sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Breve Manual de Aconselhamento Redentivo (XXXIV/2024)

 


“O aconselhamento redentivo é um modelo de aconselhamento bíblico pressuposicional, tanto no sentido de resgate de ideias e teorias sobre a natureza, movimentos internos e comportamentos humanos quanto no sentido de aplicação da redenção a problemas internos e situacionais da pessoa. Isto é, sua validade depende de pressupostos anteriores revelados na Escritura bíblica” — Rev Wadislau Gomes.

No Brasil, finalmente, há um grande desafio posto à mesa: prepararmos a igreja para que nela sejam forjados cristãos conselheiros uns dos outros, que, nada mais é, do que empreendermos o plano bíblico da mutualidade do serviço cristão na área do amor ao próximo. Para que alcancemos esse propósito, porém, há um longo caminho a ser percorrido. Um caminho que, indubitavelmente, passa por um autoexame crítico que cada igreja local deverá fazer. Oque nossos púlpitos têm ensinado? O que temos oferecido em nossas igrejas como modelo de discipulado? Até onde temos ido e com qual propósito no preparo de nossas lideranças no que se refere ao desafio de cuidarmos uns dos outros?

Pensando “dentro de casa”, o modelo de governança presbiteriana têm seus aspectos positivos e negativos, assim como quaisquer um dos outros modelos de governo eclesiástico. Cada modelo oferecerá seus próprios desafios para cada contexto local e denominacional também. Porém, como já disse, quero me ater a minha própria casa. O modelo representativo democrático, assim como vemos que ocorre no modelo do Governo do Brasil, tende a “terceirizar” nossas responsabilidades. Portanto, isso é um problema cultural. O povo vê o Governo Brasileiro como responsável por tudo, até mesmo por suas próprias responsabilidades. O Estado deve cuidar da vida de cada cidadão garantindo a saúde, educação, segurança etc. Este traço cultural é um ranço trazido para dentro de nossas igrejas locais. A “obrigação” do pastoreio, do cuidado espiritual é compreendida como exclusividade dos pastores e, quando muito, dos presbíteros também, afinal, “eles foram eleitos para isso”. Assim, o primeiro grande desafio para a instauração de um novo paradigma é a quebra de um paradigma anterior. Somente uma nova cultura poderá tomar o espaço de outra. 

Afinal, quem cuida de quem? Se dissermos que “todos” cuidam de todos, sabemos que essa é uma resposta que nos levará a um resultado “zero”. Toda igreja local precisa enfrentar a questão de que, antes de tudo, falamos de realidades espirituais e que essas se manifestam na maturidade de cada um dos nossos irmãos. Daí, as perguntas no primeiro parágrafo deste texto. Vou acrescentar mais uma: o que seria uma “igreja conselheira”? Como nos instiga o Rev Jônatas Abdias: “Afinal, do que o conselheiro bíblico fala, senão daquilo que se encontra na Bíblia?”. Óbvio? Contudo, o que talvez não esteja tão claro é que o autor do “Breve manual de Aconselhamento Redentivo” está mostrando ao seu leitor é que o aconselhamento é uma questão espiritual e não meramente de “formação acadêmica” ou “conhecimento de conteúdo”. Uma vez compreendido isso, podemos retornar ao enfrentamento do que caracteriza uma igreja conselheira (uma cultura de aconselhamento local). E o que é? Maturidade espiritual! Em outras palavras, a igreja carece de homens e mulheres maduros na caminhada cristã. Este, enfim, é o maior desafio quando nos engajamos na cultura bíblica do aconselhamento. Precisamos orar para que Deus nos dê líderes e irmãos maduros na fé, com os quais enfrentaremos nossa cultura individualista, negligenciadora e terceirizada.

“Aconselhar é, muitas vezes, ajudar a pessoa aconselhada a enxergar a vida por outro ângulo. Não podemos atuar sobre os olhos da pessoa, mas podemos apontar para a perspectiva que muda tudo: a perspectiva divina revelada na Palavra. Usamos as nossas palavras para esclarecer a Palavra de Deus e, assim, apontamos para o Redentor — sendo que dele vem a solução tão desejada. É isto que nos faz redentivos: habitarmos juntos na mesma compreensão, na mesma perspectiva”.

O apelo do aconselhamento é, antes de tudo, pastoral, mas, certamente, apologético também. Pois, como bem nos lembra o Rev Abdias: “Aconselhamento não é só confrontação, mas devemos estar preparados para trazer todo pensamento cativo à Jesus”. O que eu acho mais fascinante neste desafio da implementação de uma cultura de aconselhamento em nossas igrejas locais é que isso exigirá um esforço de crescimento espiritual e — no meu entendimento — isto terá consequências no campo missionário. Já escrevi sobre isso e deixo aqui: “Aconselhamento Intercultural e a Missão da Igreja”.

De maneira muito prática e desafiadora, o Rev Abdias nos oferece 5 princípios para guiarmos nossa conversa com nosso aconselhado lembrando que “mudar não é fácil. E pode realmente ser doloroso o processo da mudança, mas, enquanto mudamos, Deus nos consola. E somos consolados para consolar”.

Resgatar nossas igrejas da mentalidade mundana de “cada um por si e Deus por todos” será doloroso, pois perceberemos que, assim como ocorre com muitos que buscam uma “faculdade de psicologia”, o interesse daquele membro da igreja pode ter começado apenas para “se entender” e “resolver os próprios problemas e traumas vividos”. Em outras palavras, no atual modismo de “aconselhamento”, vemos muitas pessoas em busca de se resolverem a si mesmas e quase sem interesse em relação ao outro, ao próximo, ao irmão na fé. São desafios que todos nós precisamos ter em mente, para que, de fato, possamos caminhar com o propósito de levarmos a todos nós — Corpo de Cristo — a uma compreensão bíblica e mais acertada sobre os propósitos de Deus para sua igreja local. Estamos aqui, plantados pelo Senhor, para glorificarmos a Ele em meio a um mundo perdido em trevas densas e escuras.

Enfim,

“Há um dom para ser conselheiro? Certamente, não. Até porque todos os cristãos são chamados para se aconselharem mutuamente. Todavia, não é por isso que faríamos o trabalho do Senhor relaxadamente. Precisamos usar nossos dons a serviço do aconselhamento”.

