terça-feira, 16 de abril de 2024

Eu e minha mãe fomos adotados


O texto abaixo foi publicado em 13 de março de 2023

Hoje pela manhã, a Lu foi buscar-me na casa de mamãe e, enquanto eu me arrumava para ir embora, mamãe disse para ela: “Ontem, fizemos um culto juntos”! Depois, a Lu contou-me isso dizendo que ela viu que foi muito importante para mamãe esse momento que eu e ela tivemos. Contei em detalhes, então, para a Lu o que agora também compartilho aqui com vocês.

“Mãe, hoje é o Dia do Senhor, vamos fazer um Culto juntos?”, ao que ela respondeu que sim. Abri a Bíblia no meu celular e, para minha surpresa, na minha leitura diária dos salmos, a leitura do dia era o Salmo 71, cujo título inesperado era “Súplicas de um ancião”. Li todo salmo e, depois, verso a verso, fui comentando e pregando.

Sempre que estamos juntos, surgem oportunidades de pregar o evangelho para mamãe, mas nunca tive um momento em que pudesse pregar sobre a salvação em Jesus de forma tão clara e direta como ontem. O que havia de diferente? Eu pude mostrar e aplicar ao coração dela a mensagem que eu estava lendo no Salmo: falei das feridas e das injustiças que as pessoas fazem contra nós; disse que deveríamos entregar essas pessoas à justiça de Deus; fiz paralelos com a vida de Jesus, mostrando que Ele cumprira a justiça de Deus e que os homens jamais poderão fazer algo parecido; por fim, disse que Jesus morreu na cruz por causa dos nossos pecados e que era idolatria se confiássemos em qualquer outra proposta de salvação e santificação.

“Mãe, Jesus é suficiente! A senhora acredita nisso que eu estou dizendo?”, perguntei. “Sim, acredito”! “Mãe, o ancião deste salmo é a senhora. Ele foi ferido e magoado por pessoas em quem ele confiava, mas ele reconhece que Deus cuidava dele desde o ventre da sua mãe. Ele sabe que os pecados dele o separam de Deus e, então, arrependido, ele confia na justiça de Deus e não na justiça dos homens. Você acredita que Jesus é a sua justiça, mãe, e que nEle eu e você somos adotados pelo Pai?”. Minha mãe foi respondendo afirmativamente a todas as perguntas que eu fazia. No fim, oramos. E oramos a Jesus somente!

À noite, depois do jantar, eu e minha mãe fizemos mais uma devocional à mesa. Era sobre Barrabás e, mais uma vez, pude explicar para minha mãe que Jesus trocou de lugar conosco, do mesmo modo que o fez com Barrabás. “Mãe, você conversa com Deus?”, perguntei. Ela me disse que toda noite, antes de dormir, ela coloca todos nós diante de Deus pedindo que Ele cuide da gente. “Mãe, a partir de hoje, você também irá fazer igual o salmista, a senhora vai agradecer a Deus pela sua salvação e santificação em Jesus, amém?”. E ela respondeu: “Amém”!

Disse à minha mãe que ela precisava ler/ouvir a Palavra de Deus todos os dias, porque a fé cresce e se fortalece por meio da Palavra.

Mas eu sei que até nisso ela precisa de ajuda, por causa da audição precária… Há muitos anos que mamãe não gosta de sair de cadeira de rodas para a rua. Acho que ela tem vergonha… “Mãe, sair um pouco de dentro deste apartamento, ficar lá fora, tomar um sol e respirar ar fresco, posso vir te pegar?”. E ela concordou! Assim, combinei que três vezes por semana irei pegá-la para descermos na cadeira de rodas dela e, debaixo do prédio, a gente continuaria essas devocionais sobre a cruz de Cristo. Ainda conversei sobre muitas coisas com mamãe, coisas sobre a fé em Cristo.

Orem por minha mãe! A salvação pertence ao Senhor, diz a Bíblia. Contando tudo isso que compartilhei com vocês às minhas filhas, Ana Lissa me disse: “Tenho fé que encontrarei vovó no Céu”!🥰

PS — Hoje, relendo esse texto escrito há quase um ano, vi que nunca consegui “essas descidas de cadeira de rodas com ela”, mas nunca deixei de estar com ela sempre conversando sobre Jesus, a Bíblia e o amor e o perdão que só são possíveis em Cristo Jesus”! Obrigado, Jesus, pela minha mãe.

