sexta-feira, 19 de abril de 2024

A Igreja sem parede do Evangelho Total

 

O madeiro em que Cristo foi pendurado formava-se de duas traves de madeira cruzadas uma sobre a outra e, obviamente, sem uma delas, jamais poderíamos dizer que aquilo fosse de fato uma cruz. Semelhantemente, o próprio Jesus resumiu toda a lei dos antigos em apenas duas — amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo — e não podemos dizer que há ensino completo se subtraímos qualquer um desses dois mandamentos. Quando Cristo morreu fora de Jerusalém, o véu que nos separava foi rasgado dentro do Templo, fazendo com que, finalmente, tivéssemos livre acesso ao Pai. Todavia, não apenas o véu, mas também a parede que separava judeus e gentios, parede em que havia inscritas ameaças de morte aos gentios que entrassem no Santo dos Santos, foi derrubada na Cruz de Cristo. Este é o Evangelho Total pregado por Paulo em sua carta aos efésios.

Deus havia levantado Abraão para abençoar todas as famílias da terra e não apenas as famílias israelitas. Israel recalcitrava em não compreender o ensino duplo de Deus: a nação de Israel havia sido escolhida para ser “luz para os gentios” e não somente para gozar a salvação gratuitamente oferecida na Aliança. E muitos cristãos do Novo Testamento — judeus convertidos — estavam repetindo o mesmo erro com os gentios agora trazidos ao Evangelho de Jesus. O ensino completo que Paulo expõe em sua carta é que, do mesmo modo que o véu foi rasgado para todos — judeus e não judeus — a parede da separação também fora derrubada naquela mesma cruz. Em Cristo Jesus, os que outrora eram dois povos agora foram feitos apenas um único povo. Este é o grande segredo revelado em Jesus. No Evangelho Total é que encontramos a glória de Deus, do contrário, “Missões” desintegra-se nas mãos de uma igreja claudicante. Infelizmente, a despeito da clareza desse duplo ensino, ao longo da sua história, a Igreja cristã errou muitas vezes.

A Igreja de Jesus deveria ser o lugar da comunhão dos santos, mas o que temos visto são alguns celeiros que reproduzem o discurso de ódio racial, de uma teologia sectária de gueto, de uma ojeriza ao estrangeiro, etc. Ensinos de homens e ensinos de demônios — ideologias espúrias ao Evangelho — ocupam o vácuo deixado por uma pregação que falhou em não apresentar o Evangelho Total, promovendo um sincretismo nefasto entre o puro e simples Evangelho com filosofias mundanas.

Os cristãos terminam por absorver o discurso de segregação promovido pelo Estado e, por isso, a resistência dentro de nossas igrejas ao trabalho missionário torna-se ainda maior, pois, onde o Evangelho Total deveria trazer reconciliação, a interferência impositiva do Estado promove a divisão. A Igreja de Jesus não pode cair na armadilha de não alcançar os povos indígenas do Brasil, “porque eles já são muito protegidos pela FUNAI”; “porque o índio é uma minoria privilegiada sob a tutela do Estado”; “porque é muita terra para pouco índio”; “porque eles cobram pedágio aos que passam de carro em suas terras”; “porque eles vendem nossas riquezas aos estrangeiros”, “porque índio é igual criança: já está salvo”, etc.

Estes são alguns dos argumentos, muitos desses fabricados levianamente, que tenho ouvido dentro das próprias igrejas cristãs e que impedem estas de obedecerem ao trabalho missionário entre os indígenas. Não é de surpreender que muito mais se faça pelos povos fora do Brasil do que o que tem sido feito no quintal de nossa própria casa. Entretanto, quero que você saiba: são 258 povos indígenas no Brasil e 195 línguas diferentes faladas por eles no nosso território e, envergonhemo-nos, 120 desses povos ainda não conhecem o Senhor Jesus! Dos 258 povos indígenas no Brasil, apenas 40 possuem o Novo Testamento em suas línguas e outros 5 possuem o Velho Testamento.

Além disso, enquanto nos últimos 13 anos o número de missionários transculturais trabalhando no exterior quintuplicou, passando de 400 para 2.000, houve um crescimento insignificante de brasileiros trabalhando com missões indígenas: em 13 anos, o número foi de 400 para apenas 600 missionários!

