sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Cidade de Deus - Livro II (IV/2025)

    (II, I): "As pessoas não querem aprender. Elas não querem se dobrar diante da evidência. A mente, a razão, não quer se submeter. Precisamos desdobrar e estender os argumentos, porque a razão humana, fraca e frágil, resiste à luz da verdade e não quer ser transformada pela fé e pelo amor". Que coisa mais atual, não? 

    Agostinho recorda o que tratou no Livro I: 1) que não se deve culpar os cristãos pela calamidade sofrida em Roma, achando que os males sofridos foi por esses proibirem os cultos aos demônios; 2) deve-se reconhecer a misericórdia que houve por parte dos bárbaros invasores àqueles que usaram o nome de Cristo para serem poupados dos direitos da guerra que esses invasores tinham (roubar, matar, estuprar); 3) por que veio sobre cristãos e pagãos os mesmos infortúnios? 4) finalmente, Agostinho consola as mulheres dizendo que elas foram "feridas no seu pudor e não na sua castidade". 

    Agostinho agora passará a lembrar que a decadência da beleza moral de Roma já havia começado, independente da existência dos cristãos (II,II). (II, III) Agostinho apela para o tempo antes da encarnação de Cristo, para mostrar que males sempre vieram sobre toda a Roma. (II, IV) A tese aqui de Agostinho é mostrar que os deuses romanos nunca se importaram com a imoralidade de seus fiéis. "Alguma vez, houve da parte dos deuses incentivo à virtude em vez de festins de vícios?" (II, V). Havia uma festa celebrada à mãe dos deuses, uma festa de obscenidade tal que Agostinho questiona se aquelas músicas cantadas a essa mãe dos deuses seriam cantadas às mães desses cantores quando chegassem em casa. Ou se os heróis virtuosos de Roma, como um senador que Agostinho cita, gostaria que sua mãe fosse elevada ao status de deusa e recebesse adoração obscena como aquela. Ouvindo este argumento de Agostinho, fica fácil ver como houve também desvios no cristianismo: os cristãos substituíram a sede de adoração pagã, que os levava à orgia, pela adoração de "heróis virtuosos" como Maria, mãe de Jesus, que saciaria essa sede de intercessão, levando seus devotos à virtude... Isto é uma contextualização (uma contextualização equivocada). 

    (II, VI) Agostinho mostra que os deuses nunca refrearam a imoralidade dos romanos. (II, VII) A filosofia grega é superior à mitologia romana. (II, VIII) Até os poetas, que encenam nos teatros suas histórias, conseguem velar as obscenidades, por que seus deuses não? (II, IX) "Nossas leis das Doze Tábuas, ao contrário, tão avaras da pena capital, decretaram-na para todo cidadão que manchasse a honra alheia por meio de poesias ou representações ultrajantes. E, com efeito, ao julgamento, à censura legítima dos magistrados, não ao capricho dos poetas, que nossa vida deve ser submetida; devemos estar ao abrigo da injúria, se não nos é permitido responder e defender-nos em juízo" - há limites aos próprios poetas, por que os deuses são tão licenciosos? (II, X) O fato dos deuses não reagirem às mentiras criadas pelos poetas no teatro sobre eles é que, na verdade, esses deuses são demônios. Os demônios é que não se importam com o que se digam deles. (II, XI) "Com efeito, por que honrar os sacerdotes que tornam os deuses propícios, graças ao sangue das vítimas, e apontar como infames os atores, instrumentos dos prazeres cênicos reclamados pelos deuses como honra cuja omissão, segundo suas próprias ameaças, provocaria a cólera celeste?", defende Agostinho."

    Os romanos proibiram em obras como A República, de Cipião, que os poetas difamassem os homens, mas eram liberais com o maldizer aos deuses. Enfim, os deuses eram baixos e rebaixados. Mas qual o objetivo de Agostinho com esse argumento? Por que estariam os deuses romanos preocupados com o Cristianismo (amaldiçoando Roma, por causa dos cristãos) se os próprios romanos em suas poesias e teatro sempre zombaram deles? (II, XII); Agora Agostinho foi genial desnudando a hipocrisia dos romanos: os deuses haviam fornecido as artes para que, por meio delas, eles fossem adorados, por isso, os gregos honravam os atores, pois eles eram os sacerdotes desse culto exigido pelos deuses; os romanos, que censuravam toda arte que difamava os homens, incentivavam o escárnio aos deuses por meio delas e, estranhamente, consideravam os atores homens indignos não só de pertencerem ao Senado, mas à própria tribo; ao que Agostinho expõe a diferença entre os gregos e os romanos, pois não deveriam todos estranhar que os próprios deuses fornecessem o culto de seu escárnio? Diz Agostinho: "Os gregos erigem em princípio: Se se deve culto a tais deuses, devem-se honras a tais homens. Mas é impossível honrar semelhantes homens, objetam os romanos. E os cristãos concluem: Logo, é impossível adorar deuses assim" (II, XIII). 

    A razão nunca antes dita a mim (será que algum dos meu professores, de fato, leu "Cidade de Deus"?) do porquê Platão condena para fora da cidade ideal os poetas está aqui. Os poetas aqui são os autores desses teatros que louvam as obscenidades dos deuses, mas como bem entendeu Platão, poderiam os poetas com essas histórias sobre os deuses educar a juventude? Os poetas só proclamam seus vícios, porque é assim que os deuses querem ser cultuados (II, XIV, 1); portanto, Agostinho diz que se deve preferir Platão a todos esses cultuadores de demônios, os poetas (II, XIV, 2); para mim, mais uma vez, está claro o mecanismo mental que será usado para abrir no cristianismo a possibilidade da veneração dos santos (II, XV); os romanos não receberam de seus deuses leis para viver melhor, que deuses são esses que abandonam seus adoradores? (II, XVI); os deuses não teriam dado leis por serem os romanos já obedientes a elas na mente e no coração? Agostinho mostra que a história revela uma Roma que cresce de erro em erro.

