sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Cidade de Deus - Livro I (II/2025)

 

    Dizer que estou maravilhado é pouco. Já havia lido "Confissões", "Solilóquios" e "A Trindade". Livros arrebatadores! Qual não está sendo, contudo, minha surpresa com a profunda argumentação agostiniana neste "De civitate Dei"? Agostinho, neste "LIVRO I", inicia sua defesa contra as acusações de ser o cristianismo o responsável pela ruina dos romanos ("os antigos deuses romanos estariam enfurecidos por terem sido esquecidos"). Todavia, a sede de conquistar novos reinos, a luxúria, a devassidão moral de seus habitantes e a idolatria é que são, para Agostinho, a verdadeira causa da derrocada romana. Mas o que desperta essas acusações contra o Cristianismo?

    Os bárbaros entraram em Roma. Entretanto, contextualizando melhor, esses "bárbaros", na verdade, são cristãos arianos (uma seita que não acreditava nem na Trindade e nem na divindade de Cristo). Por isso, eles poupam os cidadãos romanos que se refugiaram nos templos cristãos. Isto, indubitavelmente, é algo inédito. Agostinho mostra que nunca se vira um povo conquistador fazer esse tipo de misericórdia com o povo conquistado. Quando, antes, se ouvira falar de pessoas poupadas por terem se abrigado nos templos pagãos? Este é o início do argumento de Agostinho: o bem que o cristianismo trouxe ao Império Romano. Em outras palavras, estamos diante de um processo civilizatório. Mas, para mim, o mais extraordinário está por vir, que é toda a discussão de Agostinho sobre o suicídio das mulheres que foram estupradas pelo povo conquistador. Vamos entender.

    Os pagãos estão acusando o Cristianismo de trazer a desgraça à Roma. Eles acusam indagando de que teria valido a conversão ao cristianismo e o abandono aos antigos deuses, se os males vieram tanto sobre pagãos como também sobre os cristãos? E é a partir disso que este gigante - Agostinho - começa a fazer uma teologia da história e da Providência. Se males vieram indiscriminadamente, também vieram bens sobre todos, defende Agostinho. Isto é o esperado na "Cidade dos homens", enquanto a "Cidade de Deus" não se revela completa e plena (o que só ocorrerá na volta do Senhor Jesus). Na Cidade dos homens, que está entrelaçada à Cidade de Deus, tanto males como bens ocorrem indiscriminadamente. Porém, o que se deve atentar não é isso, pois, para Agostinho, o que importa é a diferença no modo que cristãos e pagãos enfrentam seus males e bens. Tanto num quanto no outro, os homens se perdem. Os cristãos, defenderá Agostinho, enfrentam as adversidades da vida tanto para sua purificação, como para o testemunho da glória de Deus, pois os cristãos vivem na esperança de um mundo por vir e os pagãos não!

    É no avanço do livro que descobrimos o que realmente seriam esses tais males. Os bárbaros que invadiram Roma pouparam os que se refugiaram nas igrejas, pouparam tanto a cristãos como a pagãos. E Agostinho joga na cara dos pagãos isto: Como que vocês se levantam contra o Cristianismo, se, durante a invasão dos bárbaros, vocês mesmos foram poupados por se refugiarem nas nossas igrejas? Ainda assim, os bárbaros fizeram aos outros o que era próprio das guerras: assassinaram, roubaram, estupraram. Diante do estupro, em Roma, era de se esperar que tais mulheres se suicidassem. Os Romanos justificavam essa prática (tanto o suicídio da mulher depois do estupro, como o suicídio para não enfrentar o estupro) com a história de Lucrécia, que fora violada e, depois, suicidara. Ela era o padrão dos romanos para suas mulheres. Agostinho irá trabalhar essa história de Lucrécia. Primeiramente, ele louvará as suas virtudes, pois ela se guardara casta num mundo libertino. Porém, uma vez estuprada, "Lucrécia mata Lucrécia". E por que ela faz isso? Agostinho trabalha principalmente a ideia da honra social, diante das pessoas. Mas as virgens cristãs também foram estupradas.

    Diante do estupro, Roma esperava que as mulheres suicidassem, tanto as cristãs como as pagãs. Agostinho irá dizer que na lei de Deus está escrito: "Não matarás"! "Lucrécia não podia ter matado Lucrécia". As mulheres cristãs não vão suicidar, por amor ao Deus que elas servem e à Palavra dEle. Embora pareça honroso se matar para não ser violada, protegendo a castidade do corpo, Agostinho defende que a verdadeira castidade é a da alma e um estupro não tiraria essa virtude das mulheres! Mas o "Não matarás" tem exceções? Sim, na Bíblia, há exceções, contudo nenhum dos casos é por razões de honra social (podemos mesmo substituir: "nenhum dos casos é por razões culturais"). A cultura não pode legitimar crimes! As exceções bíblicas surgiram quando o próprio Deus assim o fez. Ligado a este argumento, Agostinho dirá que só se pode tirar a vida para agradar a Deus em santidade: é o caso dos mártires! E mesmo assim essa entrega da própria vida à morte deve ser quando a situação for bem clara, pois a orientação do próprio Jesus é de que seus discípulos, uma vez perseguidos, saiam para outra cidade. 

    O que mais me impressionou é que toda essa defesa de Agostinho não apenas fará com que o suicídio das estupradas pare de ser incentivado na cultura romana, como ele conseguirá até o apoio estatal para essas mulheres! O que isto significa? Este é um caso claro, óbvio, espantoso da transição da mentalidade pagã para a civilização promovida pelo Cristianismo. Fico pensando nos casos de infanticídio indígena; circuncisão feminina; etc. É fato que o Evangelho, tendo o próprio Povo de Deus como referência no meio dos povos, traz benefícios inquestionáveis a tantas culturas mundo afora. 

