quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Hitler e o desarmamento (IX/2024)

 

"O ano de 1933 terminou com o triunfo do nazismo, o qual, desde o começo, usou a ameaça do comunismo para criar uma ditadura que era, se não mais, igualmente opressiva. Esse fato foi relatado precisamente, em dezembro de 1931, no diário do judeu alemão e veterano de guerra Victor Klemperer: “Eu equaciono o Nacional Socialismo ao Comunismo: ambos são materialistas e tirânicos; ambos desprezam e negam a liberdade do espírito e do indivíduo”".


“Hitler e o desarmamento — como o nazismo desarmou os judeus e os “inimigos do Reich”” é uma obra extensamente pesquisada, citando as fontes originais nas suas notas de rodapé. Stephen P. Halbrook procura mostrar que um regime totalitário não se instala da noite para o dia, porém, passo a passo, coloca seus tentáculos até que seja impossível retornar da sua presença sufocante e destruidora.

Na introdução, Halbrook nos apresenta a triste história de Alfred Flatow, ginasta judeu alemão, medalha de ouro das Olimpíadas de 1896. Sua história não apenas é emblemática para entendermos muito do que aconteceu com tantos judeus, mas, principalmente, para compreendermos o espírito por trás do regime que foi se instaurando dia a dia na Alemanha com a permissão de seus próprios cidadãos. Flatow, em 1932, registrou seus três revólveres, obedecendo à lei implementada pela República progressista de Weimar. Muitos cidadãos começaram esse processo de registrarem suas armas. Todavia, o que aprendemos é que esses registros foram usados contra os próprios alemães quando os nazistas tiveram acesso a essas informações arquivadas nas delegacias de polícia. A história de Alfredo Flatow, portanto, revela a escalada opressora do regime nazista. 

O nazismo desarmou todos os seus inimigos e isso fez parte do pogrom de controle total da sociedade. Ficou conhecida como “A noite dos cristais” a onda de violência do nazismo contra seus cidadãos, ameaçados a 20 anos de prisão nos campos de concentração, caso portassem armas de fogo. Assim, “os nazistas confiscaram as armas de fogo para prevenir uma resistência armada contra seus próprios crimes, fosse ela individual ou coletiva” (p. 10).

Como nos diz o autor, a Alemanha não possui nada parecido com a Segunda Emenda da Constituição dos EUA, que declara: “Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser infringido”. A própria Suprema Corte americana busca defender esse direito da nação defendendo que “quando os homens capacitados de uma nação são organizados e treinados no manuseio de armas , são mais propensos a resistir à tirania” (p. 13). Já na contramão dessa mentalidade, a ONU busca suprimir o porte individual de armas ao mesmo tempo que defende o armamento dos governos.

Hanna Arendt observa que “foi só com a eclosão da guerra, em 1º de setembro de 1939, que o regime nazista tornou-se abertamente totalitário e abertamente criminoso” (p. 18). Sendo assim, é inevitável as perguntas que serão respondidas no correr do livro de Halbrook: “Por que não houve, na Alemanha, nenhuma rebelião armada contra Hitler? O desarmamento prévio facilitou a crescente agressão contra os judeus?”. O autor ainda observa que “nos países ocupados, os nazistas decretaram pena de morte aos que possuíssem armas de fogo, mas houve casos de resistência, como a heroica revolta do gueto de Varsóvia” (p. 18).

O caos que se instaurou na Alemanha após a primeira Guerra foi o fermento que permitiu o surgimento de vários grupos guerrilheiros. Um deles desponta no cenário liderado por um jovem chamado Adolfo Hitler. Mussolini, na Itália, já dominara o Parlamento e o povo por meio do desarmamento, quando Hitler ainda era apenas mais um revolucionário entre tantos espalhados pela Alemanha. As políticas de desarmamento, cuja pretensão era criar ordem e segurança contra os grupos rebeldes, na verdade, só geraram ainda mais caos. Como as leis eram confusas e ambíguas, cada estado alemão passou a adotar também suas legislações de desarmamento. O cidadão de bem que quisesse ter uma arma possuiria até 15 tipos de licenças diferentes. O primeiro grupo que sofreu forte desarmamento foram os ciganos. Só uma década depois os judeus sofreram seu desarmamento. Mas, com o tempo, o desarmamento não cumpriu o que prometia, que era acabar com a delinquência, pois ocorrera lá o mesmo que no Brasil, desarma-se exatamente o cidadão de bem, que é quem poderia apoiar o governo democrático numa tentativa de tomada do poder por comunistas e nazistas. Enfim, a República de Weimar se autossabotou. Quando os nazistas tomaram o poder, eles usaram da própria legislação do desarmamento criada pela República de Weimar para o domínio totalitário sobre a Alemanha. Quando a SA de Joseph Goebbels apossou-se das delegacias, todas as informações estavam à disposição para o desarmamento total.

Duas questões devem chamar a atenção na ascensão do nazismo na Alemanha: 1ª) a República de Weimar pavimentou a chegada dos nazistas (todas as leis desarmamentistas da República terminaram por servir ao propósito totalitarista do Nazismo); e 2ª) se Hitler conseguiu fazer o que fez sem a existência da Internet, imagine o estrago que ocorrerá hoje com a ascensão de um Governo Mundial ? O mais incômodo, quando lemos a História, é que as pessoas nunca imaginam que “isso ocorrerá de novo”. Um dos pontos fortes que o livro apresenta é que tiraram as armas dos cidadãos de bem, exatamente aqueles que poderiam ter defendido a República de Weimar na tomada do poder pelos nazistas. Mas quem criou as leis desarmamentistas? A própria República de Weimar! É o famoso ovo da serpente! Todas, vou repetir, TODAS as nossas informações estão hoje na Internet, sequer é papel em arquivos num lugar específico. Está tudo à disposição na nuvem para qualquer um que decida uma tomada mundial do poder. Acho mesmo que a ascensão de tal Governo seja inevitável. Já estamos expostos e é impossível voltar. O Governo controla facilmente nossas informações. A hora que alguém disser que prenderá quem possui arma em casa ou que, se não tiver tomado as vacinas, não poderá assumir um emprego, por exemplo, quem impede? Leis vão sendo mudadas para servirem aos donos das leis e, mesmo a despeito das leis, o Poder as atravessará à revelia. Foi assim em passado recente e é o que ocorre o tempo todo, em escala menor, bem debaixo dos nossos narizes. Ainda que você não acredite (muitos não acreditavam no que ocorria nos campos de concentração da Alemanha), o mundo vem sendo preparado e experimentos de reengenharia social vêm ocorrendo como amostras do que teremos pela frente. Todavia, nada ocorre fora dos decretos de Deus. É a ira dEle sendo derramada e, para tal, o mal é um instrumento de Deus para a realização da Sua vontade. Enquanto isso, é o tempo da Igreja proclamar o Evangelho. Até que Jesus Cristo, o Senhor dos senhores, retorne em glória, creia você ou não.