    "Você, contudo, vê, segundo penso, e quem quer que repare nisso perceberá com bastante clareza em que lodaçal de péssimos costumes Roma se atolou antes do advento de nosso Rei celeste" - este é o argumento que Agostinho vem desenvolvendo diante dos Romanos que queriam acusar que suas desgraças só vieram sobre eles por causa do cristianismo (II, XVIII, 3); o cristianismo foi um freio na devassidão e na vida dissoluta dos romanos, que, colocando fim ao culto de falsos deuses, arrancou-os de uma adoração depravada (II, XIX); Agostinho mostrará que a opção dos inimigos do cristianismo é um estilo de vida corrupto, licencioso e depravado que só irá destruir cada vez mais à Roma (II, XX);  até seus filósofos e políticos falaram da decadência romana, antes do cristianismo chegar, argumenta Agostinho, que, então, declara: "Verdadeira justiça existe apenas na república cujo fundador e governo é Cristo, se nos agrada chamá-la república, porque não podemos negar que seja também coisa do povo. Se, porém, tal nome, que em outros lugares tem significado diferente, se aparta muito de nossa linguagem corrente, pelo menos na Cidade de que diz a Escritura: Coisas gloriosas disseram-se de ti, Cidade de Deus, se encontra a verdadeira justiça" (II, XXI); os deuses romanos nunca se preocuparam com o bem viver do povo, abandonando-os à dissolução (II, XXII); olha a teologia da História de Agostinho: "Não quero atribuir a não sei que deusa Marica a sangrenta felicidade de Mário, mas especialmente à oculta Providência de Deus, para tapar-lhes a boca e livrar do erro os que tratam esse ponto sem parcialidade, mas com prudência e tino. Com efeito, se algum poder os demônios têm nessas coisas, não é mais do que o permitido pela secreta vontade do Onipotente" (II, XXIII).

    "Por que cuidaram os deuses de anunciar como faustos semelhantes acontecimentos e nenhum deles tratou de corrigir Sila, fazendo-o sabedor dos inúmeros males que ocasionariam suas furiosas guerras civis, não apenas capazes de desonrar a república, mas até mesmo de acabar com ela? É óbvio, com efeito, como já declarei tantas vezes e as Letras Sagradas nos mostram, que esses deuses não passam de demônios" (II, XXIV, 1); se os deuses romanos tivessem abandonado seus adoradores por causa do vil comportamento deles, mas não! Os deuses eram piores que seus adoradores, como, então, querer colocar sobre Cristo os males de Roma? (II, XXV, 2); se é verdade que, dentro dos templos, em particular, a poucos, os deuses falam de virtudes, enquanto no público dizem torpezas, mais uma razão para ver sua pérfida dubiedade (II, XXVI. 1); não há virtude nos deuses. Eles exigiam que os atores fizessem em cena suas torpezas, mostrando em público aquilo que é feito no segredo do quarto, exigindo adoração (II, XXVI, 2); os deuses não apenas exigiam dos poetas e dos atores que se mostrassem publicamente suas torpezas, mas incentivavam o público que os imitassem (II, XXVII); o que os inimigos do cristianismo detestam? Que o povo vá às igrejas ouvir como viver bem para herdar a vida eterna? O povo ouve dos púlpitos virtudes para fugirem dos vícios ensinados pelos falsos deuses (II, XXVIII). 

    Agostinho termina o livro II com um convite aos romanos: arrependam-se! "Volve-te, agora, para a pátria celeste. Por ela trabalharás pouco e nela terás eterno e verdadeiro reino. Não encontrarás o fogo de Vesta, nem a pedra do Capitólio, mas Deus, uno e verdadeiro, que não te porá limites ao poder, nem duração ao império" (II, XXIX, I). "Não andes à caça de deuses falsos e enganadores! Despreza-os e afasta-os de ti, elevando-te à verdadeira liberdade! Não são deuses, são espíritos malignos, para quem é suplício tua eterna felicidade" (II, XXIX, 2).

            Fábio Ribas

sábado, 18 de janeiro de 2025

Um pequeno herói (III/2025)


 

    Seguindo a ordem cronológica dos escritos de Dostoiévski, "O pequeno herói" vem depois de Netotchka Nezvanova. Este é uma novela inacabada, parece que o projeto de Dostoiévski era fazer um "romance de formação", em que a personagem principal, uma artista famosa, revê a vida e os caminhos, desde sua infância, que a levaram até sua maturidade. 

    Aqui, em "Um pequeno herói", Dostoiévski retorna ao tema da infância. Porém, o personagem principal é um menino de 11 anos de idade. Tudo aqui parece ser diferente do que Dostoiévski fizera até então: a história não se passa em São Petersburgo, mas nos arredores de Moscou; os personagens não são "gente pobre" ou funcionários públicos, mas a aristocracia latifundiária; outra coisa que me chama a atenção é que, se nos outros textos apareciam relações de homens bem mais velhos com meninas bem mais novas, desta vez é sobre a primeira paixão desse menino. O alvo de seu amor é uma mulher casada. 

