quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Introdução à Nova Ordem Mundial (XXXIX/2024)


O professor Alexandre Costa nos apresenta um livro que não apenas mostra os atores por trás de toda a discussão sobre a Nova Ordem Mundial, como também traz ao leitor uma obra de referência, exatamente porque consegue reunir todos os milhares de temas dispersos pelo universo da Internet sobre o assunto.

O autor inicia o seu livro mostrando os três grandes agentes dessa Nova Ordem Mundial: o comunismo, o islamismo e os globalistas, cujo alvo principal é derrubar a cultura judaico-cristã, porque eles só poderão iniciar uma nova sociedade retirando o cristianismo da mesa de jogo. Para mim, essa tese é muito coerente e sem grandes dificuldades de ser constatada na história recente da humanidade. Contudo, é na orquestração de uma sinfonia sob a batuta dos três, ou de um deles no controle majoritário dos planos, que começa a desconfiança nos leitores mais atentos (ou céticos). Não é difícil perceber que, vez ou outra, pontualmente, há alianças entre comunistas e islâmicos na história dos últimos anos. Assim como, por razões de poder e financeiras, notamos as alianças entre globalistas, que são os detentores das imensas fortunas, e islâmicos também. A questão é se os três, conjuntamente, ou um deles, ou ainda um quarto poder por trás dos três, poderiam, na verdade, receber a alcunha de “os donos do poder”. Quanto mais avançamos na leitura do livro, ainda que concordemos com os fatos ali narrados, é na hora de entrelaçar e de imaginar um Ditador único ou mesmo um grupo manipulador, ou até mais grupos agindo em favor ou uns contra os outros, e todos numa atuação global, que a tese, então, perde a sua força. Veja bem, a premissa é verdadeira: os três grupos apresentados querem tirar o cristianismo do jogo, porque é o obstáculo único que os impede de avançar uma agenda que vai contra tudo aquilo que se chama Deus. A conclusão é o que não encontra bom senso e o silogismo não funciona satisfatoriamente, talvez pelo excesso de atores e atuações que são dispostos sobre o palco.

O autor segue mostrando os prováveis grupos que seguram as cordas que movem o mundo. Desde as famílias mais ricas, como os Rockfellers e os Rothschild, passando pelas inúmeras sociedades secretas e outros grupos como a Society Fabian, Maçonaria, Illuminat da Baviera, Golden Dawn e Fundações, até explanar também o modo desses grupos agirem por meio de outros grupos e entidades como a ONU, o Foro de São Paulo, o Clube de Bilderberg, NASA, FEMA, etc. Enfim, como disse, está tudo no livro. Todos os personagens e grupos são descritos. A maioria dessas organizações e personagens já nos são conhecidos, mas o próprio autor, por mais de uma vez, diz que “sobre isso”, isto é, sobre o entretecimento de uma rede tão detalhada e extensa entre eles não se tem provas. Portanto, embora haja fatos, há também muita especulação. E não só isso, na hora de amarrar fatos e especulações sobre fatos, tentando enganchar uns nos outros, tudo se complica. Tudo se complica tanto, que, num determinado ponto do livro, o autor relembra a “navalha de Ockhan”, cuja tese defende que só a hipótese mais simples deve ser considerada. Evidentemente, ele precisa questionar esta “navalha”, pois ela não sustentará uma hipótese que amarra tudo o que já foi tratado no livro com ainda outros temas infindos como a Besta da Bélgica, lavagem cerebral, programa MK Ultra, HAARP e Chemtrails.

Aqui, quero repetir que, em certa medida, acredito em muitos fatos tratados pelo autor, pois são fatos! Os grupos existem, as pessoas também. Acredito em planos megalomaníacos, em projetos ocultistas para a derrubada do Cristianismo; creio mesmo em corporações e planos governamentais para a derrubada de desafetos e instalação de líderes bonecos nas mãos de seus Senhores etc. Porém, o que não posso acompanhar é a extensão da amarra de todos esses fatos como é proposto no livro. Em muitos momentos, o próprio autor compreende que é um terreno de muitas especulações, diversas suposições e poucas provas que liguem os elementos mais importantes uns aos outros. Inusitadamente, o oposto também se observa: parece existir uma quantidade enorme de situações divulgadas na mídia que revelariam o comprometimento de personalidades com tudo isso. Parece…

Há três questões que me incomodaram não apenas durante a leitura desse livro, mas em todas as discussões que tenho tido a oportunidade de assistir e participar, desde os áureos tempos do true outspeak do Professor Olavo de Carvalho.

Meu primeiro incômodo é que, embora os adeptos dessa visão sobre a Nova Ordem Mundial falem várias vezes em “nuvens de fumaça”, que desviariam a atenção do público daquilo que os “donos do mundo”, de fato, estariam tramando e fazendo, acredito eu que, da maneira que o tema tem sido apresentado por todos estes anos, são os adeptos dessas teorias conspiratórias os que mais fazem fumaça para nos desviar daquilo que realmente importa! O que eu quero dizer é que são tantos meandros, tantos desdobramentos, tantas teorias, tantos “pode ser”, “não sei”, “talvez” etc, que os que se embrenham por essas trilhas de pesquisa se amarram em redes que os impedem de discutir e agir da maneira que realmente se esperaria que um cristão tratasse de tais assuntos.

O segundo incômodo, que agora apresento como consequência do que eu acabei de dizer no parágrafo acima, é que essas teorias todas são defendidas por católicos e evangélicos, que, ao criarem um inimigo comum, deixam de tratar temas que seriam fundamentais entre eles. Tenho visto católicos tomarem posse do discurso neopentecostal, a ponto de dizerem que o que legitima o cristianismo é o milagre e não a verdade da Palavra de Deus! Evangélicos passam horas e horas em discussões sobre “realidades”, às quais pouco ou nada podem fazer — “só alertar” — é o que sempre dizem sobre essas conversas sem fim. Mas “só alertar” tem sido apenas trazer outros para uma armadilha alienadora do que realmente importa. Vejo católicos conversando com evangélicos (e outros que até se dizem protestantes) sobre a catequização dos povos bárbaros, o fim do paganismo pelo avanço evangelístico romano nos primeiros séculos, etc, etc e etc, sem que ninguém os confronte sobre os resultados desastrosos da entrada do paganismo dentro do romanismo. E o que parece calar uma discussão evangélica e protestante em determinados ambientes é essa nuvem de fumaça, que é o conjunto de teorias mirabolantes da Nova Ordem Mundial, fazendo com que os evangélicos e protestantes se distraiam acusando um inimigo comum, que, veja bem, pode até mesmo não ser nem metade do que se apregoa.

O terceiro incômodo é um desdobramento dos outros dois. No final do livro do professor Alexandre Costa, há uma indicação bibliográfica e, logo na primeira linha, aparece o livro “AA-1025 Memórias de um anti-apóstolo — Autor Desconhecido”. Sobre o que trata esse livro? Alega-se, pois nem se conhece o autor, que esse seria um ex-comunista entregando suas estratégias para minar a Igreja Católica por dentro. Mas o que, entre tantas coisas, ele fala? Que o objetivo era destruir o “marianismo” e a “intercessão dos santos”, fazer com que os fiéis desacreditassem das aparições de Maria e parassem de rezar o terço… Entendeu? Evangélicos e protestantes são trazidos a uma arena em que não é a Palavra de Deus sua única regra de fé e prática; uma arena em que há um inimigo comum, mas que é oculto; nessa arena, o que importa são os milagres e não a verdade da Palavra de Deus (e milagres a gente vê em todo lugar, não é mesmo? Até entre católicos e evangélicos também!); e, enfim, avançar contra as doutrinas romanas seria coisa de comunista ou, pelo menos, é dar ao inimigo a vantagem, já que o “nosso exército” se divide, caso pregássemos contra essa velha idolatria romana de sempre.

