terça-feira, 9 de abril de 2024

Semiótica em Platão


                  (clique sobre as imagens para aumentá-las)

        Como aborda Winfried Noth (o 3º slide deste texto é feito a partir de seu resumo do signo em Platão), há uma “história etimológica e institucional” da semiótica. Entretanto, quero tratar da semiótica em Platão a partir de uma história da teoria dos signos “implícita e explicita”, que se constitui de um estudo avant la lettre da doutrina dos signos verbais e não verbais. Como podemos relembrar a partir do slide acima, em Crátilo, Platão apresenta um modelo do signo de estrutura triádica – o nome (ónoma, nómos), a noção ou ideia (eidos, logos, dianoéma) e a coisa (prágma, ousia), que é aquilo a que o signo se refere.


         Quando tratarmos do signo na história, perceberemos que vários autores deram nomes diferentes aos mesmos conteúdos (já abordei esta questão aqui), então, para facilitar essa comparação bibliográfica, procurei associar no slide acima outras nomenclaturas de outros autores) para aquelas usadas por Platão. Assim, para o “nome”, outros autores trataram de “Símbolo”; para “a coisa à qual o signo se refere”, outros autores denominaram de “referente”; e, no caso de “noção ou ideia", você poderá encontrar uma nomenclatura diferente dependendo do autor: “referência”, “conceito”, “imagem mental”, “a informação que o nome transmite ao ouvinte”, “significado”.


         O slide acima procurou representar a discussão tratada em "Crátilo" (que foi, como o próprio subtítulo dessa obra demonstra, sobre “a justeza dos nomes”). Veja que no slide há uma ligação entre o “nome” e a “noção ou ideia”, assim como há uma ligação entre a “coisa à qual o signo se refere” e a “noção ou ideia”, porém o que não parece haver – e esta é a discussão em Crátilo – é a ligação entre o “nome” e a “a coisa à qual o signo se refere” (daí o ponto de interrogação no slide).


           
         

        Neste segundo slide, exatamente para refletir as discussões em Crátilo, pequenas modificações foram feitas em relação ao primeiro: 1) a ligação entre o “nome” e “a coisa à qual o signo se refere” é natural ou é uma convenção? 2) É a “ideia” (ou Forma) o que une o “nome” à “coisa à qual o signo se refere”? e 3) “a coisa à qual o signo se refere” parece estar em certa união natural com a “Ideia”, assim como parece haver uma ligação natural do “nome” com a “Ideia”. Além disso, chamei a atenção para não confundir o conteúdo platônico da “coisa à qual o signo se refere” (ou o “referente”) com o que para Saussure é chamado de “significante”, pois para Platão o modelo de signo é triádico, isto é, há uma ligação com o mundo fora da mente do indivíduo, enquanto que, para Saussure, o signo é diádico, isto é, o “significante” é apenas mental.


         Didaticamente, cabe aqui relembrar que toda a teoria do signo discutida em Crátilo parte de duas doutrinas de Heráclito, a saber: 1) a doutrina do fluxo de todas as coisas, que é representada por Protágoras e Hermógenes, que conclui ser impossível às palavras (nomes) revelarem algo da essência das coisas, daí toda ligação entre o nome e as coisas ser arbitrário – “convencionalismo”; 2) Heráclito também pregava a doutrina da emanação, que é representada por Górgias e Crátilo, que, a partir dessa doutrina heráclita, concluem o oposto, a saber, embora haja o fluxo ininterrupto de todas as coisas, estas “emanam” algo de sua essência que é captado pelos nossos sentidos, daí toda ligação entre o nome e as coisas ser natural – “naturalismo”. Veja que o naturalismo de Górgias não era uma identificação com o Ser das coisas, mas uma “captação”


         Ainda em “Crátilo”, a saída proposta não é nem a do convencionalismo e nem a do naturalismo, antes, o “nome” é uma imagem. Assim como uma pintura é uma imagem de alguma coisa, o “nome” (substantivo, verbo, advérbio, etc) também é cópia de uma realidade em si. Contudo, mesmo essa ideia do nome como imagem vai falir toda a discussão no livro. Portanto, qual o melhor caminho? Aprender da imagem (nome) sobre a verdade que ela espelha ou aprender da própria verdade? A resposta final do livro é que o melhor é entrarmos em contato direto com a verdade, que, num primeiro momento, pareceriam ser as coisas. Entretanto, as coisas são também imagens. Assim, no Timeu, a imagem (não do nome, mas das coisas - estas são imagens das Formas, das Ideias) será a solução platônica que garante a inteligibilidade do mundo. Veja abaixo:



         

        O que se pode concluir? É que o modelo triádico platônico, na verdade, deságua numa concepção quase diádica, uma vez que “a coisa à qual o signo se refere” é apenas uma cópia da Ideia e, relembrando toda a discussão de Sócrates tanto em Crátilo como em Fédon de que o melhor é a busca da Ideia do que da cópia da Ideia, a Filosofia irá, então, afastar-se da realidade material do mundo e se dedicar ao que o pensamento e a reflexão são capazes de oferecer: a realidade da metafísica, um caminho “mais excelente”. Perceba, as ideias têm consequências: esse "descaso" com a realidade concreta das coisas em si marcará tragicamente um cristianismo místico, que nascerá de um casamento com o neoplatonismo, assim como, posteriormente, ocorrerá tanto com Descartes como com Saussure, que defenderão uma concepção mentalista do signo. Mas, para Platão, a realidade, o referente, “a coisa à qual o signo se refere” é, tão somente, uma cópia, que deverá nos remeter à verdadeira realidade que é o original no mundo das Formas (ora, aqui, podemos, exatamente, ver o prenuncio da filosofia de Kant). 


                                            Fábio Ribas

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Símbolo - uma palavra "overloaded"

 


“Uma palavra ou uma imagem é simbólica quando representa algo mais que o seu significado imediato e óbvio. Tem um aspecto ‘inconsciente’ que nunca será definido com precisão ou completamente explicado...”
C. Jung

Em Semiótica, há muitas palavras que são “overloaded”. São palavras carregadas de significados e usadas nas mais diversas situações. E isso dificulta muito iniciar o estudo na área, pois, dependendo do autor e das escolas, palavras e expressões como “signo”, “signo linguístico”, “ícone”, “índice”, “símbolo”, “sinais” e afins precisam ser estudadas no contexto da obra em que se encontram. 

A simples palavra “signo” em Peirce, Morris, Schaff, Cassirer, Wittgenstein, Gadamer e Umberto Eco assume conteúdos diferentes para cada um deles. Se isso já não fosse suficiente para causar certa confusão, o inverso também ocorre: há conteúdos semelhantes, mas que recebem nomenclatura diversa em cada um desses autores! E o que dizer de palavras que mudam de conteúdo no correr da vida de um mesmo autor? Não é surpresa, portanto, termos coisas como “o 1º Kierkegaard, o 2º Kierkegaard” ou “Chomsky da 1ª fase, o da 2ª fase, etc” e assim por diante. Isso tudo sem esquecer que uma mesma nomenclatura recebe conteúdos diversos e até significados opostos no correr da história!

         Assim, neste texto, quero chamar sua atenção para a necessidade de obras de referência e dicionários especializados. Quais eu mais uso? Por enquanto, até essa fase da nossa Bibliotheca, uso muito os dicionários de Filosofia do Ferrato Moura e do Abbagnanoo ótimo dicionário eletrônico Houaiss, além do dicionário de linguística da Editora Cultrix e o vasto dicionário de semiótica do Greimas e Courtés. Acredito que estas obras são um material mínimo para se ter à mão.

         Aproveitando essa perspectiva, gostaria de tomar como estudo de caso a nomenclatura "símbolo" para, além do que já vimos até aqui, agregar novas informações também.