Mamãe faleceu dia 08 de março de 2024!

                Fábio Ribas

sábado, 13 de abril de 2024

No Reino de Zindorff (XII/2024)

 


Embora esteja lendo muitos livros prazerosos, todos são muito técnicos. Certamente, isso levou-me a ter sede de uma leitura mais literária. Neste momento, recordei-me do livro “No Reino de Zindorff”. Devo ter lido há uns três ou quatro anos, convidado pela autora para prefaciar seu livro. Livros, bons livros, revelam-se melhores e mais instigantes quando lidos de novo. E foi exatamente isso o que ocorreu com o livro de Elizabeth Rodrigues.

Relendo com sede de boa literatura, vejo que, logo na sua apresentação, a autora nos comunica qual a função da boa ficção: "Quem sabe essa literatura o fará refletir sobre algum episódio da sua vida real? Garanto que, assim, voltará à realidade após cada capitulo, porque "No Reino de Zindorff" enfrentam-se conflitos e situações semelhantes aos nossos, simples mortais, e talvez possamos aprender como alguns reagiram diante de cada demanda". Releio este livro num momento bem diferente da minha vida daquele quando o li pela primeira vez. Encantando-me, agora, mais ainda com sua qualidade editorial e também com a escrita elegante da autora, mas também com as belas ilustrações de Joaquim Ivanil, seu esposo. Estamos no Reino de Zindorff.

Por tudo isso, é uma delícia estar novamente no Reino de Zindorff. Melhor ainda é caminhar com mais calma pelas belas frases da autora e pelo Reino de reis e rainhas cristãos. Acompanhando a trajetória do Rei Rui, vemos como um Rei cristão enfrenta suas enormes batalhas, superando as dificuldades e, sendo renovado espiritualmente, não abre mão de trazer uma nova era ao Reino de Zindorff. Contudo, em meio a tantas bênçãos de reavivamento, em que até missionários do Reino são enviado a outros campos, há uma semente de discórdia sendo semeada nas terras de Zindorff. Heresias estão sendo transmitidas às crianças. Um soberano preocupado, antes de tudo, com a vida espiritual de seus súditos é um tempo que passou para nós, mas que ansiamos que retorne, um dia, na sua plenitude na instauração do Reino perfeito e eterno de Jesus Cristo.

Gente, que livro gostoso! Que delícia de capítulos! Muito envolventes os capítulos que descrevem a vinda da médica Hannah Betsy. Impossível não se apaixonar e torcer para que tudo dê certo! Helene se prepara para a liderança do Reino; Thyfany estuda em Londres; Mirna enfrenta as agruras de sua adolescência. Porém, a autora conseguiu deixar-me frustrado em meus sentimentos e expectativas com o sumiço de Hannah Betsy. Aonde ela anda? Como que Elizabeth consegue nos carregar pela sua narrativa e nos oferecer tantos sentimentos com seus personagens? Parabéns! Ela nos encanta com o fluxo de sua história!

Um livro que merece ser lido pelas nossas jovens e por nossos jovens cristãos que, infelizmente, têm recebido como ofertas literárias tantas obras carregadas de valores iníquos, imoralidades e anticristianismo. A fantasia de Elizabeth Rodrigues cumpre o seu papel como literatura de ótima qualidade. Zindorff torna-se um Reino cristão abençoado, enquanto abençoa outros ao seu redor; um Rei zeloso de sua conduta espiritual, mesmo quando enfrenta tragédias em sua vida; e o retorno do amor cortês, do príncipe esperado, o salvador aguardado e que não teme pela própria morte ao defender sua amada. O bem triunfa sobre o mal.

        Fábio Ribas

terça-feira, 9 de abril de 2024

A mitologia grega (XI/2024)

O mito, portanto, vai dizer Aristóteles na Poética, é “o princípio e como que a alma da tragédia”. “Mythos” é usado pelo filósofo em dois sentidos: 1) a narrativa, a história, o enredo bem engendrado, conectado, construído; e 2) no sentido da coleção de histórias, lendas e folclores deixados pela tradição e trabalhados artisticamente pelo poeta como fonte das tragédias e epopeias.  Assim, nada mais fascinante do que lermos o livro do historiador Pierre Grimal amarrando as narrativas da mitologia, apresentando-as conectadas e desenvolvidas numa ordem para o prazer da nossa leitura e compreensão desses mitos.

