terça-feira, 30 de julho de 2024

Guerra contra as armas (XXXIII/2024)

 

O que assusta é ver que as falsas informações da imprensa não ocorrem apenas aqui. Se nos Estados Unidos ocorre o narrado neste livro, o que esperar, então, do Brasil? A sensação que fica é que estamos à mercê de um caos, pois a imprensa, a mídia, ela busca a venda da notícia e não a verdade da informação. Assim, irá para o público aquilo que for mais sensacional, de maior apelo emocional. Se formos a fundo, contudo, se quisermos ver o que de fato ocorreu, descobriremos que, tanto no Brasil como nos Estados Unidos (como em tantos outros lugares do planeta terra), o produto final que nos chega às mãos, aquilo que aparece na tela do nosso computador ou numa folha de papel, já foi maquiado, manipulado e não passa de um recorte da realidade. Todavia, de uma realidade já interpretada. Por exemplo, mesmo diante de tantos casos de pessoas armadas que salvaram vidas (o autor traz uma lista), a manipulação da imprensa continua, pois eu mesmo nunca vi uma reportagem sobre “armas que salvam”. 

Parece que o autor está falando sobre o Brasil, mas está falando sobre os Estados Unidos. As pesquisas e estatísticas, desde a coleta e organização dos dados, são manipuláveis. Você pega os fatos e os apresenta ou organiza, dando a maquiagem que te interessa. Se acontece isso lá, repito, o que esperar do Brasil?

O capítulo IV foi algo assim terrível quanto a mostrar como que estatísticas e ciência são manipuláveis. “Os números não mentem”, ouvimos dizer. “Contra fatos não há argumentos”, insistem. Porém, o que há são interesses pessoais, corporativistas e ideológicos. O “cientista” faz um recorte na realidade. Basta encerrar o levantamento de dados um ano antes e começar um ano depois e pronto! Todo o estudo servirá para provar o que ele queria que fosse provado. O autor conta sobre a escolha de um ano “X”, explicando que se tivéssemos olhado o ano anterior e os posteriores, o resultado da tal “pesquisa” mostraria outra realidade bem diversa daquela recortada. Por isso, quando o cientista não usa certos dados, ele tem que explicar a razão de ter feito isso. Assim como ele também deve explicar a razão de não ter usado os dados como chegaram a ele — na sua versão bruta. Se há recortes, é preciso que se explique o porquê.

Veja um exemplo. Imaginemos um Estado de um país. Os Estados em que há mais armas é onde ocorrem mais mortes de policiais, assim, qual a conclusão dessa “pesquisa”? Mais armas, mais mortes de policiais. Menos armas, menos mortes de policiais. Vou mostrar só duas incongruências desse tipo de lógica: 1) se vc restringir essas armas, vc estará desarmando o cidadão de bem, que protege a situação e a sua casa, além de auxiliar a polícia. Por quê? Os bandidos usam armas ilegais, não compradas sob a lei (óbvio), assim eles continuarão armados. 2) Mais armas, mais policiais mortos é um salto de conclusão absurdo, além dessas armas legais (e rastreáveis) não participarem do assassinato de policiais, não entram aqui outras duas variáveis, que são o número de suicídios e o fato de que os suicidas homens preferem armas de fogo, enquanto as suicidas mulheres, que, mesmo tendo posse de armas de fogo, preferem outros métodos de suicídio. Mas olhe como se apresentam as realidades: policial suicidou enforcada, aí não se leva em conta “esse detalhe”, apenas o fato de que ela tinha arma e morreu. Aí, colocam o caso na estatística. Isto é maquiar toda uma realidade! O número de homicídios tem que discernir entre assassinato, suicídio e homicídio. Sim! Como o autor bem mostrou, para que tivéssemos uma realidade mais adequada, é preciso que se mostre dentro desses “homicídios” o que foi assassinato, o que foi suicídio e o que foi legítima defesa! A questão é que pesquisas que não fazem tal discernimento geram resultados totalmente irreais. Alguém está pagando por essas pesquisas “mancas”! E pior — são essas as pesquisas que serão usadas para pressionarem congressistas na criação de leis! Título de um dos capítulo: adulterando pesquisas e forjando dados. Agora é a pá de cal. A tristeza de ver que isso ocorre nos Estados Unidos é imaginar o que, então, rola livre e solto no Brasil. Basta a escolha de um ano certo para fundamentar o que se queira, para que tudo tome a dimensão desejada pelos “formadores de opinião”. 

O óbvio: campanhas de desarmamento só desarmam os portadores de armas legais, os cidadãos de bem. Por isso, o número de homicídios não declina após um desarmamento. O óbvio: atiradores em massa só procuram lugares em que eles sabem que as pessoas são proibidas de portarem armas. A ironia: 60% dos assassinos em massa já tinham sido diagnosticados com problemas mentais antes dos massacres que praticaram.

Carros matam mais do que armas. Contudo, a comparação é problemática. 99,4% das mortes em carros em 2004 (EUA) foram acidentais. 1,8% de mortes com armas de fogo foram acidentais. 65% das mortes com armas de fogo foram suicídios. Mas o problema começa ser melhor interpretado quando sabemos que os casos de suicídios sem armas de fogo subiu 49% no período analisado. A taxa de suicídio no trânsito subiu 53%. Isto é, as pessoas estão se matando cada vez mais. Reflexão: normas cada vez mais rígidas na legislação não atingem os suicidas, sejam no trânsito, sejam por armas de fogo. Tudo isso só revela duas verdades: 1) campanhas de desarmamento têm um objetivo oculto, que não é a nossa segurança — governos querem desarmar seus cidadãos; 2) enquanto olham para as armas, ninguém trata do desastre humano do aumento de suicídios. Contra estes, não há lei. Apenas o Evangelho pode ir, então, ao cerne dos verdadeiros problemas humanos, escondidos sob o manto das ideologias e interesses financeiros mundiais.

                                    Fábio Ribas

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Homens ao sol (XXXI/2024)


“Abu Qais repousou o peito no solo orvalhado e a terra começou a pulsar debaixo dele, com batimentos de um coração cansado que faziam tremer cada grão de areia e penetravam as células de seu corpo. Desde a primeira vez, sempre que ele se atirava de peito na terra sentia aquela pulsação, como se o coração da terra forçasse sua difícil passagem até a luz desde as profundezas do inferno. Certa ocasião, ele disse isso ao vizinho com quem compartilhava a colheita na terra que deixara havia dez anos, e o homem respondeu zombando: “É o som do seu coração. Você o escuta quando encosta o peito no chão”. Que tolice perversa! E o cheiro? Aquele que, toda vez que ele sente, ondula na fronte antes de jorrar delirante nas suas veias. Sempre que ele inalava o cheiro da terra, deitado no chão, imaginava o cheiro do cabelo de sua mulher ao sair do banho, depois de lavar a cabeça com água fria. O mesmo cheiro… uma mulher que acabou de se banhar com água fria e lhe cobre o rosto com o cabelo ainda molhado. A mesma palpitação… como se carregasse ternamente um pequeno pássaro entre as mãos”.

Afinal, o que é a terra para um homem? Numa das aberturas de narrativas mais belas que já li, o autor Ghassan Kanafani abre sua novela com um primeiro parágrafo notável. Há um coração nas profundezas da terra e ele bate sobre o meu peito, ritmando com o meu próprio coração, toda vez que me deito sobre a terra. Mas essa aproximação, essa intimidade de se deitar sobre a terra, sobre ela, traz ao personagem a lembrança de sua mulher. A terra pulsa um coração e exala um perfume, o perfume dos cabelos molhados de sua esposa, a quem ele lembra sempre que se deita sobre a terra. O que é a terra para um homem? Vida e paixão! Todo homem, no exercício de sua masculinidade, sabe que “não é bom estar sozinho”. Um dos personagens, um outro, durante a narrativa, revelará ter sua masculinidade amputada. Terra, mulher, tato, odor, masculinidade, esperança, tristeza, memórias, decisões, estes são apenas alguns dos temas tão humanos abordados nesta pequena novela. 

Abu Qais, Assad e Marwan são três palestinos que tentam sair dessa condição de refugiados, fugindo para o Kwait. O “homem gordo” é um desses “contrabandistas de gente” que leva essas pessoas numa travessia ilegal. O valor cobrado pelo “homem gordo” é inviável para os três. Então, estes três se juntam para serem levados à travessia até o Kwait, passando pelo Iraque, pelo 4º personagem, o Varapau. Há mulheres e homens nesta história. Há o passado, o presente e a promessa de futuro. Mas há também um acordo, que, no fim, pode dar em nada. Esta é a história dos exilados palestinos. Um livro lançado em 1963. Embora eu tenha tido certa dificuldade de entrar na narrativa, talvez um pouco perdido assim como estavam perdidos os três personagens centrais, mas terminei o livro chocado e com vontade de ler outros do autor.

