sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Feito homem - a jornada de uma mulher ao universo masculino

 


"Norah Vincent queria saber como realmente é a vida dos homens. Muitas mulheres estão convencidas de que os homens sempre viveram melhor, em todos os sentidos. Para descobrir por si mesma se isto era verdade, e tentar detectar onde falha a percepção comum, ela fez o seguinte: por dezoito meses se disfarçou de homem. Durante este período, Norah vivenciou uma verdadeira experiência antropológica, relatando o que observou incógnita. Com a ajuda de um artista da maquiagem, de um trainer e de um especialista em impostação vocal, ela se infiltrou em espaços e situações que as mulheres nunca viram. Por mais de um ano e meio, aventurou-se no mundo como seu alter ego. Ned, com uma barba sempre por fazer, com o cabelo cortado escovinha, com óculos de aros metálicos e com sapatos do próprio número de Norah, 42 - um disfarce perfeito que permitiu observar e participar do mundo dos homens como se fosse um deles".

 

    Essa é a experiência de viver um outro gênero. Uma experiência que durou 1 ano e meio e trouxe tanto revelações à autora, lésbica, como também uma depressão da qual ela não conseguiu se livrar até que realizou um suicídio assistido.

 

    Sete anos antes de publicar esse livro, houve a primeira experiência de troca de identidade, mas essa curta experiência não foi adiante. Fora algo bem informal e despretensioso. Contudo, foi o suficiente para a autora querer ampliar o que viveu ali numa única noite.

 

    Desde criança, ela se vestia de homem e tinha atração por brinquedos e brincadeiras masculinas. Aqui, ela faz a pergunta. Por que essa tendência ainda mal saída das fraldas? Ela diz que as respostas possíveis são muitas, mas ela descreve uma experiência da mãe que era atriz e ela ia sempre assistir a esses papéis em que a mãe se fazia de mulher e de homem… Fico pensando que, como logo se vê no ato falho da autora, há perguntas que fazemos e que nós mesmos respondemos. Sabemos as respostas, embora, na verdade, o que queremos é fugir delas.

 

    Terminei o primeiro capítulo e, como leitor, já me vi sofrendo por ela. Como ela mesma diz no livro, não é um livro sobre uma transexual. Ela não teve prazer e nem alívio algum nesse papel. Quando a experiência terminou, foi mesmo um fardo que lhe saiu dos ombros. Porém, o que mais me impactou, foi que houve um sofrimento emocional, pois ela precisou enganar pessoas e ela diz que isso foi o mais complicado e que vieram daí os danos a ela, danos à saúde mental. Danos que ela entendeu como punição por ter se intrometido no mundo masculino (e essa ideia de "punição" irá acompanhá-la durante o livro até se aflorar claramente no capítulo do mosteiro).

 

    Ao encerrar a leitura do primeiro capítulo, estava com uma vontade enorme de consolá-la, pois ela conseguiu mostrar bem tudo o que ela sofreu naquela experiência, que, agora, conseguia narrar naquelas páginas. Eu me vi totalmente envolvido com a história de Norah. Impressionante como ela escreve de uma maneira muito envolvente. Eu sabia que, por ser homem, a leitura dessa história seria muito instigante para mim. Eu não esperava que ela, a autora, fizesse o que fez no fim do capítulo, mas não darei spoiler.

 

    No capítulo intitulado "amizade", ela nos mostra como foi o primeiro desafio dela se passando por Ned. Ela escreve como mulher. Como ela mesma disse, ela não é uma "trans". Ela é lésbica. Ela é uma mulher e a feminilidade dela está ali bem perceptível em cada reflexão, em cada momento em que se depara com um homem e precisa se comportar também como um diante do outro. A abertura dela para aqueles homens, não duvido, só foi possível porque ela é mulher. E isso a pegou de surpresa também. Tudo muito interessante para o leitor que resolve se abrir para ouvir a autora. Paramos para pensar no que é "o ser homem" e "o ser mulher". Aqueles homens nos jogos de boliche e a busca por sair da pressão diária, fugir daquilo que todos esperam e cobram deles, então, exatamente por isso, aquela cumplicidade naqueles encontros, uma amizade nutrida e sem censura entre eles. E ela os absorveu muitíssimo bem, desde o aperto de mão até o ser aquilo que o sexo masculino era naqueles encontros, em que os homens eram homens em sua amizade. Ela me fez refletir nela como mulher diante de homens e a amizade que une a esses homens, inclusive ela aborda a diferença dessa amizade e interação entre os homens comparando quando o mesmo ocorre entre mulheres.

 

    O capítulo agora é sobre "clubes de strip-tease". Assim como eu mesmo nunca tive um grupo de amigos como aquele que ela conheceu no capítulo anterior (homens que se reúnem para uma interação esportiva masculina), eu também nunca frequentei clubes de "strip-tease". Por isso eu disse que ler como homem este livro é uma experiência inesperada. Mas, para ela, como lésbica, estar em clubes assim e ver como ela mesma digere tudo isso também é uma outra janela pela qual o leitor também olhará.

 

    Além de tudo, mais uma vez, ela se vê despertada em seu instinto materno. Um dos presentes gera isso nela. Era um jovem de vinte e poucos anos… Estamos aqui numa seara delicada. Ela fala como mulher e ela não nega que o seja. Ela mergulha no universo masculino, mas de uma maneira muito compreensiva. E ela, que nunca quis ter filhos, volta e meia se vê envolvida por esses sentimentos. Agora, eu paro de entender a autora e começo a me colocar na história. Ou melhor, quero ler este capítulo dos "clubes de strip-tease" com o meu olhar masculino.

 

    Que analogia foi aquela da autora?! Vou tentar explicar. Ela conheceu uma dançarina que dizia que fazia aquilo não por grana, mas porque gostava de homens. Refletindo sobre isso, Norah faz a seguinte avaliação da menina:

 

"Mesmo que isso fosse verdade quando ela começou, o que é duvidoso, com certeza não teria continuado a pensar assim trabalhando neste ou em outros lugares desse tipo. Era um pouco como dizer que você se tornou um médico legista porque gosta de gente".

 

    Wow! Um capítulo cru o do clube de strip-tease, seu título é "sexo"! Norah havia chamado o Jim, um dos membros da equipe de boliche do capítulo anterior, para ir junto para que ela não chegasse sozinha, mas, ainda antes da primeira noite deles numa dessas boates, há o seguinte diálogo entre Jim e ela:

"Eu vou a alguns destes bares", disse ele, "e este é o homem de família que existe dentro de mim, e digo a mim mesmo que estas meninas eram as filhas de alguém. Alguém as colocou para dormir. Alguém as beijou e as abraçou e lhes deu amor, e agora elas estão neste buraco." 
"Ou talvez alguém não tenha feito nada disso", disse eu.
"É", concordou ele. "Eu tenho pensado sobre isso também".

 

    O capítulo "amor" é o que se concentra nos relacionamentos, ou melhor dizendo, na corte de Ned com mulheres. Há uma crítica profunda e séria às mulheres neste capítulo. A autora confessa como foi olhar para as mulheres, enquanto essas se relacionavam com ela como sendo ela Ned. Vemos as mulheres pelo olhar de uma mulher, que sempre se relacionou com mulheres, mas nunca sendo tratada por elas como um homem. Não é à toa que Norah Vincent foi destratada pelas feministas. Se o capítulo fosse escrito por um homem, inevitavelmente chamaríamos o autor de misógino. Você realmente precisa ler este livro!

 

    Por várias vezes, peguei-me lendo como Norah, tentando viver aquelas experiências da maneira mais próxima possível dela. Também, intencionalmente, li como homem, mas, indubitavelmente, como cristão. O capítulo escancara essa falta total de comunicação entre os sexos. Triste. São mundos que estão cada vez mais distantes, quanto mais avançamos nas conquistas de gênero. Eis o paradoxo! O problema, como a própria autora coloca, não é de sexo, não são os homens. As mulheres são complicadíssimas! Para mim, ou melhor, para a Bíblia, o real problema está dentro do coração do ser humano. Não adiantam conquistas ou revoluções. Tudo isso sempre serão maquiagens.