A parede que nos separava uns dos outros já foi derrubada, mas muitos líderes da Igreja Evangélica Brasileira desconhecem a realidade da existência de uma Igreja Indígena no Brasil. Uma igreja que precisa ser apoiada, discipulada, amada e receber o nosso investimento espiritual e financeiro. Se a Igreja Brasileira não abraçar e compreender a questão indígena, outros o farão. E, assim, condenaremos muitos desses povos a continuarem manipulados tanto pelo Estado como por outros grupos que, não apenas se alimentam das trevas em que esses povos se encontram, mas querem mantê-los nessas trevas para sempre.

Jesus é tudo para todos e nossas Igrejas precisam resplandecer essa verdade, esse ensino total. É na pregação do Evangelho Total que a paz deve ser instaurada em relação ao estrangeiro, ao gentio, ao outro. O Evangelho Total deve integrar a reconciliação de Deus com os homens e a comunhão entre todos os que têm vindo dos mais diferentes povos da terra, “pois foi Cristo quem nos trouxe a paz, tornando judeus e não judeus um só povo. Por meio do sacrifício do seu corpo, ele derrubou o muro da inimizade que separava judeus dos não judeus” (Ef 2.14).

                            Fábio Ribas

Originalmente, publicado em 01/03/2015

quinta-feira, 18 de abril de 2024

O sagrado nosso de cada dia — um estudo de caso (2ª parte)


O que o cristão deve saber (ainda que seja uma verdade bíblica, mas esquecida ou mal compreendida) é que tudo é religiosidade, tudo é espiritual (Ef 6).

Esta é a premissa da qual todo cristão deveria partir: o que subjaz às decisões econômicas, políticas, educacionais ou de qualquer outra esfera são ideias espirituais, religiosas.

A Igreja de Jesus é a única que detém, de fato, a possibilidade de traduzir e interpretar com exatidão muito maior a linguagem do sagrado. Quando a Igreja não consegue se compadecer e se ofender pela profanação ao “sagrado do outro”, ela perde uma oportunidade ímpar que o próprio Apóstolo Paulo jamais se deu ao luxo de perder.

Paulo se ofendeu terrivelmente com a idolatria, mas o que aquelas imagens e aqueles deuses tinham a ver com o cristianismo de Paulo a ponto do texto usar a palavra paroxunō, que significa revolta (At 17.16)?

Paulo sabia que ali estava ocorrendo uma corrupção, uma profanação diante do sagrado que se manifestara aos Atenienses. E embora “acidamente ofendido” pelo que estava vendo, Paulo não perde aquela geração, mas consegue identificar um ponto de contato com eles: “…em tudo vos vejo acentuadamente religiosos” (At 17.22)!

Cabe aqui um parêntese. Embora o termo grego para “religiosos” (deisidaimonesteros) também possua uma conotação para nós negativa de “supersticiosos”, e assim foi traduzido na versão ARC, entretanto, respeitando o contexto do discurso paulino aos atenienses, acertadamente, as versões ARA, NTLH e NVI traduziram o termo para o seu outro significado: a ideia correta de “mais religiosos do que outros”.

Terminada a digressão, um novo ponto importante dessa passagem de At 17 para a Igreja Missionária que quer se comunicar com este “novo mundo” é a postura de Paulo de “olhar cuidadosamente (theōreō) os objetos de culto dos atenienses”.

Isto nada mais é do que o que citei no último artigo sobre a missiologia que “volta atrás”, vai ao ponto da essência do que é sagrado para o outro, querendo, verdadeiramente, compreender as ideias que subjazem o que se manifesta diante dos nossos olhos (leia: “A obra de arte como acesso ao mundo do artista e ao artista-no-mundo (ou “Por que devemos comer com os pecadores?”)”).

Ironicamente, o espírito que dá forma às ideias que sustentam, por exemplo, um movimento como a Parada Gay do dia 07 de junho de 2015 em São Paulo é o mesmo enfrentado por Paulo em Atos 17: os epicureus ensinavam que o objetivo principal do ser humano era viver de maneira prazerosa e sem dores ou medos, e os estoicos ensinavam que deveríamos viver em harmonia com a natureza e pregavam um deus panteísta, que era a alma do mundo.

A missiologia de Paulo previa um profundo conhecimento acerca do “sagrado para o outro” a ponto dele citar poetas pagãos na explanação a pessoas que desconheciam o Deus do Antigo Testamento!