Terminei o livro com esta frase atravessando o meu coração: “Por que vocês não bateram nas laterais do tanque? Por que não disseram nada? Por quê?” Ainda que não queira limitar a literatura de Kanafani a um mero engajamento político (e não quero e não vou), estas perguntas finais ecoam sobre os anônimos e mudos de todo o mundo. Na minha interpretação, houve um acordo dentro do tanque. Se houve uma aposta diante de um futuro esperançoso, mas incerto, houve, então, dentro do tanque, uma renúncia para proteger o Varapau. Precisamos lutar nossas lutas e, conscientes dos riscos de insistirmos nessas lutas, estarmos prontos a não puxar para dentro do buraco os que tentaram nos ajudar.

Quero ouvi-los. Precisamos ouvir o outro. Ainda que estejamos todos sob a maldição da lei e somente em Cristo possamos verdadeiramente nos libertar, mas precisamos nos aproximar para o diálogo, pois, sinceramente, eu creio que haja culpados entre os “inocentes”, assim como eu sei que há “inocentes” entre os culpados.

Ghassan Kanafani foi um escritor e ativista político palestino, cofundador da Frente Popular para a Libertação da Palestina. Em 1972 foi morto pelo serviço secreto israelense. Ele tem três livros editados pela Tabla, este, o “Umm Saad” e “Retorno para Haifa”.

            Fábio Ribas

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Teologia, Piedade e Missão (XXX/2024)


Os que são chamados por Deus para a salvação são simultaneamente enviados por Deus para a missão — Ronaldo Lidório
Um dos maiores desafios missionários, portanto, não é andarmos na contramão do mundo, mas na contramão do nosso próprio coração — Ronaldo Lidório

É preciso plantar igrejas! É preciso que haja um povo local que adore a Deus coletivamente. É preciso que possamos nos encontrar, ajuntar, orar e nos apoiarmos uns aos outros. É preciso que nossas igrejas locais plantem outras igrejas. É preciso que compreendamos qual é, de fato, a Missão da Igreja.

Lendo o livro de Ronaldo Lidório sobre Gisbertus Voetius, que nunca antes havia ouvido falar, a não ser por Lidório mesmo, vemos que muito do que temos hoje como propostas missiológicas estão longe das bases doutrinárias da Reforma Protestante. Gisbertus Voetius, que participou da elaboração dos Cânones de Dort, é tido como o primeiro protestante a propor que a questão missionária fosse levada para dentro da academia. Ele compreendia que o plantador de igreja deve ser alguém que estude teologia e filosofia, além de outras disciplinas como medicina, por exemplo. Voetius defendia que o plantador precisava ser um grande conhecedor da Palavra, mas que também precisava entender o pensamento do povo. Neste sentido, ele adianta o que hoje defendemos por meio da antropologia missionária.

A missão é falar de Jesus e sua pessoa e obra salvífica, é ensinar o que ele Jesus já fez por nós e ainda fará — esta é a defesa de Voetius. Todavia, um dos destaques de Voetius era a sua ênfase numa teologia prática, uma teologia que frutificasse no avanço da Igreja e na vida pessoal de seus membros. A missiologia de Voetius é trinitária e teocêntrica. A missão aponta para o Deus triuno em ação, visando a Sua glória. Outro motivador da missão é a doutrina da eleição eterna. No seu tempo, Voetius investiu fortemente na evangelização dos católicos, ateus e muçulmanos. Assim, as reflexões de Voetius vem ao encontro dos anseios da nossa geração por uma missiologia reformada e calvinista, colocando o fundamento e a motivação da Igreja na Bíblia e não na cultura ou nas necessidades dos povos ou dos perdidos. A missão é de Deus. É iniciativa dEle, para a glória dEle e mostram o seu amor e justiça.

Ronaldo Lidório nos apresenta a vida e obra deste importantíssimo protestante e que, sem sombra alguma de dúvida, levará o leitor a conectar novamente o Evangelho com a sua teoria e prática missionárias, em piedade. Um livro fundamental e de cabeceira para todo o missionário reformado calvinista. Abaixo, deixo um trecho do livro.

“Após a Segunda Grande Guerra, missiólogos passaram a falar sobre a missio Dei (missão de Deus), em boa parte influenciados pela missiologia de Voetius e seus sucessores. É preciso, porém, esclarecer que o conceito de missio Dei proposto nas últimas décadas separou-se consideravelmente da sua compreensão original.

“O teólogo e missionário Peter Pikkert expõe que, a partir dos anos 1950, a missio Dei ganhou contornos generalistas com base na premissa de que a missão de Deus é restaurar todas as coisas em Cristo Jesus, e que, dessa forma, a missão da Igreja seria participar da missão de Deus. Nessa elaboração, todas as iniciativas, ações e parcerias que podem fazer do mundo um lugar melhor passaram a ser vistas como missão, igualando a pregação do evangelho às ações sociais, ecológicas e ambientais.

“Pikkert alerta que, nessa compreensão, todos os seres humanos, cristãos e não cristãos, dispostos e envolvidos com o bem-estar da humanidade e do planeta, estariam cumprindo a missão, perdendo a missio Dei o núcleo de seu significado.

“Kevin DeYoung e Greg Gilbert, em linha similar, defendem que tal generalização é prejudicial ao conceito bíblico de “missão” e ao conceito teológico de missio Dei. Afirmam que a missão da Igreja não é restaurar todas as coisas, mas fazer discípulos, e expõem que essa é a missão da Igreja, seu chamado central, como resultado da comissão dada por Cristo ao seu povo (Mt 28:16–20).

“A posição de Voetius a respeito da missio Dei se enraíza na sua proposta original, que remonta ao século 4, descrevendo os atos da Trindade na redenção humana: o Pai planejando a redenção em amor e justiça; o Filho provendo redenção por meio do seu sacrifício; o Espírito Santo efetivando o plano de redenção, convertendo e selando os salvos. E, assim, a Igreja tem a responsabilidade e o privilégio de proclamar essa missão de Deus, efetivada por meio do Pai, Filho e Espírito Santo, a todos, fazendo discípulos de todas as nações. Dessa forma, a compreensão e influência de Voetius quanto à missio Dei defendem que o núcleo da missão da Igreja é a evangelização”. 


                    Fábio Ribas

sábado, 20 de julho de 2024

Aquarela (XXIX/2024)


Comentei na Amazon:

“Eu tenho várias razões para dizer o quanto gostei deste livro da Elizabeth Gomes, mas, dentre tantas, gostaria de ressaltar as soluções narrativas que ela apresenta em seu livro. A história linear, vez em quando, muda o foco da narrativa e, não apenas isso, mas adianta fatos (sem entregá-los), que só serão desdobrados depois. Achei muito bom! Um deles, por exemplo, fez-me ficar na expectativa até quase o final do livro, para ver quando que se daria o fato trágico anunciado no “meio da história”.
Personagens reais e muito cativantes. Gostaria de mencionar apenas uma das proezas da autora: se num dos capítulos, ao ler, eu o encerrei dizendo que não perdoaria também a determinado personagem, bastou o capítulo seguinte para que eu desmoronasse em lágrimas e me visse, então, perdoando aquele personagem.
Quem deveria ler este livro? Os cristãos e todos aqueles que precisam compreender o desafio real que muitas famílias missionárias passam ao enfrentar outras culturas. Nesta história, não há super-heróis e nem supercrentes, mas há a Graça e a Providência divina que nos assombram ao se manifestarem na vida comum de cada um de nós.
Obrigado, Beth, por nos dar um presente de imenso valor literário!”.

Contudo, aqui, quero traçar mais algumas linhas abaixo. Acho que poderá ser spoilers para alguns.

Há uma delicadeza na escrita sobre um Brasil que, sinto eu, esteja cada vez mais difícil de encontrarmos hoje em dia. Acompanhamos a trajetória da pequena Miriam, seu irmão e seus pais, esta família de missionários. As frases e cenas que a Elizabeth cria são cheias de sentimento, como, por exemplo, aquela cena da pequenina Miriam convidando a velha senhora para “brincar de igreja” — aquele momento foi lindo!

Frases construídas pela autora e, como eu disse, que são belas e nos fazem ver esse Brasil do interior de Monte Belo, no sertão de Minas Gerais, mas, principalmente, o interior daquela família missionária também. Estamos diante de um Brasil que talvez não exista mais, mas que foi testemunhado por tantas famílias de missionários protestantes americanos que vieram e deram sua vida por nós na primeira metade do século XX. O livro narra sobre uma dessas famílias. A família do Reverendo Donaldo, sua esposa Grace e seus filhos, Miriam e Natã. Enquanto lia, lembrei-me de tantas outras famílias americanas (e de outras culturas) que conheci, famílias de missionários estrangeiros que também amam nosso povo e, muitas vezes, percebi que amavam o nosso povo até muito mais do que eu mesmo tenho conseguido amar.

