríade de crenças e opiniões humanas mundo afora, é preciso verdade e, se eu não tenho a verdade, o que eu tenho? Mentiras, falsidades, ilusões e o perigo de estar trilhando uma selva escura numa noite sombria sem lanterna, mapa e guia. Crenças e opiniões confortam por certo tempo. Entretanto, verdade é uma certeza que muda nossos pensamentos, vontades e emoções. A própria Bíblia diz de si mesma que ela é a verdade, a verdadeira Palavra de Deus num mundo de tantas e tantas vozes estranhas e de inúmeros testemunhos falsos, enganosos e autoenganados (Jo 10.35; II Tm 3.16; II Pe 1. 20, 21).

Se eu e você não buscarmos conhecimento na Bíblia, vamos buscar onde? Nas verdades mutáveis de homens frágeis e pecadores e em suas iluminações contraditórias e efêmeras? Que é o homem para que se acredite nele? Ao contrário, a Bíblia vem resistindo a ataques, acusações, julgamentos, crenças, opiniões e continua sendo o documento mais bem registrado da história humana. Todos os críticos da Bíblia morreram, mas Jesus vive e nos confirmou a autoridade da Bíblia como fonte de conhecimento inerrante e infalível contra as tradições fúteis dos homens. Diante disso, verdade tem a ver com conhecimento e a fonte de conhecimento para lidarmos com nossos mortos está na Palavra de Deus. A Bíblia proíbe a comunicação com os mortos (Lv 19.31; Dt 18. 10-12; Is 8.19; Lc 16. 19-31).

A verdade é imutável e Deus, para nos proteger de charlatães, espíritos enganadores e de nós mesmos, continua a nos proibir de conversarmos com os mortos. Deus nos chama para conversarmos com seu Filho Jesus - e somente com Ele! Ele, por meio da intercessão do Espírito Santo, leva nossas orações até ao trono do Pai! Minha mãe morreu em Cristo e, por isso mesmo, um dia, eu e ela estaremos conversando face a face com Jesus. Naquele Dia maravilhoso, todos os que morreram no Senhor, conversaremos aos pés do Cristo eternamente.

A você que perdeu um ente querido, leia a Bíblia e converse com o Senhor Jesus sobre isso. Leia o Evangelho segundo João, capítulo 11: 1-46. Ouça a voz de Deus, na Palavra, conversando com você.

Fábio Ribas

 


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Escritos contrarrevolucionários - ensaios do front



    Por que manter uma ordem cronológica dos textos? A maioria das ideias foi amadurecendo com o passar dos anos e com as muitas leituras que fazia. E gostaria que os leitores percebessem isso. À medida que refletia sobre os livros que lia e aquilo que via, ouvia e vivia, pude ver como que a Palavra de Deus confrontava o modus operandi e a teologia que eu vinha encontrando no mundo missionário.


    Falei em ordem cronológica dos textos, mas sei que trouxe os “textos primordiais” para o fim do ebook. Foram aqueles textos que, entre 2009 e 2010, surgiram das primeiras reflexões sobre o campo missionário. Era um tempo de ouro em todos os sentidos para mim. Ali, eu passava um mês na aldeia e 15 dias na cidade, que era quando, nesses retornos, eu lia a revista Ultimato e escrevia sobre tudo aquilo que estava me incomodando naqueles artigos de uma revista “evangélica”. Tudo era novo para mim, principalmente, acredite eu, por não ter nascido num lar evangélico, não ter sido criado em igreja e nem ser de tradição presbiteriana e reformada. O que eu quero dizer com isso? Eu não sabia, naqueles primeiros textos que estava escrevendo, quem eram aqueles autores e nem sabia o que eles mandaram para muitos nichos dentro da Igreja Evangélica Brasileira. Devo confessar que essa ignorância me ajudou muito, porque não escrevia “contra pessoas”, mas contra aquelas ideias exclusivamente. Sem saber, estava colocando minhas mãos em luva de formiga tucandeira. A ponto de me perguntarem se eu queria parar de receber a Revista Ultimato. Mas não era nada disso. Estava apenas conhecendo uma “grande comissão” que eu não fazia ideia que existia: pragmática, esquerdista e revolucionária. No início, os tais “escritos primordiais” foram publicados nos comentários do Ultimato online, mas a ocorrência foi tão raivosa, tão ensandecida, que abriu um blog para publicar os textos ali.


    Depois dessa primeira fase, fui percebendo como aquela mentalidade não se restringia à revista Ultimato, mas era algo que tomava conta da Igreja Evangélica Brasileira. Percebi que não se restringia ao que chamavam de esquerda e de direita, mas era uma maneira de pensar, uma cosmovisão mesma, e ela poderia ser encontrada em qualquer lugar, em qualquer denominação, em faculdades e seminários etc. Assim, parei de escrever sobre os textos publicados nela. Então, fui lendo esse texto da vida do cotidiano nosso e respondendo a ele e não mais aos artigos da Ultimato, mostrando como ideias que são propostas tão “justas” que poderiam não ser bíblicas. Evidentemente, todos os textos são diálogos com a realidade em que vivi, os livros que lia, e comigo mesmo ou outras missões. É natural que, tentando fazer com que o leitor compreenda como nascem as reflexões, eu fale de mim mesmo. Assim, o leitor verá neste livro momentos de testemunho também, minha caminhada e da minha própria família. Caminhando no campo missionário, que me acostumei a sempre comparar como um terreno em que pisava sem saber onde se escondiam as minas. Caminhamos, por todos estes anos, como quem pisa sobre ovos.


    Todos estes textos nasceram, antes de tudo, de preocupações pastorais e paternas. Minhas filhas viveram tudo isso comigo e com minha esposa. Nossas filhas viram e ouviram quando apenas eu e a Lu conversamos sobre estes textos, antes de colocá-los no papel. Assim, apresento estes textos como um pai, defendendo suas filhas dessa mentalidade revolucionária presente nas escolas, universidades, na Igreja e no mundo. É preciso que aprendamos a identificar o mal para que possamos pregar o bem. É necessário que possamos discernir o texto por trás do texto, aquilo que está no arcabouço do que nos falam e do que lemos. As poses! Os textos deste livro tentam cavar e achar as posições. Porque, afinal, por mais maravilhoso que seja a trajetória do sol, do nascente ao poente, é o giro da terra o responsável pela beleza do espetáculo!


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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

 

 

“Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornariam deuses e, por consequência, demônios. Depois nos destruiriam e, também, a si mesmos, pois amores naturais que têm a pretensão de se tornar deuses não permanecem como amores. Eles são ainda assim chamados, mas podem se tornar, de fato, formas complicadas de ódio” - “Os 4 amores”, CS Lewis.

    Em “Srª Lewis” (você pode ler a resenha completa aqui), acompanhamos o nascimento e amadurecimento da narrativa que originará “Até que tenhamos rostos”. Originalmente, uma história abandonada que fora intitulada “Luz”. Joy Davidman incentiva que CS Lewis a retome. A tensão toda da retomada se dá pela dúvida de Joy sobre os sentimentos de Lewis. Afinal, o que ele via nela? Alguém para amar verdadeiramente e se entregar ou apenas uma fonte para saciar sua sede de amizade literária?

    Joy relembra que, no mito, são as próprias irmãs que entregam Psique por inveja. Nesse ponto, Joy comenta que, mesmo nutrindo inveja de Psique, jamais a entregaria à morte.

— Nem para salvá-la? — ele perguntou. — Talvez as irmãs dela tiraram sua felicidade porque acreditavam que a estavam salvando. — É isso, Jack. Você conseguiu. — Bati a mão na mesa. — Escreva sobre isso (diálogo entre CS Lewis e Joy, em Srª Lewis).

    Assim nasce o tema de toda discussão de “Até que tenhamos rostos”. Obviamente, daqui para frente, como nos é apresentado no livro de Patti Callahan, o livro sobre Psique e Orual termina por se tornar uma narrativa para que ambos - Joy e Lewis - entendam e tentem explicar um ao outro a natureza da relação de ambos.

     Preciso começar dizendo que concordo com o que o próprio CS Lewis disse sobre “Até que tenhamos rostos”. Ele afirmou que esse era o seu melhor romance ficcional. Verdade! Estou completamente encantado com tudo o que eu li e com a construção dessa narrativa criativa, profunda e madura. Uma história repleta de camadas que nos dão acesso a vários temas que poderíamos trabalhar sem fim. Mas não é, exatamente, essa a qualidade de um bom mito?

    A história abaixo, no próximo parágrafo, é um resumo do mito de Apuleio, que está no livro “Metamorfoses” (conhecido também pelo título “O asno de ouro”), um resumo feito pelo próprio CS Lewis e apresentado na nota final de seu livro. A partir desse resumo, podemos ver as mudanças operadas por CS Lewis em “Até que tenhamos rostos”. A principal mudança é o foco narrativo, que recai sobre uma das irmãs de Psique, Orual. É Orual quem nos conta a história. E por que ela decide contar a sua versão dos fatos? É que a história original, narrada por um sacerdote do Templo de Psique, não condiz com os fatos vividos por ela. Orual, portanto, escreve seu livro (que é o que estamos lendo em “Até que tenhamos rostos”), para se defender do erro do mito contado e difundido sobre a sua própria história, pois, para Orual, ela não agiu por inveja, mas por amor à irmã Psique. E esse, então, é o estopim de todo o problema narrado no livro de CS Lewis. Segue abaixo esse resumo do CS Lewis.