A verdade é que o sagrado sempre estará presente, com imagens ou sem imagens, com cruz ou sem cruz, como bem demonstra a ilustração deste post. Fifty é uma obra de escultura de Filipe Cortez que, a partir da temática da crucificação, pretende denunciar os 50 países em que há pena de morte.

Ainda que não haja uma cruz material, visível, a nossa cultura está impregnada de cristianismo e é a esse cristianismo, bem ou mal compreendido, ou já amalgamado a um sincretismo pós-moderno, mas é a essa cultura judaico-cristã que o espírito de nosso tempo reage.

Como Paulo, devemos compreender os porquês do sagrado incomodar; da cruz ofender e ser usada também para ofender; da mensagem da cruz ser esvaziada de seu sentido e redefinida para o uso deste “novo tempo”. Enfim, precisamos compreender que “tudo é religião”, pois tudo é espiritual.

Precisamos acertar o alvo de nossa comunicação missionária e termos, diante de Deus, a consciência tranquila de que o Evangelho foi rejeitado pelo que ele significa e não por uma falha em nosso esforço missionário de compreender a agonia do sagrado do mundo.

                                    Fábio Ribas

Publicado originalmente 25/10/2015

                            

quarta-feira, 17 de abril de 2024

O sagrado nosso de cada dia — um estudo de caso (1ª parte)

 


Nas últimas semanas, duas notícias chamaram a minha atenção. A 1ª foi com respeito ao auê das discussões sobre a Parada Gay. Contudo, não foi a Parada Gay em si o que me chamou a atenção, mas ver tantas pessoas de religiões diferentes e até mesmo ateus ofendendo-se com o desrespeito a elementos associados à cultura cristã.

A 2ª notícia foi o aval de D. Odilo Scherer para que uma escola de samba faça homenagem na avenida à Nossa Senhora Aparecida. Aparentemente, eu não tenho nada com isso, porque não sou católico. Todavia, surpreendeu-me ver no facebook evangélicos ofendidos com a atitude do líder católico, Arcebispo de São Paulo.

Esses dois fatos fizeram-me recordar também aquele grupinho de rock na Ufac queimando uma Bíblia no palco. Quem não se recorda também da proposta de retirada do “Deus seja louvado” das notas de dinheiro e a mudança dos nomes das cidades que fazem referência ao Cristianismo?

O que há em comum a todas essas notícias é que muitos dos que se colocaram como ofendidos diante dessas ações não eram, necessariamente, adeptos de grupos religiosos e nem pertencentes ao grupo atacado, manifestando, portanto, estarem ofendidos pela profanação daquilo que é sagrado para o outro. Por quê?

Muitas explicações podem ser dadas, mas a que mais me interessa aqui, por enquanto, e que não é consciente para a maioria das pessoas que se ofendem “pelo sagrado do outro”, é que o Sagrado é uma experiência universal.

Somos seres sedentos de Sagrado, porque fomos criados por Deus e, ainda que não aceitemos, a nossa vida diária é uma busca incessante pelo Sagrado, mesmo que essa busca não se reflita, necessariamente, numa busca pelo Deus verdadeiro (Rm 3.11b). Cientes desse anseio humano, a Ciência moderna, o Estado, ou mesmo a Filosofia e as Artes tentam apropriar-se do espaço do Sagrado.

Mas o que é o Sagrado e que força é essa que, mesmo numa sociedade secularizada, ainda é capaz de ofender tanta gente? O Sagrado é o que subjaz a toda experiência religiosa. E “se a religião gerou tudo o que existe de essencial na sociedade, é porque a ideia da sociedade é a alma da religião. As forças religiosas são, portanto, forças humanas, forças morais” (Durkheim).

Não há dúvida da importância do Sagrado à humanidade. O que eu aprendo com tudo isso? Que o Sagrado, para determinados segmentos cristãos, manifesta-se também por meio de uma cruz — um instrumento de morte que, ironicamente, foi “profanado” pelo próprio Sagrado a ponto de se transmutar em símbolo de vida.

Uma cruz que, conforme denuncia Salvador Dali no quadro “A crucificação” e que ilustra este texto, está parada, flutuando, desconectada da realidade de muitos que ainda olham para ela, mas que não a veem.