    O contexto "para fora" do texto precisa entrar em questão aqui, pois Dostoiévski está em cárcere na Fortaleza Pedro e Paulo. Ainda que suas condições de prisão sejam melhores que de outros presos - até mesmo de seu irmão, preso por engano - mas estamos diante de um Dostoiévski sendo interrogado insistentemente durante o processo de seu julgamento. Frank Joseph, seu biógrafo, que estou lendo paralelamente aos livros de Dostoiévski, faz uma ponte muito interessante. "Um pequeno herói" é um livro claro, iluminado e florido, mostra-nos Frank, jamais diríamos que aquela história vem da pena de um encarcerado. Não há um traço de amargura nessa novela. Contudo, como disse, Frank propõe uma ponte interessante: seria "o pequeno herói" a metáfora do escritor nesse processo de tantas inquirições? Devemos lembrar que ele está preso por participar de um grupo revolucionário, que fora acusado de querer derrubar o regime tzarista. Assim, durante aquele processo, querem que Dostoiévski entregue nomes, confesse crimes, revele conspirações. Porém, ele não tem nada a dizer. Ele nem se incrimina e nem incrimina a outros. Segundo lemos na biografia de Frank, Dostoiévski não era contra o tzarismo, ao contrário, creditava ao regime a sobrevivência da Rússia que chegara até ali. É verdade que nosso escritor é um socialista, mas um socialista utópico e religioso. Ele se aproximara dos radicais ateus, porque o ódio à escravidão dos camponeses era o ponto que os unia. Então, Frank faz a ponte: será que aquela cena de um menino que não entrega sua amada e nem a expõe ao escândalo seria o próprio Dostoiévski? Não sei, mas é bem possível.

    Gostei muito desta pequena novela. Entre ela e os próximos escritos pós-exílio, há tudo que ele escreveu até 1848. Então, trarei sobre essa primeira fase antes de seguir adiante, para fecharmos essa primeira parte da vida de Dostoiévski, a que Frank chama de "as sementes da revolta".     

            Fábio Ribas

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Cidade de Deus - Livro I (II/2025)

 

    Dizer que estou maravilhado é pouco. Já havia lido "Confissões", "Solilóquios" e "A Trindade". Livros arrebatadores! Qual não está sendo, contudo, minha surpresa com a profunda argumentação agostiniana neste "De civitate Dei"? Agostinho, neste "LIVRO I", inicia sua defesa contra as acusações de ser o cristianismo o responsável pela ruina dos romanos ("os antigos deuses romanos estariam enfurecidos por terem sido esquecidos"). Todavia, a sede de conquistar novos reinos, a luxúria, a devassidão moral de seus habitantes e a idolatria é que são, para Agostinho, a verdadeira causa da derrocada romana. Mas o que desperta essas acusações contra o Cristianismo?

    Os bárbaros entraram em Roma. Entretanto, contextualizando melhor, esses "bárbaros", na verdade, são cristãos arianos (uma seita que não acreditava nem na Trindade e nem na divindade de Cristo). Por isso, eles poupam os cidadãos romanos que se refugiaram nos templos cristãos. Isto, indubitavelmente, é algo inédito. Agostinho mostra que nunca se vira um povo conquistador fazer esse tipo de misericórdia com o povo conquistado. Quando, antes, se ouvira falar de pessoas poupadas por terem se abrigado nos templos pagãos? Este é o início do argumento de Agostinho: o bem que o cristianismo trouxe ao Império Romano. Em outras palavras, estamos diante de um processo civilizatório. Mas, para mim, o mais extraordinário está por vir, que é toda a discussão de Agostinho sobre o suicídio das mulheres que foram estupradas pelo povo conquistador. Vamos entender.

    Os pagãos estão acusando o Cristianismo de trazer a desgraça à Roma. Eles acusam indagando de que teria valido a conversão ao cristianismo e o abandono aos antigos deuses, se os males vieram tanto sobre pagãos como também sobre os cristãos? E é a partir disso que este gigante - Agostinho - começa a fazer uma teologia da história e da Providência. Se males vieram indiscriminadamente, também vieram bens sobre todos, defende Agostinho. Isto é o esperado na "Cidade dos homens", enquanto a "Cidade de Deus" não se revela completa e plena (o que só ocorrerá na volta do Senhor Jesus). Na Cidade dos homens, que está entrelaçada à Cidade de Deus, tanto males como bens ocorrem indiscriminadamente. Porém, o que se deve atentar não é isso, pois, para Agostinho, o que importa é a diferença no modo que cristãos e pagãos enfrentam seus males e bens. Tanto num quanto no outro, os homens se perdem. Os cristãos, defenderá Agostinho, enfrentam as adversidades da vida tanto para sua purificação, como para o testemunho da glória de Deus, pois os cristãos vivem na esperança de um mundo por vir e os pagãos não!

    É no avanço do livro que descobrimos o que realmente seriam esses tais males. Os bárbaros que invadiram Roma pouparam os que se refugiaram nas igrejas, pouparam tanto a cristãos como a pagãos. E Agostinho joga na cara dos pagãos isto: Como que vocês se levantam contra o Cristianismo, se, durante a invasão dos bárbaros, vocês mesmos foram poupados por se refugiarem nas nossas igrejas? Ainda assim, os bárbaros fizeram aos outros o que era próprio das guerras: assassinaram, roubaram, estupraram. Diante do estupro, em Roma, era de se esperar que tais mulheres se suicidassem. Os Romanos justificavam essa prática (tanto o suicídio da mulher depois do estupro, como o suicídio para não enfrentar o estupro) com a história de Lucrécia, que fora violada e, depois, suicidara. Ela era o padrão dos romanos para suas mulheres. Agostinho irá trabalhar essa história de Lucrécia. Primeiramente, ele louvará as suas virtudes, pois ela se guardara casta num mundo libertino. Porém, uma vez estuprada, "Lucrécia mata Lucrécia". E por que ela faz isso? Agostinho trabalha principalmente a ideia da honra social, diante das pessoas. Mas as virgens cristãs também foram estupradas.