O que me surpreende nessa conversa toda é que, depois de horas e horas tentando dar nomes aos atores da Nova Ordem Mundial e armar um enredo em que todos possam participar dessa novela, é dito que não se pode mesmo fazer muita coisa. Então, responda-me: para que conhecer o bem e o mal, se abrimos mão da luta pela verdade bíblica? Que conhecimento é esse que lança uma nuvem de fumaça sobre verdades inegociáveis da Palavra de Deus? Por que pessoas se deixam levar por discursos que tanto as angustiam e as deixam vulneráveis não aos “donos do poder”, mas aos “Donos do conhecimento”? Sobre isso, basta você ver os comentários feitos, logo após a exposição de todas essas teorias nessas lives e palestras: “Meu Deus! O mundo vai acabar”, “Não vou ter filhos num mundo assim”, “o diabo está enganando todo mundo” etc. O que falta a essas pessoas que se dizem evangélicas e protestantes e que terminam se prendendo a coisas assim? Vou dizer, enfim, a minha opinião sobre isso.

1º) Sede de saber — a proposta continua a mesma desde o Éden. Um saber que lhe oferece o conhecimento do bem e do mal, mas fora da Palavra de Deus. E os seguidores que se dizem evangélicos e protestantes não percebem isso? Há o uso de uma linguagem gnóstica, porque o conhecimento é oferecido aos iniciados e, quanto mais passos são dados na direção desse conhecimento, mais conhecimento você terá. Esta é a promessa da serpente. Como toda seita, são oferecidas verdades, mas em meio a mentiras. Esta é a estratégia da seita: oferecer espinha de peixe enrolado em biju grosso. A cobeligerância entre protestantes, evangélicos e católicos jamais pode ser na área da tutela ou mentoria intelectual, pois isso também é jugo desigual. Podemos ler, estudar juntos, mas jamais nos submeter ao silêncio quando expostos às doutrinas antibíblicas.

2º) A Bíblia não é a única regra de fé e prática — há uma reedição teológica, mas que é comum no campo da esquerda e da direita políticas, em que é o meio que se impõe sobre a Bíblia e não o contrário. É uma teologia pragmática, que é a mesma usada pela TMI, TL e demais “evangelhos de justiça social”. Portanto, não é de se surpreender que nesses ambientes conspiratórios o milagre justifique o santo ao invés da Bíblia julgar o milagre. Não são apenas evangélicos e protestantes fracos teologicamente, que vemos cair na sedução desse gnosticismo romano, que, sem dúvida, em muitas frentes se vê envolvido por algum grau de ocultismo. Porém, independente dos que vemos caindo nessas ciladas, todos têm algo em comum: abraçam uma tradição filtrada por um revisionismo histórico romano (que não considero de todo equivocado) e abrem mão da Bíblia como única regra de fé e prática para suas vidas.

3º) Desconhecem as doutrinas basilares da fé Reformada e suas implicações, a saber, além da Sola Scriptura, a Soberania e Providência divinas; e a Primazia e Suficiência de Cristo — Não tenho dúvida que muitos dos que se dizem evangélicos e protestantes, desconhecem a Fé Reformada ou foram mal discipulados nela. Vemos cristãos abrindo mão da autoridade bíblica sobre suas vidas, ao mesmo tempo em que abraçam tradições abomináveis a Deus. É impossível não ouvir a voz de Paulo aos Gálatas, que também queriam associar outros conhecimentos ao conhecimento único do Evangelho que lhes fora apresentado: “Ó, Gálatas insensatos”! E o pior é que se conhecessem de fato as implicações da Soberania e Providência divinas não se lançavam em uma rede de especulações que em nada traz crescimento espiritual ou os torna mais parecidos com Cristo! Soubessem, de fato, da Primazia e da Suficiência de Cristo jamais aceitariam comer na mão de idólatras!

Conhecessem a Palavra de Deus, saberiam que Satanás é um cachorro na coleira de Deus e que “os donos do poder” fazem parte do Plano de Deus para entregar cada vez mais à mentira aqueles que se negaram a aceitar a verdade (II Tessalonicenses 2). Há muito que falar sobre este assunto e outros afins, mas abordarei mais adiante em outros livros. Por agora, encerro apenas retornando ao que fiz referência algumas vezes durante este texto: há uma nuvem de fumaça desviando a atenção de evangélicos e protestantes ao que, indubitavelmente, importa: “fazer discípulos de todas as nações”! Tenho visto jovens darem o melhor de suas energias às especulações levantadas pela Nova Ordem Mundial, contudo, a falta de uma boa teologia os faz se desviarem do que realmente importa. O meu desejo é que nossos jovens, tão inteligentes e sedentos de aprender mais, possam buscar o Senhor enquanto se pode achar (Isaías 55:6), que eles busquem o verdadeiro conhecimento, que se encontra somente em Jesus Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (I Cor 1:24).

                    Fábio Ribas

sábado, 14 de setembro de 2024

Noites Brancas (XXXVIII/2024)


Na ordem cronológica dos romances de Dostoiévski, este é seu quarto livro. Embora haja em pelo menos seus outros dois livros, “Gente Pobre” e “A Senhoria”, uma relação amorosa entre personagens, neste, “Noites Brancas”, é sua narrativa mais romântica. Ambientado, mais uma vez, em São Petersburgo, o título refere-se ao fenômeno de que, em algumas noites do ano, o sol não se põe completamente. Assim, é como se fosse um entardecer por toda noite, esta é a noite branca. O sol está lá em plena noite. Será que é esta a metáfora? Nosso personagem principal estava onde não deveria estar? Nosso personagem principal também não revela seu nome. Ele começa o livro tão feliz, radiante, cantarolando de tanta felicidade, mas essa felicidade não fecha seu ciclo.

A personagem principal é Nástienka. Assim, Nastassía apresenta-se a ele, usando um apelido, um diminutivo de seu nome que só deveria ser usado por pessoas muito íntimas. Isso revela como serão tempestuosas, apaixonadas e íntimas as quatro noites brancas em que os nossos dois personagens principais irão se encontrar. Mas, como eu disse, o ciclo não se fecha. Tenho certeza que o leitor antecede, suspeita, do que irá ocorrer no fim do livro. Um livro que tem um subtítulo revelador: “Das recordações de um sonhador”. Mais um personagem recluso, sem traquejo social, sem saber lidar com pessoas, sem maturidade relacional. Ordínov, de “A Senhoria” também era assim. Golyádkin, de “O Duplo”, também. Semelhantemente, Makar, de “Gente Pobre”, também apresenta dificuldade em relações interpessoais. São personagens sonhadores, mas que não conseguem realizar seus desejos no mundo real. Eles estão deslocados, inseguros e, com isso, frustram-se diante dos revezes que a vida oferece esmagando seus sonhos. Outra questão nestes livros, até aqui, que tem chamado a minha atenção é a diferença de idade nos personagens. Em “Noites Brancas”, ele tem 26 e ela 17. Em “Gente Pobre”, a diferença salta para 20 anos entre os personagens principais.