Eles intuem a cruz, mas o que muitos cristãos temos oferecido ao nosso tempo, como denuncia o quadro, é apenas uma sombra sobre a terra: é preciso, portanto, uma missiologia que “volte atrás”.

Para muito além de ofensores e ofendidos, há uma mensagem que resiste poderosamente e que, mais do que nunca, revelou-se ser escândalo e loucura (I Cor 1.23).

E é isso o que precisamos entender de maneira correta, pois, do contrário, enclausurados nas torres de marfim de nossas teologias exatas, perderemos esta geração para aqueles velhos inimigos de sempre: o paganismo, a idolatria, o nominalismo, o materialismo e o sincretismo.

A minha tese é que eventos como os que ocorreram e decorreram da Parada Gay em São Paulo, no dia 7 de junho de 2015 são oportunidades preciosas para acessarmos esse “novo mundo” ao qual a Igreja é direcionada pelo Espírito Santo a pregar.

Então é preciso que nos esforcemos, como Igreja Missionária, a um trabalho mais profundo de conhecimento desse espírito do nosso tempo — o Zeitgeist, como se aprende em teologia. E este será o assunto dos nossos próximos textos.

            Fábio Ribas

Publicado em 24/10/2015

terça-feira, 16 de abril de 2024

Spock e as justificativas de nossos crimes culturais — uma reflexão para tempos de corona vírus


Photo by Nick Bolton on Unsplash

Trabalho com culturas que praticam o infanticídio — o assassinato de crianças logo após seu nascimento.

As justificativas são as mais variadas para tal prática: 1) o medo dos espíritos (pois, quando gêmeos, crê-se que um deles pode ser um espírito maligno, e por não saberem qual, então, enterram vivos os dois); 2) o peso do machismo que irá fazer da mãe solteira, que insistir em preservar sua criança, uma “mulher de todo mundo” naquela sociedade; 3) evitar também o estigma daquela criança sem pai de ser um pária na tribo e ser tratado como um pulha por todos ao seu redor; 4) livrar-se do estorvo de criar uma criança com deficiência física ou mental, etc.

O mais surpreendente, porém, é que as justificativas apresentadas no parágrafo acima são quase as mesmas para aqueles que justificam o aborto na nossa sociedade dita “civilizada”.

Ontem, junto com minhas filhas, assisti a um antigo episódio da família Dinossauro em que se comemorava “o dia do lançamento” — um ritual no qual os idosos eram lançados no poço de piche ao completarem 72 anos de idade. A justificativa daquela prática, que já durava milhares de anos, era que os idosos atrasavam a manada quando essa precisava fugir dos seus predadores.

Contudo, o jovem neto, cuja avó iria ser arremessada, questionou essa prática: “Mas hoje somos urbanos! Não vivemos mais na mata, fugindo e se escondendo de predadores… Então, porque ainda temos que matar nossos idosos?”!

Surpreendi-me novamente pois algumas culturas indígenas também abandonam seus idosos, ou na mata ou dentro de uma casa sozinho, sem comida e sem água até que, obviamente, morram. Qual a justificativa? Antigamente, estes povos indígenas eram nômades e seus idosos eram um peso para eles, contudo, hoje, além desses povos já serem sedentários, há a presença de um profissional da saúde muito próximo, senão, até mesmo dentro da própria aldeia.

O Governo tenta esconder, mas nós também abandonamos nossos idosos (e eu não estou referindo-me aos asilos). Nossos hospitais públicos, as políticas mercenárias dos planos de saúde e a escandalosa realidade do SUS demonstram que há uma cultura de eliminação do idoso acobertada pelo Estado. O idoso em nossa sociedade também é um estorvo, ele custa aos cofres públicos uma grande quantia de dinheiro e o Brasil precisa eliminar suas despesas desnecessárias.

O Brasil está envelhecendo e daqui 40 anos 30% da população será composta de idosos. E esses idosos, que serão “aposentados improdutivos”, estarão também vivendo mais — e o Estado sabe disso. Aqui, os “teóricos da conspiração” nos colocam a questão de uma pandemia planejada, controlada e arquitetada para um controle populacional, uma reengenharia social.

Ou você ainda acha que o interesse estatal em temas como aborto, eutanásia e a negação do caos da falta de infraestrutura da saúde pública se devem simplesmente à incompetência e corrupção? Ledo engano, meu caro cidadão. Um dia vão jogar você e a mim no poço de piche como já o fazem com tantos milhares de idosos Brasil afora.