    Diante do estupro, Roma esperava que as mulheres suicidassem, tanto as cristãs como as pagãs. Agostinho irá dizer que na lei de Deus está escrito: "Não matarás"! "Lucrécia não podia ter matado Lucrécia". As mulheres cristãs não vão suicidar, por amor ao Deus que elas servem e à Palavra dEle. Embora pareça honroso se matar para não ser violada, protegendo a castidade do corpo, Agostinho defende que a verdadeira castidade é a da alma e um estupro não tiraria essa virtude das mulheres! Mas o "Não matarás" tem exceções? Sim, na Bíblia, há exceções, contudo nenhum dos casos é por razões de honra social (podemos mesmo substituir: "nenhum dos casos é por razões culturais"). A cultura não pode legitimar crimes! As exceções bíblicas surgiram quando o próprio Deus assim o fez. Ligado a este argumento, Agostinho dirá que só se pode tirar a vida para agradar a Deus em santidade: é o caso dos mártires! E mesmo assim essa entrega da própria vida à morte deve ser quando a situação for bem clara, pois a orientação do próprio Jesus é de que seus discípulos, uma vez perseguidos, saiam para outra cidade. 

    O que mais me impressionou é que toda essa defesa de Agostinho não apenas fará com que o suicídio das estupradas pare de ser incentivado na cultura romana, como ele conseguirá até o apoio estatal para essas mulheres! O que isto significa? Este é um caso claro, óbvio, espantoso da transição da mentalidade pagã para a civilização promovida pelo Cristianismo. Fico pensando nos casos de infanticídio indígena; circuncisão feminina; etc. É fato que o Evangelho, tendo o próprio Povo de Deus como referência no meio dos povos, traz benefícios inquestionáveis a tantas culturas mundo afora. 

    No fim do livro I, encontramos a polêmica levantada sobre o teatro. Muitos acusam Agostinho de ser contra as artes cênicas, por causa dos últimos capítulos do primeiro livro da Cidade de Deus. Porém, sei que há outra obra em que ele fala sobre a importância da arte para a formação do ser humano e, além disso, o contexto no LIVRO I expressa que a acusação daquelas artes cênicas era o seu uso profano e libertino. Mas sigamos para o próximo livro. 

    No LIVRO I, são assuntos muito interessantes para se desenvolver a dignidade da mulher e a questão da condenação do suicídio. 

                            Fábio Ribas

sábado, 4 de janeiro de 2025

De volta para o meu lugar (I/2025)


    O livro “De volta para o meu lugar”, de Rosangela Marto, tem como subtítulo “A prova de que o amor e a felicidade sabem o caminho de casa”. O livro é uma narrativa envolvente sobre encontros e desencontros de uma história de amor (mais desencontros do que encontros, na verdade). 
    Gostei muito da narrativa da escritora. Um tom pessoal e bem construído. São memórias de uma vida de decisões equivocadas e que trazem sua conta à escritora. Depois de preparar para o leitor toda a apresentação dessas idas e vindas com o amor de sua vida, Rosangela acaba se envolvendo num casamento com uma outra pessoa e que lhe dá duas filhas. Todavia, após sua separação, ela se envolve com um narcisista abusador e é aqui o foco do livro. (A PARTIR DAQUI TEM SPOILER)
   Ela tomou decisões erradas que só a afastaram cada vez mais daquele primeiro e verdadeiro amor da sua juventude. Como acontece com pessoas feridas e magoadas por caírem em armadilhas por suas próprias decisões equivocadas, ela busca por "culpados" e, infelizmente, como ocorre com muitos, vemos ela culpar explicita e implicitamente, por umas quatro vezes pelo menos, a Deus e à Bíblia. Ela usa da doutrina de submissão bíblica para justificar o porquê de não ter pulado logo fora dessa relação abusiva. Mas a Bíblia também deveria tê-la orientado a casar com um homem que fosse igual a Cristo e se sacrificasse por ela, mas essa passagem não aparece na sua história. Quando tentamos fugir das escolhas erradas que fazemos, a tendência é achar culpados e nos escondermos de nossas próprias responsabilidades. 
    Como já disse, a autora nos apresenta uma sucessão de escolhas erradas desde a sua juventude, abrindo mão do homem que amava, que, aliás, mostra-se um homem de caráter (eu chorei com aquela proposta dele assumir um filho que não era dele); depois, o mergulho nessa segunda relação que gerou um casamento de 16 anos e duas filhas, até que, finalmente, ela casa às pressas com um estrangeiro e vai morar com ele na Alemanha. E isto tudo é vida real.
    O capítulo "nossas viagens" destaca-se. Talvez pelo que ela esteja tratando, mas foi um capítulo maravilhosamente bem escrito e que nos lança a viver aquilo tudo com ela. Psicopatas de todos os tipos vivem entre nós. Sou pai de duas filhas e tento ensiná-las a prevenção contra abusadores e vampiros emocionais desde cedo. Sempre há sinais. O livro mostra que ela também viu a fumaça antes de se deparar com o fogo, do qual depois  não conseguiu mais fugir. Embora, como tenha dito, o livro é, antes de tudo, um alerta contra abusadores emocionais, mas é também um livro doutrinário. A autora toma todo o cuidado de não citar a denominação religiosa à qual pertence, mas responsabiliza a Bíblia e o temor que ela gera acerca de Deus como responsáveis por ela não pular fora de tudo o que está enfrentando. Quando digo que é um livro ideológico, doutrinário, não o faço apenas por essa acusação à Bíblia, mas também por ela trazer mais 3 temas que quero tratar abaixo, a saber, primeiro, é um “livro para mulheres”; segundo, ela traz a baila o tema do jugo desigual; e, terceiro, todas as crises se resolvem na constelação familiar.