    No fim do livro I, encontramos a polêmica levantada sobre o teatro. Muitos acusam Agostinho de ser contra as artes cênicas, por causa dos últimos capítulos do primeiro livro da Cidade de Deus. Porém, sei que há outra obra em que ele fala sobre a importância da arte para a formação do ser humano e, além disso, o contexto no LIVRO I expressa que a acusação daquelas artes cênicas era o seu uso profano e libertino. Mas sigamos para o próximo livro. 

    No LIVRO I, são assuntos muito interessantes para se desenvolver a dignidade da mulher e a questão da condenação do suicídio. 

                            Fábio Ribas

sábado, 4 de janeiro de 2025

De volta para o meu lugar (I/2025)


    O livro “De volta para o meu lugar”, de Rosangela Marto, tem como subtítulo “A prova de que o amor e a felicidade sabem o caminho de casa”. O livro é uma narrativa envolvente sobre encontros e desencontros de uma história de amor (mais desencontros do que encontros, na verdade). 
    Gostei muito da narrativa da escritora. Um tom pessoal e bem construído. São memórias de uma vida de decisões equivocadas e que trazem sua conta à escritora. Depois de preparar para o leitor toda a apresentação dessas idas e vindas com o amor de sua vida, Rosangela acaba se envolvendo num casamento com uma outra pessoa e que lhe dá duas filhas. Todavia, após sua separação, ela se envolve com um narcisista abusador e é aqui o foco do livro. (A PARTIR DAQUI TEM SPOILER)
   Ela tomou decisões erradas que só a afastaram cada vez mais daquele primeiro e verdadeiro amor da sua juventude. Como acontece com pessoas feridas e magoadas por caírem em armadilhas por suas próprias decisões equivocadas, ela busca por "culpados" e, infelizmente, como ocorre com muitos, vemos ela culpar explicita e implicitamente, por umas quatro vezes pelo menos, a Deus e à Bíblia. Ela usa da doutrina de submissão bíblica para justificar o porquê de não ter pulado logo fora dessa relação abusiva. Mas a Bíblia também deveria tê-la orientado a casar com um homem que fosse igual a Cristo e se sacrificasse por ela, mas essa passagem não aparece na sua história. Quando tentamos fugir das escolhas erradas que fazemos, a tendência é achar culpados e nos escondermos de nossas próprias responsabilidades. 
    Como já disse, a autora nos apresenta uma sucessão de escolhas erradas desde a sua juventude, abrindo mão do homem que amava, que, aliás, mostra-se um homem de caráter (eu chorei com aquela proposta dele assumir um filho que não era dele); depois, o mergulho nessa segunda relação que gerou um casamento de 16 anos e duas filhas, até que, finalmente, ela casa às pressas com um estrangeiro e vai morar com ele na Alemanha. E isto tudo é vida real.
    O capítulo "nossas viagens" destaca-se. Talvez pelo que ela esteja tratando, mas foi um capítulo maravilhosamente bem escrito e que nos lança a viver aquilo tudo com ela. Psicopatas de todos os tipos vivem entre nós. Sou pai de duas filhas e tento ensiná-las a prevenção contra abusadores e vampiros emocionais desde cedo. Sempre há sinais. O livro mostra que ela também viu a fumaça antes de se deparar com o fogo, do qual depois  não conseguiu mais fugir. Embora, como tenha dito, o livro é, antes de tudo, um alerta contra abusadores emocionais, mas é também um livro doutrinário. A autora toma todo o cuidado de não citar a denominação religiosa à qual pertence, mas responsabiliza a Bíblia e o temor que ela gera acerca de Deus como responsáveis por ela não pular fora de tudo o que está enfrentando. Quando digo que é um livro ideológico, doutrinário, não o faço apenas por essa acusação à Bíblia, mas também por ela trazer mais 3 temas que quero tratar abaixo, a saber, primeiro, é um “livro para mulheres”; segundo, ela traz a baila o tema do jugo desigual; e, terceiro, todas as crises se resolvem na constelação familiar.

    É um livro especificamente para leitoras. Durante a escrita, ela se dirige a mulheres e isso me fez ligar três alertas: 1) relacionamentos tóxicos vitimam homens também; 2) é um livro para reunir aquelas que, de algum modo, tiveram seu coração sacrificado no altar de um narcisista e, fragilizadas, se abrem para soluções de quaisquer espécie; 3) ela não assume sua responsabilidade pessoal naquilo que ela vive, embora, durante a leitura do livro, vemos que ela segue tomando decisões que a prejudicou. A responsabilidade, como já disse, sempre recai sobre a Bíblia, a Igreja e Deus. Por isso, não é de se estranhar que, no fim de tudo, a solução apareça sob a forma de uma espiritualidade que, mais uma vez, transfere para uma força impessoal tudo aquilo que ela sofre. A Bíblia insiste em dizer que você colherá o que você semeia. A Constelação familiar apresenta que você colhe o que outras gerações da sua família plantou. 

    Ela questiona a Bíblia, Deus e a Igreja várias vezes. Contudo, não vemos nenhuma vez que ela busque por aconselhamento bíblico! Por anos, ela segue tomando várias decisões e, quando vêm as consequências negativas, a culpa é sempre do “outro”. Como a Bíblia fala de submissão, ela coloca a responsabilidade de suas decisões equivocadas nesse ensino bíblico, porém, em momento algum, ela expõe que o mesmo texto que fala de submissão é o que também descreve o que uma garota cristã deve buscar num futuro marido: alguém que ame a esposa assim como Cristo amou a Igreja. E ela nunca busca um homem como esse. E, depois de tantas buscas erradas e sofridas sob a alegação de que a Bíblia ordena submissão, ela, finalmente, justifica sua grande união “eterna” com um homem descrente. Ela deveria buscar um homem que amasse mais a Jesus do que a ela. Mas não é isso o que ocorre. O que nos leva ao terceiro tema doutrinário/ideológico do livro: a doutrina espiritualista da constelação familiar.