“Um rei e uma rainha tiveram três filhas, das quais a mais jovem era tão bonita que os homens a adoravam como a uma deusa e, por causa dela, negligenciaram o culto a Vênus. O resultado foi que Psique (como era chamada a mais nova) não tinha pretendentes; os homens reverenciavam demais a sua suposta deidade para pleitear sua mão. Quando seu pai consultou o oráculo de Apolo a respeito do casamento dela, recebeu a seguinte resposta: “Não espere um genro humano. Você deve expô-la em uma montanha, a fim de que se torne presa de um dragão”. Ele fez isso, em obediência. Entretanto, Vênus, com ciúme da beleza de Psique, já havia articulado uma punição diferente para ela. Tinha ordenado a seu filho, Cupido, atormentar a garota com uma paixão irresistível pelo mais baixo dos homens. Cupido saiu para fazer isso, mas, ao ver Psique, apaixonou-se ele mesmo por ela. Tão logo ela foi deixada na montanha, ele a fez ser carregada pelo Vento Oriental (Zéfiro) até um lugar secreto, onde ele havia preparado um majestoso palácio. Lá, ele a visitava de noite e desfrutava do seu amor; mas a proibia de ver seu rosto. Em pouco tempo, ela passou a lhe implorar para que pudesse receber a visita de suas duas irmãs. Com relutância, o deus consentiu, fazendo-as flutuar até o palácio. Ali chegando, foram majestosamente recebidas e demonstraram enorme satisfação em relação a todo o esplendor que viram. Internamente, porém, estavam se corroendo de inveja, porque seus maridos não eram deuses e suas casas não eram elegantes como a da irmã. Elas, então, conspiraram para destruir a felicidade da irmã. Na visita seguinte, elas a convenceram de que seu misterioso marido deveria ser, na verdade, uma serpente monstruosa. “Você deve levar ao seu quarto hoje à noite”, disseram, “um lampião coberto com um manto e uma faca afiada. Quando ele dormir, descubra o lampião — veja o horror que está deitado em sua cama — e mate-o a facadas”.Tudo isso a crédula Psique prometeu fazer. Quando ela descobriu o lampião, viu o deus adormecido, e olhou-o intensamente com um amor insaciável, até que uma gota de óleo quente pingou do lampião e caiu no ombro dele, acordando-o. Levantando-se, ele estendeu suas asas, repreendeu-a e desapareceu de sua vista. As duas irmãs não conseguiram divertir-se por muito tempo com sua maldade, pois Cupido tomou providências que levaram ambas à morte. Enquanto isso, Psique vagueava, desolada e infeliz, e tentou se afogar no primeiro rio que encontrou; mas o deus Pã frustrou sua tentativa, advertindo-a a nunca mais repetir isso. Depois de muitos tormentos, ela caiu nas mãos de sua pior inimiga, Vênus, que a tomou como escrava, espancou-a e lhe atribuiu tarefas cujo cumprimento era impossível. A primeira, que era separar em diferentes montes sementes misturadas, ela cumpriu com a ajuda de algumas formigas muito prestativas. Na sequência, ela teria de pegar um rolo de lã dourada de algumas ovelhas que matavam homens; um junco à margem do rio segredou-lhe que isso poderia ser feito removendo a lã dos arbustos. Depois disso, Psique tinha de encher uma taça com a água do Estige, que só podia ser alcançado escalando-se montanhas dificílimas, mas uma águia a encontrou, tomou a taça das mãos dela e retornou com o recipiente cheio de água. Finalmente, teria de descer até o mundo subterrâneo para trazer a Vênus, em uma caixa, a beleza de Perséfone, a Rainha dos Mortos. Uma voz misteriosa disse-lhe como ela poderia chegar a Perséfone e ainda voltar ao nosso mundo; no caminho, várias pessoas que pareciam merecer sua compaixão lhe pediriam ajuda, mas ela deveria ignorar todas elas. Quando Perséfone lhe desse a caixa (cheia de beleza), ela não deveria, sob hipótese alguma, abrir a tampa para olhar dentro. Psique obedeceu a todas as orientações e retornou ao mundo superior com a caixa; por fim, a curiosidade a derrotou e ela olhou dentro da caixa. E imediatamente perdeu a consciência. Cupido veio até ela de novo, mas, dessa vez, ele a perdoou. Ele intercedeu junto a Júpiter, que consentiu em permitir seu casamento e fez de Psique uma deusa. Vênus reconciliou-se com ela e todos viveram felizes para sempre”.

    O livro de Lewis é dividido em duas partes. A primeira é a defesa de Orual, que narra o que realmente aconteceu. Mas a segunda parte do livro é um acréscimo após a transformação sofrida por Orual. E é na segunda parte que ficamos sabendo sobre o que significa, afinal, o título do livro.

    Evidentemente, assim como o próprio mito de Eros e Psique, a releitura de CS Lewis se abre a muitas possibilidades de compreensão e interpretação, embora não haja dúvida alguma na trajetória vivida por nossa anti-heroína, Orual, até que haja sua transformação. Orual tem sérios problemas com o sagrado, o religioso, o místico. Ela crê nos deuses, mas os vê como suspeitos, como inimigos que estão distantes dela e que em nada ajudam os seres humanos. A principal característica de nossa personagem principal é que ela é muito feia, ao contrário de sua irmã mais nova, Psique. Psique é tão bela, que todos pensam que os deuses estão enciumados e, por isso, as pragas e as doenças que vêm sobre o povo. Então, é preciso sacrificá-la aos deuses. A principal deusa do povo bárbaro do Reino de Glome é Ungit, uma pedra disforme e sem rosto, que brotara da terra. Ungit seria o equivalente à Afrodite dos gregos, mas Ungit é extremamente impiedosa e a quem são feitos sacrifícios, inclusive humanos. Ela é feia. Quero salientar que Ungit é feia e terrível. Acredito que seja importantíssimo perceber duas coisas aqui. Primeiro, Afrodite é a deusa do amor. Segundo, ela é tão terrível como Ungit. Há algo trágico aqui. Você se lembra como deu-se o nascimento de Afrodite? São todas essas informações que ajudarão o leitor na construção narrativa feita por CS Lewis. Quanto à Psique, a irmã mais nova, uma informação importantíssima é que sua mãe morreu no seu parto e que, então, Orual irá se ligar a ela em cuidado maternal.

    Psique é levada à montanha para ser sacrificada e abandonada. Mas, depois, Orual sobe a montanha para dar um enterro digno à irmã sacrificada. Todavia, quando Orual vai procurar o corpo de sua irmã, Psique não está lá. Ela está morando num castelo de um Rei deus, mas esse castelo não é visto, pelo menos num primeiro momento, por Orual. Por amor, Orual se arrisca para dar um enterro digno a sua irmã. Agora, por amor, Orual alerta que era tudo um delírio de Psique, pois não havia castelo algum. Ela deveria estar enfeitiçada por esse monstro, que fingia ser um deus. Se ele fosse quem dizia que era, por que proibia Psique de ver seu rosto durante suas visitas íntimas?

   Orual tem um rosto feio. Psique, um rosto divinamente belo. Eros (Cupido), o rei que casara com Psique, proibia que ela visse seu rosto. O rosto de Ungit era disforme. Enfim, estamos diante de uma questão de identidade. O rosto (ou a falta dele) diz quem somos realmente? Por que Orual não tem rosto? Essa última pergunta é fundamental para entendermos a proposta de CS Lewis. Orual passa o livro não apenas fugindo do seu rosto feio escondendo-o debaixo de um véu e, com isso, alimentando supertições populares sobre ela, mas, principalmente, ela assume máscaras, que são os seus “rostos” na sociedade. Mas quem eu sou? O meu rosto, que escondo de todos, ou minhas máscaras, com as quais atendo as expectativas alheias? Compreendendo o que acabei de escrever, podemos agora nos abrir sobre duas sentenças que aparecem no livro sobre Orual: ela é Ungit e ela será Psique.

    (A partir daqui, revelarei a tese principal de CS Lewis no livro, portanto, continue a ler por sua conta e risco).

    Ungit é perversa. Como compreender que a amorosa Orual seja Ungit? Eis que o véu sobre seu rosto cai, pois o que Orual pensa que é amor, na verdade, não é. É possessividade, inveja, ciúme e, até mesmo, ódio por sua irmã Psique. Descobrimos, durante a leitura, que Orual é tão devoradora dos seres humanos como Ungit. Contudo, nossa personagem não tem rosto, assim como a deusa Ungit. Por isso, podemos entender que a falta de rosto - ver-me como quem eu realmente sou - é a razão dos deuses não ouvirem sua petição e defesa que fazemos diante deles. Ela só poderá estar na presença deles com um rosto.   

    Quais as máscaras atribuídas - papéis sociais - à Orual?   A “filha” de Raposa, que é seu Mestre descrente dos deuses e dos poetas; a “Maia”, de Psique, ou a “senhora” de Bardia, seu fiel soldado e amor não correspondido? Rainha de Glome? Todas essas máscaras não correspondem em nada ou são facetas - sujeitos dispersos de Orual? O fato é que máscaras não são rostos. E enquanto Orual não encarar seu próprio rosto diante do espelho, ela não poderá ser recebida no tribunal. Ela continua a ser Ungit. Perceberam? AMEI!!!

    Mas quando Orual ouve a frase “você também será Psique”? Na primeira vez, ela está sendo expulsa da montanha, depois de induzir Psique ao erro de duvidar de Eros e tentar ver o rosto do deus que lhe desposara. Psique é condenada a vagar por causa da sua desobediência e Orual, segue de volta ao Reino para se esconder debaixo do véu. Ambas seguem seus destinos: Psique, peregrinando em exílio, e Orual, a Rainha sem rosto. Entretanto, no fim do livro, Orual ouve: “Você é Psique”!


CONCLUSÃO

 

    Por que escrevemos? "Escrevo para confrontar os deuses", diz Orual. Fomos expulsos do jardim do Éden. Há em todos nós uma sede por justiça. Escrevemos para dizer como as coisas realmente se deram. Mas será que sabemos o que realmente rege os acontecimentos? Sabemos quem somos? Durante todo esse tempo, Orual encobriu a face diante de nós e não nos mostrou seu verdadeiro eu, da mesma maneira que não nos contou a realidade sobre seu amor. Orual acusou os deuses de não falarem claramente as coisas, mas ela fez o mesmo. Acusou o deus da Montanha de encobrir um rosto horrível, mas ela fez o mesmo. Acusou Ungit de consumir o povo, e ela fez o mesmo. Assim, ao chegarmos ao fim do livro, o livro de acusação de Orual contra os deuses, Orual reconhece que o livro serviu para que ela revelasse a si mesma sua própria ferida, seu prório rosto... 