         Comecemos pelo Houaiss (você pode clicar sobre a imagem para aumentá-la):

         Como podemos ver, o dicionário consegue trazer à tona 7 acepções diferentes. Todavia, se observarmos com atenção, perceberemos uma característica comum às acepções ali expostas: todas são arbitrárias. Podemos, ao menos, tirar uma conclusão, que, segundo o dicionário Houaiss, o símbolo é arbitrário, é uma convenção, um acordo estabelecido dentro de algum ambiente. Este pode ser social, político, acadêmico ou cultural, por exemplo.

         Vamos retornar ao que havia escrito logo no início e vejamos alguns outros conteúdos para esta palavra “símbolo”. Para Morris, símbolo é “um signo produzido por seu intérprete e que age como substituto de outro signo”; para Schaff, “são objetos materiais que representam noções abstratas”; para Saussure, o símbolo “nunca é completamente arbitrário. Há um rudimento de vínculo natural entre significante e significado”; para Cassirer, “os símbolos pertencem ao mundo humano de sentido” (lembremo-nos de sua tese de que o homem é um animal simbólico); para Wittgenstein, “para reconhecer o símbolo no signo é necessário considerar seu uso significativo”; para Gadamer, “a essência do símbolo é substituir ou estar no lugar de outra coisa”. Cabe salientar que, para Peirce, Morris, Schaff e Wittgenstein, os símbolos são subunidades do signo, enquanto que, para Saussure, Gadamer e Cassirer, os símbolos se opõem aos signos. Com este parágrafo, compreendemos bem a observação de Peirce: “... a palavra símbolo já tem tantos significados que seria uma ofensa adicionar-lhe mais um...”.

         Então, para compreendermos o universo do símbolo, alguns outros conceitos precisam ser abordados daqui para frente: signo e sentido, por exemplo (além dos conceitos filosóficos de “forma”, “substância” e “matéria”, aos quais já havia me referido em textos anteriores).

         Outro importante ponto que o Houaiss explicita é o de que, ao tratarmos do símbolo, devemos compreender que esse se utiliza da alegoria, da metáfora, da metonímia, da parábola, da hipérbole, etc. Todos esses conceitos deverão ser tratados aqui em nossa biblioteca, caso queiramos realmente compreender a natureza do símbolo.

         É por causa do símbolo que nossa biblioteca procura ter uma vastidão enciclopédica, pois o símbolo está presente na cultura, na religião, na história das civilizações, na linguística, na antropologia cultural, na arte, na psicologia, etc.

         Esta sensibilidade quanto à natureza imaginativa do símbolo é fundamental para todo aquele que deseja compreender o outro, comunicar-se bem e se contextualizar no universo ao qual se pretende pregar o Evangelho. É uma viagem que, se Deus quiser, estamos apenas começando.       

Fábio Ribas

sexta-feira, 5 de abril de 2024

A mulher grávida que pisou a cabeça da cobra - um estudo de caso*

 


*Texto que publiquei originalmente em dezembro de 2016, mas que resgatei para minhas aulas de Fenomenologia da Religião.

A gravura deste texto circulou nas redes sociais e foi fartamente distribuída por pastores, missionários, seminaristas e tantos outros evangélicos neste Natal.

Contudo, o que me chamou a atenção foram as palavras da minha filha de 10 anos ao olhar para esse desenho: “Nada a ver! Não foi Maria quem pisou na cabeça da cobra”! E não foi só minha filha de 10 anos de idade quem se pronunciou sobre o desenho em questão.

“Nós nem vimos a cobra”, disse-me um casal de evangélicos diante da gravura. O que poderia justificar e ser usado como desculpa numa “curtida desatenta” por parte de tantos evangélicos maravilhados com a mulher grávida que pisa a cobra.

“Ah! Que lindo! Tem uma imagem de Maria que também pisa na cobra igualzinha a essa aí. Tão bonito isso”, disse-me uma católica. E devo confessar que, sendo ex-romano, a primeira coisa que me veio à mente foi a pinacoteca das diversas imagens católicas de Maria pisando a cabeça da serpente, que sempre estiveram presentes por toda minha infância e adolescência.

Tirando os evangélicos que “curtiram” sem se dar conta de que a mulher grávida do desenho pisava uma cobra, o que dizem os evangélicos “conscientes”, os que postaram a gravura? “É a Igreja”, responderam.

A mulher é o símbolo da Igreja e a Igreja é quem pisa a cabeça da cobra, que é Satanás. “Pisa” por extensão, é bom frisar. Quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus, portanto, sendo Jesus o Cabeça da Igreja, esta o pisa vitoriosamente.

A figura da mulher como imagem da Igreja é depreendida a partir do texto de Apocalipse 12. Porém, o que João faz é o contrário do que seus interpretantes fizeram posteriormente. João toma Maria como símbolo da Igreja (e do Povo de Deus no Antigo Testamento), e não o contrário: a Igreja não é símbolo de Maria.

Mas é exatamente isso o que os católicos romanos fazem. Tanto que eles, ao se depararem com o símbolo da Igreja na figura de Maria, concluem inversamente: “Os homens é que devem escolher em qual lado lutar. Do lado da serpente ou se do lado da semente da Mulher — Maria — Mãe de Jesus Cristo, mas também de cada um” (Padre Paulo Ricardo).

“A semente da Mulher — Maria — Mãe de Jesus Cristo…”. Ora, o romanismo compreende que Maria é mãe da Igreja, a igreja é “semente de Maria”. Por quê? Por extensão também. Se Maria gerou Jesus, que é o Cabeça da Igreja, sendo a igreja o corpo de Jesus, logo Maria é mãe da Igreja.

Por isto, tão imediatamente, numa cultura católica como a brasileira, a maioria das pessoas irá identificar aquela mulher grávida que pisa a cabeça da serpente no desenho em questão não com a Igreja vitoriosa, mas com a mãe da Igreja — a mulher Maria; ainda que o catolicismo oficial saiba muito bem que quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus (veja aqui).

A mulher da gravura está grávida. E é na condição de grávida que ela pisa a cabeça da serpente — e não é nada disto o que encontramos em Apocalipse 12. A vitória sobre o diabo, por intermédio de Maria e sem a Cruz, pois Jesus está no ventre dela — protegido de todo mal, de toda dor, de todo sofrimento, enquanto é o pé dela que pisa a cabeça da cobra — esta é a mensagem posta pela gravura.

O parágrafo acima revela o espírito do nosso século representado na gravura: o advento do feminino, da deusa mulher, da superioridade da mulher sobre o homem, da assunção da maternidade sobre a paternidade.

Ainda que a mulher da gravura fosse a Igreja, o equívoco foi coloca-la grávida — mais do que um ruído, mais do que uma mera interferência, é um excesso de informação que desloca o interpretante do verdadeiro sentido do Natal para uma interpretação transbordada de sincretismo pagão da Nova Era.

Sem a encarnação completa, sem a vida de total obediência, sem a paixão e sem a morte substitutiva e a ressurreição vitoriosa que compõem o evangelho da nossa salvação, um Messias protegido no ventre de sua mãe enquanto esta resolve o problema criado pelo ser humano é a interpretação que sobra: Maria sem dar à luz é tão somente a eternização da esperança messiânica que nunca se completa, ou ainda, um messianismo que é apenas o do “povo sofredor”, representado pela mulher grávida.

Em outras palavras, é um outro evangelho o da gravura: “Porque, como, pela desobediência de uma só mulher, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de uma só mulher, muitos se tornarão justos”.

Este ensaio não comporta tudo o que poderíamos desenvolver sobre a importância de sabermos evangelizar nossa geração, compreendendo todas as nuances e complexidades do nosso multiculturalismo pós-moderno, ainda assim há duas regras simples que eu deixaria aqui.

A famosa regra de ouro diz que, em termos de comunicação, o importante é o que o outro entende e não o que você quis dizer. E evangelizar é comunicar as boas novas da salvação e o mais importante é sabermos o que o outro compreende e não o que eu penso sobre o que ele deveria ter entendido.