  E uma das tantas qualidades desse pequeno livro é o de demarcar a diferença e semelhança, o fluxo e o refluxo dessa linguagem: o mytho e o logos. Nessa delimitação, cresce, diante dos nossos olhos, a beleza do Cristianismo, enquanto logos, e a beleza das narrativas gregas, enquanto mytho. “O mito se opõe ao logos como a fantasia à razão, como a palavra que narra à palavra que demonstra. Logos e mythos são as duas metades da linguagem, duas funções igualmente fundamentais da vida do espírito”, diz Grimal.

   Assim, no ambiente do mito, este é atraído por aquela parcela do irracional (ou atrai a ela) e é aparentado de toda arte, em todas as suas criações. Daí, para Aristóteles, o poeta (e todo artista) ser um imitador e um imitador das ações e daí a tragédia erguer-se como aquele veículo da mimese por excelência, em que o poeta ensinará ao público as virtudes reveladas pelo seu trabalho artístico com o mito. E teremos prazer em aprender com os poetas, porque aprender dá prazer, mas aprender com poetas melhores as virtudes que eles nos ensinam em sua arte é prazer maior ainda.

     Após traçar um encadeamento dos mitos gregos, na parte final de seu livro, Grimal irá questionar a maneira que durante a história tentaram se aproximar dessa mitologia. Desde uma abordagem “desmitológica” nos séculos XVIII e XIX, em que se retira todo o maravilhoso para tentar encontrar apenas o que de fato ocorreu, até um agrupamento por meio de um “método comparativo”, pelo qual se tenta agrupar mitos do mundo todo a partir de seus temas comuns. Mesmo nas perspectivas mais recentes em que se sociologiza ou se psicologiza os mitos, até nisso Grimal vê uma abordagem incompleta, infeliz e que retira dos mitos aquilo que eles têm de mais específico.

      A conclusão particular a que chego após um encontro tão prazeroso com o livro de Grimal é que os mitos, enfim, mais do que suportes para esquemas de uma sociologia ou psicologia coletivas, revelam-se receptáculos de nossas próprias e inefáveis experiências individuais. Este é o segredo e a chave do mito.  

A mitologia Grega – resenha

     “O mito não se limita a seus termos. Esboça uma imagem, um símbolo, se se quiser, de uma realidade que, de outro modo, seria inefável”, diz Grimal. Portanto, o mito como símbolo é o que interessa ao nosso estudo em nossa bibliotheca.

      Cabe aqui lembrar, porém, a origem da palavra “aristocracia”, que vem de aristoi, que são aqueles que possuem a areté, que é a virtude.  Mas o que era a virtude para Homero já é diferente do que entende Aristóteles. Na Poética, Aristóteles ensina que o poeta é um imitador e que a tragédia (e a epopeia) são imitações das ações e estas nos revelariam o caráter do herói, suas virtudes. O problema é que “virtude” (areté) para Homero é a característica de um alto ideal cavalheiresco aliado a uma conduta cortesã e ao heroísmo guerreiro. Não é de se espantar, então, que Alexandre e César oferecerão libações no túmulo de Aquiles, pois este é uma fonte de inspiração. Grimal chama a atenção de que é somente na era dos filósofos sofistas que a noção de virtude irá ser questionada, uma vez que, em Homero, Ulisses, por exemplo, não tem questionados as suas mentiras e falhas de caráter. Já em Aristóteles, “os heróis lendários são submetidos a uma crítica moral” (e espiritual). Os mitos, diz Grimal, irão se tornar uma imensa reserva de exemplos de virtudes e vícios, que deverão ser escolhidos por cada um de nós.

    “O mito – em sua forma de relatos épicos – torna-se o instrumento da educação moral. Nas escolas da Grécia clássica, as crianças – desde a mais tenra idade – aprendem de cor os poemas homéricos, e o professor extrai dos mesmos máximas e preceitos de conduta. Para muitas gerações, Homero foi o educador por excelência”, recorda-nos Grimal.

        E a aristocracia é aquele grupo de pessoas ligadas aos antigos heróis, que guardam as suas virtudes e com elas se identificam geneticamente, assim, os mitos também tem essa característica de colorir a história e servir “como título de nobreza para cidades e famílias” (para ver melhor a imagem abaixo, basta clicar sobre ela e expandi-la).