    “Vc também é Psique” à luz de nossa união com Cristo, ali eram sonhos... Pois quem realmente realizou as tarefas fora Psique, quem conquistou para Orual a redenção foi Psique! Eu preciso assumir o meu rosto: sim, sou feio! Contudo, na hora em que retiro o véu e enfrento a feiúra do meu próprio rosto, não é com o meu rosto que, finalmente, enfrentarei o tribunal dos deuses, mas é com o rosto de Jesus! Quando Deus olhar para mim diante do Tribunal, não será com a feiúra do meu rosto que serei julgado, mas com o rosto de Psique, que realizou todas as obras em meu lugar e me imputou sua justiça, sua beleza, seu rosto para que eu pudesse estar diante de Deus. E para encerrar com um tema que me é tão caro, mostrando que o Cristianismo não é um budismo, ao conferir-lhe um novo rosto e dizer que ela também é Psique, vemos, ao fim do livro, que Orual não perde a sua individualidade.

                    Fábio Ribas

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Você ainda confia no seu pastor?

 

    Brady Schearer fez um post em seu perfil do Instagram (aqui e aqui) mostrando que, nos Estados Unidos, a confiança nos pastores foi corroída num curto período de apenas 40 anos. Em 1985, segundo a pesquisa feita pelo Instituto Gallup, quando perguntado aos americanos “Como eles avaliariam os seus pastores em termos de honestidade e ética”, 67% dos entrevistados responderam que “confiavam” e até “confiavam muito”. Segundo Schearer, feita a mesma pergunta atualmente, somente 27% deram a mesma resposta. Além disso, entre os atuais pesquisados com menos de 35 anos a resposta favorável cai para assustadores 17%. O que aconteceu?

    Brady Schearer apontará 5 saídas para reverter esse declínio de confiança dos pastores entre as ovelhas. São elas: 1ª) transparência radical nas finanças; 2ª) mostrar sua imperfeição (e não apenas autoridade); 3ª) a necessidade de um ministério apoiado em muitas “vozes” e não apenas numa única pessoa; 4ª) reconhecer a crise e enfrentá-la; e 5ª) prestar contas. É importante notar como que essas 5 saídas interessam a todas as lideranças e cristãos em geral, e não somenrte a pastores. Acredito que, por exemplo, missionários precisam se atentar ao que foi colocado por Brady Schearer, assim como todo cristão em seu ambiente de trabalho, seja na função de patrão, seja como empregado. O que precisamos é de um retorno a uma ética bíblica aplicada às pequenas coisas do dia a dia na vida de cada um de nós.

    Na sua página do instagram, a Churchcombr (aqui) aproveitou o post de Schearer e trouxe para o centro do debate o problema dos desigrejados, mas aqui do Brasil. Schearer irá discutir a questão do abandono da religião pela falta de confiança nos pastores em seu vídeo aqui. Neste, ele confirma não duvidar dos critérios e da transparência da Instituição Gallup, mas acrescenta três dados que precisam ser levados em conta. Primeiro, a pergunta feita foi sobre o “clero”, isto é, pastores e padres foram objeto da pesquisa, assim, como ele mesmo diz em seu vídeo, os escândalos de uns recaem sobre outros num público que não faz muita diferença se fulano é dessa ou daquela denominação religiosa. Segundo, ainda no vídeo, Schearer lembra que a internet exacerba a visão que as pessoas têm sobre o que está ocorrendo, pois, hoje mais do que nunca, temos acesso a escândalos do outro lado do mundo, a exposição é global, diária e intensa. Terceiro, no mesmo vídeo é trazida uma informação que não aparece nem no carrossel de Schearer e nem no da Churchcombr: embora haja esse forte declínio na confiança quanto ao clero americano, há um crescimento modesto quanto à confiança nas igrejas americanas. Outro dado interessante no vídeo é que entre os evangélicos e os católicos de 40 anos de idade, deste grupo 45% cita que os escândalos foram a causa de sairem da igreja, enquanto daquele apenas 34% dão a mesma justificativa. Ainda outra informação abordada no vídeo sobre a realidade dos Estados Unidos, que é histórica e culturalmente muitíssimo diferente da brasileira: além de serem verdadeiramente polarizados em dois partidos, muitas igrejas de lá compreendem que, se elas forem claras em seu posicionamento político, há um comprometimento maior de pessoas com elas. Dito tudo isso, que mostra um pouco das enormes diferenças entre os Estados Unidos e o Brasil, vamos ao tema dos desigrejados. 

    O dogma proclamado pelos desigrejados, preciso relembrar aqui, está cristalizado em frases como “eu perdi a fé na Igreja, mas não em Jesus” e “eu não sigo uma religião ou placa de igreja, mas sigo a Jesus”. Como o objetivo da Churchcombr é tratar sobre esse grupo, repito ao leitor que foi no post da Churchcombr que se transferiu o assunto da pesquisa da Gallup sobre "a crise de confiança dos americanos em seus pastores” para “a falta de confiança nas igrejas brasileiras”. No post original, Brady Schearer não faz essa aplicação sobre as igrejas de lá. Ao contrário, até é citado, como já disse, que está ocorrendo uma modesta recuperação da confiança dos americanos em suas igrejas. Ele diz que a derrocada de confiança dos membros das igrejas nos pastores, por causa de tantos escândalos em que se viram envolvidos nas últimas décadas, certamente afeta as igrejas e, construtivamente, propõe as 5 saídas. Esta é a realidade americana. Aplicar, portanto, tudo isso à realidade brasileira é igual transplante de órgão, quando não se atenta às regras de compatibilidade, é bem provável que haja rejeição. 

    Quando pensamos em “Brasil”, um dos primeiros fatos que devemos levar em conta é que pastor e advogado, hoje em dia, é produzido por qualquer um, em qualquer lugar e de qualquer maneira. A gente não pode esquecer que, dentro dessas estatísticas, se estivéssemos trabalhando com uma pesquisa feita por aqui, tem de tudo no pacote e, provavelmente, até seitas. Não podemos ignorar que, hoje em dia, vivemos tempos em que basta a autodeclaração, não é mesmo? E, como vimos até mesmo na Gallup americana, dependendo de como seja feita a pergunta, o clero evangélico e católico não será discernido no resultado. Sem sombra de dúvida, pelas pesquisas que acompanhamos no Brasil dos últimos anos, teríamos que ser muito mais críticos em relação aos critérios e métodos aplicados pelos Institutos. Infelizmente, estamos vivendo um tempo em que não se faz recorte da realidade, mas se produz realidade em recorte para se costurar no que nossa reengenharia social anseia.

    Embora o objetivo da pesquisa da Gallup fosse o clero em descrédito lá no Novo Continente, não há como fecharmos os olhos para quem são "esses que perderam a confiança em seu pastor". Um outro carrossel de Schearer nos dá a informação que um em cada três cristãos prefere se aconselhar com uma Inteligência Artificail (IA) do que com o seu pastor. Isto seria uma consequência do descrédito para com o clero de lá? Uma resposta positiva a essa pergunta faria sentido. Contudo, não tenho nenhuma competência para analisar a realidade americana, enquanto, por outro lado, seria muito interessante olharmos para o "povo de Deus" aqui de nossas igrejas. 

    Uma das diferenças abissais entre nossas culturas é que o brasileiro ainda é muito relacional, preferindo manter o vínculo social do que sacrificá-lo no confronto com a verdade, por isso duvidaria que, em assuntos espirituais, o povo evangélico do Brasil já estivesse nessa mesma proporção "1 em cada 3". Quem é o povo brasileiro é resposta complexa e não caberia aqui, ainda assim podemos notar características evidentes de nossa própria cultura e de como ela tem influenciado nossas igrejas. É notório que o chamado "povo de Deus" nunca esteve tão envolvido com práticas ilícitas no seu dia a dia, e veja que nem estou me refirindo a grandes esquemas de corrupção. Falo mesmo é da quebra de nossa ética nas pequenas coisas. Por exemplo, é impensável que, até 40 anos atrás, descrentes preferissem empregados crentes trabalhando em suas empresas e nas suas casas, por causa da ética e da honestidade desses. Hoje, as palavras "crente" e "evangélico" estão associadas a muitas coisas e não mais, e nem necessariamente, com o exercício de um bom caráter. Parece que o traço cultural infame do "jeitinho brasileiro", ao invés de ser confrontado, foi absorvido por parte do povo de Deus. As práticas de se tirar vantagem em tudo e debochar do outro (porque seríamos um povo "alegre e feliz") não encontra nas igrejas brasileiras uma diferença em relação ao que o "típico brasileiro mediano" pratica aí fora. 

    Os nossos líderes são reflexo de onde eles saíram. Não podemos nos eximir dessa responsabilidade, nem nós, nem os americanos. Os nossos líderes existem, porque, de um modo ou de outro, eles são preparados e validados pelo rebanho que os deveria ter experimentado no aprisco eclesiástico, antes de enviá-los ao mundo. Sim, o povo de Deus perdeu a sua aura de santidade diante do mundo ao seu redor, logo não devemos nos admirar que nossos líderes também. Quem são essas igrejas e quem são esses líderes, que dão essa gordura para as manchetes dos noticiários? A maior parte dessas igrejas e desses pastores surgiram (e continuam surgindo) sem o menor traço de compromisso histórico e teológico, comprometendo-se apenas com a visão e o dom que "Deus lhes deu". O mundo não faz esse discernimento, tratando tudo que é "clero" como farinha do mesmo saco. É preciso que os cristãos façam e, então, se posicionem fiscalizando seus líderes e defendendo o evangelho puro e simples e a santidade de suas igrejas locais e denominações.