Por fim, cabe lembrar que Hitler subiu ao governo legalmente. O “golpe de estado” dos nazistas se deu mediante o voto popular. As perseguições, invasões de domicílio, apreensões de armas, prisões etc estavam ocorrendo na “legalidade”. Esta história recente tem que nos alertar de como um governo totalitário toma assento gradativamente.

“A noite dos longos punhais” foi o marco do poder total conquistado por Hitler. Este evento marca a eliminação até dos amigos de Hitler. Depois, toda a máquina vai andando para o domínio total. A Gestapo agindo como polícia Estatal de Hitler. A retirada total das armas das mãos dos “inimigos do Estado”. Associado a tudo isso, a lei sendo usada a favor de Hitler e até mesmo a nazificação das igrejas protestantes. Por fim, os nazistas registraram todos os judeus e deram aos homens novas certidões: aos homens foi acrescentado um primeiro nome, Israel; às mulheres, Sara. Nada mais impedia o domínio nazista. O único grupo armado que poderia impedir a tirania permaneceu em silêncio diante de tudo: as forças armadas! Isto nos faz pensar no Brasil?

Houve resistência entre o povo alemão a Hitler. A história de Sophie Scholl mostra como uma juventude se organizou contra a doutrinação coletivista e enfrentou o Nacional-Socialismo. A história dela está no youtube e numa versão legendada. Ela tinha apenas 21 anos de idade, luterana e, fortemente criada nos valores cristãos, Sophie, seu irmão e mais alguns amigos fizeram parte do grupo antinazista chamado “Rosa branca”. A história desses jovens alemães precisava ser conhecida. Um filme forte sobre uma menina cristã lutando contra um monstro!


            Fábio Ribas


Leia também: "Armas de fogo"

sábado, 17 de fevereiro de 2024

A casa da sabedoria (VIII/2024)

 


O tom belicoso do livro estraga a proposta. A intolerância e a antipatia com os cristãos europeus mostram um historiador totalmente comprometido com um dos lados. Mas Lyons não é historiador. Ele é um repórter. Por isso sua escrita flui clara ao leitor, mas o revanchismo transborda cada vez que adentramos mais e mais em sua obra.

A intolerância do autor se revela na medida em que ele faz com o Ocidente o que ele o acusa de fazer com os árabes: uma caricatura intolerante e desonesta. A hora em que Lyons começa a citar Agostinho e Paulo e distorce seus textos para atribuir ideias que eles nunca defenderam, então, vemos do que Lyons é capaz. O livro começa promissor, uma vez que já nos apresenta uma linha do tempo e também uma lista dos personagens históricos. Pensei que o livro seria uma apologética da influência inegável que a ciência árabe teve sobre o Cristianismo Medieval. Contudo, o tom do livro é bem outro.

Desde a reclusão da pandemia, aproveitei para estudar a língua e a cultura de vários países árabes. Li livros de autores egípcios, libaneses e palestinos. Saí dessa esfera e passeei entre persas e turcos. Li prosa e muita poesia. Entre “mocinhos e bandidos”, posso afirmar que somos todos pecadores. Ouvi discursos atravessados, magoados e feridos. Sei que há uma “direita” que defende uma Palestina para palestinos, assim como há uma onda de judeus que não defendem o sionismo. E há muita ficção revolucionária com grupos do Ocidente defendendo partidos religiosos que, uma vez no poder, já mostraram que iriam para cima desses mesmos grupos que os defendem por aqui. Enfim, a situação é complexa e há de todos os lados quem defenda suas bandeiras, justas ou não, da pior maneira possível. Lyons é um desses. Talvez tenha sido, para mim, mais forte a postura agressiva dele, depois de ler tantos bons autores que souberam colocar seus argumentos com muito mais lucidez e equilíbrio, ainda que com muita paixão. 

Lyons está fazendo um desserviço ao diálogo entre o Ocidente e o Oriente. Suas inúmeras notas de rodapé se perdem na intolerância e no ódio que ele revela tanto no deboche como nas distorções do seu livro. Uma pena. Como disse, tenho lido livros muito bons sobre a história e a cultura árabes, mas este de Jonathan Lyons é um retrocesso no entendimento entre as civilizações. O adjetivo mais usado no livro para descrever o mundo não árabe é a palavra “tosco”: o Ocidente é tosco; a Europa é tosca; os cristão são toscos; nossa educação, filosofia e religião são toscas. Um desperdício de pesquisa nas mãos de um adepto ideológico, para quem os cristãos são uma horda de ignorantes bárbaros e atrasados. Seu livro parece sair da pena do mais radical e anticatólico pensador iluminista da Revolução Francesa. Para Lyons, assim como para o Iluminismo, prevalece a mesma distorção de ver a Idade Média como uma “tosca” Idade das Trevas. 

Um ponto positivo do livro é vermos como que o “capitalismo”, o comércio entre os povos, é capaz de neutralizar as inimizades. Os laços econômicos entre árabes e cristãos, que só puderam acontecer por causa das Cruzadas, é também mencionado no livro. Assim, a troca entre culturas é sempre bem-vinda. Todavia, interesses obscuros atuam hoje, assim como atuaram no passado e, se o espírito revanchista de Lyons é o que impera no Oriente contra o Ocidente, então devemos todos orar e nos preparar para a ira que espera por se derramar nos próximos anos. 