A segunda regra é que, como missionários, não basta trabalhar com pressupostos, mas antes com aquilo que está propriamente posto: é muito mais importante você compreender o que está posto diante do interpretante por essa imagem da mulher grávida do que esperar que esse interpretante consiga entender os pressupostos da própria imagem da mesma maneira que o seu gueto teológico os entende (“entendimento” este que pode também estar equivocado, conforme demonstrei aqui).

Acredito que é preciso comunicar melhor a mensagem do Evangelho, ainda mais quando a veiculamos nas redes sociais, ambiente que alcançará crentes e descrentes das mais diferentes formações, e essa é uma responsabilidade que cabe, indubitavelmente, aos líderes cristãos que se utilizam da internet.

                        Fábio Ribas

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Uma breve e pública confissão da minha fé*


                          Photo by Karen Dobberstein on Unsplash

Eu creio em Deus! Creio que Ele é o Criador de todas as coisas que há, tanto no céu como na terra.

A Beleza, a Justiça e a Verdade têm a causa e a manutenção em Deus. Creio, portanto, que toda poesia, toda vida e toda morte estão debaixo da Majestade Divina e que nada está fora de Seu controle e de Seu planejamento. Nada!

Eu acredito na Beleza! E só acredito nela, porque há um Deus que concebeu a prosa e o verso, o amor e o carinho. Os tons, as matizes, a multiforme sabedoria, que se encontram entre os mais diversos homens só são assim, porque tudo foi arquitetado pelo Deus que, um dia, os gerou num ato de extrema glória!

Eu acredito na Justiça! Jamais na justiça dos homens, que são incapazes de realizá-la satisfatoriamente, porque somos por demais fugazes e corrompidos em nossos juízos, valores e entendimentos. Todavia, porque há a Justiça Divina, creio que algo dela nos foi compartilhado e permitido. São lampejos, flashes, efemeridades da Graça que, eu sei, podem facilmente nos escapar entre os dedos, mas já são suficientes para fazer de cada um de nós seres que anseiam por justiça.

Eu acredito na Verdade! Esta só é possível se houver um Deus que seja a própria Verdade, porque os homens, os homens todos, somos mentirosos. E se somos todos inimigos da Beleza, da Justiça e da Verdade é, tão somente, porque o cego que busca avidamente a luz também se afasta naturalmente dela, por causa do temor de ser consumido pelo calor de suas chamas!

Eu também creio no Mal e no pecado de todos nós, por isso sei da mácula, da distorção e da depravação que os homens cometem, mesmo tendo em suas mãos os mais sublimes presentes doados por Deus! Como crianças ansiosas e egoístas que rasgam os embrulhos e depois destroem até seus melhores brinquedos ou deles se cansam, assim somos nós. Então, há também a Prudência (sem a qual muitos já se teriam perdido nesse caminho)!

Enfim, creio que há em cada cultura humana algo da Beleza, da Justiça e da Verdade. Há no Cristianismo, porém, um legado maior; há na Tradição judaico-cristã um instrumento mais sensível para que o ourives zeloso — o homem nobre — trabalhe com maior maestria o que Deus tem oferecido à humanidade nas esferas da política, economia, educação e outras.

Noto, contudo, que nada do que foi declarado aqui versa sobre a salvação do homem, nada do que foi exposto nesta breve profissão de fé proclama a reconciliação necessária do homem com Deus. Isto por crer também que quaisquer culturas e tradições jamais serão suficientes para retornar o homem ao trono da Majestade Divina (nenhuma, nem mesmo a cultura judaico-cristã). Há uma cultura ainda mais singular sobre as demais, a Cultura do Reino de Deus, um presente entregue pelo próprio Autor do texto, no qual todos estamos há muito escritos. Essa Cultura singular se revela nas Sagradas Escrituras.

Arte alguma redimirá o homem, e este só poderá ser redimido quando confrontado pela Aliança! Nunca houve noutra cultura a Revelação de um Deus que entrasse em Aliança com um povo, que estabelecesse um vínculo de morte e vida, um vínculo de sangue. E a Aliança, que tem por testemunha a tradição judaico-cristã fundada à luz das Escrituras, é o único caminho possível para que possamos nos reconciliar com Deus — o pacto feito definitivamente no sangue da nova e eterna Aliança em Cristo Jesus!

Todavia, sei que muitos de nós somos ainda como o cisne velho da bela música de Saint-Saëns, um cisne velho que reluta contra a morte de si mesmo, porque ama exatamente aquilo para o que deveria morrer. O cisne que se debate contra a velhice e o anúncio da inexorabilidade da morte, mas só contende (inutilmente) por não acreditar que, nessa Aliança, a morte é uma gloriosa porta de entrada e não de saída.

                    Fábio Ribas

*Escrito originalmente em 2012 e publicado no blog “O Seringueiro”, em 08 de setembro daquele ano.

https://www.youtube.com/watch?v=Wpk7Kx4dt-U

Mulher, por que choras?


“A pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós,
por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos.”
(José Saramago)

Ao refletir sobre o título deste texto, percebi que essa pergunta foi dirigida duas vezes a Maria Madalena, o que me deixou deveras intrigado. Logo lembrei-me de um antigo filme dos anos 70, “Gritos e sussurros” de Ingmar Bergmam. Um filme de terror, ou melhor, um filme sobre o terror do universo feminino caído, que, por tantas vezes, foge até mesmo à própria compreensão das mulheres e da maldição que lhes pesa.

O filme apresenta três irmãs que se veem convivendo novamente debaixo de um mesmo teto, porque uma delas está com câncer e próxima à morte. Há ainda uma empregada na casa. Literalmente, cada uma dessas mulheres se verá espremida pela câmera do diretor contra uma parede de um tom vermelho forte e, nestes momentos, elas são levadas ao extremo e confessam suas culpas, seus medos, suas dores, suas mentiras. A irmã mais nova, Maria, é fútil, cínica e adúltera, e fora a preferida da mãe e, por causa disso, suas duas irmãs nutrem por ela ciúmes e ódios. Karin é a irmã mais velha, amargurada por um casamento infeliz e por seus próprios sentimentos de culpa, chega cortar sua própria genital com um pedaço de vidro para não ter que fazer sexo com o marido. Agnes está morrendo (de inveja?) sobre a cama e suas irmãs não conseguem lhe dar o carinho e o consolo que ela só encontra nos cuidados da empregada, Anna. Esta vem cuidando da paciente há 12 anos e o que sabemos dela é a perda precoce de sua filha única.

Os “sussurros” são os segredos do passado que o vento insiste em trazer de volta. Os “gritos” são a inveja e o remorso que atormentam a cada uma delas nessa convivência forçada. Há uma cena no filme de Bergman, que mostra que Agnes continua a sofrer mesmo depois de morta. E, mesmo testemunhando seu sofrimento pós-morte, suas irmãs continuam incapazes de manifestar quaisquer reais atitudes de carinho e amor por ela. Somente Anna, a empregada, lhe oferece o consolo suplicado numa cena construída para nos lembrar a Pietá de Michelangelo, Maria segurando Jesus morto em seus braços. Contudo, ou exatamente por isso, Anna é abandonada pelas irmãs de Agnes após a morte desta. Mas por que elas choram?

Jesus teve encontros decisivos com muitas mulheres. Na casa de Simão, o fariseu, Jesus exalta a expressão de amor da mulher de má fama, enquanto expõe a verdade sobre a hipocrisia daquele líder religioso. No poço, Jesus entrega a uma samaritana de vida duvidosa o que a Nicodemus, doutor da lei, não fora dado experimentar: o novo nascimento. Enfim, na tentativa de apedrejamento da mulher adúltera, Jesus denuncia o pecado da instituição machista que preservara o amante e trouxera, tão somente, a pecadora pega em flagrante adultério para morrer.