    Durante o livro, vemos a conversão da autora, mas nunca seu discipulado ou crescimento nas verdades bíblicas. Ela fala sobre Deus e igreja, mas, na maioria das vezes, para tecer uma crítica que só vai ganhando mais engajamento à medida que avançamos na leitura. Finalmente, ela chega ao ponto central: se a Bíblia a afastou do seu verdadeiro e eterno amor, agora, graças à crença comum entre ela e seu amado na constelação familiar, ela pode, enfim, se entregar e ser feliz na sua maturidade. Aqui, na terceira parte do livro, é que há uma mudança de chave. Cada vez mais, a palavra “Deus” vai sendo substituída por uma expressão que revela a verdadeira cosmovisão da autora. Ela passa a falar não mais em Deus, mas em “conspiração do universo”. A constelação familiar, como ela bem explica no livro, é uma experiência religiosa - mas para nos religar a nós mesmos e aos nossos antepassados. Um entendimento do mundo, do ser humano e de nossa natureza totalmente contrária ao cristianismo bíblico. E, por tudo o que ela diz, deveria saltar aos olhos do leitor(a) atento(a) que estamos diante de um gnosticismo, de um paganismo que nada tem a ver com cristianismo. O mais interessante é que a autora está sendo coerente com o que, desde o início do livro, ela vinha tecendo para nós. O cristianismo exige responsabilidade pessoal. A constelação familiar, não. O cristianismo exige que, ao olharmos para a Bíblia, haja arrependimento dos nossos pecados e reconhecimento de que há um Deus pessoal e não uma força impessoal que rege a nossa vida - não somos vítimas do que nossos pais ou gerações anteriores fizeram. A culpa não é da mãe! A Bíblia é clara em afirmar que os filhos não serão responsabilizados pelos pecados dos pais. A culpa é nossa e a Bíblia precisa ser enfrentada como um todo e não em partes.

    Depois de toda uma jornada de escolhas erradas, vemos a autora encontrar um mestre que diga, então, o que ela gostaria de ouvir. Veja o que diz 2 Timóteo 4: 1-5.

Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas.

        Fábio Ribas

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Musas e músicas (XLIV/2024)

 

“Feliz é quem as musas amam”, escreveu o poeta Hesíodo. Os grandes gregos, como ele, encontraram nessas figuras femininas uma boa tese para explicar o mistério da criação. Na mitologia, elas eram nove. Filhas de Zeus e Mnemósine, a deusa da memória. Conta a lenda que Apolo, em uma tarde qualquer, passeando por Montparnasse com sua flauta, foi seduzido pela visão das nove ninfas saltitantes, cantando, dançando e colhendo flores. Elas também ficaram encantadas com a beleza e a música daquele deus grego. Acompanhadas por Apolo, as talentosas irmãs passaram a se apresentar nas festas do Olimpo e conquistaram a simpatia dos deuses com seu charme e sua leveza. 
A cada uma delas foi designado o dom de inspirar uma arte: Tália era a mu-sa da comédia. Clio inspirava a história. Érato, a poesia amorosa. Euterpe, a música. Terpsícore, a dança. Melpômene, a tragédia. Calíope, a poesia épica. Polímnia, a poesia sacra. Urânia, a astronomia. E ai de quem despertasse a ira das musas! Quando desafiadas, elas se tornavam terríveis, capazes de cegar inimigos e arrancar escamas de sereias. Na maior parte do tempo, porém, eram criaturas adoráveis, afinadas e cheias de inspiração para dar. Amantes das águas e das fontes, seu pássaro era o cisne. Seu cavalo, o alado Pégasus, presente de Atenas. Seu templo era o Museion, daí o termo museu. E, não por acaso, a palavra música vem de musa" (p. 23).

Cresci em uma casa extremamente musical. Havia coleções e coleções já organizadas de LPs dos mais variados estilos naquela sala da casa da minha mãe. Elas gostavam de tudo, as minhas irmãs e minha mãe, desde Roberto Carlos até a discoteca dos anos 70, havia raridades em negros bolachões. Muitos desses discos acabaram se perdendo no tempo, mas a formação musical ficou em mim. A influência de Agnaldo Rayol, Nelson Gonçalves, Vinicius, Toquinho e Tom Jobim, por exemplo, está aqui dentro de um acervo de memórias que trago sempre.

Essa influência toda levei ao campo missionário. O que me fez ser muito atento com as produções musicais das mais diversas culturas com as quais trabalhei, e não apenas indígenas! Um dos momentos musicais que mais me marcaram foi quando conhecemos o CTG (Centro de Tradição Gaúcha) de Canarana. Aquilo pregou em mim por tudo o que significava numa cidadezinha de apenas 20.000 habitantes no interior do Estado do Mato Grosso. Eram os encontros das famílias sulistas para eventos culturais de música e poesia próprias. As crianças = meninos e meninas — recitavam poemas enormes para seus pais, famílias e amigos entusiasmados e entusiastas. Coisa linda de se ver, cultura passando de pais para filhos e sobrevivendo naquelas famílias, que se viam em terras distantes e longe de seus ancestrais.

Nem sei como cheguei ao livro “Musas e músicas”, de Rosane Queiroz, mas li suas páginas com gosto e muitíssimo prazer. São as histórias por trás das musas que inspiraram as músicas da MPB. Algumas de amores impossíveis, outras de amores platônicos, adultérios imaginados, outros efetivados. Musas fictícias, outras jamais confessadas. Quem é a Lygia que inspirou Ligia, de Tom Jobim? Como se deram esses encontros e desencontros? Como, digam-me, João Gilberto faz aquela outra letra para a conhecidíssima “Ligia” de Tom Jobim? 