                                Fábio Ribas

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Viciados em mediocridade (VII/2024)

 


  Iniciei o pequeno, mas contundente livro de Frank Schaeffer, cheio de melindres devido ao que já sabia de sua atual rebeldia contra a pessoa e religião de seu pai e de sua mãe. “Viciados em mediocridade”, que só foi publicado no Brasil em 2008, saiu originalmente em 1982, portanto, um livro escrito e publicado décadas antes de quaisquer polêmicas posteriores. Pesquisei e li bastante material sobre a controvérsia dele com sua família. De fato, é muito triste, mas sempre há algo a nos ensinar. A cada novo fato que lia sobre as acusações de Frank Schaeffer aos seus pais e à comunidade de L’abri, ficava pensando em como seria um livro sobre mim e minha esposa escrito pelas minhas filhas. O que elas terão a falar e a recordar de nossa vida familiar e missionária? Verdadeiramente, todo pai e mãe cristãos têm um ministério recebido por Deus, um campo missionário desafiador, que são seus filhos. E jamais poderemos negligenciar este ensino evangélico de que nada nos adiantará ganhar o mundo, se perdermos a nossa própria alma. Assim, à parte da inevitabilidade da apostasia própria dos réprobos (e isto é um decreto eterno do qual não temos o menor controle), precisamos acompanhar as ovelhinhas que Deus colocou sob nossa responsabilidade, discernindo seus sinais de dúvidas quanto à fé que ensinamos e os possíveis sinais de negligência emocional, que, porventura, possamos estar cultivando neles.

 

    A apresentação de Sergio Pavarini ao livro de Frank Schaeffer adianta um pouco a rebeldia do atual Frank. Há dois livros dele que gostaria de ler e que já estão na lista de leitura deste ano: o “Loucos por Deus”, livro em que ele descreve sua relação conturbada com seus pais e o ministério no L’abri; o outro livro, “Por que sou um ateu que acredita em Deus”, é o da derrocada espiritual, em que Frank absorve essa espiritualidade flácida, sem cor e sem gênero de uma religiosidade à sua imagem e semelhança, bem ao gosto do público pós-moderno. Mas, neste texto, vamos ao “Viciados em mediocridade”.

 

    Ao contrário de outros livros que tenho lido, Frank dá o seu entendimento pessoal do que ele entende o que seja “artes”. E um dos pontos que ele logo nos chama a atenção é que aquilo que mais nos diferencia dos animais é a criatividade. Todavia, uma criatividade que precisa se mostrar na nossa habilidade em desfrutarmos de Deus e das pessoas. Assim, Frank entende arte como toda e qualquer expressão humana. Desde as “artes nobres” de um Michelângelo até as atitudes simples de uma cor que escolhemos para nosso quarto. Sendo a criatividade oriunda da nossa imagem e semelhança, é incompreensível para Frank que a Igreja negligencie tanto a arte em seu meio. E pior, que a igreja permita que a mediocridade que rodeia a igreja entre nela e determine o mau gosto nas músicas, na poesia, nos prédios e, até mesmo, no sermão pregado.

 

    Repetindo Rookmaaker, Frank afirma que a arte não precisa de justificativa, pois ela nasce de nossa imagem e semelhança dada por Deus. Ela simplesmente acontece e a beleza deveria surgir naturalmente na vida de cada um de nós. Mas, por que a Igreja negligencia a arte? A arte é importante para Deus. Basta vermos como que sua criação revela os detalhes de uma beleza “inútil”. Achei essa perspectiva de beleza “inútil” muito legal: “…vivemos em uma explosão pródiga em diversidade e beleza. Vivemos em um mundo repleto de beleza “inútil”, milhões de espécies, e indivíduos de infinita variedade, infinitos talentos e incontáveis habilidades” (p. 14). Desta ideia, o autor nos lança a mais duas: a beleza fora do planeta terra e — eis mais uma ideia fascinante para mim — a beleza que sequer vemos, mas que está no mundo espiritual e que teremos a eternidade para contemplá-la! Diante de tudo isso, Frank nos lembra que essa negligência com a arte é coisa recente, pois, historicamente, a Igreja sempre valorizou as artes como veículo da expressão humana: “Cristãos por muitos séculos dominaram a expressão criativa; eles a abraçaram, a apreciaram, a protegeram e se alegraram com ela, tomando-a como manifestação do dom divino aos homens” (p. 15).

 

    Defendida a tese da importância da arte, da criatividade, da beleza, dos dons e talentos, Frank mostra como que ficamos “viciados em mediocridade”. Houve, então, uma bancarrota que a Igreja se permitiu, perdendo sua relevância e seu papel de ponta no guiar a sociedade para valores mais altos. “Perdemos a habilidade de ser o sal da sociedade”, denuncia Frank. Como isso ocorreu? Segundo o autor, ou por estupidez e inabilidade de entendermos o problema ou por partirmos de um fundamento, princípios e pressupostos errados. Por tudo isso, o autor apregoa que esse sentimento anticultural e antiartístico da Igreja “vem da falta de compreensão das verdades bíblicas e do cristianismo aplicado às artes” (p. 22). O autor segue mostrando que houve fatores externos e internos que trouxeram a situação ao ponto em que se encontra: 1º) o secularismo que entrou e moldou pobremente a mentalidade da igreja; e 2º) a espiritualidade platônica que interpretou inequivocamente o mundo em “secular” e espiritual”. E para o autor, “o vazio deixado pelo desaparecimento de pessoas criativas no seio da comunidade cristã” tem se evidenciado especialmente na falta de habilidade para nos comunicar com o mundo e na nossa esterilidade sombria.

 

    Em determinado momento de “Viciados em mediocridade”, em dois, para ser mais preciso, lembrei-me de “Confissões de um pastor”, da Caio Fábio. Quando esse livro foi lançado, nenhum escândalo havia estourado publicamente ainda. Todavia, havia duas ou três situações estranhas que ele descreveu em seu livro que, na hora, compartilhei com minha esposa. Eram relacionadas ao casamento e vida sexual. Mostravam que havia coisas não resolvidas nessa área na vida dele. Quando, enfim, o adultério veio a público, isso só confirmou “os sinais” que ele havia deixado no livro. O “Viciados em mediocridade” foi escrito durante a década de 80, mas também há sinais, pistas, indícios que, mais tarde, revelariam que algo não estava bem tratado e curado no coração de Frank sobre seus pais. Ele viria a publicar um outro livro em 2008 (o “Loucos por Deus”, que eu comentei no início), no qual revelaria os bastidores dessa relação com seus pais. Por isso, não causou estranhamento algum que, por duas vezes, Frank faça questão de defender que verdadeira espiritualidade é cuidar e estar presente dentro de casa, com sua família. “Verdadeira espiritualidade” é um dos títulos de livro de Francis Schaeffer, que, segundo ele próprio dizia, era o último livro publicado por ele, mas o primeiro que deveria ser lido antes de toda sua obra.