O pecado e sua maldição atingiu nossa natureza humana. Obviamente, à semelhança do que ocorreu com a nossa masculinidade, a natureza da mulher foi também corrompida em toda extensão de seu universo feminino com agravantes físicos (o aumento nas dores de parto), volitivos (a guerra dos sexos) e morais (a submissão forçada ao homem). Assim, vejo aqui a chave para entendermos a indagação: Mulher, por que choras? Creio que a pergunta confronta toda mulher para que elas percebam as dimensões abissais atingidas pela ressurreição de Cristo e não apenas uma simples constatação de um fato histórico, que é a ressurreição em si. A maravilhosa mensagem do túmulo vazio é que não há mais razões pelas quais chorar, porque Jesus quebrou a maldição que trouxe danos terríveis à mulher. E ninguém melhor do que Maria Madalena para compreender isso: ela fora liberta da possessão de sete demônios, ela havia sido prostituta, usada, humilhada, subjugada por uma teia social machista que a sufocava e se beneficiava dela. Surpreendo-me com essa mensagem poderosa de salvação, restauração, restituição e resgate do valor verdadeiro da mulher em Cristo Jesus.

A Bíblia nos oferece um quadro claro quando, na primeira incursão missionária pela Europa, é uma mulher, Lídia, quem primeiro tem seu coração aberto às verdades do Evangelho e, logo após, é na libertação e conversão de uma mulher possessa de espírito adivinhador, e que era usada como fonte de lucro para seus senhores (homens), que, mais uma vez, o Evangelho encontra sua plena realização de redenção do universo feminino oprimido não só por suas próprias incongruências e idiossincrasias, como, também, pela maldição demoníaca do machismo.

Maravilho-me por Jesus não ter se revelado nem a Pedro e nem a João naquela manhã de domingo. Eles foram ao túmulo de Jesus e nada encontraram. Mas a uma mulher que sabia que seu testemunho seria desqualificado diante de qualquer tribunal naquele tempo, a ela é que foi entregue a missão de anunciar a ressurreição em toda a sua extensão libertadora.

À semelhança das mulheres do filme de Bergman, sei que muitas ainda choram por sofrer as angústias de uma natureza caída e amaldiçoada pelo pecado sem conseguir encontrar nenhuma saída que lhes dê esperança. É preciso pregar e ensinar sobre o significado e libertação que a ressurreição de Jesus trouxe para a própria vida de cada uma delas. Ainda que saibam da ressurreição, ainda que tenham ouvido o testemunho acerca do Cristo ressurreto, muitas não experimentaram a verdade surpreendente de que um homem se entregou e morreu para quebrar a maldição do pecado que paira sobre elas. A promessa gloriosa da ressurreição de Cristo é que o próprio Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima.

Portanto, mulher, vai e anuncia a todos que você encontrar as mesmas palavras jubilosas de Maria Madalena: “Eu vi o Senhor”!

Fábio Ribas

domingo, 17 de março de 2024

A pedagogia da mentira

 

Você já parou para pensar que, para a maioria das pessoas, uma folha de papel cheia de palavras é igual a um painel de controle de avião? E que o mesmo ocorre diante de uma folha da Bíblia? E eu não estou falando sobre pessoas que não sabem ler.

Infelizmente, uma folha aberta de uma Bíblia, para muitos jovens e adultos de Ensino Médio e Universitários, continua a ser um painel de controle de avião. As palavras estão todas ali, mas e daí? Wittgenstein é quem faz essa comparação entre uma folha cheia de palavras e o painel de controle do avião. Ele faz isso para nos chamar a atenção sobre o problema da comunicação humana.

Assim, não é de admirar que as pessoas prefiram o caminho mais curto, a porta mais larga do argumentum ad verecundiam ou argumentum magister dixit, que é a falácia de se apelar a uma autoridade humana. Isso tem levado muitos a se deixarem nas mãos de falsos pastores e igrejas manipuladoras e, quando perguntados sobre a razão deles se deixarem levar pelo abuso espiritual, a resposta é sempre a mesma: “o pastor disse”, “a profetisa falou”, o “ungido determinou”, etc. O apelo é sempre às pessoas que possuem uma pretensa “autoridade espiritual”. A partir disso, vemos uma multidão seguindo profetas, apóstolos e igrejas de “poder”, enquanto a ignorância bíblica e a inabilidade de aplicar suas verdades à prática diária se aprofundam cada vez mais.

Enquanto escrevo este texto, farei uma digressão, pois não posso deixar de pensar na minha filha mais velha, que vem estudando tenazmente para o vestibular, Enem e outras coisinhas semelhantes. O que tem me surpreendido é a orientação da escola dela, que adotou o método Anglo de Ensino, quanto à produção das redações: é preciso citações! Ainda que você não tenha lido o livro de Fulano e de Ciclano (e a maioria dos colegas de sala de aula da minha filha realmente nunca leu um livro sequer desses tais autores), é preciso, segundo a orientação dos “grandes mestres da redação”, que sua redação apele à autoridade desses filósofos, sociólogos, personagens históricos e tantos outros. Eu vejo os colegas da minha filha buscando na internet aqueles sites de páginas de citações, para rechear seus textos de frases de pessoas que eles sequer um dia tinham ouvido falar, mas que seus professores citam. O que me faz pensar que esses professores podem também estar apenas citando o que, um dia, citaram para eles num ciclo tenebroso de papagaismo educacional!

Há algo muito grave no que eu escrevi no parágrafo anterior. A escola é o lugar em que nossos filhos mais passam o tempo deles. Eles passam mais tempo na escola e nas universidades do que em casa ou nas igrejas. Assim, o poder de influência desses professores é enorme e os pais não podiam jamais ser negligentes, como muitos são. É uma pedagogia da mentira que a Escola ensine aos nossos filhos citarem autores que ela mesma nunca trabalhou em sala de aula e que eles nunca leram e nem lerão! Vou repetir: é uma pedagogia da mentira! Estão formando nossos filhos para mentirem, para que eles digam que conhecem o que esses autores estão dizendo, quando, na verdade, não sabem bulhufas! Estão citando frases soltas fora dos contextos dos livros de onde elas foram retiradas.

Quando eu leio frases como “Wittgenstein disse” ou “Aristóteles afirmava em sua obra “A Poética””, “Segundo Max Weber”, penso que, ao serem citadas, elas respeitam o corpus do pensamento dos seus autores originais. A questão é como confiar em meninos e meninas de 16 e 17 anos, que nunca leram um livro de Emile Durkheim, por exemplo, e saem citando com pomposa arrogância de quem domina aquelas obras? A pedagogia da mentira corrompe o caráter, danifica a moral e destrói a ética. Não é de se surpreender que estejamos tão perdidos em distinguir o que é certo e errado, o que é o bem e o mal, o que é verdade e o que é mentira. São anos e anos de uma escola ensinando nossos filhos a mentirem, a usarem o discurso, a retórica, a construção de uma estética falaciosa e a plagiarem a ideia dos outros que, evidentemente, isso devora a alma. E isso tudo para quê? Para que nossos filhos, a partir de mentiras bem construídas, possam conquistar uma vaga numa faculdade. O que as escolas estão ensinado? Que os fins justificam os meios. Que, se não ferir ninguém, que mal é que tem? Depois de anos e anos aprendendo a mentir para conquistar seus objetivos, que tipo de cidadão nós teremos? São pastores que apelam ao “dom de línguas” e ao grito, são profetizas que apelam ao “assim me disse deus”, são crentes pinçando frases bíblicas fora de seus contextos para apoiarem suas heresias e abusos espirituais contra as pessoas e muitos outros crimes de corrupção que vemos no nosso dia a dia. Temos visto profissionais adulterando o currículo vitae e lattes para dar um up na maquiagem, querendo ganhar capital político e econômico a partir de um capital cultural que nunca possuíram (Pierre Bourdieu). Esses profissionais foram construídos durante anos por uma escola doutrinadora! Sinceramente, você ainda não percebeu isso? Pronto, terminei minha digressão.