         Para facilitar a apresentação dos mitos, Grimal os organiza a partir de “ciclos”: 1) os mitos teogônicos; 2) os mitos olimpianos; e 3) os mitos heroicos. Para a grande gênese dos deuses apresentada por Grimal, ler aqui. Nos mitos teogônicos, podemos acompanhar o início de tudo e o surgimento do deus caçula, Zeus, que irá ser o responsável pela disputa de poder até que ele possa se assentar no trono dos deuses e dar início ao ciclo dos deuses olimpianos. No último ciclo, o dos heróis, somos apresentados a seis ciclos: a expedição dos argonautas, o ciclo tebano, o ciclo dos átridas, o de Hércules, o de Teseu e, finalmente, as aventuras de Ulisses.

        Poderemos descobrir a origem da palavra “areópago”; a maldição contra a relação homossexual que deu origem a tragédia de Édipo; o papel das mulheres que traíram seus próprios pais e seus países por amores que não foram correspondidos, entre muitas outras narrativas que ainda marcam nossa imaginação. Na verdade, após a leitura tanto da “Poética” de Aristóteles como a “mitologia grega” de Grimal, é impossível resistir ao desejo de reencontrarmos todas essas histórias e as relermos com fascínio redobrado por tudo o que, na verdade, elas simbolizam para cada um de nós. 

                                Fábio Ribas  

 

Semiótica em Platão


                  (clique sobre as imagens para aumentá-las)

        Como aborda Winfried Noth (o 3º slide deste texto é feito a partir de seu resumo do signo em Platão), há uma “história etimológica e institucional” da semiótica. Entretanto, quero tratar da semiótica em Platão a partir de uma história da teoria dos signos “implícita e explicita”, que se constitui de um estudo avant la lettre da doutrina dos signos verbais e não verbais. Como podemos relembrar a partir do slide acima, em Crátilo, Platão apresenta um modelo do signo de estrutura triádica – o nome (ónoma, nómos), a noção ou ideia (eidos, logos, dianoéma) e a coisa (prágma, ousia), que é aquilo a que o signo se refere.


         Quando tratarmos do signo na história, perceberemos que vários autores deram nomes diferentes aos mesmos conteúdos (já abordei esta questão aqui), então, para facilitar essa comparação bibliográfica, procurei associar no slide acima outras nomenclaturas de outros autores) para aquelas usadas por Platão. Assim, para o “nome”, outros autores trataram de “Símbolo”; para “a coisa à qual o signo se refere”, outros autores denominaram de “referente”; e, no caso de “noção ou ideia", você poderá encontrar uma nomenclatura diferente dependendo do autor: “referência”, “conceito”, “imagem mental”, “a informação que o nome transmite ao ouvinte”, “significado”.


         O slide acima procurou representar a discussão tratada em "Crátilo" (que foi, como o próprio subtítulo dessa obra demonstra, sobre “a justeza dos nomes”). Veja que no slide há uma ligação entre o “nome” e a “noção ou ideia”, assim como há uma ligação entre a “coisa à qual o signo se refere” e a “noção ou ideia”, porém o que não parece haver – e esta é a discussão em Crátilo – é a ligação entre o “nome” e a “a coisa à qual o signo se refere” (daí o ponto de interrogação no slide).


           
         

        Neste segundo slide, exatamente para refletir as discussões em Crátilo, pequenas modificações foram feitas em relação ao primeiro: 1) a ligação entre o “nome” e “a coisa à qual o signo se refere” é natural ou é uma convenção? 2) É a “ideia” (ou Forma) o que une o “nome” à “coisa à qual o signo se refere”? e 3) “a coisa à qual o signo se refere” parece estar em certa união natural com a “Ideia”, assim como parece haver uma ligação natural do “nome” com a “Ideia”. Além disso, chamei a atenção para não confundir o conteúdo platônico da “coisa à qual o signo se refere” (ou o “referente”) com o que para Saussure é chamado de “significante”, pois para Platão o modelo de signo é triádico, isto é, há uma ligação com o mundo fora da mente do indivíduo, enquanto que, para Saussure, o signo é diádico, isto é, o “significante” é apenas mental.