 

                            Fábio Ribas

sábado, 3 de fevereiro de 2024

A arte e a Bíblia (VI/2024)

 


    Nenhuma obra de arte é mais importante que a própria vida do cristão e todo cristão deve se preocupar em ser um artista nesse sentido. Ele pode não ter o dom da escrita, nem da composição ou do canto, mas toda pessoa tem o dom da criatividade no que diz respeito à forma como vive a sua vida. Nesse sentido, a vida do cristão deve ser uma obra de arte. A vida do cristão deve ser algo verdadeiro e belo em meio a um mundo perdido e desesperado — Francis Schaeffer

    Já havia dado ao curso de Comunicação Intercultural, que ofereço à formação de missionários, uma abordagem pelo viés da arte. Ler agora Schaeffer e Rookmaaker tem sido, então, uma experiência prazerosa para uma reflexão mais bíblica e teológica sobre a Arte e a Missão. Deixarei aqui um artigo que escrevi há muitos anos (“Por que devemos comer com os pecadores?”) e que sempre passo aos alunos para uma introdução à conversa.

    O nosso Deus é o Deus da beleza. Achei Francis Schaeffer mais flexível do que Rookmaaker no trato com o que seja a obra de arte. Na verdade, Schaeffer não discuti o conceito de obra de arte (nem Rookmaaker aqui), mas apresenta a base bíblica que deve levar a Igreja a se envolver com a arte. Schaeffer já trabalha com o conceito de cosmovisão. Rookmaaker afirma que a arte revela uma mentalidade. Assim, ambos trazem este acordo: se a igreja quer evangelizar a sua geração, ela não deve abrir mão da leitura dessa arte produzida e nem os artistas cristãos devem negligenciar que sua arte oferece ao mundo uma visão.

    A nossa arte precisa não ser meramente evangelística (como já afirmara Rookmaaker), mas deve ser cristocêntrica e teorreferente. O Senhorio de Cristo deve abranger o homem como um todo. Assim, por que deixaríamos a arte de fora?

    A partir de 4 premissas bíblicas, Schaeffer nos oferece um caminho para nos envolvermos com as artes: 1) Deus fez o homem todo; 2) Em Cristo o homem todo é redimido; 3) Cristo é Senhor do homem todo agora e Senhor da vida cristã toda; 4) No futuro, quando Cristo retornar, o corpo será ressuscitado dentre os mortos e o homem todo terá uma redenção completa. Esta última premissa clareia o fato de que não há área humana que não esteja contaminada pelo pecado, inclusive as artes. Devemos tratar essa questão sem romantismo e ingenuidade. Há limites. Contudo, em Cristo, há imensas possibilidades.

    “Adorar a arte é um erro; produzi-la, não”! Schaeffer mostrará a arte na Bíblia, desde o AT (o Tabernáculo, o Templo e o trono de Salomão são exemplos) até o NT. Gostei demais do fato que devemos fazer nossa arte diante de Deus (Coram Deo), pois ainda que os homens não a vejam, Deus vê. O autor irá tratar da música, da poesia, do teatro, dança etc. O que eu mais gostei, contudo, é que a arte entrará no Céu.

    Na segunda parte do livro, Schaeffer tratará das 11 perspectivas com as quais o cristão deve se relacionar, abordar e julgar a obra de arte. “…tendo sido feitos à imagem do Criador, somos chamados à criatividade” (p. 46). Schaeffer fornece 4 padrões de julgamento, que, eu acredito, precisamos estar atentos ao nos aproximarmos da arte: 1) excelência técnica; 2) validade; 3) cosmovisão; e 4) integração entre o conteúdo e o veículo (p. 53). Eu quero também avançar mais nessa ideia sobre a pregação (p.54 e 62). IMPORTANTÍSSIMO: “…podem ser feitas afirmações proposicionais em prosa, pode haver afirmações proposicionais em poesia, pintura e praticamente todo tipo de forma artística” (p. 61).”

            Fábio Ribas

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Armas de fogo - elas não as culpadas (V/2024)


    Estreando com este livro a minha leitura de 2024 sobre “armas e lei”. Logo na orelha do livro, deparo-me com três perguntas essenciais: 1) “São as armas registradas aquelas que são apreendidas pela polícia, nas mãos dos criminosos?”; 2) “São fuzis e metralhadoras as armas entregues em campanhas de desarmamento?”; e 3) “As restrições, cada vez maiores, para compra de uma arma de fogo, reduziram a violência no Brasil?”.


    O livro “Armas de fogo — elas não são as culpadas”, do advogado e estudioso de segurança pública e criminalidade há mais de 20 anos, João Luís Vieira Teixeira, é fruto que vem sendo maturado desde sua pesquisa para a monografia de conclusão do curso de Direito, na PUC — PR. O presente livro já está em sua segunda edição. Esgotada, diga-se. E o que vem sendo tratado por ele é se “a proibição da venda de armas de fogo irá ou não resolver a preocupante questão da violência em nosso país”.


    Na apresentação, já somos lançados a um fato óbvio:


“…os criminosos não compram armas em lojas autorizadas, não têm licença para porte de armas e utilizam armas de fogo de calibre de uso proibido à população em geral. Um cidadão de bem não pode comprar fuzis e granadas, muito menos armas antiaéreas e lança-rojões de uso exclusivo do exército. Mas os criminosos utilizam. Como eles conseguem esse armamento? Então seria justo impedir um cidadão honesto de comprar uma arma para defender sua família do ataque de indivíduos violentos e mais bem armados que a própria polícia?”.


    O homem sempre utilizou armas para se proteger e proteger sua família e posses, diz o autor, desde tempos imemoriais. E eu digo mais: em todas as culturas da face da terra, o homem protege-se do ataque de animais e de outros homens. No capítulo 2, o autor traça um histórico do desenvolvimento das armas, desde paus e pedras até as armas nucleares.