    É um livro especificamente para leitoras. Durante a escrita, ela se dirige a mulheres e isso me fez ligar três alertas: 1) relacionamentos tóxicos vitimam homens também; 2) é um livro para reunir aquelas que, de algum modo, tiveram seu coração sacrificado no altar de um narcisista e, fragilizadas, se abrem para soluções de quaisquer espécie; 3) ela não assume sua responsabilidade pessoal naquilo que ela vive, embora, durante a leitura do livro, vemos que ela segue tomando decisões que a prejudicou. A responsabilidade, como já disse, sempre recai sobre a Bíblia, a Igreja e Deus. Por isso, não é de se estranhar que, no fim de tudo, a solução apareça sob a forma de uma espiritualidade que, mais uma vez, transfere para uma força impessoal tudo aquilo que ela sofre. A Bíblia insiste em dizer que você colherá o que você semeia. A Constelação familiar apresenta que você colhe o que outras gerações da sua família plantou. 

    Ela questiona a Bíblia, Deus e a Igreja várias vezes. Contudo, não vemos nenhuma vez que ela busque por aconselhamento bíblico! Por anos, ela segue tomando várias decisões e, quando vêm as consequências negativas, a culpa é sempre do “outro”. Como a Bíblia fala de submissão, ela coloca a responsabilidade de suas decisões equivocadas nesse ensino bíblico, porém, em momento algum, ela expõe que o mesmo texto que fala de submissão é o que também descreve o que uma garota cristã deve buscar num futuro marido: alguém que ame a esposa assim como Cristo amou a Igreja. E ela nunca busca um homem como esse. E, depois de tantas buscas erradas e sofridas sob a alegação de que a Bíblia ordena submissão, ela, finalmente, justifica sua grande união “eterna” com um homem descrente. Ela deveria buscar um homem que amasse mais a Jesus do que a ela. Mas não é isso o que ocorre. O que nos leva ao terceiro tema doutrinário/ideológico do livro: a doutrina espiritualista da constelação familiar.

    Durante o livro, vemos a conversão da autora, mas nunca seu discipulado ou crescimento nas verdades bíblicas. Ela fala sobre Deus e igreja, mas, na maioria das vezes, para tecer uma crítica que só vai ganhando mais engajamento à medida que avançamos na leitura. Finalmente, ela chega ao ponto central: se a Bíblia a afastou do seu verdadeiro e eterno amor, agora, graças à crença comum entre ela e seu amado na constelação familiar, ela pode, enfim, se entregar e ser feliz na sua maturidade. Aqui, na terceira parte do livro, é que há uma mudança de chave. Cada vez mais, a palavra “Deus” vai sendo substituída por uma expressão que revela a verdadeira cosmovisão da autora. Ela passa a falar não mais em Deus, mas em “conspiração do universo”. A constelação familiar, como ela bem explica no livro, é uma experiência religiosa - mas para nos religar a nós mesmos e aos nossos antepassados. Um entendimento do mundo, do ser humano e de nossa natureza totalmente contrária ao cristianismo bíblico. E, por tudo o que ela diz, deveria saltar aos olhos do leitor(a) atento(a) que estamos diante de um gnosticismo, de um paganismo que nada tem a ver com cristianismo. O mais interessante é que a autora está sendo coerente com o que, desde o início do livro, ela vinha tecendo para nós. O cristianismo exige responsabilidade pessoal. A constelação familiar, não. O cristianismo exige que, ao olharmos para a Bíblia, haja arrependimento dos nossos pecados e reconhecimento de que há um Deus pessoal e não uma força impessoal que rege a nossa vida - não somos vítimas do que nossos pais ou gerações anteriores fizeram. A culpa não é da mãe! A Bíblia é clara em afirmar que os filhos não serão responsabilizados pelos pecados dos pais. A culpa é nossa e a Bíblia precisa ser enfrentada como um todo e não em partes.

    Depois de toda uma jornada de escolhas erradas, vemos a autora encontrar um mestre que diga, então, o que ela gostaria de ouvir. Veja o que diz 2 Timóteo 4: 1-5.

Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas.