 

    Há uma frase fantástica de Lacan citada no capítulo "amor" que, para mim, diz muito sobre o coração humano: "o amor é dar o que você não tem a quem não existe". Realmente, para o mundo sem Jesus, Lacan acertou em cheio. Só com Jesus teremos o que oferecer ao outro, enfrentando esse outro do jeito que ele realmente é.

 

    "Vida" é o próximo capítulo. Lendo e tentando entender o porquê do título, pois não há vida ali. Há tristeza, muita tristeza e aquela metáfora do casamento, ou melhor, aquele entendimento de que aqueles homens estão ali "casados" entre si, tanto para não precisarem (os homossexuais) chegar às vias de fato de se relacionarem com mulheres, mas terem seus contatos ali superficiais ali, como para (os heterossexuais) fugirem da sua total inabilidade de se relacionarem com o feminino. E todos, homossexuais e heterossexuais, poderem viver juntos (ainda que sós) e poderem se cuidar, ainda que isolados, e, finalmente, ser enterrados por alguém. São para estas coisas que, então, queremos casar? Pode ser. Todavia, biblicamente, o casamento entre um homem e uma mulher é, antes de tudo, para glorificar a Deus.

 

    O mosteiro era um lugar para homens. De fato, concordo com ela, um lugar feito para que não haja mulheres. Até mesmo o incômodo de um homem afeminado era algo não bem visto por ali. Mas ela mentiu mais uma vez e isso a está destruindo por dentro, conforme vai revelando nas páginas do livro. Mentiu aos monges sobre quem ela realmente era por baixo do Ned. O mundo é triste. As pessoas estão fugindo de Deus, dos outros e de si mesmas. E isso é a causa da dor mais profunda e do desencontro entre nós. Norah, contudo, não entende isso e se esconde por trás de seu confuso catolicismo romano.

 

    "Trabalho". E ela escolhe como novo campo de experiência algo extremamente americano: o setor de vendas. A maioria dos funcionários eram homens. Cobrados para renderem como homens. Não as mulheres. Mas eles, sua própria identidade, masculinidade, estava associada a isso. Como ela mesma colocou no início do livro, os seus relatos não são acadêmicos, científicos ou formais. São narrativas de suas próprias experiências. São recortes, não há dúvida, todavia, recortes que ela viveu e que a transformaram.

 

    No penúltimo capítulo, ela se encontra num desses acampamentos para o resgate da masculinidade perdida, algo como deve ser esse tal de "Legendários". Mais uma surpresa deliciosa. Há uma cena em que os homens fazem desenhos e muitos desenham Atlas e explicam que se sentem cansados de carregar tudo nas costas e num trabalho e cobranças inúteis para eles. Neste momento, ela une Atlas a Sísifo como a melhor definição desse homem moderno.

 

"Era uma combinação criteriosa, e talvez a descrição perfeita do homem moderno em suas maiores dificuldades e desgastado, carregando o mundo em seus ombros e rolando-o montanha acima. Ser o homem responsável por tudo, trazia consigo toda uma série de cargas e ansiedades que raramente - se é que alguma vez - ocorreu a mim ou às feministas que eu conhecia. Nós enxergávamos isso do nosso lado, e daí parecia maravilhoso estar no poder, tomar decisões, ter escolhas, escapar do campo de trabalhos forçados do provedor/administrador doméstico. Para as mulheres ambiciosas, ter uma carreira era muito melhor do que trocar sua milionésima fralda ou ficar olhando para seu papel de parede amarelo. Quando você está se sentindo preso em uma armadilha e privado de direitos, isso não quer dizer que trabalhar dentro de um terno incômodo de flanela cinza seja algum piquenique".

 

    O mais surpreendente nisso é que, em Jesus, o chamado não é para sermos Atlas e nem Sísifo, mas apenas seguidores de Cristo! Uma entrega voluntária para a redenção da esposa e da família e não uma condenação é o que nos ensina o Evangelho! Todavia, será que realmente cabe ao homem cristão assumir o papel de um cavalheiro que carrega sua esposa acima dos sofrimentos da vida? Jesus carregou a Igreja, pagou o preço por ela, mas não a isolou de sentimentos inevitáveis. Há alguma coisa aqui muito importante para uma reflexão mais profunda. Enfim, o chamado nosso não é para sermos Atlas, Hércules ou Sísifo, mas cristãos redimidos, pecadores resgatados. Estou escrevendo isto, no momento em que está todo mundo comentando aquele caso de traição do CEO no show do Coldplay. E aqui cabe corrigir Norah: nem os homens e nem as mulheres são os responsáveis por carregar o mundo em seus ombros - nós não somos Deus! Contudo, depois da sociedade moderna tirar Deus da equação, quaisquer trabalhos que façamos nos forçarão a agradecer a nós mesmos e também exigir que os outros reconheçam nossos esforços! A cosmovisão cristã, contudo, é outro olhar e vivência, mas será que os próprios cristãos sabem disso?

 

    Para finalizar, queria deixar dois parágrafos do último capítulo em que ela organiza suas conclusões.

 

"É claro que ser visto como um homem afeminado me ensinou muitas coisas sobre a relatividade do gênero. A minha vida toda, fui considerada uma mulher masculina. Isso possibilitou, em parte, este projeto. Mas pensei, que, quando eu saísse como homem, algum desequilíbrio iria se corrigir e eu seria um sujeito comum, bem dentro do espectro aceitável do gênero. Mas de repente, como homem, as pessoas estavam vendo minha feminilidade explodindo por todo lugar, e não a recebiam bem. Na verdade, nem mesmo as mulheres. Elas também queriam que eu fosse mais masculino e sexy, e às vezes também faziam suas suposições de que eu fosse homossexual, até mesmo quando saíam comigo. Dai a expressão "meu namorado gay".

 

"Nesse aspecto, as mulheres eram difíceis de agradar. Elas queriam que eu estivesse no controle, grotescamente grande e forte, tanto no espírito quanto no corpo, mas, ao mesmo tempo, também terno e vulnerável, subserviente a seus caprichos e dócil como um coelhinho. Queriam alguém em quem se apoiar e de quem depender, a quem olhar com respeito e ao lado de quem desfalecer, mas, apesar disso, alguém que soubesse do seu lugar reduzido no mundo pós-feminino. Mantinham sua suposta superioridade moral e sexual sobre mim e, às vezes, tentavam me manipular com ela".

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

A comunicação evangelizadora para comunidades orais em tempos de hipercultura

O pensamento Moderno, caracterizado, de forma geral, como um deslocamento da centralidade em Deus para uma nova epistemologia centrada a partir do homem, rompe não apenas com o paradigma da Filosofia Tomista, mas, principalmente, reage a qualquer proposta de teorreferência*.


Obviamente, o advento do novo paradigma repensa agora a cultura nos moldes cartesianos e atinge todas as disciplinas humanas que serão ensejadas a partir daí. Contudo, a antropologia moderna, que tomou sua forma final nos séculos XVIII e XIX, esgota o seu escopo de análise das miríades culturais na decadência de seu espírito, sobretudo com a falência do progressismo racionalista testemunhado após as Duas Grandes Guerras Mundiais. Assim, o espírito moderno, que tem como outra característica a busca pelo universalmente válido, cede ao espírito pós-Moderno cooptado por diversas correntes acadêmicas que se mesclaram desde o fim do século XIX até a metade do século XX, dando corpo, finalmente, a um novo paradigma a partir dessa decadência da Modernidade. Esta se desenvolve numa antropologia fortemente psicologizada, adepta de um subjetivismo coletivista de arquétipos, concorrendo com um neomarxismo de ranço místico e pagão, imbricando-se simultaneamente num relativismo, que visa satisfazer os anseios políticos das novas minorias vulneráveis após a experiência desumanizadora do projeto do Nacional-Socialismo e dos regimes totalitários fascistas e comunistas.