         Didaticamente, cabe aqui relembrar que toda a teoria do signo discutida em Crátilo parte de duas doutrinas de Heráclito, a saber: 1) a doutrina do fluxo de todas as coisas, que é representada por Protágoras e Hermógenes, que conclui ser impossível às palavras (nomes) revelarem algo da essência das coisas, daí toda ligação entre o nome e as coisas ser arbitrário – “convencionalismo”; 2) Heráclito também pregava a doutrina da emanação, que é representada por Górgias e Crátilo, que, a partir dessa doutrina heráclita, concluem o oposto, a saber, embora haja o fluxo ininterrupto de todas as coisas, estas “emanam” algo de sua essência que é captado pelos nossos sentidos, daí toda ligação entre o nome e as coisas ser natural – “naturalismo”. Veja que o naturalismo de Górgias não era uma identificação com o Ser das coisas, mas uma “captação”


         Ainda em “Crátilo”, a saída proposta não é nem a do convencionalismo e nem a do naturalismo, antes, o “nome” é uma imagem. Assim como uma pintura é uma imagem de alguma coisa, o “nome” (substantivo, verbo, advérbio, etc) também é cópia de uma realidade em si. Contudo, mesmo essa ideia do nome como imagem vai falir toda a discussão no livro. Portanto, qual o melhor caminho? Aprender da imagem (nome) sobre a verdade que ela espelha ou aprender da própria verdade? A resposta final do livro é que o melhor é entrarmos em contato direto com a verdade, que, num primeiro momento, pareceriam ser as coisas. Entretanto, as coisas são também imagens. Assim, no Timeu, a imagem (não do nome, mas das coisas - estas são imagens das Formas, das Ideias) será a solução platônica que garante a inteligibilidade do mundo. Veja abaixo:



         

        O que se pode concluir? É que o modelo triádico platônico, na verdade, deságua numa concepção quase diádica, uma vez que “a coisa à qual o signo se refere” é apenas uma cópia da Ideia e, relembrando toda a discussão de Sócrates tanto em Crátilo como em Fédon de que o melhor é a busca da Ideia do que da cópia da Ideia, a Filosofia irá, então, afastar-se da realidade material do mundo e se dedicar ao que o pensamento e a reflexão são capazes de oferecer: a realidade da metafísica, um caminho “mais excelente”. Perceba, as ideias têm consequências: esse "descaso" com a realidade concreta das coisas em si marcará tragicamente um cristianismo místico, que nascerá de um casamento com o neoplatonismo, assim como, posteriormente, ocorrerá tanto com Descartes como com Saussure, que defenderão uma concepção mentalista do signo. Mas, para Platão, a realidade, o referente, “a coisa à qual o signo se refere” é, tão somente, uma cópia, que deverá nos remeter à verdadeira realidade que é o original no mundo das Formas (ora, aqui, podemos, exatamente, ver o prenuncio da filosofia de Kant). 


                                            Fábio Ribas

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Símbolo - uma palavra "overloaded"

 


“Uma palavra ou uma imagem é simbólica quando representa algo mais que o seu significado imediato e óbvio. Tem um aspecto ‘inconsciente’ que nunca será definido com precisão ou completamente explicado...”
C. Jung

Em Semiótica, há muitas palavras que são “overloaded”. São palavras carregadas de significados e usadas nas mais diversas situações. E isso dificulta muito iniciar o estudo na área, pois, dependendo do autor e das escolas, palavras e expressões como “signo”, “signo linguístico”, “ícone”, “índice”, “símbolo”, “sinais” e afins precisam ser estudadas no contexto da obra em que se encontram. 

A simples palavra “signo” em Peirce, Morris, Schaff, Cassirer, Wittgenstein, Gadamer e Umberto Eco assume conteúdos diferentes para cada um deles. Se isso já não fosse suficiente para causar certa confusão, o inverso também ocorre: há conteúdos semelhantes, mas que recebem nomenclatura diversa em cada um desses autores! E o que dizer de palavras que mudam de conteúdo no correr da vida de um mesmo autor? Não é surpresa, portanto, termos coisas como “o 1º Kierkegaard, o 2º Kierkegaard” ou “Chomsky da 1ª fase, o da 2ª fase, etc” e assim por diante. Isso tudo sem esquecer que uma mesma nomenclatura recebe conteúdos diversos e até significados opostos no correr da história!

         Assim, neste texto, quero chamar sua atenção para a necessidade de obras de referência e dicionários especializados. Quais eu mais uso? Por enquanto, até essa fase da nossa Bibliotheca, uso muito os dicionários de Filosofia do Ferrato Moura e do Abbagnanoo ótimo dicionário eletrônico Houaiss, além do dicionário de linguística da Editora Cultrix e o vasto dicionário de semiótica do Greimas e Courtés. Acredito que estas obras são um material mínimo para se ter à mão.