        Fábio Ribas

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Musas e músicas (XLIV/2024)

 

“Feliz é quem as musas amam”, escreveu o poeta Hesíodo. Os grandes gregos, como ele, encontraram nessas figuras femininas uma boa tese para explicar o mistério da criação. Na mitologia, elas eram nove. Filhas de Zeus e Mnemósine, a deusa da memória. Conta a lenda que Apolo, em uma tarde qualquer, passeando por Montparnasse com sua flauta, foi seduzido pela visão das nove ninfas saltitantes, cantando, dançando e colhendo flores. Elas também ficaram encantadas com a beleza e a música daquele deus grego. Acompanhadas por Apolo, as talentosas irmãs passaram a se apresentar nas festas do Olimpo e conquistaram a simpatia dos deuses com seu charme e sua leveza. 
A cada uma delas foi designado o dom de inspirar uma arte: Tália era a mu-sa da comédia. Clio inspirava a história. Érato, a poesia amorosa. Euterpe, a música. Terpsícore, a dança. Melpômene, a tragédia. Calíope, a poesia épica. Polímnia, a poesia sacra. Urânia, a astronomia. E ai de quem despertasse a ira das musas! Quando desafiadas, elas se tornavam terríveis, capazes de cegar inimigos e arrancar escamas de sereias. Na maior parte do tempo, porém, eram criaturas adoráveis, afinadas e cheias de inspiração para dar. Amantes das águas e das fontes, seu pássaro era o cisne. Seu cavalo, o alado Pégasus, presente de Atenas. Seu templo era o Museion, daí o termo museu. E, não por acaso, a palavra música vem de musa" (p. 23).

Cresci em uma casa extremamente musical. Havia coleções e coleções já organizadas de LPs dos mais variados estilos naquela sala da casa da minha mãe. Elas gostavam de tudo, as minhas irmãs e minha mãe, desde Roberto Carlos até a discoteca dos anos 70, havia raridades em negros bolachões. Muitos desses discos acabaram se perdendo no tempo, mas a formação musical ficou em mim. A influência de Agnaldo Rayol, Nelson Gonçalves, Vinicius, Toquinho e Tom Jobim, por exemplo, está aqui dentro de um acervo de memórias que trago sempre.

Essa influência toda levei ao campo missionário. O que me fez ser muito atento com as produções musicais das mais diversas culturas com as quais trabalhei, e não apenas indígenas! Um dos momentos musicais que mais me marcaram foi quando conhecemos o CTG (Centro de Tradição Gaúcha) de Canarana. Aquilo pregou em mim por tudo o que significava numa cidadezinha de apenas 20.000 habitantes no interior do Estado do Mato Grosso. Eram os encontros das famílias sulistas para eventos culturais de música e poesia próprias. As crianças = meninos e meninas — recitavam poemas enormes para seus pais, famílias e amigos entusiasmados e entusiastas. Coisa linda de se ver, cultura passando de pais para filhos e sobrevivendo naquelas famílias, que se viam em terras distantes e longe de seus ancestrais.

Nem sei como cheguei ao livro “Musas e músicas”, de Rosane Queiroz, mas li suas páginas com gosto e muitíssimo prazer. São as histórias por trás das musas que inspiraram as músicas da MPB. Algumas de amores impossíveis, outras de amores platônicos, adultérios imaginados, outros efetivados. Musas fictícias, outras jamais confessadas. Quem é a Lygia que inspirou Ligia, de Tom Jobim? Como se deram esses encontros e desencontros? Como, digam-me, João Gilberto faz aquela outra letra para a conhecidíssima “Ligia” de Tom Jobim? 

São tantas histórias que acabamos passeando pela história do Brasil nas letras de músicas que eu conhecia, mas também de outras que nunca antes ouvira. “Gilda”, música feita para a nona e última esposa de Vinicius de Moraes, eu não conhecia. Assim como me era desconhecida “Risoflora” de Chico Science. “Drão”, de Gilberto Gil, desfez a história errada que eu tinha do que teria sido a inspiração dela. 

O livro é um prazer. A gente lê rapidamente, quisesse eu. Mas não quis. A cada música e a cada musa, eu ouvia no youtube as referidas e buscava também as fotos na internet das tais musas para mergulhar nesse universo todo. Um universo todo feminino. Ao terminar o livro, duas constatações: primeiro, ao conhecer os contextos de textos, essas letras e melodias ganham uma camada nova de admiração; segundo, infelizmente, nossa música já foi muito, mas muito melhor do que a produzida. Enquanto lia essas letras e ouvia essas músicas do livro, lembrei-me que o Brasil de Vinicius, Tom Jobim, Belchior, Chico Buarque, Caetano Veloso, Sá e Guarabyra, 14 Bis, Boca Livre… — a lista dos letristas e poetas de nossa MPB não tem fim! — todavia, saber que com tanta referência maravilhosa para os nossos jovens, o Museu da Língua Portuguesa abriu espaço para quem? Anitta e suas letras e músicas! É de corar de vergonha! O Brasil declinou, mas não foi uma mera declinada “à la torre de Piza”, foi uma hecatombe ladeira abaixo com direito à lama na boca e dentes quebrados nessa queda!

Eu tive uma surpresa maravilhosa na leitura do livro. O primeiro texto é da autora, em que ela narra o processo de criação da obra, que nasceu de uma pesquisa de mais de 10 anos! O segundo texto não indica de quem é a autoria, assim, enquanto lia o segundo, achei que seria também dela. O que me levou à surpresa do terceiro texto do livro, pois, quando eu cheguei ao fim, vi que aquele resumo histórico fascinante apresentado ali sobre a “história da musa” era da autoria de Isolda Bourdort. Isolda é autora de músicas lindas como “Outra vez”, Jura secreta” e “Um jeito estúpido de amar”. E é com o último parágrafo desse texto dela que eu termino o meu:

“Nos últimos tempos, a musa não é mais a mesma. Do mito da namorada morna à vulgaridade da cachorra, da popozuda, passando pelos mais diversos papéis, ela conquistou o direito de ser dona do seu pedaço. Mesmo que esse espaço seja tão pequeno que nele só caibam aparelhos de ginástica, potes de cremes antirrugas e anticelulite, roubando a vaga dos filhos e dos livros, mas deixando lugar para muitos espelhos — embora ela mesma não consiga enxergar o que aconteceu ao longo do caminho, para que hoje, tão segura de si, procure fugir exatamente daquilo que por todo esse tempo procurava: essa tal liberdade, que na verdade veste a sua solidão”.