    No capítulo 3, o autor já começa mostrando como que estatísticas podem servir para mascarar a complexidade de um problema em prol de um simplismo, como é o que ocorre na relação armas de fogo e violência. Ele destaca a estatística que mostra que,


“no Brasil, 89% dos homicídios são cometidos com o uso de armas de fogo. Ao mesmo tempo, no Japão, onde são proibidos a compra e o porte de armas de fogo, esse índice cai para 5%”.


    Pronto! A partir de uma informação como essa já se começa a defesa para o desarmamento. Todavia, uma pesquisa mais séria e comparativa entre o Brasil e o Japão rapidamente demonstra que nossas realidades sociais são incomparáveis: o desemprego, a inflação, nossa vergonhosa qualidade do ensino público etc, tudo isso são apenas alguns outros fatores que inexistem no Japão e que, no nosso caso, lançam muitos jovens sem oportunidade ao crime organizado. Pare e pense: retire todas as armas dos cidadãos de bem neste exato momento e o que acontecerá? O índice de violência diminuirá? Assaltos à mão armada e homicídios cairão? De modo algum! E quando insistimos nessa lógica torta estamos ligando a terrível violência no Brasil ao cidadão de bem e não ao criminoso! Além disso, os nossos jovens continuarão a ser cooptados pela rede do crime organizado.


    No capítulo 4, o autor lança um olhar sobre a legislação de armas de fogo. Será tratado da mudança que a lei trouxe para o porte ilegal de armas, que, antes, era apenas uma contravenção, mas, após a nova lei, passa a ser crime. Embora as legislações pareçam tratar da situação de delinquentes, não podemos esquecer do uso de armas de fogo para outros fins, como: esporte, coleção etc. Um dos pontos interessantes desse capítulo é o fato do “tiro de advertência”, para inibir um assalto. Esse não deve ser dado para o alto em lugar sem cobertura, pois a bala que sobe terá que retornar e pode ocorrer um acidente com isso. Entretanto, quaisquer contra-argumentos aqui não podem descartar o fato de que há uma burocracia restritiva para a aquisição de arma e um preparo necessário também aos que irão tê-la. Enfim, não se defende que armas sejam entregues para todos. O que se quer é que aquele que deseja ter a posse tenha esse direito garantido e que, então, possa passar pelo crivo de todos os critérios para possuir sua arma.


    Nosso código penal brasileiro, no art. 25, prevê a legítima defesa. Assim, o direito à legítima defesa, num ataque, numa invasão domiciliar, em que a pessoa esteja defendendo sua própria vida, sua família e suas posses é legítimo. Contudo, vemos muitos autores, como o ex-Senador José Roberto Arruda, criando projetos de lei que visavam a diminuição da violência por meio da restrição do uso de armas de fogo no Brasil. Mas, segundo estudiosos do Direito, como Celso Ribeiro Bastos, quando nosso Código Penal prevê em seu art. 25 a hipótese de ocorrência de legítima defesa, “esses meios de defesa, nos dias de hoje, são as armas de fogo”. O autor conclui:


‘…nosso Código Penal autoriza o uso (moderado) das armas de fogo como meio para se defender da tão citada e assustadora violência que se verifica no Brasil, até mesmo porque nossos legisladores, à época da elaboração do Código Penal, já previram, ou constataram, que o Estado falharia nesse seu compromisso”.


    Qual compromisso? De cumprir o que diz nossa Constituição Federal: a proteção do cidadão. As polícias não são onipresentes. O Estado é omisso em várias regiões do Brasil em que as facções criminosas dominam, sendo assim, como pode o Estado proibir seu cidadão de defender-se? Mas a mídia e a propaganda mentirosa feita pelo próprio Estado para fazer prevalecer fatos inexistentes são, na verdade, imorais: o orçamento gasto com a referida consulta popular de 2005 foi de 250 milhões de reais. Isto foi mais do que todo o gasto público federal investido em segurança pública naquele ano. E, depois desse gasto todo, todas as ações do Estado foram na contramão da decisão do cidadão que disse NÃO ao desarmamento.


Documentário “Desarmados”


    Citado no livro “Armas de fogo”, logo fui assistir na Amazon. É um pequeno documentário de apenas 1h16m. Porém, farto de muitas informações históricas do Brasil e também do mundo.


    Duas frases abrem o documentário. A primeira delas faz menção a Hitler, que desarmou os judeus na Alemanha. A segunda frase é esta: “Em 2005, mais de 59 milhões de brasileiros votaram contra o desarmamento civil. O direito dessas pessoas não foi respeitado”.


    O documentário é apresentado pelo ator e esportista Taiguara Nazareth. Só há duas questões técnicas que prejudicam um pouco: em determinado momento, por pouco tempo, a luminosidade do documentário cai sem nenhuma explicação; e não colocaram nenhuma legenda quando o líder árabe fala na entrevista.


    Os pontos de destaque do “Desarmados”:


1) Os Maias existem hoje graças às armas que eles tinham, mesmo antes da chegada dos espanhóis. Elas impediram que os Maias fossem dizimados por povos inimigos, assim como pelos espanhóis (há mais de 7 milhões de descendentes dos maias que mantêm ainda alguns aspectos de sua cultura e língua);


2) No Brasil, as armas sempre sofreram restrições, apesar dos colonos serem convocados para defender a colônia dos ataques de corsários ingleses, e das invasões de franceses e holandeses. No Brasil Colônia, qualquer pessoa que fabricasse armas sem o consentimento da Coroa Portuguesa sofria pena de morte. No Império, as armas eram proibidas aos indígenas e aos negros. Na República, Getúlio Vargas começa uma forte restrição às armas. Além disso, na volta vitoriosa dos nossos soldados da FEB, depois da Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas desmobiliza a FEB antes mesmo deles chegarem ao Brasil. Apesar da recepção popular, esses soldados são mandados para os mais diferentes e distantes lugares para servirem e outros são dispensados do serviço. Seria inviável para Vargas ter heróis celebrados que lutaram contra contra a Ditadura europeia, enquanto, no Brasil, seu Governo era ditatorial;


3) A estratégia de usar o desarmamento da população para viabilizar ditaduras começa no Japão do século XV. As armas são introduzidas pelos portugueses, e com sua metalurgia avançada, logo os camponeses japoneses estavam armados. A saída da elite do Japão foi dizer que precisavam das armas para que pudesse ser feita uma estátua de Buda. Os camponeses acreditam, mas, logo após esse desarmamento, vem a proibição de terem armas novamente. A derrubada do Czarismo na Rússia segue a mesma lógica japonesa. Uma vez usados para a revolução bolchevista, os camponeses são desarmados logo depois. Hitler, na Alemanha, é o caso mais contundente. Ele sabia que precisava desarmar seus inimigos para centralizar seu Governo. Em Cuba, o desarmamento ocorreu assim que Fidel Castro tomou o poder;