Se eu gostei de “Noites Brancas”? Muito! A vida é o que se apresenta. Não há o que fazer, muitas vezes. Não inocentes e nem culpados. Acredito que Dostoiévski escreveu uma história cuja metáfora seja o fenômeno da “Noite Branca”: o sol está lá e ponto! Ele não se põe e nem volta atrás. O sol está onde não deveria estar. Assim como nosso personagem sem nome, ele talvez não devesse estar naquela ponte quando conheceu Nástienka. Ela esperava por outro e não por ele. Ela sequer pergunta qual o nome dele…

                    Fábio Ribas

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

O caminho da servidão (XXXVII/2024)


“O que sempre fez do estado um verdadeiro inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso”. — F. Hoelderlin

Quando cedemos a que o estado planejador defina nossas decisões na área da economia, estamos dando a ele o espaço para que coloque tudo debaixo de uma planificação nacional coletivista. Se você perde a liberdade de escolha acerca do que comprar, como e onde, deixando que o estado decida o que é melhor para o “social”, ele vai decidir cada vez mais e eu e você cada vez menos. Não queremos dinheiro como um fim em si mesmo, mas queremos dinheiro PARA alguma coisa. “Para alguma coisa” é a nossa decisão e o estado jamais deveria intervir sobre isso.

Precisamos, de fato, salvaguardar a liberdade individual e também entender que a democracia não é um fim em si mesma. A democracia não é a prova de que, enquanto ela existe, estaríamos protegidos da ditadura. O que nos protege da ditadura são limites de poder. Até em democracias podemos viver sob a opressão de regimes ditatoriais. E nada mais certo do que isso, quando vemos o que estamos vivendo atualmente na história do Brasil. Quem limita o poder do judiciário? Nas palavras de Rui Barbosa, “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”.

O socialismo é o caminho da servidão, esta é a tese principal de Hayek em seu livro. Portanto, o que o autor nos mostra é que você não é feito escravo da noite para o dia. Há um caminho por que nós somos, passo a passo, levados ao abismo. Isto é o que se deu com a Itália, a Alemanha e a Rússia. O caminho não se dá politicamente, a princípio. É pela via econômica que o Estado vai conseguindo poderes cada vez mais invasivos na vida do cidadão comum, até que ele se imponha totalitariamente.

Enquanto lia o livro, eu tentava imaginar o que foi para ele ver, com a criação da ONU, Stalin sentar à mesa com os países livres. A presença de Stalin e, nos anos que se seguiram, dos demais dirigentes russos da antiga União da República Socialista Soviética foi a bancarrota do mundo livre e a condenação de vários países mundo afora. O uso da ONU para afundar a Coreia do Norte, a China, Cuba e tantos outros está muito bem documentado no livro “O comunista exposto”, de Cleon Skousen (veja aqui).

A fraternidade essencial e fundamental entre o marxismo, o nazismo e o fascismo está totalmente comprovada. As ideias socialistas estão carregando todos estes grupos para a formação de um Estado Totalitário. A Alemanha de Goethe e Humboldt sucumbiu às ideias socialistas e isso a levou ao regime totalitarista do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Mais um livro que eu leio no sentimento da raiva, por ver que tudo o que poderíamos ter evitado nos últimos 30 anos estava escrito ali, desde 1943. Ninguém leu Hayek aqui na terra brasilis?

Como que o totalitarismo chega ao poder por meio das ideias socialistas explica a tomada do poder por Hitler na Alemanha, pelo Duce na Itália, por Stalin na Rússia. Este mesmo engodo brasileiro que durante décadas nos enganou entre uma “direita”, o PSDB, que se digladiava com uma “esquerda”, o PT; ambos, contudo, farinhas do mesmo saco comunista. Ninguém havia lido Hayek no Brasil, para que, então, pudesse nos alertar? 

A suprema tragédia, ainda não percebida, está em que, na Alemanha, foram em grande parte pessoas de boa vontade, homens que eram admirados e tidos como exemplos nos países democráticos, os que prepararam o caminho para as forças que agora representam tudo o que detestam — se é que eles mesmos não as criaram.

O livro de Hayek é muito bem escrito, claro e repleto de argumentos e fatos. Hayek ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1974. Para Rothbard, isto foi uma surpresa, pois, segundo suas palavras:

“Não apenas porque todos os Prêmios Nobel anteriores em economia tenham ido para progressistas à esquerda e opositores do livre mercado, mas, também, porque eles foram uniformemente concedidos para economistas que têm transformado a disciplina em uma suposta “ciência” preenchida por um jargão matemático e “modelos” irrealistas que são então utilizados para criticar o sistema de livre empreendedorismo e tentar planejar a economia através de um governo central” (em “Hayek e o Prêmio Nobel”)”.

Quando nos vemos trilhando o caminho da servidão, para Hayek, é que teríamos esquecido o verdadeiro caminho, mas qual seria o caminho esquecido? Seria o caminho do individualismo? O do capitalismo? Não, para Hayek, o caminho esquecido e abandonado é o caminho que fez o enriquecimento da Civilização Ocidental. Mas o que nos fez enriquecer? O livre-comércio? Não! Foi a nossa ética, a nossa moral individual defendida de forma cristalizada na primeira emenda da Constituição Americana. A ironia, para mim, é que a maior defensora e até mesmo responsável pelo desenvolvimento da ética individual no mundo Ocidental é a Igreja Cristã, todavia, é a partir dela que mais temos visto uma oposição ao individualismo. A igreja cristã foi fartamente usada e abusada para defender e expandir as ideias socialistas em várias partes do mundo. Se o real problema do homem não é nada que venha de fora, mas está no seu coração, isto já deveria ser suficiente para vermos o individualismo e o coletivismo dentro de esferas mais justas. A verdade, porém, é que a mentalidade revolucionária é criativa e fortemente adaptativa (para saber mais sobre isso, leia aqui).

O Estado planejador opta sempre pelo utilitarismo em detrimento da ética. Em outras palavras, o Estado sacrificará os direitos humanos alegando que está agindo pelo bem comum. Mas a pergunta que eu tenho martelando na minha cabeça é: de onde vem as pessoas que compõem o estado? Um dos capítulos do livro tem como título a seguinte pergunta: “Por que os piores chegam ao poder?”. Acredito que há uma pá de gente mal-intencionada, com sede de poder, mas poder para controlar a vida alheia. Há muita gente assim no meio privado, que sacrificam a ética individual, assassinam a reputação de quem não come na tigela que eles servem e que destroem quem se coloca como pedra de tropeço aos seus planos imperialistas. Essas pessoas não estão apenas trabalhando para/no Governo, mas podem estar se beneficiando dele em alianças espúrias e duvidosas. Essas pessoas estão também na iniciativa privada, nas escolas, nas associações, nos condomínios, nas igrejas! Agora, se ocorresse, de fato, uma livre concorrência, essas pessoas seriam limitadas pelas regras do mercado ou, cedo ou tarde, até expurgadas de onde se encontram. O mesmo não ocorre no estado. E a história recente do Brasil é uma prova do que estou escrevendo. Por isso que essas pessoas correm para exercer o que elas são no estado, mas debaixo da proteção da estabilidade de concursos públicos. De modo algum, estou dizendo que no estado só há os piores, longe disso. Há também os de boa índole e também os alienados, que são aqueles que não se dão conta que trabalham para perpetuar um leviatã que nos consome a todos.

Quem não se lembra do “fiscal do Sarney”? O governo congelou os preços e motivou as donas de casa a irem fiscalizar os estabelecimentos. Assim, o que a história recente nos ensina é que é preciso apenas uma justificativa palatável. Quem nos fez fiscais do nosso próximo? Qual a ética e a moral que me permitem intervir no empreendimento alheio? Não há ética onde existe coletivismo. Ou você garante os direitos humanos ou você impõe um estado planejador. As duas coisas ao mesmo tempo é uma grande utopia. Essa grande utopia veio para o Brasil sob a roupagem do PSDB — o partido dessa falácia chamada “social democracia”.