         Aproveitando essa perspectiva, gostaria de tomar como estudo de caso a nomenclatura "símbolo" para, além do que já vimos até aqui, agregar novas informações também.

         Comecemos pelo Houaiss (você pode clicar sobre a imagem para aumentá-la):

         Como podemos ver, o dicionário consegue trazer à tona 7 acepções diferentes. Todavia, se observarmos com atenção, perceberemos uma característica comum às acepções ali expostas: todas são arbitrárias. Podemos, ao menos, tirar uma conclusão, que, segundo o dicionário Houaiss, o símbolo é arbitrário, é uma convenção, um acordo estabelecido dentro de algum ambiente. Este pode ser social, político, acadêmico ou cultural, por exemplo.

         Vamos retornar ao que havia escrito logo no início e vejamos alguns outros conteúdos para esta palavra “símbolo”. Para Morris, símbolo é “um signo produzido por seu intérprete e que age como substituto de outro signo”; para Schaff, “são objetos materiais que representam noções abstratas”; para Saussure, o símbolo “nunca é completamente arbitrário. Há um rudimento de vínculo natural entre significante e significado”; para Cassirer, “os símbolos pertencem ao mundo humano de sentido” (lembremo-nos de sua tese de que o homem é um animal simbólico); para Wittgenstein, “para reconhecer o símbolo no signo é necessário considerar seu uso significativo”; para Gadamer, “a essência do símbolo é substituir ou estar no lugar de outra coisa”. Cabe salientar que, para Peirce, Morris, Schaff e Wittgenstein, os símbolos são subunidades do signo, enquanto que, para Saussure, Gadamer e Cassirer, os símbolos se opõem aos signos. Com este parágrafo, compreendemos bem a observação de Peirce: “... a palavra símbolo já tem tantos significados que seria uma ofensa adicionar-lhe mais um...”.

         Então, para compreendermos o universo do símbolo, alguns outros conceitos precisam ser abordados daqui para frente: signo e sentido, por exemplo (além dos conceitos filosóficos de “forma”, “substância” e “matéria”, aos quais já havia me referido em textos anteriores).

         Outro importante ponto que o Houaiss explicita é o de que, ao tratarmos do símbolo, devemos compreender que esse se utiliza da alegoria, da metáfora, da metonímia, da parábola, da hipérbole, etc. Todos esses conceitos deverão ser tratados aqui em nossa biblioteca, caso queiramos realmente compreender a natureza do símbolo.

         É por causa do símbolo que nossa biblioteca procura ter uma vastidão enciclopédica, pois o símbolo está presente na cultura, na religião, na história das civilizações, na linguística, na antropologia cultural, na arte, na psicologia, etc.

         Esta sensibilidade quanto à natureza imaginativa do símbolo é fundamental para todo aquele que deseja compreender o outro, comunicar-se bem e se contextualizar no universo ao qual se pretende pregar o Evangelho. É uma viagem que, se Deus quiser, estamos apenas começando.       

Fábio Ribas

sexta-feira, 5 de abril de 2024

A mulher grávida que pisou a cabeça da cobra - um estudo de caso*

 


*Texto que publiquei originalmente em dezembro de 2016, mas que resgatei para minhas aulas de Fenomenologia da Religião.

A gravura deste texto circulou nas redes sociais e foi fartamente distribuída por pastores, missionários, seminaristas e tantos outros evangélicos neste Natal.

Contudo, o que me chamou a atenção foram as palavras da minha filha de 10 anos ao olhar para esse desenho: “Nada a ver! Não foi Maria quem pisou na cabeça da cobra”! E não foi só minha filha de 10 anos de idade quem se pronunciou sobre o desenho em questão.

“Nós nem vimos a cobra”, disse-me um casal de evangélicos diante da gravura. O que poderia justificar e ser usado como desculpa numa “curtida desatenta” por parte de tantos evangélicos maravilhados com a mulher grávida que pisa a cobra.

“Ah! Que lindo! Tem uma imagem de Maria que também pisa na cobra igualzinha a essa aí. Tão bonito isso”, disse-me uma católica. E devo confessar que, sendo ex-romano, a primeira coisa que me veio à mente foi a pinacoteca das diversas imagens católicas de Maria pisando a cabeça da serpente, que sempre estiveram presentes por toda minha infância e adolescência.

Tirando os evangélicos que “curtiram” sem se dar conta de que a mulher grávida do desenho pisava uma cobra, o que dizem os evangélicos “conscientes”, os que postaram a gravura? “É a Igreja”, responderam.