4) No Brasil moderno, Fernando Henrique Cardos é quem inicia o desarmamento com intenção de conseguir uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. O Deputado Eduardo Jorge do PT propõe um projeto de lei extremamente restritivo, em que até policiais, que não estivessem de serviço, não poderiam portar armas de fogo. Em 1997, o porte de arma deixa de ser contravenção e vira crime. Durante os escândalos do Mensalão, em que houve repasses de verba vultuosos na véspera da aprovação do Estatuto do desarmamento, o Presidente Lula aprova o que, então, oficializa nossa derrocada de segurança no Brasil. Por quê? O documentário mostra que, a partir das legislações cada vez mais restritivas, só aumenta o índice de violência no Brasil, chegando aos seu pico nas vésperas da eleição de Bolsonaro, com quase 50.000 homicídios naquele ano.


    É preciso abrir a discussão, uma vez que o Governo não dá conta da escalada da violência contra o cidadão de bem no Brasil. A violência já existe e as armas de fogo estão nas mãos dos bandidos.


    A pergunta final que fica é: eu tenho direito de tirar o direito de quem quer usar uma arma de fogo para sua legítima defesa? A resposta a essa pergunta já foi dada por 59 milhões de brasileiros em 2005 e o Estado não a respeitou.

                                Fábio Ribas

        

sábado, 27 de janeiro de 2024

Conhecimento unívoco e conhecimento analógico (IV/2024)

 

    Ótimo livro de Daniel Gomide esclarecendo a controvérsia ocorrida no século passado entre dois gigantes da Teologia: Gordon Clark e Cornelius Van Til. Controvérsia que expõe duas linhas inconciliáveis de epistemologia da Tradição Reformada. O que Gomide irá mostrar é que a posição de Cornelius Van Til é menos coerente com a Reforma Protestante que a posição de Clark. Na verdade, Van Til termina por dar continuidade à linha aberta por Tomás de Aquino, enquanto Clark não dá margem para qualquer concessão a qualquer espécie que seja de autonomia da razão. Para compreender melhor, é preciso esclarecer a discussão que logo aparece no título do livro.

    Há 3 tipos de conhecimento: unívoco, equivoco e analógico. O conhecimento unívoco é aquele que estabelece que o termo apresenta um único significado; o equívoco é aquele em que o termo tem significados diferentes; e, finalmente, o analógico será o conhecimento derivativo por comparação. Neste último é que se origina o famoso postulado de Van Til que diz que pensamos os pensamentos após Deus. Aqui, cabe esclarecer, Clark também concorda com Van Til que só é possível um conhecimento que Deus o já tenha conhecido. Então, qual é a controvérsia? Para Clark, o conhecimento analógico só é possível se ele tem por base o conhecimento unívoco. Por isso, precisamos compreender e dominar esses conceitos. Pois, toda a controvérsia surgiu de uma interpretação errada de Van Til sobre o que seria "unívoco" para Clark. Van Til (e vantilianos) achavam que Clark defendia uma razão humana autônoma de Deus e, sendo assim, vantilianos acreditam que o conhecimento analógico e unívoco são inconciliáveis.

    Darei mais exemplos:

    1) Conhecimento unívoco: "Jesus ressuscitou". Não pode haver margem para quaisquer outras interpretações aqui. "Ressurreição" é volta dos mortos na frase acima. Assim, para Clark, o termo usado não pode ser ambíguo, pois custará um problema na nossa comunicação. E mais: o conhecimento unívoco nos permite conhecer o conhecimento do próprio Deus. Para Clark, a regeneração é habilitar a mente a compreender a lógica divina, pois agora temos a mente de Cristo (daí, a Bíblia afirmar que o nosso culto é racional - Deus é lógica!).

    2) Conhecimento equívoco: "Jesus ressuscitou". Se o termo ressuscitar pode se referir a mais de um significado (polissemias e metáforas), então o que Deus quer dizer com essa frase "Jesus ressuscitou" é uma incógnita, pois eu posso entender que ele aparentemente retornou dos mortos ou que os discípulos tiveram uma experiência de loucura coletiva (ou que, culturalmente, Jesus estaria dormindo). Se os termos possuem vários significados que eu possa atribuir, nunca saberíamos com exatidão o que Deus quer nos comunicar.

    3) Conhecimento analógico: "Jesus ressuscitou" é como a borboleta que morre lagarta e ressurge borboleta. Será? A analogia, se é feita em base equívoca, pode trazer muita confusão e nenhum conhecimento sobre a que se refere os pensamentos de Deus!

    Por tudo o que foi explicado acima, vemos a importância dessa discussão para a apologética e a epistemologia. Exatamente por Tomás de Aquino advogar o conhecimento analógico, é que ele defendeu que a razão e a fé caminhavam juntas até que a razão se colocasse contra a fé. Neste ponto de confronto, a fé iria seguir seu próprio caminho. Ora, isso nada mais e nada menos significa que, por seu lado, a razão chegaria às suas próprias conclusões. Olha a autonomia da razão de Aquino na tangente aí. E, sendo assim, não podemos afirmar ou confirmar que a fé está conhecendo os pensamentos de Deus, porque tivemos que largar a razão no seu próprio outro caminho. Mais à frente, uma alternativa a esse conhecimento analógico tomista, que separa razão e fé, será postulado por Kierkegaard. Este filósofo vê que o cristianismo é uma religião de paradoxos mesmo, incompreensíveis pela razão. Assim, só é possível saltarmos na fé os abismos incompreendidos pela nossa razão. Clark refuta o conhecimento analógico de Aquino e de Van Till e, obviamente, a fé desesperada de Kierkegaard.