Aborto, eutanásia, limpezas étnicas, etárias e socioculturais continuam a fazer parte do plano de governo de vários países e, muitas vezes, tudo está sendo incentivado por politicas públicas que colocam o valor coletivo, “cultural”, acima do indivíduo.

Aqui chegamos à questão ética que envolve nossa sociedade Star Trek. Afinal, “a necessidade de muitos sobrepõe a de poucos ou mesmo de um só” (posição defendida pelo personagem Spock — que se sacrifica pelo bem de todos) ou “a necessidade de um, às vezes, supera a necessidade de muitos” (posição defendida pelo personagem do capitão Kirk — que sacrifica a tudo e a todos para salvar Spock)*?

A primeira posição apresenta-se mais como uma lei geral e é dita pela boca de um personagem alienígena preso à lógica de seu universo. A segunda apresenta-se como a humanização daquela lógica extraterrestre, quando intuímos pela experiência da vida diária que nada é, tão claramente e só, “preto ou branco”, nada pode ser reduzido a um simplismo dualista. “Às vezes” é uma expressão que também faz parte do discurso conservador.

Em outras palavras, não somos apenas a lógica cartesiana, mas nossos sentimentos — tanto os inatos quanto aqueles que a vida ensina a cada um — auxiliam nossa razão a escolher o melhor caminho que, naquele momento, precisamos trilhar. E Spock aprendeu esta lição tão humana.

Depois destes anos todos trabalhando com o outro, aprendi a trazê-lo para perto de mim e desfiz esse mito da antropologia do observador distante e o troquei por uma “antropologia do muito próximo” e passei a tratá-lo como “tu”. O “outro” é uma criação da ciência social cientificista que influenciou a sociologia, a antropologia e a até mesmo a religião. Não é à toa que muitos teólogos do século XX se acostumaram a tratar Deus como “O Outro”, “O totalmente Outro” (Karl Barth). Todavia, o outro ou o Outro são entidades, criações, caricaturas para livros, para teses, mestrados e doutorados de pessoas que são lógicas demais. E a lógica, desculpe-me Descartes, não abarca tudo e, principalmente, não vê aquilo que é essencial (Saint-Exupéry).

Portanto, a vida vai ensinando-nos a tratar o outro por tu e, caminhando juntos um pouco mais, vemos que o tu será um você, um amigo, um irmão, dependendo do nosso esforço e interesse para que isso ocorra de fato. Assim como aprendi também a chamar “o totalmente Outro” de Aba Pai, paizinho — porque essa é que deve ser a caminhada espiritual de cada um de nós.

    *Estou tendo em mente os antigos episódios II, III e o Star Trek — Além da escuridão, nos quais encontramos essas frases.

    Link para o episódio da “Família dinossauro”: https://www.dailymotion.com/video/x26i2pf

            Link para a morte de Spock: https://www.youtube.com/watch?v=hJHcIUbiKfo

        Fábio Ribas

Eu e minha mãe fomos adotados


O texto abaixo foi publicado em 13 de março de 2023

Hoje pela manhã, a Lu foi buscar-me na casa de mamãe e, enquanto eu me arrumava para ir embora, mamãe disse para ela: “Ontem, fizemos um culto juntos”! Depois, a Lu contou-me isso dizendo que ela viu que foi muito importante para mamãe esse momento que eu e ela tivemos. Contei em detalhes, então, para a Lu o que agora também compartilho aqui com vocês.

“Mãe, hoje é o Dia do Senhor, vamos fazer um Culto juntos?”, ao que ela respondeu que sim. Abri a Bíblia no meu celular e, para minha surpresa, na minha leitura diária dos salmos, a leitura do dia era o Salmo 71, cujo título inesperado era “Súplicas de um ancião”. Li todo salmo e, depois, verso a verso, fui comentando e pregando.

Sempre que estamos juntos, surgem oportunidades de pregar o evangelho para mamãe, mas nunca tive um momento em que pudesse pregar sobre a salvação em Jesus de forma tão clara e direta como ontem. O que havia de diferente? Eu pude mostrar e aplicar ao coração dela a mensagem que eu estava lendo no Salmo: falei das feridas e das injustiças que as pessoas fazem contra nós; disse que deveríamos entregar essas pessoas à justiça de Deus; fiz paralelos com a vida de Jesus, mostrando que Ele cumprira a justiça de Deus e que os homens jamais poderão fazer algo parecido; por fim, disse que Jesus morreu na cruz por causa dos nossos pecados e que era idolatria se confiássemos em qualquer outra proposta de salvação e santificação.