O que mais assusta (ou desanima) na leitura do livro é que estava tudo lá desde a década de 1940 e, mesmo assim, caminhamos a passos largos nesse caminho da servidão até chegarmos na situação crítica em que nos encontramos hoje. Assim, se definirmos “Estado de Direito” como a existência de leis que ajam de maneira igual sobre todos igualmente e que não haja ninguém que seja beneficiado por essa lei — a lei é para ser aplicada por uma justiça cega sobre todos, concluiremos, horrorizados, que não há um Estado de Direito no Brasil! Conta a mitologia que Plutão, o deus das riquezas, fora privado da visão por Júpiter e, manipulado por intrigantes que se aproveitavam de sua cegueira, Plutão concedia riquezas a quem não era merecedor de tê-las…

Esta história fez-me pensar na Justiça, que cega, deveria usar sua espada imparcialmente sobre ricos e pobres, mulheres e homens, independente da raça, cor e credo. Todavia, como no Brasil, tudo se inverte, não estaria nossa justiça também em mãos de intrigantes e, à semelhança de Plutão, não estaria ela concedendo seus tão caros benefícios a quem indubitavelmente não merece, corrompendo a razão original de sua cegueira? É o fim da verdade. O estado planejador terá como objetivo, para sua própria sobrevivência, o fim da verdade. 

                Fábio Ribas

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

O comunista exposto (XXXVI/2024)


Ao terminar a leitura de “O comunista exposto”, de W. Cleon Skousen, Vide Editorial, senti-me muito mal. Senti-me esmagado por uma sensação muito ruim, não só porque o espírito que embalava o comunismo não morreu com a queda do Muro de Berlim e o fim da Cortina de Ferro, mas por constatar também que sua prática de falsa propaganda continua a mesma. Ainda que, nos últimos capítulos, o autor tenha roteirizado os passos que deveriam ser dados para que aquele sistema totalitário fosse impedido, ainda assim, o que lemos no livro é sobre um rolo compressor satânico. Mas, nessa história toda, há coisa pior, além da ignorância e estupidez de quem foi um idiota útil na sustentação dessa máquina assassina. Falarei sobre isso.

O livro possui 13 capítulos, além do prefácio, uma introdução e uma ótima conclusão para ser estudada em pequenos grupos, que são abordagens voltadas aos pais, jovens estudantes, professores e outros grupos. Há ainda uma seção sobre a trajetória de como se deu a construção do livro até sua primeira publicação. Na verdade, houve uma primeira edição privada, ainda em 1958. Depois, em 1961, sai uma nova edição em que se acrescenta “as 45 metas do comunismo”. A despeito do tempo decorrido dede suas primeiras publicações, em 2014, Dr. Ben Carson (cuja vida deu origem ao filme “Mãos talentosas”) declara que o livro parecia ter sido escrito ontem. De fato, a mentalidade e o espírito do comunismo estão presentes em nossa sociedade hoje. O sacrifício da lei e da ordem no cenário de nossas democracias é atualíssimo. Vivemos tempos sombrios e a nossa mídia afasta, cada vez mais, as pessoas da realidade, enquanto, concomitantemente, nosso cristianismo é novamente usado para condenar publicamente quem sequer ainda não teve amplo direito à defesa.

O livro tece sobre o surgimento do comunismo, seus fundadores e a atração que ele exerce nas pessoas. A biografia de Karl Marx é um escândalo, que, por si só, já deveria impedir de um cristão ter as palavras “cristianismo” e “marxismo” saindo da mesma boca. Os crimes desses personagens — Marx, Lênin, Trotsky, Stalin, Khrushchev, Fidel Castro, etc — estão todos relatados no livro: seus assassinatos, corrupções, mentiras e psicopatias transbordam das páginas que narram essas biografias. Todavia, nada disso foi a principal razão do meu mal estar ao terminar o livro, uma vez que não se poderia mesmo esperar nada de diferente do comunismo e suas falácias. O que causou-me tanto mal estar então? Vou citar as palavras do próprio autor ao iniciar o capítulo 12: “Neste estudo, não fizemos tentativa alguma de encobrir os erros cometidos pelos homens livres ao lidar com o comunismo no passado”. No momento em que eu li essas palavras, já era tarde demais. Eu já estava enojado com o “mundo livre” e sua cumplicidade e responsabilidade com o que foi o comunismo por toda face da terra. E não estamos falando de uma mera questão de gosto ou desejo de se identificar com um lado ou outro da política, estamos diante de uma máquina de extermínio que ceifou a vida de mais de 100 milhões de pessoas!

O comunismo não apenas é uma fraude filosófica, política e econômica, e o autor tratará de responder a cada uma das falácias marxistas nessas áreas, mas é uma engenharia desoladora, que cometeu o genocídio de milhões e milhões de pessoas inocentes! Ao ler o livro, portanto, vemos que, a cada passo dado por esse regime ditatorial, havia a omissão do chamado mundo livre. O livro não apenas expõe o comunista, mas também o homem livre que fecha seus olhos diante da realidade. Os erros cometidos pelo homem livre não se devem ao fato de não se conseguir adiantar e prever os movimentos do inimigo, mas à recusa de não dar ouvidos aos gritos insistentes dos inocentes. Houve incompetência sim! Não há dúvida. Houve incompetência e estupidez, mas houve coisa pior também por parte dos “homens livres”. Houve interesses escusos de se deixar sacrificar inocentes para se garantir uma estabilidade ou a manutenção de um status quo. Duas estratégias vitoriosas usadas pelo programa comunista foram o uso da falsa propaganda, fazendo com que, em muitos eventos no século XX, os comunistas fossem vistos como os democratas e libertadores da opressão, angariando com isso muitos simpatizantes e, como segunda estratégia, infiltrar espiões nos Governos, Diplomacias, Imprensa em geral e na classe artística, para que, na hora das grandes tomadas de decisão internacional, esses grupos fossem acionados para fazer com que as peças no tabuleiro se movessem a seu favor. Exemplo disso foi a União Soviética ter entrado na Organização das Nações Unidas, entidade criada para agregar os países amantes da liberdade. Não apenas a URSS entra na ONU, mas ela é membro fundador e ocupa a cadeira do Conselho Geral, ao lado dos Estados Unidos, França e Inglaterra. Esse Conselho toma decisões às quais os demais países são obrigados a acatar (obrigados numa organização criada para a liberdade?!). Não fosse isso suficiente, alguns anos mais tarde, depois de massacrar os nacionalistas chineses, que lutavam contra a comunização do seu país, assenta-se a República Popular da China nesse mesmo Conselho, representando mais um regime totalitário comunista na liderança da ONU. Assim, o autor vai mostrando como que os comunistas moveram a ONU para favorecê-los nas Guerras da China, Coréia e Indochina. Os diplomatas e a ONU chegaram a defender os ataques comunistas justificando que os vermelhos é que eram os libertadores democráticos, enquanto isso, os comunistas esmagavam os verdadeiros antifascistas.

Sob Khrushchev, a estratégia de dobrar os Estados Unidos e a ONU se fez ainda mais sagaz, ao ponto desse líder soviético ter feito uma visita à América e ao Presidente dos Estados Unidos, dando munição ao Partido Comunista naquele país! Da sua parte, Khrushchev conseguiu impedir que uma visita do Presidente americano fosse feita na URSS. E o pior, debaixo da mão de ferro de Khrushchev, se deu na revolução Húngara de 1956 um dos mais covardes atentados contra os direitos humanos. A situação da Hungria é uma das mais revoltantes, porque, mais uma vez, o chamado “mundo livre” fechou os olhos à destruição comunista ao país, enquanto o povo fazia apelos desesperados pelo rádio, sem entender como que os países capitalistas e livres deixavam os soviéticos, apoiados pela ONU, exterminarem o povo e tomarem de assalto o país. Entretanto, ainda como exemplo, o autor expõe toda ação da ONU, da Imprensa e da classe de artistas americanos que protegeu, divulgou, apoiou e levou ao poder um sanguinário psicopata como Fidel Castro ao poder! Em todos esses casos, quando esses líderes comunistas, uma vez no poder, instalavam suas ditaduras sanguinárias, o que se ouvia da parte da ONU, de diplomatas, da Imprensa e de artistas é que a ascensão desses líderes era algo “inevitável”! “Inevitável”?! Quanto asco me dá essa palavra, porque ela é a versão secular para “Deus quis assim”! E esse fatalismo de botequim, esse teologizismo de boteco, essa espiritualidade com falsas roupas de puritanismo, eu também tenho encontrado nestes anos todos de vida cristã. Um discurso religioso que coloca a responsabilidade de nossas ações na conta de uma soberania divina, que só é professada por esses quando o resultado de suas empreitadas se revela um enorme equívoco. É como se fosse a versão inversa do que nos ensinou Hannah Arendt — seria, então, uma “banalidade do bem”, em que essas pessoas abrem mão de julgar a si mesmas, colocando a responsabilidade moral de seus atos não mais no Estado, mas num deus culpado por levar as coisas ao ponto em que elas chegaram, a despeito dos crimes, erros e pecados individuais.