                        Fábio Ribas

sábado, 20 de janeiro de 2024

A arte não precisa de justificativa (III/2024)

    


    Afinal, o que é arte? Neste livro, não encontraremos o que seja “arte” para Rookmaker. Talvez isso já nos mostre a dificuldade que traria qualquer delimitação ao termo. Entretanto, uma coisa é certa para o autor: “precisamos muito de uma arte que seja saudável e boa, e que as pessoas entendam” (p.10). Este pequenino livro de apenas 76 páginas, apresenta-se como uma chamada à responsabilidade para artistas cristãos. “É uma leitura para todos os cristãos que desejam usar os talentos que receberam de Deus para a glória daquele que os presenteou”, dizem os editores no prefácio. “É uma chamada profética aos artistas, artesãos e músicos cristãos para que pranteiem, orem, pensem e trabalhem antes que seja tarde demais”, arrematam. Da minha parte, eu pergunto: será que já não estaríamos no “tarde demais”?

    Não nego que, quando entrei em contato com este livro pela primeira vez, em 2020, num curso de “Artes para a glória de Deus”, houve um incidente que logo me afastou de continuar a seguir a leitura. Num dos capítulos do livro, que fora traduzido pelo professor do curso, inexistia um parágrafo inteiro no original, mas que havia sido inserido na nossa versão em português. Eu tinha a tradução em português da edição oferecida pela Editora Ultimato, assim pude chamar a atenção da turma de alunos que, na minha tradução em português da Ed. Ultimato, havia um parágrafo que não existia no original que ele estava lendo. Para todos, professor e alunos, aquilo era uma surpresa, principalmente pelo parágrafo a mais da versão em português endossar uma interpretação ideológica que não havia no livro. Com essa má introdução a Rookmaaker, só ano passado retornei aos seus livros (2023).

    Embora não defina o termo “arte”, Rookmaaker lembra que,

“em muitas culturas, incluindo a nossa, antes do novo período que começou entre 1500 e 1800, os artistas eram principalmente artesãos. Fazer arte significava fazer as coisas de acordo com certas regras — as regras da classe dos artesãos” (p.11).

    Rookmaaker também afirma que nossa relação com a arte mudou. Antigamente, a arte era parte de um serviço, estava subordinada a algo. Hoje, porém, vemos o produto artístico como “obra de arte”, algo em si mesmo, destacado de qualquer contexto ao qual a obra devesse estar servindo. Portanto, não havia discussões sobre as obras de arte, debates ou interpretações. Se havia crítica, não era em função da beleza ou da habilidade do artista, mas era sobre sua impropriedade ou falta de adequação ao contexto em que ela se manifestara. Para exemplificar isso, o autor lembra das críticas de São Bernardo de Claraval, no século 12, que “fez objeção às estranhas criaturas, monstros e animais fantásticos encontrados nos capitéis dos claustros” (p.13). O que se observava, naquele tempo, era a habilidade, qualidade e adequação como diretrizes do artista (p.13).

    O quadro acima começou a mudar, segundo Rookmaaker, no Renascimento. Todavia, foi no Iluminismo do Século XVIII — a “Idade da Razão” — que surgiu o conceito de “obra de arte” como o entendemos hoje.

    Abrirei parênteses aqui só para dizer que nós, protestantes, temos forte responsabilidade nessa mudança de paradigma, embora Rookmaaker não veja isso. Pense comigo: quem bancava os artistas até a Reforma Protestante? Os mecenas. E entre esses se encontravam muitos religiosos católicos — até mesmo Papas. Veja a inversão — estamos falando de clientes que contratavam os artistas e solicitavam seus trabalhos. Veio a Reforma Protestante e suas igrejas se espalharam pela Europa só que com um detalhe que, talvez, não tenha sido pensado pelos Estados Nacionais que assumiram a nova Fé. Qual detalhe? Ao contrário do Romanismo, as igrejas provenientes da Reforma não possuíam imagens de santos e santas dentro delas. A igreja protestante não mais contratava os artistas — ou, pelo menos, diminuiu muito essa relação. Agora, sem ter quem me contratar, eu deveria produzir a obra de arte e “sair vendendo no mercado”. Você já pensou no impacto disso? Que mudança de paradigma! Mas a coisa não para por aí. Pensa comigo: agora, quem é que tem dinheiro? Os burgueses. No caso, os burgueses protestantes. Eles começaram a pagar para ter seus próprios retratos… Eu acho que isso é mais uma mudança radical! Surge o Artista e sua obra de arte! Para uma avaliação de tudo isso que estou falando neste parágrafo, acredito que vale a pena estudar Rembrandt e a Holanda do seu tempo. Mas isso é só hipótese. Fecho o parênteses.

“A arte tornou-se “belas artes” e as artes manuais foram postas de lado, como algo inferior. O artista tornou-se um gênio, alguém com dons especiais, que poderiam ser usados para dar à humanidade algo de uma importância quase religiosa — a obra de arte. De certa forma, a arte tomou lugar da religião” (p.14).

    Rookmaaker escreverá um parágrafo que me remete ao papel da cultura e da cosmovisão, contudo aplicado à arte (o que me fez lembrar das minhas aulas de Comunicação Transcultural). Diz ele que, a partir de Kant, Schelling e Hegel, “a arte passou a ser vista como a solução final para as contradições internas dos sistemas filosóficos elaborados para formar um entendimento integrado da realidade” (p. 14). “A humanidade é livre e, ainda assim, presa a um universo mecanicista; a arte pode revelar a unidade interna e contornar as tensões racionais”, entenderam os filósofos da Razão (p.14–15). Isto faz todo o sentido, uma vez que, na Modernidade, os aspectos afetivos foram lançados para a vida privada e ao subjetivismo. Entendeu-se que dentro do escopo da afetividade estava a religião. Contudo, saindo a religião, o que pode atender ao homem no espaço público: a arte. Realmente, no areópago moderno, a arte substitui a religião. A fé fica para o privado e o subjetivo. A arte é trazida para a praça pública, porque, acredito eu, a arte moderna será cada vez mais uma “obra aberta”, não se entregando como uma única proposta ou interpretação. Há uma abertura para a recepção do público tornando esse mais um interlocutor do que um destinatário passivo. A arte é um meio para que o público possa transcender como queira. Quais as consequências disso? A arte se torna uma religião irreligiosa, diz Rookmaaker.