A mulher é o símbolo da Igreja e a Igreja é quem pisa a cabeça da cobra, que é Satanás. “Pisa” por extensão, é bom frisar. Quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus, portanto, sendo Jesus o Cabeça da Igreja, esta o pisa vitoriosamente.

A figura da mulher como imagem da Igreja é depreendida a partir do texto de Apocalipse 12. Porém, o que João faz é o contrário do que seus interpretantes fizeram posteriormente. João toma Maria como símbolo da Igreja (e do Povo de Deus no Antigo Testamento), e não o contrário: a Igreja não é símbolo de Maria.

Mas é exatamente isso o que os católicos romanos fazem. Tanto que eles, ao se depararem com o símbolo da Igreja na figura de Maria, concluem inversamente: “Os homens é que devem escolher em qual lado lutar. Do lado da serpente ou se do lado da semente da Mulher — Maria — Mãe de Jesus Cristo, mas também de cada um” (Padre Paulo Ricardo).

“A semente da Mulher — Maria — Mãe de Jesus Cristo…”. Ora, o romanismo compreende que Maria é mãe da Igreja, a igreja é “semente de Maria”. Por quê? Por extensão também. Se Maria gerou Jesus, que é o Cabeça da Igreja, sendo a igreja o corpo de Jesus, logo Maria é mãe da Igreja.

Por isto, tão imediatamente, numa cultura católica como a brasileira, a maioria das pessoas irá identificar aquela mulher grávida que pisa a cabeça da serpente no desenho em questão não com a Igreja vitoriosa, mas com a mãe da Igreja — a mulher Maria; ainda que o catolicismo oficial saiba muito bem que quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus (veja aqui).

A mulher da gravura está grávida. E é na condição de grávida que ela pisa a cabeça da serpente — e não é nada disto o que encontramos em Apocalipse 12. A vitória sobre o diabo, por intermédio de Maria e sem a Cruz, pois Jesus está no ventre dela — protegido de todo mal, de toda dor, de todo sofrimento, enquanto é o pé dela que pisa a cabeça da cobra — esta é a mensagem posta pela gravura.

O parágrafo acima revela o espírito do nosso século representado na gravura: o advento do feminino, da deusa mulher, da superioridade da mulher sobre o homem, da assunção da maternidade sobre a paternidade.

Ainda que a mulher da gravura fosse a Igreja, o equívoco foi coloca-la grávida — mais do que um ruído, mais do que uma mera interferência, é um excesso de informação que desloca o interpretante do verdadeiro sentido do Natal para uma interpretação transbordada de sincretismo pagão da Nova Era.

Sem a encarnação completa, sem a vida de total obediência, sem a paixão e sem a morte substitutiva e a ressurreição vitoriosa que compõem o evangelho da nossa salvação, um Messias protegido no ventre de sua mãe enquanto esta resolve o problema criado pelo ser humano é a interpretação que sobra: Maria sem dar à luz é tão somente a eternização da esperança messiânica que nunca se completa, ou ainda, um messianismo que é apenas o do “povo sofredor”, representado pela mulher grávida.

Em outras palavras, é um outro evangelho o da gravura: “Porque, como, pela desobediência de uma só mulher, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de uma só mulher, muitos se tornarão justos”.

Este ensaio não comporta tudo o que poderíamos desenvolver sobre a importância de sabermos evangelizar nossa geração, compreendendo todas as nuances e complexidades do nosso multiculturalismo pós-moderno, ainda assim há duas regras simples que eu deixaria aqui.

A famosa regra de ouro diz que, em termos de comunicação, o importante é o que o outro entende e não o que você quis dizer. E evangelizar é comunicar as boas novas da salvação e o mais importante é sabermos o que o outro compreende e não o que eu penso sobre o que ele deveria ter entendido.

A segunda regra é que, como missionários, não basta trabalhar com pressupostos, mas antes com aquilo que está propriamente posto: é muito mais importante você compreender o que está posto diante do interpretante por essa imagem da mulher grávida do que esperar que esse interpretante consiga entender os pressupostos da própria imagem da mesma maneira que o seu gueto teológico os entende (“entendimento” este que pode também estar equivocado, conforme demonstrei aqui).