    Os jovens, outra faixa etária cada vez menos descrente da honestidade e da ética dos pastores, segundo a Gallup americana, são também frutos de suas famílias. Se os pais não confiam, não devemos nos surpreender que os filhos também não confiem. Até porque, muitos desses pastores deixaram de ser modelos de liderança cristã dentro de suas próprias famílias, quanto mais para as famílias das suas comunidades. Mais uma vez, infelizmente, devemos fugir do simplismo de, tão somente, lançarmos o problema sobre os ombros de nossa liderança, esquecendo que eles saem do nosso meio, do meio do povo de Deus”. A questão que precisa ser enfrentada é que o povo evangélico não se separou do mundo (a não ser quando se trata de moralismozinhos e legalismozinhos) e tem devolvido à sociedade um sincretismo depravado de cristandade gospel com nosso "jeitinho brasileiro". Nossos líderes e pastores são apenas a ponta do iceberg e as igrejas precisam se reavaliar sobre como tem preparado aqueles que ela oferece ao mundo: suas famílias, líderes, missionários e pastores. Embora eu não duvide que, graças a Deus, ainda haja os sete mil que não se dobraram ao Baal de nossa pecaminosidade cultural brasileira.

    Diante da corrupção e tantas outras mazelas da Igreja de seu tempo, homens como Lutero lutaram por ela e, antes dele, muitos morreram pela santidade dela (I Cor. 6.7), mas, em tempos de farto mercado religioso em que temos vivido, é muito mais fácil pular fora de um barco que se suspeita possa estar naufragando. A própria Bíblia diz que não devemos caminhar sozinhos (Provérbios 4.9-12 e Hebreus 10. 24-25). A Bíblia diz que devemos aprender a resolver nossos problemas legais no tribunal da Igreja e não do mundo (I Coríntios 6). E, indubitavelmente, mesmo diante de situações tão complicadas em igrejas como, por exemplo, a de Corínto, não vemos em nenhuma das cartas pastorais qualquer possibilidade de seguirmos o rumo da porta de saída. Ao contrário, tudo aponta para a santidade e o amadurecimento do povo de Deus. Todas as crises deveriam ser enfrentadas pela disciplina eclesiástica, evitando "demandas forenses desnecessárias" no mundo (CMW 141). 

    Concordo com as 5 saídas propostas por Schearer, mas aplicadas a todos nós e não apenas aos nossos líderes. Além disso, o desigrejado precisa ser tratado, curado e restaurado, pois, ainda que fosse possível termos um sistema perfeito (o que só teremos no segundo advento de Cristo), estamos diante de um desafio pastoral. Por ser um desafio pastoral, é preciso um pastoreio caso a caso, pois, sejamos justos, temos que enfrentar os erros cometidos, as ovelhas feridas, os soldados que caíram por terem sido atingidos pelo próprio exército do qual participam. 

    Acredito que o post da Churchcombr erra quando diz que a crise que gera a opção do desigrejamento não é de fé. No post, apresenta-se que não é falta de fé, mas é a busca pela verdade o que se quer. Veja que essa maneira de pensar já cede a uma outra cosmovisão que não é bíblica. A cosmovisão moderna é que separa fé e verdade. Só é possível fé na verdade, assim como só é possível verdade na fé do que Deus oferece na sua Palavra. Na Bíblia, fé, verdade e justiça são indissociáveis. Portanto, ao contrário do post da Churchcombr, o que falta é a fé na noiva de Cristo, vê-la com os olhos do Noivo, apesar das traves de nossos próprios olhos! A igreja é uma igreja de pecadores, mas de pecadores redimidos, de imperfeitos pecadores, porém redimidos. Lembrando ainda que o próprio Jesus disse que teríamos joio no meio dessa plantação de trigo. A crise é de fé naquilo que a Palavra diz sobre nossas igrejas: elas nunca seriam perfeitas e, uma vez discipulados desde o início de nossa caminhada cristã nessa verdade, devemos investir no apoio bíblico da mutualidade cristã. Estamos numa corrida rumo à Jerusalém Celeste, entretanto não é uma corrida de uns contra os outros. É uma corrida em que todos os eleitos de Deus chegarão juntos, graças à vitória de Cristo. 

    Caro leitor, você lembra da 5ª saída proposta por Schearer? No momento em que eu li a 3ª e, principalmente, a 5ª saída ao atual descrédito de nossas lideranças evangélicas, ficou evidente para mim que a solução também passa pelo tipo de governo das igrejas (além de um compromisso sério com a teologia histórica da Reforma Protestante). Aqueles 5 caminhos se apresentam como saídas para a crise de liderança das nossas igrejas. Todavia, sendo mais atento ao que está escrito no carrossel, em Igrejas cujas lideranças não prestam contas a ninguém, dificilmente aquelas propostas vingarão. Assim, um governo de presbíteros verdadeiramente regentes sobre a Igreja local e que funcione, de fato, de modo disciplinar, isso atende àquelas 5 saídas, ao meu ver. Pelo menos, muito melhor do que um tipo de governo centralizador ou exacerbadamente dispersivo. A 5ª saída, então, deveria nos levar a rejeitar qualquer modelo episcopal ou semi-episcopal. Mesmo dizendo tudo isso, posso expressar que não me iludo que o governo presbiteriano seja perfeito, pois também é regido por homens pecadores. Ainda assim, auxilia, e MUITO, que os anciãos das igrejas possam pastorear e administrar as igrejas locais, não apenas auxiliando o presbítero docente, que é o pastor, mas ajudando-o no pastoreio dos membros e da própria família pastoral.

    De acordo com o penúltimo post do carrossel da Chuchcombr, as pessoas querem mais "verdade". Seria tão simples assim a descrição da realidade que enfrentamos hoje em dia? Se a descrição está incorreta, a prescrição também será apenas um placebo, até que o desigrejado escolha um outro culpado. Precisamos enfrentar o quinhão que também cabe a cada um dos envolvidos nesta trama que tratei aqui, mas que o façamos à luz da Palavra. 

    Preciso encerrar esta minha reflexão, iniciada por causa de um queridíssimo amigo que perguntou minha opinião sobre o carrossel da Churchcombr, dizendo que também já tive graves problemas com irmãos e líderes dentro da Igreja. Irmãos e líderes que, no processo, agiram como ímpios e não como irmãos. Líderes que, muitas vezes, serviram muito mais como exemplos a não seguir, e do que não fazer, do que amados que deixaram para trás o bom perfume de Cristo em minhas mãos. Porém, aprendi que, na caminhada da santidade, o mal que nos fazem tem propósito também. Ainda que nosso melhor amigo levante seu calcanhar contra nós e possamos não compreender naquele momento, mas é pela fé que cremos na verdade da justiça divina. Acredito em ordem e decência, por isso há a orientação de Jesus Cristo em Mateus 18. Sei que, para além do tribunal eclesiástico, haverá situações inevitáveis que terão que ser encaminhadas ao tribunal do Estado, não só depois de esgotadas todas as possibilidades bíblicas, mas também repassadas ao Estado pelo próprio tribunal eclesiástico. Um reconhecimento público e necessário de que algumas causas são crimes e precisam ser pagos na sociedade. 

    Um dia, no grande Dia, a cortina do grande Teatro será rasgada e as luzes todas serão acesas sobre as histórias pessoais de cada um de nós. Eu creio, espero e descanso na fé que revela a verdade de um grande julgamento final: todos prestaremos conta. Não haverá mais segredos, nem acordos e decisões escusas que foram feitos no silêncio comprometedor por trás das portas fechadas... Deus escancarará tudo. Entre nós, quem está preparado para aquele grande Dia?

    O apóstolo Paulo sofreu com muitos irmãos e igrejas. Ele foi preterido, difamado e até abandonado. Contaram sobre Paulo e seu ministério as versões que quiseram, mas poucos dos que ouviram aquelas versões o procuraram pessoalmente para perguntar, olhando nos olhos dele. Depois de tudo, apesar de tudo, Paulo nos dá 3 razões maravilhosas para enfrentarmos o mal que sofremos de irmãos que não buscam a reconciliação. Essas três razões se encontram no primeiro capítulo, da sua segunda Carta aos Coríntios. E se você chegou até aqui, neste ponto da leitura, quero compartilhá-las:

1) Sofremos, porque, uma vez consolados, devemos exercer com o outro nosso irmão dessa mesma misericórdia recebida (você não é único que sofre dentro - e nem por causa - da igreja);

2) Sofremos, porque, ainda que morramos, precisamos aprender a depender total e tão somente dAquele que é poderoso para ressuscitar mortos (somos chamados à morte por Cristo, caso ela seja necessária à divulgação e ao bom testemunho do Evangelho);

3) Sofremos, mas, no Dia do juizo final, descobriremos que muitos irmãos não desistiram de orar por nós e apoiar o nosso ministério: esses irmãos serão revelados e eles farão parte da nossa glória eterna, assim como já fazemos parte da glória da Igreja que, desde agora, persevera em orar por nós (Deus é o Justo Juiz, lembre-se que a última instância pertence a Ele - a justiça dos homens, que é falha, não é a última palavra).  

        Fábio Ribas


 

 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A tatuagem de pássaro (Dunya Mikhail)


Qual a prática comum do Estado Islâmico sobre grupos minoritários étnicos que não cedem à sua religião? Ou você converte ou será eliminado da face da terra. Quem pode não sofrer com a morte imediata são as crianças e as mulheres. Estas, consideradas mulheres a partir dos seus 9 anos de idade, são vendidas como escravas sexuais. Aquelas são preparadas numa lavagem cerebral para se tornarem soldados descartáveis na linha de frente da guerra.