Como o próprio Apóstolo Pedro adverte, a Bíblia tem sim textos difíceis de entender (II Pe 3). Só essa advertência já deveria ser suficiente para animar todos os cristãos a frequentarem as Escolas Bíblicas Dominicais de suas Igrejas, mas, tristemente, não é isso o que ocorre. É preciso estudar a Palavra de Deus para que, como nos adverte o Espírito Santo por meio do Apóstolo Pedro, não caiamos nas armadilhas das pessoas ignorantes e instáveis que não querem aprender da Palavra de Deus!

Estude a sua Bíblia! Procure um grupo de pessoas comprometidas com o ensino sério da Palavra de Deus, para que você não caia nas mãos dos lobos que planejam dominar a sua vida. O mercenário não quer que você aprenda. Ele quer apenas que você obedeça cegamente, pois ele quer roubar, matar e destruir você e, para isso, ele precisa que você não conheça a Bíblia, nem estude a Palavra de Deus e, muito menos, viva sob o poder do Espírito Santo.

Assim como o piloto precisa aprender a ler um painel de controle de avião, a Bíblia também possui regras de interpretação para que seja lida corretamente. Do contrário, no caso do avião, ele sequer levantaria do chão. No caso da sua vida espiritual, também!

                                            Fábio Ribas

sábado, 2 de março de 2024

Verdades encobertas, pecados revelados (X/2024)


Quando a Elizabeth Rodrigues convidou-me para escrever um artigo, nem precisei pensar duas vezes. A caminhada missionária havia trazido bastante material nessa área e eu já me preocupava e, até mesmo, tratava de alguns casos de pessoas que haviam sido abusadas. Todavia, o que era diferente no meu caso é que eu precisei tratar disso em realidades transculturais. E é sobre isso que trata o meu artigo (segue abaixo). O diferencial do ebook de Elizabeth é a diversidade dos colaboradores. Ela convidou pessoas muito diferentes, com perspectivas diferentes, mas todas tratando o tema do abuso. Assim, temos a presença do Dr. Guido Palomba, profissionais que tratam diretamente com a realidade do abuso, psicólogos, assistentes sociais, líderes religiosos e testemunhos pessoais. Enfim, um livro que precisa ser lido por todo aquele que quer dar voz a tantas vítimas silenciadas pelo sistema e por interesses escusos. Adquira já o seu ebook clicando aqui.

Prevenção e resposta ao abuso infantil no contexto missionário transcultural

Já amávamos aquele casal e sua pequenina filha, quando, naquela tarde, eles vieram à nossa casa para conversar. Convidamos a que eles se sentassem no sofá da sala da casa missionária. Não sabíamos sobre o que se tratava a visita deles, até que, inesperadamente, diante da família, ela começou a chorar. O marido resolve assumir a condução da conversa do ponto em que sua esposa parara. Contudo, assim como ela, o domínio limitado da língua portuguesa era um imenso obstáculo para falar de coisas tão profundas. Enquanto ele falava, vez ou outra, ela o completava e esclarecia melhor o que eles tentavam nos dizer. Após quase uma hora de idas e vindas, tentativas e muitas lágrimas, conseguimos compreender o ponto central do que eles queriam compartilhar: o pai havia abusado dela.

Precisei dizer com minhas próprias palavras, para ter certeza do que iríamos conversar dali em diante: “o seu pai tentou fazer sexo com você?”. Era muito difícil para ela, mas, enxugando as lágrimas do rosto, ela nos disse que, há anos e por várias vezes, ele havia abusado dela. Quando ela disse isso, o marido dela começa a chorar bem na nossa frente. Na minha cabeça, passava um milhão de coisas, mas, principalmente, pensava em minhas duas filhas. Eu sou pai de duas meninas e, agora, uma menina estava diante de mim contando que seu pai abusara dela. Ela disse que, ainda criança, quando seu pai estudava para ser obreiro da Missão, ele a pegara no banheiro da casa da família (naquela cultura, o banheiro precisa ficar do lado de fora da casa). Na época, as pessoas ficaram sabendo, mas, mesmo assim, não fizeram nada. Seu pai se formou, voltou à aldeia, batia em sua mãe, vendia bebida ao povo, andava armado e provocando outros, mas ninguém fazia nada. Finalmente, casando, ela pode sair de casa. Entretanto, ela estava assustada, pois havia sua irmã e ela tinha medo que seu pai fizesse o mesmo com sua irmã lá na aldeia e não houvesse ninguém mais para protegê-la.

Perguntei sobre o que a mãe sabia sobre tudo aquilo e ela me disse que já tentara dizer várias vezes para sua mãe, mas essa parecia não entender, não aceitar, não ouvir. Então, ao nos contar isso, ela pediu ajuda para minha esposa, pois, se ela chamasse a mãe e conversassem juntas, as três, seria mais fácil. Houve essa conversa entre as três em outro dia mais adiante. Quando, porém, o pai dela também foi chamado para conversar, a mãe ficou contra a filha por algum tempo. Depois cedeu, quando o marido bateu nela mais uma vez. Demoraram muito a afastar esse pai de suas funções e retardaram para levar a mãe à delegacia, para que pudesse haver a denúncia. Demoraram tempo suficiente para que a mãe, finalmente, desistisse de prestar a queixa. O marido fugiu da aldeia, mas depois reapareceu, indo na casa deles na Missão, ali bem perto da minha casa. Foi nessa vinda inesperada do pai que ela nos enviou uma mensagem de whatsapp: “Meu pai está andando por aqui… E ele está armado”.

Aprendi muito vivendo experiências assim. Aprendi sobre legislação, o que podemos e o que não devemos fazer, aprendi também outras coisas muito difíceis sobre as inúmeras instâncias de poder que impedem que o mal seja punido e o bem protegido. Todavia, a pergunta que importa para o início deste artigo é: você realmente se importa?

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A verdadeira tragédia é que ela rouba a criança do seu potencial, colocando em movimento uma cadeia de eventos e decisões que as afetam por toda a vida.

Darkness to Light: Sexual Abuse Statistics

Inicio este artigo expressando o que quero alcançar com ele. Na verdade, estou indo ao encontro dos mesmos desejos expressos por Deepack Reju, na seção de “agradecimentos” do seu inestimável livro “Sempre alerta”, da editora Peregrino. Porém, aqueles desejos que Reju expõe devem ser contextualizados para o ambiente específico que quero discutir aqui, o ambiente missionário transcultural. Assim, meu primeiro desejo é que, como resultado deste artigo, crianças que vivem em contextos culturais e linguísticos diferentes do meu possam ser protegidas dos horrores do abuso infantil, aonde quer que haja um missionário plantando uma Igreja.

Meu segundo desejo é o de preencher uma lacuna. Há muito pouco material de qualidade e verdadeiramente preocupado com a proteção da criança e do adolescente, quando olhamos a realidade transcultural. Para melhor introduzir esse tema, vamos dar um passo atrás. Compreenda que sequer há um levantamento rigoroso de casos de abuso dentro das igrejas e das famílias evangélicas no Brasil. Estou falando do contexto de igrejas urbanas e rurais, igrejas em grandes centros urbanos e em pequeninas cidades do interior, enfim, não há dados estatísticos ou pesquisas realizadas que nos deem um quadro seguro do que ocorre dentro das igrejas evangélicas brasileiras. Agora, sabendo disso, imagine a realidade transcultural? Alguns autores que li mostraram que, durante muitos anos, os evangélicos acreditaram que o abuso infantil na igreja era um “problema católico”, julgando até mesmo que o número dos escândalos se devia à exigência do celibato, que acobertaria e incentivaria os crimes que, então, ocorrem por trás da fumaça do incensário clerical romano. Isso não apenas é uma visão falsa, mas serve para ocultar a triste realidade que pode ser encontrada (e é) também nas igrejas evangélicas. Essa visão equivocada também vem atrapalhando a luta em defesa da criança no meio evangélico, pois, até como uma necessária resposta ao problema do abuso cometido por religiosos católicos, a Igreja Católica saiu na frente da discussão da prevenção ao abuso em seu meio. Nós, ao contrário, ainda estamos tateando em assumir a responsabilidade de protegermos nossas crianças. Portanto, há uma lacuna no meio evangélico e, indubitavelmente, essa lacuna é ainda mais grave no meio missionário transcultural.