Portanto, todas essas coisas me fizeram muito mal durante a leitura desse livro. Elas me doeram a alma! Ainda que a Cortina de Ferro e o Muro de Berlim tenham ruído, mas das 45 metas comunistas para dominar os países livres, apenas uma delas não tinha sido ainda colocada em prática até 2014. Isso significa que o comunismo se reinventou e conseguiu avançar mundo afora, mesmo depois da queda da antiga URSS, vindo a se multiplicar e dominar a América Latina, por exemplo, pelo viés de eleições democráticas, como previa o próprio Karl Marx. Todas aquelas estratégias de domínio da imprensa, manipulação dos fatos, se vender como “democrático e livre”, como os “antifascistas” da história, tudo isso vemos ocorrer bem debaixo do nosso nariz, hoje em dia, no Brasil. A China foi perdida, a Coréia foi perdida, a Hungria e todos os demais países daquela época também. Ainda que a liberdade política tenha retornado a muitos desses lugares, o cativeiro marxista continua a enclausurar as mentes ao redor do mundo, pois é uma cosmovisão e não mais apenas um partido político ou um Governo. As estratégias continuam as mesmas: usar da propaganda de que os “fascistas” são os nacionalistas (que, na verdade, defendem seus países contra a desordem, a mentira e a corrupção dos comunistas), enquanto os "vermelhos" são vistos e defendidos pelas instituições difusoras de informação como “os heróis da liberdade”. 

            Fábio Ribas

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

A senhoria (XXXV/2024)


Ordínov, uma “criança” despertando para o mundo, mas que não discerne o mal, a manipulação alheia e nem seus próprios sentimentos e os dos outros. Ele está saindo de uma bolha e “nascendo” para o mundo a sua volta. Katierina, a “santa” profanada e profanadora. Uma jovem bela, mas atemorizante aos olhos apaixonados de Ordínov. Ela é submissa e controladora. Múrin, o “bruxo”. Certamente, a sombra do “velho bruxo” é que paira sobre os personagens de Ordínov e Katierina. Ele é a quem se refere o título do livro. Eis, portanto, os três personagens centrais da novela de Dostoiévski, “A senhoria”. 

Desta vez, quis dar uma descrição dos personagens principais, pois isso me ajudaria a falar de um texto tão denso, embora curto, que é este livro. Pensei também em começar já dizendo que gostei DEMAIS desta história. Há razões literárias, mas há também uma razão pessoal, para que eu goste tanto de uma novela que, na época de seu lançamento, foi tão criticada e mal recebida. Aliás, até agora, são três Dostoiévskis diferentes. “Gente pobre”, seu primeiro romance, caiu no gosto do público e da crítica por ser o que os russos estavam produzindo naquele momento, que eram os chamados romances de cunho social. “Gente pobre” é um romance epistolar, que me agradou muitíssimo. O segundo romance já foi muito mal visto pela crítica e pelo público, que foi “O duplo”. Contudo, eu amei! Um romance intrigante, fascinante e fantástico. Agora, “A senhoria” é um terceiro Dostoiévski, romântico, elaborado, rebuscado e profundamente mergulhado na psique confusa de seus personagens. Tanta gente critica este, mas, para mim, um dos melhores livros que já li. Por quê? Vamos lá!

Primeiramente, os personagens são muito bem construídos. A narrativa é sufocante e onírica. A história é contada em terceira pessoa, mas nos é dada apenas uma única perspectiva, que é a de Ordínov, sendo, então, uma narrativa de terceira pessoa cujo narrador é onisciente de um único personagem. Só os pensamentos dele nos são revelados, assim, os demais vão nos envolvendo numa imensa incógnita. E pior: será que o que recebemos de Ordínov é aquilo mesmo? Mas quem é Ordínov? Um personagem recluso por toda infância e adolescência e que, agora, sai do seu casulo estudantil e, portanto, conhece quase nada da vida e dos relacionamentos humanos. Por isso, a interpretação do personagem em relação ao que está acontecendo a sua volta pode estar equivocada. Mas como saber?

Depois, a jovem Katierina é ambígua e oscilante. Em determinado momento da leitura, eu pensei, “ela é louca”! Mas é nessa personagem que reside a razão pessoal para que eu tenha gostado tanto da história. Ela me lembra alguém. Toda aquela narrativa, todo aquele delírio, lembrou-me alguém do meu passado. Alguém com quem eu tive diálogos muito, mas muito parecidos mesmo com os que ela e Ordínov têm um com o outro. E a loucura e o sonhos, as alucinações, enfim, tudo o que não nos deixa discernir bem o que de fato ocorreu (quem matou quem? Quem é Múrin? Qual a natureza daquela relação? O que é verdade e o que é mentira ali? O que seria, talvez, apenas confusão de um jovem doente e imaturo emocionalmente?), tudo isso pode ser uma linguagem propositadamente oblíqua, velada, para se esconder um fato do qual não queremos enfrentar. Quando algo chocante ocorre, quando ultrapassamos os limites do “civilizado”, do aceitável, quando a loucura se instaura na vida real, tendemos a usar a linguagem como um instrumento de obliteração. Fugimos de “dar nomes aos bois”, uma vez que nomear é trazer à existência e trazer à tona pode ser doloroso e absurdo demais. Ninguém quer ver a própria feiura pecaminosa. E eu e essa pessoa de um passado longínquo tínhamos diálogos assim, exatamente por ser doloroso, tenebroso e terrível para ela tratar de seu trauma de maneira clara. Essa pessoa conversava comigo, contava sua história e o que ocorria, porém, sempre recorrendo a metáforas. E é isso o que vemos em Katierina. Mas, assim como essa pessoa, a personagem de Katierina é doente.

Múrin, no fim de tudo, é mesmo um bruxo. Um ilusionista das palavras, um manipulador de todas as pessoas a sua volta. E a pior coisa que pode acontecer com Ordínovs da vida (e com Katierinas também) é encontrarem com psicopatas assim. Os Múrins que nos assaltam são vampiros, monstros mesmo, que tiram toda nossa sanidade e, por fim, convencem suas vítimas de que a culpa é delas e elas são imperdoáveis pelos pecados que cometeram (e cometem). Katierinas e Ordínovs não sobrevivem diante de Múrins (“Filhinhos, guardai-vos dos ídolos”, I João 5:21). E o pior é sairmos sendo vistos como vilões (nós, os que fomos usados, sugados e cuspidos), enquanto nossos Múrins são aplaudidos pela sociedade.

Enfim, que livro! Que história! Que mergulho na natureza humana totalmente depravada. Leitura imprescindível!