O capítulo mais importante deste breve livro, para mim, foi o último. Pois nele o autor confirma a razão por que encontrei no “Aconselhamento bíblico” a peça que faltava na missiologia de campo. O último capítulo é sobre “comunicação” e o cuidado que temos que ter na maneira como servimos ao aconselhado a Palavra de Deus. Afinal, o que queremos? Queremos ser açougueiros ou cozinheiros? Sempre levei essa questão para o campo, que é a que tange a “contextualização da nossa comunicação”. Calvino costumava trabalhar com a metáfora da “babá”, para mostrar como que o Deus eterno se aproxima do ser humano dando-nos a sua Palavra da mesma forma como uma babá se aproxima de uma criança. Deus decretou nos falar em nossos termos! O último capítulo do livro do Rev Jônatas Abdias é sobre isso. Certamente, levo este capítulo final como leitura obrigatória para oferecer aos meus alunos de comunicação intercultural.

Um livro precioso e de um tema fundamental para plantadores de igreja, uma vez que, como ouvi de alguém certa vez, aquilo que fizermos no processo de plantação de uma igreja será o que ficará no DNA dela. Assim, se queremos “igrejas conselheiras”, precisamos levar aos nossos missionários espalhados mundo afora a mensagem deste livro. 

                    Fábio Ribas


Para um maior aprofundamento sobre o tema do Aconselhamento, deixo abaixo minhas resenhas sobre:

1) Descrições e prescrições;

2) A culpa é do cérebro;

3) Uma nova visão;

4) Conversa cruzada.


 

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Aconselhamento Intercultural e a Missão da Igreja*



Tenho acompanhado o crescente interesse da Igreja Evangélica Brasileira quanto ao tema do Ministério de Aconselhamento. Isso é perceptível no número cada vez maior de obras traduzidas e publicadas oferecidas ao público brasileiro. Todavia, um amadurecimento e engajamento das igrejas locais numa “cultura de aconselhamento” ainda está muito longe de ocorrer. Ainda que, até mesmo, o “Aconselhamento” já esteja surgindo na grade curricular de alguns Seminários Teológicos, isso não significa que tenhamos um “Centro de Aconselhamento” a partir da difusão da filosofia bíblica do “uns aos outros” nos nossos púlpitos. Assim, esse quadro geral aponta muito mais para os atuais desafios do que para o que poderíamos ter de substancial em nossas igrejas.

Se o quadro geral revela o trabalho que temos adiante na formação de uma “Igreja cuidadora”, imagine o desafio ampliado para o campo missionário em meio aos mais diversos povos da terra. No trabalho missionário brasileiro presente nas mais diferente etnias, tanto no Brasil como no mundo, sabemos que a tendência dos missionários no campo é a de estarem sintonizados com aquilo que a Igreja enviadora está fazendo e pensando no âmbito local. Portanto, não podemos esperar que estejamos vendo coisa muito diferente sendo feita pelos missionários em seus campos de trabalho, quanto ao tema de Aconselhamento. Os desafios transculturais do Ministério de Aconselhamento também são enormes e apenas muito recentemente estão sendo pensados pela área da Missiologia.

Não podemos descartar a realidade complexa de um campo missionário, que sempre tende a multiplicar os desafios apresentados num contexto urbano ou mesmo rural, mesmo aqui em território nacional. Afirmo isso não só por saber que os contextos nacionais não são mais simples do que os trabalhos com diversas culturas, mas, pelo fato, muitas vezes, da liderança das igrejas no Brasil não perceberem a complexidade cultural que suas próprias congregações e obreiros têm enfrentado logo ali no “bairro adjacente”. O que eu quero dizer é que a complexidade cultural no Brasil também é um campo de grandes desafios para a Igreja Nacional, todavia, a formação teológica de nossas lideranças, em muitos Seminários, carece de ferramentas que ajudariam numa leitura e atuação mais precisas da realidade multicultural que cerca nossas igrejas locais.

Com os inúmeros processos migratórios que têm ocorrido nas últimas décadas, o Brasil têm recebido etnias das mais diferentes partes da terra. Soma-se a isso a presença já histórica dos imigrantes na composição de nosso caldo cultural. São japoneses, chineses, coreanos, árabes etc. Enfim, durante muito tempo, no Brasil, pensou-se “missões transculturais” como um movimento para fora de nossas fronteiras geográficas. Dentro de nossa Denominação — a IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil)-, isso se reflete na própria história recente dela. Antes do ano 2000, a IPB contava com a JMN (Junta de Missões Nacionais) e com a JME (Junta de Missões Estrangeiras) como suas frentes missionárias. Todavia, essa bifurcação representa uma filosofia de uma época que não olhava para a nossa realidade multicultural: os diversos povos que já se encontravam em solo brasileiro. Tendo a JMN atuando na plantação de Igrejas nos mais diversos municípios brasileiros, a JME, por sua vez, atuava em tudo aquilo que não fosse “Brasil”. O que uma estrutura assim representa? Que o entendimento do desafio transcultural era algo para missionários que saíssem ao estrangeiro! Mas e os povos residentes no Brasil? Quem trabalharia com eles? Culturas diversas que se encontravam nas grandes e nas pequenas cidades brasileiras, e que não eram levadas em conta nem pela JMN e nem pela JME, pois faltavam estratégias e formação específica necessárias. A criação da APMT, por volta do ano 2000, marca essa mudança de paradigma no entendimento missionário da própria IPB. Assim, seja fora ou seja dentro do Brasil, a nossa Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT) abraça todos os trabalhos de plantação de igreja no ambiente missionário.