São tantas histórias que acabamos passeando pela história do Brasil nas letras de músicas que eu conhecia, mas também de outras que nunca antes ouvira. “Gilda”, música feita para a nona e última esposa de Vinicius de Moraes, eu não conhecia. Assim como me era desconhecida “Risoflora” de Chico Science. “Drão”, de Gilberto Gil, desfez a história errada que eu tinha do que teria sido a inspiração dela. 

O livro é um prazer. A gente lê rapidamente, quisesse eu. Mas não quis. A cada música e a cada musa, eu ouvia no youtube as referidas e buscava também as fotos na internet das tais musas para mergulhar nesse universo todo. Um universo todo feminino. Ao terminar o livro, duas constatações: primeiro, ao conhecer os contextos de textos, essas letras e melodias ganham uma camada nova de admiração; segundo, infelizmente, nossa música já foi muito, mas muito melhor do que a produzida. Enquanto lia essas letras e ouvia essas músicas do livro, lembrei-me que o Brasil de Vinicius, Tom Jobim, Belchior, Chico Buarque, Caetano Veloso, Sá e Guarabyra, 14 Bis, Boca Livre… — a lista dos letristas e poetas de nossa MPB não tem fim! — todavia, saber que com tanta referência maravilhosa para os nossos jovens, o Museu da Língua Portuguesa abriu espaço para quem? Anitta e suas letras e músicas! É de corar de vergonha! O Brasil declinou, mas não foi uma mera declinada “à la torre de Piza”, foi uma hecatombe ladeira abaixo com direito à lama na boca e dentes quebrados nessa queda!

Eu tive uma surpresa maravilhosa na leitura do livro. O primeiro texto é da autora, em que ela narra o processo de criação da obra, que nasceu de uma pesquisa de mais de 10 anos! O segundo texto não indica de quem é a autoria, assim, enquanto lia o segundo, achei que seria também dela. O que me levou à surpresa do terceiro texto do livro, pois, quando eu cheguei ao fim, vi que aquele resumo histórico fascinante apresentado ali sobre a “história da musa” era da autoria de Isolda Bourdort. Isolda é autora de músicas lindas como “Outra vez”, Jura secreta” e “Um jeito estúpido de amar”. E é com o último parágrafo desse texto dela que eu termino o meu:

“Nos últimos tempos, a musa não é mais a mesma. Do mito da namorada morna à vulgaridade da cachorra, da popozuda, passando pelos mais diversos papéis, ela conquistou o direito de ser dona do seu pedaço. Mesmo que esse espaço seja tão pequeno que nele só caibam aparelhos de ginástica, potes de cremes antirrugas e anticelulite, roubando a vaga dos filhos e dos livros, mas deixando lugar para muitos espelhos — embora ela mesma não consiga enxergar o que aconteceu ao longo do caminho, para que hoje, tão segura de si, procure fugir exatamente daquilo que por todo esse tempo procurava: essa tal liberdade, que na verdade veste a sua solidão”.

                            Fábio Ribas


PS — Gente, e aquela história com a música “Marina morena”, que quase acaba em morte? rsrsrsrs

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Netotchka Nezvanova (XLIII/2024)


O surgimento de Dostoiévski na cena cultural russa se deu no momento em que as ideias socialistas em várias de suas versões tomavam a sociedade intelectual da época. Por isso mesmo, vemos um Dostoiévski sendo arrastado para o centro desse debate e também para sua conversão ao socialismo, que é o fator que causará sua prisão e exílio na Sibéria. Dentre tantas versões socialistas que eram apresentadas, duas concorriam pelo coração dos russos no século XIX: a versão utópica, que absorvia os ensinos do cristianismo, mas não suas doutrinas transcendentes, sendo, portanto, apresentado como um moralismo que devia substituir o cristianismo; e a versão hegeliana ateia e totalmente antirreligiosa. Nesta, o homem deveria abandonar qualquer transcendência, pois a referência estava na humanidade e não na divindade.

Adepto da primeira versão, a utópica, Dostoiévski surge como o melhor realizador da escola literária do seu tempo, a “escola natural”, fortemente de cunho socialista e preocupada em mostrar a massa, o povo, que era explorado pela aristocracia daquele tempo. Assim surge “Gente pobre” (leia aqui). Esta obra teve aceitação antes de sua publicação, pois partes dela eram lidas no círculo intelectual conhecido como “a Plêiade”. Contudo, por diversos fatores, depois de lançada, não foi acolhida unanimemente nem pela crítica e nem pelo público. Ao livro “Gente pobre”, seguiram “O duplo”, “A senhoria” e “Noites brancas”. A minha percepção é que, em cada uma dessas obras, está diante de nós um autor diferente. Se seu primeiro romance pode se enquadrar sob a etiqueta de “romance social”, o que dizer de “O duplo”? Em que a loucura e a fantasia, a realidade e o sonho, a verdade e a mentira nos deixam perplexos em suas situações tragicômicas. Em “A senhoria” é apresentado, por exemplo, o tema do gótico e do místico e, finalmente, em “Noites brancas”, a narrativa soa como um romance juvenil de fortes arroubos emocionais. Quantos Dostoiévskis, não? Mas o que haveria de comum entre esses romances todos? Alguns dizem que a figura do “sonhador” ganha cada vez mais espaço em suas narrativas e também a figura da “mulher infernal” já vai se delineando nesses romances da primeira fase (Joseph Frank). Por minha parte, há um ponto em comum que saltou-me aos olhos agora na leitura de “Netochka Nezvanova”, 5º romance do autor russo.