Dentre diversas diferenças entre o Moderno e o Pós-Moderno, que agora atuam paralela e alternadamente em nosso novo mundo globalizado, interessa-me salientar a visão monolítica de culturas estáticas, a quem o racionalismo sempre descrevia sob o olhar negativo da perda de um passado idílico e que compreendia que o maior benefício seria o de um retorno a um passado remoto. Saímos disso para o outro extremo: uma visão sem absolutos, sem retornos e derrotada pela própria constatação da inexorabilidade da mudança cultural. Destarte, o advento da visão pós-moderna significou para a antropologia (e demais ciências humanas, como a sociologia, a linguística e a própria psicologia, por exemplo) uma crise em seu discurso, uma falta de sentido ao próprio texto que ela usara e isso a impede, até hoje, de propor quaisquer defesas ideológicas em favor de suas antigas teses de estagnação e de retorno.


Infelizmente, a Missiologia que se direciona aos povos indígenas e demais culturas minoritárias existentes no Brasil seguiu a mesma trajetória descrita nos parágrafos acima. Até pouco tempo atrás, sustentada por uma antropologia racionalista, objetiva e “científica”, a Missiologia viu surgir em seu meio grupos missionários que lutavam mais pela defesa e preservação da cultura do que pela pregação do evangelho àquela cultura. A Teologia da Libertação e muitos segmentos da TMI (Teologia da Missão Integral) ainda se relacionam com as culturas minoritárias à maneira do Velho Continente. Contudo, a Missiologia também foi atingida pelas mudanças ocorridas na Academia, uma vez que ela tem se sustentado sobre as bases de uma antropologia, sociologia, psicologia e linguística que advêm desses centros seculares de pensamento e convivemos hoje com grupos que, “pós-modernamente”, não desejam “impor” absoluto algum, ensino objetivo nenhum e são avessos a tudo que julguem ser uma intervenção “gringa”, estrangeira e sistemática no pensamento diferenciado desses povos minoritários e de tradição oral. É uma postura relativista, não-impositiva, politicamente correta, construtivista, neomarxista e contrária a qualquer coisa que entendam importada para o projeto político-ideológico da América Latina. Como disse, semelhantemente ao que ocorreu com o pensamento Acadêmico, vimos acontecer nos “Campos do Senhor”, seja nas periferias dos grandes centros urbano, seja nas comunidades espalhadas pelo interior do país, a mesma trajetória que leva de um extremo ao outro. Como consequência, a mesma crise vivida nas últimas décadas na Academia pelo advento da pós-modernidade gerou também uma crise epistemológica na missão da Igreja.


Enquanto antropólogos seculares, sociólogos de plantão e missionários religiosos se debatem com inúmeras questões sobre como analisar e como manter e não manter determinadas práticas e crenças culturais, ora ressuscitando o Moderno, ora diluindo tudo no Pós-Moderno, as culturas indígenas vão sendo lançadas não mais ao que o seu passado prescreve, não mais ao jugo cotidiano da aldeia, não mais ao saber tradicional, mas à hipercomplexidade da nossa cultura contemporânea.


É o caso, por exemplo, do antropólogo que para “salvar” a prática cultural do povo convence o filho do cacique a defender que as mulheres parem de pegar, comodamente, a água que lhes vem do poço artesiano, via torneira para suas casas, e retornem à prática de pegar água no rio que fica a 2 quilômetros da aldeia. Ou daqueles que defendem a “ditadura da cultura coletivista” contra a decisão do indivíduo em não querer continuar práticas como o infanticídio indígena. É o caso também do missionário que luta pelo resgate da dança cultural e fecha os olhos aos indígenas que desejam estudar fora da aldeia. Ou dos que defendem inúmeros projetos de ressurreição linguística, das Escrituras na língua do povo, sem uma Escola que fomente uma literatura na língua materna desse mesmo povo e trabalhe paralelamente com a realidade irrevogável do multilinguismo dessas etnias. Enfim, estamos vendo as culturas indígenas pressionadas por todos os lados, tanto pelo passado como pelo futuro, mas não levamos isso em conta. Insistimos em não ver que a nossa comunicação será sempre com um “espantalho”, cujas realidades julgamos estar identificando e atendendo, quando, na verdade, estamos errando o alvo por não distinguir os ventos de mudança.


Ao falarmos de culturas indígenas no Brasil não podemos esquecer que estamos tratando, segundo o IBGE de 2010, de mais de 500 etnias diferentes e de 274 línguas diversas distribuídas em quase um milhão de indígenas com realidades específicas muito diferentes umas das outras. Alguns desses povos já têm profundo contato com a Escola, possuindo mestres e doutores indígenas. Outros sequer viram um não indígena na sua frente e nem escrevem a própria língua que falam. Entre esses dois extremos há os que estão escravizados pelo álcool, pelas drogas, pela prostituição, por doenças e largados à própria sorte, enquanto esperam o extermínio silencioso do seu povo. Outros lutam para continuar seus estudos, dominar mais do que sua própria cultura lhes tem oferecido, ingressam em faculdades que lhes dê o mesmo capital cultural que o não indígena tem acesso. Há ainda os que querem apenas uma assistência médica digna, segurança do Estado, empregos e o direito de serem deixados em paz para escolherem viver na aldeia ou na cidade (ou em ambos).


Em meio a toda essa complexidade da questão indígena no Brasil, há um grupo formado por vários povos diferentes, de idades e sexos diferentes, que tem entrado fortemente em contato com sons, ruídos, imagens, ícones e símbolos que não lhes pertencem, mas que já fazem parte de suas vidas por meio da chegada da tecnologia. E é exatamente aqui, nesse ponto, que encontramos as maiores falhas da Missiologia em tratar desse novo desafio, por ela ainda estar presa àquelas velhas descrições negativas que entendem tudo como “uma exploração do homem pelo homem”, uma visão de luta de classes e de raças, uma ação destrutiva do imperialismo econômico contra povos minoritários, defendendo ainda uma “antropologia de zoológico”, que isola esses povos ad eternum contra a ação do “mundo mau” ou que aplica sobre eles projetos político-missionários que inserem um viés ideológico revolucionário no cotidiano das aldeias, orientando esses povos a uma postura de desconfiança e exigência de pagamento de uma propalada dívida histórica e nunca de diálogo. É preciso que fomentemos uma troca de significados e também o preparo deles para lidar positivamente com essa hipercomplexidade cultural que os cerca e já os invade.


Desde a televisão até a internet, a tecnologia em meio aos povos indígenas (e demais culturas orais) veio para ficar. Os jovens indígenas têm sido lançados à hipercomplexidade cultural de um mundo de muito mais nacionalidades, realidades, línguas, imagens, cores, sons e símbolos do que eles estavam acostumados. É muito interessante notar que essas culturas orais estão absorvendo com uma velocidade estonteante o universo que as cerca, a partir da entrada de uma nova literatura, a literatura virtual, que possibilitou a muitos desses povos um salto de um mundo sem letras ou com pouquíssimo domínio de algum alfabeto (seja o de sua própria língua, seja de uma língua majoritária e nacional) para uma comunicação fortemente oral — a internet –, embora num mundo extremamente dominado pela escrita como o nosso. Isso soa um paradoxo, mas não podemos esquecer que o mundo virtual oferece muito mais entradas à oralidade do que a própria Escola, muitas vezes reduzida a um alfabeto, quadro, papel, giz e, quando muito, uma televisão pedagogicamente mal aproveitada em sala de aula. O mundo virtual é um mundo de músicas, imagens, sons, ícones, símbolos, pinturas, artesanatos, artes em geral, ao qual a oralidade dessas culturas se sente muito mais à vontade para se tornar leitora desse vasto mundo novo que se comunica de modo muito melhor do que o mundo antigo da nossa Missiologia do século passado.