Preciso chamar a atenção para o que encontrei no capítulo 3, “Bom, mal e normal”, ali, Beth revela-se no melhor da sua escrita humorística. São páginas de uma escrita tão acertada e cheia de alegria, que nos pegamos lendo e sorrindo por todas a páginas. Aquela cena da Miriam cantando o hino “religioso” na igreja americana foi o máximo. Cena digna de filme! E o que dizer, então, da igreja de judeus que cantavam adorando a Deus “só não podiam acreditar em Jesus”! Humor fino da autora, mas vindo da personagem de uma Miriam cheia de gracinha, inteligente, curiosa e esperta. Como missionário, pai de duas filhas que cresceram nesse mesmo mundo colorido de tantas culturas, línguas, raças e de situações financeiras tão diferentes umas das outras, amei aquela reflexão sobre os filhos de missionários americanos, mas que, certamente, se aplica a todos os filhos de terceira cultura mundo afora:

“Esses filhos de missionários não tinham como ficar entediados — de certa forma, eram criados para ser desajustados; diferentes das crianças brasileiras de qualquer classe social e nem um pouco parecidos com as crianças que viviam a vida toda nos Estados Unidos”.

“Criados para serem desajustados” — perfeito!

Miriam está crescendo, mas seu pai, o Rev Donaldo, também está mudando. Alguma coisa não está indo bem com a família. Título sugestivo do capítulo: desmascarado. Como que as coisas se perdem? Como elas saem do controle das nossas mãos desse jeito? Fui pego de surpresa, confesso. Não sabia nada sobre do que se trataria o livro. Resolvi ler por duas razões: estou trabalhando um Mestrado em um dos livros do marido da autora, o Rev Wadislau Gomes, e, segunda razão, li um livro ainda não publicado da própria Elizabeth e gostei muito (além de ter tido o privilégio de também ter lido um outro livro de um dos filhos dela, também ainda não publicado, o Rev Daniel). Enfim, tenho lido livros da família Gomes. Tudo isso, portanto, trouxe-me naturalmente ao livro “Aquarela”. Mas sobre o que é, então, este livro da Beth? Um livro sobre o esfacelamento de uma família missionária? Grace, mãe de Miriam e Natã, está agora totalmente insatisfeita. Rev Donaldo, usando as palavras de sua esposa, é um “irresponsável”. Miriam já começou a reagir negativamente a esse estilo de vida da família: pais ausentes em uma família missionária que não se entende mais e nem busca a Deus juntos. Dos Estados Unidos para Monte Belo, MG; depois, Campinas, SP; foram, então, para Goiânia, capital de Goiás; depois para Brasília e, agora, Curitiba, no sul do Brasil. Uma vida de idas e vindas, entradas e saídas. Contudo, Donaldo abandona a Missão. O que ele quer? Ganhar o mundo e perder sua família? Todo aquele colorido dos primeiros capítulos, toda aquela aquarela do início se desfará, “se descolorirá”, como nos versos do poetinha Vinicius de Moraes?

Miriam está com 15 anos! O tempo passa rápido (e as páginas de nossa leitura também). Capítulo narrando sobre o despertar do amor em Miriam. Ou melhor, o despertar que ela já causa em terceiros. O livro é rico em personagens que são muito bem construídos e o capítulo sobre o primeiro enlace amoroso de Miriam serviu de alívio, uma pausa, uma retomada de fôlego, para o meu coração leitor, que vinha tão angustiado ao ver o desmoronamento daquela família nas páginas anteriores.

A família, contudo, chega ao fundo do poço. Se é um abismo, como indica o título do capítulo, haverá fim? Como uma família cristã, uma família missionária se vê envolvida pela bancarrota financeira e espiritual daquela maneira? Conheci muitas famílias cristãs, famílias missionárias com suas crises, seus profundos desvios. Às vezes, mentiras, infidelidades, filhos extraviados… Porém, não lembro de ter lido um romance que tratasse desses assuntos de forma tão acertada e vívida, como é o caso de “Aquarela”. Meu coração se encanta ao mesmo tempo que se entristece com tudo que vai lendo. Acho que eu sofro ainda mais, por eles serem estrangeiros. Se fosse uma família missionária brasileira sofrendo aqui ou em um país estrangeiros, talvez eu me distanciasse mais da história. Entretanto, conheci muitas famílias estrangeiras no Brasil e acho que sei o quão é difícil para essas famílias abrirem mão de tudo para estarem entre nós, língua e cultura tão diferentes das deles. É muito difícil ver a Grace alimentando sentimentos tão autodestrutivos, enquanto Donaldo perde-se cada vez mais.

Nesta altura da história, a autora começa a usar suas estratégias criativas para inovar sua contação de narrativa para nós. A apresentação do personagem Mauro, a anunciação de uma tragédia envolvendo Miriam e os diálogos que vão saindo de uma cena amorosa para uma cena trágica, tudo isso revela o domínio da autora. Estamos totalmente envolvidos com a história triste de Grace.

O livro chegando ao seu fim e as indagações na minha mente: Como se escreve um livro assim? Rico em detalhes e cheio de personagens humanamente muito bem construídos? Sabemos que uma tragédia ocorrerá, mas ela ainda não se deu (e o livro já anuncia o seu fim — então, como será para Miriam?). E Grace? Eu também não teria perdoado. Ele foi muito irresponsável, cruel e canalha (aquela venda dos quadros e o que ele disse…)! Como terminará esta história? Como terminam as nossas histórias? O que esperar da vida que Deus escreveu para cada um de nós?

Por fim, um livro que também indicaria a tantas famílias missionárias que estão se preparando para sair de suas vidas “em casa” ou que já estejam recém-chegadas em uma outra cultura. Mas também, é um livro que deve ser lido por todo aquele que deseja ser um Conselheiro bíblico para essas famílias. Um livro para educar nossa imaginação e nos ajudar a ajudar a outros na lida de nossa caminhada cristã.

                        Fábio Ribas

quarta-feira, 17 de julho de 2024

A arte da pesquisa (XXVIII/2024)


Fiz cada “passo a passo” do roteiro apresentado no livro e isso me ajudou demais a ver e entender o que eu queria em termos de trabalho final. Um livro prático e desafiador. Chegou um momento que a parede da minha casa ficou parecendo aqueles filmes de investigação policial, porque fiz as anotações em bloquinhos e papéis retangulares e os organizei, ligando-os por fio e tachinha. Ficou parecido com isto:

Vou deixar aqui o esqueleto que surgiu para você acompanhar o desenvolvimento que o livro nos leva a fazer. Segue abaixo.

Compartilhando a construção do Projeto de Pesquisa Simplificado, a partir da leitura do livro “A arte da pesquisa”, Wayne C. Booth (Autor), Gregory G. Colomb (Autor), Joseph M. Williams (Autor).

Primeiras reflexões

Problema:

Pesquisa:

P1: Quais as pesquisas nessa área já feitas por outros?

Base bíblica:

Incertezas:

1) Alguém já trilhou este caminho?

2) Vou encontrar material suficiente sobre isso?

Sobre o meu leitor ideal:

Avançando na construção do PPS, à medida que avanço na leitura do livro “A Arte da pesquisa”.

Assunto:

Perguntas

Tópico específico:

Organizando as respostas às perguntas que fiz:

Qual?

Quem?

O que?

Como?

Pergunta: E daí se eu não sei “como”?

O que estou fazendo?

1 — Qual é o assunto?

2 — Que evidências você tem?

3 — Por que você acha que sua evidência sustenta sua afirmação?

4 — Benefício:

1- Problema prático:

2- Pergunta de pesquisa:

3- Problema de pesquisa:

4- Resposta de Pesquisa:

5- Aplicação sobre o problema prático: (qual é o tipo de pesquisa que eu quero fazer? Bibliográfica)

6- Benefício da solução do problema prático:

Afirmação substantiva:

Evidências (a melhorar):

Fundamento:

Começar a escrever…

                                            Fábio Ribas

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Como ler livros (XXVII/2024)


“Como ler livros”, de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, tem como subtítulo “o guia clássico para a leitura inteligente” e foi publicado pela É Realizações Editora.

Gostaria aqui de usar o próprio método deles, de Adler e de Doren, para apresentar o livro deles, então, vamos lá.


Para uma leitura inspecional:

1. Examinando a folha de rosto e o prefácio: Interessante que a capa do livro, suas gravuras, remetem a um mundo “ideal”, talvez uma escola e ensino mais tradicionais ou, combinando com a palavra “clássico” do subtítulo, um tempo de ensino e aprendizagem melhores e mais elegantes. Um tempo remoto e perdido para as novas gerações. Uma escola que já não exista mais. O aluno com dúvidas e dificuldades e o professor à mesa ensinando esse jovem. O prefácio me abre o gosto e o desejo, porque foi escrito pelo professor José Monir Nasser, já falecido. O fato de ter tido o prazer de assistir as aulas dele há muito tempo, abre-me o interesse para esse livro.