Em “Gente pobre”, os afetos românticos não consumados se dão entre Makar e Bárbara, mas a diferença de idade entre os dois é de uns 20 anos! “O duplo” apresenta uma paixão delirante do personagem principal por Klara; “A senhoria”, além de repetir o tema do amor delirante, aborda o tema do incesto. “Noites brancas” apresenta, mais uma vez, o tema do amor que se desfaz em nada. Em todos esses, de fato, as mulheres são apresentadas nessas situações de darem esperança, mas, logo em seguida, abandonarem seus pretendentes. Agora, em “Netochka Nezvanova”, a narrativa se concentra apenas no universo feminino e no tema da dubiedade e do erotismo, mas entre as mulheres da história. Ou, sendo mais preciso, as duas personagens femininas têm por volta de apenas dez anos de idade. Assim, a questão sexual e psicológica individual dos personagens de Dostoiévski é proeminente em todos os seus livros, mesmo em “Gente pobre”, seu romance de estreia e tido como um romance “naturalista e de cunho social”. A psiquê perturbada e desencaixada será o tema comum que tomará espaço definitivo no Dostoiévski após o exílio na Sibéria.

(spoiler)

Em “Netochka Nezvanova”, Netotchka foi encontrada caída na rua e levada à casa do príncipe. Os pais de Netochka morreram. Seu pai, que descobriremos, na verdade, ser seu padrasto, fora um genial músico, mas que o ciúme, a inveja e o alcoolismo o enlouqueceram. Sua mãe, vítima de um casamento difícil e de enorme carência emocional, afetiva e financeira, foi levada desta vida pela miséria e abuso do marido. Há na casa que adota Netochka, além da princesa, a tia do príncipe e o próprio príncipe. A história é contada por Netotchka, quando já adulta. Ela narra as lembranças de sua infância trágica e infeliz, mas ela amava o pai padrasto. Ele casara com sua mãe quando Netotchka tinha 3 anos de idade. Seu pai mesmo morrera, logo depois que ela nascera. Este romance, que Dostoiévski interrompeu por causa do exílio retornando a ele só seis ou sete anos depois, é construído em duas partes. A primeira, na casa do príncipe. A segunda, numa outra casa em que a menina tem que ir morar, quando a família do príncipe se muda. A primeira parte cria muitas expectativas que não tem continuidade. Fiquei com aquela impressão de ter tomado fôlego, prendendo a respiração, para um mergulho que não aconteceu. E a segunda parte, depois de tudo, não se conecta à primeira. Enfim, embora estejam ali todos os grandes temas do autor — inclusive o tema do sacrifício cristão — , achei um “romance menor”. Talvez por ser mesmo isto: um romance de transição entre tudo o que ele escreveu até agora e o Dostoiévski que emergirá da Sibéria. Aguardemos.

            Fábio Ribas

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Violência e armas (XLII/2024)

 

“O fato de que armas de fogo registradas legalmente são quase nunca usadas em crimes sérios não deteve os governos ingleses de continuar a apertar os controles ao armamento” (p. 195). Esta frase surge no capítulo que tem por título “somente os criminosos possuem armas”. Tanto o título do capítulo como a frase com que iniciei o texto retratam a realidade brasileira, todavia, fico perplexo que estejam descrevendo a realidade da Inglaterra.

Joyce Lee Malcom, autora de “Violência e armas”, é Ph.D em História Comparada, especialista no estudo de leis constitucionais do período britânico e colonial americano, irá nos mostrar a falácia de quem defende que o menor uso de armas significa uma menor onda de crimes. Para isso, em seu livro, era desenvolverá a presença de armas de fogo desde o tempo medieval até a história do século XX da Inglaterra. Além disso, ainda nos oferecerá um precioso capítulo em que compara a situação atual da Inglaterra com os Estados Unidos, país em que a garantia da proteção individual é garantida na Constituição.

“Armas cometem crimes?” é a pergunta com que a autora inicia o primeiro capítulo do seu livro. Mais uma vez, fiquei perplexo que num livro sobre a história do armamento e desarmamento da Inglaterra pudesse, na verdade, parecer que falasse dos brasileiros. A pergunta é de resposta tão óbvia que jamais poderia imaginar que se desse em contexto inglês. Já estou acostumado, no Brasil, a mostrar e defender que a grama é verde, contudo, diante de outros países com histórico de defesa do direito individual é surpreendente que, para eles, também vejamos que a manipulação e a distorção da realidade ocorram.

Primeiro mito combatido no livro é que a Inglaterra sempre foi um país violento. Porém, com o controle de armas pelo cidadão comum, a violência no país cresceu assustadoramente no século XX até os dias atuais. Cresceu como nunca antes, desde a Idade Média inglesa. Vamos comparar o que eu disse com o seguinte outro fato, “…o fato enigmático de que a era Vitoriana conseguiu manter uma taxa invejavelmente baixa de crimes violentos, apesar dos numerosos problemas sociais e de nenhum controle sobre as armas” (p. 13). Quer mais?

“Armas de fogo — mosquetes, espingardas e armas curtas — tornaram-se de uso mais comum no século dezesseis, quando os homicídios já estavam em declínio. De lá até 1920 não houve restrições efetivas à sua posse. As duas tendências se cruzam: os crimes violentos continuaram claramente a declinar ao mesmo tempo em que as armas se tornavam cada vez mais disponíveis” (p. 32).

A autora passa a nos fornecer os eventos históricos que desenvolveram e aprimoraram o sistema jurídico inglês e aqui um dos pontos centrais é que “a defesa própria foi há muito tempo reconhecida como não somente uma, mas como a “lei primária da natureza” (p. 35).

Há detalhes no desenvolvimento histórico dos crimes que são fascinantes e tendem a mascarar a realidade que temos do nosso próprio passado. Por exemplo, na Idade Média, o número de crimes contra pessoas poderia ser ainda menor, mas “os jurados podem ter desejado proteger a família do falecido, já que a lei daquela época punia o suicídio com o confisco dos bens imóveis da pessoa pelo rei” (p. 43). Embora por todos os séculos anteriores ao século XX, o número de crimes contra propriedades era sempre maior do que o de crimes contra pessoas, descobrimos o crescente número de infanticídio ocorrido nos séculos dezesseis, dezessete e dezoito, tornando-o um dos crimes mais comuns da Inglaterra.