Bíblias de folhas brancas e letras impressas, seja em que língua for (mesmo na materna) estão muito distantes desses novos leitores virtuais. Por isso, não devemos nos surpreender com a existência de tantas Bíblias impressas nas línguas minoritárias, mofando e servindo de suporte para mesas, sem terem leitores que as usufruam! A Igreja precisa compreender que o Sola Scriptura é uma doutrina que não se limita à imprensa de Guttemberg e, muito menos, ao encarceramento de letras e línguas nacionais numa biblioteca de formato tradicional. Os problemas que devem ser enfrentados pela antropologia missiológica ainda são os mesmos — sincretismo e nominalismo — e talvez ainda mais urgentes e delicados, uma vez que essa missiologia está se distanciando de enfrentar a mudança dos ventos e, por isso mesmo, não vem conseguindo ajudar essas culturas a ler com as lentes do Evangelho o mundo que se apresenta vertiginosamente diante de seus olhos, para que elas aprendam a discernir corretamente tanto a beleza quanto a feiura desse novo mundo.


Essa inevitabilidade da inserção de povos orais na rede da hipercomplexidade da cultura de nosso tempo exige um esforço missionário muito maior, porque o acesso às informações, a toda e qualquer informação, certa ou errada, é oferecida na velocidade de um click. Dessa maneira, subitamente, a mentalidade animista é plasmada à cibercultura, que é uma linguagem universal, num processo sempre cumulativo de complexidade. Os estratos mais antigos da cultura oral e animista vão se sobrepondo uns aos outros e, agora mais do que nunca, há uma interconexão maior e ainda mais dinâmica não apenas das próprias culturas animistas entre si e delas com as demais cosmovisões não animistas, mas também dentro da própria cultura e sub-culturas específicas de um mesmo povo que, como um organismo vivo, vai se adaptando a tudo isso.


A imensa mudança da era cibernética sendo assimilada por jovens indígenas com acesso cada vez maior aos celulares e computadores de última geração e com esses jovens cada vez mais presentes nas lan houses das cidades (e até mesmo com a chegada da internet nas suas aldeias) é a possibilidade da aquisição individual da informação numa cultura coletivista como nunca houve antes. A verdade é que tudo se mescla e esse imenso caldo cultural convive numa hipercultura que abarca pessoas de várias tribos, povos, raças e línguas. Estamos trocando aquela velha expressão de “cidadão do mundo” por “cidadão da cibernet” e a juventude indígena está indo ao encontro dessa realidade. Graças ao avanço tecnológico, as mais diferentes culturas entram em contato e se abrem para serem influenciadas e influenciar este admirável mundo novo que está bem ali, simplesmente, na palma de cada mão.


Como que tudo isso começou? Muito antes de Guttemberg! Já havíamos inundado nossos sentidos com a arte que, na Idade Média, ofereceu um cabedal de informações aos iletrados. Posteriormente, com o advento da imprensa, era preciso que os iletrados continuassem a ler como faziam antes da explosão da cultura do papel. Assim, para proporcionar acesso a todos, a tecnologia trouxe o rádio, a tv, o computador e o celular e, graças à lógica do mercado, esses produtos precisavam se tornar cada vez mais populares e acessíveis ao grande público iletrado de todas as tribos, povos, raças e línguas. E foi exatamente isso o que ocorreu. A história mostra que o homem sempre lutou — ou a cultura como um organismo vivo sempre buscou um meio de sobreviver — tendo acesso ao que é do outro.


Enfim, esta é uma aventura que está apenas começando e que desafia a missiologia a sair de sua comodidade acadêmica ou do seu “olhar de matuto” e compreender que as especificidades se diluem num todo para essa hipercultura, que eu entendo como uma espécie de magma virtual que vai entrando nos espaços entre as camadas sobrepostas de cada cultura e vai ocupando os múltiplos vazios também entre as culturas, criando e fornecendo, assim, uma liga, uma conexão, vários hiperlinks nesta rede de hipercomplexidade da cultura de nosso tempo. Entretanto, como já disse mais acima, os problemas básicos ainda são os mesmos. Não me refiro apenas ao sincretismo e ao nominalismo, mas, essencialmente, ao pecado, pois uma outra característica de nosso tempo é que a tecnologia se desenvolve na mesma medida em que se manifesta a total depravação humana aflorada não só em todas as áreas de cada cultura específica, mas também na hipercultura que vem unindo a todos nós.


Não será fácil comunicar o Evangelho ao novo indígena que vem surgindo no século XXI, mas será muito mais difícil para a Igreja se a nossa Missiologia (e todas as disciplinas que ela agrega) insistir nas categorias e métodos de doutrinas humanistas que faliram no século passado. O objetivo do Evangelismo não é formar bons cidadãos e muito menos militantes de uma ideologia contra algum sistema, mas evangelização é fazer discípulos de Cristo que aprendam a discernir a complexidade da hipercultura de nossos tempos e possam estar preparados a comunicar o Evangelho, que é o único poder capaz de quebrar a espinha dorsal de nossa religião antropocêntrica, e redirecionar o homem todo e todo homem, finalmente, para uma vida teorreferente.

        Fábio Ribas

________________________________


*Termo cunhado por Davi C. Gomes para se referir a algo mais lato do que centralidade. Teorreferência é uma condição em que o centro é causa e substância para todas as coisas (ver nota de rodapé, p. 117, Sal da Terra em Terras dos Brasis, Rev. Wadislau Martins Gomes, Ed. Monergismo).

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Cidade de Deus - Livro II (IV/2025)

    (II, I): "As pessoas não querem aprender. Elas não querem se dobrar diante da evidência. A mente, a razão, não quer se submeter. Precisamos desdobrar e estender os argumentos, porque a razão humana, fraca e frágil, resiste à luz da verdade e não quer ser transformada pela fé e pelo amor". Que coisa mais atual, não? 

    Agostinho recorda o que tratou no Livro I: 1) que não se deve culpar os cristãos pela calamidade sofrida em Roma, achando que os males sofridos foi por esses proibirem os cultos aos demônios; 2) deve-se reconhecer a misericórdia que houve por parte dos bárbaros invasores àqueles que usaram o nome de Cristo para serem poupados dos direitos da guerra que esses invasores tinham (roubar, matar, estuprar); 3) por que veio sobre cristãos e pagãos os mesmos infortúnios? 4) finalmente, Agostinho consola as mulheres dizendo que elas foram "feridas no seu pudor e não na sua castidade". 

    Agostinho agora passará a lembrar que a decadência da beleza moral de Roma já havia começado, independente da existência dos cristãos (II,II). (II, III) Agostinho apela para o tempo antes da encarnação de Cristo, para mostrar que males sempre vieram sobre toda a Roma. (II, IV) A tese aqui de Agostinho é mostrar que os deuses romanos nunca se importaram com a imoralidade de seus fiéis. "Alguma vez, houve da parte dos deuses incentivo à virtude em vez de festins de vícios?" (II, V). Havia uma festa celebrada à mãe dos deuses, uma festa de obscenidade tal que Agostinho questiona se aquelas músicas cantadas a essa mãe dos deuses seriam cantadas às mães desses cantores quando chegassem em casa. Ou se os heróis virtuosos de Roma, como um senador que Agostinho cita, gostaria que sua mãe fosse elevada ao status de deusa e recebesse adoração obscena como aquela. Ouvindo este argumento de Agostinho, fica fácil ver como houve também desvios no cristianismo: os cristãos substituíram a sede de adoração pagã, que os levava à orgia, pela adoração de "heróis virtuosos" como Maria, mãe de Jesus, que saciaria essa sede de intercessão, levando seus devotos à virtude... Isto é uma contextualização (uma contextualização equivocada). 