Tudo o que relatei até aqui é apenas com o intuito de nos prepararmos para a dimensão da obra que aguarda o Ministério de Aconselhamento nas próximas décadas, pois temos conseguido ver que o mundo como um todo está cada vez mais interligado e sem fronteiras “intransponíveis”. A televisão e a internet estão dando a cada um de nós essa consciência global de que a casa da gente é bem maior que o bairro em que a minha residência está construída. Povos têm se encontrado uns com os outros e trocado informações, compartilhando sua visão de mundo numa velocidade e numa escala global nunca antes vista na história da humanidade. Assim, tudo isso trouxe à Igreja a compreensão de que vivemos em sociedades cada vez mais complexas e que, dessa maneira, os problemas transculturais e interculturais, narrados por missionários antes tão distantes e trabalhando em campos tão exóticos, hoje se apresentam a quaisquer igrejas locais onde estejamos nos reunindo no Brasil. Isso tem sido uma mudança drástica! Veja, a própria organização tradicional das sociedades internas em idade e gênero da IPB (UPH, SAF, UCP e UMP) está longe de ir ao encontro da nova realidade geracional que temos. Algumas igrejas locais têm tentado oferecer um novo ambiente para que nossas igrejas estejam mais coerentes com o que as famílias têm enfrentado nos tempos atuais. A estratégia dos “pequenos grupos” (PG’s), que tem a elasticidade de se apresentarem como “grupos de afinidade”, em que, ao invés do tradicional agrupamento por idade ou gênero, possibilita o encontro entre os sexos e a congregação entre pessoas que percebem ter mais pontos em comum e áreas de interesse semelhantes umas com as outras. Isto tudo facilita, indubitavelmente, o estudo e a aplicação da Palavra de Deus num recorte mais vívido e coerente. Se o recorte das gerações anteriores proporcionava agrupamentos mais gerais entre os membros de uma igreja local, atualmente, as tentativas são de pequenos grupos de interesses comuns. Contudo, isso é apenas um exemplo de como nossas igrejas são desafiadas pelo novo contexto que se aproxima delas e como elas têm respondido à geração a que fomos chamados para pregar. E não há como passar desapercebido que uma igreja local de pequenos grupos se torna muito mais propícia a desenvolver com maior sucesso uma filosofia de aconselhamento mútuo, pois as afinidades e interesses são mais comuns, aumentando a compreensão dos problemas que o outro está passando.

Se muitas igrejas locais ainda estão distantes de um modelo que atenda de alguma forma os desafios de comunhão e congregação da sociedade que a cerca, some a isso a realidade cultural complexa que hoje encontramos nos atuais centros urbanos (e certamente nas pequenas cidades do interior do Brasil também). Atente, neste momento da sua leitura, para o fato de que sequer ainda estou falando de outras etnias. Ainda não cheguei lá. Estou me referindo a uma complexidade outra — ainda não étnica — que vem de pequenos outros grupos que poderiam ser melhor alcançados por nossas igrejas. Estou me referindo aos grupos de motoqueiros, caminhoneiros, jovens jogadores de videogame, empresários de um mesmo ramo de negócios afim, comerciantes, professores de universidade etc. São categorias socioculturais! Agora sim, quero acrescentar mais um elemento: as diversas etnias presentes na cidade. Tudo isso nos dá, mais uma vez, o quadro geral enfrentado por nossas igrejas locais e que, dificilmente, vemos nossas lideranças preparadas adequadamente nos Seminários e institutos para darem conta desse caldo multicultural. Daí, mais acima, eu ter trazido à baila o fato incontestável de que os desafios missionários transculturais estão bem à porta de nossas igrejas, mas, infelizmente, a formação acadêmica de nossas lideranças ainda passa longe de ajudá-los no enfrentamento antropológico disso tudo.

Mas e o Aconselhamento? O Aconselhamento é um movimento recente de resgate de uma tarefa que foi terceirizada pela própria Igreja. E se, nos últimos anos, o Aconselhamento possui pelo menos algumas frentes de atuação já conflitantes entre si, o mesmo ocorre com “missões”. Na área do Aconselhamento, podemos identificar pelo menos três escolas e propostas diferentes: o integracionismo, o bíblico e o redentivo — todos se apresentando como cristãos. Interessante notar que o âmago daquilo que as separa é exatamente aquilo que diverge diversos missionários nas áreas de suas atuações antropológicas, a saber: a relação com a cultura. Abraçaremos a cultura sem restrições? Rejeitaremos a cultura por completo? Ou negociaremos com ela? E se negociarmos, quais os limites? Essas três perguntas resumem de maneira simples o que move o debate tanto na Missiologia como no Aconselhamento nas últimas décadas.

Semelhantemente às questões postas acima, vejo o Aconselhamento trilhando um caminho muito semelhante à missiologia, mas com o ponto positivo de dar uma resposta mais adequada, trazendo equilíbrio à antropologia missionária de campo. Refiro-me à tensão “coletivo-indivíduo”, que nas discussões missiológicas sempre tendem muito mais ao coletivo e quase mesmo ignorando o indivíduo. Tudo isso é fruto de uma base missiológica que se estabeleceu sobre as ciências humanas (antropologia, sociologia, filosofia etc). Infelizmente, essas ciências humanas são humanistas, antropocêntricas e marxicizadas em si mesmas, trazendo muito o viés de uma leitura sempre do todo, do grupo, da sociedade, da cultura. Mesmo a psicologia, que poderia tratar o indivíduo, trata-o, antes de tudo, de modo massificado e sempre como resultado de um grupo (do que outros fizeram com ele). Neste ponto, o Aconselhamento bíblico se mostra muito mais justo, pois, ao se posicionar contra a psicologização de nosso tempo, acaba por arrancar o indivíduo de suas interpretações massificantes e oferece uma leitura muito mais pessoal, humanizando-o a partir da sua “imago Dei” — nosso Criador nos chama pelo nosso nome! Por tudo isso, encontro no Aconselhamento, não só nos seus conceitos, mas também no seu método e em sua apologética, “Deus no cenário”, tratando o ser humano numa perspectiva muito melhor do que as ciências sociais têm oferecido no campo para tantos missionários. Enfim, se tivermos uma boa teologia reformada em mãos, que nos forneça uma antropologia bíblica, o aconselhamento fecha o conteúdo no ambiente em que o missionário se encontra, a saber, diante do outro, com quem ele se comunica, evangeliza e discipula. Acrescentaria aqui apenas mais uma disciplina, “a união com Cristo”, que se apresenta como a liga que dá a unidade e a direção a tudo o que podemos fazer no campo intercultural.