Quando começam a surgir, por parte dos governos, as primeiras restrições à posse de armas por cidadãos comuns, isto refletia o desejo do governo em controlar grupos revolucionários. Assim, o padrão se intensificava cada vez mais: quando em guerra, armava-se os cidadãos e, uma vez vindo o período de paz, o próprio governo ia e desarmava o seu cidadão. Ainda que a maior parte dos assassinatos ocorre-se “com aquilo que se encontrava à mão no calor do momento” (machadinhas, facas, pedras etc), foram as armas de fogo o alvo dessas leis. Isto demonstra que, assim como em todos os lugares do mundo, o governo quer é se proteger contra um cidadão que resolva proteger-se de ações governamentais exageradas e invasivas.

O que foi dito no parágrafo acima é tão óbvio que, mesmo com dados e estatísticas favoráveis às armas de fogo (isto é, as pessoas envolvidas em crimes contra outro ser humano dispunham sempre de outros objetos para atentar contra a vida), ainda assim era contra as armas de fogo que cada vez mais as leis restritivas se impunham.

Por fim, o que pensar quando a própria Inglaterra entrou numa espiral de desarmamento do cidadão comum contra todos os dados e estatísticas. O que só me leva a encarar a realidade de que aquele dito que diz “contra fatos não há argumentos” é pura ingenuidade. O que vale é: “contra a ideologia não há fatos”.

            Fábio Ribas

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Nos passos de Hannah Arendt (XLI/2024)

 


Nestes últimos anos, além de vários artigos e ensaios, tive a oportunidade de ler “Eichmann em Jerusalém”, “Homens em tempos sombrios”, “Origens do totalitarismo”, “O que é política” e, neste exato momento, tenho em mãos a última obra escrita por Arendt, lançada após sua morte, “A vida do espírito”, leitura que já estou tendo o prazer de fazer. Pretendo ler também sua obra inaugural “O conceito do amor em Santo Agostinho”. Aliás, descobri que essa primeira obra filosófica de Arendt recebeu críticas terríveis de Karl Jaspers, seu orientador e amigo de sempre. É muito interessante acompanhar não apenas o contexto histórico, mas, principalmente, as características da personalidade da jovem filósofa de apenas 22 anos de idade que contribuíram para as críticas recebidas sobre sua tese em Agostinho.

Por tudo isso, ler a biografia “Nos passos de Hannah Arendt” foi uma experiência apaixonante, particularmente por Laure Adler oferecer um roteiro bibliográfico de formação da Hannah Arendt. Assim, podemos acompanhar, durante cada etapa da vida da filósofa, os livros que ela lia, os autores que devorava, os poetas nos quais ela se refugiava nos tempos difíceis. Adler também vai marcando, passo a passo, o momento em que Hannah escrevia seus artigos, ensaios e livros. Resultado? Preciso reler o livro de Laure Adler, fazendo esse roteiro bibliográfico de Hannah, sobretudo agora que foi lançado o “Escritos judaicos”, obra que reúne os artigos de Hannah Arendt até os anos 60.

Acredito que meus primeiros contatos com Hannah Arendt se deram ainda na Faculdade de Letras, por causa de seus escritos na área de educação americana, nos quais ela criticava a postura vitimista da comunidade negra e o que ela considerava um uso errado das crianças negras por seus pais na luta pelos direitos de ir à escola dos brancos, colocando essas crianças em situação de risco. Hannah não acreditava que o racismo deveria ser combatido com criação de leis antirracistas, pois estas teriam um efeito contrário na sociedade. Obrigar por meio da lei as crianças negras a frequentarem escolas de brancos, lugares em que elas eram humilhadas, maltratadas e indesejadas levanta, para Arendt, a indagação se valeria a pena “forçar o real e deixar essas crianças viverem o inferno, em nome de uma luta contra a segregação, impor que elas se tornassem os heróis da luta antirracista”. Hannah foge sempre dos clichês politicamente corretos e denuncia que “há também uma derrota de autoridade dos adultos, que abdicam de sua responsabilidade ao delegar ao Estado a preocupação em se ocupar de seus próprios filhos”. Hannah pergunta: “Será que chegamos ao ponto de pedir às crianças para mudar o mundo ou melhorá-lo? Será que procuramos conduzir nossas batalhas políticas no pátio de recreação das escolas?”.

Esta é Hannah Arendt: uma filósofa que resolveu pensar em tempos sombrios e que, certamente, arcou com as consequências de fazer perguntas tão obscenas quanto “os judeus são responsáveis por seu extermínio?”. Para Hannah, o “mecanismo de apagamento voluntário do ser judeu precedeu e talvez tenha autorizado o Holocausto”. O livro de Adler, portanto, é uma imensa narrativa sobre os embates, guerras, tragédias, genocídios e assassinatos vividos e refletidos por essa judia nascida alemã em pleno século XX.

Adler nos dá o contexto dos judeus que, por tanto tempo, ainda no século XIX, lutaram pelo direito de serem recebidos como cidadãos na Alemanha, mas que, repentinamente, seus filhos veriam crescer no século seguinte o movimento do Nacional-Socialismo e sua política antissemita. Judeus ou alemães? Essa crise de identidade acompanhará aquela geração de judeus alemães que cresceram junto com Hannah Arendt.