            Fábio Ribas

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Breve Manual de Aconselhamento Redentivo (XXXIV/2024)

 


“O aconselhamento redentivo é um modelo de aconselhamento bíblico pressuposicional, tanto no sentido de resgate de ideias e teorias sobre a natureza, movimentos internos e comportamentos humanos quanto no sentido de aplicação da redenção a problemas internos e situacionais da pessoa. Isto é, sua validade depende de pressupostos anteriores revelados na Escritura bíblica” — Rev Wadislau Gomes.

No Brasil, finalmente, há um grande desafio posto à mesa: prepararmos a igreja para que nela sejam forjados cristãos conselheiros uns dos outros, que, nada mais é, do que empreendermos o plano bíblico da mutualidade do serviço cristão na área do amor ao próximo. Para que alcancemos esse propósito, porém, há um longo caminho a ser percorrido. Um caminho que, indubitavelmente, passa por um autoexame crítico que cada igreja local deverá fazer. Oque nossos púlpitos têm ensinado? O que temos oferecido em nossas igrejas como modelo de discipulado? Até onde temos ido e com qual propósito no preparo de nossas lideranças no que se refere ao desafio de cuidarmos uns dos outros?

Pensando “dentro de casa”, o modelo de governança presbiteriana têm seus aspectos positivos e negativos, assim como quaisquer um dos outros modelos de governo eclesiástico. Cada modelo oferecerá seus próprios desafios para cada contexto local e denominacional também. Porém, como já disse, quero me ater a minha própria casa. O modelo representativo democrático, assim como vemos que ocorre no modelo do Governo do Brasil, tende a “terceirizar” nossas responsabilidades. Portanto, isso é um problema cultural. O povo vê o Governo Brasileiro como responsável por tudo, até mesmo por suas próprias responsabilidades. O Estado deve cuidar da vida de cada cidadão garantindo a saúde, educação, segurança etc. Este traço cultural é um ranço trazido para dentro de nossas igrejas locais. A “obrigação” do pastoreio, do cuidado espiritual é compreendida como exclusividade dos pastores e, quando muito, dos presbíteros também, afinal, “eles foram eleitos para isso”. Assim, o primeiro grande desafio para a instauração de um novo paradigma é a quebra de um paradigma anterior. Somente uma nova cultura poderá tomar o espaço de outra. 

Afinal, quem cuida de quem? Se dissermos que “todos” cuidam de todos, sabemos que essa é uma resposta que nos levará a um resultado “zero”. Toda igreja local precisa enfrentar a questão de que, antes de tudo, falamos de realidades espirituais e que essas se manifestam na maturidade de cada um dos nossos irmãos. Daí, as perguntas no primeiro parágrafo deste texto. Vou acrescentar mais uma: o que seria uma “igreja conselheira”? Como nos instiga o Rev Jônatas Abdias: “Afinal, do que o conselheiro bíblico fala, senão daquilo que se encontra na Bíblia?”. Óbvio? Contudo, o que talvez não esteja tão claro é que o autor do “Breve manual de Aconselhamento Redentivo” está mostrando ao seu leitor é que o aconselhamento é uma questão espiritual e não meramente de “formação acadêmica” ou “conhecimento de conteúdo”. Uma vez compreendido isso, podemos retornar ao enfrentamento do que caracteriza uma igreja conselheira (uma cultura de aconselhamento local). E o que é? Maturidade espiritual! Em outras palavras, a igreja carece de homens e mulheres maduros na caminhada cristã. Este, enfim, é o maior desafio quando nos engajamos na cultura bíblica do aconselhamento. Precisamos orar para que Deus nos dê líderes e irmãos maduros na fé, com os quais enfrentaremos nossa cultura individualista, negligenciadora e terceirizada.

“Aconselhar é, muitas vezes, ajudar a pessoa aconselhada a enxergar a vida por outro ângulo. Não podemos atuar sobre os olhos da pessoa, mas podemos apontar para a perspectiva que muda tudo: a perspectiva divina revelada na Palavra. Usamos as nossas palavras para esclarecer a Palavra de Deus e, assim, apontamos para o Redentor — sendo que dele vem a solução tão desejada. É isto que nos faz redentivos: habitarmos juntos na mesma compreensão, na mesma perspectiva”.

O apelo do aconselhamento é, antes de tudo, pastoral, mas, certamente, apologético também. Pois, como bem nos lembra o Rev Abdias: “Aconselhamento não é só confrontação, mas devemos estar preparados para trazer todo pensamento cativo à Jesus”. O que eu acho mais fascinante neste desafio da implementação de uma cultura de aconselhamento em nossas igrejas locais é que isso exigirá um esforço de crescimento espiritual e — no meu entendimento — isto terá consequências no campo missionário. Já escrevi sobre isso e deixo aqui: “Aconselhamento Intercultural e a Missão da Igreja”.

De maneira muito prática e desafiadora, o Rev Abdias nos oferece 5 princípios para guiarmos nossa conversa com nosso aconselhado lembrando que “mudar não é fácil. E pode realmente ser doloroso o processo da mudança, mas, enquanto mudamos, Deus nos consola. E somos consolados para consolar”.

Resgatar nossas igrejas da mentalidade mundana de “cada um por si e Deus por todos” será doloroso, pois perceberemos que, assim como ocorre com muitos que buscam uma “faculdade de psicologia”, o interesse daquele membro da igreja pode ter começado apenas para “se entender” e “resolver os próprios problemas e traumas vividos”. Em outras palavras, no atual modismo de “aconselhamento”, vemos muitas pessoas em busca de se resolverem a si mesmas e quase sem interesse em relação ao outro, ao próximo, ao irmão na fé. São desafios que todos nós precisamos ter em mente, para que, de fato, possamos caminhar com o propósito de levarmos a todos nós — Corpo de Cristo — a uma compreensão bíblica e mais acertada sobre os propósitos de Deus para sua igreja local. Estamos aqui, plantados pelo Senhor, para glorificarmos a Ele em meio a um mundo perdido em trevas densas e escuras.

Enfim,

“Há um dom para ser conselheiro? Certamente, não. Até porque todos os cristãos são chamados para se aconselharem mutuamente. Todavia, não é por isso que faríamos o trabalho do Senhor relaxadamente. Precisamos usar nossos dons a serviço do aconselhamento”.

O capítulo mais importante deste breve livro, para mim, foi o último. Pois nele o autor confirma a razão por que encontrei no “Aconselhamento bíblico” a peça que faltava na missiologia de campo. O último capítulo é sobre “comunicação” e o cuidado que temos que ter na maneira como servimos ao aconselhado a Palavra de Deus. Afinal, o que queremos? Queremos ser açougueiros ou cozinheiros? Sempre levei essa questão para o campo, que é a que tange a “contextualização da nossa comunicação”. Calvino costumava trabalhar com a metáfora da “babá”, para mostrar como que o Deus eterno se aproxima do ser humano dando-nos a sua Palavra da mesma forma como uma babá se aproxima de uma criança. Deus decretou nos falar em nossos termos! O último capítulo do livro do Rev Jônatas Abdias é sobre isso. Certamente, levo este capítulo final como leitura obrigatória para oferecer aos meus alunos de comunicação intercultural.

Um livro precioso e de um tema fundamental para plantadores de igreja, uma vez que, como ouvi de alguém certa vez, aquilo que fizermos no processo de plantação de uma igreja será o que ficará no DNA dela. Assim, se queremos “igrejas conselheiras”, precisamos levar aos nossos missionários espalhados mundo afora a mensagem deste livro. 

                    Fábio Ribas


Para um maior aprofundamento sobre o tema do Aconselhamento, deixo abaixo minhas resenhas sobre:

1) Descrições e prescrições;

2) A culpa é do cérebro;

3) Uma nova visão;

4) Conversa cruzada.