Há muito, eu venho comentando com meus alunos, nas diversas formações que dou aos missionários, sobre o que chamo de “culturolatria”. Tristemente, vemos no campo missionário uma ação muito mais engajada de “salvar” a cultura do que o anseio pelo compromisso de salvação das pessoas. Não somente no campo de uma teologia liberal, mas, até mesmo, numa seara que se diz conservadora, mas tem um projeto de cristandade, que se se origina no romanismo católico, e se revela em nosso meio protestante num discurso de “redimir a cultura”. Para mim, tudo isso é muito perigoso e desvia o foco da Missão que a Igreja recebeu de Jesus Cristo.

Acompanho alguns indígenas, aconselhando-os. No Brasil, o trabalho missionário com indígenas é um capítulo à parte, cercado de proibições e perseguições tanto da parte do Governo como de ONG’s e Universidades. Trabalhei num campo, por exemplo, em que os líderes indígenas eram direcionados para um tratamento com psicólogos, até que um deles me procurou falando que o psicólogo que trabalhava para a Missão Evangélica nesse atendimento estava colocando-os para duvidarem da própria fé cristã. É por essas e outras que sempre estive atento e buscando assumir esse cuidado, evitando, ao máximo, que isso não se repetisse. Contudo, é a falta de uma filosofia de Aconselhamento bíblico no campo missionário que continuará a levar isso adiante, até que possamos formar uma geração missionária com “uma nova visão”.

Quando falo em “culturolatria”, quero relatar um caso. Estava atendendo um casal de líderes indígenas de determinado povo, pois ambos vinham passando sérias dificuldades de relacionamento conjugal, até que houve um caso de adultério por parte do marido. Culturalmente, o acesso à voz da esposa era muito difícil, pois ele controlava todas as entrevistas. Pedi, então, que a minha esposa pudesse conversar, no intuito de que pudéssemos ouvir o coração dela e não apenas o marido o tempo todo falando. Sim, é uma cultura muito marcada pelo machismo. Na primeira entrevista, logo após o caso de adultério, os dois apareceram para conversar, mas, o meu desejo mesmo era ouvi-los em separado. Não esperava que a esposa estivesse junto, pois era o primeiro encontro após o adultério e eu precisava sondar mais e entender as raízes do coração que levaram o marido a isso. Houve esse primeiro encontro e, depois, conversando com um pastor indígena da mesma etnia desse casal, ele me disse que, culturalmente, ele via com muito gosto que ambos tivessem aparecido, pois, quando isso acontecia, era o homem dizendo que, a partir dali, ele diria só a verdade e não esconderia mais nada da sua esposa. Tudo bem. Alegrei-me com isso, mas, logo nas horas seguintes, ele foi atrás repetir o adultério. A verdade é que não sabemos ler nossa própria cultura, assim como o peixe não consegue ver que ele está preso dentro de um aquário. A cultura nos ajuda numa primeira leitura em que identificamos pontos de contato e pontos de divergência com o Evangelho, mas ela também é usada para esconder, escamotear e ocultar.

Embora eu esteja acompanhando alguns casais indígenas, acredito que o melhor a ser feito para a Igreja Indígena (e demais etnias no Brasil e no mundo) é preparar as próprias lideranças nativas, para que eles assumam o aconselhamento bíblico dos seus povos. Temos pastores, presbíteros e diáconos, mas não é só isso. Culturalmente, podemos nos beneficiar da característica dos povos orais, oriundos de uma cosmovisão animista, de serem eles muito mais recíprocos do que somos na nossa cultura. O que quero dizer é que há povos indígenas (e de outras culturas) que receberiam muito bem o Aconselhamento bíblico do leigo com o leigo. Há muitas “conversas com a intenção de ajudar”, mas elas precisam ser intencionais e bíblicas. Portanto, no meu caso, como missionário transcultural, a aplicação que melhor vejo é trabalhar na formação das lideranças étnicas e nas pessoas em geral das igrejas em que os nossos missionários estão envolvidos, para que eles possam desenvolver uma cultura de Aconselhamento bíblico e, assim, apoiá-los nesse desenvolvimento. Tenho tido oportunidades na formação de missionários brasileiros, indígenas e africanos, principalmente, e tenho compartilhado a importância de levarmos o Aconselhamento bíblico para as novas igrejas que têm sido plantadas nessas culturas. Assim, a minha melhor aplicação para a minha realidade missionária transcultural é semear nos cursos que ofereço e nas grades curriculares, quando sou chamado a participar das confecções de suas grades curriculares, a importância de formarmos conselheiros bíblicos que trabalhem em seus contextos culturais. Um desafio maravilhoso que pretendo dar seguimento. E sei que quaisquer missionários, onde estiverem, podem abençoar ainda mais o campo em que estão fazendo o mesmo.

                Fábio Ribas

*Publicado originalmente em 15 de junho de 2023

terça-feira, 30 de julho de 2024

Guerra contra as armas (XXXIII/2024)

 

O que assusta é ver que as falsas informações da imprensa não ocorrem apenas aqui. Se nos Estados Unidos ocorre o narrado neste livro, o que esperar, então, do Brasil? A sensação que fica é que estamos à mercê de um caos, pois a imprensa, a mídia, ela busca a venda da notícia e não a verdade da informação. Assim, irá para o público aquilo que for mais sensacional, de maior apelo emocional. Se formos a fundo, contudo, se quisermos ver o que de fato ocorreu, descobriremos que, tanto no Brasil como nos Estados Unidos (como em tantos outros lugares do planeta terra), o produto final que nos chega às mãos, aquilo que aparece na tela do nosso computador ou numa folha de papel, já foi maquiado, manipulado e não passa de um recorte da realidade. Todavia, de uma realidade já interpretada. Por exemplo, mesmo diante de tantos casos de pessoas armadas que salvaram vidas (o autor traz uma lista), a manipulação da imprensa continua, pois eu mesmo nunca vi uma reportagem sobre “armas que salvam”. 

Parece que o autor está falando sobre o Brasil, mas está falando sobre os Estados Unidos. As pesquisas e estatísticas, desde a coleta e organização dos dados, são manipuláveis. Você pega os fatos e os apresenta ou organiza, dando a maquiagem que te interessa. Se acontece isso lá, repito, o que esperar do Brasil?