    (II, VI) Agostinho mostra que os deuses nunca refrearam a imoralidade dos romanos. (II, VII) A filosofia grega é superior à mitologia romana. (II, VIII) Até os poetas, que encenam nos teatros suas histórias, conseguem velar as obscenidades, por que seus deuses não? (II, IX) "Nossas leis das Doze Tábuas, ao contrário, tão avaras da pena capital, decretaram-na para todo cidadão que manchasse a honra alheia por meio de poesias ou representações ultrajantes. E, com efeito, ao julgamento, à censura legítima dos magistrados, não ao capricho dos poetas, que nossa vida deve ser submetida; devemos estar ao abrigo da injúria, se não nos é permitido responder e defender-nos em juízo" - há limites aos próprios poetas, por que os deuses são tão licenciosos? (II, X) O fato dos deuses não reagirem às mentiras criadas pelos poetas no teatro sobre eles é que, na verdade, esses deuses são demônios. Os demônios é que não se importam com o que se digam deles. (II, XI) "Com efeito, por que honrar os sacerdotes que tornam os deuses propícios, graças ao sangue das vítimas, e apontar como infames os atores, instrumentos dos prazeres cênicos reclamados pelos deuses como honra cuja omissão, segundo suas próprias ameaças, provocaria a cólera celeste?", defende Agostinho."

    Os romanos proibiram em obras como A República, de Cipião, que os poetas difamassem os homens, mas eram liberais com o maldizer aos deuses. Enfim, os deuses eram baixos e rebaixados. Mas qual o objetivo de Agostinho com esse argumento? Por que estariam os deuses romanos preocupados com o Cristianismo (amaldiçoando Roma, por causa dos cristãos) se os próprios romanos em suas poesias e teatro sempre zombaram deles? (II, XII); Agora Agostinho foi genial desnudando a hipocrisia dos romanos: os deuses haviam fornecido as artes para que, por meio delas, eles fossem adorados, por isso, os gregos honravam os atores, pois eles eram os sacerdotes desse culto exigido pelos deuses; os romanos, que censuravam toda arte que difamava os homens, incentivavam o escárnio aos deuses por meio delas e, estranhamente, consideravam os atores homens indignos não só de pertencerem ao Senado, mas à própria tribo; ao que Agostinho expõe a diferença entre os gregos e os romanos, pois não deveriam todos estranhar que os próprios deuses fornecessem o culto de seu escárnio? Diz Agostinho: "Os gregos erigem em princípio: Se se deve culto a tais deuses, devem-se honras a tais homens. Mas é impossível honrar semelhantes homens, objetam os romanos. E os cristãos concluem: Logo, é impossível adorar deuses assim" (II, XIII). 

    A razão nunca antes dita a mim (será que algum dos meu professores, de fato, leu "Cidade de Deus"?) do porquê Platão condena para fora da cidade ideal os poetas está aqui. Os poetas aqui são os autores desses teatros que louvam as obscenidades dos deuses, mas como bem entendeu Platão, poderiam os poetas com essas histórias sobre os deuses educar a juventude? Os poetas só proclamam seus vícios, porque é assim que os deuses querem ser cultuados (II, XIV, 1); portanto, Agostinho diz que se deve preferir Platão a todos esses cultuadores de demônios, os poetas (II, XIV, 2); para mim, mais uma vez, está claro o mecanismo mental que será usado para abrir no cristianismo a possibilidade da veneração dos santos (II, XV); os romanos não receberam de seus deuses leis para viver melhor, que deuses são esses que abandonam seus adoradores? (II, XVI); os deuses não teriam dado leis por serem os romanos já obedientes a elas na mente e no coração? Agostinho mostra que a história revela uma Roma que cresce de erro em erro.

    "Você, contudo, vê, segundo penso, e quem quer que repare nisso perceberá com bastante clareza em que lodaçal de péssimos costumes Roma se atolou antes do advento de nosso Rei celeste" - este é o argumento que Agostinho vem desenvolvendo diante dos Romanos que queriam acusar que suas desgraças só vieram sobre eles por causa do cristianismo (II, XVIII, 3); o cristianismo foi um freio na devassidão e na vida dissoluta dos romanos, que, colocando fim ao culto de falsos deuses, arrancou-os de uma adoração depravada (II, XIX); Agostinho mostrará que a opção dos inimigos do cristianismo é um estilo de vida corrupto, licencioso e depravado que só irá destruir cada vez mais à Roma (II, XX);  até seus filósofos e políticos falaram da decadência romana, antes do cristianismo chegar, argumenta Agostinho, que, então, declara: "Verdadeira justiça existe apenas na república cujo fundador e governo é Cristo, se nos agrada chamá-la república, porque não podemos negar que seja também coisa do povo. Se, porém, tal nome, que em outros lugares tem significado diferente, se aparta muito de nossa linguagem corrente, pelo menos na Cidade de que diz a Escritura: Coisas gloriosas disseram-se de ti, Cidade de Deus, se encontra a verdadeira justiça" (II, XXI); os deuses romanos nunca se preocuparam com o bem viver do povo, abandonando-os à dissolução (II, XXII); olha a teologia da História de Agostinho: "Não quero atribuir a não sei que deusa Marica a sangrenta felicidade de Mário, mas especialmente à oculta Providência de Deus, para tapar-lhes a boca e livrar do erro os que tratam esse ponto sem parcialidade, mas com prudência e tino. Com efeito, se algum poder os demônios têm nessas coisas, não é mais do que o permitido pela secreta vontade do Onipotente" (II, XXIII).

    "Por que cuidaram os deuses de anunciar como faustos semelhantes acontecimentos e nenhum deles tratou de corrigir Sila, fazendo-o sabedor dos inúmeros males que ocasionariam suas furiosas guerras civis, não apenas capazes de desonrar a república, mas até mesmo de acabar com ela? É óbvio, com efeito, como já declarei tantas vezes e as Letras Sagradas nos mostram, que esses deuses não passam de demônios" (II, XXIV, 1); se os deuses romanos tivessem abandonado seus adoradores por causa do vil comportamento deles, mas não! Os deuses eram piores que seus adoradores, como, então, querer colocar sobre Cristo os males de Roma? (II, XXV, 2); se é verdade que, dentro dos templos, em particular, a poucos, os deuses falam de virtudes, enquanto no público dizem torpezas, mais uma razão para ver sua pérfida dubiedade (II, XXVI. 1); não há virtude nos deuses. Eles exigiam que os atores fizessem em cena suas torpezas, mostrando em público aquilo que é feito no segredo do quarto, exigindo adoração (II, XXVI, 2); os deuses não apenas exigiam dos poetas e dos atores que se mostrassem publicamente suas torpezas, mas incentivavam o público que os imitassem (II, XXVII); o que os inimigos do cristianismo detestam? Que o povo vá às igrejas ouvir como viver bem para herdar a vida eterna? O povo ouve dos púlpitos virtudes para fugirem dos vícios ensinados pelos falsos deuses (II, XXVIII). 

    Agostinho termina o livro II com um convite aos romanos: arrependam-se! "Volve-te, agora, para a pátria celeste. Por ela trabalharás pouco e nela terás eterno e verdadeiro reino. Não encontrarás o fogo de Vesta, nem a pedra do Capitólio, mas Deus, uno e verdadeiro, que não te porá limites ao poder, nem duração ao império" (II, XXIX, I). "Não andes à caça de deuses falsos e enganadores! Despreza-os e afasta-os de ti, elevando-te à verdadeira liberdade! Não são deuses, são espíritos malignos, para quem é suplício tua eterna felicidade" (II, XXIX, 2).