 

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Aconselhamento Intercultural e a Missão da Igreja*



Tenho acompanhado o crescente interesse da Igreja Evangélica Brasileira quanto ao tema do Ministério de Aconselhamento. Isso é perceptível no número cada vez maior de obras traduzidas e publicadas oferecidas ao público brasileiro. Todavia, um amadurecimento e engajamento das igrejas locais numa “cultura de aconselhamento” ainda está muito longe de ocorrer. Ainda que, até mesmo, o “Aconselhamento” já esteja surgindo na grade curricular de alguns Seminários Teológicos, isso não significa que tenhamos um “Centro de Aconselhamento” a partir da difusão da filosofia bíblica do “uns aos outros” nos nossos púlpitos. Assim, esse quadro geral aponta muito mais para os atuais desafios do que para o que poderíamos ter de substancial em nossas igrejas.

Se o quadro geral revela o trabalho que temos adiante na formação de uma “Igreja cuidadora”, imagine o desafio ampliado para o campo missionário em meio aos mais diversos povos da terra. No trabalho missionário brasileiro presente nas mais diferente etnias, tanto no Brasil como no mundo, sabemos que a tendência dos missionários no campo é a de estarem sintonizados com aquilo que a Igreja enviadora está fazendo e pensando no âmbito local. Portanto, não podemos esperar que estejamos vendo coisa muito diferente sendo feita pelos missionários em seus campos de trabalho, quanto ao tema de Aconselhamento. Os desafios transculturais do Ministério de Aconselhamento também são enormes e apenas muito recentemente estão sendo pensados pela área da Missiologia.

Não podemos descartar a realidade complexa de um campo missionário, que sempre tende a multiplicar os desafios apresentados num contexto urbano ou mesmo rural, mesmo aqui em território nacional. Afirmo isso não só por saber que os contextos nacionais não são mais simples do que os trabalhos com diversas culturas, mas, pelo fato, muitas vezes, da liderança das igrejas no Brasil não perceberem a complexidade cultural que suas próprias congregações e obreiros têm enfrentado logo ali no “bairro adjacente”. O que eu quero dizer é que a complexidade cultural no Brasil também é um campo de grandes desafios para a Igreja Nacional, todavia, a formação teológica de nossas lideranças, em muitos Seminários, carece de ferramentas que ajudariam numa leitura e atuação mais precisas da realidade multicultural que cerca nossas igrejas locais.

Com os inúmeros processos migratórios que têm ocorrido nas últimas décadas, o Brasil têm recebido etnias das mais diferentes partes da terra. Soma-se a isso a presença já histórica dos imigrantes na composição de nosso caldo cultural. São japoneses, chineses, coreanos, árabes etc. Enfim, durante muito tempo, no Brasil, pensou-se “missões transculturais” como um movimento para fora de nossas fronteiras geográficas. Dentro de nossa Denominação — a IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil)-, isso se reflete na própria história recente dela. Antes do ano 2000, a IPB contava com a JMN (Junta de Missões Nacionais) e com a JME (Junta de Missões Estrangeiras) como suas frentes missionárias. Todavia, essa bifurcação representa uma filosofia de uma época que não olhava para a nossa realidade multicultural: os diversos povos que já se encontravam em solo brasileiro. Tendo a JMN atuando na plantação de Igrejas nos mais diversos municípios brasileiros, a JME, por sua vez, atuava em tudo aquilo que não fosse “Brasil”. O que uma estrutura assim representa? Que o entendimento do desafio transcultural era algo para missionários que saíssem ao estrangeiro! Mas e os povos residentes no Brasil? Quem trabalharia com eles? Culturas diversas que se encontravam nas grandes e nas pequenas cidades brasileiras, e que não eram levadas em conta nem pela JMN e nem pela JME, pois faltavam estratégias e formação específica necessárias. A criação da APMT, por volta do ano 2000, marca essa mudança de paradigma no entendimento missionário da própria IPB. Assim, seja fora ou seja dentro do Brasil, a nossa Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT) abraça todos os trabalhos de plantação de igreja no ambiente missionário.

Tudo o que relatei até aqui é apenas com o intuito de nos prepararmos para a dimensão da obra que aguarda o Ministério de Aconselhamento nas próximas décadas, pois temos conseguido ver que o mundo como um todo está cada vez mais interligado e sem fronteiras “intransponíveis”. A televisão e a internet estão dando a cada um de nós essa consciência global de que a casa da gente é bem maior que o bairro em que a minha residência está construída. Povos têm se encontrado uns com os outros e trocado informações, compartilhando sua visão de mundo numa velocidade e numa escala global nunca antes vista na história da humanidade. Assim, tudo isso trouxe à Igreja a compreensão de que vivemos em sociedades cada vez mais complexas e que, dessa maneira, os problemas transculturais e interculturais, narrados por missionários antes tão distantes e trabalhando em campos tão exóticos, hoje se apresentam a quaisquer igrejas locais onde estejamos nos reunindo no Brasil. Isso tem sido uma mudança drástica! Veja, a própria organização tradicional das sociedades internas em idade e gênero da IPB (UPH, SAF, UCP e UMP) está longe de ir ao encontro da nova realidade geracional que temos. Algumas igrejas locais têm tentado oferecer um novo ambiente para que nossas igrejas estejam mais coerentes com o que as famílias têm enfrentado nos tempos atuais. A estratégia dos “pequenos grupos” (PG’s), que tem a elasticidade de se apresentarem como “grupos de afinidade”, em que, ao invés do tradicional agrupamento por idade ou gênero, possibilita o encontro entre os sexos e a congregação entre pessoas que percebem ter mais pontos em comum e áreas de interesse semelhantes umas com as outras. Isto tudo facilita, indubitavelmente, o estudo e a aplicação da Palavra de Deus num recorte mais vívido e coerente. Se o recorte das gerações anteriores proporcionava agrupamentos mais gerais entre os membros de uma igreja local, atualmente, as tentativas são de pequenos grupos de interesses comuns. Contudo, isso é apenas um exemplo de como nossas igrejas são desafiadas pelo novo contexto que se aproxima delas e como elas têm respondido à geração a que fomos chamados para pregar. E não há como passar desapercebido que uma igreja local de pequenos grupos se torna muito mais propícia a desenvolver com maior sucesso uma filosofia de aconselhamento mútuo, pois as afinidades e interesses são mais comuns, aumentando a compreensão dos problemas que o outro está passando.

Se muitas igrejas locais ainda estão distantes de um modelo que atenda de alguma forma os desafios de comunhão e congregação da sociedade que a cerca, some a isso a realidade cultural complexa que hoje encontramos nos atuais centros urbanos (e certamente nas pequenas cidades do interior do Brasil também). Atente, neste momento da sua leitura, para o fato de que sequer ainda estou falando de outras etnias. Ainda não cheguei lá. Estou me referindo a uma complexidade outra — ainda não étnica — que vem de pequenos outros grupos que poderiam ser melhor alcançados por nossas igrejas. Estou me referindo aos grupos de motoqueiros, caminhoneiros, jovens jogadores de videogame, empresários de um mesmo ramo de negócios afim, comerciantes, professores de universidade etc. São categorias socioculturais! Agora sim, quero acrescentar mais um elemento: as diversas etnias presentes na cidade. Tudo isso nos dá, mais uma vez, o quadro geral enfrentado por nossas igrejas locais e que, dificilmente, vemos nossas lideranças preparadas adequadamente nos Seminários e institutos para darem conta desse caldo multicultural. Daí, mais acima, eu ter trazido à baila o fato incontestável de que os desafios missionários transculturais estão bem à porta de nossas igrejas, mas, infelizmente, a formação acadêmica de nossas lideranças ainda passa longe de ajudá-los no enfrentamento antropológico disso tudo.