Meu terceiro desejo é declarar o que eu penso ser uma abordagem mais abrangente para evitar e responder ao abuso infantil no contexto missionário transcultural. Assim como deseja Reju com seu livro, também desejo trazer algumas instruções práticas gerais, mas que deveriam ser adequadas a cada contexto transcultural nos quais missionários trabalham, seja dentro ou fora do Brasil. Gostaria de dizer que, antes de tudo, escrevo como pai de duas meninas, que hoje estão com 17 e 15 anos de idade, mas que saíram conosco para realizar a Grande Comissão em uma aldeia indígena com três e um ano de idade. Neste artigo, falo como pai, como missionário entre os povos indígenas do Brasil, como Pastor que já atuou também entre comunidades carentes e de periferia, além do pastoreio que realizei em área rural. Conheci etnias indígenas diferentes umas das outras no Brasil; fui professor de Língua Portuguesa no Parque Indígena do Xingu; desenvolvi um trabalho multiétnico com um grupo de quase 20 missionários junto a diversos povos indígenas, para a plantação de uma igreja multicultural no MT. Depois, trabalhei na área de educação bíblico-teológica no Ami, um Centro de Treinamento para obreiros indígenas. E, finalmente, conheci de perto a realidade diversa da Missão Caiuá, no MS.

Gostaria de dizer ainda que escrevo para um leitor ideal, formado na minha mente a partir de todos os alunos que passaram pelo CFM (Curso de Formação Missionária) da APMT e pelo CLM (Curso de Linguística e Missiologia) da Missão ALEM, buscando aprimorar sua formação missionária transcultural. Acredito que escrevo também a esses alunos, a essa nova geração de missionários. Sei que muitos se encontram trabalhando com povos de outras culturas mundo afora, enquanto outros estão aqui no Brasil mesmo, exercendo seus ministérios entre indígenas, ciganos, quilombolas, japoneses, chineses, árabes etc. Não apenas escrevo, mas dedico este artigo a cada um desses alunos que, eu sei, podem estar enfrentando situações como as que eu trarei aqui e que, por isso mesmo, precisam de orientação e apoio para prevenir e responder aos casos de abuso infantil em seus contextos de ministério. Escrevo e oro por eles.

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Trouxeram-lhe, então, algumas crianças, para que lhes impusesse as mãos e orasse; mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus. Mateus 19:13,14

Sempre oriento meus alunos a que visitem seu campo missionário e o conheçam um pouco melhor, antes de se mudarem definitivamente. Foi assim que fizemos em 2006 e 2007, eu e minha esposa. Essas primeiras visitas foram suficientes para nos dar conta que um dos nossos obstáculos transculturais era a precoce sexualização das crianças na cultura em que iríamos trabalhar. As casas muito escuras tinham apenas duas “portas”, cada uma ficava de frente para outra, de modo que um corredor de luz atravessava o centro da moradia, onde também havia um espaço para queimar a lenha e moquear o peixe e o macaco. Entretanto, fora esse corredor de luz que atravessava o centro da casa, o que havia, tanto à esquerda como à direita, era uma escuridão sólida de se tocar com os dedos. Percebemos que nossas filhas se perderiam dentro daquelas casas extremamente escuras e precisaríamos, então, nos adequar àquela nova realidade cultural. Decidimos ali, naquela visita, que apenas eu entraria como professor da comunidade, enquanto minha esposa ficaria exclusivamente por conta de cuidar de nossas filhas.

No ano seguinte a essa visita, enquanto conhecíamos outro povo de outra cultura indígena, no Pará, sentou-se à nossa frente uma linda menina de olhos grandes e arredondados de apenas cinco anos de idade, era a filha de um ribeirinho da região. Perguntei a ela por que o povo indígena não estava presente ali conosco no Centro, como esteve na noite anterior. Aquela menina olhou para trás e me respondeu: “É que todo mundo foi para casa de fulano. Fulano, quando vem da cidade, todo mundo sabe que ele traz filme de SE-XO. Aí está todo mundo lá”. Eu olhei aquela filha de ribeirinho, que tinha quase a mesma idade de uma das minhas filhas e fiquei revendo várias vezes na minha mente a imagem inusitada dela dizendo a palavra “SE-XO”, escancarando a boca em cada sílaba. Descobri que os jovens indígenas estavam em intercâmbio intenso com a cidade e já pouco se interessavam pelas atividades culturais do próprio povo, quando havia a possibilidade de trocar a programação por “algo mais interessante”. Conosco, naquela noite, estavam apenas os mais velhos.

Essas duas histórias sempre foram contadas por mim aos candidatos ao trabalho transcultural, porque sempre soube que era preciso abrir diálogo com solteiros e casados, meus alunos em sala de aula, que, certamente, enfrentariam questões como essas que narrei aqui. Às vezes, seremos mandados por Deus a culturas que nos confrontarão e precisamos nos prevenir e preparar nossos próprios filhos também. E, infelizmente, eu já vi missionários colocando seus filhos em risco, crianças ainda, por falta de orientação, sem uma palavra e regras que os preparasse para determinadas realidades. Serei mais claro. Certa vez, entrei na casa de uma família missionária e uma criança de apenas oito anos de idade veio me receber à porta. Era a filha do missionário. Seu pai e sua mãe haviam recém-chegado àquele campo, mas, à semelhança de muitos outros missionários que trabalhavam ali, não haviam recebido nenhuma orientação sobre aquelas culturas e nem como deveriam se portar e relacionar com eles, uma vez que estavam ali em nome da Missão. Simplesmente não havia nenhum protocolo de segurança. Notei que os pais daquela criança haviam saído e a deixado em companhia de um adulto estranho à família deles.

Protocolos de segurança não servem apenas para proteger os filhos de missionários que trabalham em Agências ou Missões, mas terminam por ser mecanismos de blindagem a essas próprias instituições, uma vez que evitam situações em que elas possam ser acusadas de algo que nunca fizeram. O que eu quero trazer neste artigo, então, é que missionários e suas famílias precisam também ser protegidos. Agências e Missões também. Os povos indígenas, quilombolas, ciganos, árabes etc, semelhantemente, necessitam de um conjunto de normas reguladoras de proteção à infância, para que tomemos o cuidado necessário em nossas relações com eles. Missionários são enviados por suas igrejas locais, muitos estão atuando em projetos de Missões e Agências, que não os preparam para se prevenir e responder ao abuso infantil no contexto de outra cultura. A verdade é que muitas igrejas, pastores, lideranças e famílias sequer sabem prevenir e responder a essa questão dentro do seu próprio contexto cultural, imagine preparar os que são chamados “a passar à Macedônia”? Por tudo isso, é que acredito ser de suma importância para todos, igrejas locais, suas lideranças, Missões e Agências que possamos abrir uma discussão que nos leve às orientações necessárias e à criação de regras contextualizadas às realidades culturais em que nossos missionários se encontram.