            Fábio Ribas

sábado, 18 de janeiro de 2025

Um pequeno herói (III/2025)


 

    Seguindo a ordem cronológica dos escritos de Dostoiévski, "O pequeno herói" vem depois de Netotchka Nezvanova. Este é uma novela inacabada, parece que o projeto de Dostoiévski era fazer um "romance de formação", em que a personagem principal, uma artista famosa, revê a vida e os caminhos, desde sua infância, que a levaram até sua maturidade. 

    Aqui, em "Um pequeno herói", Dostoiévski retorna ao tema da infância. Porém, o personagem principal é um menino de 11 anos de idade. Tudo aqui parece ser diferente do que Dostoiévski fizera até então: a história não se passa em São Petersburgo, mas nos arredores de Moscou; os personagens não são "gente pobre" ou funcionários públicos, mas a aristocracia latifundiária; outra coisa que me chama a atenção é que, se nos outros textos apareciam relações de homens bem mais velhos com meninas bem mais novas, desta vez é sobre a primeira paixão desse menino. O alvo de seu amor é uma mulher casada. 

    O contexto "para fora" do texto precisa entrar em questão aqui, pois Dostoiévski está em cárcere na Fortaleza Pedro e Paulo. Ainda que suas condições de prisão sejam melhores que de outros presos - até mesmo de seu irmão, preso por engano - mas estamos diante de um Dostoiévski sendo interrogado insistentemente durante o processo de seu julgamento. Frank Joseph, seu biógrafo, que estou lendo paralelamente aos livros de Dostoiévski, faz uma ponte muito interessante. "Um pequeno herói" é um livro claro, iluminado e florido, mostra-nos Frank, jamais diríamos que aquela história vem da pena de um encarcerado. Não há um traço de amargura nessa novela. Contudo, como disse, Frank propõe uma ponte interessante: seria "o pequeno herói" a metáfora do escritor nesse processo de tantas inquirições? Devemos lembrar que ele está preso por participar de um grupo revolucionário, que fora acusado de querer derrubar o regime tzarista. Assim, durante aquele processo, querem que Dostoiévski entregue nomes, confesse crimes, revele conspirações. Porém, ele não tem nada a dizer. Ele nem se incrimina e nem incrimina a outros. Segundo lemos na biografia de Frank, Dostoiévski não era contra o tzarismo, ao contrário, creditava ao regime a sobrevivência da Rússia que chegara até ali. É verdade que nosso escritor é um socialista, mas um socialista utópico e religioso. Ele se aproximara dos radicais ateus, porque o ódio à escravidão dos camponeses era o ponto que os unia. Então, Frank faz a ponte: será que aquela cena de um menino que não entrega sua amada e nem a expõe ao escândalo seria o próprio Dostoiévski? Não sei, mas é bem possível.

    Gostei muito desta pequena novela. Entre ela e os próximos escritos pós-exílio, há tudo que ele escreveu até 1848. Então, trarei sobre essa primeira fase antes de seguir adiante, para fecharmos essa primeira parte da vida de Dostoiévski, a que Frank chama de "as sementes da revolta".     

            Fábio Ribas

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Cidade de Deus - Livro I (II/2025)

 

    Dizer que estou maravilhado é pouco. Já havia lido "Confissões", "Solilóquios" e "A Trindade". Livros arrebatadores! Qual não está sendo, contudo, minha surpresa com a profunda argumentação agostiniana neste "De civitate Dei"? Agostinho, neste "LIVRO I", inicia sua defesa contra as acusações de ser o cristianismo o responsável pela ruina dos romanos ("os antigos deuses romanos estariam enfurecidos por terem sido esquecidos"). Todavia, a sede de conquistar novos reinos, a luxúria, a devassidão moral de seus habitantes e a idolatria é que são, para Agostinho, a verdadeira causa da derrocada romana. Mas o que desperta essas acusações contra o Cristianismo?

    Os bárbaros entraram em Roma. Entretanto, contextualizando melhor, esses "bárbaros", na verdade, são cristãos arianos (uma seita que não acreditava nem na Trindade e nem na divindade de Cristo). Por isso, eles poupam os cidadãos romanos que se refugiaram nos templos cristãos. Isto, indubitavelmente, é algo inédito. Agostinho mostra que nunca se vira um povo conquistador fazer esse tipo de misericórdia com o povo conquistado. Quando, antes, se ouvira falar de pessoas poupadas por terem se abrigado nos templos pagãos? Este é o início do argumento de Agostinho: o bem que o cristianismo trouxe ao Império Romano. Em outras palavras, estamos diante de um processo civilizatório. Mas, para mim, o mais extraordinário está por vir, que é toda a discussão de Agostinho sobre o suicídio das mulheres que foram estupradas pelo povo conquistador. Vamos entender.

    Os pagãos estão acusando o Cristianismo de trazer a desgraça à Roma. Eles acusam indagando de que teria valido a conversão ao cristianismo e o abandono aos antigos deuses, se os males vieram tanto sobre pagãos como também sobre os cristãos? E é a partir disso que este gigante - Agostinho - começa a fazer uma teologia da história e da Providência. Se males vieram indiscriminadamente, também vieram bens sobre todos, defende Agostinho. Isto é o esperado na "Cidade dos homens", enquanto a "Cidade de Deus" não se revela completa e plena (o que só ocorrerá na volta do Senhor Jesus). Na Cidade dos homens, que está entrelaçada à Cidade de Deus, tanto males como bens ocorrem indiscriminadamente. Porém, o que se deve atentar não é isso, pois, para Agostinho, o que importa é a diferença no modo que cristãos e pagãos enfrentam seus males e bens. Tanto num quanto no outro, os homens se perdem. Os cristãos, defenderá Agostinho, enfrentam as adversidades da vida tanto para sua purificação, como para o testemunho da glória de Deus, pois os cristãos vivem na esperança de um mundo por vir e os pagãos não!

    É no avanço do livro que descobrimos o que realmente seriam esses tais males. Os bárbaros que invadiram Roma pouparam os que se refugiaram nas igrejas, pouparam tanto a cristãos como a pagãos. E Agostinho joga na cara dos pagãos isto: Como que vocês se levantam contra o Cristianismo, se, durante a invasão dos bárbaros, vocês mesmos foram poupados por se refugiarem nas nossas igrejas? Ainda assim, os bárbaros fizeram aos outros o que era próprio das guerras: assassinaram, roubaram, estupraram. Diante do estupro, em Roma, era de se esperar que tais mulheres se suicidassem. Os Romanos justificavam essa prática (tanto o suicídio da mulher depois do estupro, como o suicídio para não enfrentar o estupro) com a história de Lucrécia, que fora violada e, depois, suicidara. Ela era o padrão dos romanos para suas mulheres. Agostinho irá trabalhar essa história de Lucrécia. Primeiramente, ele louvará as suas virtudes, pois ela se guardara casta num mundo libertino. Porém, uma vez estuprada, "Lucrécia mata Lucrécia". E por que ela faz isso? Agostinho trabalha principalmente a ideia da honra social, diante das pessoas. Mas as virgens cristãs também foram estupradas.

    Diante do estupro, Roma esperava que as mulheres suicidassem, tanto as cristãs como as pagãs. Agostinho irá dizer que na lei de Deus está escrito: "Não matarás"! "Lucrécia não podia ter matado Lucrécia". As mulheres cristãs não vão suicidar, por amor ao Deus que elas servem e à Palavra dEle. Embora pareça honroso se matar para não ser violada, protegendo a castidade do corpo, Agostinho defende que a verdadeira castidade é a da alma e um estupro não tiraria essa virtude das mulheres! Mas o "Não matarás" tem exceções? Sim, na Bíblia, há exceções, contudo nenhum dos casos é por razões de honra social (podemos mesmo substituir: "nenhum dos casos é por razões culturais"). A cultura não pode legitimar crimes! As exceções bíblicas surgiram quando o próprio Deus assim o fez. Ligado a este argumento, Agostinho dirá que só se pode tirar a vida para agradar a Deus em santidade: é o caso dos mártires! E mesmo assim essa entrega da própria vida à morte deve ser quando a situação for bem clara, pois a orientação do próprio Jesus é de que seus discípulos, uma vez perseguidos, saiam para outra cidade. 