                            Fábio Ribas


PS — Gente, e aquela história com a música “Marina morena”, que quase acaba em morte? rsrsrsrs

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Netotchka Nezvanova (XLIII/2024)


O surgimento de Dostoiévski na cena cultural russa se deu no momento em que as ideias socialistas em várias de suas versões tomavam a sociedade intelectual da época. Por isso mesmo, vemos um Dostoiévski sendo arrastado para o centro desse debate e também para sua conversão ao socialismo, que é o fator que causará sua prisão e exílio na Sibéria. Dentre tantas versões socialistas que eram apresentadas, duas concorriam pelo coração dos russos no século XIX: a versão utópica, que absorvia os ensinos do cristianismo, mas não suas doutrinas transcendentes, sendo, portanto, apresentado como um moralismo que devia substituir o cristianismo; e a versão hegeliana ateia e totalmente antirreligiosa. Nesta, o homem deveria abandonar qualquer transcendência, pois a referência estava na humanidade e não na divindade.

Adepto da primeira versão, a utópica, Dostoiévski surge como o melhor realizador da escola literária do seu tempo, a “escola natural”, fortemente de cunho socialista e preocupada em mostrar a massa, o povo, que era explorado pela aristocracia daquele tempo. Assim surge “Gente pobre” (leia aqui). Esta obra teve aceitação antes de sua publicação, pois partes dela eram lidas no círculo intelectual conhecido como “a Plêiade”. Contudo, por diversos fatores, depois de lançada, não foi acolhida unanimemente nem pela crítica e nem pelo público. Ao livro “Gente pobre”, seguiram “O duplo”, “A senhoria” e “Noites brancas”. A minha percepção é que, em cada uma dessas obras, está diante de nós um autor diferente. Se seu primeiro romance pode se enquadrar sob a etiqueta de “romance social”, o que dizer de “O duplo”? Em que a loucura e a fantasia, a realidade e o sonho, a verdade e a mentira nos deixam perplexos em suas situações tragicômicas. Em “A senhoria” é apresentado, por exemplo, o tema do gótico e do místico e, finalmente, em “Noites brancas”, a narrativa soa como um romance juvenil de fortes arroubos emocionais. Quantos Dostoiévskis, não? Mas o que haveria de comum entre esses romances todos? Alguns dizem que a figura do “sonhador” ganha cada vez mais espaço em suas narrativas e também a figura da “mulher infernal” já vai se delineando nesses romances da primeira fase (Joseph Frank). Por minha parte, há um ponto em comum que saltou-me aos olhos agora na leitura de “Netochka Nezvanova”, 5º romance do autor russo.

Em “Gente pobre”, os afetos românticos não consumados se dão entre Makar e Bárbara, mas a diferença de idade entre os dois é de uns 20 anos! “O duplo” apresenta uma paixão delirante do personagem principal por Klara; “A senhoria”, além de repetir o tema do amor delirante, aborda o tema do incesto. “Noites brancas” apresenta, mais uma vez, o tema do amor que se desfaz em nada. Em todos esses, de fato, as mulheres são apresentadas nessas situações de darem esperança, mas, logo em seguida, abandonarem seus pretendentes. Agora, em “Netochka Nezvanova”, a narrativa se concentra apenas no universo feminino e no tema da dubiedade e do erotismo, mas entre as mulheres da história. Ou, sendo mais preciso, as duas personagens femininas têm por volta de apenas dez anos de idade. Assim, a questão sexual e psicológica individual dos personagens de Dostoiévski é proeminente em todos os seus livros, mesmo em “Gente pobre”, seu romance de estreia e tido como um romance “naturalista e de cunho social”. A psiquê perturbada e desencaixada será o tema comum que tomará espaço definitivo no Dostoiévski após o exílio na Sibéria.

(spoiler)

Em “Netochka Nezvanova”, Netotchka foi encontrada caída na rua e levada à casa do príncipe. Os pais de Netochka morreram. Seu pai, que descobriremos, na verdade, ser seu padrasto, fora um genial músico, mas que o ciúme, a inveja e o alcoolismo o enlouqueceram. Sua mãe, vítima de um casamento difícil e de enorme carência emocional, afetiva e financeira, foi levada desta vida pela miséria e abuso do marido. Há na casa que adota Netochka, além da princesa, a tia do príncipe e o próprio príncipe. A história é contada por Netotchka, quando já adulta. Ela narra as lembranças de sua infância trágica e infeliz, mas ela amava o pai padrasto. Ele casara com sua mãe quando Netotchka tinha 3 anos de idade. Seu pai mesmo morrera, logo depois que ela nascera. Este romance, que Dostoiévski interrompeu por causa do exílio retornando a ele só seis ou sete anos depois, é construído em duas partes. A primeira, na casa do príncipe. A segunda, numa outra casa em que a menina tem que ir morar, quando a família do príncipe se muda. A primeira parte cria muitas expectativas que não tem continuidade. Fiquei com aquela impressão de ter tomado fôlego, prendendo a respiração, para um mergulho que não aconteceu. E a segunda parte, depois de tudo, não se conecta à primeira. Enfim, embora estejam ali todos os grandes temas do autor — inclusive o tema do sacrifício cristão — , achei um “romance menor”. Talvez por ser mesmo isto: um romance de transição entre tudo o que ele escreveu até agora e o Dostoiévski que emergirá da Sibéria. Aguardemos.