O capítulo IV foi algo assim terrível quanto a mostrar como que estatísticas e ciência são manipuláveis. “Os números não mentem”, ouvimos dizer. “Contra fatos não há argumentos”, insistem. Porém, o que há são interesses pessoais, corporativistas e ideológicos. O “cientista” faz um recorte na realidade. Basta encerrar o levantamento de dados um ano antes e começar um ano depois e pronto! Todo o estudo servirá para provar o que ele queria que fosse provado. O autor conta sobre a escolha de um ano “X”, explicando que se tivéssemos olhado o ano anterior e os posteriores, o resultado da tal “pesquisa” mostraria outra realidade bem diversa daquela recortada. Por isso, quando o cientista não usa certos dados, ele tem que explicar a razão de ter feito isso. Assim como ele também deve explicar a razão de não ter usado os dados como chegaram a ele — na sua versão bruta. Se há recortes, é preciso que se explique o porquê.

Veja um exemplo. Imaginemos um Estado de um país. Os Estados em que há mais armas é onde ocorrem mais mortes de policiais, assim, qual a conclusão dessa “pesquisa”? Mais armas, mais mortes de policiais. Menos armas, menos mortes de policiais. Vou mostrar só duas incongruências desse tipo de lógica: 1) se vc restringir essas armas, vc estará desarmando o cidadão de bem, que protege a situação e a sua casa, além de auxiliar a polícia. Por quê? Os bandidos usam armas ilegais, não compradas sob a lei (óbvio), assim eles continuarão armados. 2) Mais armas, mais policiais mortos é um salto de conclusão absurdo, além dessas armas legais (e rastreáveis) não participarem do assassinato de policiais, não entram aqui outras duas variáveis, que são o número de suicídios e o fato de que os suicidas homens preferem armas de fogo, enquanto as suicidas mulheres, que, mesmo tendo posse de armas de fogo, preferem outros métodos de suicídio. Mas olhe como se apresentam as realidades: policial suicidou enforcada, aí não se leva em conta “esse detalhe”, apenas o fato de que ela tinha arma e morreu. Aí, colocam o caso na estatística. Isto é maquiar toda uma realidade! O número de homicídios tem que discernir entre assassinato, suicídio e homicídio. Sim! Como o autor bem mostrou, para que tivéssemos uma realidade mais adequada, é preciso que se mostre dentro desses “homicídios” o que foi assassinato, o que foi suicídio e o que foi legítima defesa! A questão é que pesquisas que não fazem tal discernimento geram resultados totalmente irreais. Alguém está pagando por essas pesquisas “mancas”! E pior — são essas as pesquisas que serão usadas para pressionarem congressistas na criação de leis! Título de um dos capítulo: adulterando pesquisas e forjando dados. Agora é a pá de cal. A tristeza de ver que isso ocorre nos Estados Unidos é imaginar o que, então, rola livre e solto no Brasil. Basta a escolha de um ano certo para fundamentar o que se queira, para que tudo tome a dimensão desejada pelos “formadores de opinião”. 

O óbvio: campanhas de desarmamento só desarmam os portadores de armas legais, os cidadãos de bem. Por isso, o número de homicídios não declina após um desarmamento. O óbvio: atiradores em massa só procuram lugares em que eles sabem que as pessoas são proibidas de portarem armas. A ironia: 60% dos assassinos em massa já tinham sido diagnosticados com problemas mentais antes dos massacres que praticaram.

Carros matam mais do que armas. Contudo, a comparação é problemática. 99,4% das mortes em carros em 2004 (EUA) foram acidentais. 1,8% de mortes com armas de fogo foram acidentais. 65% das mortes com armas de fogo foram suicídios. Mas o problema começa ser melhor interpretado quando sabemos que os casos de suicídios sem armas de fogo subiu 49% no período analisado. A taxa de suicídio no trânsito subiu 53%. Isto é, as pessoas estão se matando cada vez mais. Reflexão: normas cada vez mais rígidas na legislação não atingem os suicidas, sejam no trânsito, sejam por armas de fogo. Tudo isso só revela duas verdades: 1) campanhas de desarmamento têm um objetivo oculto, que não é a nossa segurança — governos querem desarmar seus cidadãos; 2) enquanto olham para as armas, ninguém trata do desastre humano do aumento de suicídios. Contra estes, não há lei. Apenas o Evangelho pode ir, então, ao cerne dos verdadeiros problemas humanos, escondidos sob o manto das ideologias e interesses financeiros mundiais.

                                    Fábio Ribas

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Homens ao sol (XXXI/2024)


“Abu Qais repousou o peito no solo orvalhado e a terra começou a pulsar debaixo dele, com batimentos de um coração cansado que faziam tremer cada grão de areia e penetravam as células de seu corpo. Desde a primeira vez, sempre que ele se atirava de peito na terra sentia aquela pulsação, como se o coração da terra forçasse sua difícil passagem até a luz desde as profundezas do inferno. Certa ocasião, ele disse isso ao vizinho com quem compartilhava a colheita na terra que deixara havia dez anos, e o homem respondeu zombando: “É o som do seu coração. Você o escuta quando encosta o peito no chão”. Que tolice perversa! E o cheiro? Aquele que, toda vez que ele sente, ondula na fronte antes de jorrar delirante nas suas veias. Sempre que ele inalava o cheiro da terra, deitado no chão, imaginava o cheiro do cabelo de sua mulher ao sair do banho, depois de lavar a cabeça com água fria. O mesmo cheiro… uma mulher que acabou de se banhar com água fria e lhe cobre o rosto com o cabelo ainda molhado. A mesma palpitação… como se carregasse ternamente um pequeno pássaro entre as mãos”.