    O que mais me impressionou é que toda essa defesa de Agostinho não apenas fará com que o suicídio das estupradas pare de ser incentivado na cultura romana, como ele conseguirá até o apoio estatal para essas mulheres! O que isto significa? Este é um caso claro, óbvio, espantoso da transição da mentalidade pagã para a civilização promovida pelo Cristianismo. Fico pensando nos casos de infanticídio indígena; circuncisão feminina; etc. É fato que o Evangelho, tendo o próprio Povo de Deus como referência no meio dos povos, traz benefícios inquestionáveis a tantas culturas mundo afora. 

    No fim do livro I, encontramos a polêmica levantada sobre o teatro. Muitos acusam Agostinho de ser contra as artes cênicas, por causa dos últimos capítulos do primeiro livro da Cidade de Deus. Porém, sei que há outra obra em que ele fala sobre a importância da arte para a formação do ser humano e, além disso, o contexto no LIVRO I expressa que a acusação daquelas artes cênicas era o seu uso profano e libertino. Mas sigamos para o próximo livro. 

    No LIVRO I, são assuntos muito interessantes para se desenvolver a dignidade da mulher e a questão da condenação do suicídio. 

                            Fábio Ribas

sábado, 4 de janeiro de 2025

De volta para o meu lugar (I/2025)


    O livro “De volta para o meu lugar”, de Rosangela Marto, tem como subtítulo “A prova de que o amor e a felicidade sabem o caminho de casa”. O livro é uma narrativa envolvente sobre encontros e desencontros de uma história de amor (mais desencontros do que encontros, na verdade). 
    Gostei muito da narrativa da escritora. Um tom pessoal e bem construído. São memórias de uma vida de decisões equivocadas e que trazem sua conta à escritora. Depois de preparar para o leitor toda a apresentação dessas idas e vindas com o amor de sua vida, Rosangela acaba se envolvendo num casamento com uma outra pessoa e que lhe dá duas filhas. Todavia, após sua separação, ela se envolve com um narcisista abusador e é aqui o foco do livro. (A PARTIR DAQUI TEM SPOILER)
   Ela tomou decisões erradas que só a afastaram cada vez mais daquele primeiro e verdadeiro amor da sua juventude. Como acontece com pessoas feridas e magoadas por caírem em armadilhas por suas próprias decisões equivocadas, ela busca por "culpados" e, infelizmente, como ocorre com muitos, vemos ela culpar explicita e implicitamente, por umas quatro vezes pelo menos, a Deus e à Bíblia. Ela usa da doutrina de submissão bíblica para justificar o porquê de não ter pulado logo fora dessa relação abusiva. Mas a Bíblia também deveria tê-la orientado a casar com um homem que fosse igual a Cristo e se sacrificasse por ela, mas essa passagem não aparece na sua história. Quando tentamos fugir das escolhas erradas que fazemos, a tendência é achar culpados e nos escondermos de nossas próprias responsabilidades. 
    Como já disse, a autora nos apresenta uma sucessão de escolhas erradas desde a sua juventude, abrindo mão do homem que amava, que, aliás, mostra-se um homem de caráter (eu chorei com aquela proposta dele assumir um filho que não era dele); depois, o mergulho nessa segunda relação que gerou um casamento de 16 anos e duas filhas, até que, finalmente, ela casa às pressas com um estrangeiro e vai morar com ele na Alemanha. E isto tudo é vida real.
    O capítulo "nossas viagens" destaca-se. Talvez pelo que ela esteja tratando, mas foi um capítulo maravilhosamente bem escrito e que nos lança a viver aquilo tudo com ela. Psicopatas de todos os tipos vivem entre nós. Sou pai de duas filhas e tento ensiná-las a prevenção contra abusadores e vampiros emocionais desde cedo. Sempre há sinais. O livro mostra que ela também viu a fumaça antes de se deparar com o fogo, do qual depois  não conseguiu mais fugir. Embora, como tenha dito, o livro é, antes de tudo, um alerta contra abusadores emocionais, mas é também um livro doutrinário. A autora toma todo o cuidado de não citar a denominação religiosa à qual pertence, mas responsabiliza a Bíblia e o temor que ela gera acerca de Deus como responsáveis por ela não pular fora de tudo o que está enfrentando. Quando digo que é um livro ideológico, doutrinário, não o faço apenas por essa acusação à Bíblia, mas também por ela trazer mais 3 temas que quero tratar abaixo, a saber, primeiro, é um “livro para mulheres”; segundo, ela traz a baila o tema do jugo desigual; e, terceiro, todas as crises se resolvem na constelação familiar.

    É um livro especificamente para leitoras. Durante a escrita, ela se dirige a mulheres e isso me fez ligar três alertas: 1) relacionamentos tóxicos vitimam homens também; 2) é um livro para reunir aquelas que, de algum modo, tiveram seu coração sacrificado no altar de um narcisista e, fragilizadas, se abrem para soluções de quaisquer espécie; 3) ela não assume sua responsabilidade pessoal naquilo que ela vive, embora, durante a leitura do livro, vemos que ela segue tomando decisões que a prejudicou. A responsabilidade, como já disse, sempre recai sobre a Bíblia, a Igreja e Deus. Por isso, não é de se estranhar que, no fim de tudo, a solução apareça sob a forma de uma espiritualidade que, mais uma vez, transfere para uma força impessoal tudo aquilo que ela sofre. A Bíblia insiste em dizer que você colherá o que você semeia. A Constelação familiar apresenta que você colhe o que outras gerações da sua família plantou. 

    Ela questiona a Bíblia, Deus e a Igreja várias vezes. Contudo, não vemos nenhuma vez que ela busque por aconselhamento bíblico! Por anos, ela segue tomando várias decisões e, quando vêm as consequências negativas, a culpa é sempre do “outro”. Como a Bíblia fala de submissão, ela coloca a responsabilidade de suas decisões equivocadas nesse ensino bíblico, porém, em momento algum, ela expõe que o mesmo texto que fala de submissão é o que também descreve o que uma garota cristã deve buscar num futuro marido: alguém que ame a esposa assim como Cristo amou a Igreja. E ela nunca busca um homem como esse. E, depois de tantas buscas erradas e sofridas sob a alegação de que a Bíblia ordena submissão, ela, finalmente, justifica sua grande união “eterna” com um homem descrente. Ela deveria buscar um homem que amasse mais a Jesus do que a ela. Mas não é isso o que ocorre. O que nos leva ao terceiro tema doutrinário/ideológico do livro: a doutrina espiritualista da constelação familiar.

    Durante o livro, vemos a conversão da autora, mas nunca seu discipulado ou crescimento nas verdades bíblicas. Ela fala sobre Deus e igreja, mas, na maioria das vezes, para tecer uma crítica que só vai ganhando mais engajamento à medida que avançamos na leitura. Finalmente, ela chega ao ponto central: se a Bíblia a afastou do seu verdadeiro e eterno amor, agora, graças à crença comum entre ela e seu amado na constelação familiar, ela pode, enfim, se entregar e ser feliz na sua maturidade. Aqui, na terceira parte do livro, é que há uma mudança de chave. Cada vez mais, a palavra “Deus” vai sendo substituída por uma expressão que revela a verdadeira cosmovisão da autora. Ela passa a falar não mais em Deus, mas em “conspiração do universo”. A constelação familiar, como ela bem explica no livro, é uma experiência religiosa - mas para nos religar a nós mesmos e aos nossos antepassados. Um entendimento do mundo, do ser humano e de nossa natureza totalmente contrária ao cristianismo bíblico. E, por tudo o que ela diz, deveria saltar aos olhos do leitor(a) atento(a) que estamos diante de um gnosticismo, de um paganismo que nada tem a ver com cristianismo. O mais interessante é que a autora está sendo coerente com o que, desde o início do livro, ela vinha tecendo para nós. O cristianismo exige responsabilidade pessoal. A constelação familiar, não. O cristianismo exige que, ao olharmos para a Bíblia, haja arrependimento dos nossos pecados e reconhecimento de que há um Deus pessoal e não uma força impessoal que rege a nossa vida - não somos vítimas do que nossos pais ou gerações anteriores fizeram. A culpa não é da mãe! A Bíblia é clara em afirmar que os filhos não serão responsabilizados pelos pecados dos pais. A culpa é nossa e a Bíblia precisa ser enfrentada como um todo e não em partes.