2. Examine o sumário: cheio de detalhes, revela um livro dividido em 4 partes. A primeira parte tratará das dimensões da leitura, seus níveis, a leitura elementar, inspecional e a leitura exigente. A segunda parte seguirá para o terceiro nível de leitura, a analítica. Aqui, aprenderemos sobre a importância da classificação de um livro, como radiografá-lo, compreender as palavras e os termos usados pelo autor e seus sentidos. Adler trará também sobre como devemos criticar um livro e como devemos concordar e discordar do autor. E também veremos o uso de materiais de apoio. A terceira parte se dedicará às diferentes leituras que devemos ter diante de diferentes assuntos: livros práticos, de ficção, narrativas, peças de teatro, poemas, como ler livros de história, ciências, matemática, filosofia e ciências sociais. Na última parte, “Os fins últimos da leitura”, entraremos no assunto da leitura sinóptica, que é aquela que aborda um mesmo assunto em vários autores e fontes diferentes. Esta última parte terá também uma lista de leituras recomendadas e exercícios e testes para cada um dos 4 níveis de leitura.

3. Consulte o índice remissivo: um livro sobre “como ler” logo leva meus olhos a procurarem no índice remissivo por “Eco, Umberto”. Todavia, a primeira edição do livro de Adler parece ser de 1940, portanto, compreende-se a ausência de Umberto Eco, ainda que haja outras edições em 1967 e 1972 (e o próprio Adler viveu até 2001). No índice remissivo há Aristóteles, Agostinho, Dante Alighieri entre tantos outros que não poderiam mesmo faltar.

4. Leia contracapa e sobrecapa: as “orelhas do livro" trazem informações sobre Adler e Van Doren, além de mostrar que o livro em questão faz parte de uma coleção da Editora É Realizações, “Coleção Educação Clássica”. A contracapa traz mais uma apresentação da importância do livro de Adler e Doren e tem citações do “The New Yorker” e um trecho da apresentação do professor José Monir Nasser.

5. Examine os capítulos que lhe pareçam centrais para o argumento do autor: aqui, corri para ler um pouco mais atentamente a última parte do livro, pois mais me interessava era aquela sobre a leitura sinóptica.

6. Folheie o livro: estamos no nível da leitura inspecional, então, devemos "passar os olhos" pelas páginas do livro e ler algumas páginas do que julgamos ser mais central para a apresentação da ideia do autor.


Para uma leitura exigente, há quatro perguntas centrais:

1) O livro fala sobre o quê? O livro é sobre como podemos e devemos aprimorar nossa leitura, para isso o autor defenderá que há quatro níveis diferentes de leitura e cada qual exigirá um método, um passo a passo que ele compartilhará conosco. Além de níveis de leitura, os próprios textos em si exigem posturas diferentes do leitor. Por exemplo, não devemos ler livros de ficção com a mesma abordagem que temos ao ler livros científicos. Para mim, o capítulo essencial é o da leitura sinóptica.

2) O que exatamente está sendo dito, e como? Se não aprendermos a ler de uma maneira melhor, terminaremos perdendo um tempo precioso. Ler bem, o autor defenderá, é uma arte e como tal exigirá treino, método e dedicação.

3) O livro é verdadeiro, em todo ou em parte? O livro de Adler é verdadeiro no todo, embora eu, como “macaco velho”, tenha grande dificuldade em acatar métodos e regras na altura do campeonato da minha vida. Adler fala sobre isso: ele diz que é mais fácil aprender a esquiar quando jovem do que depois de velho. Por isso, acredito que este livro deva ser trabalhado na escola, ainda antes da passagem para o Ensino Médio.

4) E daí? Eu concordo com as ideias do livro. Acredito que ler, ler bem, seja uma arte e que precisamos também ensinar isso às crianças. Num país de poucos leitores e de leitores de pouca qualidade é importantíssimo saber que podemos e devemos mudar essa nossa triste realidade.

Pense num livro que eu sofri muito em ler! Pode tentar imaginar? Horrível! Depois dessa leitura, nunca, mas NUNCA MAIS mesmo, irei pegar livros em biblioteca. Só o fiz, porque o livro era caro, mas me arrependi terrivelmente! Coisa tenebrosa é ler um livro e não poder escrever nele, rabiscar, sublinhar etc. Aí, pior ainda, é encontrar no livro que você não pode sublinhar uma orientação de como você deve sublinhar os livros que lê! Para mim, é fundamental sublinhar, escrever e reagir durante a leitura. Como não podia fazer isso com o livro de Adler e Doren, acabou que a regra 6 (mais abaixo) ficou prejudicada. Agora tive a certeza de que preciso me virar para comprar livros de papel e kindle, pois ambos permitem que você interaja com eles, neles!


Para uma leitura analítica:

Regra 1. Você tem que saber qual tipo de livro está lendo e deve saber o mais cedo possível, antes de começar a lê-lo, de preferência: “Como ler livros” é um livro expositivo, porque transmite conhecimento. Não é um livro ficcional. É um livro prático, pois ensina como ler livros.

Regra 2. Expresse a unidade do livro em uma única frase, ou no máximo em algumas poucas frases: o livro de Adler e Van Doren é sobre como podemos aprender a arte de ler livros tirando o melhor proveito disso para o nosso crescimento intelectual.

Regra 3. Exponha as partes principais do livro e mostre como elas estão ordenadas em relação ao todo, ordenando-as umas às outras e à unidade do todo: “Como ler livros” é uma obra que apresenta de maneira ascendente a arte de ler, sendo assim, ele parte da importância da alfabetização como o nível mais básico e mostra como que, ainda que já sejamos alfabetizados, podemos ler, infelizmente, sem a mínima compreensão devida. Como se mostra isto de ler com maior profundidade e aproveitamento? Mostrando que, para além da alfabetização, capítulo a capítulo, devemos tomar posse do livro, seu autor e mensagem. O autor cumpre isso da seguinte maneira: primeiro , devemos nos aproximar com uma leitura inspecional, depois uma leitura exigente, seguirmos para uma leitura analítica até que, enfim, consigamos ler ou “linkar” o assunto lido a outras obras que tratam daquele mesmo assunto.

Regra 4. Descubra quais foram os problemas do autor: O problema que o livro de Adler e Van Doren quer resolver é: É possível fazer do leitor um leitor melhor? É possível despertar, aprimorar e fazer do leitor alguém que saia da leitura de um livro dominando-o realmente?

Regra 5. Encontre as palavras importantes e, por meio delas, entre em acordo com o autor: “leitura”; arte”; níveis”; hábito”; “mensagem”; “comunicação”, “crescimento”. Eu diria mesmo que todas essas palavras se encontram no mesmo “campo semântico”. Elas estão unidas por um mesmo tecido argumentativo e isso facilita discernimos com muita precisão o sentido que os autores estão dando a elas. A própria palavra “leitura” não se reduz ao mero ato de ler. Pelo contrário, “leitura” tem o sentido de inteligibilidade no livro. Para desenvolvermos essa inteligibilidade é preciso “arte”, que é usada no sentido de esforço, método, disciplina e mesmo “hábito”.

Regra 6. Marque as frases mais importantes do livro e descubra as proposições que elas contêm:

A) “Não precisamos saber tudo sobre determinada coisa para que possamos entendê-la”:

B) “…temos que reconhecer que há vários tipos de escritores…”

C) “Imagine-se como um detetive em busca de pistas sobre os temas e ideias gerais do livro, alerta a tudo que lhe trouxer esclarecimento a esse respeito”

D) “…triste é ver gente que sabe distinguir entre proveito e prazer — entre entendimento, por um lado, e entretenimento ou vã curiosidade, por outro — , mas não sabe elaborar um plano de leitura”.

E) “…há diferenças na arte de ensinar em diferentes campos de conhecimento, também há diferenças na arte de ser ensinado”.

Regra 07. Localize ou formule os argumentos básicos do livro com base nas conexões entre frases: “Talvez saibamos “ler”, mas uma leitura sem dedicação, organização, método e esforço não nos alçará a uma vida intelectual plena”.

Regra 8. Quais são as soluções do autor: Diante de um leitor que não discerne entre a leitura prazerosa e a leitura de conhecimento é preciso desenvolver a habilidade de ler com o máximo de proveito possível, para isso os autores apresentam a solução de uma técnica de avançar nos níveis de leitura, enquanto seguimos as regras que eles apresentam para uma leitura atenta e substancial.

Regra 09. Você tem de dizer com razoável grau de certeza “eu entendo” antes que possa dizer “concordo” ou “discordo” ou “suspendo o julgamento”: esta regra vale para a vida! Em todas as áreas da comunicação. Quanto ao livro de Adler e Van Doren, sim, eu entendo e, por isso mesmo, posso dizer que concordo.