Afinal, o que é a terra para um homem? Numa das aberturas de narrativas mais belas que já li, o autor Ghassan Kanafani abre sua novela com um primeiro parágrafo notável. Há um coração nas profundezas da terra e ele bate sobre o meu peito, ritmando com o meu próprio coração, toda vez que me deito sobre a terra. Mas essa aproximação, essa intimidade de se deitar sobre a terra, sobre ela, traz ao personagem a lembrança de sua mulher. A terra pulsa um coração e exala um perfume, o perfume dos cabelos molhados de sua esposa, a quem ele lembra sempre que se deita sobre a terra. O que é a terra para um homem? Vida e paixão! Todo homem, no exercício de sua masculinidade, sabe que “não é bom estar sozinho”. Um dos personagens, um outro, durante a narrativa, revelará ter sua masculinidade amputada. Terra, mulher, tato, odor, masculinidade, esperança, tristeza, memórias, decisões, estes são apenas alguns dos temas tão humanos abordados nesta pequena novela. 

Abu Qais, Assad e Marwan são três palestinos que tentam sair dessa condição de refugiados, fugindo para o Kwait. O “homem gordo” é um desses “contrabandistas de gente” que leva essas pessoas numa travessia ilegal. O valor cobrado pelo “homem gordo” é inviável para os três. Então, estes três se juntam para serem levados à travessia até o Kwait, passando pelo Iraque, pelo 4º personagem, o Varapau. Há mulheres e homens nesta história. Há o passado, o presente e a promessa de futuro. Mas há também um acordo, que, no fim, pode dar em nada. Esta é a história dos exilados palestinos. Um livro lançado em 1963. Embora eu tenha tido certa dificuldade de entrar na narrativa, talvez um pouco perdido assim como estavam perdidos os três personagens centrais, mas terminei o livro chocado e com vontade de ler outros do autor.

Terminei o livro com esta frase atravessando o meu coração: “Por que vocês não bateram nas laterais do tanque? Por que não disseram nada? Por quê?” Ainda que não queira limitar a literatura de Kanafani a um mero engajamento político (e não quero e não vou), estas perguntas finais ecoam sobre os anônimos e mudos de todo o mundo. Na minha interpretação, houve um acordo dentro do tanque. Se houve uma aposta diante de um futuro esperançoso, mas incerto, houve, então, dentro do tanque, uma renúncia para proteger o Varapau. Precisamos lutar nossas lutas e, conscientes dos riscos de insistirmos nessas lutas, estarmos prontos a não puxar para dentro do buraco os que tentaram nos ajudar.

Quero ouvi-los. Precisamos ouvir o outro. Ainda que estejamos todos sob a maldição da lei e somente em Cristo possamos verdadeiramente nos libertar, mas precisamos nos aproximar para o diálogo, pois, sinceramente, eu creio que haja culpados entre os “inocentes”, assim como eu sei que há “inocentes” entre os culpados.

Ghassan Kanafani foi um escritor e ativista político palestino, cofundador da Frente Popular para a Libertação da Palestina. Em 1972 foi morto pelo serviço secreto israelense. Ele tem três livros editados pela Tabla, este, o “Umm Saad” e “Retorno para Haifa”.

            Fábio Ribas

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Teologia, Piedade e Missão (XXX/2024)


Os que são chamados por Deus para a salvação são simultaneamente enviados por Deus para a missão — Ronaldo Lidório
Um dos maiores desafios missionários, portanto, não é andarmos na contramão do mundo, mas na contramão do nosso próprio coração — Ronaldo Lidório

É preciso plantar igrejas! É preciso que haja um povo local que adore a Deus coletivamente. É preciso que possamos nos encontrar, ajuntar, orar e nos apoiarmos uns aos outros. É preciso que nossas igrejas locais plantem outras igrejas. É preciso que compreendamos qual é, de fato, a Missão da Igreja.

Lendo o livro de Ronaldo Lidório sobre Gisbertus Voetius, que nunca antes havia ouvido falar, a não ser por Lidório mesmo, vemos que muito do que temos hoje como propostas missiológicas estão longe das bases doutrinárias da Reforma Protestante. Gisbertus Voetius, que participou da elaboração dos Cânones de Dort, é tido como o primeiro protestante a propor que a questão missionária fosse levada para dentro da academia. Ele compreendia que o plantador de igreja deve ser alguém que estude teologia e filosofia, além de outras disciplinas como medicina, por exemplo. Voetius defendia que o plantador precisava ser um grande conhecedor da Palavra, mas que também precisava entender o pensamento do povo. Neste sentido, ele adianta o que hoje defendemos por meio da antropologia missionária.

A missão é falar de Jesus e sua pessoa e obra salvífica, é ensinar o que ele Jesus já fez por nós e ainda fará — esta é a defesa de Voetius. Todavia, um dos destaques de Voetius era a sua ênfase numa teologia prática, uma teologia que frutificasse no avanço da Igreja e na vida pessoal de seus membros. A missiologia de Voetius é trinitária e teocêntrica. A missão aponta para o Deus triuno em ação, visando a Sua glória. Outro motivador da missão é a doutrina da eleição eterna. No seu tempo, Voetius investiu fortemente na evangelização dos católicos, ateus e muçulmanos. Assim, as reflexões de Voetius vem ao encontro dos anseios da nossa geração por uma missiologia reformada e calvinista, colocando o fundamento e a motivação da Igreja na Bíblia e não na cultura ou nas necessidades dos povos ou dos perdidos. A missão é de Deus. É iniciativa dEle, para a glória dEle e mostram o seu amor e justiça.

Ronaldo Lidório nos apresenta a vida e obra deste importantíssimo protestante e que, sem sombra alguma de dúvida, levará o leitor a conectar novamente o Evangelho com a sua teoria e prática missionárias, em piedade. Um livro fundamental e de cabeceira para todo o missionário reformado calvinista. Abaixo, deixo um trecho do livro.

“Após a Segunda Grande Guerra, missiólogos passaram a falar sobre a missio Dei (missão de Deus), em boa parte influenciados pela missiologia de Voetius e seus sucessores. É preciso, porém, esclarecer que o conceito de missio Dei proposto nas últimas décadas separou-se consideravelmente da sua compreensão original.

“O teólogo e missionário Peter Pikkert expõe que, a partir dos anos 1950, a missio Dei ganhou contornos generalistas com base na premissa de que a missão de Deus é restaurar todas as coisas em Cristo Jesus, e que, dessa forma, a missão da Igreja seria participar da missão de Deus. Nessa elaboração, todas as iniciativas, ações e parcerias que podem fazer do mundo um lugar melhor passaram a ser vistas como missão, igualando a pregação do evangelho às ações sociais, ecológicas e ambientais.