Acredito que é preciso comunicar melhor a mensagem do Evangelho, ainda mais quando a veiculamos nas redes sociais, ambiente que alcançará crentes e descrentes das mais diferentes formações, e essa é uma responsabilidade que cabe, indubitavelmente, aos líderes cristãos que se utilizam da internet.

                        Fábio Ribas

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Uma breve e pública confissão da minha fé*


                          Photo by Karen Dobberstein on Unsplash

Eu creio em Deus! Creio que Ele é o Criador de todas as coisas que há, tanto no céu como na terra.

A Beleza, a Justiça e a Verdade têm a causa e a manutenção em Deus. Creio, portanto, que toda poesia, toda vida e toda morte estão debaixo da Majestade Divina e que nada está fora de Seu controle e de Seu planejamento. Nada!

Eu acredito na Beleza! E só acredito nela, porque há um Deus que concebeu a prosa e o verso, o amor e o carinho. Os tons, as matizes, a multiforme sabedoria, que se encontram entre os mais diversos homens só são assim, porque tudo foi arquitetado pelo Deus que, um dia, os gerou num ato de extrema glória!

Eu acredito na Justiça! Jamais na justiça dos homens, que são incapazes de realizá-la satisfatoriamente, porque somos por demais fugazes e corrompidos em nossos juízos, valores e entendimentos. Todavia, porque há a Justiça Divina, creio que algo dela nos foi compartilhado e permitido. São lampejos, flashes, efemeridades da Graça que, eu sei, podem facilmente nos escapar entre os dedos, mas já são suficientes para fazer de cada um de nós seres que anseiam por justiça.

Eu acredito na Verdade! Esta só é possível se houver um Deus que seja a própria Verdade, porque os homens, os homens todos, somos mentirosos. E se somos todos inimigos da Beleza, da Justiça e da Verdade é, tão somente, porque o cego que busca avidamente a luz também se afasta naturalmente dela, por causa do temor de ser consumido pelo calor de suas chamas!

Eu também creio no Mal e no pecado de todos nós, por isso sei da mácula, da distorção e da depravação que os homens cometem, mesmo tendo em suas mãos os mais sublimes presentes doados por Deus! Como crianças ansiosas e egoístas que rasgam os embrulhos e depois destroem até seus melhores brinquedos ou deles se cansam, assim somos nós. Então, há também a Prudência (sem a qual muitos já se teriam perdido nesse caminho)!

Enfim, creio que há em cada cultura humana algo da Beleza, da Justiça e da Verdade. Há no Cristianismo, porém, um legado maior; há na Tradição judaico-cristã um instrumento mais sensível para que o ourives zeloso — o homem nobre — trabalhe com maior maestria o que Deus tem oferecido à humanidade nas esferas da política, economia, educação e outras.

Noto, contudo, que nada do que foi declarado aqui versa sobre a salvação do homem, nada do que foi exposto nesta breve profissão de fé proclama a reconciliação necessária do homem com Deus. Isto por crer também que quaisquer culturas e tradições jamais serão suficientes para retornar o homem ao trono da Majestade Divina (nenhuma, nem mesmo a cultura judaico-cristã). Há uma cultura ainda mais singular sobre as demais, a Cultura do Reino de Deus, um presente entregue pelo próprio Autor do texto, no qual todos estamos há muito escritos. Essa Cultura singular se revela nas Sagradas Escrituras.

Arte alguma redimirá o homem, e este só poderá ser redimido quando confrontado pela Aliança! Nunca houve noutra cultura a Revelação de um Deus que entrasse em Aliança com um povo, que estabelecesse um vínculo de morte e vida, um vínculo de sangue. E a Aliança, que tem por testemunha a tradição judaico-cristã fundada à luz das Escrituras, é o único caminho possível para que possamos nos reconciliar com Deus — o pacto feito definitivamente no sangue da nova e eterna Aliança em Cristo Jesus!

Todavia, sei que muitos de nós somos ainda como o cisne velho da bela música de Saint-Saëns, um cisne velho que reluta contra a morte de si mesmo, porque ama exatamente aquilo para o que deveria morrer. O cisne que se debate contra a velhice e o anúncio da inexorabilidade da morte, mas só contende (inutilmente) por não acreditar que, nessa Aliança, a morte é uma gloriosa porta de entrada e não de saída.

                    Fábio Ribas

*Escrito originalmente em 2012 e publicado no blog “O Seringueiro”, em 08 de setembro daquele ano.

https://www.youtube.com/watch?v=Wpk7Kx4dt-U

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