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Porque aquilo que eles fazem em oculto, até mencionar é vergonhoso. Mas, tudo o que é exposto pela luz torna-se visível, pois a luz torna visíveis todas as coisas. Efésios 5.12 NVI

Depois de anos trabalhando em uma aldeia indígena, certa família se dirige à cidade mais próxima do povo com o qual ela trabalhava, com o intuito de começarem a tradução da Bíblia para a língua daquela etnia. Recebidos pela Congregação de sua denominação naquela cidade, passaram a frequentar os trabalhos da mesma e levar seus filhos às reuniões de sábado. Era uma reunião com o intuito evangelístico e de comunhão com aquelas crianças, o pastor dali e sua esposa lideravam o momento. Todavia, com apenas um mês que a família missionária já se encontrava morando na cidade e frequentando aquela Congregação, começam as denúncias de uma das mães daquelas crianças que participavam dos encontros nos sábados. As suas filhas haviam dito que o pastor, durante as brincadeiras, sempre tocava em suas partes íntimas. Evidentemente, a mãe daquelas crianças envolvidas ameaçou denunciar à polícia, mas o caso foi abafado e o pastor abusador foi transferido de cidade.

A narrativa acima lembra-me de outra situação vivida em uma escola pública do Distrito Federal, na qual o Diretor reúne os professores de alunos entre 10 e 14 anos para anunciar a chegada, na semana seguinte, de um novo professor ao quadro. Perguntado sobre quem era e de onde vinha o tal professor, o Diretor disse ao grupo ali presente que aquele “vinha fugido de outra escola”, porque pais o haviam denunciado por se envolver com as alunas de lá, menores de 14 anos. Os professores olharam uns para os outros e disseram que a Escola não deveria aceitá-lo ali, ao que o Diretor respondeu: “É que esse professor foi ameaçado de morte lá e…”. O fato é que o grupo fez um abaixo assinado e pressão junto aos pais para que aquele professor não fosse transferido para a Escola. E conseguiram.

Veja que todas as histórias acima ilustram uma mesma realidade diante da qual não podemos fechar nossos olhos: a sociedade humana expõe suas crianças e adolescentes a situações de risco, tornando-os vulneráveis ao abuso. Em todas as histórias reais narradas até aqui, o elemento comum é que, por trás delas, temos instituições responsáveis por gerir aqueles ambientes. São Secretarias de Educação, FUNAI, Missões religiosas, Igrejas, Denominações e Escolas locais, por exemplo. Muitos indivíduos se sentem incapazes de reagir diante da letargia das ações dessas instituições. Elas são acionadas, mas, em muitos casos, não há a devida investigação e punição ao abusador. E, como bem sabemos, a impunidade é uma moeda de duas faces: de um lado, incentiva novos crimes, do outro, intimida as vítimas. Não há quaisquer políticas de proteção à infância oferecidas por muitas instituições no Brasil, não há orientações, ouvidorias e nem protocolos. Mesmo havendo, o resultado visto é o abafamento dos fatos, transferência dos envolvidos e responsabilização das vítimas. A conclusão a que chego é que o indivíduo tem sido, muitas vezes, sacrificado para que a honra e o bom nome da Instituição seja preservado. Logo, a primeira orientação dada é que o indivíduo é quem tem que tomar a iniciativa de criar mecanismos que o irão proteger, quando ele percebe que está em situações nas quais a instituição se mostra morosa ou incapaz de resolver o caso. E, indubitavelmente, a primeira e melhor ação é a prevenção.

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“Para uma criança abusada em um contexto missionário, o abuso se agrava pelo sentimento de traição na violação explícita de confiança que existe nessas comunidades onde as crianças são encorajadas a se dirigirem aos pais de seus colegas e amigos como “tias” e “tios”, em um gesto de respeito e proximidade”.

Adultos que Foram Sexualmente Abusados na Infância

Livros como “Sempre alerta”, de Deepack Reju, e também o “Hora do banho”, de Neide Lunas, são aliados do indivíduo, ensinando-o como criar protocolos de segurança e códigos para uma prevenção segura. Mesmo o livro de Reju, que é sobre a questão do abuso infantil dentro da Igreja, é num contexto norte-americano e de legislação diferente da brasileira. O de Lunas, após uma ótima apresentação sobre o tema, volta-se para pais e responsáveis, em geral, numa linguagem que prevê a nossa cultura majoritária. Todavia, como tratar desse tema em contextos missionários transculturais em que esbarramos na blindagem cultural? Vou citar um exemplo: o infanticídio indígena. O infanticídio indígena é uma prática realizada em algumas culturas no Brasil em que se enterram vivas as crianças que nasçam com alguma deficiência física ou mental, gêmeos e filhos de mães solteiras. Até hoje, mesmo com todas as denúncias, com tantos pais indígenas se levantando contra a prática, com toda a rede de apoio feita para que não se pratique o infanticídio, ainda assim a barreira no meio acadêmico e o silêncio das autoridades governamentais são enormes. Para oferecer a dimensão da dificuldade, nem precisamos ir tão longe, pois, se encontramos enormes obstáculos na nossa própria cultura (sequer a pedofilia possui uma legislação que a descreva como crime até hoje), como definir o que é e o que não é abuso sexual em outra cultura? Indubitavelmente, assim com acontece nas nossas discussões, as alegações de “cultura” e “consentimento” serão ainda mais fortes, quando usadas para se esconder ou não enfrentar o problema. Até o argumento do “colonialismo” será usado, uma vez que os defensores da infância serão acusados de impor seu conceito cultural de abuso sexual sobre outra cultura, em que “a nudez e os jogos sexuais entre adultos e crianças são culturais”! Se este artigo se propõe a abrir uma discussão, devemos estar cientes de que estamos entrando num ambiente espinhoso e delicado.

Há missionários que trabalham com culturas no Brasil em que, quando a esposa sai de casa, o marido abandonado tem relações sexuais com os próprios filhos como uma forma de punir a esposa que deixou o lar. “É assim na cultura”, muitos dirão. Porém, ou o pecado é um conceito e uma realidade humana, que perpassa todas as culturas, ou em nosso trabalho de evangelização e discipulado nunca poderemos confrontar as mazelas que muitas culturas abrigam em si. Numa escola missionária, muitos vieram conversar sobre os dramas de seus alunos, crianças indígenas com menos de 14 anos de idade que sofriam abuso em casa. Essas crianças eram identificadas por seus professores, mas, antes mesmo de dar queixa, esses professores sofriam com a ameaça de morte àquelas crianças denunciantes feitas pelos seus abusadores. Assim, essa barreira transcultural precisava ser quebrada de alguma maneira e uma das formas que encontrei foi de instrumentalizar os indígenas que já eram cristãos. Ao invés de abordar essas situações por meio de missionários “estrangeiros”, um cristão do próprio povo foi preparado para que ele mesmo fizesse o contato e o apoio aos seus parentes.

Dando continuidade ao programa acima, enviamos um pequeno grupo de mulheres indígenas e não indígenas para uma formação continuada em Curitiba, no Encontro da PHILLOS da AMTB. Os objetivos do curso eram claros e quero trazê-los como proposta para que nossas Agências, Missões e Igrejas se empenhem, intencionalmente, em alcançar esses mesmos objetivos para suas próprias realidades: 1) Conscientizar as organizações representadas sobre a necessidade de trabalhar em prol da prevenção do abuso de crianças e adolescentes dentro da sua organização; 2) Orientar sobre como desenvolver uma política de proteção a criança para que a organização seja um lugar seguro. O curso proporcionado pelo PHILLOS trouxe uma série de casos que, recentemente, apareceram na mídia. Um desses, o do Dr. Donn Ketcham, ocorrido em Bangladesh, na Índia, lembrou-me a série documental da Netflix, “The keepers”, pois em ambos os casos relata-se uma rede de outras pessoas que, ao longo dos anos, protegeram os abusadores com mentiras, enganos, falsa culpa e humilhação das vítimas, tratamento preferencial e encobrimento de provas. No caso do Dr. Ketcham, o abusador se valeu de sua posição médica na comunidade missionária para abusar de meninas e mulheres missionárias. No caso do documentário da Netflix, chocou-me a rede de proteção criada numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos, envolvendo desde o prefeito, políticos, polícia e o padre que organizava um esquema de prostituição das alunas de uma escola para meninas naquela cidade.