Mas e o Aconselhamento? O Aconselhamento é um movimento recente de resgate de uma tarefa que foi terceirizada pela própria Igreja. E se, nos últimos anos, o Aconselhamento possui pelo menos algumas frentes de atuação já conflitantes entre si, o mesmo ocorre com “missões”. Na área do Aconselhamento, podemos identificar pelo menos três escolas e propostas diferentes: o integracionismo, o bíblico e o redentivo — todos se apresentando como cristãos. Interessante notar que o âmago daquilo que as separa é exatamente aquilo que diverge diversos missionários nas áreas de suas atuações antropológicas, a saber: a relação com a cultura. Abraçaremos a cultura sem restrições? Rejeitaremos a cultura por completo? Ou negociaremos com ela? E se negociarmos, quais os limites? Essas três perguntas resumem de maneira simples o que move o debate tanto na Missiologia como no Aconselhamento nas últimas décadas.

Semelhantemente às questões postas acima, vejo o Aconselhamento trilhando um caminho muito semelhante à missiologia, mas com o ponto positivo de dar uma resposta mais adequada, trazendo equilíbrio à antropologia missionária de campo. Refiro-me à tensão “coletivo-indivíduo”, que nas discussões missiológicas sempre tendem muito mais ao coletivo e quase mesmo ignorando o indivíduo. Tudo isso é fruto de uma base missiológica que se estabeleceu sobre as ciências humanas (antropologia, sociologia, filosofia etc). Infelizmente, essas ciências humanas são humanistas, antropocêntricas e marxicizadas em si mesmas, trazendo muito o viés de uma leitura sempre do todo, do grupo, da sociedade, da cultura. Mesmo a psicologia, que poderia tratar o indivíduo, trata-o, antes de tudo, de modo massificado e sempre como resultado de um grupo (do que outros fizeram com ele). Neste ponto, o Aconselhamento bíblico se mostra muito mais justo, pois, ao se posicionar contra a psicologização de nosso tempo, acaba por arrancar o indivíduo de suas interpretações massificantes e oferece uma leitura muito mais pessoal, humanizando-o a partir da sua “imago Dei” — nosso Criador nos chama pelo nosso nome! Por tudo isso, encontro no Aconselhamento, não só nos seus conceitos, mas também no seu método e em sua apologética, “Deus no cenário”, tratando o ser humano numa perspectiva muito melhor do que as ciências sociais têm oferecido no campo para tantos missionários. Enfim, se tivermos uma boa teologia reformada em mãos, que nos forneça uma antropologia bíblica, o aconselhamento fecha o conteúdo no ambiente em que o missionário se encontra, a saber, diante do outro, com quem ele se comunica, evangeliza e discipula. Acrescentaria aqui apenas mais uma disciplina, “a união com Cristo”, que se apresenta como a liga que dá a unidade e a direção a tudo o que podemos fazer no campo intercultural.

Há muito, eu venho comentando com meus alunos, nas diversas formações que dou aos missionários, sobre o que chamo de “culturolatria”. Tristemente, vemos no campo missionário uma ação muito mais engajada de “salvar” a cultura do que o anseio pelo compromisso de salvação das pessoas. Não somente no campo de uma teologia liberal, mas, até mesmo, numa seara que se diz conservadora, mas tem um projeto de cristandade, que se se origina no romanismo católico, e se revela em nosso meio protestante num discurso de “redimir a cultura”. Para mim, tudo isso é muito perigoso e desvia o foco da Missão que a Igreja recebeu de Jesus Cristo.

Acompanho alguns indígenas, aconselhando-os. No Brasil, o trabalho missionário com indígenas é um capítulo à parte, cercado de proibições e perseguições tanto da parte do Governo como de ONG’s e Universidades. Trabalhei num campo, por exemplo, em que os líderes indígenas eram direcionados para um tratamento com psicólogos, até que um deles me procurou falando que o psicólogo que trabalhava para a Missão Evangélica nesse atendimento estava colocando-os para duvidarem da própria fé cristã. É por essas e outras que sempre estive atento e buscando assumir esse cuidado, evitando, ao máximo, que isso não se repetisse. Contudo, é a falta de uma filosofia de Aconselhamento bíblico no campo missionário que continuará a levar isso adiante, até que possamos formar uma geração missionária com “uma nova visão”.

Quando falo em “culturolatria”, quero relatar um caso. Estava atendendo um casal de líderes indígenas de determinado povo, pois ambos vinham passando sérias dificuldades de relacionamento conjugal, até que houve um caso de adultério por parte do marido. Culturalmente, o acesso à voz da esposa era muito difícil, pois ele controlava todas as entrevistas. Pedi, então, que a minha esposa pudesse conversar, no intuito de que pudéssemos ouvir o coração dela e não apenas o marido o tempo todo falando. Sim, é uma cultura muito marcada pelo machismo. Na primeira entrevista, logo após o caso de adultério, os dois apareceram para conversar, mas, o meu desejo mesmo era ouvi-los em separado. Não esperava que a esposa estivesse junto, pois era o primeiro encontro após o adultério e eu precisava sondar mais e entender as raízes do coração que levaram o marido a isso. Houve esse primeiro encontro e, depois, conversando com um pastor indígena da mesma etnia desse casal, ele me disse que, culturalmente, ele via com muito gosto que ambos tivessem aparecido, pois, quando isso acontecia, era o homem dizendo que, a partir dali, ele diria só a verdade e não esconderia mais nada da sua esposa. Tudo bem. Alegrei-me com isso, mas, logo nas horas seguintes, ele foi atrás repetir o adultério. A verdade é que não sabemos ler nossa própria cultura, assim como o peixe não consegue ver que ele está preso dentro de um aquário. A cultura nos ajuda numa primeira leitura em que identificamos pontos de contato e pontos de divergência com o Evangelho, mas ela também é usada para esconder, escamotear e ocultar.

Embora eu esteja acompanhando alguns casais indígenas, acredito que o melhor a ser feito para a Igreja Indígena (e demais etnias no Brasil e no mundo) é preparar as próprias lideranças nativas, para que eles assumam o aconselhamento bíblico dos seus povos. Temos pastores, presbíteros e diáconos, mas não é só isso. Culturalmente, podemos nos beneficiar da característica dos povos orais, oriundos de uma cosmovisão animista, de serem eles muito mais recíprocos do que somos na nossa cultura. O que quero dizer é que há povos indígenas (e de outras culturas) que receberiam muito bem o Aconselhamento bíblico do leigo com o leigo. Há muitas “conversas com a intenção de ajudar”, mas elas precisam ser intencionais e bíblicas. Portanto, no meu caso, como missionário transcultural, a aplicação que melhor vejo é trabalhar na formação das lideranças étnicas e nas pessoas em geral das igrejas em que os nossos missionários estão envolvidos, para que eles possam desenvolver uma cultura de Aconselhamento bíblico e, assim, apoiá-los nesse desenvolvimento. Tenho tido oportunidades na formação de missionários brasileiros, indígenas e africanos, principalmente, e tenho compartilhado a importância de levarmos o Aconselhamento bíblico para as novas igrejas que têm sido plantadas nessas culturas. Assim, a minha melhor aplicação para a minha realidade missionária transcultural é semear nos cursos que ofereço e nas grades curriculares, quando sou chamado a participar das confecções de suas grades curriculares, a importância de formarmos conselheiros bíblicos que trabalhem em seus contextos culturais. Um desafio maravilhoso que pretendo dar seguimento. E sei que quaisquer missionários, onde estiverem, podem abençoar ainda mais o campo em que estão fazendo o mesmo.

                Fábio Ribas

*Publicado originalmente em 15 de junho de 2023

Eu hoje sonhei com mamãe...

  Desde a morte de mamãe, no dia 08 de março de 2024, sonhei apenas algumas vezes com ela. Poucas vezes, muito poucas vezes, mas sei todos o...