“Mãe, Jesus é suficiente! A senhora acredita nisso que eu estou dizendo?”, perguntei. “Sim, acredito”! “Mãe, o ancião deste salmo é a senhora. Ele foi ferido e magoado por pessoas em quem ele confiava, mas ele reconhece que Deus cuidava dele desde o ventre da sua mãe. Ele sabe que os pecados dele o separam de Deus e, então, arrependido, ele confia na justiça de Deus e não na justiça dos homens. Você acredita que Jesus é a sua justiça, mãe, e que nEle eu e você somos adotados pelo Pai?”. Minha mãe foi respondendo afirmativamente a todas as perguntas que eu fazia. No fim, oramos. E oramos a Jesus somente!

À noite, depois do jantar, eu e minha mãe fizemos mais uma devocional à mesa. Era sobre Barrabás e, mais uma vez, pude explicar para minha mãe que Jesus trocou de lugar conosco, do mesmo modo que o fez com Barrabás. “Mãe, você conversa com Deus?”, perguntei. Ela me disse que toda noite, antes de dormir, ela coloca todos nós diante de Deus pedindo que Ele cuide da gente. “Mãe, a partir de hoje, você também irá fazer igual o salmista, a senhora vai agradecer a Deus pela sua salvação e santificação em Jesus, amém?”. E ela respondeu: “Amém”!

Disse à minha mãe que ela precisava ler/ouvir a Palavra de Deus todos os dias, porque a fé cresce e se fortalece por meio da Palavra.

Mas eu sei que até nisso ela precisa de ajuda, por causa da audição precária… Há muitos anos que mamãe não gosta de sair de cadeira de rodas para a rua. Acho que ela tem vergonha… “Mãe, sair um pouco de dentro deste apartamento, ficar lá fora, tomar um sol e respirar ar fresco, posso vir te pegar?”. E ela concordou! Assim, combinei que três vezes por semana irei pegá-la para descermos na cadeira de rodas dela e, debaixo do prédio, a gente continuaria essas devocionais sobre a cruz de Cristo. Ainda conversei sobre muitas coisas com mamãe, coisas sobre a fé em Cristo.

Orem por minha mãe! A salvação pertence ao Senhor, diz a Bíblia. Contando tudo isso que compartilhei com vocês às minhas filhas, Ana Lissa me disse: “Tenho fé que encontrarei vovó no Céu”!🥰

PS — Hoje, relendo esse texto escrito há quase um ano, vi que nunca consegui “essas descidas de cadeira de rodas com ela”, mas nunca deixei de estar com ela sempre conversando sobre Jesus, a Bíblia e o amor e o perdão que só são possíveis em Cristo Jesus”! Obrigado, Jesus, pela minha mãe.

Mamãe faleceu dia 08 de março de 2024!

                Fábio Ribas

sábado, 13 de abril de 2024

No Reino de Zindorff (XII/2024)

 


Embora esteja lendo muitos livros prazerosos, todos são muito técnicos. Certamente, isso levou-me a ter sede de uma leitura mais literária. Neste momento, recordei-me do livro “No Reino de Zindorff”. Devo ter lido há uns três ou quatro anos, convidado pela autora para prefaciar seu livro. Livros, bons livros, revelam-se melhores e mais instigantes quando lidos de novo. E foi exatamente isso o que ocorreu com o livro de Elizabeth Rodrigues.

Relendo com sede de boa literatura, vejo que, logo na sua apresentação, a autora nos comunica qual a função da boa ficção: "Quem sabe essa literatura o fará refletir sobre algum episódio da sua vida real? Garanto que, assim, voltará à realidade após cada capitulo, porque "No Reino de Zindorff" enfrentam-se conflitos e situações semelhantes aos nossos, simples mortais, e talvez possamos aprender como alguns reagiram diante de cada demanda". Releio este livro num momento bem diferente da minha vida daquele quando o li pela primeira vez. Encantando-me, agora, mais ainda com sua qualidade editorial e também com a escrita elegante da autora, mas também com as belas ilustrações de Joaquim Ivanil, seu esposo. Estamos no Reino de Zindorff.