“Nos passos de Hannah Arendt” retrata muitíssimo bem toda a polêmica que acompanhou Hannah diante da publicação de “Eichmann em Jerusalém”, obra jornalística em que ela expõe a cooperação dos Conselhos Judaicos na confecção das listas dos que seriam mandados para a morte nos Campos de Extermínio dos nazistas. Embora essa cooperação já fosse do conhecimento dos tribunais e governos antes mesmo do próprio julgamento do nazista Eichmann, ela expõe o fato de uma maneira que a indispõe com muitos dos líderes e anciãos judeus da época ao ponto de vários rabinos escreverem às comunidades judaicas orientando-as para que, durante a comemoração do Ano Novo, elas pregassem contra Hannah Arendt. Laure Adler pinta com todas as graves cores a perseguição, o ódio, a difamação e injustiças sofridas por Hannah, que foi criticada muito mais pelo que disseram que ela disse (mas não disse) do que pelas coisas que, de fato, escreveu. Adler, porém, não esconde as falhas, os erros, as contradições e o orgulho de Hannah Arendt. O próprio fato de, como conselheira editorial, ela ter impedido a publicação, antes do lançamento de “Eichmann em Jerusalém”, do livro do historiador Raul Hilberg, que já apresentava toda a documentação sobre a cooperação dos Conselhos Judaicos ao regime nazista, demonstra estes traços negativos da filósofa.

É em “Eichmann em Jerusalém” que Hannah Arendt apresenta o seu famoso conceito de “banalidade do mal” ao defender que o ser humano não precisa ser “mau” para praticar a maldade, fugindo das caricaturas tão propagadas do louco nazista ou do sádico de suástica e também do funcionário público estúpido. Ela percebe que qualquer um de nós, “pessoas comuns”, podemos cometer as atrocidades que foram empreendidas por pessoas como Eichmann. Ao desenvolver essa tese, Hannah quer refletir sobre três coisas: 1) a natureza do mal; 2) como evitar que um novo genocídio ocorra de novo; e 3) o que leva pessoas comuns como Eichmann a se tornarem uma peça numa engrenagem assassina.

A partir desse conceito de “banalidade do mal”, Hannah demonstra que a origem das ações criminosas perpetradas por pessoas como Eichmann reside no momento em que elas abdicam do seu direito de pensar, entregando-se à moral fornecida pelo Estado por meio da lei. Elas abrem mão da própria consciência, abrem mão de refletir, de pensar, de julgar. Para Hannah Arendt, portanto, o ser humano, qualquer ser humano, torna-se agente do mal quando não reflete, não pensa, quando abre mão da própria consciência e adota, enfim, a moral do Estado ou do grupo.

Particularmente, entre as contradições da filósofa, a que mais me chamou a atenção foi que, na vida amorosa, Hannah Arendt aceitou a submissão a dois homens abertamente contrários à causa judaica: Heidegger e Heinrich. O primeiro, filósofo que aderiu ao Nazismo e fechou as portas da Universidade para professores judeus, foi amante de Hannah. O segundo foi seu marido e, como comunista, nunca apoiou as causas judaicas, sempre se apresentando avesso às lutas sobre o Estado de Israel.

Ainda por causa da sua experiência com Eichmann, ela escreverá sua última obra sobre o pensar, sobre a vida do espírito. O ato de pensar é a única saída para que o ser humano não repita mais os crimes terríveis perpetrados por regimes totalitaristas. É preciso, então, que o homem reflita, pense, julgue, não abra mão da sua consciência. Assim, a própria vida de Hannah Arendt é um testemunho sobre sua lealdade ao que pensava, refletia, julgava. Contra tudo e contra todos, ela teve coragem de tocar em temas polêmicos que a Europa se recusava a refletir, a pensar.

Em determinado momento do livro, a autora Laure Adler indaga: “Visivelmente impregnada de um cristianismo primitivo, influenciada pelas Confissões de Santo Agostinho, fazendo do amor pelo bem uma qualidade política, será que Hannah se tornou crente?”.

Hannah, aluna de Bultmann e fiel leitora de Kant, Heideggeriana, busca uma filosofia que ultrapasse seu professor de fenomenologia, Husserl: ela crê que o nascimento é o fundamento da vida e faz da vida a razão da sua filosofia. Cada nascimento é um novo começo, é a vida retornando, dando uma nova chance ao homem. A biógrafa de Hannah relata que, assistindo ao Messias de Handel, a filósofa teria tido uma iluminação: “Tivemos um filho. (…) O cristianismo é de qualquer maneira alguma coisa”. Leitora atenta dos Evangelhos, especialmente o de São João, Arendt vê de maneira especial o nascimento de Jesus como uma cisão na história da humanidade. “Todo começo é salvação, é em nome do começo, em nome dessa salvação, que Deus criou os homens no mundo. Cada novo nascimento é como uma garantia de salvação no mundo, como uma promessa de redenção para aqueles que não são mais um começo”. Diante dessas palavras de Hannah Arendt, recordo os versos do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, os quais podem ser apresentados como síntese poética da filosofia proposta por Arendt:

Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina.

Diante da indagação se teria Hannah se tornado crente, Adler menciona uma enigmática e insistente homenagem que Hannah presta a Jesus: “O milagre que salva o mundo, a esfera dos negócios humanos, de sua ruína normal e natural é, em última análise, o fato do nascimento, no qual a faculdade de agir se radica ontologicamente. (…) Esta fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e tão glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a boa nova: ‘Nasceu uma criança entre nós’…”.

                Fábio Ribas

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Carl Jung, sincronicidade e a barata (XL/2024)


Há muitos anos, eu li dois livros que impressionaram profundamente minha psiquê, deixando marcas indeléveis. São eles “Freud e Jung — sobre a religião” e “Resposta a Jó”. Este causou-me escândalo pela forma como abordou a Bíblia e o cristianismo e aquele me chamou a atenção pela exposição didática com que tratou o tema que dividiu Freud e Jung.