            Fábio Ribas

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Violência e armas (XLII/2024)

 

“O fato de que armas de fogo registradas legalmente são quase nunca usadas em crimes sérios não deteve os governos ingleses de continuar a apertar os controles ao armamento” (p. 195). Esta frase surge no capítulo que tem por título “somente os criminosos possuem armas”. Tanto o título do capítulo como a frase com que iniciei o texto retratam a realidade brasileira, todavia, fico perplexo que estejam descrevendo a realidade da Inglaterra.

Joyce Lee Malcom, autora de “Violência e armas”, é Ph.D em História Comparada, especialista no estudo de leis constitucionais do período britânico e colonial americano, irá nos mostrar a falácia de quem defende que o menor uso de armas significa uma menor onda de crimes. Para isso, em seu livro, era desenvolverá a presença de armas de fogo desde o tempo medieval até a história do século XX da Inglaterra. Além disso, ainda nos oferecerá um precioso capítulo em que compara a situação atual da Inglaterra com os Estados Unidos, país em que a garantia da proteção individual é garantida na Constituição.

“Armas cometem crimes?” é a pergunta com que a autora inicia o primeiro capítulo do seu livro. Mais uma vez, fiquei perplexo que num livro sobre a história do armamento e desarmamento da Inglaterra pudesse, na verdade, parecer que falasse dos brasileiros. A pergunta é de resposta tão óbvia que jamais poderia imaginar que se desse em contexto inglês. Já estou acostumado, no Brasil, a mostrar e defender que a grama é verde, contudo, diante de outros países com histórico de defesa do direito individual é surpreendente que, para eles, também vejamos que a manipulação e a distorção da realidade ocorram.

Primeiro mito combatido no livro é que a Inglaterra sempre foi um país violento. Porém, com o controle de armas pelo cidadão comum, a violência no país cresceu assustadoramente no século XX até os dias atuais. Cresceu como nunca antes, desde a Idade Média inglesa. Vamos comparar o que eu disse com o seguinte outro fato, “…o fato enigmático de que a era Vitoriana conseguiu manter uma taxa invejavelmente baixa de crimes violentos, apesar dos numerosos problemas sociais e de nenhum controle sobre as armas” (p. 13). Quer mais?

“Armas de fogo — mosquetes, espingardas e armas curtas — tornaram-se de uso mais comum no século dezesseis, quando os homicídios já estavam em declínio. De lá até 1920 não houve restrições efetivas à sua posse. As duas tendências se cruzam: os crimes violentos continuaram claramente a declinar ao mesmo tempo em que as armas se tornavam cada vez mais disponíveis” (p. 32).

A autora passa a nos fornecer os eventos históricos que desenvolveram e aprimoraram o sistema jurídico inglês e aqui um dos pontos centrais é que “a defesa própria foi há muito tempo reconhecida como não somente uma, mas como a “lei primária da natureza” (p. 35).

Há detalhes no desenvolvimento histórico dos crimes que são fascinantes e tendem a mascarar a realidade que temos do nosso próprio passado. Por exemplo, na Idade Média, o número de crimes contra pessoas poderia ser ainda menor, mas “os jurados podem ter desejado proteger a família do falecido, já que a lei daquela época punia o suicídio com o confisco dos bens imóveis da pessoa pelo rei” (p. 43). Embora por todos os séculos anteriores ao século XX, o número de crimes contra propriedades era sempre maior do que o de crimes contra pessoas, descobrimos o crescente número de infanticídio ocorrido nos séculos dezesseis, dezessete e dezoito, tornando-o um dos crimes mais comuns da Inglaterra.

Quando começam a surgir, por parte dos governos, as primeiras restrições à posse de armas por cidadãos comuns, isto refletia o desejo do governo em controlar grupos revolucionários. Assim, o padrão se intensificava cada vez mais: quando em guerra, armava-se os cidadãos e, uma vez vindo o período de paz, o próprio governo ia e desarmava o seu cidadão. Ainda que a maior parte dos assassinatos ocorre-se “com aquilo que se encontrava à mão no calor do momento” (machadinhas, facas, pedras etc), foram as armas de fogo o alvo dessas leis. Isto demonstra que, assim como em todos os lugares do mundo, o governo quer é se proteger contra um cidadão que resolva proteger-se de ações governamentais exageradas e invasivas.

O que foi dito no parágrafo acima é tão óbvio que, mesmo com dados e estatísticas favoráveis às armas de fogo (isto é, as pessoas envolvidas em crimes contra outro ser humano dispunham sempre de outros objetos para atentar contra a vida), ainda assim era contra as armas de fogo que cada vez mais as leis restritivas se impunham.

Por fim, o que pensar quando a própria Inglaterra entrou numa espiral de desarmamento do cidadão comum contra todos os dados e estatísticas. O que só me leva a encarar a realidade de que aquele dito que diz “contra fatos não há argumentos” é pura ingenuidade. O que vale é: “contra a ideologia não há fatos”.

            Fábio Ribas

Até que tenhamos rostos (CS Lewis)

    “Poderíamos dar aos nossos amores humanos uma aliança incondicional do tipo que devemos somente a Deus. Então, nossos amores se tornaria...