    Depois de toda uma jornada de escolhas erradas, vemos a autora encontrar um mestre que diga, então, o que ela gostaria de ouvir. Veja o que diz 2 Timóteo 4: 1-5.

Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas.

        Fábio Ribas

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Musas e músicas (XLIV/2024)

 

“Feliz é quem as musas amam”, escreveu o poeta Hesíodo. Os grandes gregos, como ele, encontraram nessas figuras femininas uma boa tese para explicar o mistério da criação. Na mitologia, elas eram nove. Filhas de Zeus e Mnemósine, a deusa da memória. Conta a lenda que Apolo, em uma tarde qualquer, passeando por Montparnasse com sua flauta, foi seduzido pela visão das nove ninfas saltitantes, cantando, dançando e colhendo flores. Elas também ficaram encantadas com a beleza e a música daquele deus grego. Acompanhadas por Apolo, as talentosas irmãs passaram a se apresentar nas festas do Olimpo e conquistaram a simpatia dos deuses com seu charme e sua leveza. 
A cada uma delas foi designado o dom de inspirar uma arte: Tália era a mu-sa da comédia. Clio inspirava a história. Érato, a poesia amorosa. Euterpe, a música. Terpsícore, a dança. Melpômene, a tragédia. Calíope, a poesia épica. Polímnia, a poesia sacra. Urânia, a astronomia. E ai de quem despertasse a ira das musas! Quando desafiadas, elas se tornavam terríveis, capazes de cegar inimigos e arrancar escamas de sereias. Na maior parte do tempo, porém, eram criaturas adoráveis, afinadas e cheias de inspiração para dar. Amantes das águas e das fontes, seu pássaro era o cisne. Seu cavalo, o alado Pégasus, presente de Atenas. Seu templo era o Museion, daí o termo museu. E, não por acaso, a palavra música vem de musa" (p. 23).

Cresci em uma casa extremamente musical. Havia coleções e coleções já organizadas de LPs dos mais variados estilos naquela sala da casa da minha mãe. Elas gostavam de tudo, as minhas irmãs e minha mãe, desde Roberto Carlos até a discoteca dos anos 70, havia raridades em negros bolachões. Muitos desses discos acabaram se perdendo no tempo, mas a formação musical ficou em mim. A influência de Agnaldo Rayol, Nelson Gonçalves, Vinicius, Toquinho e Tom Jobim, por exemplo, está aqui dentro de um acervo de memórias que trago sempre.

Essa influência toda levei ao campo missionário. O que me fez ser muito atento com as produções musicais das mais diversas culturas com as quais trabalhei, e não apenas indígenas! Um dos momentos musicais que mais me marcaram foi quando conhecemos o CTG (Centro de Tradição Gaúcha) de Canarana. Aquilo pregou em mim por tudo o que significava numa cidadezinha de apenas 20.000 habitantes no interior do Estado do Mato Grosso. Eram os encontros das famílias sulistas para eventos culturais de música e poesia próprias. As crianças = meninos e meninas — recitavam poemas enormes para seus pais, famílias e amigos entusiasmados e entusiastas. Coisa linda de se ver, cultura passando de pais para filhos e sobrevivendo naquelas famílias, que se viam em terras distantes e longe de seus ancestrais.

Nem sei como cheguei ao livro “Musas e músicas”, de Rosane Queiroz, mas li suas páginas com gosto e muitíssimo prazer. São as histórias por trás das musas que inspiraram as músicas da MPB. Algumas de amores impossíveis, outras de amores platônicos, adultérios imaginados, outros efetivados. Musas fictícias, outras jamais confessadas. Quem é a Lygia que inspirou Ligia, de Tom Jobim? Como se deram esses encontros e desencontros? Como, digam-me, João Gilberto faz aquela outra letra para a conhecidíssima “Ligia” de Tom Jobim? 

São tantas histórias que acabamos passeando pela história do Brasil nas letras de músicas que eu conhecia, mas também de outras que nunca antes ouvira. “Gilda”, música feita para a nona e última esposa de Vinicius de Moraes, eu não conhecia. Assim como me era desconhecida “Risoflora” de Chico Science. “Drão”, de Gilberto Gil, desfez a história errada que eu tinha do que teria sido a inspiração dela. 

O livro é um prazer. A gente lê rapidamente, quisesse eu. Mas não quis. A cada música e a cada musa, eu ouvia no youtube as referidas e buscava também as fotos na internet das tais musas para mergulhar nesse universo todo. Um universo todo feminino. Ao terminar o livro, duas constatações: primeiro, ao conhecer os contextos de textos, essas letras e melodias ganham uma camada nova de admiração; segundo, infelizmente, nossa música já foi muito, mas muito melhor do que a produzida. Enquanto lia essas letras e ouvia essas músicas do livro, lembrei-me que o Brasil de Vinicius, Tom Jobim, Belchior, Chico Buarque, Caetano Veloso, Sá e Guarabyra, 14 Bis, Boca Livre… — a lista dos letristas e poetas de nossa MPB não tem fim! — todavia, saber que com tanta referência maravilhosa para os nossos jovens, o Museu da Língua Portuguesa abriu espaço para quem? Anitta e suas letras e músicas! É de corar de vergonha! O Brasil declinou, mas não foi uma mera declinada “à la torre de Piza”, foi uma hecatombe ladeira abaixo com direito à lama na boca e dentes quebrados nessa queda!

Eu tive uma surpresa maravilhosa na leitura do livro. O primeiro texto é da autora, em que ela narra o processo de criação da obra, que nasceu de uma pesquisa de mais de 10 anos! O segundo texto não indica de quem é a autoria, assim, enquanto lia o segundo, achei que seria também dela. O que me levou à surpresa do terceiro texto do livro, pois, quando eu cheguei ao fim, vi que aquele resumo histórico fascinante apresentado ali sobre a “história da musa” era da autoria de Isolda Bourdort. Isolda é autora de músicas lindas como “Outra vez”, Jura secreta” e “Um jeito estúpido de amar”. E é com o último parágrafo desse texto dela que eu termino o meu:

“Nos últimos tempos, a musa não é mais a mesma. Do mito da namorada morna à vulgaridade da cachorra, da popozuda, passando pelos mais diversos papéis, ela conquistou o direito de ser dona do seu pedaço. Mesmo que esse espaço seja tão pequeno que nele só caibam aparelhos de ginástica, potes de cremes antirrugas e anticelulite, roubando a vaga dos filhos e dos livros, mas deixando lugar para muitos espelhos — embora ela mesma não consiga enxergar o que aconteceu ao longo do caminho, para que hoje, tão segura de si, procure fugir exatamente daquilo que por todo esse tempo procurava: essa tal liberdade, que na verdade veste a sua solidão”.

                            Fábio Ribas


PS — Gente, e aquela história com a música “Marina morena”, que quase acaba em morte? rsrsrsrs

Eu hoje sonhei com mamãe...

  Desde a morte de mamãe, no dia 08 de março de 2024, sonhei apenas algumas vezes com ela. Poucas vezes, muito poucas vezes, mas sei todos o...