“Pikkert alerta que, nessa compreensão, todos os seres humanos, cristãos e não cristãos, dispostos e envolvidos com o bem-estar da humanidade e do planeta, estariam cumprindo a missão, perdendo a missio Dei o núcleo de seu significado.

“Kevin DeYoung e Greg Gilbert, em linha similar, defendem que tal generalização é prejudicial ao conceito bíblico de “missão” e ao conceito teológico de missio Dei. Afirmam que a missão da Igreja não é restaurar todas as coisas, mas fazer discípulos, e expõem que essa é a missão da Igreja, seu chamado central, como resultado da comissão dada por Cristo ao seu povo (Mt 28:16–20).

“A posição de Voetius a respeito da missio Dei se enraíza na sua proposta original, que remonta ao século 4, descrevendo os atos da Trindade na redenção humana: o Pai planejando a redenção em amor e justiça; o Filho provendo redenção por meio do seu sacrifício; o Espírito Santo efetivando o plano de redenção, convertendo e selando os salvos. E, assim, a Igreja tem a responsabilidade e o privilégio de proclamar essa missão de Deus, efetivada por meio do Pai, Filho e Espírito Santo, a todos, fazendo discípulos de todas as nações. Dessa forma, a compreensão e influência de Voetius quanto à missio Dei defendem que o núcleo da missão da Igreja é a evangelização”. 


                    Fábio Ribas

sábado, 20 de julho de 2024

Aquarela (XXIX/2024)


Comentei na Amazon:

“Eu tenho várias razões para dizer o quanto gostei deste livro da Elizabeth Gomes, mas, dentre tantas, gostaria de ressaltar as soluções narrativas que ela apresenta em seu livro. A história linear, vez em quando, muda o foco da narrativa e, não apenas isso, mas adianta fatos (sem entregá-los), que só serão desdobrados depois. Achei muito bom! Um deles, por exemplo, fez-me ficar na expectativa até quase o final do livro, para ver quando que se daria o fato trágico anunciado no “meio da história”.
Personagens reais e muito cativantes. Gostaria de mencionar apenas uma das proezas da autora: se num dos capítulos, ao ler, eu o encerrei dizendo que não perdoaria também a determinado personagem, bastou o capítulo seguinte para que eu desmoronasse em lágrimas e me visse, então, perdoando aquele personagem.
Quem deveria ler este livro? Os cristãos e todos aqueles que precisam compreender o desafio real que muitas famílias missionárias passam ao enfrentar outras culturas. Nesta história, não há super-heróis e nem supercrentes, mas há a Graça e a Providência divina que nos assombram ao se manifestarem na vida comum de cada um de nós.
Obrigado, Beth, por nos dar um presente de imenso valor literário!”.

Contudo, aqui, quero traçar mais algumas linhas abaixo. Acho que poderá ser spoilers para alguns.

Há uma delicadeza na escrita sobre um Brasil que, sinto eu, esteja cada vez mais difícil de encontrarmos hoje em dia. Acompanhamos a trajetória da pequena Miriam, seu irmão e seus pais, esta família de missionários. As frases e cenas que a Elizabeth cria são cheias de sentimento, como, por exemplo, aquela cena da pequenina Miriam convidando a velha senhora para “brincar de igreja” — aquele momento foi lindo!

Frases construídas pela autora e, como eu disse, que são belas e nos fazem ver esse Brasil do interior de Monte Belo, no sertão de Minas Gerais, mas, principalmente, o interior daquela família missionária também. Estamos diante de um Brasil que talvez não exista mais, mas que foi testemunhado por tantas famílias de missionários protestantes americanos que vieram e deram sua vida por nós na primeira metade do século XX. O livro narra sobre uma dessas famílias. A família do Reverendo Donaldo, sua esposa Grace e seus filhos, Miriam e Natã. Enquanto lia, lembrei-me de tantas outras famílias americanas (e de outras culturas) que conheci, famílias de missionários estrangeiros que também amam nosso povo e, muitas vezes, percebi que amavam o nosso povo até muito mais do que eu mesmo tenho conseguido amar.

Preciso chamar a atenção para o que encontrei no capítulo 3, “Bom, mal e normal”, ali, Beth revela-se no melhor da sua escrita humorística. São páginas de uma escrita tão acertada e cheia de alegria, que nos pegamos lendo e sorrindo por todas a páginas. Aquela cena da Miriam cantando o hino “religioso” na igreja americana foi o máximo. Cena digna de filme! E o que dizer, então, da igreja de judeus que cantavam adorando a Deus “só não podiam acreditar em Jesus”! Humor fino da autora, mas vindo da personagem de uma Miriam cheia de gracinha, inteligente, curiosa e esperta. Como missionário, pai de duas filhas que cresceram nesse mesmo mundo colorido de tantas culturas, línguas, raças e de situações financeiras tão diferentes umas das outras, amei aquela reflexão sobre os filhos de missionários americanos, mas que, certamente, se aplica a todos os filhos de terceira cultura mundo afora:

“Esses filhos de missionários não tinham como ficar entediados — de certa forma, eram criados para ser desajustados; diferentes das crianças brasileiras de qualquer classe social e nem um pouco parecidos com as crianças que viviam a vida toda nos Estados Unidos”.

“Criados para serem desajustados” — perfeito!