Regra 10. Quando discordar, faça-o de maneira sensata, sem gerar disputas ou discussões: outra regra para a vida! Difícil é obedecer, sou muito impetuoso, mas hoje sou mais tranquilo do que já fui no passado.

Regra 11. Respeite a diferença entre conhecimento e opinião fornecendo razões para quaisquer julgamentos críticos que fizer: mais uma regra para a vida! Embasamento é tudo! E como nos falta, principalmente porque muitos não leem e há mais opinião no mercado do que conhecimento de fato. Os autores do livro demonstram conhecimento e nos dão argumentos para concordarmos com aquilo que estão apontando para nós. Assim, posso dizer que o livro foi escrito por quem sabe o que está dizendo, tem informação sobre o que está tratando. Muito bem informado, o livro concatena as ideias com lógica levando-nos das premissas até a conclusão. Caso, neste ponto, haja discordância com o autor, é preciso mostrar suas razões para discordar.

Agora, nas páginas 188–189, que fantástico aquilo que ele diz sobre como podemos encarar as palavras: “palavras são coisas físicas”, palavras são partes do discurso”, “palavras são signos” e, por fim, “palavras são convenções”.

Um livro instigante, mas que eu gostaria de ter lido “lá atrás”. Eu fui muito mal iniciado no mundo da leitura. Essa leitura que a escola passa (pelo menos, na minha época) era de desanimar qualquer aspirante a leitor. O livro de Adler e Doren trata de “projeto de leitura” (há, até mesmo, uma lista de livros para se ler, clássicos). Contudo, depois de toda essa leitura de Adler e Van Doren fica muito óbvio para mim que o que precisamos é de pais e professores que tenham um “projeto de ensino para uma leitura de qualidade”. Ler é uma arte, um domínio, uma habilidade que pode e deve ser ensinada. E o quanto antes melhor!

                Fábio Ribas

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Meu filho Dahmer (XXVI/2024)


Assisti esta semana à série “Dahmer”, da Netflix. Recordo-me de ter sido uma série muito comentada durante seu lançamento e também lembro de toda a publicidade em torno das atuações, da direção e produção. Havia também a expectativa de toda violência na recriação dos crimes cometidos por Jeff Dahmer. Isto, certamente, manteve-me longe de assisti-la por todo este tempo. 

Como seria de esperar, saíram vários vídeos e reportagens mostrando o que era fidedigno e o que era “licença poética” ao que nos foi oferecido como resultado final. A atuação do jovem que fez o personagem principal foi comentadíssima. De fato, Evan Peters está muito bem assentado ao terrível “canibal de Milwaukee”. Não foi nem o primeiro “psicopata” que o ator interpretou, assim como não foi a primeira vez que assisto e leio sobre assassinos em série. Contudo, sempre aguardo “a poeira baixar” para, então, avaliar se devo ou não assistir/ler essas histórias badaladas na mídia.

Há uma fascinação sobre como essas pessoas — nossos semelhantes — são capazes de chegar ao ponto que chegam. O primeiro livro que devo ter lido sobre assassinos em série foi o excelente “Mentes perigosas — o psicopata mora ao lado”. Aliás, é um livro que, volta e meia, comento, pois fez parte da minha caminhada cristã missionária e ajudou-me a entender e também a me proteger de psicopatas (manipuladores emocionais e espirituais) que nos cercam. Acho que nunca resenhei esse livro da Dr.ª Ana Beatriz Barbosa Silva, mas a esse seguiram outras leituras de outros autores: “Lady Killers”, “Anatomia do mal”, “Made in Brazil” (este é um volume único com dois livros da Iliana Casói) etc. Assim, de memória, lembro desses que são todos da Editora “Darkside”. Nossa literatura de ficção e não ficção é recheada de mergulhos na alma humana. O que só demonstra como o tema do lado escuro da nossa natureza nos fascina. 

Para mim, entre tantas qualidades alardeadas sobre a minissérie “Dahmer” (embora, não nego, tenha passado para frente as cenas que julgava desnecessárias ou até panfletárias na série — viva o controle remoto!), a melhor foi a atuação do ator que fez o pai de Dahmer, o Lionel. Fui até atrás para saber se o ator — Richard Jenkins — havia recebido prêmios, mas não consegui achar nada. Um personagem verdadeiramente dramático, complexo, cheio de crises, dúvidas e indagações; enfim, um personagem dificílimo de trazer ao público e que me envolveu totalmente. Por que parava o controle remoto sempre que esse personagem aparecia? Além da atuação estupenda, é a história de um pai e eu também sou pai. Aqui, este é um ponto de contato, mas não foi o único e nem o mais profundo.

Lionel é o pai de Dahmer. O que é ser um pai de um assassino em série? Mas não é isso apenas. Lionel se questiona sobre a participação (ou sua negligência) dele para a formação “disso” que ele vê aparecer em seu próprio filho. Acredito que qualquer pai ou mãe, num momento em que todos esses detalhes macabros e bizarros sobre próprio seu filho venham à tona, indague sobre o mesmo que Lionel e, mentalmente, repasse todos os detalhes de sua vida para encontrar sua responsabilidade nisso tudo. Todas essas questões, muito naturais e humanas, são levantadas por Lionel. Contudo, e aqui está o ponto, há uma outra questão específica que me surpreendeu e me fez comprar o livro “Meu filho Dahmer”: Lionel se identifica com seu filho, e não estou falando sobre um pai que vê a si mesmo em seu próprio filho; Lionel se identifica com o lado sombrio do próprio filho. Quantos de nós temos a coragem de nos sondar para ver nossos próprios caminhos maus? Na maioria das vezes, os maus existem, tão somente, para que nós nos coloquemos do outro lado da linha, pois nunca faríamos o que eles fizeram. Esta reflexão nos leva ao centro do Sermão pregado por Jesus Cristo (Mt 5,6 e 7): não fazemos, mas pensamos, desejamos, intencionamos e, até mesmo, invejamos os que fazem!

Há duas cenas sensacionais nesta história. A primeira é Lionel em crise dizendo que seus genes tinham contaminado seu filho, pois metade do que havia em seu filho tinha vindo dele. Então, a personagem de sua segunda esposa, a Shari, segura suas mãos e olha em seus olhos dizendo que isso não era verdade, pois havia um segundo filho do primeiro casamento, irmão de Dahmer, que era um menino comum e que não apresentara nada daquilo que aconteceu com Dahmer. A segunda cena não está na série, mas no livro de Lionel. Poderíamos pensar que Dahmer fora afetado pelos tantos e tantos remédios que sua mãe usara em sua gestação, uma gravidez difícil e conturbada. Todavia, no livro, ficamos sabendo que, em sua segunda gravidez, houve as mesmas dificuldades e, portanto, o uso de medicações fortíssimas repetiu-se novamente. E o irmão de Dahmer nunca manifestou nenhuma natureza macabra. Essas duas cenas vão ao encontro de quaisquer pais que se indagam, afinal, qual sua responsabilidade na desenvolvimento de um monstro. Queremos uma explicação: os genes ou o uso de drogas? A criação infeliz, um lar conturbado, alcoolismo, o diabo etc, queremos explicações, mas elas não aparecem tão facilmente. Outra cena para servir como a “pá de cal” nessa busca por explicações simplistas é aquela em que o juiz decide pela destruição do cérebro de Dahmer, ao invés de doá-lo para pesquisa médica. Já haviam feito isso com o cérebro de outro serial killer e o resultado dera em nada. Todavia, além de uma busca vã, há um perigo nessa busca. Caso se encontrasse algo (uma mancha, um tumor etc), isto significa que todo cidadão com essa manifestação física cerebral seria um serial killer? A tendência é que uma informação como essa na mão do Estado e da sociedade redundaria numa seleção nazista de cidadãos, que deixariam de ser tratados como iguais perante a lei. Enfim, não há respostas claras, definitivas e simples para situações como a de Dahmer.

Desde a série, Lionel é, para mim, de longe, o personagem mais interessante. Suas lutas, suas dúvidas, suas falhas são extremamente humanas. Identifiquei-me com Lionel, pois ambos somos pais. Somos filhos e somos pais. E estes são os dois eixos em torno dos quais gira a trama do livro: o que herdamos e o que repassamos adiante. Há muitas indagações e Lionel sempre nos coloca sobre sua responsabilidade, até mesmo genética, naquilo que fez de seu filho quem ele foi. O livro é uma confissão sincera, uma tempestade de ideias em busca de respostas, mas, surpreendentemente, é um livro muitíssimo bem escrito. Li o livro em menos de dois dias!