Tudo isso é narrado pela autora iraquiana de “A tatuagem de pássaro”, que reuniu os testemunhos de refugiados e nos presenteou com essa belíssima obra literária. Um tema tão delicado, sensível, cheio de gatilhos, mas apresentado de forma tão literariamente tocante, que, simplesmente, nos vemos envolvido numa história encantadora. enquanto conhecemos os detalhes culturais do povo de Helin e Elias, o casal de nossa história.

Dunya Mikhail trará a situação do povo Yazidi, que sofreu um verdadeiro genocídio pelo grupo dos Daich, um grupo muçulmano sunita, que invadiu o Iraque. Mas quem são os Yazidi? São um grupo étinico-religioso sincrético. Suas crenças misturam muçulmanismo, cristianismo, judaísmo e paganismo do zoroastrismo. Por tudo isso, eles são vistos pelos muçulmanos como pecadores e devem ser combatidos. O maior drama narrado na história do livro se dá com as mulheres yazidis, que são estupradas diversas vezes, coletivamente, pelos soldados do Daich. Muitas delas ficam grávidas, porém seus filhos não são aceitos pela sua comunidade yazidi, porque são considerados muçulmanos. No grupo Yazidi, não há conversão. Você nasce Yazidi e seus pais seguem ensinando sobre a cultura para seus filhos. Assim, as crianças nascidas desses estupros são consideradas muçulmanas e o povo Yazidi rejeita esses bebês.

Surpreende como que a autora consegue injetar numa narrativa tão trágica como essa uma beleza literária de encher os olhos de quem está lendo. Embora haja momentos difíceis de leitura, há narrativas tão lindas, tão sublimes, metáforas e análogias tão doces e delicadas, que ficamos totalmente seduzidos pela obra. Um dos livros mais lindos que já li.

A narrativa trará, então, a história de mulheres sequestradas por esse grupo do islamismo e elas são colocadas à venda no mercado como escravas sexuais. Uma realidade muito comum, mas pouco enfrentada e conhecida. A mais nova delas, Laila, tem apenas 10 anos. A personagem principal, Helin, “a número 27”, título do capítulo que abre o livro, tem 30 anos. Enquanto esperam para serem vendidas, aquelas mulheres são estupradas por seus algozes, que pensam, com isso, estar defendendo a pureza do Islã. No capítulo “Metade da beleza de uma pessoa é a língua”, vemos a incoerência de uma cosmovisão teocêntrica e tirânica, que proibe Helin de falar sua própria língua. Um capítulo em que conhecemos mais esse grupo muçulmano que domina a região. As mulheres são obrigadas a usarem a cobertura do nicabe, que apenas deixa os olhos de fora. Não se pode falar com uma mulher na rua a menos de dois metros de distância dela, pois a polícia religiosa dará chicotadas no homem que não obedecer. O álcool e o fumo são proibidos, mas não o uso de drogas. As mulheres são compradas e usadas sexualmente. “Haram”, que é o contrário de “Halal”, é o que é proibido pela religião, “pecado”, para os adeptos desse grupo muçulmano.

No capítulo “O lego”, nos é apresentada uma metáfora interessantíssima. Essa metáfora prediz o que virá dali para frente na história. Deve ter um nome técnico para isso, pois é uma estratégia narrativa. Até filmes costumam fazer essas analogias que, na verdade, estão figurando o que vai ocorrer com determinados personagens. Mas, aqui, há uma certa tragédia irônica na interpretação equivocada da personagem Helin. Na cena, há uma criança brincando com o lego. Ela constrói uma casa, mas a casa é destruída. E o que parece ser uma metáfora de esperança, pelo menos foi essa a leitura de Helin, “a casa realmente cai”, não para ela fugir de seu cativeiro, mas sua situação retrocede e fica ainda pior do que já estava.

Repentinamente, tudo muda na narrativa. Agora, somos lançados pela autora para entendermos as origens desses personagens e o povo yazidi. “A tatuagem do pássaro” é um capítulo maravilhoso. Destoua completamente da tristeza que vínhamos lendo até agora. Um capítulo cheio de metáforas, analogias e cultura. É o capítulo em que ficamos sabendo como que Elias e Helin se conheceram. Os capítulos que seguirão, antes de retornarmos ao caos do tempo presente, são primorosos, lindos e muito bem escritos. Cheios do colorido cultural dos yazidis. A cena da dança é descrita belamente! E o que é aquela crença do povo Yazidi sobre a baleia que come a lua? Eles saem com panelas e colheres para assustar a baleia e vê-la soltar a lua. Um mito que serve para explicar as guerras sofridas pelo Iraque. O livro nos carrega a uma espécie de alívio de toda aquela crueza do início, para que, então, pudéssemos saber como Helin conheceu o Elias. Um capítulo cheio de beleza e repleto do vermelho do sumagre e do “rádio”. 

“No dia em que meu tio permitiu que eu cuidasse daquela colmeia, ela se tornou meu mundo secreto, do qual tomei consciência. Eu observava como as abelhas trabalhavam. Descobri que a sociedade delas é extremamente organizada e produtiva. Se as vemos de longe, pensamos que se movem aleatoriamente, mas, assim que nos aproximamos do mundo delas, vemos sua precisão. Meu irmão, até os barulhos que fazem é como uma sinfonia conduzida pela rainha que voa alto. Porém, às vezes eu tive que matar algumas rainhas.” “Por quê?”, perguntou Elias. “Pelo bem do reinado”, esclareceu Abdullah.”Às vezes, as colmeias se enfraquecem e eu as combino para que se fortaleçam. Mas, se ficar mais de uma rainha, uma delas voa e leva consigo um exército de abelhas, o que acarreta uma perda maior. Portanto, assim como não é permitido mais de uma esposa na casa, também não é permitido mais de uma rainha na colmeia. Minha comunidade iazidi sabe como eu odeio a poligamia”.

Um livro que me emocionou muitíssimo. Chorei com a história de Amina. Ela queria a criança, mas não permitiram. Ela queria aquela criança, mesmo sendo fruto de um estupro. Era seu filho! Ainda que não deixassem que a criança ficasse com ela, Amina foi atrás de seu filho. Ela sabia que era uma criança inocente do crime que cometeram contra ela. O que vai acontecer com Amina em sua busca por seu filho me quebrou totalmente. Não pelo que acontece em si somente, mas o que aconteceu só ocorre porque ela amava a criança, ainda que seu próprio povo rejeitasse seu filho.

Por tudo isso, durante a leitura, lembrei diversas vezes do belíssimo filme Mucize, que narra também uma delicada comunidade muçulmana no interior da Turquia. Também lembrei de outro filme, “O carteiro e o poeta”, em que vemos toda a beleza do amor sendo massacrada e violentada pelo comunismo. No livro “A tatuagem de pássaro”, é o Estado Islâmico quem vilipendia a beleza. Assim, ficamos tristes e maravilhados com a história contada por Dunya Mikhail. Terminei o livro querendo ler outras obras dessa autora delicada e profunda.

                Fábio Ribas

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Pregação e Histórias (Emílio Garofalo)

 

    O livro do Rev Emílio Garofalo, que tem como subtítulo "O poder das histórias bíblicas", foi escrito não só para mostrar a importância das histórias na vida da sociedade pós-moderna, mas também para resgatar a importância delas para a vida da própria igreja. Contudo, ainda que cheguemos à conclusão de como somos seres criados para as histórias (Homo narrativu), há excessos e extrapolações não só no mundo aí fora, mas quando as narrativas são mal usadas dentro das nossas igrejas. O autor tratará sobre isso também. A proposta não é abandonar o sermão expositivo, mas compreender como que as narrativas podem e devem ser aproveitadas para envolver a mente, a vontade e as emoções do ouvinte em nossos sermões. 

    "Um poderoso livro de histórias" - a Bíblia é um livro de histórias. Não é maravilhoso isso? Maravilhoso que Deus tenha escolhido se revelar desta maneira: por meio de narrativas que atravessam homens, mulheres e crianças na vida de todos nós. A Bíblia não é só narrativas, verdade. Entretanto, muito do que há ali são narrativas. E é a partir dessa compreensão que Garofalo vai enfrentar a delicada realidade de que a maioria de nós, infelizmente, não sabe ler narrativas. Imagine, portanto, o dano disso para o Povo de Deus!  
Se não sabemos ler histórias, como podemos passar para frente a beleza das intrincadas e profundas narrativas bíblicas? Estamos perdendo isso como pregadores e nossas ovelhas também. Nossos pregadores, assim, não estariam quebrando o 8º mandamento do Decálogo? Estamos roubando a oferta maravilhosa de beleza e profundidade que poderíamos entregar nos púlpitos e salas de aula, quando negamos aos nossos ouvintes um mergulho nas águas densas e caudalosas das histórias da Palavra de Deus. Todavia, se o mundo declina na sua formação educacional, evidentemente, também temos sido atingidos por essa mediocridade. Acredito piamente que a Igreja pode e deve ensinar os cristãos a ler melhor a Bíblia. E isso, sim, passa pela leitura de outras literaturas. Para nos ajudar nisso, o autor trará nossa atenção para percebermos do que são feitas as narrativas: enredo, personagens, vozes, silêncios, omissões etc. Precisamos mergulhar nisso, para tirarmos mais do que apenas a ideia geral da perícope. O texto bíblico é muito mais complexo do que isso. Não há apenas uma história, mas a história da redenção que se vê narrada de muitas maneiras e por muitas histórias principais e secundárias também. 

    Não apenas precisamos ler histórias, pois a própria Bíblia é feita de histórias, mas eu e você somos seres compostos de narrativas. Somos feitos de histórias, somos feitos para as histórias. Entendemos o mundo ao nosso redor e nos entendemos por meio de histórias. “Cosmovisão” não é apegada em nós apenas por meio de definição e doutrinas, mas é pelas histórias da cultura que nos molhamos nela. Somos peixinhos dentro de um aquário de narrativas que são absorvidas desde o nosso nascimento. Somos nossas histórias. E conhecer/ler boa literatura também nos ajuda a conhecer o outro por meio das histórias deles. Histórias nos aproximam uns dos outros. Gostamos e nos identificamos com quem gosta das mesmas histórias que nós. Contudo, não podemos ser ingênuos de não notarmos que histórias funcionam para o bem e para o mal. Fofocamos, injuriamos, difamamos, mentimos, manipulamos por meio de histórias. Não é surpreendente isso?