Por tudo isso, é uma delícia estar novamente no Reino de Zindorff. Melhor ainda é caminhar com mais calma pelas belas frases da autora e pelo Reino de reis e rainhas cristãos. Acompanhando a trajetória do Rei Rui, vemos como um Rei cristão enfrenta suas enormes batalhas, superando as dificuldades e, sendo renovado espiritualmente, não abre mão de trazer uma nova era ao Reino de Zindorff. Contudo, em meio a tantas bênçãos de reavivamento, em que até missionários do Reino são enviado a outros campos, há uma semente de discórdia sendo semeada nas terras de Zindorff. Heresias estão sendo transmitidas às crianças. Um soberano preocupado, antes de tudo, com a vida espiritual de seus súditos é um tempo que passou para nós, mas que ansiamos que retorne, um dia, na sua plenitude na instauração do Reino perfeito e eterno de Jesus Cristo.

Gente, que livro gostoso! Que delícia de capítulos! Muito envolventes os capítulos que descrevem a vinda da médica Hannah Betsy. Impossível não se apaixonar e torcer para que tudo dê certo! Helene se prepara para a liderança do Reino; Thyfany estuda em Londres; Mirna enfrenta as agruras de sua adolescência. Porém, a autora conseguiu deixar-me frustrado em meus sentimentos e expectativas com o sumiço de Hannah Betsy. Aonde ela anda? Como que Elizabeth consegue nos carregar pela sua narrativa e nos oferecer tantos sentimentos com seus personagens? Parabéns! Ela nos encanta com o fluxo de sua história!

Um livro que merece ser lido pelas nossas jovens e por nossos jovens cristãos que, infelizmente, têm recebido como ofertas literárias tantas obras carregadas de valores iníquos, imoralidades e anticristianismo. A fantasia de Elizabeth Rodrigues cumpre o seu papel como literatura de ótima qualidade. Zindorff torna-se um Reino cristão abençoado, enquanto abençoa outros ao seu redor; um Rei zeloso de sua conduta espiritual, mesmo quando enfrenta tragédias em sua vida; e o retorno do amor cortês, do príncipe esperado, o salvador aguardado e que não teme pela própria morte ao defender sua amada. O bem triunfa sobre o mal.

        Fábio Ribas

terça-feira, 9 de abril de 2024

A mitologia grega (XI/2024)

O mito, portanto, vai dizer Aristóteles na Poética, é “o princípio e como que a alma da tragédia”. “Mythos” é usado pelo filósofo em dois sentidos: 1) a narrativa, a história, o enredo bem engendrado, conectado, construído; e 2) no sentido da coleção de histórias, lendas e folclores deixados pela tradição e trabalhados artisticamente pelo poeta como fonte das tragédias e epopeias.  Assim, nada mais fascinante do que lermos o livro do historiador Pierre Grimal amarrando as narrativas da mitologia, apresentando-as conectadas e desenvolvidas numa ordem para o prazer da nossa leitura e compreensão desses mitos.

  E uma das tantas qualidades desse pequeno livro é o de demarcar a diferença e semelhança, o fluxo e o refluxo dessa linguagem: o mytho e o logos. Nessa delimitação, cresce, diante dos nossos olhos, a beleza do Cristianismo, enquanto logos, e a beleza das narrativas gregas, enquanto mytho. “O mito se opõe ao logos como a fantasia à razão, como a palavra que narra à palavra que demonstra. Logos e mythos são as duas metades da linguagem, duas funções igualmente fundamentais da vida do espírito”, diz Grimal.

   Assim, no ambiente do mito, este é atraído por aquela parcela do irracional (ou atrai a ela) e é aparentado de toda arte, em todas as suas criações. Daí, para Aristóteles, o poeta (e todo artista) ser um imitador e um imitador das ações e daí a tragédia erguer-se como aquele veículo da mimese por excelência, em que o poeta ensinará ao público as virtudes reveladas pelo seu trabalho artístico com o mito. E teremos prazer em aprender com os poetas, porque aprender dá prazer, mas aprender com poetas melhores as virtudes que eles nos ensinam em sua arte é prazer maior ainda.