Lionel se identifica com Jeff em todos os momentos. Em nenhum momento, as palavras de Lionel são usadas para se escandalizar pelos crimes hediondos do filho, colocando-os em polos diferentes (o bem e o mal). Lionel se coloca do mesmo lado que o filho. Há uma foto, emblemática no livro, logo em suas primeiras páginas, é a foto de sua mão adulta apoiando a pequenina mão de seu filho. É uma foto que anuncia a caminhada de Lionel com Jeff. Mas, muito além do apoio, há a identificação: Lionel não esconde a parte escura de sua própria natureza. Ele recorda que também já teve vários desejos insanos e, até mesmo, a vontade de matar. Ele reconhece em sua própria natureza o mesmo anseio por controle e domínio que seu filho também buscava ao tentar imobilizar, dominar e se alimentar de suas vítimas. “Somos todos depravados em nossas naturezas”, esta é a tese que vejo em Lionel Dahmer.

“O quanto eu estava perto de trilhar o mesmo cami nho que Jeff? Será que foi a diferença de escolhas que fiz ou deixei de fazer, ou será que foi apenas boa ou má sorte genética? Nunca saberei, mas não consigo deixar de me perguntar se meu interesse por hipnose ou pela fabricação de dispositivos explosivos não era algo além da fascinação de um garoto pelo desconhecido. Quando passei fios desencapados pelo sofá da nossa sala de estar para causar um choque elétrico nos meus primos, será que fiz isso apenas para pregar uma pegadinha? E quanto à minha necessidade de controle? Será que todas essas coisas, e muitas outras, nada eram além de pensamentos e comportamentos normais de uma criança ou havia ali sinais precoces de algo perigoso dentro de mim, algo que poderia ter se ligado à minha sexualidade, e, ao agir assim, teria me transformado no homem que meu filho se tornou?”, p. 197.

Antes de tudo, “Meu filho Dahmer” é sobre uma jornada espiritual. Um reencontro com o Único capaz de redimir toda e qualquer mancha, nódoa, abismo e tenebrosas trevas de nossa natureza humana corrompida pelo pecado. Um livro que, muito além de nos falar sobre a podridão da natureza de todos nós, fala muito mais alto sobre o que é a inexplicável, incompreensível, inescrutável maravilhosa graça de Deus em Cristo Jesus!

Uma última cena emblemática na série. Lionel está visitando seu filho na cadeia e este, comentando sua intenção de se batizar, pergunta ao pai se ele conseguiria perdoá-lo. E o pai responde: “Eu vou perdoar você. Eu perdoo você, porque sou seu pai”! Esta frase, para mim, é evangélica na sua essência mais profunda e bíblica. Deus perdoa todos os nossos pecados, porque somos seus filhos. E só podemos ser perdoados, porque o verdadeiro Filho de Deus nos conquistou para dentro de sua própria família. Fomos adotados e, graças a isso, podemos ouvir de Deus: “Eu perdoo você, porque sou seu Pai”! 

Qual a diferença entre o personagem de Jeff e a pessoa de Jesus? Jesus assumiu os pecados meus e os de Jeff Dahmer (crendo que este verdadeiramente foi convertido e se arrependeu de seus pecados, como mostram tanto a série quanto o livro). Naquela cruz, sendo totalmente inocente, Jesus recebeu sobre si a Ira de Deus que deveria vir sobre os meu pecados. Jesus foi acusado de ser um monstro. Ele recebeu a punição pelos pecados que nunca cometeu. Satanás, a antiga serpente, o dragão, estava diante daquela cruz vomitando sobre Jesus todas as acusações que estavam na escrita de dívida contra nós. Jesus derramou seu sangue, para a salvação dos eleitos de Deus. Isto é graça! A graça de Deus! Você a conhece?

        Fábio Ribas

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Vivendo em união com Cristo (XXV/2024)


“O que Jesus faria?” ou “Como posso habitar na bondade de Jesus nesta (ou naquela) situação específica?”. Nossa identidade moral cristã tem resultados diretos em nossa ética e, por isso mesmo, Grant Macaskill se dispõe a esclarecer ao leitor as consequências nefastas de uma teologia trinitariana em decadência nos dias atuais. Precisamos de muito mais do que as narrativas dos Evangelhos, assim como nossa ética deve superar e muito a mera imitação de Cristo. 

Um livro que já me prendeu no prefácio:

“Estamos tão comprometidos com o pecado que sempre usaremos os dons de Deus para fins idólatras, e permaneceremos cegos para o fato de que estamos fazendo isso, como o próprio Paulo estava antes de seu encontro transformador com o Cristo ressurreto. As pessoas agirão, pensarão, ensinarão e liderarão de maneiras que sirvam a essa idolatria constitucional e o farão sem qualquer autoconsciência”, p.9

Antes da leitura prazerosa e instigante deste livro, nunca havia pensado no legalismo não somente como apresentação dos meus méritos diante de Deus, mas, como Macaskill apresenta, um sistema que coloca-me num patamar superior espiritual em relação ao meu irmão. Embora a gente veja esse tipo de atitude sempre, nunca pensei em ver essa prepotência e arrogância como fruto do nosso legalismo. Muito bom! E a tese do livro já é apresentada sem rodeios:

“A principal afirmação deste livro é que toda conversa sobre a vida moral cristã deve começar e terminar com a declaração de Paulo “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20), e deve compreender corretamente a obra do Espírito Santo em relação à presença de Cristo”, p. 21.
“…a teoria da virtude está preocupada em como podemos nos tornar melhores versões de nós mesmos ao ordenar nossos apetites e instintos, mas Paulo está preocupado em como nos tornamos outra pessoa”, p 57.

O primeiro capítulo é sensacional. Lavou-me a alma, como dizem por aí. É uma crítica às modernas visões sobre Lutero e Paulo. E o maior problema que eu vejo é que essas “novas perspectivas” caem dentro das igrejas locais sem nenhum filtro ou contexto. Erros complicadíssimos saídos de debates acadêmicos muito recentes e que vêm às mãos de leigos que recebem tudo isso, por meio de seus pastores, os quais deveriam zelar pela qualidade do que é oferecido às ovelhas, deixam que elas comam ervas daninhas tóxicas misturadas à pureza do evangelho. E o pior é que isso — essa esquizofrenia teológica moderna de cunho social — é oferecida ao campo missionário também. Não há preparo, não há filtro, não há guia e nem limite, tudo isso é oferecido em cursos de formação missionárias — e nas livrarias de igrejas locais também — como se fosse material devocional! 

NT Wright e tutti quanti são autores modernos que precisam ser questionados urgentemente! Espero que saiamos dessa perniciosa, terrível, moderna e medievalista “ética da virtude” para o puro e simples evangelho da santidade EM Cristo. Este primeiro capítulo é um primor de qualidade! Ao contrário do medievalismo virtuoso da imitação de Cristo (que gerou, até mesmo, aquela versão do “O que faria Jesus?”), a grande defesa aqui é que fomos chamados para a habitação e não para a mera imitação!

“Eu costumava desejar que as pessoas e Deus olhassem para mim, com toda a minha particularidade física, e vissem o quanto eu possuía coisas que declaravam minha posição no Reino de Deus; agora quero que olhem para mim e vejam que meu ser particular está no ser de Cristo, que o que tenho é, na verdade, o que ele tem”, p. 87.

No segundo capítulo, fundamentalmente, precisamos compreender que a vida cristã não é um programa ou discipulado para nos tornarmos uma versão melhor de nós mesmos, mas, antes de tudo, vivermos em acordo com nossa identidade em Cristo. Falamos muito em morrer, a morte do “eu”, mas essa perspectiva é limitada à parte de uma ação que deveria ser melhor compreendida. A morte do “eu” só é assim, porque nos unimos a Cristo, então, não é algo que eu faço, mas é o que Cristo fez em/por mim: habitou-me! A troca de uma espiritualidade de ênfase na imitação por uma de habitação está no centro dessa correção de uma caminhada equivocada. Assim, toda discussão é sobre a minha identidade: eu não sou o que faço (nem mesmo o que faço em Cristo ou por Ele), eu sou o que Cristo fez em/por mim: habitou-me!

“…quando falhamos, nossas falhas envolvem a verdadeira atrocidade de viver contra aquele que vive em nós. São piores porque envolvem uma espécie de negação de quem realmente somos”, p. 126.

No terceiro capítulo, a partir do sacramento do batismo, ele reforçará esta ideia, lembrando que ser batizado em Cristo é revestir-se de uma nova identidade: eu-em-Cristo. O batismo nos coloca em Cristo, Cristo nos coloca em Deus e nos coloca também em uma comunidade que tem só a Jesus como Senhor, assim, precisamos dialogar com amor. Não podemos usar a lei e a doutrina como algo que coloca para fora ou identifica quem está dentro. No batismo, estamos todos dentro e sob essa perspectiva precisamos dialogar sobre nossas diferenças.

“Como o batismo, a Ceia do Senhor realiza dramaticamente o passado de Jesus de uma forma que nos direciona para o seu futuro e afirma que esse futuro também será nosso. A Ceia do Senhor nos lembra, cada vez que participamos dela, que nossa condição moral atual não é nosso estado final. Mais importante, nos lembra que o estado final não será alcançado por meio de um processo gradual de crescimento moral, mas envolverá um outro evento disjuntivo que mudará tudo decisivamente. Ele virá e nós seremos transformados”, p.163.