Outro caso trazido no curso da PHILLOS foi o tratado pela organização independente G.R.A.C.E. numa escola para filhos de missionários e que revela o legado de sofrimento das vítimas de abuso, que eram filhos de missionários, mas que só começaram a falar sobre o que sofreram quando eram adultos:

“Qual é o impacto que essas formas de abuso sexual, físico, emocional e espiritual causaram nas vidas dos estudantes da Fanda? O catálogo de mágoa e dor não é curto: negação, perda de memória, depressão, culpa, sentimentos de impotência, ataques de pânico, incapacidade de cantar na igreja, raiva, medo, desconfiança dos adultos, pensamentos e ações suicidas, autoagressão, distúrbios alimentares, abuso de substâncias, experimentação sexual, confusão sexual, repressão sexual, fugindo, se voltando para o oculto, comportamento criminoso, prisão e morte.”

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Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Provérbios 31:8

O que fazer para prevenir e responder ao abuso infantil no contexto transcultural? Acredito que cada Igreja local, cada Agência e Missão deve responder a essa pergunta de acordo com as realidades em que elas estão inseridas e devem refletir adequando-se às culturas com as quais seus missionários trabalham. Quando eu digo “adequando-se”, não pretendo que os abusos sejam ocultados sob a blindagem cultural, de modo algum. O que eu quero dizer é que precisamos compreender, estudar, analisar como a própria cultura trata essas questões, pois, em muitos casos, teremos que dar uma resposta contrária às práticas culturais, ensinando-os e, se for necessário, confrontando-os, como foi o caso da circuncisão feminina na África e o infanticídio indígena no Brasil. Ainda assim, é preciso que se aborde a pergunta feita em duas frentes: a da instituição e a da pessoa. Tanto Deepack Reju como o Curso da PHILLOS trouxeram orientações para as duas situações, até mesmo explicando o porquê de instituições cristãs e os próprios cristãos serem tão vulneráveis aos predadores sexuais. No caso das instituições, a triagem deficiente de obreiros voluntários, a impunidade e o isolamento e acesso ao campo são algumas das razões que tornam nossas Igrejas, Escolas e Missões um alvo para abusadores. No caso das pessoas cristãs, a falta de informação sobre o assunto e essa realidade, achar que isso nunca irá acontecer com ela ou com alguém próximo, a manipulação da fé por líderes abusivos, que usam do “não pode julgar”, do “falso arrependimento” e do “perdão” para que o caso não vá adiante são algumas das razões dos abusadores procurarem pessoas cristãs preferencialmente.

Então, mais uma vez, “o que podemos fazer a respeito?”. Lembro-me que, quando casamos, eu e minha esposa tranquilamente criamos regras simples, mas necessárias para que pudéssemos nos afastar de toda forma de mal (I Tess 5.22). Uma dessas regras era a de não dar carona para o sexo oposto. Eu era professor de Escola Pública no turno da noite e não apenas professoras, mas mesmo alunas, eram insistentes em pegar carona com professores do sexo oposto. Durante anos, vi muitos ingênuos mestres caírem na cilada da maledicência, da fofoca, pois não se afastaram de toda forma do mal. Quando minhas filhas começaram a transitar pela internet e frequentar as mídias sociais, estabelecemos regras de uso e de conduta (não aceitar amizades de desconhecidos e, ao fim do dia, mostrar o celular para que verificássemos. Estas foram apenas duas de muitas regras que impusemos a elas).

Se dentro de nossas casas há regras, por que não pode haver regras de proteção à infância dentro de nossas Igrejas, Missões e Escolas confessionais? Um professor ou capelão ter determinados toques no corpo de meninas adolescentes deveria ser algo impensável a uma escola confessional cristã. É preciso regras! É preciso protocolos gerais! Não apenas para a defesa e proteção de nossas crianças e adolescentes, mas tudo o que fizermos nessa direção estará protegendo também essas instituições de falsas denúncias. Nenhum missionário poderia ser recebido numa Missão sem que houvesse um período probatório para que ele conhecesse não apenas a visão, filosofia, histórico e protocolos da Missão, mas do público com o qual aquela Missão se envolve. Estamos em ambientes transculturais e, em muitos casos, os missionários são lançados em campos de complexidade cultural, em que há várias culturas se envolvendo umas com as outras. E esse missionário, trabalhando para aquela Missão ou Agência (e até mesmo tendo sido meramente enviado pela sua Igreja local) é visto pelo povo(s) como embaixador, representante daquela Missão. Brasileiros atuando em trabalhos missionários na Índia, na China ou na África precisam de protocolos, regras de atuação e conduta, políticas de proteção à infância, porque estarão sendo representantes dos grupos dos quais fazem parte.

Muitos autores cristãos alertam: num mundo caído como o nosso, sabemos que não conseguiremos evitar a total erradicação do abuso infantil no meio da Igreja (e do trabalho missionário transcultural). Todavia, é responsabilidade nossa que, verdadeiramente, nos importemos em reduzir os riscos de abuso infantil. Precisamos criar políticas de proteção à infância nos lugares onde estamos, precisamos prevenir e também saber como responder quando essas situações ocorrem. Como Igreja do Senhor Jesus, queremos ver nossas crianças se tornarem adultos saudáveis e apaixonados em assumir a Grande Comissão. As consequências na vida de um adulto que foi abusado na infância podem ser danosas, trágicas e mesmo levar ao suicídio. Por outro lado, o nosso Evangelho pode evitar, tratar e curar tanto as vítimas como certos tipos de abusadores.

Encerro fazendo o meu alerta: há uma guerra, mas ela é espiritual. O exército inimigo é perverso, estrategista e demoníaco. Essa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra instituições que foram dominadas por demônios dominadores deste mundo tenebroso. A linguagem deles é sutil, embora as estratégias sejam de guerrilha. A bandeira da vez não é meramente desvencilhar o homossexualismo da pedofilia, nem mais insistir apenas na legalização da pedofilia. O front de guerra apresenta algo muito mais difícil de lidarmos. E eu explicarei aqui. A luta pela proteção à infância está minada por ciladas de Satanás (Ef 6.1). Você já leu documentos oficiais e artigos em favor da proteção da criança contra abusos? A linguagem que tem sido usada é uma linguagem hegeliana, marxista, não mais de lutas de classes, nem de gêneros, mas uma luta etária de “adultos X crianças”, em que estas devem ter garantidos seus direitos e cidadania por meio, preste atenção, de uma autonomia infantil. Todos os documentos e artigos que venho lendo tratam a infância como uma construção social e, portanto, relativa. Cada sociedade, cedo ou tarde, é esta a proposta que virá, poderá estabelecer o que é a infância de acordo com sua cultura. Não apenas isso, mas a criança deve alcançar alteridade em relação ao adulto, conquistando seu protagonismo e sendo o sujeito de si mesmo, papel que lhe é garantido na sociedade por meio da democracia. Tudo isso, que deveria garantir a proteção da criança e o direito dela de ser ouvida em suas denúncias ou como testemunha de abusos, servirá também para garantir a ela o direito a própria autonomia sexual. Este é o mais novo caminho de luta que o exército inimigo já está empenhado em abrir.

Documentos e artigos de tal natureza só conseguem a exposição e legalidade, porque os cristãos verdadeiros não ocupam os espaços necessários para barrar e atuar nessa redações. Se você não ocupar o espaço, o exército inimigo ocupará e irá impor sua agenda, sua cosmovisão e espiritualidade. Este artigo é também um apelo! Eu e você precisamos estar presentes na esfera Federal, Estadual e Municipal dos Governos, temos que estar nos clubes, associações, ONG’s, reuniões de condomínios etc. A Igreja missionária, que se faz presente nas culturas mundo afora, precisa prevenir e dar uma resposta evangélica ao abuso infantil. Do contrário, a resposta deles prevalecerá.

Rev Fábio Ribas — líder da base indígena da APMT*

*Na época da publicação do ebook, em 29 de maio de 2022, eu ainda era líder da base. 

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