    "Os erros comuns ao pregar histórias" é um capítulo repleto de exemplos (o que senti falta em determinado momento no livro do Tim Keller, “Pregação”). Aliás, o livro de Garofalo é abundante em exemplos e, principalmente, citações acertadíssimas. Como que as tantas citações feitas por ele caem sempre como uma luva na explicação que ele está desenvolvendo num determinado trecho. Digo isso, porque leio muitos livros carregados de citações que, muitas vezes, tangem, mas não ilustram e nem cooperam para uma melhor compreensão do que vinha sendo dito. Depois de cada citação lida, eu sempre abria um sorriso na leitura e divagava pela beleza do que acabara de ver. 

    Ainda no assunto do capítulo dos “erros”, logo no primeiro erro, veio a lembrança da sala de aula em que sempre digo aos alunos que, diante de qualquer texto, já partimos para sua interpretação antes mesmo de termos a certeza de compreendê-lo. Isso faz parte de uma cosmovisão pós-moderna que duvida da intenção do autor e da mensagem primeira do texto para um leitor original. Daí, já saímos em busca da validação de nossas próprias ideias no texto. Agora, imagine isso na Bíblia? Nem precisa imaginar, pois, tragicamente, aplicamos esse mesmo erro em que o mundo se viciou na leitura de seus textos à Bíblia. Esse erro se manifesta sempre que, ao terminar a leitura, o pastor/professor pergunta às suas ovelhas/alunos: “O que você entendeu?”. Ora, uma pergunta dessa terá que aceitar qualquer resposta, não é mesmo? Devemos fugir dessa e de outras perguntas similares e, na verdade, antes de qualquer coisa, apresentar o que o autor (primariamente, o Espírito Santo) está dizendo ao seu público original, mostrar o contexto histórico, o gênero textual em questão, as características daquele texto e o que se queria passar àquele público. Só depois de desenvolver e trabalhar uma boa compreensão do que se leu é que, finalmente, devemos seguir para a interpretação e, então, seguirmos às aplicações ao nosso público de hoje. Resumindo, queimamos etapas, temos pressa e nos aproximamos do texto sem respeitar Sua autoridade.
    
    Gosto demais dessa ideia de habitar a história. Histórias são vivas, mas, infelizmente, podem ser pregadas de modo morto. Os pregadores precisam mostrar ao seu público que sabem que estão diante da Palavra de um Deus vivo. Apreciei demais também o método aristotélico de ethos, logos e pathos.  
Na retórica clássica, o discurso persuasivo envolve ethos, pathos e logos.160 O ethos está ligado à autoridade e confiabilidade do orador. Passa por sua apresentação pessoal, vestimenta, renome, história e relação com os ouvintes.161 Já o logos está ligado ao discurso em si: ideias bem concatenadas, explicações claras, um discurso com início, meio e fim etc. O pathos, por último, passa pelo apelo emocional da mensagem. Toda mensagem busca mover os ouvintes em mais do que sua razão, bem como persuadi-los por meio das emoções inerentes ao próprio tema. É muito importante entender que não estamos falando de manipulação emocional, chantagem ou golpe baixos, mas dos próprios elementos passionais do texto ou do assunto. As histórias carregam consigo elementos emocionais: indignação, pena, saudade, medo, vergonha. O orador precisa usar isso. E o leitor ou ouvinte precisa senti-los (p. 116-117).
    Como disse no início, Garofalo não se furta (e nem nos rouba) de nos presentear com muitos exemplos e é isso o que ele nos trará ao final de seu livro, mostrando e aplicando tudo o que ele abordou em narrativas bíblicas. Precisamos enfrentar o texto como ele se apresenta, fugindo dos moralismos fáceis e sem revelarmos Cristo ao nosso ouvinte. Enfim, precisamos ler mais, ler mais narrativas, aprender e ensinar como devemos ler narrativas e, a partir delas, devolvermos a beleza de Cristo e a feiura de nosso pecado de volta ao centro da questão. Somos seres imaginativos, para o bem e para o mal. Se queremos comunicar a Palavra de Deus para pessoas feitas de histórias precisamos aprender a melhor maneira sobre como apresentar as melhores histórias para elas. Eduquemos nossa imaginação!
Como Gene Veith bem coloca: O ateísmo é um ato da imaginação. O niilismo é uma construção imaginativa da mente humana. Na verdade, todas as religiões falsas são inventadas por seres humanos usando sua imaginação criativa e projetando assim suas criações mentais para o mundo na forma de doutrinas, instituições e costumes. Essas religiões imaginativamente feitas envolvem a criação do que a Bíblia chama “ídolos” — “imagens” — e os sistemas religiosos que crescem em torno dessas imagens, que a Bíblia denomina “idolatria”. O mesmo pode ser dito das falsas cosmovisões (p. 169).

            Fábio Ribas

sábado, 6 de junho de 2026

Persépolis (Marjane Satrapi)

 

    Persépolis, de Marjane Satrapi, é uma história em quadrinhos, em que a autora narra sua própria vida, desde seus dez anos de idade, quando acabara de ocorrer a Revolução Iraniana, até o seu tempo na faculdade de Artes do Irã. Há um interregno em que a personagem passa um tempo morando sozinha na Europa.

    O livro foi relançado em 2020, pela "Quadrinhos na Cia", numa versão "obra completa". Originalmente, eram quatro volumes. Acompanhamos a dura realidade de Satrapi crescendo num ambiente de opressão religiosa, desde sua infância. É uma obra intimista em que ouvimos suas dúvidas, indagações, busca por identidade e luta como mulher em meio à sociedade que a cerca.

    Uma obra que nos coloca no lugar do "outro" e nos aproxima do Irã, sob a ótica de uma menina e sua família. Temos a oportunidade também de nos colocar "na pele" de uma estrangeira na Europa. Muito mais do que isso, Satrapi é uma menina de apenas 14 anos de idade, vivendo no estrangeiro europeu. Os choques culturais e os choques reversos são inúmeros e com eles aprendemos a ver o mundo pelos olhos de Marjane Satrapi. Ainda que não concordemos com todas as opiniões da autora, somos convidados a ver como ela enxerga e isso nos ensina muito sobre ela, sobre sua cultura e os desafios que muitos de sua geração passam. Deu-me vontade de ler os outros dois livros dela.

    Durante toda a leitura de Persépolis, fiquei imaginando se a autora, em algum momento, descobriria esta verdade, que a esquerda tem como projeto a instalação de um regime que fere as liberdades individuais que ela tanto defendia para si mesma. Mas não. O livro termina e não vemos que ela tenha tido nenhuma luz diferente sobre suas crenças políticas. Pelo contrário, os anos de 89, 90 e 91 passam sem sequer ocorrer uma única menção sobre o mundo comunista que ruía na Europa (lembra da queda do muro de Berlim?). O livro também terminará com Satrapi mergulhada em algumas contradições feministas, ainda que ela tenha três homens em sua vida que não são nada daquilo que as teorias feministas, que ela tanto defende, dizem sobre "todos os homens": seu pai, seu tio e seu avô.

    Quando ocorre a Revolução Iraniana, em 1979, Satrapi está com apenas 10 anos de idade. Naquilo que ela consegue absorver dos eventos ao redor, ela se coloca sempre ao lado dos revolucionários. Seus pais eram de esquerda. E a esquerda encontra nos religiosos muçulmanos seus aliados na derrubada do regime monárquico pró-Ocidente do Xá Reza Pahlevi. Todavia, assim que essas duas forças conseguem derrubar a monarquia, os muçulmanos instauram um regime religioso teocrático que passa a perseguir seus antigos aliados.

    Nestess últimos anos, também temos visto, ao redor do mundo, se concretizar essa aliança entre a esquerda e grupos muçulmanos. Uma aliança incompreensível para muitos, uma vez que se dá entre duas cosmovisões que deveriam ser excludentes, pois uma é sustentada sobre uma religiosidade teocrática e a outra sobre o ateísmo anti-tudo aquilo que se chama "Deus". Além do fato de se unirem para derrubar um inimigo comum, poderia haver algo mais profundo que unisse esquerdistas e muçulmanos colocando-os do mesmo lado do tabuleiro? Nas palavras do próprio professor Ibrahim Nasser, o Islã possui uma "doutrina social que impõe aos ricos que deem parte de sua riqueza aos pobres". Isto é um ponto de intersecção que revela porque ambos os lados se autonomearam revolucionários e vêm, nos últimos anos, construindo alianças mundo afora. Porém, como prova a experiência iraniana, não será de se admirar que, uma vez que um desses dois grupos tome o poder em algum lugar, venha então a perseguir o outro.

    Há ainda algo que me incomoda no livro e, certamente, o coloca ao lado dos livros de Orhan Pamuk (autor turco, premiado Nobel de literatura): essa parcela oprimida do mundo árabe é atraída por um Ocidente pós-cristão e laico. Muitos se identificam e buscam refúgio numa Europa sem Deus, pois estão fugindo de uma teocracia totalitária. Eles não querem Deus ou uma versão religiosa diversa da deles, pois estão fugindo de uma sociedade religiosa que os oprime e cerceia suas liberdades em nome da religião. Assim, o encontro de Satrapi com o chamado "mundo livre" é o encontro com a liberdade sexual, o consumo de drogas e o direito ao divórcio e coisas afins. É isso o que a Europa pós-cristã tem a oferecer aos oprimidos do Oriente. Mesmo a versão cristã que Satrapi conhece é a de um cristianismo muito semelhante ao Estado religioso do qual ela está fugindo. E isso me faz pensar tanto no meu cristianismo, nas propostas de cristianismo de algumas tendências religiosas, que, infelizmente, parecem muito mais um "Islã" do que o Evangelho da liberdade de Cristo Jesus.