     Após traçar um encadeamento dos mitos gregos, na parte final de seu livro, Grimal irá questionar a maneira que durante a história tentaram se aproximar dessa mitologia. Desde uma abordagem “desmitológica” nos séculos XVIII e XIX, em que se retira todo o maravilhoso para tentar encontrar apenas o que de fato ocorreu, até um agrupamento por meio de um “método comparativo”, pelo qual se tenta agrupar mitos do mundo todo a partir de seus temas comuns. Mesmo nas perspectivas mais recentes em que se sociologiza ou se psicologiza os mitos, até nisso Grimal vê uma abordagem incompleta, infeliz e que retira dos mitos aquilo que eles têm de mais específico.

      A conclusão particular a que chego após um encontro tão prazeroso com o livro de Grimal é que os mitos, enfim, mais do que suportes para esquemas de uma sociologia ou psicologia coletivas, revelam-se receptáculos de nossas próprias e inefáveis experiências individuais. Este é o segredo e a chave do mito.  

A mitologia Grega – resenha

     “O mito não se limita a seus termos. Esboça uma imagem, um símbolo, se se quiser, de uma realidade que, de outro modo, seria inefável”, diz Grimal. Portanto, o mito como símbolo é o que interessa ao nosso estudo em nossa bibliotheca.

      Cabe aqui lembrar, porém, a origem da palavra “aristocracia”, que vem de aristoi, que são aqueles que possuem a areté, que é a virtude.  Mas o que era a virtude para Homero já é diferente do que entende Aristóteles. Na Poética, Aristóteles ensina que o poeta é um imitador e que a tragédia (e a epopeia) são imitações das ações e estas nos revelariam o caráter do herói, suas virtudes. O problema é que “virtude” (areté) para Homero é a característica de um alto ideal cavalheiresco aliado a uma conduta cortesã e ao heroísmo guerreiro. Não é de se espantar, então, que Alexandre e César oferecerão libações no túmulo de Aquiles, pois este é uma fonte de inspiração. Grimal chama a atenção de que é somente na era dos filósofos sofistas que a noção de virtude irá ser questionada, uma vez que, em Homero, Ulisses, por exemplo, não tem questionados as suas mentiras e falhas de caráter. Já em Aristóteles, “os heróis lendários são submetidos a uma crítica moral” (e espiritual). Os mitos, diz Grimal, irão se tornar uma imensa reserva de exemplos de virtudes e vícios, que deverão ser escolhidos por cada um de nós.

    “O mito – em sua forma de relatos épicos – torna-se o instrumento da educação moral. Nas escolas da Grécia clássica, as crianças – desde a mais tenra idade – aprendem de cor os poemas homéricos, e o professor extrai dos mesmos máximas e preceitos de conduta. Para muitas gerações, Homero foi o educador por excelência”, recorda-nos Grimal.

        E a aristocracia é aquele grupo de pessoas ligadas aos antigos heróis, que guardam as suas virtudes e com elas se identificam geneticamente, assim, os mitos também tem essa característica de colorir a história e servir “como título de nobreza para cidades e famílias” (para ver melhor a imagem abaixo, basta clicar sobre ela e expandi-la).


         Para facilitar a apresentação dos mitos, Grimal os organiza a partir de “ciclos”: 1) os mitos teogônicos; 2) os mitos olimpianos; e 3) os mitos heroicos. Para a grande gênese dos deuses apresentada por Grimal, ler aqui. Nos mitos teogônicos, podemos acompanhar o início de tudo e o surgimento do deus caçula, Zeus, que irá ser o responsável pela disputa de poder até que ele possa se assentar no trono dos deuses e dar início ao ciclo dos deuses olimpianos. No último ciclo, o dos heróis, somos apresentados a seis ciclos: a expedição dos argonautas, o ciclo tebano, o ciclo dos átridas, o de Hércules, o de Teseu e, finalmente, as aventuras de Ulisses.

        Poderemos descobrir a origem da palavra “areópago”; a maldição contra a relação homossexual que deu origem a tragédia de Édipo; o papel das mulheres que traíram seus próprios pais e seus países por amores que não foram correspondidos, entre muitas outras narrativas que ainda marcam nossa imaginação. Na verdade, após a leitura tanto da “Poética” de Aristóteles como a “mitologia grega” de Grimal, é impossível resistir ao desejo de reencontrarmos todas essas histórias e as relermos com fascínio redobrado por tudo o que, na verdade, elas simbolizam para cada um de nós. 

                                Fábio Ribas  

 

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