    Os artistas ou são vistos como sacerdotes da cultura ou como pessoas supérfluas. Acredito nessa interpretação do Rookmaaker. Mas como eram vistos os artistas antigamente? O que significa ser artista? Arte, cultura, cosmovisão são termos que precisam ser definidos. O artista era um artesão que seguia as regras de sua escola? Na página 16, o autor toca num tema interessantíssimo para mim: o homem retira a providência divina de sua equação-para-compreender-o-mundo! A crise nas artes é a crise do próprio homem que retirou Deus de sua equação. A arte, por se tornar uma busca religiosa de um homem irreligioso, não encontrou nada no fosso depravado do coração do artista (nem do seu interlocutor). Tudo isso trouxe uma crise para as artes.

“A arte tornou-se uma busca individualista de sua própria identidade, revelada em seu trabalho e por meio dele. São como alguém que se olha no espelho — tudo é uma expressão do eu; o resto, torna-se irreal. A arte deve ser uma expressão do que há de mais profundo em nós. Mas e se encontrarmos pouco?” (p. 17)

    Rookmaaker faz coro com os que criticam o pietismo, que se preocupou demais com uma vida pessoal de devocionais, enquanto não vivia essa vida diariamente no mundo. A ideia é que o secularismo e o paganismo foram tomando conta da sociedade e os cristãos deixaram. Os cristãos não assumiram uma postura na política, nas ciências, na filosofia, nas artes. Acredito que o cristianismo é um chamado muito maior do que “uma entrada para o Céu”. O cristianismo é um chamado para viver aqui e agora para a glória de Deus em todas as esferas em que estamos inseridos na sociedade. Por outro lado, esse otimismo pós-milenista que sinto no livro me incomoda. Nem 8, nem 80, por favor!

    Mas a pergunta fica: o que o cristianismo tem a ver com a cultura? E qual a resposta da Igreja a essa pergunta? Segundo Rookmaaker, o Pietismo foi lançando cada vez mais a beleza para fora do Cristianismo. Preocupado apenas com as devocionais pessoais, o Pietismo não teria expressado para fora da Igreja a beleza do Evangelho. E mesmo dentro da Igreja não temos nos importado com a Beleza, insiste Rookmaaker. A clareza, a lógica e a ordem de um sermão não deveria expressar beleza? A música que será tocada no Culto, em muitas igrejas, parece ser “qualquer coisa vale”. E se ela contradisser o sermão? E o que falar da beleza na arquitetura das nossas igrejas? Por que confundiríamos simplicidade com simplismo? Com essas perguntas, Rookmaaker nos lembra que, até hoje, as catedrais são visitadas mostrando que o Cristianismo, um dia, fez questão de deixar sinais de que algo maravilhosamente belo aconteceu em Israel.

“Portanto, ser cristão significa que temos humanidade — a liberdade de trabalhar na criação de Deus e usar os talentos que Ele deu a cada um de nós para sua glória e para o benefício do próximo. Assim, se tivermos talentos artísticos, eles devem ser usados” (p. 27).

    Todavia, Rookmaaker tem uma visão pós-milenista e, por isso, uma expectativa ingênua de “reforma” da sociedade que certamente teria que começar pelo cristianismo. Ainda que ele diga que não acredita na solução marxista e nem na solução tecnológica, para mim, a expectativa que a sociedade seja reformada e com isso a cultura seja resgatada está mais para uma perspectiva de Cristandade do que de Cristianismo. Rookmaaker viveria num ideal de “era de ouro”? Às vezes, ele me soa como um católico conservador monarquista sonhando com o retorno ao século XVII. Como a minha pretensão não é pós-milenista, meu voo aéreo é mais baixo. De qualquer modo, vejo com bons olhos o método de Rookmaaker de retorno à Palavra, especialmente à palavra profética de Miqueias: “prantear, orar, pensar e trabalhar” (p.30).

⁷ Eu, porém, olharei para o Senhor e esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá.

⁸ Ó inimiga minha, não te alegres a meu respeito; ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei; se morar nas trevas, o Senhor será a minha luz.

⁹ Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra ele, até que julgue a minha causa e execute o meu direito; ele me tirará para a luz, e eu verei a sua justiça.

¹⁰ A minha inimiga verá isso, e a ela cobrirá a vergonha, a ela que me diz: Onde está o Senhor, teu Deus? Os meus olhos a contemplarão; agora, será pisada aos pés como a lama das ruas.

¹¹ No dia da reedificação dos teus muros, nesse dia, serão os teus limites removidos para mais longe.

                                                        Miquéias 7:7–11


    “Prantear” pela nossa atual situação. “Orar” para que Deus mude nossa disposição. “Refletir” sobre o que é o cristianismo e o que queremos. E, só então, seguros de nossas renovadas bases teológicas, “trabalharmos” para o resgate.

    Ser um artista cristão não significa realizar um trabalho e acrescentar o nome “jesus” a ele. Não podemos usar a arte para justificar o cristianismo. É o contrário, nosso cristianismo transborda em nossa arte, porque extravasa de nós o fruto do ES. O artista cristão não é aquele que usa da arte para evangelizar. O propósito da vida não é o evangelismo, mas vivermos para a glória de Deus.

“Como diz CS Lewis de maneira tão bela, já temos livretos e panfletos cristãos suficientes; porém, se quisermos a recristianização da Europa e dos Estados Unidos, isso não acontecerá se as pessoas não conseguirem encontrar um bom livro em certa área do conhecimento e descobrir que ele foi escrito por cristãos” (p. 35).

    Só numa segunda leitura, eu pude compreender a tese de Rookmaaker de que a “arte se tornou Arte no século 18” (p.45), pois tive certa resistência a essa ideia num primeiro momento. E essa tese foi relembrada no último e melhor capítulo do livro. Este último capítulo foi o mais importante. Ajudou-me a esclarecer alguns pontos para seguir adiante nos meus estudos. Vi frases que confirmam o que ensino no meu curso de comunicação e no meu artigo “comendo junto com pecadores”. O capítulo “Arte e sociedade” atende demais a tudo o que eu estava procurando. “Normas e artes” também. Achei minha justificativa (p. 59). Gostei das abordagens sobre decoro, estilo de vida, entendimento, emoção e gosto. Ele também deu dois critérios ótimos para avaliarmos a boa arte: a força descritiva e a carga de significado (então, não precisaríamos estar submetidos ao escopo da “beleza”? Algo a se responder). Quero aprofundar nessa questão do estilo (ver minhas leituras de Pamuk). E, por fim, atentar às qualidades do artista. Livro pequeno, mas fundamental.

            Fábio Ribas

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