    O livro da Satrapi entra ao lado de outros livros importantes, caso queiramos, de fato, conhecer a realidade do mundo árabe. Não apenas conhecê-los, mas ver o que de nós eles conhecem também. Ver como eles veem o mundo de cá, que os observa e intervém na sociedade deles. Uma interferência nem sempre bem vista por Iranianos e que demonstra interesses bem mais mesquinhos do que os que o Ocidente publica na mídia, justificando essas interferências "em nome da luta pela liberdade e dos direitos humanos".

                Fábio Ribas

PS - Retorno com a resenha deste livro, porque a autora faleceu no dia 04 de junho de 2026, aos 56 anos. A família divulgou que ela morreu de tristeza, consumida pela dor do falecimento do marido, que se foi há pouco mais de um ano antes dela. 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Pregação - comunicando a fé na era do ceticismo (Tim Keller)


Logo no prólogo, somos lançados à indagação: "o que é uma boa pregação?". Keller já nos diz que não devemos esperar de seu livro um "manual de pregação" do tipo "dez passos para preparar um bom sermão". Contudo, ele reconhece que devemos orar para que o ES abra o entendimento das pessoas que nos escutam, pois há bons sermões que atingem umas pessoas e não atingem outras, assim como há sermões "ruins" que causam forte impacto onde quer que chegue. Por toda essa realidade, o que faz de um sermão um bom sermão?

Em sua introdução, Keller nos relembra que "pregação, sermão", enfim, o uso que fazemos da Palavra, isso pode aparecer em três níveis: 1) fala comum, conversas informais; 2) ensino; 3) sermão. Em todas, na verdade, precisamos nos esmerar, pois são expressões do dom da fala do Espírito Santo.

Em "Pregando a Palavra", o autor nos ensina que devemos nos perguntar não apenas “o quê pregar?”, mas também “como pregar?”. Será óbvio responder que precisamos pregar a Jesus Cristo, mas é um óbvio que precisa ser dito. Agora, como pregar a Jesus Cristo em nossos sermões? Essa pergunta nos leva à seguinte: que tipo de pregação devemos apresentar? Keller mostra que há como reconhecer uns seis tipos de sermão, mas ele se concentrará sobre dois: tópico e expositivo. Aqui, surgirão novas perguntas e precisamos estar atentos e dar conta de respondê-las. Qual tipo de sermão usar? Passaremos um ano (ou mais) pregando num livro? E o nosso público moderno que muda de cidade para cidade? E eu aqui até acrescentaria: que muda de igreja para igreja! Preparemos sem título? E sem tópico? Explicaremos o texto sem aplicação? Prepararemos verso por verso a cada vez, como João Crisóstomo e Calvino?

Como me ensinaram a pregar? Preguei muitíssimo no campo missionário, embora não fosse essa a minha intenção. "Prega a Palavra", de Karl Lachler, na área de homilética, foi o título do livro que mais me marcou no Seminário, talvez por ser um livro muito prático e objetivo. Mas foi quando associei o método desse livro com a estrutura da redação de vestibular que, finalmente, encontrei o caminho para mim, que sou professor da área de Letras. Hoje, eu sei que prego de diversas maneiras, dependendo do texto, do propósito e do público.

Mais uma vez, parece desnecessário dizer que se deve pregar o evangelho sempre, mas não é. O pregador está sempre diante de dois grandes e terríveis erros que ele poderá cometer: ou ele poderá se perder no legalismo ou se perderá no antinomianismo. Esses são os dois grandes inimigos do evangelho. Usando a metáfora apresentada por Keller, o legalismo carrega sobre seus ombros uma colcha de rituais para barganhar com Deus e o antinomianismo, não quer carregar nada. Ambos nascem de um coração orgulhoso e vaidoso que não compreendem o que seja a graça de Deus. Precisamos lutar contra esses inimigos, enquanto pregamos tanto o texto da Palavra como o Cristo do texto. Precisamos seguir a regra neotestamentária de Emaús: revelar Cristo em toda a Palavra de Deus!

No capítulo “Pregando Cristo em toda Escritura”, minha atenção foi captada, especialmente, por dois motivos. Primeiro, o capítulo fez-me reconhecer que não prego muito a Cristo por meio de tipologias, só aquelas que a própria Bíblia escancara. Pregar Cristo pelos temas, gêneros ou mesmo pelos personagens nunca tomou muito do meu investimento nessa área. Segundo, realmente é possível que preguemos “tudo durante um sermão” e, por fim, não entreguemos Cristo aos nossos ouvintes! A atenção aqui precisa ser redobrada pelo pregador.

“Pregando Cristo à cultura” foi o capítulo ao qual mais me identifiquei. Entendi o passo a passo que ele apresentou, embora ainda acho que ele poderia dar mais exemplos para termos referências com as quais trabalhar melhor depois. Ainda assim, veio muito ao meu encontro. Um dos pontos que mais me fez pensar foi a realidade da igreja multiétnica que Keller pastoreia, em que há jovens americanos magoados e feridos por pais que os colocaram em segundo lugar e, ao mesmo tempo, há jovens asiáticos magoados e feridos por pais que os cobram excessivamente. Ambos se sentem traídos por seus pais: por um lado, fracassados por não terem tido o amor e a atenção devida, por outro, fracassados por não darem conta de satisfazer as expectativas. Como preparar um sermão que abarque isso num mesmo público, devemos nos perguntar junto com o autor.

“A pregação e a mente tardia”. Nesse capítulo, Keller tratará da Pós-modernidade e ele o fará de modo mais claro e profundo do que o último livro que li, o "Pregando na Pós-modernidade", de Zack Eiswine. Keller chamará a pós-modernidade de “modernidade tardia”. A partir de um autor do início do século XX, Keller identifica a mente pós-moderna como aquela cuja ideia básica "consista na subversão de toda autoridade externa ao eu". Assim, saímos de uma mentalidade que tentava se adaptar à realidade que a cerca para uma outra que, agora, acredita que ela molda e cria a realidade. Por isso é tão importante que identifiquemos as narrativas culturais que servem de referência ao pós-moderno, pois há uma rede de crenças oculta que sustenta a atual secularização. É o que Keller vai chamar de "impensados". É aquilo que subjaz, são as crenças profundas, que precisamos discernir para responder corretamente a elas.

“Pregando ao coração”. Capítulo fantástico para conhecermos melhor a Jonathan Edwards. Concordo com tudo o que pensava Edwards a respeito do ser humano. Afeições são diferentes das emoções e elas movem o ser humano.

“A pregação e o Espírito”. Definitivamente, a cereja do bolo de todo o livro. Amei aquela diferença entre dons e fruto do Espírito. Dom é o que eu faço. Fruto é quem eu sou. Ainda que eu exerça os melhores dons de modo maravilhoso, isso não significa que o fruto venha amadurecendo em mim. O que eu faço - desenvolver os meus dons - tem a ver com técnica. Quem eu sou - amadurecer o fruto do ES em mim - tem a ver com caráter e intimidade com Deus. Outro ponto sensacional tratado por Keller é ver que, depois de tudo, depois de tudo o que eu fizer para me esmerar sobre a pregação, tudo o que surgirá a partir disso, devo poder dizer a Jesus: "Então, era você o tempo todo"! Todo louvor e toda glória ao Senhor! Ele em nós. Ele em mim. No fim de tudo, só uma coisa importa na vida do pregador: piedade!

Por fim, Keller dará vários exemplos de sermão a partir de textos bíblicos. Um livro obrigatório para ser lido por todo pregador que anseia em se esmerar na arte da pregação para a glória de Deus.

    Fábio Ribas

sábado, 30 de maio de 2026

Pregação na Pós-Modernidade: como ser biblicamente fiel e culturalmente relevante (Zac Eswine)


“Beleza é a deslumbrante exibição da verdade e da bondade de Deus refletidas na glória e na santidade de sua pessoa e obra, na encarnação e no mundo criado. A beleza é o que atrai em Deus; a beleza é o que arrebata os olhos do coração ao contemplar Cristo pela fé mediante a Palavra” (T. Chris Cain, “Turning the Beast into Beauty: Towards an Evangelical Theological Aesthetics”, Presbyterion: Covenant Seminary Review 29, n. 1 (2003), p. 28. Citado em: Eswine, Zack).

    Logo na introdução, o autor me arrebatou com a seguinte pergunta: “eu conseguiria agora alcançar com o evangelho aquele que um dia eu já fui?”. E o autor a introduz dizendo que ele é cristão, pastor e professor de seminário. Eu também, mas acrescentaria que sou missionário. E sei que, na condição de missionário, tenho sido preparado ao longo das décadas para trabalhar com culturas muito diferentes da minha. Contudo, lendo este livro de Zac Eswine, e outros semelhantes de autores americanos, compreendo que a minha cultura está bem mais próxima de dialogar com culturas da pós-modernidade, do que deve ser para uma cultura da América do Norte. Em outras palavras, li o livro de Zac vendo que o pregador brasiliero já está muito mais adequado ao que o autor quer propor do que a cultura americana. 

    Ler esse livro nessa perspectiva é muito interessante, pois há anos ouço como que “os povos” aí fora gostam de missionários brasileiros entre eles. E a resposta fica patente ao lermos “Pregação na Pós-modernidade”. Todavia, não sou ingênuo a ponto de pensar que na América não há pregadores já muito abertos às propostas do livro, assim como sei também que no Brasil há muitos pregadores (e missionários) que precisam ler este livro. Não nego, porém, que o, li com aquela sensação de “mas essa homilética é para todas as eras e não só para minha geração pós-moderna”!  Enfim, um livro enriquecedor que todo seminarista e missionário deve ler.