Miriam está crescendo, mas seu pai, o Rev Donaldo, também está mudando. Alguma coisa não está indo bem com a família. Título sugestivo do capítulo: desmascarado. Como que as coisas se perdem? Como elas saem do controle das nossas mãos desse jeito? Fui pego de surpresa, confesso. Não sabia nada sobre do que se trataria o livro. Resolvi ler por duas razões: estou trabalhando um Mestrado em um dos livros do marido da autora, o Rev Wadislau Gomes, e, segunda razão, li um livro ainda não publicado da própria Elizabeth e gostei muito (além de ter tido o privilégio de também ter lido um outro livro de um dos filhos dela, também ainda não publicado, o Rev Daniel). Enfim, tenho lido livros da família Gomes. Tudo isso, portanto, trouxe-me naturalmente ao livro “Aquarela”. Mas sobre o que é, então, este livro da Beth? Um livro sobre o esfacelamento de uma família missionária? Grace, mãe de Miriam e Natã, está agora totalmente insatisfeita. Rev Donaldo, usando as palavras de sua esposa, é um “irresponsável”. Miriam já começou a reagir negativamente a esse estilo de vida da família: pais ausentes em uma família missionária que não se entende mais e nem busca a Deus juntos. Dos Estados Unidos para Monte Belo, MG; depois, Campinas, SP; foram, então, para Goiânia, capital de Goiás; depois para Brasília e, agora, Curitiba, no sul do Brasil. Uma vida de idas e vindas, entradas e saídas. Contudo, Donaldo abandona a Missão. O que ele quer? Ganhar o mundo e perder sua família? Todo aquele colorido dos primeiros capítulos, toda aquela aquarela do início se desfará, “se descolorirá”, como nos versos do poetinha Vinicius de Moraes?

Miriam está com 15 anos! O tempo passa rápido (e as páginas de nossa leitura também). Capítulo narrando sobre o despertar do amor em Miriam. Ou melhor, o despertar que ela já causa em terceiros. O livro é rico em personagens que são muito bem construídos e o capítulo sobre o primeiro enlace amoroso de Miriam serviu de alívio, uma pausa, uma retomada de fôlego, para o meu coração leitor, que vinha tão angustiado ao ver o desmoronamento daquela família nas páginas anteriores.

A família, contudo, chega ao fundo do poço. Se é um abismo, como indica o título do capítulo, haverá fim? Como uma família cristã, uma família missionária se vê envolvida pela bancarrota financeira e espiritual daquela maneira? Conheci muitas famílias cristãs, famílias missionárias com suas crises, seus profundos desvios. Às vezes, mentiras, infidelidades, filhos extraviados… Porém, não lembro de ter lido um romance que tratasse desses assuntos de forma tão acertada e vívida, como é o caso de “Aquarela”. Meu coração se encanta ao mesmo tempo que se entristece com tudo que vai lendo. Acho que eu sofro ainda mais, por eles serem estrangeiros. Se fosse uma família missionária brasileira sofrendo aqui ou em um país estrangeiros, talvez eu me distanciasse mais da história. Entretanto, conheci muitas famílias estrangeiras no Brasil e acho que sei o quão é difícil para essas famílias abrirem mão de tudo para estarem entre nós, língua e cultura tão diferentes das deles. É muito difícil ver a Grace alimentando sentimentos tão autodestrutivos, enquanto Donaldo perde-se cada vez mais.

Nesta altura da história, a autora começa a usar suas estratégias criativas para inovar sua contação de narrativa para nós. A apresentação do personagem Mauro, a anunciação de uma tragédia envolvendo Miriam e os diálogos que vão saindo de uma cena amorosa para uma cena trágica, tudo isso revela o domínio da autora. Estamos totalmente envolvidos com a história triste de Grace.

O livro chegando ao seu fim e as indagações na minha mente: Como se escreve um livro assim? Rico em detalhes e cheio de personagens humanamente muito bem construídos? Sabemos que uma tragédia ocorrerá, mas ela ainda não se deu (e o livro já anuncia o seu fim — então, como será para Miriam?). E Grace? Eu também não teria perdoado. Ele foi muito irresponsável, cruel e canalha (aquela venda dos quadros e o que ele disse…)! Como terminará esta história? Como terminam as nossas histórias? O que esperar da vida que Deus escreveu para cada um de nós?

Por fim, um livro que também indicaria a tantas famílias missionárias que estão se preparando para sair de suas vidas “em casa” ou que já estejam recém-chegadas em uma outra cultura. Mas também, é um livro que deve ser lido por todo aquele que deseja ser um Conselheiro bíblico para essas famílias. Um livro para educar nossa imaginação e nos ajudar a ajudar a outros na lida de nossa caminhada cristã.

                        Fábio Ribas

quarta-feira, 17 de julho de 2024

A arte da pesquisa (XXVIII/2024)


Fiz cada “passo a passo” do roteiro apresentado no livro e isso me ajudou demais a ver e entender o que eu queria em termos de trabalho final. Um livro prático e desafiador. Chegou um momento que a parede da minha casa ficou parecendo aqueles filmes de investigação policial, porque fiz as anotações em bloquinhos e papéis retangulares e os organizei, ligando-os por fio e tachinha. Ficou parecido com isto:

Vou deixar aqui o esqueleto que surgiu para você acompanhar o desenvolvimento que o livro nos leva a fazer. Segue abaixo.

Compartilhando a construção do Projeto de Pesquisa Simplificado, a partir da leitura do livro “A arte da pesquisa”, Wayne C. Booth (Autor), Gregory G. Colomb (Autor), Joseph M. Williams (Autor).

Primeiras reflexões

Problema:

Pesquisa:

P1: Quais as pesquisas nessa área já feitas por outros?

Base bíblica:

Incertezas:

1) Alguém já trilhou este caminho?

2) Vou encontrar material suficiente sobre isso?

Sobre o meu leitor ideal:

Avançando na construção do PPS, à medida que avanço na leitura do livro “A Arte da pesquisa”.

Assunto:

Perguntas

Tópico específico:

Organizando as respostas às perguntas que fiz:

Qual?

Quem?

O que?

Como?

Pergunta: E daí se eu não sei “como”?

O que estou fazendo?

1 — Qual é o assunto?

2 — Que evidências você tem?

3 — Por que você acha que sua evidência sustenta sua afirmação?

4 — Benefício:

1- Problema prático:

2- Pergunta de pesquisa:

3- Problema de pesquisa:

4- Resposta de Pesquisa:

5- Aplicação sobre o problema prático: (qual é o tipo de pesquisa que eu quero fazer? Bibliográfica)

6- Benefício da solução do problema prático:

Afirmação substantiva:

Evidências (a melhorar):

Fundamento:

Começar a escrever…

                                            Fábio Ribas

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