Dois livros que, obviamente, são frutos do seu tempo, ou melhor, que representam a racionalidade iluminista do homem europeu e sua posterior derrocada. Freud representa o homem moderno na sua escolha pela razão e em sua preocupação científica em delimitar suas pesquisas fazendo um recorte na tez do mundo físico: um homem marcado pela filosofia de Descartes, Hegel e Spinoza. Essa mentalidade do Idealismo forjou perenemente o perfil de Freud e seus estudos, além de explicar a gênese da ruptura entre ele e Carl Jung. Por sua vez, a Psicanálise desenvolvida por Jung trouxe ao divã aquilo que os racionalistas rejeitaram: o poder da religiosidade do ser humano. Todavia, não posso me furtar a dizer que a cena mais impactante do livro “Freud e Jung — sobre a religião” foi a narrativa ali feita sobre um sonho que Jung tivera. Ele sonhara que Deus vinha caminhando num campo, um Deus gigante e que se depara com uma basílica, uma igreja cristã e, então, Deus se posiciona sobre a igreja, desce as calças que vestia, coloca-se de cócoras e defeca sobre ela…

Freud defendia que a causa das neuroses encontrava sua gênese na sexualidade, ou melhor, na repressão da libido humana. Insatisfeito em limitar todas as explicações a este campo, Jung começa a questionar seu professor se não poderia haver outras razões escondidas no campo das religiões, dos mitos e da parapsicologia, por exemplo (Carl Jung buscava orientar suas pesquisas na direção do Oculto, interessava-se por sessões mediúnicas e por precognição). Tudo isso, entretanto, era um verdadeiro absurdo para Freud. Enfim, enquanto Freud permaneceu no campo do provável, coube a Jung abrir as portas da percepção da ciência psicanalítica rumo ao improvável. Em “Resposta a Jó”, Jung nos apresenta um Deus — Javé — destituído de consciência, um Deus amoral! Um Deus que, na verdade, aprende com Jó e com os sofrimentos humanos, um Deus construído, um símbolo. Javé é analisado como um Deus que, junto com os homens, “quer fugir da injustiça cega”. E a grande epifania de Deus, para Jung, foi quando a Igreja Católica Romana decreta o dogma da Imaculada Conceição, elevando Maria à semelhança de um deus e entregando a Javé aquilo que lhe faltava: Maria era a Sofia do AT, a peça fundamental para equilibrar a masculinidade e o patriarcalismo da Santíssima Trindade. Diante desta pequena amostra das ideias desenvolvidas no livro de Jung, não é mera coincidência que a Europa apresente hoje um pós-cristianismo que, na verdade, é muito mais um renascer do antigo panteísmo. A decadência da modernidade freudiana é o advento de um panenteísmo pós-moderno revelado pela psicanálise de Jung no inconsciente de todos nós. Eis, então, dois livros que nos servem de ilustração para compreendermos os eventos ocorridos nos últimos dois séculos na Europa e que se estendeu ao Ocidente: a Modernidade e a Pós-modernidade!

Por estes dias, assisti ao filme “Um método perigoso”, que narra exatamente este período de encontro e desencontro entre Freud e Jung e também a paixão intempestiva entre Jung e uma paciente sua, Sabina Spielrein, que se tornará mais tarde psicanalista, especializada em psicologia infantil. Há uma cena nesse filme que ilustra bem o que eu expliquei no parágrafo anterior. Jung questiona Freud se tudo teria que se restringir à sexualidade e se eles não poderiam, então, pesquisar a metafísica, a parapsicologia, etc. Freud reage frontalmente a essa posição, mas, precisamente naquele momento da discussão entre os dois, o móvel da Biblioteca da casa de Freud dá um grande estalo. Jung diz ao seu professor que sabia que isso iria ocorrer, porque, nas palavras de Jung, enquanto Freud estava reagindo às suas ideias, ele sentira um fogo, uma queimação em seu estômago. Freud, compreendendo que tudo não passara de mera coincidência, ficou escandalizado com as ideias de seu pupilo, Jung, contudo, insistiu dizendo que o estalo iria acontecer de novo. Dito e feito! Mal terminara de falar, um novo estalo ocorre diante de Freud em sua estante de livros. Posteriormente, numa carta a Jung, Freud atribui o ocorrido a uma enganação, uma farsa forjada por Jung para desmoralizá-lo.

Para Freud, tudo não passava de meras coincidências. Para Jung, coincidências não existiam. As coisas estão todas ligadas; os fatos que não tem conexão aparente estão conectados, assim como havia pessoas que se percebiam convergir em direção a outras por “coincidências” que denunciavam uma unidade espiritual entre elas e a isso Jung dá o nome de sincronicidade. E é com uma ilustração deste conceito junguiano que encerro este meu texto. Após assistir ao filme “Um método perigoso”, fui à biblioteca da minha casa rever os dois livros que abordei aqui. Ao sair da biblioteca, passei pelo quarto das minhas filhas e vi que, encostada à porta, havia uma enorme barata. Peguei a sandália e aproximei-me bem devagarinho. Num gesto típico dos que tem ódio desses seres nojentos, desferi contra ela uma pesadíssima sandaliada. Depois, ergui a sandália e pude ver a famigerada totalmente destruída, esmagada e com seus líquidos viscosos e brancos espalhados pelo chão. Fui ao banheiro pegar o papel higiênico e retirá-la dali, lançando-a à privada. Porém, para minha surpresa, ao retornar alguns segundos após ter saído da cena de meu crime, aquela barata enorme havia simplesmente… sumido! Procurei atrás da porta, pelo quarto, debaixo das camas, ainda que eu soubesse que aquela busca era em vão, porque vira aquele bicho ser totalmente destruído pela violência do meu golpe. A barata desaparecera… ou, talvez, nunca existira. Teria sido precognição ou sincronicidade? Simples coincidência? Tudo isso acontecendo logo naquela manhã em que eu acabara de ler que Jung costumava sentar à mesa da sua sala, passando longas horas conversando com fantasmas…

Fábio Ribas

Eu hoje sonhei com mamãe...

  Desde a morte de mamãe, no dia 08 de março de 2024, sonhei apenas algumas vezes com ela. Poucas vezes, muito poucas vezes, mas sei todos o...