O quarto capítulo foi profundamente impactante. Fez-me lembrar Paul Ricoeur. O tema da memória é algo fascinante para mim. Mas aqui é trabalhado de maneira magistral, ligando o tema da memória não apenas ao batismo, mas à Ceia do Senhor como uma memória introduzida, não pessoal. A Ceia é uma recordação de algo que não vivi, mas, por ser memória enxertada de terceiros, ela dramatiza e me define a identidade em Cristo. Esta é a MINHA história. Contudo, há duas discussões aqui assombrosas. A primeira é a analogia com o filme Blade Runner, que leva o autor a desenvolver essa perspectiva da “memória enxertada”. O que define a nossa identidade são nossas memórias. No caso, é a memória enxertada pela Bíblia em nós pela santificação do ES! Agora, aquela ideia da “memória coletiva”, social, tudo aquilo foi demais. Se somos o que é definido por nossas memórias, perdemos, então, nossa identidade quando, por exemplo, sofremos do mal de Alzheimer? Ainda que eu esqueça quem sou, o meu irmão e a igreja sabem que sou em Cristo Jesus. Minha memória está preservada na família da Igreja!

“Quem me livrará do corpo desta morte?”. Quando respondemos a essa pergunta corretamente, no meando Jesus Cristo, há esperança e alegria. Fazemos eco da declaração de Paulo “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 7.25). Encontramos alívio e descanso no conhecimento de que “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (8.1). Ainda estamos nas ruínas da guerra, e quando nos dirigimos a Deus, nosso Pai, muitas vezes não é com um grito triunfante, mas com um grito de dor de “Aba, Pai”. Mas a guerra está vencida e os sinais dessa vitória se manifestarão em nós com uma beleza e realidade que não podem ser questionadas por nossos fracassos”, p. 188.

O quinto capítulo é um chamado para assumirmos o que somos pela santidade de uma caminhada do Espírito Santo junto conosco! As coisas ficaram definitivamente claras para mim! Nossa identidade com Cristo, nossa luta por mortificação, nosso avançar nEle e a apropriação de nossa adoção, tudo isso tem como chave a Pessoa de Jesus Cristo: Ele é a resposta! É o que Ele fez e o que Ele faz. E jamais sobre o que eu faço ou posso fazer! Que capítulo!

“Na oração, orientamo-nos para aquele cuja identidade esperamos habitar. Mais importante, na oração a dupla subjetividade de nossa nova identidade é corporificada: nós somos aqueles que oram, os sujeitos ativos dos verbos da oração, mas nossas orações são cotestemunhos com o Espírito ou intercessões dele”, p. 203.
“…nossas realidades e as de Cristo não são separadas uma da outra, mas estão ligadas. Nossos sofrimentos são uma participação em seu passado; nossa esperança é uma participação em seu futuro”, p. 203.

O sexto capítulo. O ES está conosco, por causa de nossa união com Cristo. Por causa daquele evento no passado, temos vitória na vitória dEle. Mas temos esperança na habitação do ES em nós. Nossa esperança é que aquela vitória na cruz e na ressurreição tem efeitos hj e no futuro: nada poderá nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus! Isto é confirmado no ES em nós que está junto conosco! Cada vitória de nosso crescimento espiritual é uma vitória nossa junto com o ES. E as derrotas não podem desfazer aquilo que já nos foi conquistado na cruz e na ressurreição. Cresçamos, portanto!

Na conclusão, o autor busca reenquadrar a virtude e a disciplina, mas não como fins em si mesmas, mas como instrumentos na relação pessoal com Jesus. Legalismo e justiça própria são sempre os perigos numa ênfase equivocada da teoria da virtude e da disciplina. Não há mérito em mim nem para a minha salvação e nem para a minha santificação. Na salvação, o ES me regenera, arrancando-me o coração de pedra e me dando um coração de carne. Este, então, é capaz de se voltar ao Senhor! Na santificação, não posso usar da lei para capital religioso e social, deixando as pessoas concluírem que as vitórias na minha caminhada são mérito pessoal, pois não são! É Cristo-em-mim que ordena o meu novo “eu” e, por meio do Espírito Santo, juntamente comigo, leva-me à santidade, mas uma santidade que brota da relação com a Trindade. E como posso crescer em santidade? Fazendo as mesmas coisas que os cristãos fizeram nos últimos dois mil anos — ler e estudar a Palavra, ouvir boas exposições da Palavra, orar, participar dos batismos e ceias, congregar com meus irmãos — e, tudo isso, sendo eu-em-Cristo e Cristo-em-mim! O ES é quem anda, caminha e ora junto comigo (cosubjetividade), o mérito, portanto, não é meu. Sou salvo pois Cristo habita em mim. Sou santificado pois eu habito no Espírito Santo. 

        Fábio Ribas

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Insegurança Pública (XXIV/2024)


Após o prefácio de Youssef Abou Chahin, ex-delegado-geral da Polícia civil de São Paulo, o autor nos dará as origens históricas do surgimento das tropas de elite. Além do BOPE e uma crítica ao filme Tropa de Elite, Diógenes Lucca falará sobre o GATE, a SWAT e o ROTA. No GATE, o autor foi testemunha ocular de um episódio que quase encerrou o recém-criado Grupo de Operações Táticas Especiais (GATE): o caso da Professora Adriana Caringe. 

Não dá nem para imaginar a tensão e o stress como os enfrentados por esses policiais, desde as crises com reféns, com suicidas, as operações em meio a multidões etc. Por isso, Diógenes Lucca, Tenete-Coronel veterano da Polícia Militar do Estado de São Paulo e fundador do GATE, também ressaltará as várias características que deve ter um policial de elite. O alvo do autor, quando à frente do GATE, era desenvolver a tal ponto a credibilidade da tropa diante da opinião pública que até mesmo o criminoso os chamasse para intermediar as situações de negociação. Entretanto, ao ler isso, vi com tristeza e frustração tal intento hoje, pois, para mim, é impensável imaginar um resgate de credibilidade militar diante da população brasileira num Brasil pós-oito de janeiro 

Logo no primeiro artigo do livro, “O estado de segurança pública no Brasil”, Diógenes Lucca faz um verdadeiro raio-X de nossa situação de caos nacional, apontando os problemas e mostrando as soluções possíveis. Revela o problema de se deixar levar pelas soluções eleitoreiras e midiáticas. Enfatiza a importância da coalizão entre as forças policiais nas soluções para o problema da Segurança Pública, o papel dos Estados e, principalmente, o papel de São Paulo como exemplo para os demais. 

O Brasil já passou por vários absurdos no trato com o crime organizado, inclusive do Estado se colocar nas mãos de criminosos. Todavia, não há como ler este livro e pensar que o sistema hoje está muito mais favorecendo os crimes do que disposto a combatê-los. A sensação é que, finalmente, o crime organizado colocou seus representantes no Congresso e no Judiciário (e no Executivo) — o que esperar da “democracia”, não é mesmo? 

O capítulo sobre segurança pública e segurança privada lembrou-me muito o livro “Defenda-se”. Contudo, os livros discordam entre si em alguns posicionamentos quanto a como devemos nos comportar diante do crime que nos assola diariamente. Ele falará sobre os agentes de segurança privada e também os que trabalham com carro-forte. Algo muitíssimo positivo são as sugestões de pequenas ações que poderiam ajudar, como, por exemplo, se uber’s e táxis, caso quisessem, fossem munidos de rádios com acesso direto à polícia, podendo, assim, anunciar situações suspeitas caso as encontrassem. Neste ponto do livro, eu já posso começar a delinear o meu descontentamento com a visão não armamentista do autor. Na verdade, quando o autor trata de segurança pública, ele nunca leva em conta o cidadão, mas apenas as forças do Estado. Assim, ler este livro de um policial brasileiro, logo após o “Defenda-se”, que é um livro de um policial americano, mostra como que as duas cosmovisões são bem diferentes. Nos Estados Unidos, a questão da segurança pública passa pelo cidadão e, não apenas isso, torna-o agente. A posição de Diógenes Lucca mostra como que a ideologização do tema turva o próprio posicionamento do policial brasileiro em enxergar no cidadão de bem um aliado armado para proteção na segurança pública.

A própria crítica ao filme “Tropa de elite”, feita por Diógenes, eu a li como uma crítica enviesada ideologicamente por duas frentes. Primeira, Diógenes é policial e protege a imagem da corporação. Como eu disse, ele elenca uma série de características que policiais devem ter para participarem de tropas de elite, mas, ao fim, diz que tais características não querem sinalizar que tais policiais estão acima dos demais e que, na verdade, tais características devem estar presentes em todos. Todavia, a impressão que fica é que são características que os diferenciam dos demais e que também os diferenciam do cidadão comum. Tudo isso só inviabiliza a possibilidade desse cidadão ter seu porte de arma para participar do plano de segurança, tanto na defesa de sua casa como das ruas. Segunda frente, o autor não vê que o filme é um recorte de uma realidade específica e que o cidadão, exatamente esse não levado em conta, aprovou o filme.