    Voltemos à pergunta que me arrebatou, pois a li num sábado e a fiquei remoendo dentro de mim. No dia seguinte, pela manhã, aconteceu de perceber que Deus estava me preparando para um encontro com um rapaz seminarista católico que veio visitar a minha igreja. Não tinha como fugir, pois eis eu ali, bem diante de mim, o meu eu de mais de três décadas atrás estava bem ali diante de mim. Como apresentar o evangelho hoje da mesma maneira graciosa e amorosa com que me apresentaram naquele tempo? Não existem coincidências para quem caminha com Deus. Deus queria que eu enfrentasse essa pergunta.

    O livro de Zac está dividido em um prefácio de Emilio Garofalo, além de um outro prefácio à edição brasileira, seguidos de dezesseis capítulos e dois apêndices. No prefácio de Bryan Chapell, vemos que o livro vem na onda do retorno do tema da pregação cristocêntrica, sem, contudo, disperdiçar a pessoa de seu próprio pregador. Em outras palavras, regamos nossa pregação como “pessoas quem tem testemunho pessoal da graça de Cristo”. E não apenas isso, mas devemos subir aos púlpitos sob a responsabilidade de termos uma herança missionária por trás de nós.

    Logo na introdução, fui desafiado a me perguntar no que é preciso saber para sermos salvos? O autor mostra a delicadeza do assunto em nossa complexidade cultural, lembrando do exemplo de Collins e Anne Rice:

Em seu livro A linguagem de Deus, Collins escreve: “O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma”. Collins acredita na evolução e num planeta com quinze bilhões de anos. No entanto, quando lhe perguntaram se acredita no nascimento a partir de uma virgem, Collins responde inequivocamente: “Eu creio!”. Ele defende os milagres da Bíblia e a ressurreição corporal de Jesus Cristo. Collins é cristão.

Da mesma maneira, Anne Rice, famosa autora de romances sobre vampiro e notável ateia, tornou-se uma seguidora de Jesus. Embora ela ainda seja socialmente liberal em questões como a homossexualidade, tornou-se uma cuidadosa e consciente defensora da Bíblia, particularmente da historicidade dos Evangelhos e da veracidade de suas afirmações sobre quem é Jesus.

    No Brasil, nos deparamos atualmente com a mesma tensão. Em algumas igrejas essa tensão é maior e em outras menor. A pós-modernidade nos dá esse leque de pessoas e sua fé pessoal que nem sempre coaduna com nossos credos, símbolos de fé e confissões, mesmo tendo elas como membros comungantes em nossas igrejas locais. Vivemos num mundo anunciado a nós desde a década de 1960: somos seres de planetas diferentes vivendo dentro de uma mesma Interprise, sendo que muitos nessa espaçonave são cristãos! Como alcançar pessoas tão independentes, diferentes e autossuficientes assim? Crentes e descrentes, essas pessoas estão na nave e, então, como nos comunicar com elas?  Como nos diz o autor, ainda na introdução:

Muitos de nós estão sendo forçados a lembrar que alguém pode ser inconsistente na doutrina (como muitos em nosso meio), errar em algumas coisas (como todos nós) e, ainda assim, seguir verdadeiramente a Jesus, um passo de cada vez. A santificação é um processo.

    Quero apenas dar um resumo dos temas que você encontrará neste livro de Zac Eiswine, para animar o leitor a se dedicar nessa leitura desafiadora.  

    Zac Eiswine irá voltar seus olhos não para a cultura pós-moderna, mas para a pessoa do pregador. Ele defenderá a importância de sermos pregadores autenticos e, sendo assim, não temermos mostrar nossa fragilidade e vulnerabilidade à nossa geração. Precisamos ir ao encontro do nosso público sabendo quem eles são. Portanto, precisamos contextualizar nossa comunicação aproveitando tanto as narrativas e as ficções que temos na cultura, para aplicar melhor na vida real dos nossos ouvintes. Precisamos de capital literário! O pregador contextualizado será aquele que apostará mais numa homilética narrativa, sabendo ele que seu público precisa de uma mensagem compassiva e não moralista. Precisamos, então, compreender a arte da narrativa. Nossa pregação narrativa precisa se comunicar com a fé, esperança e amor das pessoas, trazê-las para a compreensão da fé, esperança e amor bíblicos até o ponto de ressurreição! Sim! A pregação deve apresentar a ressurreição possível aos pecadores mortos em seus delitos e pecados!

    Devemos ser pregadores em dois mundos: tradição e inovação. Aqui, ele está falando da necessidade de trazermos em nossa homilética a riqueza do passado, mas saber aplicá-la nos novos contextos. Uma pregação nostálgica e redentiva. Todos somos tradutores! Não apenas os missionários que estão trabalhando com outros povos e traduzindo para outras línguas o texto bíblico, mas o pregador deve fazer o mesmo com seu público dentro de sua cultura e língua (estamos numa Interprise, lembra?). Assim, precisamos usar nossa voz profética para proclamar a verdade. Precisamos usar a nossa voz sacerdotal para pastorear nossas ovelhas. Precisamos usar nossa voz de sabedoria para compreender e se comunicar com a cultura. Somos pregadores tradutores!

    Semelhante ao apóstolo Paulo, temos diante de nós um público de igrejados culturalmente, mas temos um grupo de igrejados confusos e de pessoas totalmente alienadas da verdade bíblica. Ao pregarmos, precisamos lembrar dessas diferenças diante de nós. Não precisamos temer em demonstrar para a geração pós-moderna, avessa ao moralismo e cansada de hipocrisia, nossa vulnerabilidade sacerdotal. Precisamos mostrar que há realmente textos difíceis na Bíblia e o autor irá demonstrar como que, por exemplo, devemos encaixar os textos de guerra e violência bíblicos dentro de seus contextos metanarrativos. Deus foi quem colocou esses textos lá e precisamos mostrar que a violência não é uma justificativa para hoje sermos violentos, mas serviu a um propósito divino naquele tempo. Além disso, precisamos enfrentar nossas próprias ideias idólatras em nós e na cultura. Do contrário, se não enfrentarmos, como daremos conta da homilética satânica? Satanás também prega. Ele corrompe a verdade, manipula o discurso e semeia a mentira e o homicídio. Pregamos diante dessa realidade espiritual.

    Neste ponto, o autor precisa dizer o óbvio: nossa homilética deve ser totalmente dependente do Espírito Santo! Contudo, preciso dizer que foi no último capítulo do livro que, então, fiquei totalmente arrebatado. O capítulo final falou muitíssimo comigo! Concordo com tudo o que está ali em gênero, número e grau. Identifiquei-me e me vi satisfeito naquelas palavras. Falou de algo que me é muito caro: monastério/solitude! E a linguagem propícia para aquele que se refugia em Deus em meio ao caos pós-moderno é a linguagem do Espírito Santo. Precisamos conversar mais com Ele. Gastar um tempo proposital no silêncio e na fuga e sermos, desta maneira, alimentados e saciados pela presença de Deus em nós: fugirmos para o monte em meio à madrugada. Não é um escapismo, mas é uma fuga necessária em tempos de excessos de imagens, compromissos e velocidades. É preciso que nos encontremos com o Deus dos poetas, o mesmo Deus que prega é o mesmo Deus que nos escreveu e nos deu seus poemas, lembra-nos Zac Eiswine.

A linguagem divina tem esse poder. Cristo Jesus tem essa autoridade. O propósito da linguagem, pois, é a glória de Deus em Cristo, em direção à cura substancial de sua criação, até que ele venha. Os ministros, cujo trabalho é a linguagem e a presença, dedicam-se por vocação a tal propósito. Os poetas podem nos ajudar em nossa vocação porque poemas e sermões têm alvos semelhantes — criar e “preservar uma imagem verdadeira da vida”.

    Quero encerrar deixando um dos textos e música mais caros para mim por todos estes longos anos de vida missionária. Espero que, de alguma maneira, venha a significar para você o que tem significado para mim. Lembrei-me do texto abaixo, exatamente quando estava lendo o último capítulo. Foi uma postagem que fiz em 2011! Essa postagem, num antigo blog, tinha como título: "Porque um dia Ele me encontrou"... 

A águia voa sozinha, os corvos voam em bando, 
o tolo tem necessidade de companhia,
e o sábio necessidade de solidão.
Friedrich Rückert


    Porque, um dia, Ele invadiu a minha tola, pequenina e fugaz existência, declarando: "Eu sou o teu Deus e  você é minha propriedade exclusiva para proclamar as minhas virtudes", faço, então, da bela música abaixo - letra e melodia - a minha sincera devoção de amor a Ele, que é o meu lugar de descanso (Fábio Ribas).



Ich bin der Welt abhanden gekommen,
Eu me tornei estranho para o mundo
Mit der ich sonst viele Zeit verdorben,
com o qual perdi outrora tanto tempo; 
Sie hat so lange nichts von mir vernommen,
faz muito que não ouve a meu respeito
Sie mag wohl glaubern ich sei gestorben!
que pode mesmo achar que já morri.
Es ist mir auch gar nichts daran gelegen,
Para mim é de todo indiferente
Ob sie mich für gestorben hält.
que ele me trate como fosse morto.
Ich kann auch gar nichts sagen dagegen,
Nada posso dizer contrário a isso
Denn wirklich bin ich gestorben der Welt.
pois de fato morri para este mundo.

Ich bin gestorben dem Weltgetümmel
Estou bem morto para o seu tumulto
Und ruh’ in einem stillen Gebiet!
e descanso num lugar de quietude.
Ich leb’ allein in meinem Himmel,
Sozinho vivo no meu paraíso,
In meinem Lieben, in meinem Lied
no meu amor, nas notas do meu canto.

Friedrich Rückert:  Ich bin der Welt abhanden gekommen
Gustav Mahler - música

Tradução de Ivo Barroso

                Fábio Ribas

Eu hoje sonhei com mamãe...

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