A Editora do livro de Diógenes é a Vide Editorial. A mesma que publica as obras do já falecido Olavo de Carvalho e, ironicamente, a mesma que publica o “kit desarmamentista”. Mas Diógenes segue na contramão, dizendo que o cidadão deve se submeter ao criminoso, para não irritá-lo. Embora o livro seja muitíssimo bom em nos descrever a situação da polícia, os problemas enfrentados nas ruas diante de um Governo que não possui um plano de segurança nacional, em nenhum momento, o autor defende o direito armamentista do cidadão. Surpreendentemente, o livro, que segue tratando da realidade da insegurança pública no Brasil e que até apresenta algumas soluções ao longo das suas páginas, contudo, ao chegar ao seu desfecho, deixa no leitor uma sensação de desespero. O livro terminará deixando um gosto amargo em nossas bocas, uma impressão de que o caos é de tal magnitude e que o poder paralelo do crime organizado é de tal envergadura, que, no fim de tudo, estamos nas mãos de um poder policial que não tem a mínima condição de estar presente quando precisarmos dele. Então, fica a pergunta: por que não armar o cidadão, preparando-o para ser um aliado da polícia em meio à incompetência e corrupção de um Estado que não é Deus?

            Fábio Ribas

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Todas as fontes estão em Ti (XXIII/2024)


Carlos Nejar é um poeta recém-descoberto. Todavia, ele publica vasta e variada literatura desde 1960. O currículo a seguir, retirado de uma entrevista feita com ele no site “domingo com poesia”, só revela a minha ignorância (e talvez a sua também):

"Carlos Nejar nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 11 de janeiro de 1939. No âmbito profissional, foi Advogado, Promotor, Procurador de Justiça e Professor de Português e Literatura.
"Com quase 100 (cem) obras publicadas, dentre poemas, romances, dramaturgia, contos, novelas, ensaios e infanto-juvenis, destaco os livros, Casa dos arreios (1973), Somos poucos (1976), Árvore do mundo (1976), O chapéu das estações (1978), Um país o coração (1980), A ferocidade das coisas (1980), Amar, a mais alta constelação (1991), Meus estimados vivos (1991), Elza dos pássaros ou a ordem dos planetas (1993), O túnel perfeito (1994), Sonetos ao paiol, ao sul da aurora (1997), Teatro em versos (1998), Carta aos loucos (1999), Velâmpagos: haicais ou móbiles (1999), Todas as fontes estão em ti (2000), O caderno de fogo (2000), Ulalume (2001), Guilhermina enfermeira e tia da República (2002), As águas que conversavam (2003), O poço dos milagres (2004), Canções (2007), O inquilino da Urca (2008), Jonas Assombro (2008), A nuvem candidata à presidência (2010) Contos inefáveis (2012), A negra labareda da alegria (2013), Matusalém de Flores (2014), Quarenta e nove casidas e um amor desabitado (2016) e A explosão (2019). São títulos publicados por renomadas casas editoriais do Brasil.
"Carlos Nejar pertence à coleção Melhores Poemas, da editora Global, com intuitiva escolha e apresentação de Léo Gilson Ribeiro (1929–2007), uma obra-prima da poética desse país.
"É membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), da Academia Brasileira de Filosofia, da Academia Espírito-Santense de Letras, da Academia de Letras de Brasília, do PEN Clube do Brasil e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo.
"Ganhou o nome de uma rua na cidade de Gravataí (RS). Detentor do Prêmio Nacional de Poesia Jorge de Lima do Instituto Nacional do Livro, do Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE-RJ), do Prêmio Machado de Assis de Romance, da Biblioteca Nacional, do Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, do Prêmio Luísa Cláudio de Souza do PEN Clube do Brasil, entre outros". (FONTE)

A mim, Nejar chegou só este ano, graças ao convite de um amigo também poeta, Jorge Isah, que o apresentou numa noite de lançamento da sua mais recente obra, “Memórias de outra idade”, na Academia Paulista de Letras. Foi uma noite de grandes personagens presentes da cultura nacional, em que Nejar foi homenageado. Comprei o livro do lançamento daquela noite. Alguns dias depois, Isah, apresentou “Todas as fontes estão em Ti”, um livro lançado no ano de 2000.

“Todas as fontes estão em Ti” é um livro de poemas de apenas 68 páginas, pequeno, eu disse, mas vasto no que comunica: a palavra do poeta respondendo à Palavra do Poeta. Mais do que poemas sacros, mais do que mera estupefação diante do Sagrado, Nejar conversa à luz de “Cantares de Salomão” (ou “Cântico dos Cânticos”). Poesia, portanto, afiando a poesia. Poesia bíblica já tão dada a inúmeras interpretações, porém, Nejar se atém àquela da mais tradicional hermenêutica: “Cantares” é o livro que nos aponta relação do Noivo com sua Noiva, Cristo e sua Igreja.

Nessa perspectiva espiritual, Nejar traz o amado para perto de si. Em versos curtos, rimados e feitos de aliterada musicalidade para serem lidos, recitados, cantados como há muito não vemos na literatura brasileira! Versos que encontram o Sagrado na natureza? Seria mais uma experiência opaca de busca humana, que se enleva pelo inefável, e que também não consegue discernir a Pessoalidade do encontro com o Êxtase? Nada disso! Por isso mesmo, quero dar ao leitor a minha porta de entrada a este poema de Carlos Nejar. Abrirei a porta pela qual passei, mas cabe a você concordar ou não e seguir por esta via que sugiro.

“Todas as fontes estão em Ti” se abre na ânsia de quem sabe muito bem pelo que espera, que é o seu amado. E tudo na natureza serve para anunciar a vinda desse amado: o canto, o tempo, o abraço, o consolo, o lume da própria natureza. Tudo anuncia a vinda do aguardado que nos revela a única chave hermenêutica possível à experiência do Sagrado: Cristo, Senhor! É com Ele que o poeta afina “as esperas, os trincos/ da alma. Vão-se abrindo”. Mas na experiência poética do amor, na pressa, no desejo da paixão, a entrega questiona os ritos, pois a busca realizada não é religiosa, sistemática, racional ou mesmo repetida e distante. Aqui não há fórmulas, escadas ou salas infindáveis. Não há castelos, mas a natureza é a casa aberta em que o Criador se apresenta. Há a criação! O poeta quer se lançar no céu rio derramado, chama essa que nos chama ao amor de nossa vida.

Após clarear ao leitor, a chave necessária para seus versos — o Cristo, Senhor! — , Nejar nos lembra da condição de cada um de nós, perdidos, doídos nesta noite escura. Mas a Graça se anuncia, pois é nesta noite e dor escura, que o aflito vê a chegada do Amado. A vinda do Amado é, antes de tudo, uma experiência sinérgica nos versos do poeta gaúcho. Ele vê, ouve, escuta a velha eternidade, que agora se apresenta ao aflito. Tudo na criação anuncia ao Criador, ao Amado, a face amorosa do Criador revelada em Cristo, autor desta mesma Criação que, agora, é colocada à disposição da Divindade para se apesentar a nós. Na natureza, sem que nos chegue o Amado, tudo ainda é confuso, mesmo o paraíso e o amor ainda são ruídos. Neste momento, celebra-se a chegada do vento, que banha o rosto e tomba a morte e tudo, enfim, recebe nome, pois o Amado é Senhor de todas as coisas. O moinho mói nossa alma e nos convida ao amor e a ele nos prepara. A uva precisa ser prensada para vir a ser puro vinho!

E o Amado voa! Cavaleiro alado! Agora, o vento nos banha, o coração é novo. O poeta recorda que a busca sempre houve no coração humano, mas só se encontra o que se busca, quando nosso coração é buscado. A natureza celebra a Aliança, o nome do Amado é gorjeado. É nessa morte que, verdadeiramente, somos alegres. Espírito que se derrama e os versos de Nejar testemunham!

Em meu Amado, quero crescer e ser um eterno menino, pois é das crianças o Reino dos céus. E o vento vem, o crescimento é fruto de um tempo com o Amado, tempo em que Ele lança suas sementes e elas, em nós, germinam. No Amado, há sossego. Nesta maravilhosa experiência bucólica, que segue adiante, poema à poema, verso a verso, vamos sendo alfabetizados, para, enfim, constatarmos o revelado: todas as fontes estão em Ti — Jesus é suficiente!

            Fábio Ribas

Liberdade versus Igualdade: o mundo em desordem

       Por que apresentar o livro “O mundo em desordem”? Porque muitas das nossas discussões bíblicas, teológicas ou sobre fé e prática cris...